FARMACÊUTICOS E SUAS ATIVIDADES EM FARMÁCIAS COMUNITÁRIAS: UMA ANÁLISE DE PERFIL

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS FARMACÊUTICAS FARMACÊUTICOS E SUAS ATIVIDADES EM FARMÁCIAS COMUNITÁRIAS: UMA ANÁLISE DE PERFIL SARALY DOS SANTOS SOUZA NATAL 2012

2 SARALY DOS SANTOS SOUZA FARMACÊUTICOS E SUAS ATIVIDADES EM FARMÁCIAS COMUNITÁRIAS: UMA ANÁLISE DE PERFIL Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Ciências Farmacêuticas, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências Farmacêuticas. Orientadora: Profª Dra. Maria Cleide Ribeiro Dantas de Carvalho NATAL 2012

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4 Aos farmacêuticos, bravos profissionais que se superam e sobrevivem ao longo dos séculos.

5 AGRADECIMENTOS À minha orientadora, Profª Dra. Maria Cleide Ribeiro Dantas de Carvalho, pelos conselhos sempre úteis e precisos com que, sabiamente, orientou esta dissertação. À Coordenação da Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte pelo incentivo e confiança em meu talento. A meus pais e irmão pelo apoio incondicional em todas as horas. A Deus, meu fiel amigo e fonte de força.

6 Realize o seu sonho, você mesmo vai ter que fazer isso. Eu não posso acordar você. Você é quem pode se acordar. Por que nós estamos no mundo? Certamente não para viver com medo e dor. Nós todos brilhamos como a lua, as estrelas e o sol... (John Lennon)

7 RESUMO O objetivo do presente estudo foi estabelecer o perfil do farmacêutico responsável técnico por farmácias comunitárias da cidade de Natal/RN, caracterizando elementos pessoais, percepção do seu papel e da atenção farmacêutica realizada, níveis de satisfação profissional, tipo de serviços prestados e qualidade destes em âmbito humano e estrutural. Para tanto, foi feito um estudo transversal exploratório aplicando um questionário contendo perguntas abertas e fechadas, o qual foi aplicado aos farmacêuticos responsáveis técnicos por farmácias comunitárias em Natal/RN, no período de setembro de 2010 a setembro de A amostra foi estabelecida através do cálculo da amostra aleatória simples, com grau de confiança de 95% e nível de significância de 0,05. Para avaliar o nível de satisfação das atividades realizadas pelos farmacêuticos nas farmácias comunitárias foi usada a Escala de Satisfação Simples (LIKERT, 1935). Para avaliar as atitudes e percepções dos farmacêuticos com relação aos aspectos da atenção farmacêutica, foi utilizada o Modelo de Atitude em Relação ao Objeto (FISHBEIN; AJZEN, 1975). As respostas foram convertidas em dados analisados estatisticamente pelo programa Epi Info Os resultados mostraram que os pontos positivos e negativos em relação ao perfil do farmacêutico e suas atividades nas farmácias comunitárias de Natal/RN não são diferentes em relação a outras capitais do país. Os aspectos mais relevantes foram: em 51% (n = 90) dos estabelecimentos visitados o farmacêutico estava ausente; 46% (n = 80) não possuem pós-graduação e dos que a fazem ou a concluíram, 33% (n = 51) são na área das Análises Clínicas; 56% (n = 98) trabalham 08h/dia e 64% (n = 111) afirmam que esta carga horária influencia no seu desempenho; 83% (n = 146) recebem como salário, o piso farmacêutico referente ao estado do Rio Grande do Norte; 44% (n = 76) estão insatisfeitos quanto ao salário, sendo esta a maior dificuldade citada; 78% (n = 136) afirmam serem sempre procurados pelos usuários sendo a receptividade destes considerada boa (52%, n = 91). As atividades de maior satisfação são aquelas ligadas à atenção farmacêutica e as de menor, as administrativas. Quanto às atitudes e percepções, o escore mais negativo foi para a pergunta se o farmacêutico se sente trabalhando em equipe com o médico, em que 59% (n= 103) responderam nunca. 49% (n = 86) relataram estarem aptos a tirarem as dúvidas dos usuários; 39% (n = 68) encontram-se insatisfeitos em relação à estrutura da farmácia para o exercício da atenção farmacêutica. São necessárias ações sobre os entraves ao exercício da

8 profissão farmacêutica na solução e minimização dos pontos negativos e estímulo aos positivos. Palavras-chaves: Farmacêutico. Farmácias comunitárias. Atenção farmacêutica.

9 ABSTRACT The aim of this study was to establish the profile of the pharmacist technician responsible for community pharmacies in the city of Natal/RN, featuring personal elements, perceived their role and place of pharmaceutical care, levels of job satisfaction, type and quality of services provided in human and structural framework. To that end, we made an exploratory cross-sectional study applying a questionnaire containing open and closed questions, which was applied to pharmaceutical technicians responsible for community pharmacies in Natal/RN, from September 2010 to September The sample was established by calculating the simple random sample, with a confidence level of 95% and a significance level of To evaluate the satisfaction level of the activities performed by pharmacists in community pharmacies was used Simple Satisfaction Scale (Likert, 1935). To assess the attitudes and perceptions of pharmacists in relation to aspects of pharmaceutical care, we used the Model Attitude toward the object (Fishbein, Ajzen, 1975). The answers were converted into data were analyzed statistically using Epi Info The results showed that the strengths and weaknesses in relation to the profile of the pharmacist and their activities in community pharmacies in Natal/RN are not different in other cities in the country. The most important aspects were: 51% (n = 90) of the establishments visited, the pharmacist was absent; 46% (n = 80) did not have postgraduate and of those who are or have completed 33% (n = 51) are in the area of Clinical Analysis; 56% (n = 98) 08h for day work and 64% (n = 111) claim that this load influence its performance; 83% (n = 146) receive as salary, the floor pharmacist regarding the state of Rio Grande do Norte; 44% (n = 76) are unhappy about the salary, which is the main difficulty cited; 78% (n = 136) say they are always sought by users and the receptivity of these considered good (52%, n = 91). The activities of higher satisfaction are those related to pharmaceutical care and lower the administrative. As regards attitudes and perceptions, the score was more negative to the question 'if the pharmacist feels working as a team with the doctor', in which 59% (n = 103) responded 'never'. 49% (n = 86) reported being "able" to take questions from users and 39% (n = 68) are 'dissatisfied' with respect to the structure of the practice of pharmacy to pharmaceutical care. Action is needed on the obstacles to the exercise of the pharmacist in the solution and minimize the negative and positive stimulus to.

10 Keywords: Pharmaceutical. Community pharmacies. Pharmaceutical care.

11 LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO 1 Atividades em que o farmacêutico dedica mais tempo GRÁFICO 2 Principais dúvidas dos usuários GRÁFICO 3 Estratégias usadas pelos farmacêuticos fazerem suas atualizações/estudos... 51

12 LISTA DE FIGURAS FIGURA 1 Regiões Administrativas / Áreas de Fiscalização do CRF/RN... 26

13 LISTA DE TABELAS TABELA 1 TABELA 2 TABELA 3 TABELA 4 TABELA 5 TABELA 6 TABELA 7 TABELA 8 TABELA 9 TABELA 10 TABELA 11 Distribuição de estabelecimentos farmacêuticos por área metropolitana de fiscalização, CRF/RN, set. 2010, e amostra a ser pesquisada... Dados pessoais e profissionais dos farmacêuticos comunitários, em Natal/RN, , (n=175)... Dados relacionados às atividades desenvolvidas na farmácia, pelos farmacêuticos comunitários, em Natal/RN, , (n=175)... Demonstrativo da relação habitante/farmácia nas áreas de fiscalização do CRF/RN, Natal/RN, Atividades realizadas pelos farmacêuticos nas farmácias comunitárias, Natal/RN, , (n = 175)... Nível de satisfação nas atividades realizadas pelos farmacêuticos nas farmácias comunitárias, Natal/RN, Atitudes e percepções dos farmacêuticos com relação aos aspectos da atenção farmacêutica, Natal/RN, , (n=175)... Dificuldades encontradas para o farmacêutico exercer suas atividades em farmácias comunitárias, Natal/RN, , (n=175)... Nível de aptidão dos farmacêuticos para tirar dúvidas dos usuários em farmácias comunitárias, Natal/RN, , (n=175)... Local em que o farmacêutico orienta o usuário em farmácias comunitárias, Natal/RN, , (n=175)... Nível de satisfação dos farmacêuticos quanto à estrutura física das farmácias comunitárias, Natal/RN, ) (n=175)

14 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO REVISÃO DA LITERATURA Evolução da Profissão Farmacêutica: auge, problemática e renovação... Farmácias Comunitárias: o reencontro da profissão farmacêutica Farmácias Comunitárias em Alguns Países Farmácias Comunitárias no Brasil MÉTODOS Coleta de Dados Amostra Áreas de Fiscalização do CRF/RN / Regiões Administrativas Cálculo da Amostra Avaliação dos Dados RESULTADOS E DISCUSSÃO Dados Pessoais e Profissionais Dados Relacionados às Atividades na Farmácia Dados Relacionados à Orientação ao Usuário Dados Relacionados à Estrutura da Farmácia CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Farmacêutico Instituições de Ensino Fiscalização Proprietários de Farmácias... 57

15 6.5 Usuários de Medicamentos REFERÊNCIAS APÊNDICE A QUESTIONÁRIO APÊNDICE B TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE) APÊNDICE C ARTIGO... 71

16 1 INTRODUÇÃO Em 1997, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceu que "a missão da prática farmacêutica é prover medicamentos e outros produtos e serviços e auxiliar as pessoas e a sociedade a utilizá-los da melhor forma possível" (OMS; OPAS, 1997). Posteriormente, em 2006, a mesma OMS publicou um manual como referência para a reorientação da educação e da prática farmacêutica e a incorporação da atenção farmacêutica nesta prática (OMS; FIP, 2006). O cerne da profissão farmacêutica é o medicamento e com este a atenção à saúde da população seja em âmbito hospitalar, industrial, laboratorial, ensino e pesquisa, público ou privado. A discussão sobre a importância de se acrescentar a este processo farmácias e drogarias, transformando-as não em meros estabelecimentos comerciais e sim em órgãos de saúde, no mundo e no Brasil é de longa data promovendo a necessidade de regulamentações específicas e, não raro, conflitos de interesse dos mais diversos (SILVANA; FERREIRA; RIBEIRO, 2008). São nas farmácias e drogarias onde, provavelmente, a população terá o último contato com um profissional de saúde (ZUBIOLI, 1996a) e é neste momento de grande importância que a atuação do farmacêutico, promovendo o uso racional de medicamentos e fazendo uso das boas práticas farmacêuticas, se faz necessária. A união de mudanças da legislação, reafirmação do profissional farmacêutico e maior cobrança da população, têm provocado em muitos destes estabelecimentos, a necessidade de incluir serviços de atuação clínica farmacêutica como diferencial competitivo no enfrentamento da concorrência de grandes redes do varejo farmacêutico (SCHROEDER et al., 2009). Neste contexto, surge um novo conceito de farmácias e drogarias: as farmácias comunitárias. Estas são caracterizadas como estabelecimentos farmacêuticos de propriedade privada, os quais atendem diretamente o paciente na dispensação de medicamentos industrializados, em suas embalagens originais, os quais não estão inseridos em hospitais, unidades de saúde ou equivalente (BARETA, 2003). Estas farmácias não manipulam medicamentos e o atendimento ao paciente acontece em nível de atenção primária à saúde, com a responsabilidade técnica, legal e privativa,

17 de farmacêutico. O fato de serem comunitárias está ligado ao atendimento a pessoas que vivem e/ou trabalham em locais próximos a estas farmácias. Mesmo não havendo esta territorialidade, o compartilhamento de ações entre o estabelecimento, principalmente no papel do farmacêutico, caracteriza a relação de comunidade. Mas como cobrar do farmacêutico um posicionamento não-mercantilista e de desvalor de sua profissão se não conhecemos este profissional? Quem são esses farmacêuticos? O que pensam? Como reagem aos problemas de sua formação e atuação profissionais? Quais problemas enfrentam? Qual sua satisfação? Os órgãos fiscalizadores possuem números, mas e a identidade destes profissionais? Saber das respostas para estas perguntas (inicialmente) e tentar, a partir daí, traçar um perfil desse profissional foi a inspiração para esta pesquisa que tem como objetivo principal conhecer o profissional farmacêutico responsável técnico pelas farmácias comunitárias de Natal/RN, caracterizando elementos pessoais, percepção do seu papel e da atenção farmacêutica, níveis de satisfação profissional, tipo de serviços prestados e a qualidade destes em âmbito humano e estrutural. Essa avaliação servirá como um verdadeiro mapeamento no que diz respeito ao trabalho, de que maneira eles o exercem, suas perspectivas e o impacto de suas ações sobre a população que procura a farmácia e precisa obter dela serviços farmacêuticos de qualidade e, acima de tudo, um profissional farmacêutico de qualidade. Os resultados obtidos nesta pesquisa poderão servir como base para ações dos órgãos competentes locais para melhoria das farmácias comunitárias da cidade e dos profissionais farmacêuticos que nelas trabalham.

18 2 REVISÃO DA LITERATURA 2.1 EVOLUÇÃO DA PROFISSÃO FARMACÊUTICA: AUGE, PROBLEMÁTICA E RENOVAÇÃO A profissão farmacêutica encontra-se em um momento de ascensão e profundas transformações no mundo e no Brasil. Transformações estas relacionadas, dentre outras, à integração do farmacêutico nas equipes de saúde (tornando a multidisciplinaridade um aliado aos pacientes para obtenção de melhorias na saúde e sucesso terapêutico) e reconhecimento da sociedade sobre o papel deste profissional. A história da Farmácia e, por conseguinte, do farmacêutico vem passando por evoluções, quedas e novamente, na atualidade, por restabelecimento. Esta história passa pelos primórdios da antiguidade clássica. Neste período, houve as primeiras divisões nas ocupações nas áreas de saúde entre os pharmakopoloi (gregos) e pharmacopoli (romanos), que lidavam com medicamentos, dos médicos iatros (DIAS, 2009). No início do século XX surgiram os boticários (profissional de saúde que manipulava medicamentos e mais acessível à população) chegando, após a revolução industrial, com a instalação dos grandes conglomerados farmacêuticos tornando os medicamentos como uma importante fatia da economia mundial (DIAS, 2009). Em meados dos anos 70, veio o advento das chamadas farmácias (que comercializam tanto medicamentos magistrais quanto os industrializados) e drogarias (que só podem comercializar medicamentos industrializados) com caráter estritamente mercantilista, sobretudo no Brasil, havendo perda da identidade profissional dos farmacêuticos que começaram a se afastar de sua área de atuação milenar, o medicamento. Esse distanciamento se inicia nos próprios cursos de Farmácia onde os estudantes passam a optar por outras áreas da profissão. Segundo Haddad et al. (2006) em 1973, 97% dos estudantes de Farmácia do país haviam optado pela área de análises clínicas. Com os profissionais farmacêuticos se afastando das farmácias e drogarias, entraram em seu lugar os balconistas (confundidos muitas vezes com farmacêuticos por boa parte da população) e proprietários, em sua maioria leigos, após o advento da Lei (BRASIL, 1973). Ações ilegais e de assédio moral começaram a fazer parte

19 do dia a dia da profissão farmacêutica, degradando o profissional e deixando a população a mercê de atitudes inescrupulosas sobre o seu bem mais importante: a saúde, além do acesso a serviços de saúde de qualidade (CARLINI, 1996). Dentre uma das inúmeras ações ilegais que fazem parte deste contexto, temse a empurroterapia, constituindo-se em uma prática irregular em que balconistas oferecem e indicam medicamentos para ganhar comissão e premiação dos seus fabricantes (CARLINI, 1996). Há também acordos antiéticos entre os proprietários de farmácias/drogarias e farmacêuticos que assinam a responsabilidade técnica do estabelecimento, mas não estão presentes e recebem valores salariais abaixo do piso, desvalorizando a categoria. Em relação ao assédio moral, encontram-se, por exemplo, a ameaça de demissão por não cumprir metas de vendas, o não-cumprimento às leis trabalhistas, os desvios de funções (farmacêutico confundido com gerente, balconista, administrador), a exigência de exclusividade não podendo trabalhar em outras farmácias, entre outras. Com os crescentes casos de intoxicações por medicamentos, atitudes mercantilistas inescrupulosas, falsificações de medicamentos e preços abusivos praticados pela indústria farmacêutica, na década de 90, a Organização Mundial da Saúde (OMS) através do documento The Role of The Pharmacist in The Health Care System (1997), define o perfil do farmacêutico apontando-o como um profissional necessário ao tratamento farmacológico para obtenção de resultados favoráveis a melhoria da qualidade de vida dos pacientes. Então, definiu-se Atenção Farmacêutica que envolve macrocomponentes como a educação em saúde, orientação farmacêutica, dispensação, atendimento farmacêutico e seguimento farmacoterapêutico, além do registro sistemático das atividades, mensuração e avaliação dos resultados (IVAMA, 2002). Neste novo contexto no qual o farmacêutico se insere, torna-se imprescindível uma atitude de re-profissionalização, tanto no papel de dispensador de medicamentos quanto no das análises clínicas. Surgem diversas ramificações muito mais complexas e importantes exigindo qualificações constantes, atenção as suas responsabilidades legais e éticas, além de uma postura mais presente em conjunto com outros profissionais de saúde, com entidades públicas e privadas e à população em geral.

20 2.2 FARMÁCIAS COMUNITÁRIAS: O REENCONTRO DA PROFISSÃO FARMACÊUTICA As drogarias e farmácias como modelos meramente mercantilistas, vem sendo gradativamente combatidas pelos profissionais farmacêuticos atualizados e realmente comprometidos com sua profissão e com a saúde, pelos órgãos de fiscalização (nacionais e internacionais) e pelo reconhecimento e exigência da população preocupada e cada vez menos leiga em quesitos de saúde. A farmácia é por sua natureza um centro prestador do serviço público onde há, além da distribuição de medicamentos, atenção à saúde da população (SANTOS, 1998b). Segundo Ferraes e Cordoni Junior (2011) há concordância de alguns autores sobre a importância de se integrar a Farmácia ao Sistema Sanitário, na tentativa de contribuir na atenção primária à saúde, através da participação em programas de prevenção e promoção da saúde (MOTA et al., 2000; SANTOS, 1998a; ZUBIOLI, 1996b). O futuro da profissão farmacêutica talvez esteja na prestação de serviços, na resolução de problemas com os medicamentos e no desenvolvimento da atenção farmacêutica (IVAMA, 2002). Se quisermos uma farmácia de interesse social e não somente um comércio com altos lucros, torna-se claro que o próprio farmacêutico tem uma grande tarefa devendo fazer parte de todo o processo de assistência à saúde (FERRAES; CORDONI JUNIOR, 2011). As farmácias comunitárias encaixam-se neste contexto. Atividades voltadas ao medicamento, assistência e atenção farmacêuticas estão em voga e são uns dos importantes focos de ações de saúde no país, como já citadas anteriormente. Porém as ações esbarram nos interesses mercantilistas de alguns destes estabelecimentos e, muitas vezes, são menosprezadas ou mesmo impedidas de serem realizadas. Isso gera motivo de preocupação porque são nas farmácias e drogarias onde ocorre o último contato do paciente com um profissional de saúde e com o medicamento o que poderá lhe trazer um uso racional deste ou não (ZUBIOLI, 1996a). São nas farmácias comunitárias o local do primeiro emprego de cerca de 70% dos farmacêuticos brasileiros e onde eles obtêm o aprendizado na prática que as instituições de ensino superior não o fazem por inteiro (BRANDÃO, 2009). Isto é um

21 dado relevante trazendo o questionamento sobre o nível de atuação destes farmacêuticos. As novas e muitas exigências que recaem sobre os farmacêuticos que atuam nas farmácias comunitárias estão construindo um novo paradigma para a profissão estruturado na super-qualificação e no conhecimento. 2.3 FARMÁCIAS COMUNITÁRIAS EM ALGUNS PAÍSES Em outros países, a farmácia comunitária tem as seguintes características: A Índia tem um setor de rápido crescimento da indústria farmacêutica e uma necessidade de farmacêuticos bem preparados. O fornecimento de medicamentos à população é realizada por farmácias comunitárias de propriedade privada e às vezes também por farmácias hospitalares. Os farmacêuticos comunitários estão envolvidos apenas na distribuição de medicamentos. No entanto, eles têm oportunidade de melhorar a saúde da população, particularmente da seção desfavorecidas da sociedade que não têm os recursos para visitar clínicas). No entanto, barreiras importantes para a prestação de assistência farmacêutica existe, incluindo a falta de educação adequada e de formação de farmacêuticos, fraca implementação das leis existentes, e falta de reconhecimento da farmácia como profissão pelo outros profissionais de saúde (BASAK; VAN MIL; SATHYANARAYANA, 2009). Na União Européia, a farmácia obedece ao conceito de farmácia única integrando medicamentos industrializados e manipulados, suplementos alimentares e fitoterápicos. A prática da Atenção Farmacêutica vem sendo implantada gradualmente. A propriedade exclusiva pelos farmacêuticos destas farmácias varia entre os países, mas se mantêm em sua maioria (ANFARMAG, 2009). Na Espanha, todas as farmácias em atividade possuem apenas uma pessoa para atendimento ao público, o farmacêutico, e somente podem funcionar com a presença deste (FONSECA, 2011). Na Dinamarca, as farmácias comunitárias são de propriedade privativa do farmacêutico e as autoridades sanitárias regulam o número de farmácias. Dados de 2007 demonstraram que a Dinamarca possuía 01 farmácia para cada habitantes. Muitas farmácias oferecem serviços clínicos como medição de glicose, da

22 pressão arterial e colesterol e inalação, no entanto, alguns serviços são reembolsáveis (HERBORG; SORENSEN; FROKJAER, 2007). Na Inglaterra, as farmácias comunitárias tem sido organizadas pelo governo para contribuírem com a atenção primária e pública de saúde. A prioridade é integrar serviços nas farmácias a programas de saúde, principalmente através do fortalecimento de informações tecnológicas e disposições contratuais (NOYCE, 2007). Nos Estados Unidos da América, a dispensação de medicamentos continua a ser o foco principal, mas a incidência de pacientes que estão sendo aconselhados sobre medicamentos parece estar aumentando. Mais de 25% dos proprietários de farmácias comunitárias relatam serviços de cuidados clínicos, tais como aconselhamento de medicamentos e gerenciamento de doenças crônicas. A maioria dos programas de seguro pagam farmacêuticos apenas para dispensar serviços, ainda há um número crescente de iniciativas públicas e privadas que reembolsam os farmacêuticos para os serviços cognitivos. Reembolso por serviços cognitivos continua a ser pouco frequente, mas é uma atividade crescente (CHRISTENSEN; FARRIS, 2006). No Canadá, o papel do farmacêutico na assistência ao paciente continua em grande expansão em farmácias comunitárias, no entanto, os obstáculos à prestação da assistência farmacêutica ainda existem, incluindo a atual escassez de farmacêuticos e a falta de sistemas de reembolso por serviços realizados (JONES; MACKINNON; TSUYUKI, 2005). No Japão o sistema de saúde deve ser submetido a reformas para resolver os problemas relacionados com a taxa de natalidade e as necessidades de uma população em envelhecimento. Embora os farmacêuticos japoneses não sejam totalmente capazes de fornecer assistência farmacêutica nesta fase, eles vão desempenhar um papel crucial para garantir uma sociedade saudável de envelhecimento no futuro, particularmente no ambiente comunitário (YAMAMURA et al., 2006).

23 2.4 FARMÁCIAS COMUNITÁRIAS NO BRASIL No Brasil, a farmácia comunitária é o segmento profissional que reúne o maior número de farmacêuticos: aproximadamente 60% de todos profissionais registrados nos Conselhos Regionais de Farmácia (SBFC, 2012). Entretanto, este segmento é talvez o que recebe a menor remuneração salarial, oferece menos perspectivas de crescimento e, assim, detém o maior índice de insatisfação profissional. Segundo o Conselho Federal de Farmácia em seu último relatório de atividades dos Conselhos Regionais de Farmácia (divulgado em dezembro de 2010), existem estabelecimentos farmacêuticos no país, com a proporção de um estabelecimento para cada grupo de 3,2 mil pessoas, o que demonstra um número excessivo de farmácias no Brasil. A situação atual das farmácias comunitárias no Brasil é de transformação. Os problemas são muitos, mas aponta-se um combate a eles. As ações clínicas na farmácia, antes restritas ao âmbito hospitalar, com o surgimento da atenção farmacêutica, expandem-se gradativamente para as farmácias comunitárias (MOREIRA, 2011). Estas são incentivadas pelo novo engajamento dos profissionais farmacêuticos ancorados pelas instituições legais, modificações nas legislações e conscientização e cobrança da população. No Brasil, as farmácias e drogarias ainda estão distanciadas do seu papel sanitário. A dispensação de medicamentos nem sempre é entendida como processo de assistência à saúde; há insuficiência de orientação farmacêutica no momento da dispensação de medicamentos, tanto em estabelecimentos privados como nos públicos; e o profissional farmacêutico poucas vezes está presente nas farmácias para prestar adequadas informações e orientações (ROMANO-LIEBER; CUNHA; RIBEIRO, 2008). Além disso, o farmacêutico não tem atuação destacada no acompanhamento da utilização de medicamentos, na prevenção e promoção da saúde e é pouco reconhecido como profissional de saúde tanto pela sociedade quanto pela equipe de saúde (IVAMA, 2002). De maneira geral, o principal serviço prestado nas farmácias e drogarias é a dispensação de medicamentos e a qualidade dessa prática pode ser considerada abaixo do padrão, uma vez que os farmacêuticos frequentemente estão ausentes da farmácia (CASTRO; CORRER, 2007).

24 A revalorização do profissional farmacêutico e seu posicionamento diante de suas funções e importância no processo geral de saúde vêm sido enfatizadas e impulsionadas por mudanças que abrangem desde o ensino farmacêutico nas Universidades até mudanças importantes nas legislações e programas do Governo Federal. As Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Farmácia, aprovadas em 2002, abandonando os modelos tecnicistas e voltando-se para uma formação mais generalista, humanística e crítica, contribuiu, dessa forma, para a concepção de profissionais mais aptos a lidar com os desafios que o contexto atual exige (BRASIL, 2002). O advento da Política Nacional de Medicamentos em 1998, dos medicamentos genéricos em 1999, (Lei 9.787/99), a criação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados SNGPC (RDC 27/07), a Resolução que dispõe sobre as Boas Práticas Farmacêuticas (RDC 44/09), a criação dos NASF - Núcleos de Apoio à Saúde da Família e a e inclusão dos farmacêuticos nesses núcleos (RDC 154/08), de projetos como Programa de Farmácias Notificadoras e Projeto de Fracionamento de Medicamentos, lançados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), além de outros, tem contribuído, sobremaneira, para a revalorização do profissional farmacêutico (BRASIL, 1998, 1999, 2007, 2008, 2009). A criação em abril de 2009 da Sociedade Brasileira de Farmácia Comunitária (SBFC), o curso de Assistência Farmacêutica na Farmácia Comunitária realizado pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) em várias capitais do Brasil, o aumento do número de fiscalizações (pelas Visas e Conselhos regional e federal) a fim de se verificar a qualidade dos serviços prestados e direitos dos farmacêuticos prestados e campanhas de conscientização da população sobre uso racional de medicamentos, sinalizam novos tempos para as farmácias comunitárias e de sua importância como centro propagador e extensor de saúde e não somente comerciais. Resta ao farmacêutico buscar meios para se manter atualizado técnica e cientificamente, atuar na comunidade, unir-se aos colegas de profissão e às equipes de saúde multidisciplinares. A valorização do profissional parte do princípio da valorização pessoal.

25 3 MÉTODOS A pesquisa constituiu-se de um estudo transversal exploratório realizado no período de setembro de 2010 a setembro de 2011, em Natal/RN. O Conselho de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Onofre Lopes (CEP-HUOL) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), autorizou a pesquisa (protocolo CEP-HUOL 417/10). O termo farmácia comunitária deve ser entendido segundo a definição de Bareta (2003, p. 105) como [...] estabelecimentos farmacêuticos de propriedade privada, os quais atendem diretamente o paciente na dispensação de medicamentos industrializados, em suas embalagens originais, os quais não estão inseridos em hospitais, unidades de saúde ou equivalente. Estas farmácias não manipulam medicamentos e o atendimento ao paciente acontece ao nível de atenção primária à saúde, com a responsabilidade técnica, legal e privativa, de farmacêutico (BARETA, 2003, p. 105). Portanto, neste trabalho, o termo farmácia comunitária exclui tanto as farmácias de manipulação como as farmácias públicas (pertencentes aos programas do governo), referindo-se tão somente às farmácias ditas comerciais ou drogarias. Denominou-se farmácia ao longo de todo trabalho para simplificação. e usuários no lugar de pacientes (mais adequado para unidades hospitalares) ou clientes (muito comercial). 3.1 COLETA DE DADOS A coleta de dados foi realizada por meio de um questionário (APÊNDICE A), o qual foi aplicado aos farmacêuticos responsáveis técnicos por farmácias comunitárias em Natal/RN, devidamente registrados no Conselho Regional de Farmácia do Rio Grande do Norte (CRF/RN), que se dispuseram a respondê-lo. O questionário foi

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