CENÁRIO DAS RESIDÊNCIAS TERAPÊUTICAS NO MUNICÍPIO DE MARINGÁ-PR

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1 CENÁRIO DAS RESIDÊNCIAS TERAPÊUTICAS NO MUNICÍPIO DE MARINGÁ-PR Aparecida Moreno Panhossi da Silva 1 A construção da Reforma Psiquiátrica representa um movimento em busca de uma prática de assistencia ao portador de transtorno mental diferenciada da até então vivenciada, prática esta onde se observa um tratamento centrado no isolamento do usuário em hospital psiquiátrico e na figura do médico. Assim, nas últimas décadas esse movimento vem possibilitando mudanças e transformações no campo assistencial com a criação de novos serviços de saúde mental e o incentivo a rede básica para ações inclusivas em relação ao portador de transtornos mentais e seus familiares, mas não podemos deixar de citar as dificuldades observadas em relação a rede básica de saúde assumir o portador de transtorno mental como integrante de seu território e necessitado como qualquer outro usuário dos cuidados com a saúde em geral; no campo conceitual observamos ainda que timidamente a introdução de outras formas de assistir o portador de transtorno mental e no campo cultural a mudança se reflete na participação de novos atores e de novos lugares até então não acessíveis aos portadores de transtornos mentais. Todo esse caminhar do movimento da reforma psiquiatrica só avança se considerarmos a organização de uma rede integrada de assistencia aos portadores de transtornos mentais e seus familiares, estando incluso os principios e diretrizes da Reforma Sanitária que envolvem a universalidade, integralidade, descentralização e participação popular. Os serviços de saúde mental na rede pública de saúde tem vivenciado, desta forma, importantes momentos de transição para se adequar ao modelo de atendimento extra-hospitalar em substituição a atenção centrada em hospitais psiquiátricos. Neste sentido, alguns profissionais da rede pública municipal de Maringá estimulados pela Política Nacional de Saúde Mental e considerando o disposto na Lei n.º de abril de 2001, propõem ao gestor 1 Psicóloga: Especialista em Psicologia Clinica e em Saúde Mental. Diretora do Centro Integrado de Saúde Mental/Centro de Atenção Psicossocial II CAPS Canção e Residências Terapêuticas. Secretaria Municipal de Saúde/Prefeitura do Município de Maringá

2 municipal a formação de uma comissão para avaliar as dificuldades em relação a assistência oferecida aos portadores de transtornos mentais do município e elaborar a Proposta de Reestruturação da assistencia em saúde mental até então oferecida. Fizeram parte dessa comissão profissionais de diversas categorias e membros da Associação Maringaense de Saúde Mental, entidade não governamental composta de portadores de transtornos mentais, familiares e profissionais da saúde. O município de Maringá, até 2001 contava em relação à assitência em saúde mental com um quadro composto de: profissionais psicólogos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), um hospital psiquiátrico privado com 364 leitos psiquiátricos credenciados ao Sistema Único de Saúde que não tendo área de abrangência definida, recebia usuários de todo Paraná e também de outros estados e o município contava ainda com um ambulatório de saúde mental, o Centro Integrado de Saúde Mental (CISAM) responsável pela assistência secundária em saúde mental. A proposta elaborada a partir dos estudos da comissão citada anteriormente previa: treinamento da rede básica para acompanhamento dos usuários egressos do hospital psiquiátrico e a implantação de serviços extra-hospitalares como os Centros de Atenção Psicossocial, Emergência Psiquiátrica e Residências Terapêuticas. Após aprovação no Conselho Municipal de Saúde o município implantou: em 2002 o CAPSad (Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas); em 2003 a Emergência Psiquiátrica Pública Municipal com 06 leitos para internação até 72 horas e 10 leitos para internação até 15 dias, conforme Lei Estadual n.º 11189/95 onde determina que todo hospital geral público construído após 1995, deve destinar até 10% de seus leitos para internação de usuários portadores de transtornos mentais; em 2004 foi implantado o CAPS II Canção (Centro de Atenção Psicossocial II Canção), em 2006 foi implantada a Residência Terapêutica Girassol e em 2008 foi implantada a Residência Terapêutica Ingá. O município tem previsto no Plano Municipal de Saúde a implantação de um CAPSi (já em construção) e outra Residência Terapêutica II ainda em Muitas dificuldades foram enfrentadas para a implantação destes equipamentos de saúde mental, desde forças contrárias à reforma psiquiátrica até a qualificação e envolvimento de profissionais de saúde, que demonstravam dificuldades em assumir esta nova forma de interação com os

3 portadores de transtornos mentais mais graves. É importante lembrar que para a efetividade deste modelo a caminho da reforma psiquiátrica é imprescindível observar algumas diretrizes como o acolhimento, o vínculo, a responsabilização, a resolutividade e a automização; estas diretrizes deveriam estar incluídas na formação de todos os profissionais de saúde para que além do conhecimento técnico, o profissional desenvolva a responsabilização pelo cuidado ao usuário e a capacidade de trabalhar a automia do portador de transtorno mental e família para uma vida mais digna e saudável. Tendo até então explanado de forma resumida a formação da rede pública de Saúde Mental do município de Maringá e algumas dificuldades em relação a assistência ao portador de transtorno mental, passaremos a focar nossa atenção em questões que perpassam o cotidiano de uma Residência Terapêutica (RT). Em Maringá a primeira Residência Terapêutica foi implantada em 01 de agosto de 2006; 06 meses antes a equipe do CAPS II Canção, manteve contato diário com os cinco portadores de transtornos mentais, todos do sexo masculino, com idade entre 45 a 65 anos, com diagnóstico de esquizofrenia, todos com tempo de internação superior a 10 anos, que estavam em alta hospitalar, recebendo-os para o trabalho de readaptação fora do hospital. Com 10 anos de isolamento e sob os cuidados da equipe hospitalar, a equipe se deparou com pessoas totalmente dependentes, com histórias de vidas não ouvidas ou valorizadas, com pessoas que foram abandonadas pelos seus familiares, com questões sérias de saúde não avaliadas ou cuidadas e com outras questões que deixavam claro o abandono; muitos profissionais do setor de saúde da Secretaria de Saúde de Maringá, não diretamente ligadas aos serviços especializados e membros da Associação Maringaense de Saúde Mental, assim outros atores da sociedade maringaense se emocionaram com tal situação, mas poucos se envolveram com o cuidado necessário que estes usuários demandam, cuidados que vão além do possibilitado na formação acadêmica de profissionais de saúde; que requer responsabilização e escuta qualificada. A equipe do CAPS II Canção iniciou um processo de reeducação com os futuros moradores da RT, ensinando noções básicas de convivência social tais como o cuidado com a higiene; de como atravessar a rua; o valor do dinheiro; a fazer compras; vestir-se; o respeito ao próximo; assim como atividades ocupacionais simples.

4 O cotidiano de uma residência terapêutica deve contar com estratégias que permitam aos futuros moradores estabelecerem vínculos de confiança entre si, com os profissionais e com a proposta de reinserção social, para isso faz-se necessário o resgate do histórico de vida, de vínculos afetivos, de projetos interrompidos pelo longo período de internação e outros. O processo de reabilitação psicossocial a que se propõe este serviço é longo e não fica restrito a alimentação e a administração de medicamentos (BRASIL, 2004). Outra dificuldade enfrentada é o temor da periculosidade do portador de transtorno mental, fundamentado em preconceitos já cristalizados na sociedade. No nosso caso os vizinhos da casa alugada para a implantação da primeira RT, mesmo após reuniões para explicar a proposta, encaminharam um abaixo assinado ao prefeito para impedir a implantação do serviço, alegavam ser o local escolhido uma região nobre, e uma casa para moradia de portadores de transtornos mentais deveria ser afastada para que seus filhos pudessem continuar a brincar com tranquilidade na rua sem o risco de serem agredidas pelos nossos usuários. O preconceito e a discriminação ali declarados faziam jus a um processo judicial se o gestor assim decidisse. Vencida esta etapa, já que o prefeito e o secretário de saúde não cederam aos apelos do abaixo assinado, a RT foi implantada conforme previsto, inclusive observamos que estes conflitos vivenciados com a vizinhança não ocorreram na implantação do segundo serviço em 2008, a residência terapêutica Ingá, que foi instalada na mesma rua; acreditamos que nestes dois anos desde a implantação da primeira residência os moradores da rua perceberam que esses novos vizinhos não representam um rísco maior do que qualquer outra pessoa. As dificuldades vivenciadas quando da implantação de uma RT, não estão exclusivamente relacionadas com a população leiga, quando se trata de assistir, acolher, enfim de assumir integralmente usuários portadores de transtornos mentais que demandam cuidados intensivos, com monitoramento técnico diário, as intercorrencias acontecem também com a equipe que os assiste. Inicialmente os cinco moradores portadores de transtornos mentais, freqüentavam o CAPS II Canção em dias úteis, sendo acompanhados pela equipe do serviço e pelo cuidador da RT, tendo cada usuário um projeto terapêutico individualizado. Cada residência terapêutica conta com quatro cuidadores, profissionais auxiliares de enfermagem, que permanecem

5 conforme escala de plantão no período diurno e noturno ininterruptamente. Atualmente estando os cuidadores mais capacitados com este cuidar, os dez moradores das residências terapêuticas passaram a frequentar o CAPS II Canção por três vezes na semana, estando envolvidos em outras atividades domiciliares e sociais nos outros dias. As residências terapêuticas de Maringá, mantém uma estrutura física como qualquer casa e como em qualquer lar recém construido apresentam características ímpares. Por vezes nos deparamos com tentativas de mudanças na forma de organização do cotidiano da RT, mudanças estas não só sugeridas pelo cuidador, mas também por outras pessoas que visitam os moradores das residências terapêuticas e que não conseguem deixar de lado suas próprias expectativas e anseios do que deveria ser uma casa ideal para eles. O trabalho do cuidador envolve além da administração de medicação, o permitir que aflorem hábitos e formas de ocupar o espaço próprio dos moradores portadores de transtornos mentais de uma RT, respeitadas normas e regras que possibilitem uma boa convivência. O cuidador deve intermediar e trabalhar a necessidade da responsabilidade de cada morador, onde a realização de tarefas diárias deve ser fruto de constantes negociações entre necessidade, capacidade, vontade expressa e disponibilidade do usuário, questões que fazem parte do processo de reabilitação psicossocial. A moradia não deve ser local específico de tratamento, pois este trabalho deve ser realizado no serviço de saúde mental de referência as residências terapêuticas, em Maringá este acompanhamento é realizado no CAPS II Canção. O cuidador de uma RT deve dosar sempre o quanto o cuidado deverá ser oferecido, para que assim possa auxiliar na aquisição de autonomia do morador portador de transtorno mental e sempre contar com a negociação constante. Este cuidar requer dos profissionais envolver-se com a realização de atividades que vão além do aprendido em sua formação acadêmica como auxiliar nas compras; na administração do próprio dinheiro; coordenar e por vezes auxiliar nas tarefas domésticas, mas não fazer as tarefas que podem ser assumidas pelos moradores portadores de transtornos mentais. Ainda hoje, dentre os cuidadores das residências terapêuticas de Maringá, observa-se posturas não facilitadoras de autonomia, pois acabam assumindo tarefas como por exemplo lavar a louça, arrumar armários e outras atividades que o morador é capaz de realizar, e esta atitude acaba por nâo

6 estimular a responsabilidade dos moradores portadores de transtornos mentais em se organizarem. Assim, estamos constantemente mostrando ao profissional cuidador que sua atuação vai além do cuidado com as intercorrências psíquicas e que apesar das limitações dos moradores das residências terapêuticas os mesmos conseguem uma convivência mais saudável participando das atividades junto ao cuidador. Esta experiência com RT no município de Maringá, tem nos indicado que o portador de transtorno mental, isolado por tanto tempo é submetido a uma total dependência em todos os sentidos, e assim como as crianças onde as novidades despertam o desejo na participação e no fazer, com o passar do tempo, se não encontram pessoas que os estimulem, que negociem, passam a querer o que lhes proporcione somente o prazer sem envolvimento e responsabilidade. Nas Residências Terapêuticas Girassol e Ingá, os usuários foram trabalhados para que se responsabilizem pela higiene pessoal, pelo cuidado com suas roupas íntimas, pelos afazeres domésticos nos períodos em que estão em casa e outras atividades rotineiras, observa-se que os mesmos conseguem realizar tarefas simples, desde que sejam estimulados sobre a importância deste cuidar de si e de sua própria casa. No período decorrente da implantação das Residências Terapêuticas, é possível afirmar que são inúmeras as dificuldades produzidas pelo isolamento em hospitais psiquiátricos e o tratamento centrado apenas na patologia. De forma geral, as dificuldades vivenciadas podem ser minimizadas através de mudanças na maneira de realizar a assistência em saúde mental e para isso o envolvimento requer mudanças desde a formação dos profissionais da área da saúde em geral, passando pela estruturação de uma rede de serviços de saúde mental preparada para tais práticas, como também por mudanças na forma de interação da sociedade em relação ao portador de transtorno mental. A necessidade de novas modalidades de assistência foram imcorporadas pelo Ministério da Saúde que definiu e regulamentou o funcionamento e o financiamento de outras modalidades de assistência, diferentes das tradicionais internações e consultas ambulatoriais, mas as dificuldades enfrentadas no desenvolvimento de ações nestes serviços são reais e merecem uma discussão mais aprofundada. Observamos que os obstáculos vão sendo resolvidos no dia a dia de cada serviço e assim, temos construido esta nova forma de lidar com as questões de reinserção psicossocial relacionada aos

7 portadores de transtornos mentais. Por outro lado, é possível constatar significativos avanços em nossa experiência no município de Maringá, nossos usuários demonstram um crescimento em seus atos, atitudes com ações simples de autonomia como a realização de compras em mercado, açougue e no comércio central sem necessidade de acompanhamento; participação em cursos de alfabetização ligado à Secretaria de Educação; participação no Projeto Girassol e Projeto Pescando Mentes, projetos estes de geração de trabalho e renda de responsabilidade da Associação Maringaense de Saúde Mental; de preparo e organização das refeições; estabelecimento de laços sociais e afetivos como namoro, integração, expressão das emoções, aquisição de novos amigos, e outras ações significativas para reinserção social proposta na implantação e manutenção de uma Residência Terapêutica, claro que nem todos conseguiram avanços significativos, temos desde o usuário que requer um monitoramento mais intensivo, até aquele que já deixou a RT para assumir sua vida, sendo acompanhado só pelo serviço de referência, o CAPS II Canção. Consideramos que com a reestruturação do serviço de saúde mental de Maringá, alguns degraus foram galgados como delimitação da área de abrangência para internação psiquiátrica em três Regionais de Saúde (11ª/Campo Mourão e região; 13ª/Cianorte e região; 15ª/Maringá e região); controle da porta de entrada para internação no hospital psiquiátrico; redução dos leitos/sus do hospital psiquiátrico privado de 364 para 240 leitos/sus; redução no número de usuários com histórico de longa internação (01 ano ou mais) no Hospital Psiquiatrico de Maringá de 65 moradores em 2002 para 24 em final de 2009; normatização do sistema de referência e contra referência entre Unidades Básica de Saúde/Programa Saúde da Família e serviços como CISAM, CAPS II Canção, CAPSad e Emergência Psiquiátrica; a adesão do município de Maringá conforme Lei n.º de 31 de Julho de 2003 ao Programa de Volta para Casa, que se destina à assistência, acompanhamento e integração social de portadores de transtornos mentais egressos de longa internação em hospitais ou unidades psiquiátricas, tendo o município conseguido a inclusão de 05 usuários. Conclui-se que os serviços de saúde mental implantados no setor público municipal de Maringá, tendo aqui o enfoque nas Residências Terapêuticas, estão em processo de transição em direção e com sentido à reabilitação psicossocial, que tem por base as práticas

8 sugeridas pelo movimento da Reforma Psiquiátrica. Palavras-chave: Desinstitucionalização, serviços de saúde, saúde pública.

9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério da Saúde. Lei n.º De 06 de abril de Diário Oficial (da) República Federativa do Brasil, Brasília DF.. Residências Terapêuticas: o que são, para que servem/ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Brasília: Ministério da Saúde, PARANÁ. Assembléia Legislativa. Lei n.º 11189, Dispõe sobre condições para internações em hospitais psiquiátricos e estabelecimentos similares de cidadãos com transtornos mentais, Poder Executivo. Diário Oficial (do) Estado do Paraná, Curitiba, 10 nov p. 76.

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