AUTONOMIA DOS ALUNOS AO DESENVOLVER UM TRABALHO SOBRE SEXUALIDADE

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1 AUTONOMIA DOS ALUNOS AO DESENVOLVER UM TRABALHO SOBRE SEXUALIDADE Thaiane Pimenta (Centro Pedagógico Bolsista Prograd-UFMG) Elaine França (Centro Pedagógico da UFMG) INTRODUÇÃO A escola desempenha um papel importante na formação do indivíduo, que vai além de conteúdos didáticos e alfabetização. Esse papel circunda esferas como o desenvolvimento moral e a autonomia. O presente trabalho pretende analisar estudantes do sexto ano do Ensino Fundamental no que diz respeito ao desenvolvimento da autonomia, tendo como pano de fundo as aulas ministradas por uma estudante de graduação, como tema Orientação sexual e as relações interpessoais entre os sujeitos que aprendem. A autonomia é repetidamente citada como objetivo na formação do educando, juntamente com a necessidade de que ele também seja crítico, cooperativo e um cidadão responsável (ROSSETTO, 2005). Além disso, segundo Marta Jesus, O tema da autonomia também tem sido estimulado pelas políticas públicas educacionais do Brasil, nos níveis macro e micro dos sistemas de ensino, através da reforma educativa iniciada nos anos noventa. Esse conceito, a nosso ver, pouco a pouco passou a fazer parte de forma incisiva do vocabulário dos professores do Ensino Fundamental, passando a ser objeto de desejo da escola e do professor (JESUS, GT 13). Piaget, 1930 dizia ser a autonomia um fim da educação, porém frequentemente se vê docentes que, além de não incentivarem o seu desenvolvimento, o impedem. Isso se dá porque geralmente enxergam o processo como independente e individual, não conseguindo inserir essas ideias em um grupo ou aplicá-las em sala de aula. É então de importânica fundamental que se haja

2 clareza por parte dos docentes, no sentido de que se trabalhe a educação visando este propósito. Ao visitar o estudo de Dias e Vasconcellos (1999), Pereira (2006) explica A maioria dos educadores concebia autonomia como um processo individualizado que leva as crianças desenvolverem a capacidade de agir por conta própria. Após a intervenção houve uma mudança de concepção: os professores passaram de uma concepção individualista para uma concepção mais coletivista, valorizando as interações sociais para a aquisição da autonomia (Pereira, 2006). Desde a implantação do modelo de Escola Nova, essa temática é abordada. Para Jean Jacques Rousseau, mais vale ao homem a posse de sua liberdade do que a autoridade sobre os outros (ROSSETO, 2005). Ele postulou que se deveria deixar a criança crescer livre para sua natureza sadia se manifestar. (ROSSETO, 2005). Tal reflexão está diretamente ligada com o sentido de autonomia conotado pelo presente trabalho, pois foram as aulas ministradas a fim de dar a liberdade necessária aos alunos para que ela fosse usada como ferramenta e assim se alcançar a autonomia. A sexualidade é ainda um assunto tabu entre os jovens e suas famílias, principalmente. A partir de observações feitas nesse sentido, umaa das autoras decidiu ministrar suas aulas seguindo essa temática. Segundo Ribeiro Costa e Souza (2003) Foi somente na última década do século XX que a educação sexual foi instituída através de políticas educacionais normatizadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) do Ministério da Educação e do Deporto, através do tema transversal Orientação Sexual (Brasil, 1998). A Orientação Sexual, como um mecanismo de regulamentação da sexualidade, aparece na justificativa dos PCN, através de estratégias dos campos da saúde e da biologia, para prevenir e controlar as DST, a contaminação por HIV, o abuso sexual e a gravidez indesejada.

3 METODOLOGIA O trabalho foi desenvolvido em duas turmas, de alunos com idades entre 11 e 12 anos, cursando o sexto ano do Ensino Fundamental. Essas turmas foram formadas a partir de uma reorganização das três turmas de 6º anos da escola. Duas vezes por semana a escola promove um trabalho denomidado Grupo de Estudo Diferenciado (GTD). Neste GTD, uma aluno da graduação assume as aulas com turmas menores para desenvovler um trabalho sob a orientação de um professor da escola. Este tipo de trabalho dá a chance de um licenciando atuar como professor fora das disciplinas de estágios, desenvolvendo um trabalho também mais autônomo para sua própria formação. A turma 1 tinha 14 alunos e os encontros foram realizados durante o 4º módulo de aula da 2ª feira. E a turma 2 19 alunos e os encontros foram realizados no 4º módulo de aula da 4ª feira. Cada turma foi dividida em grupos menores para que o trabalho fosse realizado com a participação mais efetiva de cada um. Cada grupo escolheu um tema relativo à sexualidade. Esses temas foram propostos pela professora e os alunos escolheram quais preferiam dentre eles. A partir de então, os alunos trabalharam por conta própria, escolhendo que caminho seguir a partir do tema. A graduanda interferiu o mínimo possível, cumprindo fundamentalmente o papel de tirar dúvidas e explicar conteúdos mais complexos. Com este propósito a metodologia utilizada foi uma tentativa de estimular os alunos a pensar e desenvolver a curiosidade. Ao final do semestre, cada grupo teve uma aula para apresentar seu trabalho. Assim todos os alunos puderam conhecer o tema do outro e aprender sobre ele. Durante as apresentações, o grupo expositor deveria ser capaz de demonstrar os conhecimentos adquiridos para o restante da turma. Essa apresentação se deu através de jogos, debates, dinâmicas, cartazes, slides, entrevistas e gráficos. Na tabela apresentamos as atividades desenvolvidas em cada aula e algumas observações relevantes:

4 TABELA Atividades das aula Aula Atividade 1 Dinâmica homens e mulheres na sociedade. Para você o que é sexualidade? 2 Divisão dos grupos e separação dos temas Observações Essa atividade permitiu fazer um levantamento das concepções dos estudantes sobre esse tema, além de levantar uma discussão sobre o significado da palavra sexualidade. A partir dessa aula os alunos começaram a estudar e pesquisar sobre o tema proposto para o seu grupo. 3 a 8 Trabalho em grupo Os alunos trabalhavam em grupo, discutindo o tema a partir de material que traziam de casa. 9 FILME: A procura da felicidade O filme procurou demonstrar para os alunos a dificuldade de criar e educar um filho. 10 APRESENTAÇÃO do grupo 1 Tema: Conhecendo meu corpo 11 APRESENTAÇÃO do grupo 2 Tema: Métodos contraceptivos 12 APRESENTAÇÃO do grupo 3 Tema: Doenças Sexualmente Transmissíveis 13 APRESENTAÇÃO do grupo 4 Tema: Hormônios e Ciclo menstrual ou HIV 14 APRESENTAÇÃO do grupo 5 Tema: Os riscos da gravidez precoce 15 Atividade avaliativa e jogo Essa atividade teve o objetivo de analisar o desempenho dos alunos e a capacidade de relacionar os temas desenvolvidos pelos grupos. A atividade também avaliou o que os alunos conseguiram entender sobre os temas apresentados pelos outros grupos. 16 Encerramento Debate sobre como esse tipo de aula ajuda ou não a aprendizagem dos alunos. Para encerrar, realizamos uma festa.

5 RESULTADO E DISCUSSÃO Quando falamos em autonomia, logo vem à mente ideia de um indivíduo independente, capaz de realizar coisas sem ajuda de outras pessoas. Porém, a autonomia é muito melhor trabalhada se houver o emprego de mais pessoas e a ajuda de um coletivo. A partir dessa ideia o trabalho foi desenvolvido. Os alunos inicialmente estranharam a metodologia utilizada e demonstraram imaturidade, brincando muito e não desenvolvendo as atividades propostas. Porém, após conversas e explicações dos objetivos, as crianças internalizaram a ideia e desenvolveram trabalhos muito bons. Ao término das aulas, concluímos que a metodologia empregada foi de grande valia. O retorno foi positivo para a maioria dos alunos. Eles se sentiram lisonjeados em poder se passar por professores por uma aula, e tentaram fazer da melhor forma possível. A turma 1 possuia um perfil menos interessado, mais imaturo com menor envolvimento com as atividades. Isso tornou o desenvolvimento mais dificil, demonstrando um menor rendimento ao final do curso. Foi um desafio desenvolver essas atividades que exigiam deles autonomia. Enquanto orientava um grupo, os outros ficavam conversando sobre outros assuntos. Além disso, apresentaram dificuldade em trabalhar com o sexo oposto. Para tentar minizar estes problemas, procuramos ajudar dando ideias diferentes para que colocassem nos trabalhos assuntos que fossem mais interessantes para eles e talvez assim aumentassem o envolvimento. O diálogo também foi utilizado, por diversas vezes, pedindo sugestões do que poderia ser feito para que eles gostassem mais das aulas. Era difícil para eles entender a autonomia proposta, Ao se depararem com o formato de aula que os deixava mais livres, eles acabaram ficando muitas vezes perdidos ou não valorizando o tempo disponível para o trabalho, preferindo conversar sobre outros assuntos.

6 A turma 2 demonstrou um envolvimento fascinante. Foi muito prazeroso entrar nessa sala e ver tamanha empolgação dos meninos. Fizeram pesquisas diversas, tiveram diferentes ideias, procuravam a professora nos intervalos e até mesmo em outros momentos, para contar o que aprenderam, uma novidade que leram ou como estava ficando a apresentação depois da nova ideia que tiveram. Foi bem gostoso poder acompanhar tudo isso. Os resultados foram apresentações de qualidade, com novidades como debates, dinâmicas, apresentações de power-point, relatos de experiências pessoais, etc. Além disso, acreditamos que houve reflexão e aprendizagem por parte dos alunos e também por parte da professora. Após a realização e apresentação dos trabalhos nas suas próprias salas de aula, os alunos pretendem expor na mostra UFMG Jovem seus trabalhos desenvolvidos sobre o tema sexualidade para dividir e discutir com o público visitante suas descobertas. CONISERAÇÕES FINAIS Kohlberg, Piaget e Selman discutem níveis de desenvolvimento cognitivo, moral e entendimento interpessoal, respectivamente. Segundo eles, a idade entre 7 a 12 anos exige negociação através de estratégias cooperativas em uma orientação persuasiva ou diferenciada, além de experiências compartilhadas através da reflexão conjunta sobre percepção ou experiências semelhantes. (Fávero, 2005). Por isso ao trabalhar a automonia com os alunos de 11 e 12 anos, utlizando o tema sexualidade, que é de grande interesse para eles, procuramos aumentar essa autonomia nos grupos de trabalho desenvolvendo nos alunos uma maior interação entre eles e possibilitando alcançar de forma mais independente do professor. Para Zamberlan e Sônego (2007), os níveis de autonomia estão relacionados ao potencial de adoção de perspectiva dos próprios papéis do outro e das expectativas que se formam acerca dos mesmos.

7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais, Ciências Naturais ensino fundamental, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Média e Tecnológica, Brasília: MEC/SEMT, FAVERO JESUS, M. L. T. B. Estudo sobre os saberes dos professores do ensino fundamental a partir de uma aproximação do conceito de autonomia. Universidade Federal da Bahia. GT: Educação Fundamental/n. 13 MONTEIRO, A. M.F.C. Professores: entre saberes e práticas. Educação & Sociedade, ano XXII, nº 74, Abril PEREIRA, R. L. O papel da educação infantil na construção da autonomia moral: uma revisão da literatura. Monografia para obtenção de grau de Especialista em Psicologia Clínica: Infância e Família. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul, 2006 RIBEIRO, P. R. C.; SOUZA, D. O. Falando com professoras das sériaes iniciais do Ensino Fundamental sobre sexualidade na sala de aula: a presença do discurso biológico.enseñanza de las Ciencias, número extra, ROSSETO, M. C. A construção da autonomia na sala de aula: na perspectiva do professor. Porto Alegre, 2005 SONEGO, R. V.; ZAMBERLAN, M. A. T. Concepções e práticas sócioeducativas promotoras de autonomia no Ensino Fundamental. Psicologia em Estudo. Maringá, v.12, n. 2, p TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

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