VII CONGRESSO LATINO AMERICANO DE ESTUDOS DO TRABALHO. O TRABALHO NO SÉCULO XXI. MUDANÇAS, IMPACTOS E PERSPECTIVAS.

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1 VII CONGRESSO LATINO AMERICANO DE ESTUDOS DO TRABALHO. O TRABALHO NO SÉCULO XXI. MUDANÇAS, IMPACTOS E PERSPECTIVAS. GT 1 Los trabajadores en la agricultura globalizada O DINHEIRO DA CANA : CONSUMO, MELHORIA DAS CONDIÇÕES MATERIAIS DE VIDA DOS TRABALHADORES RURAIS E ESTRATÉGIA EMPRESARIAL Juliana Biondi Guanais doutoranda do Programa de Pós-graduação em Sociologia da UNICAMP. Pesquisadora do CERES (Centro de estudos rurais) do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Bolsista FAPESP. 1

2 O DINHEIRO DA CANA : CONSUMO, MELHORIA DAS CONDIÇÕES MATERIAIS DE VIDA DOS TRABALHADORES RURAIS E ESTRATÉGIA EMPRESARIAL O presente trabalho tem por objetivo demonstrar que o dinheiro da cana - renda advinda do assalariamento temporário nas usinas de cana de açúcar - além de estar relacionado ao aumento do consumo e à melhoria das condições materiais de vida dos trabalhadores rurais migrantes e de suas famílias, também pode ser visto como uma estratégia empresarial. Em outras palavras, o dinheiro da cana ao representar um ganho monetário que muito dificilmente pode ser obtido pelos trabalhadores sem o assalariamento temporário em outras regiões, que não suas regiões de origem acaba sendo utilizado pelos representantes do setor sulcroalcooleiro como uma das formas para assegurar o disciplinamento e o investimento no trabalho por parte dos cortadores de cana. 2

3 O presente trabalho tem por objetivo demonstrar que o dinheiro da cana - renda advinda do assalariamento temporário nas usinas de cana de açúcar - além de estar relacionado ao aumento do consumo e à melhoria das condições materiais de vida dos trabalhadores rurais migrantes e de suas famílias, também pode ser visto como uma estratégia empresarial. Em outras palavras, o dinheiro da cana ao representar um ganho monetário que muito dificilmente pode ser obtido pelos trabalhadores sem o assalariamento temporário em outras regiões, que não suas regiões de origem acaba sendo utilizado pelos representantes do setor sulcroalcooleiro como uma das formas para assegurar o disciplinamento e o investimento no trabalho por parte dos cortadores de cana. Antes de dar início, é necessário dizer que toda a análise que se seguirá é parte da pesquisa de doutorado ainda em desenvolvimento, a qual, por sua vez, é realizada junto a um grupo de cortadores de cana da usina Costa Pinto 1 (localizada em Piracicaba-SP). Como será melhor explicado a seguir, para que o objetivo supracitado pudesse ser alcançado, a pesquisa de campo foi dividida em duas partes, sendo então realizada tanto nas cidades de destino dos cortadores de cana ligados à usina citada acima (Piracicaba, São Pedro e Charqueada), como na cidade de origem dos mesmos (Tavares-PB). Mas quem são os cortadores de cana? De onde partem? Para onde vão? Quais os motivos que os levam a procurar emprego nas usinas de cana de açúcar? De forma geral, os cortadores de cana são trabalhadores de origem rural principalmente do Nordeste e do norte de Minas Gerais que deixam seus locais de origem em busca de emprego assalariado nas usinas de açúcar e álcool localizadas, principalmente, no interior do estado de São Paulo 2. Na grande maioria dos casos, esses trabalhadores são do sexo masculino e jovens, e acabam por se deslocar quase todos os anos a partir do mês de março (ou abril, dependendo da data do início da safra) para as cidades em que irão trabalhar 3. 1 A Usina Costa Pinto faz parte do grupo Raízen que é uma joint venture formada entre o antigo grupo COSAN e a SHELL. 2 É importante assinalar que com a atual expansão dessas usinas, expansão essa ocorrida sobretudo a partir dos anos 2000, as mesmas vêm se alocando em outras regiões, que não aquelas tradicionalmente utilizadas, como Mato Grosso, Rio de Janeiro, Goiás e Minas Gerais, fato que acaba por alterar a cartografia dos movimentos migratórios. 3 Vale lembrar que os trabalhadores migrantes permanecem, em média, de oito a dez meses nestas localidades, residindo nos alojamentos coletivos das usinas, nas pensões das cidades-dormitórios ou em 3

4 Encontrando-se destituídos de meios reais de sobrevivência em sua terra natal e, muitas vezes sem outro tipo de alternativa já que na maioria dos casos os municípios de origem dos trabalhadores rurais não oferecem muitas oportunidades de emprego os últimos acabam procurando trabalho nas diferentes usinas do país por ser essa uma atividade que lhes assegura algum tipo de renda e consequentemente a sobrevivência de si e de suas famílias. No que se refere especificamente aos trabalhadores rurais naturais de Tavares 4 (município que faz parte do sertão paraibano), é preciso deixar claro que a maior parte deles - a despeito de ser proprietário e residir em um pequeno lote 5 de terra na zona rural do município - não consegue mais sobreviver somente da agricultura. A forte seca que assola a região há quase um século acabou inviabilizando ainda mais esse tipo de atividade, que foi se tornando cada vez mais residual. Como consequência desse processo, todos os gêneros alimentares necessários à sobrevivência das famílias (inclusive até mesmo aqueles que antes eram produzidos pelos trabalhadores rurais paraibanos, tais como o milho e o feijão) passaram a ter que ser comprados nas feiras e nos mercados locais. Assim, encontrando-se privados de seu meio de subsistência por excelência uma vez que não mais conseguem tirar seu sustento de sua própria terra gradativamente os trabalhadores rurais viram-se obrigados a buscar algum tipo de trabalho assalariado para poderem sobreviver. Como dito acima, pelas próprias condições de sua região de origem extremamente pobre e desindustrializada - raramente os trabalhadores conseguem algum tipo de emprego assalariado na mesma, fato que os leva a se deslocarem para outras regiões visando esse propósito. Ao olharmos de forma mais detida para esse processo, não é difícil perceber que o mesmo guarda algumas semelhanças com o casas alugadas, retornando para sua terra natal somente no final de novembro ou dezembro, após o término da safra. 4 Tavares é o município de origem de muitos trabalhadores da Usina Costa Pinto (localizada em Piracicaba- SP). Como dito na introdução, parte da pesquisa de campo do doutorado foi realizada nessa localidade, que possui aproximadamente 13 mil habitantes e faz parte do sertão da Paraíba. 5 De forma geral, a maioria dos moradores de Tavares possui um lote de terra (chamado de sítio ) na zona rural do município. Além de morarem com sua família nesse lote, os trabalhadores também usam a área para cultivar alguma cultura agrícola (como o milho e o feijão) e para a criação de alguns animais (como galinhas, bodes e bois). 4

5 processo de acumulação primitiva analisado por Marx em pleno século XIX 6. De acordo com o autor, O sistema capitalista pressupõe a dissociação entre os trabalhadores e a propriedade dos meios pelos quais realizam o trabalho. Quando a produção capitalista se torna independente, não se limita a manter essa dissociação, mas a reproduz em escala cada vez maior. O processo que cria o sistema capitalista consiste apenas no processo que retira ao trabalhador a propriedade de seus meios de trabalho, um processo que transforma em capital os meios sociais de subsistência e os de produção e converte em assalariados os produtores diretos. A chamada acumulação primitiva é apenas o processo histórico que dissocia o trabalhador dos meios de produção. É considerada primitiva porque constitui a pré-história do capital e do modo de produção capitalista. (MARX, 2008, p. 828) [grifo meu]. E Marx continua: Marcam época, na historia da acumulação primitiva, todas as transformações que servem de alavanca à classe capitalista em formação, sobretudo aqueles deslocamentos de grandes massas humanas, súbita e violentamente privadas de seus meios de subsistência e lançadas no mercado de trabalho como levas de proletários destituídas de direitos. A expropriação do produtor rural, do camponês, que fica assim privado de suas terras, constitui a base de todo o processo. A história dessa expropriação assume matizes diversos nos diferentes países, percorre várias fases em sequência diversa e em épocas diferentes. (MARX, 2008, p ) [grifo meu]. No caso específico dos trabalhadores rurais de Tavares, não é possível dizer que todos eles passaram por um processo de expropriação tal qual mencionado por Marx 7. 6 Ao analisar o conceito de acumulação primitiva em Marx, FELIX (2012) afirma que Na Inglaterra, a acumulação primitiva se deu por meio dos enclosures protagonizados por latifundiários feudais, mais tarde apoiados pelo Estado, para reconfigurar as relações de produção, expulsando os camponeses da terra e criando uma classe de trabalhadores rurais assalariados e despossuídos. Ou seja, dessa forma, Marx demonstrava que o capital enquanto tal é fruto de um processo de séculos, eivado de violência (de sangue e fogo ) no qual se formaram as condições para que se separassem os produtores diretos dos meios de subsistência e produção, formando uma classe de trabalhadores livres, nem parte direta desses meios (como os escravos, por exemplo) e nem possuidores dos mesmos (artesãos e outros produtores diretos, como os camponeses) (FELIX, 2012, p. 3). 7 Ao analisar o processo de colonização e a expropriação de inúmeras populações pelas economias capitalistas em expansão, processo esse ocorrido sobretudo no século XVI, Meillassoux (1977) afirma que Não é nosso propósito fazer aqui a história da maneira como as populações colonizadas foram conduzidas para o setor de exploração capitalista. Lembremos que, diferentemente do que se passou na Europa, a expropriação das terras não foi em toda a parte a causa geral e que foi necessário empregar outros meios coercitivos para desalojar a mão de obra das aldeias (...) o trabalho forçado (...) o recrutamento, o endividamento, etc., foram os meios mediante os quais se gerou uma dependência rural irreversível. As atividades artesanais (fabrico de utensílios, de vestuário) e as atividades anexas (construções, caçadas, colheitas) foram pouco a pouco abandonadas pelo exercício de atividades 5

6 Entretanto, como dito anteriormente - a despeito de a maioria dos trabalhadores desta região ter acesso a um pedaço de terra - os mesmos também acabaram sendo privados de seus meios de trabalho e de subsistência, já que passaram a não mais conseguir sobreviver somente da agricultura, fato que os obrigou (e ainda obriga) a buscar o trabalho assalariado como meio de sobrevivência. Assim, diante da necessidade de viver da venda de sua força de trabalho, os trabalhadores rurais buscam o mundo do emprego, que, como dito acima, não está em seu universo local, mas em outra região. A alternativa para tais pessoas é migrar, é ir para o Sul (GARCIA Jr, 1989). Neste contexto o assalariamento temporário nos centros urbanos 8 ou nas usinas de açúcar e álcool passou a ser considerado como uma estratégia de reprodução por parte dos próprios trabalhadores da unidade doméstica, uma vez que o dinheiro obtido por intermédio do trabalho remunerado no sul, além de compor e reequilibrar o escasso orçamento familiar, também assegura a manutenção daqueles que não migraram. Isso faz sentido ao lembrarmos que em geral, não é a família inteira que migra, mas somente parte dela. Normalmente são os homens que se deslocam, ficando as mulheres, as crianças e os idosos nas regiões de origem. A opção pela migração de poucos membros do grupo familiar dá-se pelas dificuldades e custos de transporte, moradia e manutenção nas regiões de destino, que implicam em altíssimos gastos para os trabalhadores. O mais comum é que o marido migre primeiro, deixando a família com os demais parentes. Em alguns casos, só depois de conseguir obter uma colocação relativamente estável e minimamente rendosa, é que aquele que migrou tem a oportunidade de ir buscar o restante da família para residir consigo (DURHAM, 1984; 2004; GARCIA JR. 1989). Como será visto a seguir, no caso específico dos cortadores de cana, a migração da família inteira é ainda muito mais difícil de ocorrer. Isso porque aqueles homens que vão trabalhar como cortadores de cana e que levam suas esposas para residir consigo remuneradoras, tornando a economia doméstica tributária do setor colonial para o seu aprovisionamento em artigos indispensáveis (MEILLASOUX, 1977, p ) [grifou meu]. 8 Ao analisar, dentre outras questões, as migrações temporárias de trabalhadores de origem rural para os centros urbanos, Meillassoux (1977) afirma que O mecanismo das migrações temporárias funciona não só no seio de um mesmo país, entre zonas rurais e zonas urbanizadas, como à escala internacional entre os países com dominância rural e os países industrializados. Está na origem de imensos movimentos de populações que não pararam de crescer, depois do fim da Segunda Guerra Mundial, entre a África e a Europa... (MEILLASSOUX, 1977, p. 199). 6

7 durante o período da safra são obrigados a alugar casas nas cidades de destino, já que são impossibilitados de residir nos alojamentos cedidos pelas usinas pelo fato de estarem acompanhados. Isso faz com que fique ainda mais caro se manter nas cidades de destino, uma vez que não somente o aluguel, mas todos os custos passam a ser multiplicados pelo número de familiares que residem juntos. Essa situação faz com que a grande maioria dos homens que irão trabalhar como cortadores de cana nas usinas seja obrigado a viajar 9 sozinho, isto é, sem a companhia de sua família. Essa permanecerá em sua região de origem ao logo dos meses que compõem a safra da cana de açúcar e será responsável por todas as tarefas, sejam elas domésticas ou relativas à produção agrícola. Esse fato pôde ser confirmado ao longo da pesquisa de campo realizada no município de Tavares. Dos 43 entrevistados, somente 2 trabalhadores afirmaram que em algum momento já tinham levado suas esposas para residir consigo nas cidades em que foram trabalhar. Todos os demais tinham migrado sozinhos, ficando o restante de seus grupos domésticos nos sítios 10 em que residiam. Como será explorado adiante, a preservação, ainda que parcial 11, de uma agricultura de subsistência nas regiões de origem dos trabalhadores e das relações domésticas de produção, bem como a ligação dos trabalhadores (que atuarão como cortadores de cana) com sua propriedade e com sua família que permaneceu em sua terra natal são fatores extremamente importantes não só para os representantes do setor sucroalcooleiro, mas também para o bom desenvolvimento do modo de produção capitalista como um todo 12. Isso porque tudo aquilo que os trabalhadores rurais e suas famílias conseguem produzir (em sua região de origem) para seu próprio sustento acaba 9 Viajar é o verbo utilizado pelos trabalhadores rurais para referirem-se aos deslocamentos que fazem entre sua região de origem e as demais localidades. Ao longo da pesquisa de campo, nenhum trabalhador utilizou o verbo migrar para tal propósito. 10 Como dito na introdução, os sítios são os lotes de terra que ficam na zona rural de Tavares. A maior parte dos moradores desse município mora com a família neste lote, que também é usado como área para cultivar alguma cultura agrícola e para a criação de alguns animais. 11 Como vimos anteriormente, no caso específico de Tavares, a preservação das economias de subsistência é parcial devido, dentre outros fatores, às condições climáticas adversas que impedem os trabalhadores rurais de sobreviverem somente da agricultura. 12 Na ausência de uma expropriação maciça análoga à que expulsou os camponeses da Europa para as fábricas, a tarefa histórica da classe dos mais velhos seria assim a de fornecer ao capitalismo trabalhadores livres, separando pela força os produtores diretos dos seus meios de produção (...) Porque, como vou mostrar, não é imediatamente vantajoso para o capitalismo, em condições históricas determinadas e num certo estágio de sua implementação, exercer esta separação em todos os casos. É pelo contrário pela preservação de um setor doméstico produtor de subsistência que o imperialismo realiza e sobretudo perpetua a acumulação primitiva (MEILLASSOUX, 1977, p. 158) [grifo meu]. 7

8 sendo abatido (pelos detentores dos meios de produção) do preço da força de trabalho, o que gera, por sua vez, uma redução dos salários dos trabalhadores 13. Como dito acima, a preservação, tanto da família, como de uma agricultura (ainda que precária e parcial) de subsistência nas regiões de origem dos trabalhadores rurais acaba permitindo que os capitalistas rebaixem ainda mais o preço desta força de trabalho específica. Devido a essas circunstâncias, os locais de origem dos cortadores de cana acabam servindo como verdadeiros celeiros de força de trabalho barata, ou, nas palavras de Meillassoux (1977), como jazigos de mão de obra. Neles, a força de trabalho é produzida e reproduzida, passando, em um momento posterior, a ser apropriada pelo capital.... nos países subdesenvolvidos, a agricultura alimentar permanece quase inteiramente fora da esfera da produção do capitalismo, ficando direta ou indiretamente em relação com a economia de mercado pelo fornecimento de mão de obra alimentada no setor doméstico (...) Esta economia alimentar pertence portanto à esfera da circulação do capitalismo, na medida em que o aprovisiona em termos de força de trabalho e de produtos, enquanto permanece fora da esfera de produção capitalista dado que o capital não investe nela e as relações de produção são do tipo doméstico e não capitalista (...) É por intermédio das relações orgânicas que estabelece entre economias capitalistas e domésticas que o imperialismo põe em cena os meios de reprodução de uma força de trabalho barata em proveito do capital; processo de reprodução que é, na fase atual, a causa essencial do subdesenvolvimento e simultaneamente da prosperidade do setor capitalista (MEILLASSOUX, 1977, p ) [grifo meu]. Gestados nesses celeiros de força de trabalho barata, mas impossibilitados de aí permanecer devido ao fato de essas regiões não mais oferecerem os meios necessários à sobrevivência de todos, os trabalhadores rurais são impelidos a buscar algum tipo de trabalho assalariado fora de seus locais de origem 14. Nesse contexto, o emprego temporário nas usinas de açúcar e álcool aparece como uma das alternativas por ser essa 13 De acordo com Meillassoux (1977),... enquanto a especulação fundiária não se desenvolve, os jardins operários que remetem os trabalhadores para uma economia parcial de autosubsistência mediante a qual o seu tempo livre é mobilizado para a produção de uma parte da sua própria alimentação, reduzindo ao mesmo tempo o custo da força de trabalho, porque o que a família retira do seu jardim ou do seu pedaço de campo, o capitalista, autorizado pela concorrência, dedu-lo do preço da força de trabalho (ENGELS, 1872/1957: 16-17) (MEILLASSOUX, 1977, p. 177) [grifo meu]. 14 Assim, o bloqueamento, deliberado ou não, do setor doméstico de produção, e a produtividade crescente do setor capitalista, bastam, uma vez gerada a situação de dependência econômica do setor rural relativamente ao setor industrial, para gerar, independentemente de qualquer coerção, o mecanismo das migrações (MEILLASSOUX, 1977, p. 207). 8

9 uma atividade capaz de assegurar renda e consequentemente a sobrevivência dos trabalhadores e suas famílias. Mas, além de significar uma remuneração regular que não depende das variações climáticas (que prejudicam o ciclo agrícola) e de compor e equilibrar o escasso orçamento do grupo doméstico, para os trabalhadores rurais o emprego no sul representa ainda uma renda monetária superior aos rendimentos obtidos na agricultura do norte, e por isso, é muito valorizado (GARCIA Jr., 1989). Como já demonstrei em outras ocasiões (GUANAIS, 2010), na maioria dos casos o dinheiro da cana - renda advinda do assalariamento temporário nas usinas de cana de açúcar - é um montante impossível de ser ganho nos locais de origem dos trabalhadores, e a diferença entre o ele e o dinheiro conseguido por alguma atividade na terra natal 15 é um dos fatores mais utilizados pelos próprios trabalhadores rurais para justificar sua migração. Neste contexto específico, o dinheiro da cana é extremamente valorizado pelos trabalhadores não só porque assegura a sobrevivência de suas famílias, mas também porque os proporciona um padrão de consumo diferenciado do que tinham antes de migrar. Como já mencionado anteriormente, o dinheiro da cana está relacionado ao aumento do consumo e à melhoria das condições materiais de vida dos trabalhadores rurais migrantes e de suas famílias. Chegar a esta conclusão só foi possível porque a pesquisa de campo foi dividida em duas partes, sendo realizada tanto nas cidades de destino de um grupo de cortadores de cana ligados à usina Costa Pinto (Piracicaba, São Pedro e Charqueada), como na cidade de origem dos mesmos (Tavares-PB) 16. Para entender como se dava a relação entre o dinheiro da cana e o consumo dos trabalhadores rurais e suas famílias, ao longo da pesquisa empírica realizada tanto no interior do estado de São Paulo, como no interior do estado da Paraíba, buscou-se a vinda para trabalhar na cana significa oferta de trabalho garantida; o ganho de um dinheiro que não se vê por lá; a possibilidade de fazer economias para casar, para terminar uma casa iniciada, para comprar uma moto, para ajudar os pais, para ter acesso a um lote de terra etc. Esses argumentos são acionados para a primeira vinda e, também, alimentam esperanças para vindas sucessivas. (NOVAES, 2007b, 64-65) [grifos meus]. 16 A pesquisa de campo foi dividida em duas partes porque se partiu do pressuposto de que a realidade empírica a ser encontrada em ambas as regiões origem e destino - seria diferente, porém complementar. Isso porque não é possível compreender e analisar de forma satisfatória um dos polos sem ter em mente o outro. Somente conhecendo as localidades de origem dos trabalhadores rurais - sua história, as condições de vida e de trabalho de seus moradores, etc. é que podemos compreender a origem de muitos fatores presentes nos locais de destino dos cortadores de cana. 9

10 desvendar e analisar a forma pela qual o salário ganho com o corte da cana era empregado e gasto por esses trabalhadores: se empregado nas regiões de origem; se nas regiões de destino, e a forma como era gasto. De forma geral, os resultados obtidos com a pesquisa de campo demonstraram que em um primeiro momento isto é, quando ainda estão trabalhando fora, longe de sua terra natal a maior parte dos cortadores de cana envia mensalmente uma quantia em dinheiro para a família que não migrou. Como vimos, esse repasse financeiro é de extrema importância para assegurar a manutenção do grupo doméstico que permaneceu no norte, que, na maioria dos casos, conta somente com os parcos recursos advindos dos programas federais de transferência de renda, tais como o Bolsa Família, Bolsa Escola, Bola Estiagem e o Seguro Safra. É por intermédio da quantia enviada por aqueles que migraram que as famílias podem adquirir os insumos necessários à sua sobrevivência. Interessante destacar aqui que essa quantia de dinheiro enviada à família que ficou na região de origem varia de trabalhador para trabalhador. Alguns cortadores de cana entrevistados relataram que conseguem enviar quase tudo o que recebem no mês 17. Outros enviam somente a quantia que sobra após pagarem todas as suas despesas. Outros, por sua vez, só enviam dinheiro quando conseguem. A partir da análise das entrevistas foi possível perceber ainda que esse envio de dinheiro à família é mais fácil de ocorrer no caso dos cortadores de cana que residem nos alojamentos das usinas, já que quando isso ocorre, seus gastos mensais acabam sendo inferiores 18 aos daqueles trabalhadores que não residem nesses alojamentos. Entretanto, os próprios trabalhadores entrevistados fazem questão de ressaltar que enviar algum dinheiro à família - a despeito de ser um dos maiores motivos (se não o 17 Seu Joaquim é um desses trabalhadores que envia a maior parte do que recebe para sua família. Em sua entrevista o mesmo relatou que recebe em média R$ 600 mensais, e que todo mês envia para sua família aproximadamente R$ 500. De acordo com seu Joaquim, ele só não envia toda quantia que recebe porque tem que ficar com algum dinheiro para poder fazer sua feira mensal. 18 De acordo com os trabalhadores entrevistados, quando residem nos alojamentos das usinas, eles têm que arcar somente com o pagamento das refeições (valor esse que é diretamente e mensalmente descontado em folha de pagamento dos mesmos). Diferentemente ocorre quando os cortadores de cana residem em casas alugadas nas cidades em que trabalham, já que nessas ocasiões os mesmos têm que custear todos os gastos (aluguel, água, luz, feira, alimentação, etc.). É importante destacar que a diferença entre o salário que irão ganhar e os gastos que terão no mês é um dos fatores que influencia na escolha dos trabalhadores pelas usinas em que irão trabalhar. Isso é, para aqueles que desejam guardar ou enviar uma quantia de dinheiro superior para a família, acaba sendo mais vantajoso optar pelas usinas que concedem alojamentos a seus trabalhadores. 10

11 maior) que os leva a deixar suas regiões de origem em busca de trabalho assalariado não é possível sem certo tipo de esforço por parte deles. Em outras palavras, para que isso ocorra, é necessário que os cortadores de cana se privem não só daquilo que é considerado como supérfluo, mas também de possíveis luxos 19 ao longo dos meses em que estão trabalhando fora. De acordo com eles, ao darem-se ao luxo de gastar parte do salário que recebem com gastos desnecessários torna-se impossível economizar algum dinheiro. Os resultados da pesquisa demonstram também que em um momento posterior ou seja, no período em que os cortadores de cana retornam para seus locais de origem a grande maioria dos mesmos investe a quantia que conseguiram poupar ao longo da safra em sua própria terra natal, na compra de bens materiais para si e suas famílias. Casas, terrenos, animais de criação, motos e eletrodomésticos que muitas vezes não podiam ser comprados devido à falta de recursos dos trabalhadores rurais, passaram a ser adquiridos por intermédio do dinheiro da cana. Verificou-se, além disso, que, quando possível, alguns trabalhadores ainda conseguem guardar alguma quantia (para fins de segurança futura) após terem adquirido tudo aquilo que era necessário 20. Por intermédio da pesquisa de campo também foi possível perceber uma diferença no padrão de consumo dos cortadores de cana, que, a meu entender, pode ser explicada a partir da perspectiva geracional. Verificou-se que os mais jovens, quando ainda são solteiros, ao retornarem de suas primeiras safras acabam investindo grande parte da quantia que guardaram na compra de uma moto. Além desse gasto maior, esses mesmos jovens, quando voltam a seus locais de origem, também utilizam seu dinheiro para poderem ter acesso a algum tipo de lazer (como festas, churrascos, viagens às cidades próximas, etc.). De acordo com os próprios jovens entrevistados, esse tipo de gasto só é possível porque eles ainda não são casados e porque ainda residem na casa dos pais. Isto é, pelo 19 De acordo com os cortadores de cana entrevistados, sair todos os finais de semana, ir a bares, consumir muita coisa nos barzinhos dos alojamentos, e até mesmo o pagamento de prostitutas são alguns dos luxos que eles precisam evitar (ou se privar por completo) caso queiram economizar algum dinheiro. 20 Os resultados a que cheguei estão em consonância com a análise de Francisco Alves (2008). Ao tratar sobre a forma pela qual os cortadores de cana gastam o dinheiro que recebem nas usinas o autor deixa claro que, Uma parte é remetida para a subsistência da família que ficou na região de origem; uma parte é poupada para a compra de bens de consumo duráveis para a família (TVs, lavadoras de roupa e de pratos, aparelhos de DVD, e ou motocicletas); e uma terceira parte destina-se à entressafra, ao custeio da subsistência sua e da família durante os quatro meses sem entrada monetária (ALVES, 2008, p. 35). 11

12 fato de ainda não serem os provedores de seu próprio núcleo familiar, os jovens estão autorizados a gastar parcela significativa do que ganharam nas usinas com eles próprios, situação que se alterará a partir do momento em que eles se casarem e constituírem família 21. Diferentemente ocorre com os trabalhadores que já são casados e com aqueles que têm a idade um pouco mais avançada. De acordo com a maioria dos entrevistados, o casamento e o nascimento dos filhos faz com que as responsabilidades que recaem sobre o provedor da família aumentem ainda mais. Isso porque quando se tem esposa e filhos, o dinheiro recebido nas usinas tem que ser suficiente para conseguir alimentar, vestir, educar e dar saúde para todos aqueles que compõem o grupo doméstico (não sendo, assim, destinado somente ao custeio dos gastos daquele que recebe o salário). Vale destacar ainda que, no caso específico dos trabalhadores rurais de Tavares, a maioria de suas esposas não possui emprego 22 ou fonte de renda sem ser aquela advinda dos programas federais de transferência de renda, o que acaba deixando as mulheres em uma situação de dependência ainda maior com relação aos esposos e ao dinheiro advindo do assalariamento temporário. Ainda de acordo com os trabalhadores entrevistados, por sua própria condição Os casados têm que ser mais ajuizados, têm que ter cabeça boa, cabeça no lugar (José) 23. Como demonstraram os resultados da pesquisa, esses acabam investindo a maior parte do que conseguiram juntar ao longo da safra em sua própria região de origem na compra (ou reforma) de casas 24, de terrenos e de animais de criação. Mas, como fazem 21 Ainda no que se refere aos jovens, é interessante destacar que as coisas começam a mudar quando os mesmos ficam noivos e pretendem se casar em um futuro próximo. Devido a sua nova condição, muitos deles buscarão emprego nas usinas para conseguir formar um pecúlio a ser empregado em sua região de origem na compra de um terreno (chamados por eles de chão, e que pode estar localizado na parte urbana ou rural do município), local onde construirão sua própria casa após o retorno à suas regiões de origem. 22 Ao longo da pesquisa de campo foi muito raro encontrar mulheres que residissem nos sítios (localizados nas zonas rurais de Tavares), e que tivessem algum tipo de emprego. Isso é um pouco mais fácil de acontecer com aquelas mulheres que deixaram sua residência na zona rural e que já moram de forma definitiva na parte urbana de Tavares. Em geral essas são professoras da rede municipal de ensino, comerciárias das pequenas lojas ou dos armazéns da cidade e vendedoras autônomas de bijuterias e produtos de beleza (tais como Natura e Avon). 23 Em função do compromisso de que nenhuma informação passível de identificar os sujeitos fosse divulgada, os nomes dos participantes referidos neste estudo foram alterados e substituídos por nomes fictícios, assim como os de todas as pessoas às quais eles se referiram nas entrevistas. 24 No decorrer da pesquisa de campo realizada em Tavares pude notar que as casas daqueles trabalhadores que vão trabalhar há mais tempo nas usinas dispunham de uma infraestrutura um pouco melhor quando comparada às residências daqueles que estavam fazendo suas primeiras safras. 12

13 questão de ressaltar os próprios trabalhadores, para conseguirem isso, é preciso se gastar o mínimo possível nas cidades em que trabalham como cortadores de cana 25. Para esses trabalhadores, o dinheiro da cana não pode ser gasto à toa ou com qualquer coisa, já que foi a partir do mesmo que eles conseguiram mudar de vida e adquirirem tudo que possuem. A fala de Valmir serve bem para ilustrar essa situação. Quando interrogado sobre como havia conseguido ampliar sua casa e adquirir certos bens, o trabalhador respondeu: Tudo o que tenho, foi a cana que me deu. Para que toda a argumentação acima possa ficar mais clara, citarei a seguir alguns excertos extraídos das entrevistas realizadas com os moradores de Tavares que trabalham como cortadores de cana da Usina Costa Pinto. P: Você consegue ficar aqui em Tavares se não for trabalhar no corte da cana? J: Não, não consigo. O cara tem que gastar aqui, né, o pouco que ganha tem que gastar aqui, tem que investir em alguma coisa. Se o cara ganhar um dinheiro lá e investir aqui ele fica liso de novo aí tem que voltar para arrumar de novo. P: E o que você acha do seu salário? J: Olha, bastante não dá não para ganhar, mas dá para o cara se manter com o que ganha, né. Tem que agradecer a Deus pelo pouco. P: E o que você faz com o que ganha nas usinas? J: O cara guarda, né, investe em alguma coisa: compra um pedaço de terra, uma casa... P: Aqui? J: É, aqui, no nosso município. P: E a maioria compra o quê quando volta? J: Uns compra terreno, outros casa, outros compra moto. P: E lá nas cidades em que vocês trabalham, vocês gastam bastante? J: Lá não, lá é só o básico, só o básico. Porque sair lá gasta...o cara vai atrás de trazer, né, e se o cara for cair na farra lá aí não trás. Porque lá o custo de vida não é igual daqui. Lá o custo de vida é muito caro. E aqui não, tudo tem um pedaço de terra, 25 Aqui mais uma vez é possível perceber a importância de se residir nos alojamentos no decorrer da safra. Isso porque, como dito antes, quando moram nesses espaços, os cortadores de cana arcam com menos gastos do que arcariam caso morassem em casas alugadas nas cidades em que trabalham. 13

14 uma casa, e não é igual, né?! Eu mesmo não saio de jeito nenhum. Só saio para tirar o dinheiro na cidade porque é obrigado. P: E o que você ganha nas usinas você consegue guardar um pouco, enviar para a família que ficou em Tavares e ainda viver na cidade em que trabalha? J: É, lá [na cidade de destino] a gente coloca num banco. Essas casas do pessoal daqui [de Tavares] já são de lá, é tudo construído com o dinheiro de lá. P: E as coisas que vocês compram, vocês compram na cidade em que vocês trabalham ou vocês deixam para comprar aqui? J: A gente compra aqui [em Tavares]. Lá eu não invisto nada, não. O investimento é todo aqui, em gado, numa coisinha, é tudo aqui (Josias) [grifos meus]. P: E o que você faz com o dinheiro que você ganha? M: Ah, o dinheiro que eu ganho eu faço muita coisa, sabe, faço muita coisa. Fiz essa casa, compro troço...e aplico, sabe?! Compro casa na rua 26 na cidade de Tavares, e vou fazendo assim... Tem o meu gasto comigo, porque eu gasto muito comigo, compro bastante roupa, compro perfume, tudo, aí tudo é de lá. P: Você trás essas coisas da cidade em que você trabalhou ou você compra aqui? M: Não, eu compro mais aqui [em Tavares] do que lá porque fica mais fácil, por causa da viagem que a pessoa vai fazer. Eu compro mais aqui. P: E lá onde você trabalha, você gasta bastante? M: Não, lá eu só gasto com as despesas de lá pra mim mesmo...tem pessoas que bebe, que sai pra fora [do alojamento], mas eu não saio. Pra mim mesmo eu gasto lá só com a cantina mesmo só. P: E você consegue mandar dinheiro para cá, para sua família? M: Eu não mando porque eu sou solteiro, sabe, então eu vou só guardando, guardando, aí quando chego aqui eu gasto um pouco e aí vai (Mauro) [grifos meus]. 26 A parte urbana do município de Tavares é chamada pelos moradores de rua, em contraposição às áreas rurais, conhecidas como sítios. Assim, as casas na rua são aquelas que ficam localizadas no centro urbanizado do referido município. É interessante destacar que nem todos os moradores dos sítios possuem também casa na rua. Isso é mais comum com os mais jovens que após retornarem do trabalho nas usinas acabam comprando um terreno na rua com o intuito de construírem sua casa própria. 14

15 P: O que vocês compram com o dinheiro que vocês recebem nas usinas? A: Ah, a gente investe aqui [em Tavares], né, compra terreno, outros compra gado - quem tem muita terra pra criar, né. Compra carro...tem uns deles bem de vida aqui do corte de cana, viu. Eu não vou mentir pra você: eu dou graças a Deus pela coragem que Deus me deu, é o serviço pior que existe, né, mas eu levanto a mão pro céu e agradeço o que tenho hoje, agradeço, é da cana hoje. P: Tudo o que você tem veio da cana? A: É da cana, tudo, tudo. O que eu consegui aqui da roça quando eu tava com dezoito anos de idade eu vou falar pra você porque eu não tenho vergonha - até um calçado pra eu calçar eu não consegui comprar aqui, não, nesse período todinho que eu vivi aqui. E depois que eu viajei, que eu completei a idade e viajei, graças a Deus as coisas só foi subindo. Graças a Deus tô feliz hoje. P: Então você investiu seu dinheiro? A: É, investi aqui [em Tavares], tenho um terreno ali que eu vou construir na semana que vem, tudo com o dinheiro da cana. Tenho uma motinho - dinheiro da cana - e eu pretendo, se Deus quiser, daqui uns dois anos comprar uma D-20 pra dar uma voltinha com a mulher e os meninos [risos]. O pessoal daqui de primeiro sofria muito, mas hoje esse pessoal que sofria, se você vê hoje você não acredita. Lá no sítio que eu morava meu pai ainda mora lá tinha deles que não tinha nem um chinelo pra calçar...e hoje eles têm seus trinta, quarenta mil real no banco, tem sua moto zero pra andar, se você ver é coisa pra não acreditar. P: E eles cortaram cana? A: É tudo do corte da cana, do corte da cana. Eu tenho uns primos ali, se você ver o prediozinho que eles fizeram lá, eles têm D-20 e dinheiro bastante na conta, viu. P: Você acha que o pessoal vai cortar cana para conseguir isso? A: É, pra investir, né, pra investir e reservar, né. (José) [grifos meus] *** 15

16 Até aqui tentei deixar claro de que forma o dinheiro da cana - renda advinda do assalariamento temporário nas usinas de cana de açúcar - está relacionado com o aumento do consumo e com a melhoria das condições materiais de vida dos trabalhadores rurais migrantes e suas famílias. Nesta segunda parte do presente artigo tentarei demonstrar como, a despeito de tudo o que foi dito anteriormente, o dinheiro da cana também acaba sendo utilizado pelos representantes do setor sulcroalcooleiro como uma das formas para assegurar o disciplinamento e o investimento no trabalho por parte dos cortadores de cana. Como já mencionado na primeira parte do texto, na maioria dos casos o dinheiro da cana é um montante impossível de ser ganho nos locais de origem dos trabalhadores, e a diferença entre o ele e o dinheiro conseguido por intermédio de alguma atividade na terra natal é um dos fatores que mais influencia os trabalhadores rurais a deixarem seus locais de origem em busca de trabalho assalariado no setor sucroalcooleiro. As usinas sabem disso, e acabam utilizando a realidade em que se encontram os trabalhadores rurais a seu favor. Assim, para atrair essa força de trabalho específica, o setor sucroalcooleiro oferece como contrapartida para aqueles que irão trabalhar nas usinas salários mais elevados 27 do que os que os trabalhadores rurais poderiam ganhar caso permanecessem em suas regiões de origem Digo que os salários são mais elevados simplesmente porque são maiores do que as remunerações que os trabalhadores rurais poderiam receber caso permanecessem trabalhando em alguma atividade em sua terra natal. Entretanto, como demonstrei em outra ocasião (GUANAIS, 2010), os salários pagos pelas usinas de açúcar e álcool, por serem baseados no pagamento por produção, além de baixos acabam também sendo fonte de roubo e de trapaça por parte dos usineiros. 28 Esse tipo de estratégia empresarial não vem de hoje, e tem várias semelhanças com as práticas empresariais que Meillassoux (1977) demonstrou existir desde o período colonial. Já naquela época, para que fosse possível atrair a força de trabalho vinda das aldeias para o trabalho assalariado nos setores de emprego capitalista, foi necessário - após o desaparecimento do trabalho forçado nas colônias - oferecer aos trabalhadores salários um pouco mais elevados. Nas palavras do autor, Depois do desaparecimento do trabalho forçado nas colônias, foi necessário, para obter a mesma mão de obra, oferecer um salário mínimo suscetível de a atrair ao setor de emprego capitalista. O custo da mobilização da força de trabalho passava a estar a cargo das empresas. Em vez de ser dispendido sob a forma de encargos administrativos e policiais, era dispendido sob a forma de salários um pouco mais elevados (MEILLASSOUX, 1977, p. 150) [grifos meu]. É importante dizer ainda que, ao longo da história, os altos salários também serviram como uma estratégia utilizada pelos empresários com vistas à conformação de um novo tipo de trabalhador mais adequado aos novos métodos de produção. Em Americanismo e fordismo, ao analisar as experiências propostas por Frederick Taylor e Henry Ford, Gramsci (2008) escreveu que O industrial americano se preocupa em manter a continuidade da eficiência física do trabalhador, da sua eficiência muscular e nervosa. É seu interesse ter uma competência estável, um complexo harmonizado permanentemente (...) Os assim chamados altos salários são um elemento dependente desta necessidade, são um instrumento para selecionar uma competência adequada ao sistema de produção e de trabalho e para mantê-la de maneira estável (GRAMSCI, 2008, p. 71) [grifo meu]. 16

17 A possibilidade de receber um bom salário agrada os trabalhadores rurais. Conforme demonstraram os resultados da atual pesquisa e da anterior (GUANAIS, 2010), a expressiva maioria dos mesmos, quando estão trabalhando como cortadores de cana, tem interesse em aumentar seu salário. Isso porque, como vimos, tanto a manutenção do grupo doméstico que permaneceu na região de origem, como a manutenção do padrão de vida (e de consumo) atingido pelos trabalhadores rurais após a migração dependem do salário recebido nas usinas. Como já deixei claro em outras ocasiões (GUANAIS, 2010), a possibilidade de terem um aumento em seu salário deve-se ao fato de os cortadores de cana receberem de acordo com o pagamento por produção 29, forma de remuneração específica que por sua própria lógica acaba estimulando os cortadores de cana a intensificarem seu trabalho e aumentarem seus níveis de produtividade com vistas a obter um acréscimo em suas remunerações (MARX, 1971 [1867]) 30. Ao utilizar o pagamento por produção como a forma de remuneração dos cortadores de cana, as usinas conseguem fazer com os últimos também tenham interesse no aumento da intensidade do seu trabalho. E essa é uma das formas utilizadas por essas empresas para conseguirem assegurar o investimento contínuo dos cortadores de cana em seu trabalho 31. Em outras palavras, ao terem seu salário atrelado à quantidade de cana que são capazes de cortar, nada mais compreensível que os trabalhadores rurais invistam o máximo possível de suas forças, de suas energias e de sua disposição 32 no sentido de 29 O pagamento por produção é a forma de remuneração predominante dos cortadores de cana. De acordo essa modalidade salarial, o salário dos cortadores de cana está atrelado à quantidade de cana cortada pelos mesmos. Para maiores informações ver GUANAIS (2010), sobretudo o capítulo III. 30 A ideia de que o pagamento por produção pode ser considerado como uma modalidade do salário por peça estudado por Karl Marx é o pressuposto de todas as pesquisas que venho realizando. Essa ideia não é recente e também vem sendo defendida por vários pesquisadores, tais como Maria Aparecida de Moraes Silva (1999) e Francisco José da Costa Alves (2008). Da mesma forma que os trabalhadores estudados pelo pesquisador alemão no século XIX, os cortadores de cana brasileiros também recebem de acordo com sua produtividade individual e acabam arcando com muitas das consequências apontadas pelo autor há mais de um século. 31 Nas palavras de Marx (1971 [1867]): Dado o salário por peça, é naturalmente interesse pessoal do trabalhador empregar sua força de trabalho o mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista elevar o grau normal de intensidade do trabalho. É também interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho, a fim de aumentar seu salário diário ou semanal (MARX, 1971 [1867], p ). 32 O termo disposição foi utilizado por Lygia Sigaud (1979a) para se referir ao esforço e à força de vontade que cada trabalhador tem e que aciona no momento em que aspira receber um pouco mais. De acordo com a autora, Disposição é o termo empregado pelos trabalhadores para se referirem ao esforço e à força de vontade que cada um tem e que aciona no interesse de ganhar mais, dar mais conforto à família, ter crédito garantido e não passar vergonha. A disposição depende de um ato de vontade do trabalhador, desde que ele não se encontre doente. Assim, gozando de saúde qualquer trabalhador pode lançar mão de 17

18 produzirem cada vez mais, aumentando crescentemente sua produtividade. Isso porque, ao intensificarem seu trabalho, ao dispenderem uma quantidade de energias cada vez maior, além de conseguirem atingir as metas estabelecidas pelas usinas (e assim assegurarem seu emprego) 33, os cortadores de cana conseguem também obter um acréscimo em seu salário, fato que consiste em um dos principais objetivos desses assalariados rurais, como demonstraram os resultados da pesquisa de campo realizada até o momento. Nas palavras de GARCIA Jr. (1989), É de se notar que o método usado pelos engenhos e usinas para forçar uma baixa dos salários reais, medidos pela extensão e intensidade do trabalho, com remunerações nominais crescentes, é usar ao máximo a empreita no lugar da diária, isto é, o salário por produção (Marx, 1966, cap. XXI), em que preços inferiores por unidade de serviço levam o trabalhador a um esforço físico maior, seja aumentando a jornada, seja intensificando seu ritmo, seja usando o trabalho suplementar dos filhos e da própria mulher, para que no final do dia possa ter ganhado mais, ou seja, disponha de mais dinheiro para uma feira superior. (GARCIA Jr., 1989, p ) [grifos do autor]. Esse maior investimento por parte dos cortadores de cana em seu trabalho estimulado pelo pagamento por produção pôde ser comprovado por intermédio da pesquisa de campo. Mesmo tendo asseguradas a pausa de uma hora para o almoço (que se dá entre 10 e 11 horas da manhã ou entre 11 e 12 horas) 34, e as duas pausas de dez minutos para descanso (que devem ser feitas de manhã e de tarde) 35, pude observar que sua disposição para se sair melhor. Trabalhar segundo a sua disposição se opõe a trabalhar tendo um limite aquém da disposição, tendo uma média, significando, portanto, superar a média... (SIGAUD, 1979a, p. 132). 33 Como sabemos, além do pagamento por produção o setor sucroalcooleiro também se vale de outras estratégias para obter um controle extremamente rígido dos cortadores de cana e dos resultados de sua produção. Um exemplo de tal estratégia é a imposição da média, isto é, de uma produtividade diária mínima que deve ser atingida pelos trabalhadores caso desejem manterem-se em seus postos de trabalho. Ao não conseguirem atingir a média diária estipulada pela usina para qual trabalham, os cortadores de cana são demitidos. É importante dizer que, com o passar dos anos, a média teve um aumento considerável: em 1980 a média era de 5 a 8 toneladas/dia; e em 2004, passou a ser 12 a 15 toneladas (SILVA, 2006a). 34 Na parada para o almoço as frentes de trabalho da Usina Costa Pinto são divididas em duas turmas. A primeira turma almoça das 10 as 11 horas, e enquanto isso a outra turma continua trabalhando. Depois, entre 11 horas e meio-dia a situação se inverte, isso é, enquanto a segunda turma almoça, a primeira volta ao trabalho. 35 Para maiores informações sobre a regulamentação das pausas, ver: GARCIA, Gustavo Filipe Barbosa. Relações de trabalho no setor canavieiro na era do etanol e da bioenergia. (texto retirado do site do Ministério Público do Trabalho em 2008). Para Garcia (2007), Cabe frisar que o empregador também deve conceder aos trabalhadores, sejam urbanos ou rurais, o intervalo para descanso e refeição (intrajornada) e o intervalo interjornada, sendo este último de 11 horas consecutivas, conforme art. 66 da CLT e art. 5º, parte final, da Lei 5.889/73 (GARCIA, 2007, p. 10). 18

19 muitos deles não obedeciam esses momentos de descanso. Especialmente no que se refere ao almoço, muitos cortadores de cana optavam por almoçar em poucos minutos para poderem retornar o mais rápido possível para o trabalho 36. Ao longo das entrevistas, grande parte dos trabalhadores relatou que pelo fato de receberem por produção, muitos não fazem as pausas que lhe são garantidas, já que ao pararem de trabalhar, de cortar cana, diminuem sua produtividade, e consequentemente, seu salário. A fala de Ezequiel deixa bem claro essa situação. A gente não para de trabalhar porque a gente quer ganhar mais, né! E ninguém quer ficar parado também. Mas além de não terem interesse em suspender seu trabalho nem mesmo naqueles momentos previstos para seu próprio descanso, a maioria dos cortadores de cana entrevistados declarou ainda que se pudesse trabalharia mais dias ou mais horas na semana com vistas a obter um acréscimo ainda maior em sua remuneração. De acordo com esses trabalhadores, não adianta nada deixar sua terra natal e permanecer tanto tempo longe da família se o salário a ser recebido nas usinas não for bom, isto é, se não compensar. Se for para não trabalhar, ou se for pra ganhar pouco, é melhor ficar lá na terra da gente. Se o cabra vem pra cá ele tem que trabalhar, né, tem que vir atrás de levar algo, senão não adianta (Antonio). Mas além de incentivar a intensificação do trabalho e a extensão da jornada (MARX, 1971 [1867]) funcionando, assim, como um acicate ao trabalho excessivo dos cortadores de cana o pagamento por produção funciona também como um engenhoso método de introversão da disciplina e do autocontrole do trabalhador. Isso porque, ao utilizar o pagamento por produção como forma de remuneração dos cortadores de cana, as usinas conseguem transferir para os trabalhadores rurais a responsabilidade por seu trabalho. Isso porque as empresas passam a imagem para seus cortadores de cana de que são eles que irão decidir o quanto irão trabalhar, o quanto irão receber de salário e até onde podem aguentar. Neste sentido, cabe aos trabalhadores rurais estabelecer a 36 É importante dizer aqui que, sobretudo a partir dos anos 2000, o aumento de casos de mortes e de acidentes de trabalho envolvendo cortadores de cana fez com que o Ministério Público do Trabalho (MPT) passasse a fiscalizar de forma mais rigorosa as usinas para verificar se as mesmas estavam cumprindo os momentos previstos de pausas intra e interjornada. No caso específico do intervalo para almoço, além de terem que respeitar a parada de 1 hora, os cortadores de cana passaram também a ter que retornar aos ônibus para fazerem suas refeições sentados em mesas e sob os toldos, como o previsto por uma nova exigência do MPT. Entretanto, isso nem sempre ocorre na prática, como demonstrei acima. 19

20 velocidade com a qual irão cortar cana, a quantidade a ser cortada, os momentos em que irão suspender seu trabalho e fazer as pausas, etc. Ao tornar os trabalhadores os maiores responsáveis por seu trabalho (pela sua qualidade e pela sua produtividade), as usinas conseguem poupar recursos que seriam gastos com os agentes fiscalizadores e supervisores 37, os quais, por sua vez, são os responsáveis pelo controle e acompanhamento contínuo dos cortadores de cana. Vale dizer que essa não necessidade de fiscalização e de inspeção do trabalho é característica do salário por peça, como também já demonstrou Marx (1971 [1867]) 38. No caso das usinas de açúcar e álcool, a necessidade de fiscalização e controle sobre os trabalhadores sempre existiu e persiste até os dias atuais. Entretanto, quando os cortadores de cana trabalham por produção, a atividade de supervisão acaba se tornando mínima quando comparada à que é necessária quando os empregados trabalham sob o regime de salário por tempo (SILVA, 1999) 39. Neste sentido, pode-se afirmar que, ao tornar em grande parte desnecessário o trabalho de inspeção, o pagamento por produção também é extremamente interessante para o setor sucroalcooleiro. Isso porque os trabalhadores não precisam mais de superiores para avaliar e controlar os resultados de seu trabalho, pois eles mesmos acabam se auto-fiscalizando. De acordo com Silva (2005), neste contexto, as mais variadas cobranças que recaem sobre os cortadores de cana deixam de ser externas aos próprios trabalhadores, isto é, deixam de vir de outras pessoas, e passam a ser cobranças deles mesmos, ou seja, são os próprios cortadores de cana que passam a se exigir, tornando-se, portanto, os déspotas de si próprios, já que são capazes de se auto-coagir. O pagamento por 37 O agente fiscalizador mais importante para as usinas está representado pela figura do fiscal de turma. Esse é responsável pelo acompanhamento da turma de trabalhadores quando os mesmos estão nos canaviais. São os fiscais que distribuem e supervisionam o trabalho da turma, verificando se os cortadores de cana estão realizando a contento as atividades prescritas. Ao fazerem isso, garantem a disciplina de todos os trabalhadores, atitude essa imprescindível para as usinas. 38 Sendo a qualidade e a intensidade do trabalho controladas pela forma de salário, torna esta em grande parte desnecessário o trabalho de inspeção. O salário por peça constitui a base não só do trabalho doméstico moderno, do qual já falamos anteriormente, mas também de um sistema hierarquicamente organizado de exploração e opressão (MARX, 1971 [1867], p. 639). 39 É interessante ressaltar aqui que ao longo da pesquisa de campo, além dos cortadores de cana da Usina Costa Pinto, entrevistei também alguns trabalhadores que faziam parte da turma de serviços gerais da referida usina, e que por isso não recebiam por produção. De acordo com os entrevistados, a fiscalização que recai sobre tal turma é muito maior do que a que recai sobre a turma do corte, fato que, na opinião dos entrevistados, pode ser explicado a partir da forma de remuneração utilizada em cada turma. 20

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