Do fogão ao picadeiro: mulheres circenses entre glamour e preconceitos

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1 Do fogão ao picadeiro: mulheres circenses entre glamour e preconceitos Lenice Veloso da Silva 1 Jairo Nogueira Luna 2 RESUMO: Este presente artigo analisa a vida de mulheres circenses que abandonaram suas vidas sedentárias em busca de aventurar-se mundo a fora e buscando uma nova opção. Tem como objetivo detalhar mitos e preconceitos sobre as artes circenses em especial tratando da palhacaria feminina, vista como uma arte proibida para o sexo feminino. Para compor esta pesquisa foram realizadas entrevistas com mulheres circenses, em especial seis guerreiras que dominam um circo nomeado de Novo horizonte, e muito pouco recebem auxilio de homens. No qual se buscou entender o modo de viver socialmente, em virtude de preconceitos marcados ao longo da história. Foram destacadas a presença da palhacaria feminina e o chamado fazer a praça, características dominadas pelo os homens. No entanto nesta pesquisa há uma quebra de estereótipos, mostrando a resistência, enfrentadas por essas artistas no universo circense. 1 Pós-graduada em letras e suas literaturas pela a UPE-campus- GARANHUNS. Curriculum Lattes disponível em: 2 Prof. Dr. Jairo Nogueira Luna, orientador, possui graduação em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986), mestrado em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (1997), e doutorado em Letras (Literatura Portuguesa) pela Universidade de São Paulo (2002). Atualmente é professor adjunto da Universidade de Pernambuco (UPE, Campus Garanhuns), onde desenvolveu pesquisa acerca da cultura do Vale do São Francisco. Revista Diálogos N. 13 jan./mar

2 Palavras- chave: Mulheres; preconceitos; circo; palhaças. ABSTRACT: This article analyzes the life of circus women who abandoned their sedentary lives looking to venture outside the world and looking for a new option. Aims to detail myths and prejudices about the circus arts in particular dealing with palhacaria female, seen as an art forbidden for females. To compose this research interviews with circus women were made, especially six warriors who dominate a named circus "New Horizon", and very little receive help from men. In which we sought to understand how to live socially, because of prejudices marked throughout history. Were highlighted the presence of palhacaria female and the so-called "make the square", features dominated by men. However this research there is a break stereotypes, showing resistance, faced by these artists in the circus universe. Key words: Women, prejudices, circus, clowns. Mulheres circenses: guerreiras ou marginalizadas? Que diferença da mulher o homem tem? espera ai que eu vou dizer meu bem. Esta estrofe machista retirada da composição musical de Luís Gonzaga e Gal costa (1984), é um convite insinuoso sobre os preconceitos machistas que a mulher sofreu e sofre ao longo da sua história. É através desta consagrada estrofe musical popular brasileira, que início esta pesquisa. Lançando- lhe um convite: aprofundarmos um pouco mais sobre essas guerreiras que tornaram- se mães, avós circenses e mulheres lutadoras onde tiveram que buscar terrenos para passar tempos em tempos migrando sempre que necessário. Apesar disso ao invés de um reconhecimento do seu árduo fardo, as mulheres Revista Diálogos N. 13 jan./mar

3 circenses são humilhadas diariamente vivendo excluídas de uma sociedade egocêntrica. Foi pensando nesta temática que recentemente ao conhecer um circo itinerante 3 nomeado de Novo Horizonte que no momento estava localizado no povoado Alegre, no município de Capoeiras- PE. No primeiro olhar um circo como qualquer outro, com trapézios, dançarinas, palhaços, ou melhor, palhaças! Sim palhaças, essas que tanto me chamaram a atenção mulheres fazendo o circo desde o primeiro contato fazendo a chamada praça, atraindo a atenção das pessoas nas ruas e em escolas, eram elas que estavam lá divertindo e propagando o seu trabalho. O circo possui exatamente 10 pessoas, apenas três homens o acompanham. Esses além de atuarem no picadeiro fazem o trabalho mais pesado como montar e desmontar toda a estrutura. Todavia, o que nos interessa são as mulheres pertencentes a essa família circense. Por questões éticas decidi chamá-las por nomes genéricos. D. Maria (72 anos), proprietária do circo Novo Horizonte 4, Carmem (44 anos) filha de D. Maria, sua função no circo sair em busca de cidades diferentes, terrenos onde possam armar arrumar patrocínios e que tenham autorização de apresentar- se em determinado locais. Tati (22 anos) Palhaça, e locutora, atualmente grávida de sete meses. Dora (30 anos) trapezista além de sofrer discriminação como mulher circense, ela também enfrenta o preconceito por ser travesti, atualmente casada com o filho de D. Maria. Ruth (13 anos) filha de Carmem 3 Conceito utilizado desde a idade media, refere- se a circo móveis, facilitando assim o trabalho dos circenses. 4 Circo família, que no momento estava localizado em um pequeno povoado chamado Alegre,localizado na cidade de Capoeiras PE. Revista Diálogos N. 13 jan./mar

4 apresenta- se em panos, e dançarina de diversos ritmos musicais. Bruna (14 anos) neta de D. Maria esta não atua diretamente no circo, mostra-se indiferente à tradição familiar que já percorre por três gerações seguidas. Primeiro foi meu avô circense, depois meu pai, minha mãe não era de circo fugiu com meu pai aos 14 anos e depois que ele foi embora, nós montamos esse ai pra gente (Carmem, 44anos). Thalita Costa da Silva e Anderson Christopher dos Santos no artigo intitulado de: O riso também colonizou o Brasil, afirmam que era através dos mais velhos que se transmitiam as tradições, as crenças e os conhecimentos circenses. No circo novo horizonte, isso também ocorre com grande êxito e há quem acredite que poderá existir uma quarta geração. E pelo jeito não para por aqui, a Ruth dança porque gosta (D. Maria 72 anos). O circo é por muitos considerado a arte mais antiga no mundo e por isso há controvérsias sobre suas origens. Há quem diga que foram encontrados na China, desenhos rupestres de acróbatas e malabaristas há mais de anos A.C. Outras informações talvez as mais aceitáveis, trata do surgimento do circo na cidade de Roma há mais de 200 anos A.C. Entretanto ao falarmos do Brasil uma característica importante sobre a vinda do circo, refere-se à informação de que tenha vindo junto á frota de Pedro Álvares Cabral no ano de 1.500, através das palhaçadas de um tripulante que veio em sua expedição. Seria ele, Diogo Dias, segundo relata Pero Vaz de Caminha em carta enviada ao Rei D. Manuel ( ). E além do rio andavam muitos deles, dançando e folgando uns ante outros, sem se tomarem pelas mãos, e faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém que é homem gracioso e de prazer, e levou consigo um gaiteiro nosso, com sua gaita, e meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas Revista Diálogos N. 13 jan./mar

5 mãos. E eles folgavam e riam e andavam com ele mui bem, ao som da gaita. Depois de dançarem fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. (CAMINHA, 1500). Apesar desta informação o circo oficialmente itinerante de lona só adentrou o Brasil No século XIX, com a chegada de famílias circenses europeias e norte-americanas, que percorreram o país. Durante o século XIX, até os meados do século XX a vigência legislativa, era muito restritas ás mulheres. Isso em função do trabalho, autonomia e educação. Apenas em 1916, sofre uma mera alteração em benefícios das mulheres, uma pequena mudança deu direito apenas em caso de morte do marido, que a mesma poderia ser o chefe da família. O que não acontece no circo Novo Horizonte onde a nossa guerreira D. Maria (72 anos) fugiu com seu companheiro aos 14 anos de idade, e a partir deste momento adotou a vida circense. Aos 16 anos foi mãe, porém como é de se imaginar a vida de dona Maria não foi um mar de rosas, como comprova sua filha Carmem (44 anos). Meu pai gostou da empregada. Ela, a mãe, estava tendo esse meu irmão no hospital [...] ele pegou tudo que tínhamos um circo grande e foi se embora, nós de donos passamos para empregados Ao notarmos o relato condizente de Carmem, sobre sua origem, percebemos que a instabilidade circense não se trata apenas de financeiro, ou do nomadismo. Uma característica intrigante é o fato de muitas meninas abandonarem suas famílias e fugirem acompanhando o circo. Realidade muitas vezes representada na dramaturgia brasileira abordando como um refugio para as mulheres da época, bem como uma forma de libertar- se da família. Podemos comprovar este momento histórico para os circenses no relato de (Tati 22 anos). Como eu tinha só 16 anos, esperei minha mãe vir pra Revista Diálogos N. 13 jan./mar

6 Afogados da Ingazeira-PE e marquei como ele pra fugir no dia seguinte, já que com meu pai era mais liberal. Essa é uma característica marcante, quando trata- se de pessoas circenses, muitas meninas da sociedade sedentária fugiam com rapazes circenses a fim de aventurar- se por uns tempos. Outrora, as mulheres mambembes eram vistas pela sociedade como desavergonhadas, oferecidas tendo o corpo à mostra. Para os homens podemos relembrar o conceito de macho-alfa por sua vez, são vistos como os encantadores e desordeiros, arrancando suspiros das moças da cidade. por parte dos circenses, este era um processo tenso, que no seu entendimento estava instalado na relação Nós os da lona com eles os de fora da lona, como se fossem dois momentos de ação e de reação em que apenas diferenças existissem. (Silva, 1997). Acerca dos estudos referentes ás mulheres palhaças no Brasil, encontramos Ermínia Silva 5 (2009), em sua obra O circo suas artes e saberes onde a autora trata de questões relativas sobre o fazer à praça, segundo ela esta atividade como também a palhacaria não pertenciam aos deveres da mulher circense. O fazer a praça denomina- se numa atividade mais complexa como, por exemplo: conhecer as cidades previamente, saber a estrutura do local, a situação financeira dos cidadãos e ainda estratégias de como chamar a atenção das pessoas. O importante aqui é que a visita do artista homem ou secretário que iria preparar a praça tinha como condição principal relacionar- se com autoridades (civis, religiosas e de polícia) para a realização de seus espetáculos. (ANDRIOLI, 2007; AVANZI; TAMAOKI, 2004; 5 Filha de Barry Charles Silva e Eduvirges P. Silva, quarta geração circense no Brasil, graduou-se em História na Universidade Estadual de Campinas, em A partir de então teve possibilidade de dar continuidade e consolidar sua trajetória de estudos e pesquisas sobre as histórias do circo e circenses no Brasil. Defendeu a dissertação de mestrado sob o título O Circo: sua arte e seus saberes, em 1996, que se transformou no livro Respeitável público... o circo em cena, lançado em dezembro de 2009 pela Edições Funarte. Revista Diálogos N. 13 jan./mar

7 SILVA, 2009). Neste conceito preconceituoso, eis que surge a queda do paradigma: A palhacinha Tati (22 anos), com vestes de palhaça e ainda exibindo um barrigão de sete meses. Curiosos atentos passam a questionar-se: será que está grávida, ou faz parte do figurino? Esta cena fora do comum é o ponto chave para esta pesquisa, pois indagações surgiram a todo o momento: Como assim? Uma palhaça? Grávida? Fazendo a praça? E ainda por cima acompanhada por outra mulher: (Carmem 44 anos), vista com proprietária do circo, onde sorria mais do que a plateia. Quantas histórias magníficas elas devem ter? Estas e outras indagações foram o suficiente para uma mera defensora das construções feminina na sociedade contemporânea que atualmente exibe sua melhor qualidade: O narcisismo. É importante ressaltar que para Sarah Montheath em sua tese: Mulheres palhaças: percurso histórico da palhacaria feminina no Brasil (2014). Refere- se à questão que para a mulher fazer à praça necessariamente, precisa- se em manter o contato direto com o público. Característica a qual não desfrutava na sociedade pelo o menos até Esta aparição em forma de palhaças, só é possível pela a relação de circo-família, onde os mais jovens aprendiam com os mais velhos e assim sucessivamente. Entretanto para Silva (2009), Apesar desta transmissão de saberes, não foi identificada a proposta de que a mulher poderia aparecer nesta forma. Destaca- se sua participação em condição de matriarcas, além de participarem dos processos de organização do circo e do espetáculo como um todo, no qual buscavam, em conjunto com todos os outros integrantes, proteger seus circos e artistas de algumas exposições que pudessem causar atritos com a cidade. A constituição da mulher palhaça está referendada em elaborações e implicações sociais, políticas e estéticas sobre as diversas atuações femininas na sociedade. Assim, até o inicio do século XX, esta construção cênica Revista Diálogos N. 13 jan./mar

8 específica nos circos ainda era voltada para o homem e muitas mulheres para atuar nesta linguagem, apareceram escondidas sob as roupas do palhaço. (Montheath 2014). Nesta citação de Montheath, podemos notar que mais uma vez na história feminina, a mulher disfarça suas curvas sempre atraentes e se apossa dos trajes masculinos, para que possa realizar algo ou que goste, ou que necessite. Neste contexto utilizamos a fala de Fabio Luciano em um capítulo de sua tese, intitulado de: Do exílio republicano à tradição da mulher vestida de homem: ressentimento ou ousadia? Ele inicia com grande estilo e louvor, fazendo a seguinte reflexão: Com o disfarce do olhar, a voz e o andar, ela vai à guerra. Quem sabe para substituir o pai que não tem filho homem, e desse modo, ela faz o papel de homem na ausência do próprio, isso tudo com um espírito de justiça e uma missão de vingança. Estas palavras magníficas, representam como a mulher lutadora, que precisou arregaçar as mangas pra não ver o filho passar fome. E pensando nesta temática, achamos que são poucas? Engana-se caro leitor! O número de mulheres, chefes de família, cresce rapidamente, como uma epidemia, que ainda não encontraram solução. O abandono das esposas, por parte dos maridos não é uma característica singular notamos nas palavras de Carmem (44 anos), a rejeição e também o posicionamento de chefe de família ao sofrer o abandono do companheiro. Eu com meu ex-marido eu parei, mas quem disse que eu me acostumei? acostumei não... fui pro Maranhão, cheguei lá ele quis me botar o cabresto, sempre fui acostumada com o meu dinheiro, ai eu disse: mãe me mande dinheiro e voltei pro circo.(carmem, 44 anos). Revista Diálogos N. 13 jan./mar

9 Em seus relatos, Carmem diz ter nascido no circo. Em geral a mulher circense, desde cedo é instruída a cumprir com uma atividade particular, sendo preparada para não tornar- se somente doméstica, mas para transformar-se numa artista de circo. já fiz trapézio, dançarina, malabarista, locução, só não trabalhei no pano por que é uma arte nova, tem menos de dez anos (Carmem 44 anos). Em alguns momentos, coube à mulher papéis principais e essenciais para os espetáculos, esta peculiaridade, encontramos com grande exuberância no circo Novo Horizonte mulheres que mesmo com o sofrimento e constantemente humilhadas como veremos a seguir ainda assim conseguem ver vantagens em sua condições de artista mambembes por que assim aqui é uma vida gostosa, aqui é uma vida turística, quando pensa que não já estamos em outro lugar, então é gostoso de se viver (Carmem 44 anos). Quanto aos locais onde já se apresentaram temos uma grande surpresa, pois mesmo se tratando de um circo pequeno já frequentaram outros países. O único estado brasileiro que a gente não conhecia era esse Pernambuco e já estamos aqui faz um ano [...] Passamos um ano Bolívia dois anos no Paraguai, seis meses em Portugal, [...] passamos dois anos no Peru, só em Lima ficamos um ano (Carmem, 44 anos). Os circenses foram muitas vezes, observado e ainda são em pequenas cidades como um grupo exterior a sociedade, marginalizados. É possível que essa visão seja herdada da idade média, quando o circo era visto como uma arte encantadora e extra-oficial, ao mesmo tempo, que revelava seus fascínios e encantos também eram rejeitados por serem vistos como andarilhos muitas vezes confundidos com ciganos. Segundo elas, são povos distintos e não gostam da comparação. Essa característica nômade constitui numa organização que se opõe em ocupar território, assim os povos circenses migram quando há necessidades. Revista Diálogos N. 13 jan./mar

10 Com relação aos processos educacionais, as famílias circenses em geral, tiveram o direito de matricular seus filhos em uma educação formal. Esse processo surgiu a partir das décadas de 1930 a Conforme Ermínia Silva através da lei nº 301, de , foi instituída que as escolas tinham obrigatoriedade de receber filhos de pessoas de circo. Entretanto, isso não significa que as famílias consigam com tranquilidade matricular seus filhos nas escolas regulares. A prova disto, esta nos relatos de Carmem (44 anos), quando já necessitou discutir com autoridades, exigindo seus direitos. Aqui mesmo em Venturosa (PE), nenhuma escola aceitou os meninos, mandei a menina ir lá quando chegou disse: tão tudo cheio [...] A diretora disse que não tem vaga, eu digo: vai ter! Se você não arrumar eu vou procurar meus direitos agora, vou pra secretaria agora. Onde já viu? Eu sou andarina e você sabe disso: a lei dar o direito dos meus meninos estudarem, se não tiver vagas tem que tirar um da cidade e botar os meus que nos só somos por 10 ou 15 dias. Sendo uma diretora deve você saber dessa lei. Ela respondeu com ironia: não tô sabendo dessa lei não? Então devia tirar você do cargo porque sendo uma diretora devia saber das leis. Eu vou ver se tem vaga! Disse ela com raiva. Vai ver não! Você tem que botar s meus meninos ou você acha que só porque sou de circo não sei das coisas. Ela pediu a transferência das meninas e disse: é ate que as notas tão boas pra ser de circo. Desse jeitinho, com aquela ironia... (Carmem 44 anos). Ao olharmos para essas guerreiras, quando não estão caracterizadas na sua forma contagiante, elas mantêm uma forma natural de agir, talvez uma forma de defesa. Sempre atentas á procura de quaisquer discriminações que por ventura venham a sofrer, pois não são raras às vezes que isso acontece, seja em Revista Diálogos N. 13 jan./mar

11 escolas ao matricular seus filhos,ou ainda em postos de saúde onde já tiveram que aguardar o dia inteiro à espera de sobras de fichas para poderem ser atendidas depois da comunidade Em santa cruz do Capibaribe, eu fui parar na secretaria de educação porque eu fui em quatro escolas e nenhuma aceitou o meu menino.(tati 22 anos).brigas, desavenças e intrigas são momentos corriqueiros na vida delas. A vida foi árdua e para isso tiveram que aprender os seus direitos e exigir quando necessário. Acha que porque somos andarina não sabemos das leis (Carmem 44 anos). E chega a emocionar- se quando diz que necessitou pagar advogados para que D. Maria tivesse direito à aposentadoria. Tudo em virtude do preconceito estabelecido por este trabalho informal. Sobrevivem de um trabalho visto como uma maneira de se manterem, não visto como uma opção O homem subiu no muro e disse assim: ah isso ai eu sei fazer! Respondi abusada: então venha se é macho (Dora 30 anos). A maneira grotesca de falar, podemos notar que trata- se de uma forma de proteção. Não são raras às vezes que as meninas sofrem abusos sexualmente verbais, em especial as mais novas Por que a Ruth não dançou hoje? Eu pra evitar confusão não deixei trabalhar ontem, porque eles estavam com piadinhas com ela (Carmem 42 anos). Segundo Bolognesi (2003), a presença das mulheres nos espetáculos circenses ocorria em especial nos números que abrangiam a sensualidade, destreza e beleza física. No caso de Ruth ainda com 13 anos de idade, mostra-se uma beleza física em construção e ao apresentar-se arranca elogios e assovios da plateia, tornando- se a apresentação mais esperada do espetáculo. O que é uma pena, pois, ainda trata-se de uma pré-adolescente,mesmo percebendo em seu comportamento traços de adulta, uma vez que as crianças circenses em especial tendem a amadurecer rapidamente, devido a iniciar suas apresentações cedo em função de colaborar com a família. Revista Diálogos N. 13 jan./mar

12 Outras dificuldades apontadas pela as entrevistadas são referentes à questão da falta de incentivo dos meios governamentais, quando interrogadas se existem meios para contribuir ou incentivar os artistas mambembes respondem como uma forma de desabafo:.tem o projeto Carequinha 6, mais passa cinco, seis anos e você não ganha nada [...] outros que não precisam ganharam 80 mil reais um dias desses[...]se esquecem dos pobres coitados que nem nós, E ainda fazem uma critica: pra que um projeto desse? só ganha os que têm. Quando interrogadas sobre o custo de manutenção do circo, revelam uma situação surpreendente. Depende da potencia que quer o circo, tem lona de cinco mil, tem lona de vinte mil [...] tem circo famoso eu tem lona até de 250 mil, essa ai fui eu que fiz, saiu pra nos por uns 7 mil reais, meu irmão cortou e eu costurei. Ainda deve dar pra uns dois anos mais ou menos. (Carmem 44 anos). De estrada a fora, de cidade em cidade, as dificuldades são várias, obrigando a muitos pensarem em desistir da vida andarilha e arrumar um trabalho fixo. Eu já procurei trabalho, mas quem quer dar emprego a uma circense sem estudo (Dora 30 anos). A desistência dos artistas e ainda a situação financeira precária e instável, os fazem lutarem por outros meios, uma das suas alternativas é manter os mais jovens nos estudos a fim de terem um futuro melhor Eu mesma só fiz até o 9º ano, mas se fosse o caso voltaria e faria um provão pra ver se arrumo algo melhor (Tati, 22 anos). 6 O premio Carequinha FUNARTE, (fundação nacional de artes), tem com objetivo incentivar as artes circenses. Sua principal atividade constitui em doações através de editais de seleção a doação de lonas e outros equipamentos a fim de ajudar os circos itinerantes de lona. Revista Diálogos N. 13 jan./mar

13 Referente à gratificação recebida pelo os espetáculos, respondem com grande incerteza, já que o rendimento mensal depende do local e do público. Isso determina quanto tempo ficarão na mesma cidade. Tem dia que ganho 30 reais tem dia que ganho 5, 6, depende do dia, por que tem dividir pra todo mundo por que cada casinha dessa é uma família, tem tudo, geladeira, fogão cada um faz sua comida[...]então a gente tem dividir direitinho pra todos[...] e ainda deixar guardado pra mudança, às vezes uma lona se rasga e tem que ter (Tati, 22anos). Além disso, soma-se motivos para a desistência, como o pouco ou quase nenhum incentivo dos órgãos não governamentais, a ausência de terrenos, a falta de circulação dos atores circenses, o preconceito e ainda a falta de atendimento em determinados locais públicos só por serem circenses. Fui a primeira a chegar ao postinho com dor de dente e a moça me disse que só poderia ser atendida se sobrassem vagas, depois que os da comunidade fossem atendidos primeiro [...] sai de lá três da tarde (Dora 30 anos). A decadência do circo no Brasil segundo as entrevistadas mais antigas inicia- se a partir do momento catastrófico. Um menino é morto acidentalmente por um leão na arena como podemos perceber no relato: tínhamos muito bicho a segunda parte do espetáculo era os bichos trabalhando (D. Maria 72 anos). Com a morte do menino, ocorrido em 2.000, na cidade do Recife foi proibido o uso de animais silvestres em picadeiro, esse foi momento importante na história do circo. Nós tínhamos animais, dois leões três onças, tínhamos dezoito macacos, uma cobra de 5 metros, há mais ou menos 10 anos no circo Revista Diálogos N. 13 jan./mar

14 Vostok 7,um leão comeu o menino, foi uma queda grande, tomaram todos os nosso bichos, acabaram com a gente mesmo. Hoje só trabalha pra gente um bode nem cachorro não pode mais trabalhar. (Carmem 44 anos). A maneira como o verbo trabalhar aparece em muitos relatos é impressionante em especial quando tratava- se dos animais silvestres. Em Roma, cidade considerada como o nascimento do circo, eram comuns espetáculos com animais silvestres e essa predominância continuou por diversos séculos proporcionando encantamento ao circo. Todavia estes animais mantidos em cativeiros sofriam diariamente maus tratos, manter animais de grande porte não é uma tarefa fácil, tendo em vista os gastos que os mesmos proporcionam. Além de ocasionar diversos acidentes e até mortes de expectadores. Em com a morte de José Miguel dos Santos Fonseca Júnior, em Recife, com apenas seis anos de idade, sendo puxado por um leão faminto e rapidamente a destruição do seu corpo. Autoridades criaram a lei de nº10.200, proibindo a manutenção e uso de animais silvestres em picadeiros. No entanto como sabemos as leis nem sempre são cumpridas como deveriam, não é o caso do circo novo horizonte. Todavia, ainda há no Brasil diversos circos que mantêm a irregularidade quanto à utilização de animais. Em prol das artes circenses, muitos estudiosos e colaboradores lançam diversos eventos a fim de valorizar o movimento. Cito aqui alguns em especial da valorização da presença feminina no picadeiro: A revista palhacaria feminina; As Marias da Graça (RJ); Festival internacional de palhaças do Recife(PE); A palhacaria das meninas (Brasília); Ri 7 Fundado em 1873, o circo Vostok estava localizado em um estacionamento no dia 9 de abril de 2.000, quando ocorreu a tragédia que mudou a história dos circos no Brasil, pois, a partir desse momento foi proibido por lei o uso de animais silvestres. Revista Diálogos N. 13 jan./mar

15 Catarina(SC). Esses e outros movimentos Brasil a fora, tem como objetivo desmistificar a ideia de que mulher no circo só serve para assistente de palco ou como dançarina. Quanto aos sonhos? Ah esses são muitos, ora simples, ora complexo cada uma tem o seu Eu queria ser médica, só que essa vida de circo é tão boa (risos) (Ruth 13 anos). Eu queria ser advogada Diz (Bruna 14 anos). Com uma leve cobrança de participação na entrevista, já que é muito tímida e pouco comunicativa. Barry Charles da Silva 8, um dos grandes nomes das artes circenses responde a sua filha Ermínia Silva em entrevista Não queríamos que vocês aprendessem nada do circo, porque depois não conseguiríamos tirá-los de lá (apud SILVA, 2009, p.26).essa citação do grande mestre nos deixa o que Carmem nos diz em outras palavras: já disse a mãe só saio daqui quando eu morrer, ai me jogam numa cidade e eu fico pra lá. Sempre sorridente. Ou ainda confirma- se na simples frase da menina Ruth: eu queria ser médica, mas ser de circo é tão bom. Essas passagens magníficas sejam de um grande nome ou simplesmente de artistas anônimos, comuns de circo, só nos revela o encantamento que há num picadeiro. Não é à toa o brilho que o circo proporciona a sociedade sedentária, ele ainda encanta, seja aos adultos, ou crianças. Esteja na forma simples ou sofisticada envolvendo grandes apresentações, seja na cabeça de adultos curiosos que se questionam sob o modo de viver dos circenses. Há ainda um encanto por trás das lonas do picadeiro, 8 Barry Charles da Silva foi um grande ator circense, pai de Ermínia Silva, pertencente a uma terceira geração circense vinda da Europa. Barry nasceu em 1931e foi um artista circense completo dominava um pouco de tudo que a ele foi atribuído: acrobacia, equilíbrio, mágica, aéreos, dança, música (cantada e tocada), teatro, cenografia, iluminação, coreografia, vestuário, maquiagem, eletricista, ferreiro, ferramenteiro, pintor, relações públicas, empreendedorismo, legislação, propaganda e marketing, empresarial. Disponível em: &id=1862:barry-charles-silva Revista Diálogos N. 13 jan./mar

16 de um rosto pintado, seja homem ou mulher. Escondendo sua real identidade por trás das máscaras, da vontade de fazer o outro sorrir. Só a magia de um grande artista, para nos mostrarmos na sua sublime e espontânea arte. Só assim para manter esta tradição milenar e tão querida por todos. Considerações finais Este pesquisa foi de suma importância, pois, podemos perceber um lado humorístico nas mulheres que talvez em sua história marcada pelo os estereótipos impostos pela a sociedade onde predomina o machismo, tentou omitir uma natureza divertida dessas guerreiras. Ainda salientamos a importância da sociedade preconceituosa, em mulheres circenses especialmente quando estas atuam na condição de palhaças. Mulheres, guerreiras e sonhadoras, que transformaram seus lares tão preciosos em pequenos espaços de 5 metros e nem deste modo arrancaram sua feminilidade, mulheres estas que tiveram que viver com o pouco de cada dia e mesmo assim há motivos pra sorrir frequentemente. Extraíram de suas filhas o direito de ter um quarto, de ter amigos de longa data e tudo passou assim: num piscar de olhos, amizades deixadas em cada recanto brasileiro, pessoas boas e más. Lembranças curtas de lugares magníficos povoam uma memória incansável de momentos únicos, vividos em distintos lugares. Todavia, mesmo assim uma vida maravilhosa digna e como se diz por ai estou nessa vida só de passagem, e como de tempos em tempos um novo terreno, uma amizade, novos sonhos, novos conflitos. Sem dúvida, aprendi com essas mulheres fatos surpreendentes e como é bom quando podemos instruir-se com o relato de terceiros, com as experiências do próximo. Nunca me esquecerei delas: D. Maria, Carmem, Dora, Tati, Ruth e Bruna, um encanto de pessoas. Lembrarei com um grande apresso de Revista Diálogos N. 13 jan./mar

17 cada sorriso, de cada voz, de cada pedacinho contado dessa narrativa admirável, desta esplendida peripécia chamada: A vida. Referências BOLOGNESI, Mario Fernando. Circos e palhaços brasileiros. São Paulo: Cultura Acadêmica, LUCIANO, Fabio. : Do exílio republicano à tradição da mulher vestida de homem: ressentimento ou ousadia?(universidade de São Paulo, SP. Disponível em: em : 19 de jan MONTEATH DOS SANTOS, Sarah, Mulheres Palhaças: percursos históricos da palhaçaria feminina no Brasil. UNESP Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho Instituto de Artes Programa de Pós Graduação em Artes SANTOS, Anderson C. dos; SILVA, Thalita C. Da. O riso também colonizou o Brasil. Mneme Revista de Humanidades, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Caicó, v. 9. n. 24, Set/out Disponível em: < Acesso em: 10 de jan. de 2015 SILVA, Ermínia. O circo: sua arte e seus saberes - o circo no Brasil do final do século XIX a meados do XX Tese (Mestrado) - Instituto de Filosofia Ciências e Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, Respeitável público... o circo em cena / Ermínia Silva, Luís Alberto de Abreu. Rio de Janeiro: Funarte, SITES: em :02 de jan Acessado em: 12 de jan em: 23 de jan em: 23 de jan Acessado em : 25 de jan Revista Diálogos N. 13 jan./mar

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