As migrações internacionais no Brasil: construindo ferramentas para análise - Observatório das Migrações Internacionais no Brasil

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1 As migrações internacionais no Brasil: construindo ferramentas para análise - Observatório das Migrações Internacionais no Brasil Leonardo Cavalcanti 1 Tania Tonhati 2 A necessidade Nas últimas décadas os países sul-americanos, em geral, e o Brasil em particular, têm vivenciado diferentes cenários migratórios internacionais, que vão desde a chegada de novos fluxos imigratórios, passando pela consolidação da emigração e, mais recentemente, pelo retorno de emigrantes. Nesse contexto, a necessidade de um órgão destinado a pesquisa sobre o fenômeno migratório no Brasil justifica-se pela amplitude e complexidade de tal tema. Não obstante, a concepção do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) no Brasil fez-se urgente não somente pela importância do fenômeno migratório no Brasil, mas também pela necessidade de maior interação, organização e análise dos dados existentes, para que a partir deles, novas pesquisas e políticas públicas possam ser orientadas e desenvolvidas. Ademais, torna o Brasil de um importante espaço de Observação, da mesma forma que outros países com tradição de recepção de fluxos migratórios que contam com estruturas parecidas, como é o caso da Espanha (OPI Observatório Permanente de la Inmigración); Inglaterra (Migration Observatory); Portugal (Observatório da Imigração); México (Observatorio de Migración Internacional), entre outros países. Constata-se, atualmente, grande dispersão de dados, sobretudo quantitativos, coletados e armazenados pelos diversos órgãos oficiais que, por falta de uma maior coordenação, de comunicação e interação com unidades acadêmicas, não estão sendo sistematizados de forma adequada e global. São dados, muitos em estado bruto e pouco articulados entre si, essenciais para a compreensão do fenômeno migratório, inclusive para verificar a amplitude desse. A parceria com o Conselho Nacional de Imigração (CNIg), através do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), possibilita o acesso a 1 Coordenador Geral do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) e Professor adjunto da Universidade de Brasília (UnB), Centro de Pesquisa de Pós-Graduação sobre as Américas (CEPPAC). 2 Coordenadora Executiva do Observatório das Migrações e doutoranda da Universidade de Londres Goldsmiths College.

2 esses dados, abrindo portas para a sua sistematização, para a elaboração de indicadores e parcerias que auxiliem na análise das migrações. O Observatório também contribui para o campo científico, tanto em nível empírico, como teórico, pois se trata de uma iniciativa pioneira, que serve para reunir, através de uma rede acadêmica, diversos pesquisadores brasileiros e estrangeiros interessados na análise do fenômeno migratório brasileiro. A constituição de um diálogo acadêmico amplo é essencial para o incentivo e promoção de pesquisas quantitativas e qualitativas sobre os mais diversos temas relativos às migrações internacionais no Brasil. Assim, espera-se que essas pesquisas possam contribuir com dados relativos ao fluxo migratório, ao perfil sócio demográfico dos migrantes, à inserção dos mesmos na sociedade de acolhimento, especialmente no mercado de trabalho; e que também possam ampliar a compreensão sobre a cotidianidade desses migrantes, incluindo análises que abordem as relações de classes sociais, gênero e de geração, assim como as relações étnico/raciais em que estão envolvidos os migrantes. Identificou-se, ainda, a inexistência de um canal de comunicação que congregasse as informações disponíveis sobre os fluxos migratórios. Desse modo, a criação do portal eletrônico (site) do Observatório contribui para a difusão de informações (dados sobre os fluxos migratórios e, também, produção científica na área) aos cidadãos e àqueles que trabalham diretamente com a migração. Portanto, a criação do portal do Observatório das Migrações Internacionais no Brasil é uma necessidade para a disseminação de informações e conhecimento sobre a temática. O Observatório colabora, também, para o desenvolvimento científicotecnológico na área, articulando a criação de indicadores sobre o fluxo migratório a partir da analise estatística de bases de dados governamentais. Desse modo, procura viabilizar construções de plataformas que eventualmente os atores que trabalham na área temática possam ter acesso aumentando a transparência dos dados. O Observatório, portanto, providencia levantamento dos dados necessários para montagem de fluxos de informações, disponibilizando-os por meio de mecanismos que são desenvolvidos pelos pesquisadores. Deve ser destacada, ainda, a importância de análises com enfoque em situações específicas, como podem ser os estudos sobre os fluxos migratórios nos espaços de fronteiras e a pesquisa com refugiados. Ressalta-se que já há muitos estudos sendo realizados por diferentes unidades acadêmicas e entidades associativas, não obstante,

3 ainda é necessária uma maior sistematização e divulgação de seus resultados. O Observatório busca ser um importante canal para essa divulgação. A necessidade de criar o Observatório das Migrações Internacionais no Brasil também se deu pelo potencial de proporcionar desenvolvimento e inovação social da gestão do fenômeno migratório brasileiro. De acordo com Comeau (2004), o reforço das orientações neo-liberais que privilegiam o investimento público ligado ao aumento da competitividade em detrimento da esfera social, engendra novas necessidades e problemas de natureza coletiva. Nesse contexto a produção do conhecimento científico voltado para processos de desenvolvimento e inovações sociais se faz ainda mais necessário, especialmente no âmbito das ciências sociais. Nesse sentido, André e Abreu (2006) ratificam a necessidade de pensar a inovação social separada das lógicas do mercado competitivo que inova em tecnologia visando unicamente o lucro. Pelo contrário, esses autores atribuem o significado da inovação social, tanto a um processo que se desenvolve fora das lógicas do mercado e que visa prioritariamente à inclusão social; assim como a produtos que podem ser materializados em iniciativas sociais ligadas, por exemplo, aos cuidados de saúde, à ação social, à habitação, à imigração, à integração no mercado de trabalho, entre outras. De acordo com Martinelli et al., (2003), a inovação social nas suas duas dimensões, como produto e processo, deveria cumprir ao menos três características básicas: a) satisfação de necessidades humanas não atendidas por via do mercado; b) promoção da inclusão social e aumento do acesso aos direitos sociais; c) facilitação do empoderamento de grupos sociais e capacitação de agentes, potencial ou efetivamente, em processos de exclusão e marginalização social. Apoiados nas ideias de Lovye Leubolt (2005), os autores André e Abreu (2006) consideram quatro tipos de relação entre sociedade civil e inovação social: A inovação social deriva do capital social da sociedade civil (Putnam), entendida como esfera autorregulada autônoma do Estado (Teoria liberal); Inspirados na polis, os cidadãos encontram-se no espaço público para discutir e encontrar soluções para os problemas coletivos (Arendt). A sociedade civil não é autônoma do Estado, ela constrói o Estado. A cidadania é a ideia central desta perspectiva (Tradição republicana);

4 A sociedade civil autônoma (elites esclarecidas) influencia as políticas por via da ação comunicativa (Habermas), ou seja, através da construção de uma opinião pública; A sociedade civil protagoniza uma estratégia de resistência para derrubar as forças hegemônicas (Teoria crítica na tradição Gramsciana). Em suma, o Observatório busca contribuir de forma contínua para a análise da migração contemporânea no Brasil, por meio do estudo das migrações internacionais nas suas principais vertentes: imigração, emigração e migração de retorno. Assim sendo, esse surge em um momento oportuno, onde as migrações no país estão passando por processos de maior dinamismo nas suas três versões. E, portanto, o Observatório vem contribuir e tem um importante impacto, tanto de caráter científico-acadêmico, como de inovação social. Da necessidade a criação O Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) foi pensado e repensado. Sendo sua concepção discutida e rediscutida pelo CNIg, especialmente pelo Presidente do Conselho, Sr. Paulo Sérgio de Almeida, pelos técnicos da Coordenação Geral de Imigração do MTE, pelos professores e alunos do Centro de Pesquisa Pós- Graduação sobre as Américas (CEPPAC, sobretudo pelos Professores Leonardo Cavalcanti e Rebecca Igreja). O amadurecimento da ideia e a constante vontade de todos os envolvidos nessa iniciativa culminou na sua criação em dezembro de O Observatório teve amplo apoio das autoridades das duas instituições promotoras: Universidade de Brasília e Ministério do Trabalho e Emprego. Durante os seus primeiros meses de execução foi realizado o processo de seleção dos pesquisadores que compõem atualmente o Observatório. Pesquisadores esses de diversas áreas de expertise entre elas antropologia, direito, estatística, demografia, pedagogia, relações internacionais e sociologia. Sendo os pesquisadores pós-doutores, doutores, doutorandos, mestres, mestrandos e graduandos. Desse modo, o Observatório teve seu lançamento oficial, no Seminário Migração Laboral no Brasil: desafios para construção de políticas realizado no Senado Federal, em 14 de Maio de 2014, com a presença do Ministro do Trabalho e Emprego, Manuel Dias, da Vice-Reitora da UnB Dra Sonia Bao e autoridades governamentais, sindicais e acadêmicas. Nesse evento foi

5 lançado o website do Observatório - Foi também apresentado mapeamentos para a identificação dos órgãos públicos, organizações não governamentais e grupos de pesquisas e pesquisadores que trabalham com a temática migratória. Esses mapeamentos contribuíram para lançar um primeiro olhar sobre como e por quem a migração internacional brasileira está sendo tratada no Brasil e no exterior. Esses foram os primeiros passos na consolidação, concretização e divulgação do Observatório, como um meio de interlocução entre diversos grupos sociais. Metas A principal meta do Observatório é desenvolver continuamente o conhecimento sobre as migrações internacionais no Brasil, mediante pesquisas quantitativas (analises estatísticas) e qualitativas com estudos teóricos e empíricos, e apontar estratégias para a inovação social de políticas públicas que dinamizem as migrações internacionais no Brasil. Para realizar essa tarefa propõe-se analisar progressivamente três cenários que afetam o Brasil: I- A imigração internacional no Brasil na atualidade; II- A emigração brasileira para outros países nas últimas décadas; III- Os projetos migratórios de retorno dos emigrantes brasileiros pós-crise econômica mundial, a partir do ano Para tal, definimos como sendo nossos objetivos específicos: 1. Criação de banco de dados: Compilar e disponibilizar dados estatísticos; 2. Relatório anual sobre mercado de trabalho: Analisar a inserção dos imigrantes no mercado de trabalho brasileiro; 3. Pesquisas: Formentar o desenvolvimento, divulgação, edição e distribuição de pesquisas, estudos e publicações; 4. Seminários: Promover seminários, palestras e debates, e 5. Cooperação internacional: Realizar atividades de cooperação com outras instituições congêneres nacionais e internacionais que permita um maior conhecimento das migrações no Brasil, Mercosul e no mundo

6 O desenvolvimento O Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) ao longo desse primeiro ano veio se consolidando como uma iniciativa contínua que objetiva a colaboração conjunta entre o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), através do Conselho Nacional de Imigração (CNIg) e a Universidade de Brasília (UnB) através da coordenação científica do Centro de Pesquisa Pós-Graduação sobre as Américas (CEPPAC), unidade acadêmica da UnB, vinculada ao Instituto de Ciências Sociais (ICS). O conhecimento que vem sendo produzido pelo Observatório está contribuindo para avançar a compreensão teórico-metodológica do fenômeno migratório brasileiro; auxiliando na sistematização de dados estatísticos sobre a migração e, ainda, subsidiando elementos para inovação social de políticas públicas mais eficaz e eficiente, especialmente dos órgãos governamentais que lidam diretamente com as migrações internacionais no Brasil. Até o presente momento já foi possível realizar um amplo mapeamento identificando os principais órgãos públicos, organizações não governamentais e grupos de pesquisas e pesquisadores (brasileiros e no exterior) que trabalham com a temática migratória. Informações que já estão disponíveis no website do Observatório. Já obtivemos, também, acesso aos bancos de dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) e do CGI/CNIg (Coordenação Geral de Imigração e Conselho Nacional de Imigração). Dados esses que estão sendo cuidadosamente tratados estatisticamente, tabulados e analisados. Fato pioneiro no campo das migrações no Brasil. Ainda, foi possível ter acesso aos dados do IBGE, o qual possibilitou o acesso às bases de dados demográficos dos fluxos migratórios dos Censos de 2000 e No âmbito da pesquisa qualitativa e teórica, o Observatório está construindo o primeiro Dicionário sobre migração em língua portuguesa. Com mais de 70 verbetes, que estão sendo escritos por pesquisadores de diversos países com expertise na temática reconhecida internacionalmente. Esse dicionário será uma importante fonte de consulta para a academia brasileira e gestores envolvido nos estudos migratórios. Nesse ano de 2014, o Observatório vem proporcionando, ainda, aos estudantes de pós-graduação e de graduação, gestores públicos e a todos interessados nessa temática a possibilidade de participarem de debates sobre os mais diversos temas das migrações. Essa atividade é

7 realizada através dos Diálogos do Observatório, um espaço de debate onde renomados acadêmicos proferem palestras. Dentre esses vários produtos, o Observatório criou nesse ano de 2014, os Cadernos OBMigra. Essa publicação tem o intuito de ser um veículo de divulgação continuada e periódica. O objetivo é promover um espaço multi e interdisciplinar capaz de reunir estudos e debates sobre o fenômeno migratório internacional nas suas principais vertentes: emigração, imigração e retorno. Desse modo, o Observatório convida a comunidade acadêmica, a sociedade civil e órgãos governamentais dedicados da migração internacional a apresentar o resultado de seus trabalhos e manifestar seus pontos de vista por meio dessa publicação que recebe artigos, surveys, entrevistas, outros textos de pesquisas finalizadas ou em progresso e, ainda, busca abrir espaço para formas criativas de discutir a temática. Desse modo, o Observatório tem o prazer de oferecer ao público o primeiro número dos Cadernos OBMigra organizado inicialmente a partir das contribuições dos palestrantes e debatedores do Seminário Migrações Laborais no Brasil: desafios para construção de políticas. Boa Leitura!

8 Referências Bibliográficas ANDRÉ, ISABEL; ABREU; ALEXANDRE. DIMENSÕES E ESPAÇOS DA INOVAÇÃO SOCIAL. Finisterra, XLI, 81, 2006, pp COMEAU Y (2004) Les contributions des sociologies de l innovation à l étude du changement social. Innovations Sociales et Transformations des Conditions ede Vie. Actes du Colloque - 16 Avril 2004, Cahiers du CRISES, Collection Études Théoriques, ET0418: MARTINELLI F, MOULAERT F, SWYNGEDOUW E, AILENEI O (2003) Social innovation, governance and comunity building. Singocom - scientific periodic progress report month 18.

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