MEMÓRIAS DE ADOLESCENTES: UM PROJETO DE ESCRITA COM ALUNOS DO 1º ANO DO ENSINO MÉDIO

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1 MEMÓRIAS DE ADOLESCENTES: UM PROJETO DE ESCRITA COM ALUNOS DO 1º ANO DO ENSINO MÉDIO PATRÍCIA CAPPUCCIO DE RESENDE (FUNDAÇÃO DE ENSINO DE CONTAGEM), MARCELO GUIMARÃES BELGA (FUNEC - UNIDADE NOVO PROGRESSO), MARCIA BASILIA DE ARAUJO (FUNEC). Resumo Trata se de um projeto de trabalho desenvolvido nas turmas de 1os anos do Ensino Médio, na Fundação de Ensino de Contagem, por professores de diferentes áreas. Nosso objetivo principal foi propiciar aos alunos momentos de reflexão sobre sua vida cotidiana, sua história e o meio em que vivem, a partir de observações e de relatos de seus cotidianos. A intenção foi, ainda, compor com essas escritas um livro de memórias de cada turma. Para isso, os professores propuseram e acompanharam a escrita dos alunos sobre: seus cotidianos, permanências e mudanças nos modos de vida, mudanças no meio ambiente na cidade de Contagem, perfil da turma, etc. O professor de Arte colaborou na criação das capas e na montagem do livro. As pedagogas e a direção auxiliaram no desenvolvimento de cada etapa, oferecendo apoio e sugestões. Vale ressaltar que o processo foi instigado com a apresentação (no cinema!) do belíssimo filme Vida de Menina. Alunos e educadores puderam aprender com o trabalho custoso de contar as coisas com a pena (como diz Helena Morley), ou de contar as coisas com a caneta ou com o teclado do computador (para nos referirmos ao mundo contemporâneo). Para terem seus textos presentes nos livros, os alunos tiveram que ler, reler, escrever novamente e, com isso, aprenderam que o ato de escrita é um constante reescrever. Ao mesmo tempo, o trabalho foi acompanhado de prazer e alegria em ver as histórias registradas e, quem sabe, eternizadas pela escrita. Palavras-chave: escrita, Ensino Médio, memória. Este texto é resultado de um projeto desenvolvido na Fundação de Ensino de Contagem - Unidade Novo Progresso[1] durante a última etapa letiva do ano de Nossos objetivos foram propiciar aos alunos do 1º ano do Ensino Médio Regular o desenvolvimento das habilidades de escrita e incitar a reflexão sobre a vida cotidiana, a história e o meio em que vivem, a partir de observações e relatos de seus cotidianos. A intenção foi, ainda, compor com essas escritas, um livro de memórias de cada turma que seria destinado à biblioteca da escola. Para que o projeto se desenvolvesse, trabalhamos de forma interdisciplinar. Entendemos essa forma de trabalhar conforme explicitam as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio: A interdisciplinaridade deve ir além da mera justaposição de disciplinas e, ao mesmo tempo, evitar a diluição delas em generalidades. De fato, será principalmente na possibilidade de relacionar as disciplinas em atividades ou projetos de estudo, pesquisa e ação, que a interdisciplinaridade poderá ser uma prática pedagógica adequada aos objetivos do Ensino Médio (BRASIL, 1998).

2 É importante explicitar que nosso projeto não surgiu de maneira interdisciplinar, mas foi o seu processo de desenvolvimento que evidenciou a necessidade de relacionar diferentes disciplinas. O projeto iniciou-se com a proposta do professor Marcelo (da disciplina Língua Portuguesa) de trabalhar o texto relato como uma forma de significar o ato de escrever. Convém esclarecer que nessa escola não é muito difícil propor atividades aos alunos e eles cumpriremnas. Entretanto, ainda é desafio tornar o fazer significativo, ultrapassando a repetição e o vazio muitas vezes presentes. Mas como proporcionar uma aprendizagem realmente significativa? Como podemos desenvolver a habilidade de utilizar a linguagem em diferentes situações e contextos (já que este é um dos saberes presentes na área Linguagens e Códigos das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio)? Como "seduzir" os alunos a se tornarem ativos na construção desse conhecimento? Esse mesmo documento citado no parágrafo anterior nos indica uma possibilidade de atuação quando salienta que O tratamento contextualizado do conhecimento é o recurso que a escola tem para retirar o aluno da condição de espectador passivo. Se bem trabalhado permite que, ao longo da transposição didática, o conteúdo de ensino provoque aprendizagens significativas que mobilizem o aluno e estabeleçam entre ele e o objeto do conhecimento uma relação de reciprocidade. A contextualização evoca por isso áreas, âmbitos ou dimensões presentes na vida pessoal, social e cultural, e mobiliza competências cognitivas já adquiridas (BRASIL, 1998). Dessa forma, para tornar significativo o desenvolvimento das habilidades de escrita dos estudantes e também para fazê-los refletir sobre os acontecimentos diários de suas vidas e sobre o sentido de suas tarefas, Marcelo desafiou os alunos a escreverem sobre seus cotidianos. Foi proposto que cada um registrasse suas atividades diárias durante dois dias. Era necessário que os dias escolhidos fossem dias da semana (e não dias do fim-de-semana), pois também era intenção mostrar que situações interessantes podem acontecer no dia-a-dia. Posteriormente, os alunos compartilharam suas anotações devidamente datadas e "cronometradas" com os colegas e com o professor. Nesse momento do projeto, eram comuns queixas dos alunos sobre a dificuldade em registrar todas as ações diárias. Diziam: "Foi muito difícil, eu me esquecia de anotar, não imaginava que eu fazia tanta coisa...". É pertinente mencionar que nossa proposta de escrita sobre a vida dos nossos alunos, suas experiências e desejos está em consonância com as idéias de Souza et al (2009) divulgadas em um livro que aborda a temática "Letramentos no Ensino Médio". Em um capítulo que trata especificamente da leitura e da escrita no Ensino Médio para conhecer a si próprio, as autoras apontam que Em nosso cotidiano, estamos imersos em muitas práticas sociais de uso da escrita, com objetivos e em contextos diversos - a casa, a

3 rua, o trabalho, a escola, o grupo de amigos, os espaços religiosos. Entre esses contextos, a escola assume uma dimensão especial: é muito comum as pessoas dizerem que, ali, o aluno tem de aprender a ler e a escrever para "ser alguém na vida". Quando pensamos assim, não raro esquecemos que essas moças e esses rapazes já são "alguém na vida": têm experiências, conhecimentos, medos, desejos e sonhos. A linguagem escrita na escola necessita articular-se a tudo isso, precisa estar em movimento, a serviço da aprendizagem e da reflexão sobre o mundo e sobre o lugar dos alunos e alunas nesse mundo. Deve servir para que eles possam se movimentar com mais autonomia diante dos desafios e ampliar seus horizontes, suas percepções e visões sobre si mesmos e sobre o que os cerca (SOUZA et al, 2009, p. 22). Para que pudéssemos conhecer as experiências dos nossos jovens alunos, eles ainda precisavam transformar as anotações sobre seus cotidianos em relatos, de modo que fosse possível compreender o sentido que atribuíam às tarefas diárias. Era a oportunidade de os alunos escreverem sobre algo que conhecem melhor do que ninguém: suas próprias vidas. Apesar disso, grande parte dos alunos reclamou da tarefa. Julgavam que as anotações das tarefas diárias já eram o relato. Coube questioná-los sobre a função do texto. "Vocês acham que o porteiro da escola entenderia seu texto assim?"; "A professora de História saberia que isso é um registro da vida de João?" Divulgar o seu cotidiano para a comunidade escolar animou os estudantes. Nasceu aí a proposta de compor com os relatos um livro da turma. O importante, nesse momento, era difundir o fato de que seriam vários os leitores daquele livro e não apenas o professor de Língua Portuguesa. Essa era uma reflexão antiga do professor Marcelo que, a partir das leituras de BARTHES (1997) e BERNARDO (1985) sobre o público leitor de uma escrita, tentava modificar sua prática em sala. BERNARDO (1985) argumenta: "Hoje, os escritores procuram público, procuram chegar suas idéias e suas imagens a muitas pessoas, quanto mais melhor. Na escola, entretanto, (...) escrevemos para um leitor só, o professor, que por sua vez não nos responde, não nos escreve de volta, mas nos enquadra (...)" (p. 4). Assim, essa proposta de escrita foi se desdobrando e outros professores, por interesse espontâneo, foram se agrupando e contribuindo com sugestões para que os alunos reconhecessem melhor sua realidade. Textos de autoria coletiva sobre temáticas específicas também foram incorporados ao livro. Érica (professora de História) sugeriu e orientou a escrita de textos que abordavam permanências e mudanças nos modos de vida. Darci (professor de Biologia) colaborou com a escrita de textos que tratavam das mudanças do meio ambiente na cidade de Contagem. Catarina (professora de Inglês), por sua vez, provocou os alunos a escreverem, em inglês, o perfil da turma. Wemerson (professor de Filosofia) propôs uma escrita reflexiva que estimulasse o conhecimento de si próprio, das circunstâncias e das escolhas realizadas na vida. Dessa forma, além do capítulo que continha os relatos, surgiram outros capítulos que foram orientados por esses professores. A escrita de cada texto pelos alunos ou grupos de alunos foi seguida da leitura pelo professor "orientador", que sugeria revisões em vários aspectos: coerência, coesão, adequação à proposta, discussão sobre as idéias expressas, etc. Com os textos revisados, os estudantes iniciavam a reescrita dos mesmos. Era bonito perceber

4 que, enquanto refaziam o texto e confeccionavam o livro, imaginavam as pessoas lendo, principalmente os futuros filhos. O trabalho interdisciplinar também envolveu outros profissionais da escola. Flaviano (professor de Arte) colaborou na criação das capas e na montagem do livro. Alunos que tinham se destacado no trabalho com colagem desenvolvido durante as aulas de Arte, foram escolhidos para criarem as capas dos livros. Utilizaram papel de revista picado sobre papel "paraná" para compor uma imagem que representasse a turma. Os alunos escolhidos sentiram-se honrados e foi grande o envolvimento e a responsabilidade deles com a tarefa que lhes foi confiada. Finalmente, Márcia e Patrícia (pedagogas), e Jorge (diretor) auxiliaram no desenvolvimento de cada uma das etapas, oferecendo apoio e sugestões aos alunos e professores e disponibilizando parte dos materiais necessários à impressão do livro. Vale dizer que esse processo de escrita foi instigado com a apresentação, no cinema, do belíssimo filme de Helena Solberg: Vida de Menina (2005). O filme foi baseado no livro de Helena Morley, Minha vida de menina, um clássico da literatura brasileira escrito na forma de diário e que conta um pouco do cotidiano de uma adolescente nos fins do século XIX, em Diamantina. Assistir ao filme[2] foi uma excelente oportunidade para os alunos conhecerem uma realidade distante no espaço e no tempo sob a perspectiva de alguém com a mesma idade deles. Além disso, o processo de escrita do diário é evidenciado a todo momento no filme. Ao escrever, a protagonista expõe suas alegrias, tristezas, paixões. Ela vive o ato de escrita com intensidade. De alguma maneira, essa relação com a escrita da personagem do filme parece ter influenciado o modo como os estudantes encaram a escrita dos relatos. Em outras palavras, eles puderam perceber que escrever pode ser prazeroso, pode proporcionar catarse, pode ser divertido... Pudemos aprender muito (educadores e alunos) com esse trabalho custoso "de contar as coisas com a pena" (como diz Helena Morley) ou "de contar as coisas com a caneta ou com o teclado do computador" (para nos referirmos ao mundo contemporâneo). Para terem os textos presentes no livro, os alunos tiveram que ler, reler, comparar com alguém, escrever novamente e, com isso, aprenderam que o ato de escrita é um constante reescrever. Ao mesmo tempo, o trabalho foi acompanhado de prazer, alegria e alguns choros em ver as histórias registradas e, quem sabe, eternizadas pela escrita. Nós, educadores, pudemos aprender que o desenvolvimento das habilidades de escrita pode acontecer de maneira mais significativa e prazerosa. Finalizamos o texto com um depoimento dos alunos do 1º ano A sobre a realização do projeto: "Da obrigação ao prazer de escrever. Todas as melhores histórias, alegrias, tristezas, vidas de uma turma inesquecível colocadas no papel. Os vestígios desse livro ficaram para sempre na memória daqueles que com amor e dedicação se esforçaram na construção dessa obra prima". Referências BARTHES, Roland. A aula. São Paulo: Cultrix, BERNARDO, Bernardo. Redação Inquieta. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1995.

5 BRASIL, Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. CNE / CP 15. D.O.U. de 26/06/1998. SOUZA, Ana Lúcio Silva et al. Letramentos no Ensino Médio. São Paulo: Ação Educativa, [1] Instituição de ensino que se localiza na cidade de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. A escola oferece os cursos Ensino Médio (na modalidade regular e Educação de Jovens e Adultos) e os cursos Técnicos de Informática e Segurança do Trabalho com ênfase em Meio Ambiente. [2] A visita ao cinema também se constituiu uma oportunidade de os alunos conhecerem um importante espaço cultural da cidade de Belo Horizonte, o Cinema Belas Artes.

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