O REGISTRO DAS EMPRESAS NOS CONSELHOS REGIONAIS DE FISCALIZAÇÃO DO EXERCÍCIO DAS PROFISSÕES LIBERAIS.

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1 O REGISTRO DAS EMPRESAS NOS CONSELHOS REGIONAIS DE FISCALIZAÇÃO DO EXERCÍCIO DAS PROFISSÕES LIBERAIS. A Constituição Federal de 1988 dispõe que compete à União legislar sobre condições para o exercício de profissões (art. 22, XVI in fine ). De fato, a legislação ordinária, há mais tempo, cuidou de baixar normas específicas para disciplinar as profissões liberais e técnicocientíficas, bem como, instituiu organismos próprios para a fiscalização do exercício profissional. Merecem destaque, entre outros, os Conselhos de Fiscalização Profissional de: a) QUÍMICA (Lei nº 2.800/56; b) CREA (Lei nº 5.194/66); c) MEDICINA VETERINÁRIA (Lei nº 5.517/68), porque agrupam profissões que podem ter alguma ligação com a atividade industrial. Contudo, não poucas vezes, aqueles Conselhos Regionais vêm exigindo, indiscriminadamente, o registro das empresas, sob pena de aplicação de multas e execuções judiciais; basta, para tanto, que as empresas estejam ligadas, ainda que indiretamente, à profissão regulamentada, ou se utilizem dos serviços de profissional sujeito à inscrição em algum daqueles Conselhos. O procedimento daquelas autarquias fiscalizadoras acaba por atropelar os mais elementares princípios de Direito, duramente conquistados ao longo dos anos, e que se constituem na verdadeira garantia da sociedade moderna, em que prevalece o princípio da legalidade. As leis que regulamentam aquelas profissões obrigam ao registro naqueles Conselhos as firmas ou empresas que...explorem serviços... (Lei nº 2.800/56, art. 27), ou...se organizem para executar obras ou serviços... (Lei nº 5.194/66, art. 59), ou...exerçam atividades peculiares... dos médicos veterinários (Lei nº 5.517/68, art. 27). Portanto, a atividade daquelas profissões consiste na PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS e pagam o ISSQN. Já as empresas industriais FABRICAM BENS OU PRODUTOS e sujeitam-se ao pagamento do IPI e ICMS. Especificamente, quanto ao CREA, a legislação estabelece que as autoridades administrativas... não receberão ESTUDOS, PROJETOS, LAUDOS, PERÍCIAS, ARBITRAMENTOS, e quaisquer outros TRABALHOS, sem que os autores, profissionais ou PESSOAS JURÍDICAS... estejam inscritos naquele Conselho (Lei nº 5.194/66, art. 68); e prossegue: Só poderão ser admitidos nas concorrências públicas para OBRAS ou SERVIÇOS TÉCNICOS e para CONCURSOS DE PROJETOS, profissionais e PESSOAS JURÍDICAS com registro no Conselho (art. 69). 1

2 Resta, portanto, claro que as pessoas jurídicas referidas na lei são as empresas que se dedicam à execução de obras ou serviços técnicos específicos daqueles profissionais As investidas daqueles Conselhos, para que determinada empresa efetue o registro, se baseiam, simplesmente, no fato de constar no estatuto social a descrição de certas atividades-meio que, em tese, poderiam estar sujeitas à fiscalização. Como é pacífico, a característica de uma empresa decorre, exclusivamente, de sua principal atividade, pouco importando que, paralelamente, constem outras, de natureza acessória ou intermediária. Outra não é a dicção do art. 1º da Lei nº 6.839, de , que reza: O registro de empresas e a anotação dos profissionais legalmente habilitados, delas encarregados, serão obrigatórios nas entidades competentes para a fiscalização do exercício das diversas profissões, em razão da ATIVIDADE BÁSICA ou em relação àquela pela qual PRESTEM SERVIÇOS A TERCEIROS (grifamos). Básica é a atividade fundamental, principal, a atividade-fim, o objetivo final da empresa, para cuja obtenção todas as demais atividades convergem. Assim, no setor industrial, de um modo geral, a atividade básica é a produção de um artigo, de um bem, e não a prestação de um serviço, peculiaridade das profissões liberais. Especificamente, no caso dos químicos, o Superior Tribunal Justiça em Recurso Especial nº , recente se manifestara, à unanimidade: CONSELHO REGIONAL DE QUÍMICA. REGISTRO. INEXIGIBILIDADE. LEI FEDERAL 2800/56, REGULAMENTADA PELO DECRETO / A vinculação da empresa ao Conselho correspectivo de fiscalização é determinada pela atividade básica ou preponderante, por isso que o raciocínio inverso implicaria multiplicidade de registros, prática legalmente vedada. (...). 2. Tratando-se inegavelmente de atividademeio, não se presta a caracterizar a atividade-fim. A duplicidade de registro, mercê de vedada, conspira contra a ideologia constitucional da liberdade de vinculação das entidades privadas. 3. O fato de que os químicos que atuam no laboratório da empresa já se encontrarem devidamente inscritos junto ao CRQ é sufuciente para afastar o necessário registro da empresa. (RESP , Rel. Min. Luiz Fux - DJU de 16/12/2002). Não obstante o entendimento dos tribunais, os Órgãos Fiscalizadores persistem nas exigências de registro e, quando não efetuado, as 2

3 empresas acabam sendo injustamente autuadas, levando consigo o estigma de exercerem ilegalmente a atividade. Assim, a prevalecer o entendimento desses órgãos, uma empresa metalúrgica, por exemplo, que contratasse um engenheiro; um hospital que contratasse um relações-públicas; um fabricante de rações que contratasse um veterinário, etc., seriam obrigadas ao registro nos respectivos Conselhos Regionais, ainda que os profissionais já estivessem individualmente inscritos, na forma da lei. Tal exigência, a par de ilegítima, repercute em detrimento dos profissionais que, amiúde, afastam-se dessas funções, em razão dos encargos impostos pelos seus próprios órgãos profissionais de fiscalização. Ora, o emprego de serviços profissionais não pode transformar a empresa que os utiliza de credora em prestadora desses serviços. Conceitos tão exagerados levam ao absurdo de obrigar as empresas a registrar nos Conselhos Regionais os profissionais contratados, muito embora eles já estejam individualmente inscritos, na forma da lei. Há uma confusão dos meios com os fins almejados. É pacífico, na correta interpretação da lei, que o registro somente é obrigatório quando a atividade básica, primordial da empresa se consubstancia no exercício da profissão regulamentada ou, noutra hipótese, quando presta serviços a terceiros, mediante atividade reconhecida ou regulamentada como profissão, caso em que o registro se restringirá a essa atividade. Toda e qualquer atividade-meio que a empresa venha a realizar para a consecução dos seus objetivos sociais não é passível de registro naqueles Conselhos. Assim, por exemplo, não é porque uma empresa explora a fabricação de açúcar, e mantém um médico do trabalho em seu quadro de pessoal, que tem de fazer registro no Conselho Regional de Medicina (CRM). Vale ressaltar que a partir do advento da Lei nº 6.839/80 todas as outras que versavam sobre o registro obrigatório nos Conselhos de Fiscalização do exercício profissional foram derrogadas, restando melhor explicitados os critérios para tanto. Contudo, sua promulgação não foi suficiente para aplacar o ímpeto daqueles Conselhos, cujas interpretações extraídas do texto legal foram e são feitas de forma nitidamente extensiva e abusiva, colocando em risco as atividades empresariais, haja vista a indiscriminada exigência de filiação e conseqüente recolhimento de contribuições. A matéria já foi por inúmeras vezes submetida à apreciação dos Tribunais, como no caso do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, na AC nº MG, que assim se manifestou, por decisão unânime da 3ª Turma, sendo Relator o Juiz Carlos Alberto Simões: 3

4 ADMINISTRATIVO. CREA. REGISTRO. CRITÉRIO PARA VINCULAÇÃO DE EMPRESAS. LEI 5.194/66, ARTIGOS 59 e 60, E LEI Nº 6.839/80. EXIGIBILIDADE DE INSCRIÇÃO NO CREA. APELAÇÃO NÃO PROVIDA. 1. Está obrigada a registrar-se no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) a empresa que para o exercício de sua atividade básica e complementar, utiliza necessária e forçosamente, a fim de alcançar sua finalidade, engenheiros, arquitetos ou engenheiros-agrônomos. O registro também é obrigatório para a empresa que presta tais serviços profissionais a terceiros. 2. Apelação não provida. (AC , Rel. Min. Carlos Alberto Simões de Tomaz - DJU de 27/03/2003). (Grifamos) Por sua vez, o Superior Tribunal de Justiça, na apreciação do Recurso Especial nº /SC, sendo relator o Juiz Luiz Fux, decidiu: ADMINISTRATIVO. CONSELHO PROFISSIONAL. EMPRESA DE LATICÍNIOS. LEI N.º 6.839/80. INEXIGIBILIDADE DE REGISTRO JUNTO AO CRQ. PROIBIÇÃO DE DUPLICIDADE DE REGISTROS. O critério legal para a obrigatoriedade de registro, junto aos conselhos profissionais, bem como para contratação de profissional específico, é determinado pela atividade básica ou pela natureza dos serviços prestados pela empresa. 2. Do contrato social, verifica-se que a empresa tem como finalidade o beneficiamento de leite, pelo que a atividade básica por ela desenvolvida prescinde de acompanhamento por químico, pois a presença do profissional somente é necessária quando há necessidade de manipulação de fórmulas de determinados compostos químicos. 3. As usinas e fábricas de laticínios utilizam-se de métodos de industrialização que dispensam a adição de produtos químicos e não realizam reações químicas ou controle químico dos produtos. Estão obrigadas, por lei, a sofrer o controle da vigilância sanitária. A fiscalização profissional fazse pelo Conselho de Medicina Veterinária, de acordo com a Lei n.º 5.517/ Concluindo o juízo de primeiro grau e o Tribunal a quo, os quais possuem acesso ao conjunto fáticoprobatório dos autos, entenderam que a atividade básica da empresa de laticínios não se circunscreve no ramo de atividades que estão subordinadas ao registro junto ao CRQ. (... ). 5. Vedação de duplo registro. (Resp /SC, Relator Juiz Luiz Fux, DJU 16/12/2002). Grifamos Idêntica a decisão proferida pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em que foi relator o Juiz João Batista Moreira: ADMINISTRATIVO. CONSELHOS PROFISSIONAIS. FABRICAÇÃO DE VINHO. REAÇÕES BIOLÓGICAS. REAÇÕES E CONTROLE QUÍMICOS. OPERAÇÕES COMPLEMENTARES (NÃO BÁSICAS). 4

5 INSCRIÇÃO EM CRQ E CONTRATAÇÃO DE PROFISSIONAL. DESNECESSIDADE. DESCONSTITUIÇÃO DA CDA DECORRENTE DE ANUIDADES E MULTA. 1. As entidades de fiscalização do exercício profissional continuam classificadas como entidades autárquicas e as anuidades que cobram, como tributos, daí a necessidade de dar interpretação estrita às normas (no caso, art. 335 da CLT) que estabelecem exigência de inscrição de empresas e de contratação de profissional habilitado. 2. Os conselhos de profissões regulamentadas têm como missão a proteção do mercado de trabalho e a fiscalização do exercício profissional de seus filiados, atentos aos critérios de atividade básica da empresa ou de prestação de serviços a terceiros. 3. O vinho é obtido, basicamente, por reações biológicas, não se exigindo, por isso, inscrição dos respectivos fabricantes no Conselho de Química, nem sendo estes obrigados à contratação de profissional habilitado em química. (AC /MG, Relator Juiz João Batista Moreira, DJU 29/4/2002). Grifamos Em outro julgamento, sendo relator o Juiz Daniel Paes Ribeiro, o mesmo Tribunal já havia se pronunciado: ADMINISTRATIVO. EXERCÍCIO PROFISSIONAL. CREA. INSCRIÇÃO. LEI N.º 5.194/ De acordo com o disposto nos artigos 59 e 60 da Lei nº 5.194/66, a inscrição no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) é obrigatória para as empresas que exerçam atividade ligada à engenharia, assim consideradas aquelas que possuam, para o exercício de suas atividades básica e complementar, alguma seção ligada ao exercício profissional da engenharia, arquitetura e agronomia. 2. Nessa categoria não se incluem as impetrantes, que têm como atividades básicas o comércio atacadista de máquinas, aparelhos, equipamentos de informática para escritório, doméstico e industrial, comércio varejista e atacadista de material eletro-eletrônico, assistência técnica em máquinas e equipamentos industriais, além de importação e exportação, (... ). 3. Sentença confirmada. (MAS /RO, Relator Juiz Daniel Paes Ribeiro, DJU 14/11/2001). Grifamos Portanto, se a principal atividade empresarial desenvolvida não for peculiar dos métodos e processos utilizados pelo profissional no âmbito do seu exercício, inexiste obrigatoriedade de registro nos Conselhos de Fiscalização por força de expressa garantia constitucional (art. 170, único), além do princípio da legalidade que impede qualquer exigência sem base legal (art. 5º, II). Por essas razões, as investidas dos Conselhos contra as empresas, exigindo ilegalmente a inscrição, se afiguram medidas inteiramente 5

6 divorciadas do interesse nacional, além de manifestamente inconstitucionais. O registro é indispensável para que o profissional possa validamente exercer a sua profissão. Mas, o fato de ser contratado por uma empresa, para aperfeiçoamento dos serviços internos, não pode obrigá-la, também, a registrar-se no mesmo Conselho. Caso contrário, surgiriam aberrações curiosas, como, por exemplo, toda a empresa com advogado, representante comercial, químico e engenheiro, contratados, deveria inscrever-se na Ordem dos Advogados do Brasil, no Conselho Regional de Representantes Comerciais, no Conselho de Químicos e no de engenharia. Portanto, as empresas devem registrar-se, apenas e tão-somente, no Conselho Regional de profissão regulamentada, quando a atividadefim for peculiar do respectivo Conselho. As atividades-meio não exigem inscrição nos Conselhos Profissionais, mesmo que a empresa mantenha profissional da área em seu quadro funcional. Porto Alegre, 16 de junho de Wanderley Marcelino Coordenador da Unidade Jurídica do Sistema FIERGS/CIERGS 6

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