UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE EDUCAÇÃO

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE EDUCAÇÃO REVISTA QUERUBIM LETRAS CIÊNCIAS HUMANAS CIÊNCIAS SOCIAIS Número 13 Ano 07 Fevereiro 2011 N I T E R Ó I R I O DE J A N E I R O

2 Página 2 de 175 Revista Querubim 2011 Ano 07 nº p. (Fevereiro 2011) Rio de Janeiro: Querubim, Linguagem 2. Ciências Humanas 3. Ciências Sociais Periódicos. I - Titulo: Revista Querubim Digital Conselho Científico Alessio Surian (Universidade de Padova - Italia) Carlos Walter Porto-Goncalves (UFF - Brasil) Darcilia Simoes (UERJ - Brasil) Evarina Deulofeu (Universidade de Havana - Cuba) Madalena Mendes (Universidade de Lisboa - Portugal) Vicente Manzano (Universidade de Sevilla - Espanha) Virginia Fontes (UFF - Brasil) Conselho Editorial Presidente e Editor Aroldo Magno de Oliveira Consultores Alice Akemi Yamasaki Andre Silva Martins Elanir França Carvalho Enéas Farias Tavares Guilherme Wyllie Janete Silva dos Santos João Carlos de Carvalho José Carlos de Freitas Jussara Bittencourt de Sá Luiza Helena Oliveira da Silva Marcos Pinheiro Barreto Paolo Vittoria Ruth Luz dos Santos Silva Shirley Gomes de Souza Carreira Vanderlei Mendes de Oliveira Venício da Cunha Fernandes

3 Página 3 de 175 SUMÁRIO 1 Relações entre tédio e trabalho na contemporaneidade Adriana Aparecida Almeida de 04 Oliveira e José Sterza Justo 2 Graciliano Ramos e os cárceres da memória Ana Maria Abrahão S. Oliveira 10 3 Fundamentos básicos da sociolinguística teórica e prática Anselmo Pereira de Lima 15 4 Globalização e associativismo: reflexões sobre uma nova prática sindical e de 20 esquerda Antonio Carlos Lopes Petean 5 Momentos de reflexões colaborativas em ambiente virtual: uso de estratégias 25 textuais Arlinda Cantero Dorsa e Danielle Bueno Fernandes Silva 6 Ciência, tecnologia e ideologia: uma relação possível? Cézar Thadeu Pedrosa de 32 Oliveira 7 Aprimoramento articulatório de algumas consonantes na pronúncia de anglofalantes 39 aprendizes do português Cirineu Cecote Stein e Rafael Alves de Oliveira 8 Compreensão responsiva leitora de alunos do 3º ano do ensino médio Cristiane 45 Malinoski Pianaro Angelo e Michele Kupczi 9 Um olhar sobre a poética de Maria Ângela Alvim Danglei de Castro Pereira e Isabelle 52 Akemi Diniz Tanji 10 UHE Belo Monte: questões políticas sobre aproveitamento hidrelétrico e 56 desenvolvimento na Amazônia Dion Márcio Carvaló Monteiro e Roselene de Souza Portela 11 Considerações sobre escolarização da leitura e formação do gosto do leitor 62 Estela Natalina Mantovani Bertoletti 12 Educação diferenciada bilingue e intercultural no contexto escolar Apinayé: um olhar 69 para o professor de língua materna e sua prática pedagogica Francisco Edviges Albuquerque, Severina Alves de Almeida, Maria José de Pinho e Eliana Henriques Moreira 13 Letramento literário numa escola de tempo integral: a formação de leitores em 76 perspectiva Gislene Pires de Camargos Ferreira e Maria José de Pinho 14 A educação à distância no ensino superior como instrumento de inclusão social 83 Hermísio Alecrim Aires, Severina Alves de Almeida e Jeane Alves de Almeida 15 Regulamentação do direito autoral na internet: normas e conceitos Honácio Braga de 90 Araújo, Ágnes Ravany de Sousa Meneses e Isabel Gomes e Silva 16 Planejamento educacional: o planejamento dialógico como alternativa ao projeto 96 neoliberal Jeane Alves de Almeida e Severina Alves de Almeida 17 Avaliação do desenvolvimento acadêmico do curso de biologia modalidade à 109 distancia da uft: as turmas do pró-licenciatura em perspectiva Jucilei Esteves de Macedo, Adriano Antonio Brito Darosci e Jeane Alves de Almeida 18 De identidade e de pós-modernidade: reflexões interdisciplinares Leila Karla Morais 115 Rodrigues Freitas 19 Ajudando a superar conflitos: a literatura infantil no processo de ensino-aprendizagem 122 Maurício Silva e Márcia Moreira 20 A poesia social no itinerário poético de Carlos Alberto de Assis Cavalcanti 126 Miryan Jussara Leite Lopes e Carlos Alberto de AssisCavalcanti 21 Provocações ético-filosóficas a respeito da formação humana do professor Pedro 134 Braga Gomes e Ana Cristina Santos Siqueira 22 Artifícios de Mise en Abyme: a leitura em ilustrações de livros infantis Rodrigo da 140 Costa Araujo 23 O processo de escolarização: da emergência da classe e do currículo à maquinaria 148 escolar Rosa Marta Mendes Casal 24 A violência contra a mulher e a Lei Maria da Penha: um estudo teórico Severina Alves 153 de Almeida, Adriana Ribeiro Aguiar, Maria Antonia Almeida Climaco, Milkya Valéria Costa Batista da Silva e Odeisa Ribeiro dos Santos 25 Biblioteca viva: um relato de experiência Silvana Aparecida Catellan Miliosi Tradução em contextos pós-coloniais: a desconstrução de uma visão metafísica 165 Tatiany Pertel 27 BICALHO, Gabriel ; DONADON-LEAL, José Benedito ; LEAL, Andreia Donadon ; FERREIRA, José Sebastião. Ventre de Minas: poesia. Mariana: Aldrava Letras e Artes, 2009, 124p. José Luiz Foureaux de Souza Júnior 172

4 Página 4 de 175 RELAÇÕES ENTRE TÉDIO E TRABALHO NA CONTEMPORANEIDADE Adriana Aparecida Almeida de Oliveira Bacharel em Psicologia Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho Assis SP José Sterza Justo Livre-Docente em Psicologia do Desenvolvimento Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho Docente do curso de graduação e pós-graduação em Psicologia UNESP Campus de Assis SP Resumo: O presente trabalho é uma reflexão teórica que procura discutir, a partir de autores e teorias consagradas, as possíveis relações entre o trabalho e o tédio na contemporaneidade. Diferentemente das sociedades industriais modernas, centradas principalmente na produção, as atuais são caracterizadas pela ênfase no consumo. O trabalho despojado de sentido para a existência e o consumo abdicador de ações criadoras e produtoras, tornam o sujeito apenas um organismo digestivo criando condições propícias para o aparecimento do tédio, um modo de subjetivação marcado por um estado de desinteresse pelo mundo, enfim, uma vida de baixa intensidade. Palavras-chave: Contemporaneidade; trabalho e tédio. RELATIONSHIPS BETWEEN BOREDOM AND WORK IN THE CONTEMPORANEOUSNESS Abstract: This study is a theoretical investigation which intends to discuss possible relationships between work and boredom based on notable authors and theories. Unlike modern industrial societies centered mainly in production, new societies are characterized by increased consumption. The meaningless work and non-productive and prospective consumption leads the subject to be only a digestive organ providing favorable conditions for the presence of boredom, a mode of subjectivation characterized by a status of unconcern for the world, i.e. a low-intensity lifestyle. Keywords: Contemporaneousness; work and boredom. Contemporaneidade e cultura do consumo A pós-modernidade pode ser caracterizada pela ampliação ao máximo das opções de escolhas dos indivíduos, pela valorização do I, em que o que importa é a realização pessoal imediata, não há otimismo quanto ao futuro e o que ocorre é sentimento de saciedade e estagnação (LIPOVETSKY, 2005, p. 8). O sujeito contemporâneo, assim como a sociedade, encontra-se em constante mutação, pois como afirmam Esteves e Galvan (2006) tanto a Igreja quanto o Estado, que antes forneciam através da repressão uma certa estabilidade, são hoje representados de forma distinta da anterior. Assim, esse estado de instabilidade questiona e destrói muitos paradigmas antes amplamente aceitos como a segurança no trabalho e a estabilidade da instituição familiar, gerando o sentimento de desamparo: (...) Lugares em que o sentimento de pertencimento era tradicionalmente investido (trabalho, família, vizinhança) são indisponíveis ou indignos de confiança, de modo que é improvável que façam calar a sede por convívio ou aplaquem o medo da solidão e do abandono (BAUMAN, 2005, p.37).

5 Página 5 de 175 Salem (2001) afirma que a pós-modernidade instala uma nova concepção de individualismo ao despojar o indivíduo das obrigações sociais, Dufour (apud CAPOIA e CANIATO, 2006) aponta que se vive atualmente um momento inédito na história humana em que o indivíduo toma a si mesmo como referência, devido a descrença nos ideais políticos e religiosos da atualidade. Contexto esse que Lipovetsky (op.cit.) sugere como segunda revolução individualista". Assim: Na época pós-moderna o indivíduo perdura como valor principal e, nesse sentido, seu direito de se realizar à parte do todo social mantém em curso a obra da modernidade (SALEM, 2001, p.101). Bauman (2005) afirma que o sujeito contemporâneo tem como tarefa e objetivo de vida constituir uma identidade, sendo esta marco de uma libertação dos costumes tradicionais, das autoridades imutáveis, das rotinas impostas e dos axiomas. O indivíduo, cada vez mais responsável por si mesmo, se caracteriza pela falta de significado. Segundo Svendsen (2006) o sujeito não consegue obter significado pessoal: (...) o significado está ligado à relação que uma pessoa motivada mantém com o mundo (SVENDSEN, 2006, p.31). Em sua análise considera que o homem não consegue viver sem algum conteúdo que lhe permita constituir significado, ou seja, precisa de algo que lhe dê sentido para sua vida. Porém, com o avanço tecnológico, o sujeito pósmoderno afasta-se dessa possibilidade: O problema é que, cada vez mais, a tecnologia moderna nos torna consumidores e observadores passivos, e cada vez menos participantes ativos. Isso nos dá um déficit de significado (idem). Na ausência de sentido, o sujeito recorre ao consumo, para que este aplaque esta falta e lhe dê uma identidade pessoal. Busca-se constantemente o novo, entretanto este sempre se torna velho e não cumpre uma função individualizante, como afirma Salem (2001, p.120): Novos desejos devem despertar continuamente a atenção e o interesse dos consumidores, de modo a manter a engrenagem de um sistema que é alimentado pela insatisfação compulsória dos indivíduos.sistema este que também ocasiona, segundo Lasch (apud SALEM, 2001), um estado de desconforto e ansiedade crônica, instigando as pessoas à ganância e agressividade tornando-as frágeis, passivas e dependentes. O consumo, no entanto, impossibilita a auto-individuação, visto que o consumo é impessoal por natureza e não permite ao homem a elaboração de questões existenciais básicas, tal como lembra Svendsen (2006) ao enfatizar a importância da produção de sentidos relevantes e estáveis para a vida. O consumo promove as identidades descartáveis, tornando-as efêmeras e vazias, vendendo a idéia de que se pode ser tudo o que deseja, por meio da compra de estilos de vida. O mundo do consumo se apresenta como um Mar de possibilidades (Carvalho, 1998) entendido, sobretudo, como alternativas de escolhas dentre as variedades de mercadorias ofertadas. O próprio sujeito, constituído na onipresença do mercado, se transforma em mercadoria e se relaciona com o outro também transformado em mercadoria. Na verdade, o homem despossuído, do qual fala Birman (2006), é o homem despojado de suas forças, neutralizado e substituído por uma infinidade de produtos e serviços disponíveis no mercado que fazem por ele praticamente tudo de que precisa para viver. Em suma, as liberdades e as possibilidades existentes têm como referentes principais o mar de mercadorias. Transformado em objeto e despossuído de si mesmo o homem se desvanece enquanto sujeito e perde o fio dos sentidos de sua existência. Diante de tantas possibilidades de identidades superficiais emerge o vazio depressivo. Carvalho (1998) afirma que os sujeitos permanecem desamparados, imersos nesse mar de possibilidades. Iludido sobre seu poder de decisão, o consumista, de acordo com Salem (2001), fica à deriva das lógicas de consumo e da produção de massa, além de perder um referencial estável devido a obsolescência das mercadorias. Em suma, as liberdades e as possibilidades existentes têm como referentes principais o mar de mercadorias. Transformado em objeto e despossuído de si mesmo o homem se desvanece enquanto sujeito e perde o fio dos sentidos de sua existência. Afinal, além da

6 Página 6 de 175 possibilidade de consumir, há alguma possibilidade para o homem pós-moderno? Carvalho (1998, p.230) responde a tal questão, afirmando que: Basicamente tudo o que escapa à incorporação totalizante e irresistível do capital e da produção encontra-se desfocado, num processo de desinvestimento crescente", assim como reitera Bendassoli (2009, p.76): No fundo, a questão que atinge a todos: é a sociedade centrada no mercado que dita as regras. Tédio Nesse ambiente de instabilidade e consumismo, em que o ser humano não encontra segurança e sim a angústia, destaca-se uma forma de subjetivação: o tédio. Carvalho (1998) afirma que o tédio instala-se devido a um cansaço vindo pela busca de um ideal inatingível. Na atualidade o capital tornou-se um ideal supremo a ser buscado e esta busca interminável e fadada ao fracasso origina o tédio."nasce assim a mais nova divindade contemporânea. O dinheiro, este meio de acesso ao mundo maravilhoso (p.201), é também ele gerador de um tédio, de um cansaço que acompanha subseqüentemente cada um dos ideais inatingíveis" (CARVALHO, 1998, p.214). O tédio caracteriza-se pela apatia, desinteresse pelo mundo, impossibilidade de encontrar algo que desejamos, cansaço. Svenden (2006) reconhece a falta de significado pessoal do sujeito contemporâneo como tédio e propõe como uma das causas deste enfado a profunda autonomização do sujeito que perde qualquer referencial de limite, tornando-se valor supremo na sociedade, não reconhece nada que difira de si próprio e assim tudo torna-se igual e entediante. O tédio está circundado por uma avalanche de objetos do gozo, mas vazio de sentido. Os objetos estão aí, mas o sentido não; é a falta de sentido que torna os objetos indiferentes. O tédio diz respeito à indiferença, que é o oposto, segundo Freud ( ), tanto do amor como do ódio, porque ela não vincula. Afirma ele: O amor não admite apenas um, mas três opostos. Além da antítese amar-odiar, existe a outra de amar-ser-amado ; além destas, o amar e o odiar considerados em conjunto são o oposto da condição de indiferença (FREUD, , p.154). A saber, nessa passagem, Freud está comentando a origem das relações de objeto, na primitiva fase do narcisismo primário, e situa a indiferença em relação ao mundo como uma atitude primordial de desinteresse, presente no psiquismo do bebê. Portanto, a impulsão para o mundo, para a criação de vínculos, não é apriorística e, mais ainda, dependerá da atratividade do mundo, da sua capacidade de corresponder às buscas fundamentais da existência humana, vale dizer, não a busca de coisas, mas a busca do outro. A sociedade do consumo, como uma sociedade não vincular, como uma sociedade que procura substituir o outro por mercadorias desperta justamente, a indiferença, a falta de sentido e não o amor ou o ódio. Diante do estado subjetivo de vazio de sentido, busca-se o acúmulo de sensações e impressões. Bauman (1999) afirma que os consumidores são colecionadores de sensações, nas palavras de Salem (2001, p.125): (...) colecionadores de sensações cuja relação com o mundo se estabelece em torno das experiências que sirvam de alimento para a sensibilidade. A busca desenfreada pelas sensações é um movimento de fuga do tédio assim como a transgressão: "O tédio e a transgressão estão intimamente ligados.tem-se a impressão de que a cura para o tédio reside em ir além do eu, de maneira cada vez mais radical, porque a transgressão põe o eu em contato com algo novo, algo diferente do mesmo que ameaça afogá-lo no tédio" (SVENDSEN, 2006, p.70). Não seria também o consumo desenfreado uma transgressão? Tédio e trabalho A cultura do consumo como um dos principais traços da contemporaneidade, assim como o tédio, têm conseqüências que abalam também a esfera do trabalho. Salem (2001) afirma que

7 Página 7 de 175 diferentemente das sociedades industriais modernas, centradas principalmente na produção, as atuais são caracterizadas pela ênfase no consumo: Em outras palavras, enquanto as primeiras engajavam seus membros prioritariamente como produtores e soldados, as sociedades contemporâneas precisam comprometê-los como consumidores (SALEM, 2001, p.120). Assim o trabalho e a produção deixam de ser o eixo principal da vida do sujeito pós-moderno, passando para segundo plano, enquanto o consumo ocupa o lugar central ofertando um mar de possibilidades (Carvalho, 1998) de mercadorias e estilos de vida. O trabalho despojado de sentido para a existência e o consumo que dispensa ações criadoras e produtoras tornam o sujeito apenas um organismo digestivo, criando as condições propícias para o aparecimento do tédio. O trabalho entediante é tão corrosivo para as empresas que já surgem medidas para combatê-lo no ambiente de trabalho. Conforme destaca Bendassoli (2009) tédio e trabalho são antagônicos, pois o sujeito entediado não contribui para o trabalho, muito menos para o crescimento da empresa. Assim neste contexto pós-moderno faz-se necessário que a empresa tenha uma gama de alternativas que evitem tal estado. Bendassoli (2009) nomeia cinco antídotos que as organizações, principalmente por meio dos departamentos de recursos humanos, utilizam para combater o tédio: a cultura organizacional (pois esta oferece sentido ao trabalho e valoriza o trabalhador); o terror (este refere-se ao risco de se perder o emprego); o culto às sensações (frases que estimulam a aventura, a competição e a adrenalina); a insistência de que as pessoas encontrem sentido no trabalho que estão realizando; os salários e benefícios. Todo este arsenal de medidas busca convencer o sujeito da importância de seu trabalho, seja por meio da ameaça da perda de emprego, seja pelo investimento na auto-estima do empregado, seja pela promessa de realização pelo consumo. Todas estas ilusões mantêm milhares de trabalhadores entediados presos a necessidade de trabalho e consumo. Outra oferta presente é a de significado, mediante a qual as empresas buscam ofertar significado pessoal ao sujeito para que consiga assim aplacar seu tédio, porém, esta oferta deve ser comedida visto significação pessoal pode ser induzida, mas jamais assimilada como um objeto de consumo. Bendassoli (2009) diferencia trabalho e ideologia de trabalho, nesta diferenciação pode-se perceber que há também uma instância que mascara o tédio presente no primeiro, visto que este ainda é sinônimo de monotonia e baixa remuneração para muitos brasileiros. A ideologia de trabalho segundo o autor diz respeito ao conjunto de crenças da época sobre o valor do ganha - pão e o trabalho relaciona-se às atividades práticas dos indivíduos que possui valor de troca com o empregador.por meio da ideologia o trabalho passa a ter novas significações para o sujeito, então deixa de ser vivido como atividade repetitiva e torna-se possibilitador de autodescobertas, fonte de aprimoramento e de colecionamento de desafios, riscos e oportunidades (Bendassolli, 2009), o mesmo sujeito colecionador de sensações (Bauman, 1999) que busca a fuga do tédio e do vazio de sentido também o faz na sua relação com o trabalho.outra possibilidade de significado oferecida pela ideologia é apontada pelo sociólogo Ehrenberg (Apud BENDASSOLLI, 2009) que é a aproximação desta com os conteúdos ligados ao esporte, estimulando assim que os profissionais vivam em estado de caça aos desafios ocasionando estados crônicos de ansiedade e frustração, mas não de enfado. Outro aspecto do trabalho é o que Bendassoli (2009) denomina de reivindicações da época, afirmando que cada época tem um discurso oficial sobre a carreira profissional. Destaca que a atual caracteriza-se por novas práticas que sugerem rupturas radicais com um passado de práticas obsoletas, burocráticas e tradicionais. Neste discurso é possível perceber traços da cultura pós-moderna que, de acordo com Bendassoli (2009), podem ser resumidos em três premissas, sendo estas respectivamente: a carreira torna-se responsabilidade do próprio profissional, a morte do trabalho e a aceleração do tempo.

8 Página 8 de 175 O fim do trabalho o desloca do centro da vida fazendo com que o sujeito busque desenvolver um projeto de vida em consonância com seus próprios valores pessoais e aspirações. O trabalho deve então relacionar-se com a identidade do sujeito, é possível perceber que nesta esfera da vida também o objetivo é a constituição de uma identidade (Bauman,2005). Porém esse conceito é uma invenção moderna supondo-se que esta deve permanecer inalterável, exige-se o impossível: Ora, ao mesmo tempo em que se afirma que a carreira é uma realidade instável, sem gravidade, sujeita a rupturas, descontinuidades e fragmentações, admite-se, implicitamente, que há uma identidade que não varia, ou que, se variar, o faz apenas a título de ajustes de curso (BENDASSOLI, 2009, p.63). Bendassoli (2009) afirma que o sujeito "submetido ao discurso da identidade" pode acreditar que antes de fazer suas escolhas deve descobrir sua identidade, entretanto não percebe que esta também é algo instável e mutável. A aceleração do tempo refere-se a descartabilidade: O que valia ontem já não vale mais hoje. Isso significa que, a todo momento, é preciso revisar o projeto e estabelecer novas coordenadas, sem, no entanto, desviar-se do centro dos valores pessoais (BENDASSOLI, 2009, p.61)". O autor afirma que este tempo acelerado impõe aos profissionais o trabalho de Sísifo de recomeçar sempre. É possível perceber esta exigência como resultado da sociedade de consumo, que deixa o sujeito a cargo de si mesmo. Lipovetsky (Apud SALEM, 2001) afirma que o indivíduo torna-se responsável pelo próprio destino, submetido ao consumismo que lhe impõe a necessidade de fazer escolhas constantemente em sintonia com seu desejo e busca de satisfação imediata. Ao revisar constantemente seu projeto de vida, o indivíduo é tomado pela lógica da sociedade de controle que, segundo Deleuze (1992), implementa a experiência do tempo contínuo: nada se acaba, tudo permanece num constante estado de recomeço que não leva a lugar algum e sempre retorna ao ponto de partida.trata-se de um processo de repetição que intensifica o tempo e mantém a vida sempre acelerada. Na sociedade hipercinética, nada tem permanência ou durabilidade, inclusive o próprio vínculo de trabalho ou até mesmo a identidade profissional solicitada a se reciclar continuamente em função das frenéticas mudanças tecnológicas. Bendassoli (2009) afirma que essas premissas têm a finalidade de simplificar e explicar um "conjunto amplo e díspar de fenômenos", sua finalidade é tranqüilizar e propiciar uma sensação de ordem ao trabalhador: "Por exemplo, ao instruir profissionais a cuidar de sua própria carreira, diversos consultores especializados partem do príncipio de que esta é a melhor maneira de lidar com o ambiente caótico e instável do emprego, transmitindo a seus clientes uma sensação de segurança relativa, no caso de eles estarem seguindo as prescrições - por exemplo: investindo em cursos de reciclagem, pós-graduação, coaching, mentoring, assessment ou simplesmente estando "preocupados", "antenados" (BENDASSOLI, 2009, p.61)". Estas instruções também funcionam como um remédio anti-tédio, pois ao buscar orientar o sujeito para a distância do caos, objetiva-se camuflar a condição humana na pós-modernidade, que como afirma Harvey (1998) caracteriza-se pela incorporação e aceitação do efêmero e do provisório, o tédio nesse sentido aparece como um estado subjetivo que é contrário a este movimento, pode também ser entendido como uma recusa a acompanhar o ritmo frenético da superfície da vida. Conclusão A presente reflexão teórica levantou algumas relações entre o trabalho e o tédio na contemporaneidade, procurando enfatizar o papel do consumismo. Na cultura do consumo, primeiro, o trabalho perde força, enquanto atividade básica de potencialização do sujeito, enquanto meio fundamental de sua inscrição no mundo; segundo, a passividade consumista compulsiva

9 Página 9 de 175 enfraquece a capacidade de o sujeito produzir sentido para a vida; terceiro, os produtos e serviços oferecidos pelo mercado são todos mediados pelo dinheiro, tornando-se abstratos e escamoteando as relações sociais neles presentes, com isso, funcionando como elemento de afastamento dos indivíduos. Solapado enquanto sujeito produtor e fragilizado nos seus vínculos de trabalho, resta ao indivíduo aferrar-se à busca de reconhecimento e visibilidade como consumidor, tornando-se uma máquina digestiva compulsiva, ou recusar sua diluição no frenesi do mercado, refugiando-se no tédio. É notável a inversão de valores ocorrida recentemente entre trabalho e consumo. Há não muito tempo atrás, a produção, o trabalho, a poupança, a ausência de dívidas eram tidas como grandes virtudes. A profissão era uma das principais insígnias do sujeito e ser um trabalhador, ainda mais aquele fiel ao patrão e à empresa, era seu bem mais precioso e o atestado principal do seu caráter. Hoje, ao contrário, em que pese a necessidade do trabalho, ele já não é uma referência nuclear do sujeito, nem seu foco identitário. Se antes éramos o que fazíamos, hoje somos o que consumimos e na volatilidade das mercadorias não se consegue experimentar alguma durabilidade ou continuidade de si mesmo. No turbilhão de excitações, de experiências passageiras e de relacionamentos fortemente mediados pelo mercado, o tédio comparece como um modo de subjetivação possível. No campo do trabalho, o tédio representa o protesto atual contra a alienação e a objetivação extremas, decorrentes de um exacerbado produtivismo que tende a substituir o homem pela máquina e mesmo quando o admite no processo de produção faz dele uma peça provisória que pode ser facilmente substituída. O tédio no trabalho pode ser tomado como falta de interesse, falta de motivação e indiferença pelo que se faz, como se faz e com quem se faz. Denuncia um trabalho reduzido à uma necessidade básica, uma necessidade imperiosa, obrigatória, porém, tão desinvestida de sentido social e pessoal que se realiza com um mínimo de implicação. Trabalho mantido como simples sobrevivência, como meio para se ter acesso àquilo que é ilusoriamente oferecido como sendo o sentido primordial da vida: comprar, consultar o manual de instrução, usar, gozar e descartar para recomeçar tudo outra vez. Referências Bibliográficas: BAUMAN, Z. Globalização: conseqüências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, BENDASSOLLI, P. F. Os fetiches da gestão. São Paulo: Idéias & Letras, BIRMAN, J. Subjetividades contemporâneas. In: Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: CANIATO, A.M.P., CAPOIA, A. M. Narcisismo e Sociedade de Consumo (Apresentação de Trabalho/Comunicação).In: IV Encontro Latino Americano dos Estados Gerais da Psicanálise, 2006, São Paulo.Anais eletrônicos...são Paulo: Estados Gerais da Psicanálise, 2006.Disponível em: CARVALHO, P. R. O tédio nosso de cada dia: uma análise parcial dos processos de subjetivação da contemporaneidade f. Dissertação (Doutorado em Psicologia) - Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: 34, FREUD, S. Os instintos e suas vicissitudes. In: Edição eletrônica da obras completas de Sigmund Freud. Vol.XIV. p Rio de Janeiro: Imago, (Originalmente publicado em 1915). Luto e melancolia. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XIV p Rio de Janeiro: Imago, (Originalmente publicado em 1917). HARVEY, D. Condição pós-moderna. São Paulo: Ed. Loyola, LIPOVETSKY, G. A Era do Vazio: Ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Manole, SALEM, P. O Vazio sem Trágico: um estudo histórico sobre o tédio. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro:2001. SVENDSEN, L. Filosofia do Tédio. Tradução Rio de Janeiro: Zahar, Recebido em 15/01/2011 Avaliado em 15/02/2011

10 Página 10 de 175 GRACILIANO RAMOS E OS CÁRCERES DA MEMÓRIA Ana Maria Abrahão S. Oliveira Doutoranda em Literatura Comparada UFF Bolsista CNPq Resumo: O artigo intenta analisar a escritura autobiográfica de Graciliano Ramos em Memórias de cárcere (1953).Tenciona-se compreender como as memórias do Velho Graça, que foi detido como preso político durante a Ditadura de Getúlio Vargas, no Brasil da década de 1930, são escritas apenas dez anos após a soltura do escritor, que viveu todo esse tempo numa constante e angustiante hesitação até iniciar a sua obra de caráter testemunhal, elaborando uma escrita que se caracteriza, principalmente, pela necessidade e pela (im)possibilidade de representar os fatos vividos através da linguagem. Palavras-chave: escrita autobiográfica testemunho Graciliano Ramos Abstract: The article intends to analyze the writing of autobiographical memories Graciliano Ramos in Memórias do cárcere (1953). It is intended to understand how the memories of the Velho Graça, who are detained as a political prisoner during the dictatorship of Getúlio Vargas, in Brazil 1930 s, are written only ten years after release the writer who lived all this time on a constant and agonizing hesitation to begin this work of witnesses character, developing a writing that is characterized mainly by need and the impossibility of representing the events lived through the language. Keywords: autobiographical writing witness Graciliano Ramos Nietzsche não acreditava (...) que uma organização racional das relações sociais faria desaparecer, completamente, da sociedade moderna as figuras negativas da violência, opressão e experiência.(giacoia JR.: 2000, p. 39) (...) parecia-nos impossível preencher a distância que nós descobrimos entre a linguagem de que dispúnhamos e essa experiência que, em sua maior parte, nos ocupávamos ainda em perceber em nossos corpos. (ANTELME apud SELIGMANN-SILVA: 2006, pp ) Introdução A escritura autobiográfica de Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere (1953), que foi detido como preso político, durante a Ditadura Vargas, dá-se apenas dez anos após a soltura do escritor, que viveu todo esse tempo numa constante e angustiante hesitação até iniciar a sua obra testemunhal não obstante a insistência de amigos escritores e familiares já com a certeza de que sua vida estava próxima do fim, elaborando uma escrita que se caracteriza, principalmente, pela necessidade e pela impossibilidade de representar os fatos vividos através da linguagem, numa

11 Página 11 de 175 dolorosa escritura do real, em que a experiência traumática, de acordo com a teoria freudiana, nunca é assimilada no tempo em que ocorre. (SELIGMANN-SILVA, 1999, p.40) e num exaustivo esforço em que a memória e o esquecimento são elementos sempre presentes. (WEINRICH, 2001, p.10) As Memórias do cárcere: testemunho doloroso do passado As Memórias do cárcere, Graciliano representam não apenas o seu testemunho,mas recompõe o painel de uma época a década de 1930 e a Ditadura Vargas. Nesse texto escrito apenas dez anos após a ocorrência dos fatos, há uma grande distância entre o eu que narra e aquele que sofreu as agruras do cárcere. É um movimento tenso entre o presente e o passado instaurando um diálogo entre o sujeito da enunciação ( o eu narrador) e o sujeito do enunciado ( o eu narrado), que é trazido à tona pelo primeiro. As Memórias iniciam-se com um capítulo que aqui denominaremos capítuloprefácio. O narrador explique por que razão titubeou tanto para iniciar a escrita de suas memórias. No decorrer da leitura da obra, podemos inferir que o cárcere é uma metáfora do país, com todas as suas desigualdades. O Brasil inteligente, os intelectuais, estavam encarcerados juntamente com criminosos dos mais diversos lugares, condenados a cumprir pena por terem praticado dos mais simples aos mais horrendos delitos. O narrador via-se na impossibilidade de representar, através da escrita, a experiência vivida, mas, paradoxalmente, estava imbuído da necessidade de utilizar a literatura como instrumento de resistência, pois, (...) [n]a literatura de testemunho se articula: de um lado a necessidade premente de narrar a experiência vivida; do outro, a percepção tanto da insuficiência da linguagem de fatos (inenerráveis) como também e com um sentido muito mais trágico a percepção do caráter inimaginável dos mesmos (...) (SELIGMANN- SILVA: 2006, p. 46) O autor hesita muito antes de relatar os fatos que vivenciou e testemunhou, principalmente por ter de trilhar o caminho difícil e tortuoso da rememoração. No capítulo que já denominamos capítulo-prefácio, Graciliano expõe os motivos pelo quais hesitou tanto antes de iniciar a escrita, conferindo assim, um sentido metalinguístico à narrativa. Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos passados há dez anos e antes de começar digo os motivos porque silenciei e porque me decido. Não conservo notas: algumas que tomei foram inutilizadas e assim, com o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais difícil, quase impossível, redigir essa narrativa. (RAMOS: 2001, v. 1, p.33) Num questionamento lúcido ao próprio fazer literário, nas condições em que se encontrava, já bem próximo da morte, Graciliano questiona-se quanto ao direito de escrever sobre pessoas ainda vivas com quem conviveu no cárcere. Isso havia se tornado um complicador porque não pretendia, segundo suas palavras, redigir uma ficção, o que se tornou um impasse para o escritor. Entretanto havia a necessidade de testemunhar. Também me afligiu a idéia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma espécie de romance, mas teria eu o direito de utilizá-las em história presumidamente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas? (RAMOS: 2001, v.1, p.33)

12 Página 12 de 175 Diante da possibilidade de dizer o indizível, de rememorar o sofrimento de si e dos outros, o narrador até mesmo cogita fazer a opção de delegar a tarefa a outrem. (...) julgando a matéria superior às minhas forças, esperei que outros mais aptos se ocupassem dela. (RAMOS: 2001, v.1, p. 33). As Memórias do cárcere são uma obra de caráter testemunhal. Para Seligmann-Silva (1999), somente a arte pode dar conta de enfrentar o desafio de representar o indizível: O testemunho se coloca desde o início sob o signo de sua simultânea necessidade e impossibilidade. Testemunha-se um excesso de realidade e o próprio testemunho enquanto narração testemunha uma falta: a cisão entre a linguagem e o evento, a impossibilidade de recobrir o vivido (real) com o verbal. O dado inimaginável da experiência concentracionária desconstrói o maquinário da linguagem. Essa linguagem entravada, por outro lado, só pode enfrentar o real equipada com a própria imaginação: por assim dizer, só com a arte a intraduzibilidade pode ser desafiada _ mas nunca totalmente submetida. (SELIGMANN- SILVA: 1999, p. 40) grifo nosso Na literatura de testemunho, em que se pretende representar a realidade, o vivido, o que se manifesta pela intraduzibilidade, ressaltamos a importância da escrita testemunhal como um ato de comprometimento que o autor tem consigo mesmo e com a sociedade. (...) o olhar perspicaz, coisa sempre rara, vê o que passa despercebido à maioria desatenta. Nesse caso, a verdade subjetiva de uma só testemunha poderá valer pela vontade objetiva que a História pretende guardar e transmitir. (BOSI: 2008, p. 10) O escritor, quando fora conduzido ao Rio de Janeiro no porão do navio Manaus, quando juntamente com vários outros presos políticos, expressa sua necessidade visceral de escrever, de relatar aquela situação, não obstante e estar num ambiente sem higiene e sem condições mínimas de sobrevivência para o ser humano: Necessário escrever, narrar os acontecimentos em que me embaraçava (...) Indispensável fatigar-me, disciplinar o pensamento rebelde, descrever o balanço das redes, fardos humanos abatidos pelos cantos, a arquejar no enjoo, a vomitar, as feições dos meus amigos a acentuar-se pouco a pouco.(ramos: 2001, v. 1, p.151) Esse desejo imperioso de escrever, de testemunhar é o ponto de partida para a narrativa de Graciliano Ramos. O sofrimento em demasia, além do suportável, abre uma fenda entre o eu e o mundo. Segundo Nitschack, O cárcere e as armadilhas da memória A transformação de um sujeito de sofrimento (sujeito no sentido etimológico de subordinado ) em um sujeito (no sentido enfático de dono de si mesmo ) que se apodera do mundo somente é possível, para Graciliano, no ato de significar o mundo, em outras palavras: o ato de escrever.(nitschack: 2009, p. 240) grifo nosso A hesitação do narrador em escrever as suas Memórias do cárcere, cuja explicação aparece no primeiro capítulo da obra, o capítulo-prefácio, no decorrer da escrita, dilui-se e o memorialista passa a redigir como se estivesse fazendo um exercício de liberdade no seu escrever. O receio de cometer indiscrição exibindo em público pessoas que tiveram comigo convivência forçada já não me apoquenta (...) Não me agarram métodos, nada me força a exames vagarosos (...) não me obrigo a reduzir um panorama, sujeitá-los a dimensões regulares, atender ao paginador e ao horário

13 Página 13 de 175 do passageiro do bonde. Posso andar para a direita e para a esquerda como um vagabundo, deter-me em longas paradas, saltar passagens desprovidas de interesse, passear, correr, voltar a lugares desconhecidos. Omitirei acontecimentos essenciais ou mencioná-los-ei de relance, como se enxergasse pelos vidros pequenos de um binóculo;ampliarei insignificâncias, repeti-las-ei até cansar, se isto me parecer conveniente. (RAMOS: 2001, v.1, pp ) Entretanto, o narrador admite claramente que Liberdade completa ninguém desfruta: (...) mas nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer. (RAMOS: 2001, v.1, p. 34) Num Estado totalitário, como na ditadura Vargas, marcado pela repressão e pela suspensão de direitos individuais e coletivos, avulta a narrativa memorialística de Graciliano Ramos, pois segundo Ginzburg, na literatura autobiográfica, questiona-se o valor do que chamamos de verdade. O estudo da autobiografia frequentemente evoca o problema da verdade. Dentro da discussão constantemente renovada sobre as relações entre realidade e ficção, hoje intensificadas pela teorização sobre o testemunho, a verdade é, muitas vezes, considerada um fator de definição de valor. (GINZBURG: 2009, p.124) Desse modo, a escrita testemunhal está diretamente ligada às forças históricas em tensão. Por isso como é possível atribuir veracidade a um relato testemunhal, que é consequência direta da distribuição dessas forças? Em cenários de luta política, o critério de atribuição de verdade a um texto é a expressão do posicionamento dentro da luta. A autobiografia pode assumir um papel de mediação, instrumento de confronto, em que a experiência individual atua como fundamento para interpretar e discutir as experiências coletivas.(ginzburg: 2009, p. 124) Portanto, é construído um debate intelectual entre textos escritos _ depois de um contexto social conflitivo em regimes políticos ditatoriais _ que terminam por testemunhar, já com um certo distanciamento temporal, um passado caracterizado pela repressão. Graciliano escreveu durante todo o período em que esteve preso, o ato de escrever era uma necessidade visceral para ele, porém teve de se desfazer de seus escritos, o que para o autor não representou um impedimento, propriamente. Não resguardei os apontamentos obtidos em largos dias e meses de observação: num momento de aperto fui obrigado a atirá-los na água. Certamente me irão fazer falta, mas terá sido uma perda irreparável? Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material. Se ele existisse, ver-me-ia propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia por dizer com rigor a hora exata de uma partida (...) frases autênticas, gestos, gritos, gemidos. Mas que significa isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. E se esmoreceram, deixálas no esquecimento: valiam pouco(...) Outras, porém, conservaram-se, cresceram, associaram-se e é inevitável mencioná-las. Afirmarei que sejam absolutamente exatas? Leviandade. (RAMOS: 2001, v.1, pp ) As lacunas presentes na memória evidentemente interferiram no escrever de Graciliano, mas por outro lado, o esquecimento faz-se necessário para que aflorem os elementos da memória. Nietzsche, no poema O sol está baixando, canta o esquecimento, conferindo a ele uma dimensão de liberdade, como no fragmento abaixo: Tudo o que foi difícil

14 Página 14 de 175 caiu em azul esquecimento ocioso está o meu barco agora Viagem e tempestade tudo ele desaprende! Naufragaram desejos e esperança, Lisos estão a alma e o mar. (NIETZSCHE apud WEINRICH: 2001, p. 178) Os fatos passados são retomados porque a memória os retém, entretanto, as ideias passadas podem ser comparadas e medidas com as presentes: condição importante para conquistar experiência e saber.(...) o esquecimento faz parte da memória como seu defeito sempre ameaçador (WEINRICH: 2001, p. 99) Porém, tanto para Graciliano quanto para Nietzsche, o esquecimento pôde proporcionar um certo alívio para Tudo o que foi difícil. Referências bibliográficas: BOSI, Alfredo. A escrita do testemunho em Memórias do cárcere. Revista de Estudos Avançados da USP.Volume 9, nº 23. São Paulo: jan./abr GIACOIA JR. Oswaldo. Nietzsche. Coleção Folha Explica. São Paulo: Publifolha, 2000 GINZBURG, Jaime. Impacto da violência e constituição do sujeito: um problema de teoria da autobiografia. In: GALLE, Helmut; OLMOS; Ana Cecília; KANZEPOLSKY, Adriana;IZARRA, Laura Zuntini (orgs.) Em primeira pessoa Abordagens de uma teoria da autobiografia. São Paulo: Annablume; FAPESP; FFLCH, USP, NIETZSCHE, Friedrich. O sol está baixando In: WEINRICH, Harald. Lete: arte e crítica do esquecimento. Trad.: Lya Luft. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, NITSCHACK, Horst. A escrita autobiográfica de Graciliano Ramos: buscando o espaço da subjetividade In: GALLE, Helmut; OLMOS; Ana Cecília; KANZEPOLSKY, Adriana;IZARRA, Laura Zuntini (orgs.) Em primeira pessoa Abordagens de uma teoria da autobiografia. São Paulo: Annablume; FAPESP; FFLCH, USP, 2000 RAMOS, Graciliano. Memórias do cárcere. 37ª ed.,v Rio de Janeiro:Record, 2001 SELIGMANN-SILVA, Márcio. A literatura do trauma. Revista Cult, São Paulo, n. 23, p. 40, jun Escrituras da memória e da história. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio. (org.) Palavra e imagem: memória e escritura. Chapecó: Argos, WEINRICH, Harald. Lete: arte e crítica do esquecimento. Trad.: Lya Luft. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, Recebido em 15/01/2011 Avaliado em 15/02/2011

15 Página 15 de 175 FUNDAMENTOS BÁSICOS DA SOCIOLINGUÍSTICA TEÓRICA E PRÁTICA Anselmo Pereira de Lima Professor Adjunto Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) Campus Pato Branco Resumo: Este texto tem por objetivo específico apresentar e discutir fundamentos básicos da Sociolinguística. Para isso, propõe e realiza um percurso de reflexão que parte de um breve resgate do Estruturalismo e do Gerativismo, passa pela própria definição do que é a Sociolinguística, explicita sua razão de ser (o porquê) até chegar a exemplos de trabalhos de pesquisa nela pautados (o como). O objetivo geral do trabalho é se constituir como convite para que leitores interessados em questões de Educação Linguística possam se iniciar e aprofundar nesse campo dos estudos da linguagem. Palavras-chave: Estruturalismo, Gerativismo, Sociolinguística. Abstract: The specific aim of this text is to present and discuss the basic foundations of Sociolinguistics. In order to achieve this goal, it proposes and follows a reflexive path that goes from a brief review of Structuralism and Generativism, accompanied by a definition of Sociolinguistics itself, to the presentation of its meaning (why it should be practiced) and of researches based on it (how it should be practiced). The general aim of the text is to invite readers interested in matters related to Linguistic Education to initiate and carry on investigations in this field of language studies. Keywords: Structuralism, Generativism, Sociolinguistics. Por que fazer Sociolinguística? Como ou de que forma fazer Sociolinguística? Para responder a essas questões de maneira adequada é necessário fazer um percurso que parte de um breve resgate do Estruturalismo e do Gerativismo, passa pela própria definição do que é a Sociolinguística, explicita sua razão de ser (o porquê) até chegar a exemplos de trabalhos de pesquisa nela pautados (o como). Neste texto, com o objetivo de apresentar alguns fundamentos básicos de introdução à Sociolinguística tanto teórica quanto prática, propomo-nos justamente a fazer esse percurso. Segundo Camacho (2001, p. 62), houve e até hoje há certa concepção monolítica de linguagem, baseada na suposição metodológica de que a estrutura Linguística é necessariamente homogênea. Tal concepção surgiu a partir de Saussure (1916/1977), que concebeu a Linguística a partir da dicotomia por ele proposta entre língua (langue) e fala (parole). Diz Saussure que a língua emerge da fala utilizada na comunicação social. Tem-se, então, a primazia da língua em detrimento da fala, considerada caótica demais para ser estudada. Esse é, em linhas gerais, o Estruturalismo. Ainda segundo Camacho (2001, p. 62), o Gerativismo, tendo em Chomsky (1965) seu real precursor, deu continuidade ao modelo estruturalista por meio da concepção de uma competência (competence) em oposição a um desempenho linguístico (performance) de um certo falante. Para Chomsky, a competência é o objeto de estudo da Linguística por ser homogêneo e, assim como a língua em relação à fala no modelo proposto por Saussure, tem primazia sobre o desempenho, o qual é, mais uma vez, um fenômeno caótico e heterogêneo demais para ser estudado. De acordo com esses paradigmas de estudo da linguagem, o Estruturalista e o Gerativista, a coleta de dados não poderia ter sentido algum, sendo inteiramente desnecessária. Com isso, passou a haver o estudo linguístico totalmente desvinculado de um contexto social no qual a fala ou o desempenho se realizam. Isso foi certamente conveniente e cômodo para o linguista, uma vez que

16 Página 16 de 175 ele sempre preferiu trabalhar com seu próprio conhecimento das regras (língua e competência) de funcionamento da linguagem (Camacho, 2001, p ). Diante do Estruturalismo e do Gerativismo, o que viria a ser a Sociolinguística? Em poucas palavras, pode-se dizer que ela corresponde exatamente à maneira contrária de se fazer Linguística dos estruturalistas e dos gerativistas. Se nesses modelos a fala ou o desempenho são desprezados como sendo fenômenos caóticos e heterogêneos demais para serem cientificamente estudados, na Sociolinguística eles são o objeto de estudo ideal e único. Segundo Tarallo (1985, p. 06), a Sociolinguística diz respeito à relação entre língua e sociedade, sendo seu principal objetivo fazer a sistematização do aparente e suposto caos e heterogeneidade da língua falada, a qual é, na verdade, dentro desse modelo de análise, totalmente sistematizável. Segundo o autor, foi Willian Labov (1963; 1966) quem insistiu com mais veemência na relação entre língua e sociedade e na necessidade de sistematizar o suposto caos linguístico. Já tendo trilhado parte do percurso proposto no início deste texto, podemos agora arriscar uma resposta à pergunta Por que fazer Sociolinguística?. Entendemos que toda ciência, principalmente as humanas, tem por objetivos principais duas ações igualmente importantes: 1) permitir o avanço do conhecimento em determinada área; 2) beneficiar diretamente os indivíduos pesquisados por meio do conhecimento gerado. Ao estudar a língua em detrimento da fala e a competência em detrimento do desempenho, o que afinal é mais ou menos equivalente, o Estruturalismo e o Gerativismo, apesar de todos os seus méritos, deixaram de lado um objeto de estudo muito importante: a linguagem em uso dentro de contextos sociais. Não queremos dizer que esses modelos não tenham dado suas contribuições e que não tenham de certa forma alcançado os objetivos da ciência expostos anteriormente. Queremos antes enfatizar a idéia de que, certamente, a Sociolinguística faz isso de maneira muito mais produtiva, ainda que para isso precise lançar mão de conceitos e procedimentos próprios do Estruturalismo e/ou do Gerativismo. Com a Sociolinguística, passa-se a conhecer mais a fundo os fenômenos linguísticos e, consequente e efetivamente, os indivíduos pesquisados são valorizados e beneficiados pelos resultados da pesquisa. Essa é a resposta. Deve-se fazer Sociolinguística sobretudo porque a língua na sociedade, em situação real de uso, a fala ou o desempenho se se preferir, é muito importante para ser ignorada. Deve-se também fazer Sociolinguística porque a linguagem é essencialmente social: é na sociedade que ela se realiza, é na sociedade que ela faz sentido, é na sociedade que ela existe. Como diz Bakhtin (1929/2002:70): Assim como, para observar o processo de combustão, convém colocar o corpo no meio atmosférico, da mesma forma, para observar o fenômeno da linguagem, é preciso situar os sujeitos emissor e receptor do som, bem como o próprio som, no meio social. Com efeito, é indispensável que o locutor e o ouvinte pertençam à mesma comunidade Linguística, a uma sociedade claramente organizada. E mais, é indispensável que estes dois indivíduos estejam integrados na unicidade da situação social imediata, quer dizer, que tenham uma relação de pessoa para pessoa sobre um terreno bem definido. É apenas sobre este terreno preciso que a troca linguística se torna possível; um terreno de acordo ocasional não se presta a isso, mesmo que haja comunhão de espírito (Bakhtin, 1929/2002, p. 70). Para aprofundar mais esta reflexão, deve-se explorar um pouco as características do suposto caos linguístico e da chamada heterogeneidade linguística de que falamos anteriormente. Segundo Tarallo (1985, p. 05), o caos basicamente se configura como um campo de batalha em que duas (ou mais) maneiras de dizer a mesma coisa (chamadas variantes linguísticas) se enfrentam em um duelo de contemporização, por sua subsistência e coexistência, ou, mais

17 Página 17 de 175 fatalisticamente, em um combate sangrento de morte. Para ilustrar esses aspectos, tomemos o exemplo de duas maneiras de dizer a mesma coisa: a) os carros vermelhos, b) os carro vermelho. No exemplo a, temos a marca de pluralidade nos três elementos do sintagma, conforme prescreve a norma padrão da língua portuguesa. Já no exemplo b, temos a marca de pluralidade apenas no primeiro elemento do sintagma, em oposição à prescrição da norma padrão. Poder-se-ia dizer que há aqui um estado de caos, de heterogeneidade linguística. Porém, tomando-se o sintagma b como exemplo e com um estudo mais detido do fenômeno de queda da marca de pluralidade dos dois últimos elementos, certamente a conclusão seria a de que há também consistência nessa forma linguística, segundo uma norma própria diferente, mas tão consistente quanto a norma padrão: é sempre o primeiro elemento do sintagma que vem marcado do s em sinal de plural (cf. Bagno, 1999, p ). Por que ocorre essa variação? A resposta, como já foi explicitado, é relativamente simples: ocorre em função de elementos contextuais sociais, mas também linguísticos. É, como diria Bakhtin (1979/2003, p. 265), a língua na sociedade e a sociedade na língua, a língua penetrando na vida e a vida penetrando na língua. Mas que elementos contextuais sociais e linguísticos seriam esses? Fatores lingüísticos internos e fatores lingüísticos externos. Os primeiros dizem respeito às próprias regras linguísticas de cada variante, enquanto os últimos estão relacionados às características dos falantes: faixas etárias, regiões onde moram, classes sociais de que fazem parte, profissões que exercem, graus de escolaridade, grupos étnicos aos quais pertencem e uma série de outros fatores que se poderiam enumerar e considerar. Com isso, começamos a mostrar como ou de que maneira fazer Sociolinguística. O pesquisador precisa indispensavelmente levar em conta a realização linguística na sociedade, considerando os fatores linguísticos internos (as regras segundo as quais funciona cada variante) e os fatores linguísticos externos correspondentes às características sociais dos falantes. O modo como se deve fazer Sociolinguística diz respeito a procedimentos teóricometodológicos especiais. Tarallo (1985, p ) faz uma excelente descrição da teoria, do método e do objeto sociolinguístico. Diz o autor que a relação entre esses três elementos é imprescindível em qualquer ciência, não podendo existir independentemente. Na Sociolinguística, deve-se partir do objeto de estudo para posteriormente estabelecer o modelo teórico, o qual deverá dar conta de todos os fenômenos do objeto, evitando-se assim a chamada higienização dos dados, ou seja, a manipulação dos fenômenos pelo pesquisador com o objetivo de forçar um resultado desejado. Esse objeto corresponde, obviamente, à língua falada, ao vernáculo. Segue a definição de objeto apresentada pelo autor:...é o veículo linguístico de comunicação usado em situações naturais de interação social, do tipo comunicação face a face. É a língua que usamos em nossos lares ao interagir com os demais membros de nossas famílias. É a língua usada nos botequins, clubes, parques, rodas de amigos; nos corredores e pátios das escolas, longe da tutela dos professores. É a língua falada entre amigos, inimigos, amantes e apaixonados. Em suma, a língua falada é o vernáculo: a enunciação e expressão de fatos, proposições, idéias (o que) sem a preocupação de como enunciá-los. (todos os negritos são nossos) (Tarallo, 1985, p ). O grande desafio, segundo o autor, é como coletar o vernáculo. Em primeiro lugar, a quantidade de dados deve ser enorme e de boa qualidade sonora, pois o modelo Sociolinguístico é de natureza quantitativa, devendo o corpus ter representatividade dos fenômenos observados. Como os dados devem ser constituídos pela língua falada em situações naturais, a grande questão é como coletar essa quantidade de material sem alterar sua naturalidade como resultado da presença do pesquisador. Uma possível alternativa é assumir o papel de observador e também, quando for

18 Página 18 de 175 necessário provocar a realização de uma variável linguística específica, o de participante direto da interação. Ao participar diretamente da interação, o pesquisador, tendo em vista não alterar ou alterar o mínimo possível a naturalidade do vernáculo, deve lançar mão do método de entrevista sociolinguística: a coleta de narrativas de experiências pessoais. O pesquisador deve ter em mãos o gravador e, conforme a entrevista decorre, tentar neutralizar a influência de sua presença e da do gravador como elementos estranhos à situação. Isso pode ser conseguido por meio da representação do papel de aprendiz interessado na comunidade de falantes e em seus problemas e peculiaridades. O pesquisador deverá também evitar a palavra língua, para desviar a atenção do participante da pesquisa de sua maneira de falar. Como preparação para a coleta dos dados, o pesquisador poderá formular e utilizar um questionário-guia de entrevista. O resultado é que, ao relatar sua experiência pessoal, o participante fica emocionalmente envolvido com o que diz e, assim, presta o mínimo de atenção ao como, sendo exatamente esta a situação natural de comunicação que o pesquisador-sociolinguista busca obter. Cabe agora apresentar, de maneira breve, duas pesquisas para ilustrar o modo como se deve fazer Sociolinguística. O trabalho As vogais médias postônicas: uma análise variacionista, de Maria José Blaskovski Vieira (2002), teve por objetivo analisar as realizações das vogais médias em posição não-final e final, buscando-se identificar os fatores linguísticos e extralinguísticos que influenciam na preservação ou elevação dessas vogais. Nesse trabalho foi utilizado o banco de dados VARSUL, do qual foram selecionados, em função de idade e grau de escolaridade, oito participantes de cada uma das quatorze cidades que compõem o banco. Na análise das vogais postônicas não-finais, por exemplo, foi adotada como variável dependente a elevação das vogais médias /e/ e /o/ em posição postônica não-final. As variáveis independentes foram de dois tipos: as linguísticas e as extralinguísticas. As variáveis independentes linguísticas foram: o contexto que precede as vogais médias, o contexto que as sucede, a presença de vogal alta na palavra e a posição ocupada pela vogal média na palavra. As variáveis independentes extralinguísticas foram: faixa etária do participante, escolaridade e cidade onde mora. Uma das conclusões principais a que se chegou foi a de que, ao contrário do que se esperava, a variável geográfica foi considerada pela análise do pacote estatístico VARBRUL como aquela que menos têm influência nos fenômenos investigados. Percebe-se que esse estudo foi rigorosamente controlado no que se refere a suas variáveis e procedimentos. Foi um tipo de pesquisa sociolinguística muito próxima das pesquisas realizadas nas ciências naturais, uma vez que lidou mais com fatores de ordem fonética: as vogais médias /e/ e /o/ em posição postônica nãofinal. Um outro trabalho, chamado Negativa pré- e pós-verbal: implementação e transição, de Mônica G. R. Alckmim (2002), teve por objetivo tratar da implementação e da transição de uma estratégia de negação: a negativa que aparece simultaneamente antes e depois do verbo [Não V Não], a qual é recorrente na fala de informantes da região de Mariana (MG). Nesse trabalho, foram utilizadas 2505 amostras de negativas, das quais a construção estudada representa 19,5%. O estudo buscou contestar duas hipóteses conhecidas para esse fenômeno: 1) a de que essa estratégia de negação seja resultante do contato do português brasileiro com línguas africanas, tendo assim origem externa; 2) a de que seria resultado de mudanças linguísticas internas ao sistema das línguas românicas: o enfraquecimento do primeiro não que deu origem ao surgimento do segundo não. Além disso, o trabalho buscou confirmar a hipótese de que houve uma reanálise do item não, o qual no princípio figurava como um enunciado completo e depois foi reanalisado como parte da sentença.

19 Página 19 de 175 Levando-se em conta a importância do fator etnia, foi realizado um estudo variacionista das estratégias de negação em um corpus formado por falantes das comunidades de Pombal e de Mariana. Essa escolha foi decorrente do fato de a população desses lugares ser constituída de maioria negra e descendente de escravos. Buscando-se identificar o grupo que estaria levando adiante a implementação da negação dupla através do cruzamento dos fatores externos como faixa etária, etnia e escolaridade, chegou-se à conclusão de que trata-se de um tipo de mudança que ocorre de baixo para cima na escala social, isto é, dos não-escolarizados para os escolarizados, ficando claro que são, portanto, os analfabetos os responsáveis pela transição dessa variante na língua. A pesquisa não foi apenas sincrônica (em tempo aparente), mas, buscando-se confirmar as conclusões até o momento expostas, foi também realizada uma pesquisa diacrônica (em tempo real). Nesse caso, o corpus para análise se constituiu de textos de peças de teatro de séculos passados, com o objetivo de descobrir em que momento essa mudança se iniciou. A realização dessa segunda fase da pesquisa permitiu concluir que se trata de uma mudança em progresso, cuja variante inovadora surgiu na primeira metade do século XIX. A contestação das duas hipóteses conhecidas para esse fenômeno foi, com isso, legitimada, confirmando-se também a hipótese proposta, segundo a qual houve uma reanálise do item não, que no princípio figurava como um enunciado completo e, depois, foi reanalisado como parte da sentença. Percebe-se nesses dois exemplos de pesquisa sociolinguística muita relação com o modelo proposto por Tarallo no que diz respeito à teoria, ao método e ao objeto de estudo. Com isso, chegamos ao fim do percurso proposto no início deste texto, no qual lançamos as seguintes questões: por que fazer Sociolinguística? Como ou de que forma fazer Sociolinguística? Buscando responder adequadamente a essas questões, partimos de um breve resgate do Estruturalismo e do Gerativismo, passamos pela própria definição do que é a Sociolinguística, explicitamos sua razão de ser até chegarmos a exemplos de trabalhos de pesquisa nela pautados. O resultado são fundamentos básicos que podem servir como introdução à Sociolinguística teórica e prática, os quais ficam aqui registrados também na forma de convite para que o leitor se aprofunde nessa área dos estudos linguísticos. Referências bibliográficas ALCKMIM, M. G. R. Negativa pré- e pós-verbal: implementação e transição. In: COHEN, M. A.; RAMOS, J. M. (orgs.) Dialeto mineiro e outras falas. Estudos de variação e mudança linguística. Belo Horizonte: Faculdade de Letras/UFMG, BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1979/2003. BAKHTIN, M. (Volochinov). Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud. Yara Frateschi Vieira. 10 ed. São Paulo, Hucitec, 1929/2002. BAGNO, M. A língua de Eulália: novela sociolinguística. 3. ed. São Paulo: Contexto, CAMACHO, R. G. Sociolinguística: Parte II. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A. C. (orgs.) Introdução à Linguística 1. Domínios e Fronteiras. 2. e.d. São Paulo: Editora CORTEZ, LABOV, W. The stratification of English in New York City. Washington, D. C.: Center for Applied Linguistics, LABOV, W. The social motivation of a sound change. In: Sociolinguistics patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1963 SAUSSURE, F. de. Curso de Linguística geral. São Paulo, Cultrix, 1916/1977. CHOMSKY, N. Aspects of the theory of Syntax. Cambridge, Massachusetts: The MIT Press, TARALLO, F. A pesquisa sociolinguística. São Paulo: Editora Ática, VIEIRA, M. J. B. As vogais médias postônicas: uma análise variacionista. In: BISOL, L.; BRESCANCINI, C. (orgs.) Fonologia e variação: recortes do português brasileiro. Porto Alegre: EdiPUCRS, Recebido em 15/01/2011 Avaliado em 15/02/2011

20 Página 20 de 175 GLOBALIZAÇÃO E ASSOCIATIVISMO: REFLEXÕES SOBRE UMA NOVA PRÁTICA SINDICAL E DE ESQUERDA Antonio Carlos Lopes Petean Doutorando em Sociologia pela UNESP/Araraquara/SP Resumo: O artigo propõe uma reflexão sobre a atuação dos sindicatos e dos partidos de esquerda frente à mitificação do mercado, imposta pela atual globalização econômica. Buscaremos tratar dos prós e contras da globalização, bem como apresentar suas raízes filosóficas e ideológicas construídas no século XVIII. Palavras-chave: Globalização, mitificação, mercado. Summary: This article proposes a reflection on achievements by the syndicates and left-wing parties front the mythfication of the market, imposed by the present economic globalization. We will try to deal with the pros and cons of the globalization, as well as presenting its philosophical and ideological sources built in the 18 century. Key-words: Globalization; Mythfication; Market. O problema das desigualdades sociais e regionais é um dos temas mais controvertidos e tem feito parte da agenda global. As desigualdades regionais se aprofundam, gerando um mundo cada vez mais instável e, portanto, inseguro. Embora exista uma grande preocupação com os efeitos da globalização, não há um consenso sobre como pode ser dada uma resposta aos graves problemas que o mundo globalizado tem vivenciado. Held e Mcgrew (2001), afirmam que muito embora haja uma preocupação com as desigualdades globais, não existe um consenso sobre suas causas e como lidar com seus efeitos. De um lado os céticos e de outro os globalistas, divididos em liberais e sociais democratas. Para os globalistas liberais, a criação de um mercado global, baseado no livre comércio e na competição global, será o instrumento responsável pela modernização e desenvolvimento uniforme da economia mundial. Esse grupo tem como exemplo o leste asiático, com altas taxas de crescimento econômico nos anos Os globalistas liberais dão ênfase na total abertura econômica e gradativa redução das tarifas alfandegárias. Nesta ótica, a globalização esta associada ao desenvolvimento econômico mundial. Já os globalistas de viés social democrata afirmam que a globalização tem aprofundado as desigualdades regionais e nacionais. Este grupo argumenta que a África, o Oriente Médio e parte da Ásia permanecem como regiões exploradas pelo capital internacional, dando continuidade a produção de bens primários. Portanto, a globalização para esse grupo, esta associada ao crescimento da pobreza em determinadas regiões do globo. No pólo oposto aos globalistas estão os céticos, de inclinação marxista, que não acreditam no New Deal global. Os céticos vêem a globalização como mais uma etapa de domínio do capital e de aprofundamento das desigualdades regionais e de classe. Para estes, a subordinação do mundo do trabalho ao capital permanece e aprofunda-se na nova ordem econômica. Para Ianni (1998), desde que o capitalismo se desenvolveu na Europa, apresentou conotações internacionais, multinacionais e transnacionais, responsáveis pela acumulação de capital e pelas desigualdades regionais. Ianni (1998) utiliza o termo ou metáfora Fábrica global para falar da transformação quantitativa e qualitativa do capitalismo. Assim, toda economia nacional, torna-se província da economia global e finalmente o modo de produção capitalista entra na sua fase realmente global, desenvolvendo de forma mundial a nova divisão internacional do trabalho e acelerando mundialmente as forças produtivas.

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