Aula 05 DEFESA COMERCIAL BRASILEIRA

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1 Turma/Ano: Direito Internacional Público (2015) Matéria/Data: Defesa Comercial. Solução De Litígios Internacionais por Meios Diplomáticos (02/09/15) Professor: Luiz Oliveira Castro Jungstedt Monitora: Márcia Beatriz Aula 05 DEFESA COMERCIAL BRASILEIRA Uma vez tomada a decisão pela Organização Mundial do Comércio, e não sendo esta cumprida espontaneamente pelo país vencido, poderá o vencedor tomar as medidas necessárias (sanções) para equilibrar a balança comercial e assim materializar a decisão da OMC. Como visto anteriormente, no plano interno pátrio, essas sanções comerciais são impostas pelo Sistema Brasileiro de Defesa Comercial que sob a competência do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) é composto pela Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) e pelo Departamento de Defesa Comercial (DECON). Apesar de o procedimento administrativo ser instaurado e conduzido pelo DECON, a aplicação das regras antidumping é decidida pela Secretaria da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX) mais conhecido como Conselho de Ministros, este órgão é ligado ao Conselho de Governo e não pertence ao MDIC. São três as espécies de sanções comerciais: - Medidas antidumping: tarifação pecuniária imposta em face de dumping (prática desleal); - Medidas compensatórias: estabelecidas nos casos de subsídios estatais (prática comercial desleal); - Medidas de salvaguarda: aplicadas temporariamente, mesmo diante de atos não ilícitos, na defesa da indústria nacional. Medidas Antidumping A Lei n /95 dispõe sobre a aplicação das regras do acordo antidumping do GATT/OMC e o Decreto n /13 regulamenta todo o processo administrativo de investigação e aplicação de medidas antidumping no território nacional.

2 Consoante o art. 7º do Decreto n /13, dumping corresponde à introdução de um produto no mercado doméstico brasileiro a um preço inferior ao seu valor normal. A sanção contra esta prática predatória consiste na tarifação do produto pelo Estado de forma provisória ou definitiva. O limite desta penalidade é definido pela margem de dumping, que de acordo com o art. 25 do Decreto, equivale à diferença entre o valor normal do produto e o preço da exportação. Caso a sanção seja implementada de imediato (provisoriamente), o importador poderá suspendêla até que sobrevenha a decisão final no processo administrativo, desde que para isso ofereça uma garantia no valor correspondente ao total da sanção art. 3º da Lei n /95. O prazo máximo de duração da medida provisória é de 120 dias podendo em alguns casos chegar a 240 dias. Quando definitivas, as medidas durarão enquanto as práticas comerciais predatórias persistirem, não extrapolando o prazo máximo de cinco anos art. 9º da Lei n /95. Observação 1: Os valores arrecadados pelo Estado com as medidas antidumping são classificadas como receita originária (entradas compensatórias) art. 10 da Lei n /95. Logo, é incorreto dizer que tais medidas são tributos o imposto de importação pago na operação é tributo, mas a medida antidumping a ela imposta é tarifa pública. Medidas Compensatórias O art. 4º do Decreto n /95 conceitua várias práticas como sendo subsídio, mas o núcleo da conduta é a introdução no mercado doméstico brasileiro de produto com margem indevida de vantagem ao produtor conferida por seu Estado de origem. No entanto, há práticas estatais que, ao sustentar preço ou produção de produtos, não ensejam medidas compensatórias. Esses subsídios não acionáveis estão elencados nos arts. 10 a 13 do Decreto n /95. Como nestes casos, a conduta estatal é motivada pelo fomento à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico, ela é desprovida do caráter específico e desleal. Por este motivo, aqui não se impõem medidas compensatórias. O subsídio mais conhecido é o drawback e consiste na restituição de impostos especificamente em relação a matéria-prima para produção de bens a serem exportados. A ilegalidade está na

3 concessão do benefício para exportação, pois caso fosse restrito ao território nacional não haveria problemas. Este subsídio deve ser requerido junto à Receita Federal e pode ser de duas espécies: - Drawback suspensão: pleiteado antes da importação, com o compromisso de futura exportação; - Drawback isenção: reposição de estoques de mercadoria já exportadas, mediante a comprovação da exportação realizada. Medida de Salvaguarda Apresentam-se quando o avanço da importação de produtos se dá em quantidade ou condições que ameace a indústria nacional art. 1º do Decreto nº 1.488/95. Esta proteção transparente ao parque industrial nacional pode ser implementada ainda que seja provocada por importações lícitas, ao contrário das demais sanções comerciais. A investigação também se dará por processo administrativo que tramita na SECEX. Contudo, a decisão não será da CAMEX, mas de forma conjunta pelos Ministro da Fazenda e Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio art. 2º do Decreto nº 1.488/95. Durante a aplicação das medidas de salvaguarda, o país deverá comprovar perante à OMC, espontaneamente ou mediante questionamentos, que as medidas são adequadas e que no decorrer da sua execução está sendo cumprido um programa de ajuste e metas para reestruturação das empresas nacionais que ao final do processo poderão competir normalmente. A análise do plano de ajustes e metas a ser implementado durante a vigência das medidas de salvaguarda é feita pelo Comitê de Salvaguarda da OMC com a participação ampla e irrestrita de todas as partes interessadas. As medidas protecionistas são materializadas mediante adicional à tarifa externa ou restrições quantitativas da entrada do produto no país art. 8º do Decreto nº 1.488/95. Se provisórias as medidas terão duração máxima de 200 dias e se definitivas não serão superior a quatro anos arts. 4º, 1º e 9º, 1º do Decreto nº 1.488/95. Observação 2: Países em desenvolvimento são normalmente resguardados das medidas de salvaguarda art. 5º da Resolução 51/2010 da CAMEX.

4 DIREITO COMUNITÁRIO A ideia central do Direito Comunitário é criar, de modo formal (via tratado), uma comunidade legal constituída por Estados soberanos. A comunidade internacional pode se dar de duas formas: - Funcional: simples cooperação entre os Estados integrantes; - Substancial: há verdadeira integração entres os Estados que abdicam de parte de seu poder soberano sofre limitação econômica, política e jurídica. Exemplo: Comunidade Europeia O processo de formação de uma comunidade substancial é dividido em seis fases de integração: 1ª - Zona de Preferência Tarifária (ZPT): níveis tarifários diferenciados; 2ª - Zona de Livre Comércio (ZLC): redução ou eliminação de encargos; 3ª - União Aduaneira (UA): regras conjuntas para relação com terceiros (tarifa externa comum); 4ª - Mercado Comum (MC): derrubada de fronteiras para bens, pessoas e serviços; 5ª - União Econômica e Monetária (UEM): coordenação de setores da economia e planejamento; 6ª - União Política (UP): coordenação política integrada. O estágio atual do MERCOSUL é União Aduaneira (3ª fase) enquanto que a União Europeia se encontra atualmente no 5º estágio (União Econômica e Monetária). União Europeia A precursora desta união foi a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) criada em 1950 com o Tratado de Paris. A União Europeia propriamente dita nasceu em 1957 com a assinatura do Tratado de Roma e era composta inicialmente por Bélgica, Alemanha, França, Itália, Luxemburgo e Países Baixos. A nova fase da comunidade europeia (política de União Econômica e Monetária) se deu em 1992 com a assinatura do Tratado de Maastricht. Com esta convenção houve delegação de atos de soberania estatal para a formação de alguns órgãos: Conselho Europeu, Comissão Europeia, Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas, Conselho da União Europeia, Parlamento Europeu, Banco Central, entre outros.

5 Integração das Américas De origem remota (Século XIX Congresso do Panamá em 1826), a integração das Américas baseou-se nos ideais de Simon Bolívar ( ) que visava a integração política de todo continente americano. Com o decorrer dos anos no século XX, várias tentativas foram feitas: - Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC): criada na década de 70, hoje extinta; - Associação Latino-Americana de Integração (ALADI): criada na década de 1980, ainda existente; - Área de Livre Comércio das Américas (ALCA): criada na década de 1990, ainda existente; - Mercado Comum do Sul (MERCOSUL): criado pelo Tratado de Assunção em A integração das Américas é um princípio da República Federativa do Brasil art. 4º, parágrafo único, CRFB. Trata-se de norma constitucional pragmática (sem lapso temporal para se concretizar um ideal) que reproduz a doutrina bolivariana em nossa Carta Magna. MERCOSUL Assim como ocorre nas demais integrações, esta comunidade, criada pelo Tratado de Assunção em 1991, vem sofrendo contínuas transformações para seu aperfeiçoamento: : Protocolo de Ouro Preto estrutura organizacional; : Protocolo de Fortaleza defesa da concorrência; : Protocolo de San Luis assistência jurisdicional; : Protocolo de Ushuaia apenas Estados Democráticos poderão compor a comunidade; : Protocolo de Olivos: sistema de solução de controvérsias, em especial a arbitragem; : Decisão do Conselho do MERCOSUL: ingresso da Venezuela. O MERCOSUL é uma integração peculiar, bem diferente da União Europeia não existe órgão supranacional, é uma comunidade intergovernamental. Desta feita, todas as negociações são conduzidas pelos governos integrantes e para tanto é necessário o estabelecimento de procedimentos nacionais para incorporação do ajustado. Nada obstante, o Protocolo de Ouro Preto, em seus arts. 34 a 36 conferiu personalidade jurídica ao MERCOSUL que passou a ser pessoa jurídica de Direito Internacional com poderes para praticar atos necessários à realização de seus objetivos, adquirir e alienar bens imóveis e móveis, comparecer em juízo, celebrar acordos de sede (pacto com outros países) etc.

6 A estrutura do MERCOSUL é composta pelos seguintes órgãos: Conselho do Mercado Comum (CMC órgão superior), Grupo do Mercado Comum (GMC órgão executor), Comissão de Comércio do MERCOSUL (CGM), Foro Consultivo Econômico-Social (FCES) Secretaria Administrativa do MERCOSUL (SAM), Tribunal Permanente de Revisão (TPR dirimir conflitos com arbitragem), Parlamento do MERCOSUL (PARLASUL) No plano intrabloco, o MERCOSUL busca a prática comercial de um mercado comum (art. 1º do Tratado de Assunção). Desta feita, constata-se a livre circulação de bens e serviços e a eliminação dos direitos alfandegários. Verifica-se ainda um constante aperfeiçoamento que aos poucos vai reduzindo a lista de exceções. Já no plano extrabloco, o objetivo primordial do art. 1º do Tratado de Assunção estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum (TEC) já foi alcançado. A solução de controvérsias, segundo o Protocolo de Olivos (2002), subdivide-se em: negociações diplomáticas, arbitragem (tribunal ad hoc) e tribunal permanente de revisão. SOLUÇÃO DE LITÍGIOS INTERNACIONAIS Soluções pacíficas se apresentam às controvérsias internacionais por três meios distintos: - Diplomáticos: negociações diretas, congressos e conferências, consultas, bons ofícios, mediações e conciliações; - Políticos: atuação da ONU; - Jurídicos: comissões de inquérito, arbitragem e solução judiciária. Neste sentido: Carta das Nações Unidas, Art. 33, 1. As partes em uma controvérsia, que possa vir a constituir uma ameaça à paz e à segurança internacionais, procurarão, antes de tudo, chegar a uma solução por negociação, inquérito, mediação, conciliação, arbitragem, solução judicial, recurso a entidades ou acordos regionais, ou a qualquer outro meio pacífico à sua escolha. Carta da Organização dos Estados Americanos, Art. 25. São processos pacíficos: a negociação direta, os bons ofícios, a mediação, a investigação e conciliação, o processo judicial, a arbitragem e os que sejam especialmente combinados, em qualquer momento, pelas partes.

7 Francisco Rezek exemplifica o conflito internacional com casos julgados pela Corde de Haia de desacordo sobre certo ponto de direito ou de fato ou ainda com a contradição ou oposição de teses jurídicas ou interesses. Como não se trata necessariamente de algo grave, melhor utilizar a expressão litígio internacional. Meios Diplomáticos Negociações diretas são o primeiro meio de solução pacífica de conflito internacional a ser utilizado. Pode resultar: em desistência (renúncia por um dos Estados), aquiescência (reconhecimento da pretensão oposta) ou transação (concessões recíprocas). Congressos e conferências são utilizados quando há uma divergência ou conjunto de divergências envolvendo interesses de vários Estados. A consulta é mais uma troca de opiniões entre dois ou mais governos e eventuais interessados direita ou indiretamente. Esta troca de ideias é feita por Ministros das Relações Exteriores e tem o intuito de solucionar um conflito. Bons ofícios nada mais são que tentativa amistosa de uma terceira potência pacificar o conflito em um foro independente e imparcial. Assim, este meio visa levar os Estados litigantes a um acordo oferecido por um terceiro Estado, quando solicitado por um dos litigantes. Aqui terceiros não participam diretamente, apenas fomentam ou induzem o processo. A mediação muito se assemelha aos bons ofícios. A diferença é que neste caso o terceiro irá participar diretamente das negociações estabelece bases para um acordo. Já a conciliação, outra modalidade de solução amistosa por terceira potência, é realizada por uma Comissão de Conciliação composta, em número ímpar, por participantes dos Estados em conflitos e elementos neutros. Esta comissão pode ser previamente composta por um Tratado antecedente (exemplo: art. 284 da Convenção do Mar) ou posteriormente ao surgimento do conflito.