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1 1 Processo Interessado: JOSIELHO DELFINO DE MORAIS, SUETÔNIO DELFINO DE MORAIS. Ementa não-oficial: Custas e emolumentos. Interpretação da extensão de benefícios criados pela Lei , de 22 de dezembro de Processo Reclamação imobiliária emolumentos aquisição imobiliária com recursos do FGTS redução prevista nos subitens 14.4 e 14.5 da tabela de custas incidência sobre qualquer imóvel adquirido nessas condições, ainda que ausente o interesse social procedência - devolução do dobro de todo o valor cobrado em excesso VISTOS. Cuida-se de pedido de restituição de valores formulado por JOSIELHO DELFINO DE MORAIS e SUETÔNIO DELFINO DE MORAIS, que se insurgem contra o valor cobrado pelo 5º Oficial de Registro de Imóveis da Capital para o registro do instrumento particular de compra e venda referente ao imóvel situado na Rua Epitácio Pessoa, nº 162, ap. 63, matriculado sob o nº , daquela Serventia. Aduzem que a alienação do imóvel se deu por meio de mútuo firmado com a Caixa Econômica Federal (carta de crédito individual com recursos do FGTS), o que lhes confere direito à redução de 50% prevista no subitem 14.5, da Tabela de Custas, recentemente inserido pela Lei Estadual nº /08. Pedem a imposição de multa, bem como a devolução em décuplo da quantia indevidamente cobrada, na forma do art. 32 e seu 3º, da Lei Estadual nº /02. O 5º Oficial de Registro de Imóveis prestou informações às fls. 40/47, sustentando o acerto do valor cobrado, por não reputar presente a hipótese de incidência do redutor da tabela (fls. 40/47). É O RELATÓRIO. FUNDAMENTO E DECIDO. Os autores firmaram com a Caixa Econômica Federal contrato por instrumento particular de contrato de compra e venda de unidade isolada e mútuo com obrigações e alienação fiduciária carta de crédito individual FGTS, cujo objeto é a aquisição do imóvel situado Rua Epitácio Pessoa, nº 162, ap. 63, matriculado sob o nº , no 5º Registro de Imóveis desta Capital (fls. 10/29). Segundo os reclamantes, o escopo da Lei Estadual nº /08 foi conceder desconto a todos os instrumentos de compra e venda com pagamento subsidiado com recursos do FGTS, e que a hipótese em exame amolda-se ao item 14.5, da Tabela de Custas, motivo por que, sobre o valor do registro, deveria ter incidido a redução de 50% nele previsto. De outro lado, argumenta o 5º Oficial de Registro de Imóveis que o benefício não se aplica a todo e qualquer contrato subsidiado com recursos de FGTS, mas apenas aos que apresentarem, cumulativamente, os seguintes requisitos: a) que o imóvel integre projetos de regularização fundiária nas áreas de interesse social, ou empreendimentos efetuados na execução de programas de habitação de interesse social para o atendimento à população de baixa renda; b) que a origem do financiamento seja o FGTS; e c) que represente a primeira alienação decorrente de empreendimentos imobiliários nas condições estabelecidas pela Lei /08.

2 2 Sustenta, ainda, que o escopo da Lei Estadual nº /08 foi reequilibrar a Tabela de Custas de modo que os destinatários do benefício pudessem viabilizar seus negócios sem o impacto de taxas muitas vezes superiores à sua renda mensal. Antes da entrada em vigor da Lei Estadual nº /08, a redução das custas para o registro de contratos de aquisição imobiliária com recursos do FGTS estava prevista no item 1.1, da Tabela de Custas, in verbis: Registro de contrato de aquisição imobiliária financiada com recursos do FGTS ou integrantes de programas habitacionais (COHAB e CDHU), independentemente do nº de atos a serem praticados e do valor do negócio jurídico... Total R$ 255,84. Ainda sob a vigência do item 1.1, da Tabela, esta Corregedoria Permanente, nos autos do processo nº (CP 415), entendeu adequado, a fim de se resguardar a finalidade social da norma, que sua incidência dependia da existência de financiamento com recursos do FGTS, situação que não se confundia com aquela em que o FGTS era utilizado para pagamento de parte do preço, com o restante financiado normalmente, isto é, sem FGTS. A hipótese ora em exame, à luz do revogado item 1.1, daria ensejo à redução, diante dos termos do contrato (fls. 13/29). Sucede que, quando o título do reclamante foi apresentado, já estava em vigor o art. 2º, da Lei Estadual nº /08, que revogou o item 1.1, da Tabela, e introduziu em seu lugar o item 14, e subitens, assim dispostos: 14 - Os empreendimentos habitacionais de interesse social terão o seguinte tratamento: Sendo o registro do parcelamento de solo ou da instituição do condomínio protocolizado até a data de 31 de dezembro de 2013, assim iniciados os procedimentos de regularização, o registro do primeiro título aquisitivo de imóvel em favor de beneficiário de regularização fundiária de interesse social, promovida no âmbito de programas de interesse social, sob gestão de órgãos ou entidades da administração pública direta ou indireta em área urbana ou rural, cujo objetivo social seja a regularização fundiária de áreas por eles ocupadas, independentemente do número de atos a serem praticados, sua natureza e valor do negócio jurídico, ficando isentas todas as custas e emolumentos referentes aos atos anteriormente praticados para tal finalidade, tais como registro de parcelamento, averbação de construção, instituição de condomínio, abertura de matrícula e demais atos Registro da alienação de imóvel e de correspondentes garantias reais, em empreendimento habitacional de interesse social, promovidos pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo - CDHU, Companhia Metropolitana de Habitação - COHAB, sociedade de economia mista ou empresa pública, independentemente do número de atos a serem praticados No registro da primeira alienação de imóvel e de correspondentes garantias reais em empreendimento habitacional de interesse social executado em parceria público-privada ou por associações e cooperativas habitacionais, localizado em Zona Especial de Interesse Social - ZEIS ou de outra forma definido pelo Município como de interesse social, relativo a imóvel cujo valor não seja superior a (quatro mil setecentos e cinco) Unidades Fiscais do Estado de São Paulo - UFESP No registro da primeira alienação de imóvel e de correspondentes garantias reais em empreendimento habitacional cuja aquisição tenha sido financiada com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço - FGTS, relativo a imóvel cujo valor não seja superior a (seis mil) UFESP....

3 No registro da alienação de imóvel e de correspondentes garantias reais, financiado com recursos do FGTS, à exceção do item 14.4, será cobrado conforme o item 1 da tabela, com redução de 50% (cinqüenta por cento) No registro da primeira alienação de imóvel e de correspondentes garantias reais em empreendimento habitacional de interesse social localizado em Zona Especial de Interesse Social - ZEIS, ou de outra forma definido pelo Município como de interesse social, relativo a imóvel cujo valor não seja superior a (quatro mil setecentos e cinco) UFESP... (g. n.). Diante da novel legislação, indaga-se se a redução prevista no item 14.5, invocado pelo reclamante, tem incidência sobre qualquer imóvel financiado com recursos de FGTS, ou apenas sobre os considerados ou classificados como de interesse social. A alienação de imóvel adquirido com recursos do FGTS está, agora, prevista nos subitens 14.4 e 14.5, da Tabela. Neles, ao contrário dos demais (14.1, 14.2, 14.3 e 14.6), não se vê a expressão interesse social. Não por acaso. É que o legislador foi criterioso na definição das hipóteses em que a presença do interesse social é indispensável para a obtenção da redução. Em sendo assim, não se pode presumir que a ausência da expressão interesse social, nos subitens 14.4 e 14.5, resulte de negligência ou cochilo. Trata-se, pois, de clara opção do legislador, que houve por bem disciplinar, ainda que dentro do contexto das aquisições de interesse social, as feitas com recursos do FGTS, distribuindo-as em duas situações, a saber: a) a primeira alienação do imóvel cujo valor não supere UFESPs; e b) todas as demais. A leitura conjunta dos subitens 14.4 e 14.5 e do revogado 1.1 demonstra que aqueles são mero desdobramento deste, que, frise-se, não exigia a presença do interesse social para a incidência da redução para as aquisições feitas com recursos do FGTS. E, exatamente por não constar no revogado item 1.1 a expressão interesse social, quisesse o legislador que os novos subitens 14.4 e 14.5 passassem a exigi-la, certamente a teria incluído de forma expressa na redação de aludidos subitens, como fez em todos os demais (v. 14.1, 14.2, 14.3 e 14.6). O escopo da Lei nº /08 foi, à evidência, facilitar, ampliar e viabilizar o registro e a regularização imobiliária. Por isso, soa contraditório admitir que, dentro dela, haja disposição tornando tais objetivos mais onerosos para aquele que quer regularizar seu imóvel, como a incidência do redutor apenas quando houver interesse social. Afinal, a ratio legis é ajudar pessoas de diversas faixas sociais (não só as de baixíssima renda), incluindo as que precisam se socorrer do FGTS para adquirir seu imóvel. Por último, resta um argumento de ordem prática: a exigência de interesse público na hipótese em exame equivaleria a esvaziar o conteúdo dos subitens 14.4 e 14.5, porque dificilmente imóveis adquiridos mediante financiamento com recursos do FGTS conteriam a declaração de interesse público. Conclui-se, por conseguinte, que os subitens 14.4 e 14.5, da Tabela de Custas e Emolumentos, incidem sobre qualquer empreendimento imobiliário, e não apenas sobre os de interesse social. Para tanto, deve-se observar o que ficou decidido no precedente nº (CP 415), desta 1a Vara de Registros Públicos, isto é, a incidência do redutor ocorrerá quando houver financiamento com recursos do FGTS, e não quando o FGTS for utilizado para pagamento de parte do preço, sendo o restante financiado normalmente (sem FGTS).

4 4 Justa, assim, a reivindicação dos reclamantes de ver incidir em seu caso o subitem 14.5, da Tabela de Custas. Superada essa questão, passa-se ao exame de suas consequências. Em , consoante informou o reclamado, reuniram-se diversos notários e registradores do Estado de São Paulo, para discutir a aplicação da Lei nº /08. As conclusões foram traduzidas em enunciados, tendo o de nº 4 sido lançado nos seguintes termos: ENUNCIADO 4: itens 14.4 e Para o registro da aquisição e da garantia, em qualquer imóvel financiado com recursos do FGTS, aplicam-se os itens 14.4 e 14.5, excluídas averbações e certidões, cobradas pelas tabelas respectivas. (g.n.). Referida reunião, a despeito de não possuir qualquer efeito vinculativo sobre esta Corregedoria Permanente, serve de importante elemento indicador da conduta do Oficial. O título dos reclamantes foi apresentado à Serventia em A reunião dos notários e registradores aconteceu no dia A reclamação foi distribuída nesta Corregedoria Permanente em , e remetida ao 5º Oficial de Imóveis em Diz o reclamado que, a partir da reunião, passou a proceder conforme o deliberado em reunião, isto é, passou a aplicar o redutor do subitem 14.5 a qualquer imóvel financiado com recursos do FGTS (na forma do enunciado nº 4). Observando-se a ordem cronológica dos fatos, verifica-se que, mesmo antes da distribuição da presente reclamação, o reclamado já estava aplicando aos novos casos iguais ao dos reclamantes o redutor do subitem E, entre a reunião ( ) e a remessa destes autos à Serventia ( ), passou-se mais de um mês, sem qualquer manifestação do Oficial dentro ou fora dos autos no sentido de devolver, ainda que de forma singela, o excesso cobrado dos reclamantes. Essa conduta era não só esperada, como também devida, porque, a partir do momento em que, independentemente dos motivos, aderiu ao enunciado 4, e passou a aplicar o subitem 14.5 exatamente da forma como requerida pelos reclamantes, não mais se justificou a diferença de tratamento a estes conferida, em atenção aos princípios da igualdade e da eficiência, ambos previstos na Lei Maior. A pendência deste feito, por si só, também era outro fator que aconselhava à Serventia devolver de forma voluntária o excesso, haja vista que, antes de seu trâmite (logo, antes de prestar as informações de fls. 40/47), já havia passado a aplicar o redutor aos novos casos iguais ao presente. O adesão do Oficial ao aludido enunciado 4 não lhe suprime o direito de questionar seu teor nesta via, até porque efeitos dele vinculantes restringem-se aos que participaram da reunião, sem atingir, por óbvio, esta Corregedoria Permanente. Sem embargo, essa mudança de agir mostrava toda a conveniência de a devolução ser voluntária, ainda que não espontânea, a fim de igualar situações jurídicas idênticas tratadas de maneira diversa. O quadro seria outro se, entre a cobrança a maior e o julgamento desta reclamação, não tivesse ocorrido um fato superveniente e intercorrente, qual seja, a alteração da forma de cobrança, e o Oficial continuasse a excluir a incidência do subitem 14.5 para todos os casos iguais e posteriores ao dos reclamantes. Aí sim sua resistência na devolução ainda teria lastro. Por isso, não pode admitir a devolução em sua forma singela. De outro lado, a devolução em décuplo, como querem os reclamantes, também não se justifica. A cobrança ocorreu antes da realização da reunião, de modo que ainda não existia o enunciado 4, ao qual viria o reclamado a aderir.

5 5 Não houve, portanto, má-fé no ato da cobrança. Demais disso, a hipótese também não configura erro grosseiro, haja vista que, além de o tema ser recentíssimo o que aumenta a dificuldade de interpretação e de aplicação prática, a tese do Oficial, embora não acolhida por esta Corregedoria Permanente, não pode ser tida como desarrazoada e reveladora de intenção de se enriquecer indevidamente à custa dos reclamantes. Ficam descartadas, assim, a devolução no décuplo, bem como a incidência de multa, reservadas, consoante pacífico entendimento da E. Corregedoria Geral da Justiça, aos casos de erro grosseiro ou de má-fé, não incidentes no presente caso. Contudo, a devolução singela também não se mostra suficiente, em virtude da superveniência de fato que conferiu ao reclamado plena oportunidade para, voluntariamente, reparar o equívoco. Logo que o Oficial aderiu ao enunciado 4, e passou a aplicar a redução do item 14.5 para todos os casos iguais ao dos reclamantes, deixou de existir substrato para a não devolução. A despeito disso, e agora de forma infundada e contraditória, manteve sua resistência, o que justifica a imposição da devolução em dobro do valor cobrado em excesso, acrescida de correção monetária e de juros de mora de 1% ao mês. A devolução deve compreender todo o valor cobrado em excesso, e não apenas os emolumentos cobrados a maior. Segundo o art. 32, da Lei nº /02: Sem prejuízo da responsabilidade disciplinar, os notários, os registradores e seus prepostos estão sujeitos à pena de multa de, no mínimo, 100 (cem) e, no máximo, 500 (quinhentas) UFESP's, ou outro índice que a substituir, nas hipóteses de:... 3º - Na hipótese de recebimento de importâncias indevidas ou excessivas, além da pena de multa, o infrator fica obrigado a restituir ao interessado o décuplo da quantia irregularmente cobrada. A Lei é clara ao determinar a devolução da quantia irregularmente cobrada. E em momento algum diz que tal quantia restringe-se aos emolumentos, não podendo o intérprete distinguir onde o legislador não o fez. Assim, a interpretação deve ser a mais ampla possível, e em prol daquele em razão de quem foi elaborada: o usuário dos serviços prejudicado por indevida cobrança. Não se olvide, ainda, que o usuário em nada concorreu para o erro da Serventia, de modo que não se afigura aceitável, mormente em razão da nova ótica traçada pelo Novo Código Civil, impor-lhe o gravoso e demorado ônus de ter de pleitear perante o Estado a devolução de tudo aquilo que lhe foi indevidamente cobrado pela Serventia, à exceção dos emolumentos. De certo a Lei não olvidou a qualidade de substituto tributário do Oficial, e, ao determinar a devolução de tudo o que cobrou indevidamente, levou em conta o risco de sua atividade, com o claro intuito de exigir maior cuidado nas cobranças dos serviços públicos individuais que presta. Observe-se, por fim, que o r. parecer citado pelo reclamado foi lavrado antes da vigência da atual Lei nº /02, de forma que o r. entendimento ali exposto não se aplica no presente caso, em virtude de nova e expressa disposição legal em sentido diverso. Posto isso, condeno o Oficial do 5º RI a restituir aos reclamantes JOSIELHO DELFINO DE MORAIS e SUETÔNIO DELFINO DE MORAIS o dobro do valor cobrado em excesso, isto é, R$ 1.851,96, quantia essa que deverá ser acrescida de correção monetária e de juros de mora de 1% mês, ambos a contar do efetivo desembolso.

6 6 Servirá esta de mandado, nos termos da Portaria Conjunta nº 01/08, da 1ª e 2ª Varas de Registros Públicos da Capital. Nada sendo requerido no prazo legal, ao arquivo. P.R.I.C. São Paulo, 14 de abril de Gustavo Henrique Bretas Marzagão Juiz de Direito

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