ABORDAGEM DO CICLO DE POLÍTICAS SEGUNDO STEPHEN BALL

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1 Departamento de Educação 1 ABORDAGEM DO CICLO DE POLÍTICAS SEGUNDO STEPHEN BALL Aluna: Ana Carolina de Souza e Paula Gomes Orientadora: Maria Inês G.F. Marcondes de Souza Introdução Esse texto é resultado das atividades de pesquisa realizadas de agosto/2011 a agosto/2012 de acordo com o cronograma apresentado no projeto. Objetivos A partir do estudo desenvolvido, novas considerações surgiram a cerca da nova política curricular da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME/RJ), que é nosso foco de pesquisa adotando-se como referencial teórico a abordagem do Ciclo de Políticas de Stephen Ball, especialmente em relação ao Contexto de Produção do Texto (os Descritores e os Cadernos de Apoio Pedagógico) e em relação ao Contexto da Prática. Iremos analisar, neste pôster, como os professores estão reagindo frente às novas orientações. Metodologia Partimos da leitura dos textos de Ball (2002) [1], Mainardes (2006) [2], Mainardes e Marcondes (2009) [3] sobre o ciclo de políticas de Stephen Ball. Após essas leituras recorremos também ao trabalho de Moreira (2000) [4] e Marcondes e Prado de Oliveira (2012) [5]. A nova política curricular implantada desde 2009 inclui o trabalho pedagógico a partir de Descritores, Orientações Curriculares, Cadernos de Apoio Pedagógico e Avaliações Externas. Descritores Os Descritores estabelecem quais são as habilidades dos alunos que serão avaliadas a partir dos componentes curriculares de cada área de aprendizagem. O descritor pode ser definido como: uma associação entre conteúdos curriculares e operações mentais desenvolvidas pelo aluno, que traduzem certas competências e habilidades. Os descritores: - indicam habilidades gerais que se esperam dos alunos; - constituem a referência para a seleção dos itens que devem compor uma prova de avaliação. (BRASIL, 2008) O propósito dos Descritores é guiar o trabalho pedagógico e direcionar as avaliações/testes. A SME/RJ propôs, em sua atual gestão, a divulgação de listas de Descritores de ensino para as áreas de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências, bimestralmente. Estas listas apontam quais são as habilidades que devem ser desenvolvidas a partir do trabalho com os conteúdos que as determinam. Os Descritores, junto com as diretrizes curriculares, são divulgados no início do bimestre para que o professor saiba com antecedência como seus alunos serão avaliados. Assim, eles se propõem a reunir, em cada área, as habilidades ou conteúdos que serão testados nas avaliações. Diante disso, os professores que desejam enriquecer suas aulas, incluem em seus planejamentos outros temas, ampliando assim os Descritores que são propostos. Na escola onde desenvolvemos nossa pesquisa, os professores não costumam limitar seu trabalho aos Descritores. Os professores da escola pesquisada vêm os Descritores como um currículo mínimo e acham importante que a rede como um todo tenha uma proposta comum. Como desvantagem, por sua vinculação direta com as Avaliações Bimestrais, pode levar a uma redução do currículo, privilegiando a preparação para a prova. Logo, cabe aos professores ampliar esse conteúdo

2 Departamento de Educação 2 oferecido aos alunos, buscando enriquecer as aulas de acordo com as necessidades de cada turma. Os Cadernos de Apoio Pedagógico A SME/RJ, a partir do ano de 2009, passou a distribuir um material de apoio pedagógico que consiste em Cadernos de Atividades de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências. Esses cadernos são enviados bimestralmente, para professores e alunos, além de serem disponibilizados na Internet. A proposta é que eles sejam utilizados como apoio à prática pedagógica em sala de aula, como dever de casa e para reforço escolar. Na Carta de Apresentação destes materiais, a SME/RJ esclarece sua função: Espera-se que os cadernos possam contribuir como um recurso metodológico para a ação pedagógica cotidiana. Constitui-se em mais um apoio à disposição do professor que, em interação com os já disponíveis (livros, internet, projetos da escola e outras escolhas do professor), amplie as possibilidades de discussão de conceitos e de formação de habilidades. (Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro). Os Cadernos de Apoio Pedagógico apresentam atividades sugeridas a partir dos Descritores definidos para aquele bimestre, mas não se limitam a eles, retomam conteúdos de bimestres anteriores e os extrapolam. O Contexto de Produção do Texto Segundo Ball (2002) o Contexto de Produção do Texto é onde os textos políticos são articulados com a linguagem do interesse público mais geral. Constituem-se de textos legais, oficiais e políticos; comentários formais ou informais sobre estes; pronunciamentos; vídeos; panfletos e revistas,e representam a política em vigor. Os textos são geralmente resultados de disputas e acordos políticos. No caso da nossa pesquisa, o texto é a política curricular que a SME/RJ estabeleceu para as escolas da rede pública e constituem-se de Orientações para os professores, os Descritores, os Cadernos de Apoio Pedagógico e as Avaliações. Para orientar melhor a análise dessa política, serão apresentadas algumas questões com o objetivo de explicitar mais claramente como o Contexto de Produção do Texto pode ser explorado: 1) Quando se iniciou a construção do texto da política? 2) Quais os grupos de interesse representados no processo de produção do texto da política? Quais os grupos excluídos? Houve espaço para a participação ativa dos profissionais envolvidos na construção dos textos? 3) Como o texto (ou textos) da política foi (foram) construído(s)? Quais as vozes presentes e ausentes? A partir de 2009, uma nova política curricular foi instaurada na Rede Municipal do Rio de Janeiro e desde então, a mesma vem sendo aperfeiçoada a cada ano. Os Cadernos de Apoio evoluíram e a perspectiva de letramento, na alfabetização, passou a ficar mais evidente. Em 2010, a proposta tornou-se mais explícita, os Cadernos de Apoio começam a oferecer atividades de redação, e é nesse momento que ele proporciona que o aluno escreva e crie. Constatamos que a base da política da Secretaria Municipal de Educação é a gestão da excelência e qualidade com ênfase na avaliação através de testes. Após o impacto inicial da mudança, os professores relataram que os Cadernos de Apoio facilitaram o trabalho pedagógico. Pois, segundo os professores, ele está dentro da matriz curricular. Dessa forma, o professor não precisa fazer um planejamento extra, como era feito anteriormente, ele pode usar o caderno como guia básico para o desenvolvimento de suas aulas. No início houve uma certa resistência por parte dos professores, alguns não utilizavam o material integralmente.

3 Departamento de Educação 3 Atualmente, os professores ressaltam que esse material forneceu uma base curricular para o trabalho pedagógico que eles não estava explícito. A proposta parece ter auxiliado aos professores no seu planejamento pois a partir dos Descritores sentem as metas da SME/RJ de forma mais clara, contudo a exigência de que os alunos apresentem bons resultados nas provas bimestrais faz com que a preparação para a prova se torne um dos principais objetivos de seu ensino. Há uma ênfase maior nas atividades de Língua Portuguesa e Matemática pois nestas áreas se concentra a avaliação externa. Os materiais têm sido elaborados por especialistas das áreas e atualmente, especificamente os Cadernos de Apoio Pedagógico, tem sido revistos a partir da crítica dos professores. Contexto da Prática É onde a política está sujeita à interpretação e recriação é o lugar onde ela produz efeitos e consequências que podem representar mudanças e transformações significativas na política original. Esse processo ocorre nas escolas e locais de atuação dos profissionais da educação. A política chega na escola e é recontextualizada pelos professores que trabalham com ela pois podem recriá-la e reinventá-la. Essa política curricular será interpretada de diferentes formas pelos diferentes professores, uma vez que eles possuem experiências, valores e interesses diversos. Como os professores desejam aumentar os índices de desempenho das escolas começaram a treinar seus alunos para as avaliações, correndo-se assim, o risco de mudar o foco que era na aprendizagem dos alunos. De acordo com Ball, no texto Reformar escolas/reformar professores e os terrores da performatividade (2002), a aprendizagem é recompensada como um resultado de custo efetivo, ênfase em qualidade e excelência medida através de testes. Para compreender melhor essa política, serão apresentadas algumas questões com o objetivo de explicitar mais claramente como o Contexto da Prática pode ser explorado: 1) Como a política foi recebida? Como está sendo implementada? 2) Como os professores, diretores, pedagogos e demais atores envolvidos interpretam os textos? Há mudanças, alterações e adaptações do texto da política para a concretização da política? Há variações no modo pelo qual o texto é interpretado? 3) Há evidências de resistência individual ou coletiva? 4) Os profissionais envolvidos na implementação têm autonomia e oportunidades de discutir e expressar dificuldades, opiniões, insatisfações, dúvidas? Muitos profissionais resistiram a implantação dessa política, mas ela foi adotada de diferentes formas. Os coordenadores trabalham como mediadores da política e os professores, como atores, recriam a política, utilizando o material pedagógico da forma que lhe for mais conveniente. Alguns professores fazem atividades diversificadas, trabalham com a turma em grupo e separam os alunos pelas suas dificuldades, enquanto outros, apenas utilizam o Caderno de Apoio como base de todas as suas atividades. Independente das atividades e do uso do material o tempo é colocado pela maioria dos professores, como um grande fator limitador de um trabalho pedagógico mais eficaz. A intervenção do coordenador pedagógico no Contexto da Prática é muito importante pois é ele que organiza, junto com os professores, como os materiais serão utilizados. Em nossa pesquisa encontramos diferentes modos de utilização dos diferentes materiais da SME/RJ. Existem professores que utilizam o Caderno de Apoio como base de suas práticas pedagógicas e só fornecem outros conteúdos ou atividades quando surge uma oportunidade.

4 Departamento de Educação 4 Enquanto outros utilizam o Caderno de Apoio como base para as atividades de dever de casa, continuando a desenvolver atividades baseadas no projeto político pedagógico que a escola desenvolvia antes de receber o material da SME/RJ. Quando as escolas já possuem um projeto político pedagógico bem estruturado em desenvolvimento, a dificuldade na utilização do novo material que foi introduzido pela política surge com mais intensidade. Desse modo, o Contexto da Prática é o local de culminância da política curricular da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Essa política vem sendo recontextualizada em cada unidade escolar, de acordo com a realidade, valores e intenções de cada uma. É o contexto principal do Ciclo de Políticas de Ball, pois é nesse momento que a política toma forma e passa a atuar sempre sendo recriada e reinventada pelos seus atores, gestores, professores e alunos. Considerações Finais No Rio de Janeiro, na proposta Multieducação (1993/1996), considerou-se a escola como ambiente privilegiado para a construção sistemática de conhecimentos e a aquisição de valores. Procurou-se relacionar as vivências cotidianas e o saber escolar com base na interseção de princípios educativos, de forte acento social, com núcleos conceituais, de natureza epistemológica. A intenção era a construção de um sujeito ético, autônomo, solidário, crítico e transformador (Moreira, 2000). Já na nova proposta curricular o objetivo geral é dar um salto na qualidade da Educação no Rio de Janeiro, a Secretaria Municipal de Educação tem como missão a elaboração da política educacional do município do Rio de Janeiro, coordenar a sua implantação e avaliar os resultados. Dessa forma, a SME/RJ vai assegurar a excelência na Educação no Ensino Fundamental e na Educação Infantil, de maneira a contribuir para formar indivíduos autônomos e habilitados a se desenvolver profissionalmente e como cidadãos (Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, 2011). Como reformar currículos é alterar a prática da educação, e reconstruir a identidade dos profissionais que atuam nesse campo, estamos diante de problema de relação entre teoria e prática que interessa a muitos. É preciso promover o diálogo constante entre a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e as unidades escolares, bem como estendê-lo para além das escolas, das universidades e dos sistemas escolares, para que haja uma política curricular efetiva. Além disso, é necessário também fugir da cultura da performatividade, que ao invés de gerar unidade entre os professores e as escolas, gera competição. Conclusões parciais: a qualidade ainda almejada... De acordo com Marcondes e Prado de Oliveira (2012) a análise dos dados teóricos e empíricos realizada até momento permite algumas primeiras conclusões sobre as questões levantadas pelo trabalho: - Em uma escola considerada de qualidade pelo atual sistema de classificação de desempenho escolar (IDEB), os professores mostram-se seguros com relação à sua prática e incorporam as novas estratégias pedagógicas sem abandonar as suas próprias. O corpo docente, consciente de sua função em cada série, trabalha além do mínimo curricular proposto pelos documentos da Rede Municipal de Ensino buscando incorporar as demandas do Projeto Político Pedagógico da escola e a preparação para as provas. - Não encontramos, até o momento, traços de resistência coletiva ou total desaprovação com relação à nova política, mas algumas críticas com relação a detalhes da implementação e falhas no gerenciamento da mesma. Apesar deste fato, há um sentimento positivo de organização trazido pelas novas propostas.

5 Departamento de Educação 5 - A rotina da sala de aula sofre uma completa reestruturação, não somente pelas propostas metodológicas observadas neste trabalho, mas também pela aplicação de testes e avaliações externas (como sabemos, as políticas que se aplicam a um mesmo fim não estão desvinculadas, independente de sua origem). Os professores buscam incorporar o uso dos Cadernos de Apoio Pedagógico, em sala ou no dever de casa, selecionando previamente as atividades e articulando com o livro didático. Em alguns componentes curriculares, há uma dissonância entre os dois materiais. - Os professores da escola pesquisada, reconhecem o caráter de currículo mínimo dos descritores propostos e ampliam o trabalho. As Avaliações Bimestrais são consideradas, de maneira geral, fáceis e os professores realizam inúmeras outras avaliações em sua rotina. - Os professores são críticos em relação à efetiva melhoria da qualidade do ensino proporcionada pelas estratégias no ambiente em que lecionam, mas reconhecem a necessidade de que o mínimo a ser ensinado seja estipulado e avaliado em todas as escolas. - Na escola em questão as mudanças são atendidas, incorporadas à prática docente e vistas como políticas temporárias. As avaliações são compreendidas como parte do processo pedagógico e não são suficientes para avaliar a aprendizagem de seus alunos. Assim, os professores incorporam os materiais e a preparação para as avaliações em sua rotina, mas não deixam de realizar as atividades e avaliações nas quais acreditam. A coordenadora apoia esta prática pois também considera que as avaliações externas, sendo de múltipla escolha, deixam de avaliar habilidades fundamentais dos alunos, como a produção de texto, por exemplo. Neste contexto de recontextualização de uma nova proposta educacional, percebemos uma aceitação e compromisso com a estratégia, inclusive porque os professores e a coordenadora também se sentem avaliados pelos instrumentos e seus resultados. Em síntese, Partindo do princípio de que a política curricular da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro é um campo de disputa, uma vez que os sujeitos a recriam a partir dos seus interesses político-pedagógicos, é preciso atentar para a qualidade da mesma. Afinal, ao se renovar o currículo, a política curricular, altera-se toda a prática pedagógica realizada dentro das escolas. Como o que está em questão é a educação de vários jovens e crianças, é preciso promover diálogos constantes entre a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro e as escolas para que haja uma efetiva política curricular. Referências 1- BALL, S.- Reformar escolas/reformar professores e os terrores da performatividade. Revista Portuguesa de Educação, 2002, 15(2), pp MAINARDES, J.- Abordagem do ciclo de políticas: uma contribuição para a análise de políticas educacionais. Educação e Sociedade, Campinas, vol.27, n.94, jan./abr.2006, p MAINARDES, J. e MARCONDES, M.I.- Entrevista com Stephen J. Ball: um diálogo sobre justiça social, pesquisa e política educacional. Educação e Sociedade, Campinas, vol. 30, n. 106, jan./abr. 2009, p MOREIRA, A. F. B.- Propostas curriculares alternativas: Limites e avanços. Educação & Sociedade, Campinas, ano XXI, n. 73, dezembro, 2000, p

6 Departamento de Educação 6 5- MARCONDES, M.I. e PRADO DE OLIVEIRA, A.C.- O coordenador pedagógico, os professores das séries iniciais e as novas políticas curriculares da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro. Trabalho apresentado no XVI Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino ENDIPE. Campinas: UNICAMP, 2012.

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