Estudar as heranças formativas que caracterizam a grande maioria das festas brasileiras;

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2 Objetivos Estudar as heranças formativas que caracterizam a grande maioria das festas brasileiras; Estruturar o profissional de eventos para compreender os mecanismos formadores da identidade festiva do brasileiro. Sugerir uma pequena metodologia de pesquisa para a compreensão de um determinado evento de caráter religioso ou não. 1. As festas à brasileira: o caráter histórico formativo Como já foi comentado em aulas anteriores, muito se fala sobre a realidade festiva do brasileiro, mas pouco sobre como essa suposta realidade foi criada e no caso das festas, esse comportamento pode ser nitidamente observado. Frases feitas são sempre usadas para caracterizar a sociedade brasileira e assim justificar comportamentos e mascarar realidades. Constantemente se diz, como exemplo, que "o brasileiro é um povo festivo, pois mesmo com uma vida miserável consegue se divertir". O que é a diversão para um povo? Como o caráter festivo se forma? Pode-se falar em cultura popular? Essas perguntas servem de exemplos para entendermos a complexa significação do panorama festivo brasileiro. Duas características são importantes de serem registradas, pois formam a matriz original da cultura festiva brasileira. A primeira relaciona-se ao sentido religioso, em especial a presença do catolicismo. A segunda, ao passado escravista que serviu de base na formação do atual panorama cultural do país 2

3 As palavras "herança" e "permanência" adquirem um maior significado quando observadas em conjunto com o cotidiano em desenvolvimento de um determinado grupo social. O passado, ao contrário das opiniões gerais, não é um elemento morto e enterrado. Ele sempre adquire vida nas mutações culturais ocorridas para a sobrevivência perpetuação do grupo social analisado. Voltando ao caso brasileiro, a presença da colonização portuguesa deixou raízes formativas que influenciaram decisivamente a maneira de se compreender uma festa e seu desenvolvimento. A religião cristã, que durante muito tempo esteve atrelada ao Estado, orientou muitas das leituras culturais do país. Desde a época do "descobrimento", em 1500, até aproximadamente a proclamação da República, em Nessa época ser católico significava ter uma identidade pública que assegurava, entre outros princípios, o direito a propriedade privada. Os bens materiais eram registrados, como exemplo, nas paróquias as quais pertencia o indivíduo, pois nessa época não havia cartórios, instituídos com a proclamação da República e a implantação, por texto constitucional, da liberdade religiosa. Com quase trezentos anos de uso, a religião católica não passaria em branco na formação do panorama cultural do país e mediante esse fato, é sintomático sua herança viva, mesmo em festividades chamadas de pagãs, como o próprio Carnaval. 3

4 Observe as imagens abaixo: o carnaval na liturgia cristã pode ser resumido como a reunião, em um único dia, das tradicionais festas pagãs que aconteciam durante a época do Império Romano. Essa foi a maneira que a Igreja cristã encontrou para sustentar sua nascente religiosidade em meio as antigas festividades - principalmente as relacionadas a época da colheita e do plantio, nas quais sempre estava presente expressões sexuais ligadas à fertilidade da Natureza - há muito tempo institucionalizadas entre vários grupos sociais que sofreram influência da presença dos romanos. Tal fato explica a presença do Carnaval em outros lugares do mundo como os das cidades de Florença e Veneza, na Itália. La decadencia del Imperio Romano - P. Soury, Siglo XIX Carnaval no Rio No Brasil, o Carnaval bebeu nessa fonte principal, mas incorporou outros elementos do processo cultural formativo do país. A presença do Rei Momo é um exemplo dessa incorporação. O Rei Momo sempre deve ser uma figura obesa e bonachona, sorridente e despreocupado com as atitudes de seus "súditos". Na realidade ele expressa a herança da presença colonialista portuguesa e o próprio Rei de Portugal, em especial, a figura de Dom João VI que com sua presença no país a partir de 1808, estruturou muito de nossa atual realidade urbana, territorial e cultural. 4

5 Os elementos caricaturais de Dom João VI são recuperado nessa representação estabelecida durante as festas carnavalescas. Esse fato mostra que a constituição da festa incorporou particularidades da história local que são demonstradas pelo ritmo cultural desenvolvido. Na atualidade, como exemplo, o uso político e comercial do Carnaval pode refletir uma necessidade do Estado em sustentar-se no poder. Há uma espécie de política do "Pão e Circo", mais "circo" do que "pão". Nesse aspecto, a construção de uma visão crítica de qualquer acontecimento festivo deve sempre orientar a leitura do observador de qualquer evento. 2. A identidade religiosa do país nas festas e demonstrações de fé: o envolvimento do profissional de Eventos Falar das festas brasileiras é sem dúvida alguma comentar as características gerais que levaram ao desenvolvimento da religiosidade nacional. O Brasil, conforme comentado, sempre foi um país católico e a liturgia religiosa interferia inclusive nos assuntos de Estado. Nota-se que tal fato ainda é perceptível quando observamos o calendário e percebemos a grande quantidade de feriados religiosos e católicos. Não há feriados protestantes, espíritas ou islâmicos, ou mesmo, relacionados ao culto do candomblé que é uma religião seguida por uma enorme quantidade de pessoas, fato que se não é semelhante, aproxima-se aos adeptos da religião católica. Como visto a presença da religião católica moldou o panorama do país e assim torna-se impossível falar da grande maioria das festas locais sem falar da influência religiosa presente. De Norte a Sul do país esse tipo de comportamento festivo é classificado pelo Professor Antônio de Paiva Moura como "festas devocionais". (Moura, 2001 : 37). A complexidade dos elementos que estão presentes nesse tipo de manifestação festiva requer, ainda segundo Moura, uma análise detalhada que adota uma metodologia específica, em muitos casos vinculada a certos padrões sociológicos e antropológicos. (Moura, 2001 : 37). 5

6 Para o observador comum, no nosso caso o profissional de eventos, a observação e sentido da festa religiosa deve ser fundamentada em dois conhecimentos específicos: Esse observador deve, em um primeiro momento, ser também participante para assim entender o ritmo do acontecimento. Esse conhecimento permitirá entender-se os detalhes formadores da festa que são dinâmicos e modificam-se muito com o passar dos anos; Outro conhecimento a ser desenvolvido é a capacidade de retirar dos pormenores colhidos no primeiro momento, elementos que contribuam para o trabalho em eventos como, por exemplo, o tempo do acontecimento, tipos de vestimentas, entre outros detalhes. Mas é claro, o profissional de eventos não deve abandonar, em um futuro próximo, a necessidade de um estudo científico mais elaborado. As festas religiosas movimentam uma estrutura sociocultural muito ampla. Há o envolvimento de toda a comunidade religiosa, embora o caráter pagão, como o comércio de alimentos e bebidas, lembranças e hospedagens, também influenciem o formato final do evento religioso. Fitas do Nosso Senhor do Bonfim As festas religiosas movimentam uma estrutura sociocultural muito ampla. Há o envolvimento de toda a comunidade religiosa, embora o caráter pagão, como o comércio de alimentos e bebidas, lembranças e hospedagens, também influenciem o formato final do evento religioso. 6

7 A religiosidade manifesta-se também atrelado a esse comércio. No Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no interior de São Paulo, todo dia 12 de Outubro, considerado o dia da "Padroeira do Brasil", a chamada "Sala dos ex-votos" localizada em um conjunto anexo à Basílica, fica repleta de reproduções em cera ou mesmo em madeira, das partes do corpo humano. Cada objeto representa um pedido de cura de uma determinada doença da qual é afligido o romeiro. Esse seria um exemplo de como a presença das chamadas "atividades pagãs", que comercializam essas reproduções, em um festa de fundo religioso, influenciam a maneira do romeiro demonstrar a sua fé. A não existência desse tipo de atividade comercial poderia impedir e as vezes até contribuir para o desaparecimento da festa, que no seu dinamismo e mutabilidade, incorpora novos significados para as realidades históricas pelas quais passa o país. Recepcionar a imensa quantidade de fiéis que se dirigem ao local a cada ano é, além de uma atividade de fé e crença, uma organização administrativa e de relação entre comercial entre o produtor do acontecimento/evento e consumidor/participante. O profissional de eventos deve observar como o consumidor/participante vê o acontecimento e trabalhar na gestão desses desejos, que ás vezes manifesta-se de forma implícita. Cabe a esse profissional entender os padrões e modelos em ação e sugerir mecanismos de aceitação de seu modelo de organização e gestão. 7

8 O rito da religiosidade de muitas das festas espalhadas pelo país incorporam o fluxo gestor do capital administrativo. Sua sobrevivência cultural depende muito desse processo, que envolve, inclusive a prática do turismo. 3. Aplicações e usos: uma proposta de análise dos acontecimentos festivos brasileiros Identificar, de forma inicial, o formato da dinâmica do acontecimento festivo pode ser uma solução para a complexidade dos padrões existentes. O profissional de eventos deve sistematizar os dados para assim munir-se de referência para sua atividade profissional. Pensando-se nesse processo de coleta, elaborou-se uma ficha de pesquisa e catalogação do acontecimento festivo a ser analisado, com 7 itens: 8

9 Cada item da "Ficha de Inventário" serve de referência direta para o profissional de Evento coletar informações mais pontuais do acontecimento festivo. Acompanhe a explicação de cada item do formulário para compreendê-los: A "Ficha de Inventário" oferecida é apenas uma sugestão de trabalho metodológico, mas muitos dos acontecimentos festivos analisados podem não oferecer de forma aberta, possibilidades de trabalho tão objetivas. Cabe ao profissional de eventos identificar e criar sua própria sistemática de pesquisa. 9

10 MOURA, Antônio de Paiva. Turismo e festas folclóricas no Brasil. In: PINSKY, Jaime; FUNARI, Pedro P.(orgs.). Turismo e Patrimônio Cultural. São Paulo : Contexto, JANCSÓ, István; KANTOR, Iris. (orgs.). Festa: cultura e sociabilidade na América portuguesa. São Paulo : EDUSP; Hucitec; Imprensa Oficial; FAPESP, v. 10

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