Diagnóstico Ambiental do Município de Alta Floresta - MT

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1 Diagnóstico Ambiental do Município de Alta Floresta - MT Paula Bernasconi Ricardo Abad Laurent Micol Maio de 2008

2 Introdução O município de Alta Floresta está localizado na região norte do estado de Mato Grosso, no Território chamado de Portal da Amazônia. Esse município, assim como outros da região, teve colonização recente, iniciada na década de 1970, dependente de atividades baseadas na extração madeireira, agricultura, garimpo e mais recentemente se tornou pólo da atividade pecuária da região norte do Mato Grosso. Essas atividades produtivas provocaram o desmatamento de grandes áreas de cobertura florestal original, muitas vezes em proporção maior que a permitida por lei, por exemplo, nas Áreas de Preservação Permanentes - APPs. Recentemente a questão do desmatamento no município veio à tona com a divulgação da lista dos 36 municípios brasileiros com maior índice de desmatamento pelo Ministério do Meio Ambiente, onde Alta Floresta estava incluso. Desde então, diversas medidas têm sido tomadas pelo Governo Federal em âmbito de urgência para tentar conter o desmatamento. Ao mesmo tempo, é necessário que produtores e prefeituras tomem atitudes para planejar o desenvolvimento a longo prazo desses municípios de forma compatível com a conservação dos recursos naturais da região. Neste contexto, para um melhor resultado das ações ou planejamento que forem realizadas pela prefeitura, Estado ou produtores é necessário conhecer a situação ambiental do município em relação ao cumprimento das leis e cadastro fundiário das propriedades. Para contribuir nesse processo, o Instituto Centro de Vida elaborou esse diagnóstico que tem como objetivo fornecer informações mais detalhadas sobre a cobertura e uso do solo atual e a degradação das APPs de Alta Floresta. Busca-se também identificar áreas críticas no município que sejam prioritárias para implantação de projetos de intervenção em áreas alteradas. Material e Métodos Nesse estudo utilizamos imagens obtidas por sensoriamento remoto e técnicas de geoprocessamento para produzir informações sobre a cobertura vegetal, nascentes, cursos d água, áreas de preservação permanente e microbacias hidrográficas. Realizamos uma análise quantitativa das APPs e seu estado de conservação, tanto para a área total do município quanto para cada microbacia hidrográfica. Nesse estudo foram consideradas as APPs localizadas no entorno de rios e nascentes, mais conhecidas como mata ciliar. 15 de maio de

3 As imagens utilizadas foram do sensor ASTER de 2007 e SRTM pancromática 90m, ambas em formato GeoTiff e georreferenciadas. O ambiente SIG utilizado foi o ESRI ArcGIS 9.2. A Imagem Aster é composta de 16 bandas espectrais. Imagens deste sensor têm sido usadas para o mapeamento da cobertura terrestre devido às características espectrais das bandas. Esta imagem permite uma classificação da vegetação devido às diferentes respostas de reflectância em cada banda, possibilitando a diferenciação da cobertura vegetal e uso/ocupação do solo. A imagem SRTM é um produto da NASA com dados de elevação da superfície terrestre provindas de um radar acoplado ao ônibus espacial em missão realizada no ano Esta imagem originalmente possui uma resolução espacial de 90m. Após uma re-amostragem estatística, obtivemos uma imagem com resolução espacial de 30m. Foi feita uma classificação da imagem do sensor Aster de 2007, com resolução espacial de 15 metros, para obtermos a vegetação e o uso e ocupação do município (). Uma classificação não supervisionada do algoritmo de máxima verossimilhança identificou 5 categorias de vegetação e uso e ocupação do solo. As classes foram interpretadas como (1) Água, (2) Floresta, (3) Vegetação degradada, (4) Pastagem e/ou Agricultura e (5) Solo Exposto. A hidrografia e as nascentes foram delimitadas através de interpretação visual da imagem de satélite, feita a uma escala 1:10.000, possibilitando o mapeamento a uma escala 1: As Áreas de Preservação Permanente foram geradas em três etapas. Primeiro geramos as APPs de 50 metros para cursos d água com largura inferior a 50 metros. Depois geramos as APPs para cursos d água com largura superior a 50 metros, e depois as APPs de 100 metros para todas as nascentes. Finalmente unificamos as três feições em uma só, possibilitando a quantificação total de APP no município. As APPs foram sobrepostas à classificação da cobertura e do uso do solo atual. Neste procedimento, os polígonos das APPs adquirem as informações de categorias de vegetação e do uso do solo. Assim conseguimos quantificar as áreas de APP situada em cada categoria. As microbacias hidrográficas são as unidades básicas de planejamento e representam a área que influencia os cursos d água. Delimitamos as microbacias hidrográficas utilizando o aplicativo de geoprocessamento BASINS 4.0, disponível no sítio de internet da EPA- Environmental Protection Agency (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos). O aplicativo calcula as microbacias de acordo com parâmetros fornecidos pelo usuário utilizando um modelo digital do 15 de maio de

4 terreno, que é derivado da imagem SRTM. Para agrupar as microbacias geradas em sub-bacias para facilitar a análise foram utilizados como base dados da Agência Nacional das Águas ANA. As sub-bacias que apresentamos seguem os padrões do nível 5 de bacias Otto da ANA. As áreas das feições foram calculadas através de geoprocessamento nas coordenadas projetadas UTM Zona 21 Sul no sistema de Referência Geográfica SAD69. Para identificar a situação da regularização ambiental e fundiária das propriedades rurais do município foram consultados os dois órgãos públicos que tem cadastros dessas informações. Os dados fundiários foram obtidos no escritório temporário do Instituto de Colonização e Reforma Agrária INCRA, em Alta Floresta no dia 27 de março de 2008, e os dados da regularização ambiental foram obtidos no sítio de internet da Secretaria Estadual de Meio Ambiente SEMA (www.sema.mt.gov.br). Resultados e Recomendações O município de Alta Floresta tem uma área total de 896 mil hectares. Desses, 452 mil hectares (50%) permanecem com cobertura florestal. O restante, 444 mil hectares (50%), foi desmatado e está dividido hoje em 263 mil hectares (29%) de agricultura e pastagem, 74 mil hectares (8%) de solo exposto e 98 mil hectares (11%) de vegetação degradada (Tabela 1). Fazem parte do município 269 microbacias que têm, em média, três mil hectares cada uma, que foram agrupadas em 8 sub-bacias. A sub-bacia 2, localizada na região nordeste do município e também onde está localizado o Parque Estadual do Cristalino é a mais preservada, com 74% de florestas. As sub-bacias da região sul do município (6, 7 e 8) também apresentam alta preservação, entre 53% e 64%. As sub-bacias menos preservadas são as 5 e 3, com aproximadamente 32% de preservação cada e alta porcentagem de uso do solo para agricultura e pastagem, 44% e 50%, respectivamente (Figura 2). Alta Floresta contém cerca de 11 mil quilômetros de rios, com nascentes sendo que apenas (49%) estão preservadas. A situação geral do município em relação às APPs pede atenção em relação às áreas ainda preservadas e ações de recuperação nas áreas degradadas. O município apresenta cerca de 116 mil hectares de APP, aproximadamente 13% de sua área total. Desses, apenas cerca de 68 mil estão preservados com floresta não degradada, o que representa apenas 58%. O restante, 58 mil hectares (42%), é composto por áreas com uso e cobertura do solo que não são compatíveis com as funções que devem ser desempenhadas por uma APP. Portanto, consideramos como APP degradada. Nessa situação estão cerca de 13 mil hectares (15%) 15 de maio de

5 vegetação degradada, cerca de 7 mil hectares (7%) de solo exposto, e cerca de 30 mil hectares (30%) de áreas de lavoura e pastagem (Tabela 2). As APPs mais preservadas estão também nas sub-bacias mais preservadas. A sub-bacia 2, na região nordeste, é também a que apresenta a maior preservação de APPs, com 82% preservados, seguida pelas sub-bacias 6, 7 e 8 da região sul com preservação de APPs entre 62% e 72%. As sub-bacias com APPs mais degradadas são a 3 e a 4, com 43% de preservação cada (Figura 2). Das 265 microbacias em que o município é subdividido, 95 têm 50% ou menos de APPs preservadas. A ocorrência mais freqüente nas APPs degradadas são pastagens e lavouras. Entre as microbacias mais degradadas, 11 estão em situação muito crítica, com menos de 25% de preservação nas APPs (Tabela 3). Em relação às estradas e acessos, ao longo de todo o município foram mapeados quilômetros de estradas, incluindo estradas principais e vicinais. A regularização ambiental fundiária das propriedades do muncípio junto aos órgãos competentes (SEMA e INCRA) está ainda muito incompleta. Somente 103 propriedades que somam 204 mil hectares estão cadastrados junto a SEMA no Sistema de Licenciamento Ambiental de Porpriedades Rurais - SLAPR (APRT), cobrindo apenas 23% da área total do município. Quanto aos planos de manejo florestal, a SEMA tem hoje cadastrados 16 Projetos de Exploração Florestal no município, com 12,8 mil hectares. Desses, apenas três foram licenciados, somando apenas 2,4 mil hectares de exploração sustentável licenciada no muncípio (0,3%)(Tabela 4). A Licença Ambiental Única LAU da SEMA foi concedida a apenas 27 propriedades no município, que somam 48 mil hectares, apenas 5,3% da área de Alta Floresta. O número total de propriedades em Alta Floresta segundo o INCRA é de O instituto estima que dessas propriedades, pouco mais de 700 teriam mais de quatro módulos agrícolas, ou seja, 400 hectares. Porém os números exatos também não são conhecidos por que o cadastro do INCRA também não é completo. Devido à essa lacuna no conhecimento sobre delimitação e cadastro das propriedades não é possível fazer uma estimativa quanto ao déficit de reserva legal do município. Isso ocorre porque a legislação estadual e federal sobre reserva legal exige porcentagens de área diferentes de acordo com a época de desmatamento e de averbação da reserva legal. 15 de maio de

6 Como mostram os resultados, o município de Alta Floresta apresenta uma alta taxa de degradação de APP e nascentes no geral, sendo necessária a adoção de ações para recuperação dessas áreas. Como prioridade sugerimos que os projetos de intervenção em áreas alteradas escolham as microbacias localizadas no entorno da sede municipal, ao sul da subbacia 1. Essas microbacias são as que apresentam menos cobertura florestal, em média 25%, e que apresentam alta taxa de degradação de suas APPs, entre 25 e 50%. Quanto à situação cadastral das propriedades, a falta de informações sobre as propriedades e sua situação ambiental apenas contribui para uma maior dificuldade de ação, não apenas de fiscalização, mas principalmente de embasamento para a formulação de programas e projetos que visem à adequação ambiental do município à legislação estadual e federal. Essa adequação poderia trazer vantagens econômicas para os proprietários como a obtenção de licenças ambientais e abertura de novos mercados, melhorando a economia de todo município e também vantagens políticas, além das vantagens ambientais para toda a sociedade. Tabela 1 Classificação da cobertura vegetal e uso do solo do município de Alta Floresta por sub-bacia (em hectares) Sub-bacia Vegetação Agricultura e Área Total Floresta Solo Exposto degradada pastagem (ha) Área (ha) % Área (ha) % Área (ha) % Área (ha) % TOTAL de maio de

7 Tabela 2 - Classificação da cobertura vegetal e uso do solo das APPs de Alta Floresta por sub-bacia (em hectares) Sub-bacia Área Total (ha) Total Preservada APP (ha) Vegetação Degradada Solo Exposto Lavoura ou pastagem % Preservada TOTAL Tabela 3 - Situação de preservação das microbacias, por sub-bacias Subbacia Total de microbacias Número de Bacias com taxa de preservação de: 0-25% 25-50% 50% - 75% 75% - 100% TOTAL Tabela 4 Informações fundiárias e ambientais disponíveis Número de Tipo de Cadastro Propriedades Área (ha) % do município SLAPR APRT (SEMA) ,8 Áreas com manejo florestal cadastradas ,4 Áreas com manejo florestal licenciadas ,3 LAU (SEMA) ,3 Propriedades em Alta Floresta Propriedades em Alta Floresta acima de 400 ha 6 Aprox APRT/SEMA janeiro/2008; 2 e 3 - SEMA janeiro/2008; 4 - SEMA março/2008; 5 e 6 INCRA março/ de maio de

8 Figura 1 Detalhe da imagem de satélite (Áster) usada como referência e da classificação da vegetação e uso do solo gerado a partir dela, com a delimitação das APPs, hidrografia e nascentes 15 de maio de

9 Figura 2 Situação da preservação das microbacias do Município de Alta Floresta 15 de maio de

10 Figura 3 - Situação da preservação das APPs do Município de Alta Floresta, por microbacias 15 de maio de

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