MARCAS CULTURAIS NA TRADUÇÃO DE FATOS INTERNACIONAIS EM TEXTOS JORNALÍSTICOS

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1 Anais do 6º Encontro Celsul - Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul MARCAS CULTURAIS NA TRADUÇÃO DE FATOS INTERNACIONAIS EM TEXTOS JORNALÍSTICOS Hutan do Céu de ALMEIDA (Universidade Federal de Santa Catarina) ABSTRACT: This paper presents part of a pilot study about cultural marks in journalistic texts. The cultural marks are shown when we analyze the adjectives presents on text. Adjectives are marks that qualify the nouns so we have the opportunity of understand exactly what the author wants to say. KEYWORDS: Journalism; Culture; Translation. 0 Introdução De tempos em tempos acontecem grandes revoluções e, estas revoluções só acontecem por que algo que precisa ser mudado; desde a invenção da imprensa por Gutenberg o mundo não foi mais o mesmo, as informações passaram a ser distribuídas com mais velocidade e, jornais e revistas começaram a se proliferar a partir da revolução industrial. Em meados do século XX, outra grande revolução aconteceu, no que se diz respeito à distribuição de informações, devido a guerra fria, então o grande medo do mundo, os computadores começaram a ser criados e a partir de então tudo ficou mais rápido, o tempo era o chefe, desde então os avanços nesta área da tecnologia foram gigantescos, pode-se até dizer que a humanidade nunca deu um passo tão grande; nos últimos cinqüenta anos o progresso foi tanto que isso provocou uma nova revolução social. Depois veio a Internet, a principio confinada as universidades e bases militares, era uma forma que o governo americano criara para proteger as informações secretas, para isso a rede(internet sem as proporções que tem hoje) mantinha as informações sempre acessíveis e em pontos distintos, sendo assim caso uma bomba atingisse o pentágono, por exemplo, as informações que estavam lá, também estariam em outras máquinas pelo país; com o passar dos anos a Internet, antes escrita com i minúsculo começou a tomar proporções maiores e a rede passou a ser de domínio público, claro que temos sempre que considerar as condições sócioeconômicas; Nas malhas da rede começou uma revolução diferente, pois agora, diferente do que vinha acontecendo, as informações passaram a ser instantâneas e isso provocou certa celeuma para os grandes e tradicionais veículos de informações (Jornais e Revistas e TV); as preocupações dos empresários da área de informação eram infundadas, afinal a Internet apenas era acessível a uma pequena parte da população e só poderia contribuir para a veiculação de informações. Hoje, grandes e até pequenos jornais e revistas estão na rede, eles aprenderam que a Internet pode apoiar seus esforços na veiculação de informações com mais precisão e agilidade. Revistas e Jornais tem a responsabilidade de divulgar os fatos, bem como, auxiliar na formação de opinião de seus leitores. Neste contexto, o texto jornalístico enquanto tradução de fatos(zipser, 2002) torna-se o recurso ideal para manter a população a par do que vem acontecendo no mundo. O fato noticioso e a matéria jornalística escrita, o que nos permite ilustrar o processo de formação de sentido dos textos, via argumentação. Esse processo possibilita que um fato ou realidade conduza a diferentes enfoques e leituras, com diz Zipser (2002:03), trata-se, enfim, de uma leitura e não da leitura desse mesmo fato. Tais leituras refletem perspectivas de enfoque específicas dentro de cada cultura na qual o fato noticioso é relatado. Isso nos leva a compreender o jornalista como tradutor do fato, enquanto que o fazer jornalístico, assim como o ato tradutório, é emoldurado por condições sociais e culturais. Esses paralelos consolidam esta interface. 1 Perspectiva teórica Atualmente o fazer jornalístico passa desapercebido pelos olhos dos leitores ávidos por informações rápidas e precisas, exceto para aqueles que fazem do texto jornalístico um corpus para sua pesquisa. Outrora, o jornalismo fora aplaudido e reverenciado como sendo a única forma para que a democracia fosse instalada em nosso país; até aquela época, o jornalismo, antes visto como veículo para a divulgação de informes do regime ditatorial vigente e/ou informes religiosos foi o marco para a implementação da democracia no Brasil; a partir de então, com a criação do quarto poder ou seja, o povo fiscalizando os três poderes, a saber: poder executivo, poder legislativo, poder judiciário. A função do jornalista era exatamente esta, fiscalizar o poder do estado e, caberia ao povo fiscalizar o jornalismo, mas

2 parece que o povo delegou a figura do jornalista o papel de fiscalizador do poder e esqueceu de seu papel, e de sua força. A linguagem jornalística tem características próprias e se diferencia das demais e, estas são comum a muitos idiomas por ser o jornalismo uma pratica social trans-fronteiras (Lage, 1999). A atividade jornalística é muito complexa por que esta atividade está sujeita a muitos fatores que regem esta profissão; a ética, por exe mplo, é o tema mais complexo para analisar, já que o conceito do que seja ético é tão subjetivo. Um bom jornalista seria aquele que reportasse o fato com clareza, como prevêem os manuais de redação e estilo das grandes editoras do país, mas percebemos que isso não ocorre, pois fatores externos à vontade do jornalista tendem a modular as informações para que estas sirvam a determinados propósitos. Ratificando essa afirmação, Frank Esser (1998), jornalista alemão, que reúne o perfil do acadêmico e do profissional, desenvolveu um modelo de estudo do jornalismo em ambiente internacional, comparando o jornalismo inglês e alemão. Esse modelo trabalha o conceito de inter culturalidade nas várias instâncias que influenciam o fazer jornalístico, identificando fatores que conferem ao jornalismo de cada pais uma identidade nacional e cultural própria. Assim, os textos ganham uma acepção mais ampla que é resultado do gerenciamento de múltiplas variáveis as quais fundamentam esta pesquisa via Frank Esser (1998) in Zipser (2002). Partindo-se do pressuposto que uma reportagem retrate uma realidade e que a neutralidade não faz parte desse relato, é possível entender o vínculo existente entre o texto final de uma matéria jornalística com o gerenciamento de variáveis políticas, sociais, históricas e econômicas que envolvem sua produção. Essa aparente ausência de neutralidade posiciona a mídia como um veículo que não só informa, mas também forma a opinião pública. Logo, é possível dizer que os textos mediáticos relatam os fatos noticiosos a partir de perspectivas de enfoque especificas para as culturas as quais se dirigem. Dessa forma, pode se afirmar que esses textos estão inseridos em contextos situacionais e culturais diferenciados (...) in Zipser (2002:5), o que acarreta deslocamentos de enfoque ou diferentes traduções do fato noticioso. Essa postura é explicitada no modelo pluriestratificado integrado desenvolvido por Esser, através da metáfora da cebola ; nesta, aspectos sociais, políticos, normativos e subjetivos representam esferas maiores que emolduram e interagem dentro do âmbito do jornalismo, em um universo independente ainda que parte da sociedade. A alteração em qualquer desses aspectos afeta os outros numa dinâmica permanente enquanto processo, sendo sua influência diferente em cada cultura. O modelo de Esser nos leva a questionar a visão consensual do compromisso com a neutralidade no meio jornalístico, noção similar a visão da tradução isenta (literal) e que desconsidera o dinamismo da linguagem e os fatores que influenciam o processo de formação de sentido. Assim, Esser não só explica como também justifica os diferentes enfoques e abordagens dadas à notícia, apresentando parâmetros que condicionam a avaliação e interpretação dos fatos e que norteiam o trabalho dos jornalistas. O modelo de Frank Esser (1998) nos mostra, graficamente, estas forças que atuam sobre um jornalista, conhecido como a metáfora da cebola, o modelo pluriestratificado integrado descreve as quatro camadas (esferas) que atuam de forma a moldar a atividade do jornalista, a saber: 1.Esfera social é a moldura histórico-cultural, incluem-se aqui: questões relacionadas à liberdade de imprensa, a tradição jornalística, conceitos de objetividade vigente na cultura em questão; 2.. Esfera estrutural da mídia um nível de caráter normativo (normas jurídicas) e econômico (condições econômicas do mercado da mídia), o direito da imprensa, seu autocontrole e os princípios éticos da profissão; 3. Esfera institucional os fatores que influenciam nesta esfera são: os retratos da profissão e perfis de atividade, a estrutura organizacional e a distribuição de competência na redação e na edição, os procedimentos de trabalho e controle na redação, os mecanismos de socialização e a tecnologia da redação; 4. Esfera subjetiva é a esfera interna do modelo; abarca os fatores de ordem individual e subjetiva que atuam na produção jornalística: os valores subjetivos e os posicionamentos políticos, os temas da profissão e o modo como cada um entende o seu papel, questõ es ligadas à profissionalização e também a posição sócio-demográfica. O modelo de Esser mostra claramente as forças e esta visualização torna mais claro o entendimento do processo jornalístico; o modelo é apresentado na forma plana e partir de um plano de visão superior, segundo Esser, as esferas exercem pressões umas sobre as outras e influencia-se reciprocamente, nenhum fator atua isoladamente, mas desenvolve sua influência somente em conjunto com as demais forças.(esser, 1998 in

3 Zipser 2002). A tradução é uma das mais antigas profissões do mundo, entretanto os estudos da tradução são relativamente novos, anteriormente estes estudos estavam vinculados às disciplinas de lingüística, por exemplo; Holmes (1972) designou um nome para esta disciplina Estudos da Tradução específica para estudar os problemas tradutórios. Para muitos a tradução é uma transposição apenas de palavras de uma língua para outra; estas pessoas não têm a real noção de que a tradução vai muito além das estruturas lexicais. Seria tão fácil se existisse uma correspondência formal entre todas as palavras e expressões em todos os pares de línguas que alguém desejasse traduzir; talvez não precisássemos mais do tradutor humano, daquele que fica solitário e escondido atrás de uma pilha de livros e dicionários, talvez a tão sonhada máquina de traduzir já tivesse sido desenvolvida com perfeição e talvez o mundo não tivesse tantos problemas como tem. Não existe a tradução ideal de um texto, é possível até dizermos que uma tradução não é boa, mas nunca poderemos dizer que ela não cumpriu o seu papel; a comunicação de uma idéia é a função da tradução e, para a analise e ensino da tradução o modelo de Christiane Nord (1991) mostra-se útil e atual. Com o modelo de Nord podemos separar os elementos que são significativos em um texto e, a partir da analise destes dados podemos verificar, por exemplo, se a tradução e o texto original tem a mesma função, se o emissor é o mesmo, etc; a separação ocorre em dois momentos distintos, um quando classificamos os elementos externos ao texto, a saber: emissor; intenção; receptor; meio; lugar; propósito e função e, um outro momento quando separamos para a analise os elementos internos, a saber: tema; conteúdo; pressuposições; estruturação; elementos não verbais(figuras, gráficos); marcas supra segmentais(negrito, itálico, sublinhado); léxico; sintaxe e efeito do texto. Utilizando este modelo de Nord para a analise, as possibilidades de entendimento do conteúdo do texto e da tradução ficam mais visíveis e isto facilita a analise de qualquer tipo de texto. Nord por sua vez, compreende a tradução culturalmente marcada e voltada ao leitor final em prospecção. A tradução é vista por Nord como ação e o tradutor no confronto entre duas culturas, articulando o seu espaço e atuando nele como mediador. Nord interage com a lingüística do texto e fornece critérios para guiar as estratégias de tradução. Sua perspectiva interativa (teoria e pratica) faz da tradução um processo que se realiza no interior da linguagem e através dela, sendo a função do texto o pressuposto para uma situação comunicativa. Nord afirma ainda que os próprios interlocutores trazem consigo as experiências e as expectativas de outros textos num processo constante de negociação a ser gerenciado pelo tradutor-jornalista que, não pode evitar a sua própria leitura do Texto-Fonte, presente em seu trabalho (ZIPSER 2002:38). Nesse processo, a autora distingue a lealdade ao receptor, e a fidelidade ao texto-fonte pois para Nord. O processo tradutório não se volta para trás, isto é, para o texto-fonte, mas para frente, para o leitor em prospeção que é base da teoria funcionalista. A pesquisadora propõe com isso um modelo de fatores do evento comunicativo que caracteriza a tradução quando da travessia da mensagem de uma língua ou cultura para outra, ou mesmo intraculturalmente definidos como elementos extratextuais e intratextuais. O texto de Veja de 14 de fevereiro de 2001 apresenta muitas destas marcas culturais (adjetivos e advérbios), neste piloto analisados e, são elas as grandes responsáveis pela opinião formada que os leitores terão após a leitura. A forma como o texto é construído, a forma como as idéias são organizadas mostram claramente quais objetivos o autor quis atingir. Estas marcas são evidências claras de que a adjetivação conceitua os personagens do texto; personagens por que trata-se de uma narrativa, um estilo muito utilizado em revistas. O leitor deve sempre estar atento para tais marcas, elas muitas vezes passam desapercebidas, quase que subliminarmente RESUMO: Este trabalho é parte de um estudo piloto sobre as marcas culturais nos textos jornalísticos. As marcas culturais são mostradas sobretudo quando nós analisamos os adjetivos presentes nos textos. Adjetivos são marcas lingüísticas que qualificam os nomes sendo assim, nós temos a oportunidade de entendermos exatamente o que o autor quer nos dizer. PALAVRAS-CHAVE: Jornalismo; Cultura; Tradução

4 Anexos Texto Veja 14 de fevereiro de 2001 Brasil Diplomacia Não é a vaca que está louca: incomodado com o crescimento da Embraer, o Canadá parte para a retaliação e inventa que a carne brasileira está contaminada. Consuelo Dieguez Para a maioria dos brasileiros, o Canadá sempre foi aquele país simpático e sem graça situado ao norte dos Estados Unidos. Uma região que passa a maior parte do ano sob polegadas de neve e de onde, fora os esquimós, os ursos e a polícia montada, o imaginário popular não tem lá muitas imagens concretas. Bem, desde a semana passada o Canadá apareceu com uma cara bem mais feia para os brasileiros. A terra dos ursos, que de tão estável e abúlica se diz ser "um país à procura de um problema", transformou-se em nosso mais novo e, até segunda ordem, único inimigo externo. A agressão partiu deles. Numa decisão aparentemente irracional, o Canadá proibiu há dez dias a importação de carne brasileira. A alegação: havia uma remota possibilidade de o produto estar contaminado pelo mal da vaca louca, a temível doença de origem européia que esfarinha o cérebro do gado e obrigou até agora o abate de milhões de animais no Velho Continente. Desde que a decisão foi conhecida, está sendo cristalizada na cabeça dos brasileiros a certeza de que o Canadá é capaz de usar os mais infames artifícios para vencer uma guerra comercial - uma guerra, aliás, que passa a quilômetros de distância do rebanho brasileiro. Por trás da manobra, está o bilionário mercado internacional de jatos de pequeno porte, no qual a brasileira Embraer desbancou o reinado da canadense Bombardier. Ao misturar gado com avião, o Canadá abriu uma gigantesca crise entre os dois países e envolveu o Brasil na maior contenda comercial e diplomática de sua história. Na semana passada, a escalada de indignação já atingia tais proporções que até o presidente Fernando Henrique Cardoso trocou seu habitual tom conciliatório por uma ameaça: "Se em quinze dias o Canadá não retificar sua posição em relação à carne brasileira, nós vamos engrossar. Que ninguém tenha dúvida em relação a isso", disse o presidente. "Se eles quiserem guerra, terão guerra." A refrega provocou uma unidade rara no país. No Congresso, do PT ao PFL os parlamentares se uniram para barrar os interesses canadenses no país. Suspenderam todos os acordos de cooperação em análise na Câmara e no Senado. Nas ruas, o protesto ganhou um tom bem-humorado. Os donos de restaurantes de São Paulo decidiram boicotar os produtos canadenses, jogando no lixo o que havia em estoque. Em Brasília, a Embaixada do Canadá virou alvo dos ataques de estudantes, que levaram uma vaca para dar de presente ao embaixador. Até a rádio Jovem Pan FM, que atua em rede nacional, decidiu banir todos os artistas canadenses de sua programação. Mas há pouco do que rir nesse episódio. Do ponto de vista comercial, a atitude do Canadá é um golpe baixo. "O comportamento do Canadá foge a todas as regras civilizadas do comércio internacional", avalia o embaixador Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores. As restrições às importações brasileiras de carne imp ostas pelos canadenses não teriam maiores conseqüências caso tivessem ficado confinadas àquele "pedaço de calota polar", como se refere ao Canadá um enfurecido diplomata. O país importa apenas 5 milhões de dólares num total de vendas brasileiras que somara m 500 milhões de dólares no ano passado. Seria fácil para o Brasil dar de ombros para um consumidor tão chinfrim. Mas não é assim que funciona o mundo globalizado dos blocos econômicos. No poderoso Nafta, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, os parceiros do Canadá são Estados Unidos e México. Pelos acordos fitos sanitários assinados entre os três países, todos são obrigados a seguir a decisão do vizinho que suspender a importação de qualquer produto alegando risco para a saúde do consumidor. Aí a coisa se complica. Só no ano passado os americanos importaram 100 milhões de dólares de carne do Brasil. Doença mortal - Mas o maior prejuízo ainda não foi totalmente dimensionado. A encefalopatia espongiforme bovina, ou síndrome da vaca louca, é uma doença que ataca o sistema nervoso do gado e mata em pouco

5 tempo. Foi descoberta na Inglaterra, em 1986, e ignorada pelo resto do mundo até dez anos depois. Em 1996, no entanto, alguns cientistas começaram a desconfiar que a síndrome podia ser transmitida aos seres humanos pelo consumo de carne contaminada, causando outra doença mortal, conhecida como Creutzfeldt-Jakob. Até hoje, não existe comprovação científica da transmissão da enfermidade para seres humanos. Mas a histeria com o mal apossou-se dos consumidores em todo o mundo. Hoje em dia, afirmar que um país tem a doença da vaca louca equivaleria, na Idade Média, a dizer que havia leprosos numa cidade. A partir daí ninguém queria contato com os pestilentos. FA campanha contra o Brasil tem um ingrediente ainda mais perverso: as autoridades sanitárias canadenses sabem muito bem que o rebanho brasileiro é saudável. A doença da vaca louca está associada à alimentação antinatural imposta ao gado europeu. Lá, as vacas recebem como complemento alimentar um composto de farinha de ossos e outros restos animais tirados das carcaças do próprio gado. É um canibalismo forçado. Os especialistas suspeitam que essa ração animal dada a uma espécie ruminante, e portanto vegetariana, esteja na raiz de todo o problema. De um lado, ela enfraquece o sistema imunológico dos animais. De outro, torna-se um vetor poderoso de transmissão do mal, uma vez que animais doentes mas sem sintomas podem ter virado ração. Para reforçar a acusação irresponsável do Canadá ao Brasil, existe um relatório insuspeito que nos isenta de qualquer culpa. A Organização Mundial de Saúde divulgou em dezembro um mapa da vaca louca. Nele, o Brasil não aparece. O Canadá também não, mas a OMS deixa claro que os canadenses andariam muito mais próximos da doença da Europa que o Brasil. Suspeita-se que o Canadá possa ter importado vacas inglesas. Os outros países da lista, além da Inglaterra, são: Irlanda, França, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Itália, Portugal, Kuwait e Omã. Para pagar a decisão canadense com a mesma moeda será lícito ao Brasil, por exemplo, barrar a entrada de cidadãos canadenses no país, depois que se revelou que o Canadá abrigou o que poderia ser o primeiro caso da mortal doença ebola nas Américas. Na semana passada, uma mulher do Congo chegou ao Canadá com todos os sintomas de ser portadora do vírus ebola. Ela viajou ao lado de dezenas de canadenses no Boeing que a trouxe da África à América. Uma vez no país, teve contato com dezenas de outras pessoas. Os médicos canadenses não conseguiram confirmar a presença do vírus no corpo da mulher. Ainda bem. O ebola mata 95% de suas vítimas em questão de dias. E é transmitido com enorme facilidade. O Canadá deveria ser mais cuidadoso. Outros países que recebem vôos diretos de países africanos nas áreas de risco do ebola pedem exames negativos dos passageiros antes do embarque. "O jogo comercial é sujo, mas nós vamos reagir à altura", avisou o secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Roberto Giannetti da Fonseca. O argumento do Canadá para justificar tamanha insensatez é que o governo brasileiro não respondeu satisfatoriamente a um questionário enviado em 1998, no qual se indagava sobre as condições sanitárias do gado nacional. Pura balela. Se os canadenses não estavam satisfeitos com as respostas, bastava ter pedido maiores explicações. É o mínimo que se espera de um país que mantém relações amigáveis com outro. Mas bom senso é tudo o que falta nessa história. O ministro da Agricultura canadense, Lyle van Clieff, encontrou-se cinco vezes com seu colega brasileiro, Pratini de Moraes, a última há dois meses, e nunca fez menção alguma a tal questionário. "Cada vez que o Brasil põe a cabeça fora d'água vem pau em cima. Foi assim no café solúvel, foi assim com os calçados, foi assim com o aço, tem sido assim com a laranja e agora querem fazer o mesmo com a carne porque sabem que o Brasil é o país mais competitivo e o melhor produtor de carne do mundo", disse Pratini. Não poderia haver melhor resumo da situação. No mesmo dia em que anunciou a suspensão das importações, o governo canadense determinou que se retirasse das prateleiras de supermercados e mercearias toda a carne enlatada importada do Brasil. Pior. Pediu que a população não consumisse o que já havia sido comprado. Nada poderia comprometer tanto a imagem de um produto. A arbitrariedade, porém, deixou rastros. O comunicado à população foi feito pelo chefe da agência de fiscalização alimentar do Canadá, Brian Evans. Ao justificar a medida, o próprio Evans reconheceu que não há evidência de mal da vaca louca no Brasil. "Nós trabalhamos Se eles não têm evidências, o Brasil já tem provas mais do que eloqüentes para justificar a decisão de entrar com pedido de indenização na Organização Mundial do Comércio (OMC), o foro que regulamenta e julga as questões comerciais em nível mundial. A ação é contra os danos comerciais causados ao país pela suspeita infundada de doença da vaca louca. Desde que as medidas de suspensão das importações foram baixadas, toneladas de carne estão estocadas causando enormes prejuízos a produtores e frigoríficos - cerca de 6 milhões de reais só em Mato Grosso. A suspeita sobre a real motivação do governo canadense não está confinada ao Brasil. No

6 dia 3 de fevereiro, um dia após o boicote à carne ter sido anunciado, o jornal Globe and Mail, o único de circulação nacional no país, publicou um artigo cuja conclusão era de que se algo estava cheirando mal nessa história não era a carne brasileira. "Esqueçam o patriotismo. O último refúgio dos salafrários nesses dias de liberalização do comércio é a regulamentação da segurança alimentar", diz o artigo. "Nada nocauteia um adversário mais rápido do que a acusação de que o produto que ele oferece é um risco para a saúde." A verdade é que o Canadá nunca deu grande importância para a carne brasileira, e se estivesse tão preocupado com o assunto teria tomado providências há mais tempo. Até os bezerros brasileiros sabem que a razão da contenda passa longe dos pastos. A grita do Canadá tem como objetivo brecar a avassaladora expansão da Embraer no mercado internacional de jatos regionais de até cinqüenta lugares. Até 1996, a Bombardier detinha o monopólio desse mercado. A Embraer, porém, não só desbancou a soberania da canadense como, no ano passado, assumiu a dianteira na disputa. Foram 157 jatos vendidos contra 96 da Bombardier. E é óbvio que a preferência pelo produto made in Brasil não se deu por causa dos subsídios que eles acusam o governo brasileiro de estar concedendo à Embraer. O que o Canadá não admite é que um país em desenvolvimento esteja produzindo um jato melhor e mais barato. As razões da preferência pelo avião da Embraer são facilmente explicáveis. O jato brasileiro pesa 2 toneladas a menos que o canadense. Financeiramente, isso equivale a uma diferença de preço entre 1,5 milhão e 2 milhões de dólares. Mas existem outras vantagens. Um avião mais leve consome menos e tem gastos menores de manutenção. Além disso, deve ser duro para o Canadá engolir que a gigante Bombardier, com funcionários e faturamento anual de 11 bilhões de dólares, esteja tomando uma surra da Embraer, uma empresa brasileira, privatizada há sete anos, com funcionários e faturamento de 3 bilhões de dólares ao ano. Não se pode esquecer que a Embraer começou a competir nesse mercado há apenas cinco anos e em condições muito menos favoráveis. E virou o jogo a seu favor. Ao perceber que estava perdendo espaço para o Brasil, o governo canadense partiu para o ataque. Entrou com várias ações na OMC acusando o Brasil de estar subsidiando as exportações de suas aeronaves. Os tais subsídios a que o Canadá se refere são, na verdade, uma equalização das taxas de juros. A matemática financeira é cruel com o Brasil. Aqui, por uma série de fatores econômicos, as taxas de juros são astronômicas. Portanto, ao tomar empréstimo para financiar a venda de seus aviões, a Embraer tem de pagar taxas de juro muito acima das oferecidas pelo governo canadense à Bombardier. Por essa razão, para manter as taxas de juro nos mesmos níveis do mercado internacional, o governo brasileiro criou um programa de exportação em que parte dessa diferença é coberta por uma linha de crédito de apoio às exportações conhecida como ProEx. "As empresas brasileiras não ganham taxas de juro mais vantajosas que a de seus concorrentes", explica o diretor financeiro do BNDES, Isaac Zagury. "Elas só ficam no mesmo patamar." Já o Canadá concede vários subsídios mascarados que agora começam a ser questionados pelo Brasil. Na última concorrência aberta nos Estados Unidos pela Air Wisconsin, a Bombardier ganhou a parada por ter recebido subsídios diretos do governo canadense no valor de 300 milhões de dólares. Com isso, ela deu um desconto no mesmo valor para o comprador. O caso só veio a público após um jornal canadense denunciar a manobra. A questão da Embraer é emblemática porque, pela primeira vez, o Brasil disputa um mercado de alta tecnologia, em condições muito menos favoráveis, e consegue ganhar a parada. "A realidade é que os países ricos não estão suportando essa invasão de um país em desenvolvimento no seu mercado", afirma o embaixador Celso Amorim, responsável pelas negociações do Brasil na OMC. O fato é que o Canadá esperneou e a OMC julgou a pendência em favor da Bombardier e acabou forçando o Brasil a mudar seu programa de exportações. Mas não foi tudo. No final, o organismo condenou o Brasil a compensar o Canadá pelas perdas com os subsídios concedidos à Embraer. Para não ser acusado de descumprir as regras do comércio internacional, o Brasil dispôs-se a honrar as exigências. Comprometeu-se a ressarcir o Canadá importando mais 900 milhões em produtos canadenses, o valor do subsídio que a OMC acusava o país de ter concedido à Embraer. Tal medida aumentaria ainda mais o déficit do Brasil na balança comercial entre os dois país es, que é favorável ao Canadá em 535 milhões de dólares. O Canadá, porém, não aceitou a proposta. Exigiu que o ressarcimento fosse retroativo; tinham sido assinados pela Embraer com as empresas compradoras dos aviões. Ou seja, o Canadá, que tanto alardeia a preocupação ética de sua política externa, chegou ao cúmulo de querer que a Embraer modificasse todos os seus contratos, expondo a empresa a um vexame internacional. "Isso seria a sentença de morte da Embraer", reage Maurício Botelho, presidente da empre sa brasileira. "Não venderíamos nem mais uma asa de avião."

7 Regras de civilidade - A decisão de boicote à carne brasileira não saiu, como seria de esperar, do Ministério da Agricultura do Canadá. Saiu prontinha de onde? Do Ministério da Indústria e Comércio, comandado por Brian Tobin. Exatamente a pasta que cuida dos interesses da Bombardier. O que está ficando claro nesse imbróglio é que o Canadá transformou a briga entre duas empresas numa contenda comercial entre dois países. A Bombardier é efetivamente uma empresa de grande peso na economia canadense. "Em termos de Brasil, equivaleria a uma companhia que reunisse o poderio das Organizações Globo com o do grupo Votorantim", afirma um diplomata brasileiro. É óbvio que o Canadá tem todo o direito de defender o interesse de suas empresas, mas, quando essa defesa ultrapassa todas as regras de civilidade do comércio internacional, surgem suspeitas de que outros interesses podem estar por trás de tamanho patriotismo. O que chama a atenção quando se destrincham as relações entre a Bombardier e o governo canadense é uma promiscuidade associada normalmente à mais rastaqüera das repúblicas bananeiras. A Bombardier foi a principal financiadora da campanha do Partido Liberal, que elegeu o primeiro-ministro Jean Chrétien. O presidente executivo da empresa foi vice-ministro da Indústria e Comércio. Tem mais. O filho do primeiro-ministro canadense é casado com a filha do ex-presidente da companhia - o que em si não quer dizer nada, mas somado aos outros fatos acentua o tal mau cheiro a que o Globe and Mail se referiu no artigo publicado na semana passada. Ou seja, é o velho favorecimento aos amigos disfarçado de defesa dos interesses nacionais. Nada mais Terceiro Mundo que uma empresa com um poder tão avassalador que é capaz de faze r chover dentro de um governo. O que toda essa confusão demonstra é que o Brasil está crescendo e tornando-se um competidor incômodo para as grandes potências. Nos últimos anos, principalmente por causa da estabilidade da economia e da abertura para o exterior, o país ocupou um espaço inédito. O embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Barbosa, acha que essas brigas serão cada vez mais freqüentes. O motivo é simples. O Brasil está surgindo como um competidor importante no jogo globalizado. "Temos de estar cada vez mais preparados para enfrentar esses embates comerciais. Nesse mercado não tem freirinha", ironiza. A questão é que, para entrar nessa briga de gente grande, o Brasil precisa dispor das mesmas armas de que dispõem os países desenvolvidos. Estados Unidos, Canadá, Japão e toda a turma da União Européia têm um batalhão na OMC para defender seus interesses. O Brasil só conta com o corpo diplomático, que, comparado ao time dos grandes, lembra o exército de Brancaleone. Até 1999 o Bras il não tinha sequer uma equipe de assessoramento à diplomacia brasileira na OMC. Foi o BNDES que sugeriu que se montasse um grupo de experts em questões comerciais para brigar pelos interesses das empresas brasileiras. Outra diferença entre o Brasil e seus competidores é que quase todos eles contam com o apoio de empresários para ajudar a levantar as questões. O jogo comercial é pesado, e, se o país não estiver preparado com um arsenal de advogados e especialistas nesses trâmites de comércio internacional, vai perder a parada. O Brasil está passando por um primeiro teste. Mas a guerra está só começando. Com reportagem de Márcio Pacelli, de Brasília DIEGUEZ, Consuelo. Não é a vaca que está louca: incomodado com o crescimento da Embraer, o Canadá parte para a retaliação e inventa que a carne brasileira está contaminada. Em VEJA, nº 1687 de 14 de fevereiro. ED. Abril. São Paulo REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS LAGE, Nilson. A Reportagem: Teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. Ed. Record. Rio de Janeiro NORD, Christiane. Text Analysis in Translation: Theory, Methodology, and Didactic Application of a Model for Translation-Oriented Texts Analysis. Translation: Christiane Nord; Penelope Sparrow. ED. Rodopi. Amsterdan-Atlanta, 1991 ZIPSER, Meta Elisabeth. Do fato à reportagem: as diferenças de enfoque e a tradução como representação cultural. (tese de doutorado) São Paulo: USP, 2002.

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