HISTÓRIA DA TINTA ATRAVÉS DA ARTE OCIDENTAL THE HISTORY OF INK THROUGHOUT WESTERN ART

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1 HISTÓRIA DA TINTA ATRAVÉS DA ARTE OCIDENTAL THE HISTORY OF INK THROUGHOUT WESTERN ART Libia Schenker Escola de Museologia - UNIRIO Correio Eletrônico: Resumo: Este artigo propõe-se a apresentar a História da Tinta, oferecendo ao leitor um amplo panorama das transformações no uso deste material no decorrer da história da arte dita Ocidental. A trajetória apresentada toma como ponto de partida a Pintura Rupestre e continua com as pinturas egípcias; chega às pinturas na Ilha de Creta e da Grécia propriamente dita. Apresenta e discute também: o legado pictórico dos romanos e dos bizantinos; os registros pictóricos religiosos da Arte Paleocristã e Gótica; as mudanças paradigmáticas do Renascimento; as (re) definições pictóricas do Barroco, do Rococó, do Neoclassicismo, do Romantismo e do Realismo; as inovações do Impressionismo e do Pontilhismo; as contribuições de Van Gogh, Cézanne e Matisse; as heranças fauvistas e cubistas; as (re)construções pictóricas abstratas e seus grandes nomes; os surrealistas e suas experiências; as aplicações de Pollock; e, finalmente, a Arte Contemporânea e seus diferentes nomes e representações. Constata-se que, do período Paleolítico ao século XXI, a pintura demonstrou que, mesmo em meio aos desvios e ao forte apelo da linguagem fotográfica e dos recursos digitais, se mantém soberana no universo da História da Arte Ocidental. Palavras-chave: Arte ocidental; História da Arte; Pintura. Abstract: This article intent to present the History of Ink, giving the reader a wide view of the transformations in the uses of this material throughout the history of the art that is called Western. The journey presented has its starting point with the cave painting and carries on with the Egyptian paintings; it reaches the paintings in the isle of Crete and in Greece itself. It presents and debates also: the pictorial legacy of Romans and the Byzantines; the religious pictorial inscriptions of Paleo-Christian art and Gothic art; the paradigmatic changes of Renascence; the pictorial (re) definitions of the Baroque, the Rococo, the Neoclassicism, the Romantics and the Realism; the innovations of Impressionism and Pointillism; the contributions of Van Gogh, Cézanne and Matisse; the fauvist and cubist heritage; the abstract pictorial (re)constructions and its great names; the surrealists and their experiences; the applications of Pollock; and, finally, the Contemporary Art and its different names and representations. We realize that, from the Paleolithic period to the XXI century, the painting revealed that, also among the detours and the strong appeal of photographic language and digital resources, it maintained its realm in the universe of the western art history. Keywords: Western art; Art history; Painting.

2 HISTÓRIA DA TINTA ATRAVÉS DA ARTE OCIDENTAL Libia Schenker A história da tinta se confunde com a própria aurora da civilização e com a história das técnicas artísticas. As principais mutações que permearam a trajetória da Arte Ocidental se relacionam com os diversos materiais utilizados nas técnicas pictóricas. As transformações estéticas decorrentes das características específicas de cada tipo de tinta enfatizam as variantes tonais, as texturas, os diferentes tratamentos espaciais e o nível de fidelidade ao real. O primeiro testemunho ficou gravado nas paredes das grutas, uma pintura rupestre que o homem do Período Paleolítico criou a partir de têmperas feitas com terra, argila, ossos calcinados e carvão vegetal misturados com sangue, gordura e excrementos. As cores, o volume e o movimento das figuras denotam o domínio de uma linguagem artística, embora o sentido ritual de magia, para auxiliar na caça dos animais, seja também uma explicação da existência dessas pinturas no interior das cavernas. (1) CAVALO SELVAGEM, ARTE RUPESTRE,LASCAUX, FRANÇA, PINTURA, PERIODO PALEOLÍTICO ANOS As pinturas egípcias que resistiram à passagem dos séculos denotam uma policromia muito rica, onde as cores tinham funções simbólicas e as figuras eram retratadas de acordo com a lei da frontalidade: rosto e pernas de perfil, torso e olhos de frente, enfatizando as principais características do corpo humano. As técnicas pictóricas empregadas variavam entre a têmpera(mistura de pigmentos com ovo ou caseína) e a encáustica (mistura de pigmentos com cera derretida). (2) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

3 RAINHA NEFERTARI JUNTO À DEUSA HATHOR,ARTE EGIPCIA, PINTURA MURAL, 19ª DINASTIA RAMSÉS II, A.C. Na ilha de Creta ficaram os primeiros testemunhos da técnica do afresco na Arte Ocidental. Uma pintura mural que decorava as paredes do Palácio de Cnossos. Essa técnica consistia numa tinta formada por pigmentos diluídos com água aplicada sobre uma parede que havia recebido uma camada de argamassa úmida. (3) TAUROMAQUIA, ARTE MINÓICA, CRETA, PALACIO DE CNOSSOS, AFRESCO, SEC. XV A.C. Da Grécia que nos legou tantas obras magníficas de arquitetura e escultura, não restou nenhum exemplo da pintura que ali foi produzida pelos artistas helênicos. Somente as descrições dos autores antigos que apontam para a beleza, o ilusionismo e o perfeccionismo desses trabalhos é que ficaram para nossa imaginação. Nos vasos pintados também perduram o testemunho das características plásticas do classicismo grego. (4) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

4 GANYMEDE E ZEUS, ARTE GREGA,VASO PINTADO, PERÍODO CLÁSSICO, A.C. Quanto ao legado dos romanos, podemos citar algumas pinturas murais (afrescos) encontradas nas escavações, como as de Pompéia. A forte influência artística dos gregos, principalmente do período helenístico, foi o que mais marcou o estilo das obras do Império Romano. Um tratamento realista das figuras, com uso do claro-escuro em algumas cenas, denota as características dessa herança. Arquitetura, escultura e mosaicos são os mais importantes exemplos da linguagem artística que esse povo produziu. (5) HÉRCULES ESTRANGULA AS COBRAS, CASA DOS VETTII, ARTE ROMANA,POMPEIA, AFRESCO, D.C. Com o Império Bizantino o mosaico repleto de tons dourados assumiu a posição principal ao lado dos primeiros ícones, uma pintura em encáustica sobre madeira com metais preciosos e cores simbólicas, enfatizando o cunho divino dessas peças. (6 e 7) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

5 CRISTO PANTOCRATOR, ARTE BIZANTINA, CÚPULA DA IGREJA DE CHORA, MOSAICO, 536 D.C. CRISTO PANTOCRATOR, ARTE BIZANTINA, MONASTÉRIO DE SANTA CATARINA, EGITO, ÍCONE, ENCÁUSTICA, SÉCULOS VI OU VII D.C. As pinturas das catacumbas, escondidas e escuras, apresentam exemplos de afrescos com temática bíblica e símbolos típicos do início do Cristianismo, uma arte Paleocristã destinada aos túmulos de uma religião proibida. (8) CRISTO COM A MULHER JUNTO AO POÇO, ARTE PALEOCRISTÃ, CATACUMBA ROMANA, MEADOS DO SÉCULO IV D.C. R M m m E V R loogggiiiaaa V Muuussseeeooollo mm meeerrrooo 555,,, 111ººº/// leetttrrrôôônnniiciccaaa JJJooovvveeem Elle Voooll.l..333,,, nnnúúúm Reeevvviisisstttaaa E 6644

6 Com a passagem da Antiguidade para a Idade Média os estilos artísticos vão tomando outra feição. Entre os séculos V e XIV a Arte Medieval européia foi se transformando e apresentando diferentes elementos decorativos, sempre a serviço dos temas sagrados da religião cristã. A integração entre a arquitetura, a escultura e a pintura mural marcou o Período Românico, difundindo seus valores religiosos através dos grandes afrescos. O tratamento cromático enfatizava a planaridade, sem jogos de luz e sombra, evitando o naturalismo e o volume no espaço. O Teocentrismo Deus como centro do universo e medida de todas as coisas determinava os aspectos espirituais dessas obras e traduzia o poder ilimitado que a igreja possuía como a representante de Deus na terra. (9) ANGE LAMPADOPHORES, ARTE ROMÂNICA, IGREJA DE STO NICOLAU DE TAVANT, FRANÇA, AFRESCO, CRIPTA DO SÉCULO XII Na fase do estilo Gótico temos a arquitetura das catedrais, com seus vitrais coloridos filtrando a luz desses ambientes altos e verticais, com arcos, ogivas, colunas e relevos estilizados. A temática bíblica dos vidros coloridos supria as funções decorativas e didáticas nesses ambientes sagrados. Outra característica marcante da Idade Média foram as Corporações de Ofícios, onde os artesãos detinham o monopólio do conhecimento prático das técnicas artísticas e trabalhavam de maneira anônima, sem individualidade, sem assinar os trabalhos. Além das pinturas murais e das iluminuras (pergaminhos manuscritos e ilustrados), os retábulos de madeira com articulações e portas laterais representavam um dos mais importantes suportes das artes medievais. A técnica da têmpera com ovo e os douramentos eram aplicados em todas as partes do painel e denotavam o grande esmero e domínio técnico desses pintores, com uma tinta que secava rápido e exigia uma habilidade metódica e conhecimento específico dos materiais. (10, 11, 12 e 13) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

7 ILUMINURA S/PERGAMINHO, CARTA DE SÃO PAULO,ARTE GÓTICA, CERCA DE 1200, BIBLIOTECA NACIONAL, PARIS VITRAL,NOTRE DAME DE LA BELLE VERRIERE, CATEDRAL DE CHARTRES, FRANÇA, ARTE GÓTICA, SÉCULO XIII CIMABUE, CRUCIFIXO DE SÃO DOMENICO, TÊMPERA S/MADEIRA, ARTE GÓTICA, , AREZZO, ITÁLIA RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

8 DUCCIO DI BUONINSEGNA, A VIRGEM SAGRADA E CRISTO MENINO COM SÃO DOMENICO E STA ÁUREA,TRÍPTICO, TÊMPERA S/ MADEIRA, ARTE GÓTICA, RETÁBULO PORTATIL, CERCA DE 1300, NATIONAL GALLERY, LONDRES. Por volta de 1300 temos as primeiras pinturas murais de Giotto, pintor da Escola Florentina, o precursor do Renascimento. Os seus afrescos eram praticados com a técnica da argamassa úmida, onde o pigmento fica integrado na estrutura e cristalizado na superfície da parede. Ele também usou a técnica da têmpera, com o ovo como aglutinante dos pigmentos. Giotto encerrou uma linguagem pictórica que se ocupava sobretudo de Deus e abriu uma outra que passou a se ocupar sobretudo do Homem. As proporções hierárquicas e a síntese entre a representação em superfície e a do espaço em profundidade foram a grande contribuição das obras desse artista, que com um colorido intenso, abriu as portas para o tratamento espacial Renascentista. (14) GIOTTO, SONHO DE INOCÊNCIO III, AFRESCO, IGREJA DE SÃO FRANCISCO, CERCA DE 1300, ASSIS, ITÁLIA RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

9 Após tantos séculos de predomínio da têmpera e do afresco, a tinta a óleo começou a ser praticada com afinco pelos artistas flamengos, que guardavam o segredo e o mistério alquímico dos aglutinantes e dos pigmentos. A polêmica acerca desse assunto provocava muitas dúvidas sobre a verdadeira origem dessa técnica. Muitos historiadores atribuíam sua invenção ao pintor flamengo Jan Van Eyck, embora essa não seja exatamente a verdade. Em torno de 1420 começou a florescer esse novo tipo de mistura entre as obras flamengas. Entretanto, o primeiro a descrever uma pintura a óleo sobre madeira foi um monge alemão, Teófilo, num tratado sobre Artes Medievais do século XII. A principal limitação da tinta a óleo era sua lentidão para secar, que na opinião do monge tornava a técnica muita demorada e tediosa, sobretudo para pintar figuras humanas. Após três séculos de experiências e aperfeiçoamentos, no final do século XIV, a introdução de catalisadores conseguiu acelerar a sua secagem. Com a têmpera o poder de matização das cores não oferecia a possibilidade de efeitos de tridimensionalidade. Somente com a introdução do óleo é que esse efeito de matização foi alcançado. A pintura era preparada com pigmento moído com óleo de linhaça, mas não se sabe se no início era empregado algum elemento volátil como a terebintina. Jan Van Eyck dominava essa técnica de maneira tão hábil, com efeitos óticos tão inovadores, como na obra O Casal Arnolfini (1434), que sua perícia acabou originando a lenda de que havia sido ele quem inventara esse processo. Sem o aperfeiçoamento dessa técnica, a superfície lustrosa e o brilhante ilusionismo da sua pintura não poderiam ter sido alcançados. Anteriormente as qualidades pictóricas das obras apresentavam outras características, cores mais opacas e menos detalhes realistas. (15) JAN VAN EYCK, CASAL ARNOLFINI, ÓLEO S/MADEIRA, PINTURA FLAMENGA, 1434, NATIONAL GALLERY, LONDRES RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

10 Esse trabalho de Van Eyck é a primeira grande demonstração porque essa técnica veio a se tornar a favorita da Arte Ocidental. Apesar de sua secagem ser mais lenta do que as anteriores, esse problema é também uma qualidade, pois os artistas podiam introduzir modificações na composição durante o processo de feitura. O afresco nunca permitiu essa liberdade fundamental para o processo criador, pois a secagem rápida da argamassa impedia essa interferência. A têmpera, por sua vez, não possuía o mesmo poder de cobertura que as pinceladas com óleo apresentavam. O Renascimento significou para a história do Ocidente um momento de renovação, uma nova concepção de vida e um marco fundamental para o conhecimento e a criação artística. Às descobertas científicas somam-se o progresso material e as expansões marítimas. É a época do Humanismo, o Antropocentrismo que substituiu o Teocentrismo Medieval. O resgate dos valores da Antiguidade Clássica Greco-romana é o grande referencial do homem erudito do século XIV. Os temas religiosos subsistem, mas a arte deixa de ser mística e simbólica e passa a ter inspiração profana, o artista observa a natureza, adota o homem como modelo e representa o espaço da realidade. Ao anonimato anterior opõe-se a diferenciação e a individualização dos artistas e artesãos. Na Itália, no período do Renascimento, a pintura dos seus mestres tinha no domínio da perspectiva o seu grande trunfo. O naturalismo das figuras, a projeção dos planos no espaço bidimensional do suporte, o tratamento pictórico dos volumes e a luz refletida foram as maiores conquistas desses mestres. Enquanto os italianos buscavam a beleza das formas com uma plasticidade intensa, os alemães e os flamengos se dedicaram à beleza interior e à meditação, aos detalhes e ao tratamento suntuoso dos elementos da composição. A grande umidade da cidade de Veneza dificultava a secagem dos afrescos, mas com a flexibilidade dos óleos e a substituição dos suportes de madeira pelas telas, o trabalho poderia ser executado no ateliê, ser enrolado e depois levado para o seu destino definitivo. Esse passo foi fundamental para a grande difusão da técnica a óleo a partir do século XV. O pintor Antonello da Messina foi o introdutor desse tipo de tinta em Veneza, em Mas foi com Giovanni Bellini que a pintura a óleo alcançou todas as suas possibilidades e especificidades técnicas. A partir daí a riqueza das cores, o brilho e a estética Renascentista se desenvolveram de maneira tão triunfante. (16 e 17) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

11 ANTONELLO DA MESSINA, CRISTO NA COLUNA, ÓLEO S/TELA, , MUSEU DO LOUVRE,PARIS BELLINI, O DOGE LEONARDO LOREDAN,ÓLEO S/MADEIRA E TÊMPERA COM OVO, , NATIONAL GALLERY, LONDRES Enquanto a arquitetura inspirada nas ordens e nas proporções clássicas e simétricas, com suas cúpulas grandiosas e equilibradas, se renova e passa a apresentar uma nova concepção de espaço, a escultura assume sua plenitude com harmonia, vigor e caráter humanizado. A pintura renascentista, por sua vez, apresentou uma produção tão prolífica que viria a ser considerada como um dos mais ricos momentos das artes plásticas ocidentais. Piero Della Francesca, da Escola Florentina, pintou em 1442 a obra O Batismo de Cristo. Com um tratamento espacial ilusionista, composição equilibrada e simétrica, cores delimitadas pela linha do desenho, esse mestre criou um típico exemplo de pintura renascentista. Ele utilizou a técnica da têmpera com ovo, mas também tratou algumas partes RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

12 com óleo. Por isso podemos perceber que a primazia do óleo não se deu de modo repentino, e sim gradual. Muitos artistas dessa época utilizavam as duas técnicas ao mesmo tempo. (18) PIERRO DELLA FRANCESCA, A FLAGELAÇÃO, ÓLEO E TÊMPERA S/ PAINEL, 1469, GALLERIA NAZIONALE DELLE MARCHE, URBINO, ITALIA PIERO DE LA FRANCESCA,O BATISMO DE CRISTO, TÊMPERA S/ PAINEL, 1442, NATIONAL GALLERY, LONDRES Leonardo da Vinci, uma das principais figuras do Renascimento Italiano, dedicou-se com afinco ao estudo dos mais diversos assuntos: matemática, anatomia, física, botânica, geologia, hidráulica, óptica, arquitetura e engenharia militar. Suas pinturas denotam a aplicação de seus vastos conhecimentos na formalização das figuras humanas e nas paisagens. Através da análise de suas obras podemos reconhecer as grandes inovações que ele introduziu na linguagem da pintura. (19 e 20) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

13 LEONARDO DA VINCI, MONA LISA (DETALHE), ÓLEO S/MADEIRA, , MUSEU DO LOUVRE, PARIS LEONARDO DA VINCI, A VIRGEM DAS ROCAS, ÓLEO S/ MADEIRA, , NATIONAL GALLERY, LONDRES - O sfumato, termo italiano criado por ele para se referir à técnica de pintura em que sucessivas camadas de cor são misturadas em diferentes gradações de forma a passar ao olho humano a sensação de profundidade, forma e volume. Trata-se de uma mistura de matizes aplicada de forma sutil, sem uma transição abrupta entre as formas. Remete à idéia de esfumaçado, ou como ele dizia: sem linhas ou limites, à maneira de fumaça. Ao diluir as RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

14 formas na atmosfera ele realizou a síntese entre a figura feminina e a paisagem. Aliás, a introdução de paisagens de fundo com características de perspectiva atmosférica foi uma das suas grandes inovações. - O chiaroscuro, termo italiano traduzido como claro-escuro, significa a relação entre luz e sombra, uma técnica de modelado para a definição das formas através do contraste luminoso entre as zonas de luz e sombra. Embora Leonardo tivesse acesso a todos os pigmentos disponíveis na época, sua paleta era geralmente bastante reduzida, a cor desempenhava um papel secundário na sua obra, pois a matemática, as leis da geometria, a busca da proporção áurea é que dominavam o seu processo criador. A partir de meados do século XVI a técnica da tinta a óleo vai sendo adotada com características específicas pelos maiores mestres da pintura européia. O estilo Maneirista, que se distanciava do tratamento pictórico do Renascimento, passa a enfatizar a riqueza cromática. Embora Michelangelo tenha sido reconhecido como o outro grande nome do Renascimento, seus afrescos da Capela Sistina são classificados esteticamente como um dos grandes exemplos da pintura Maneirista. O tipo de tratamento pictórico, a movimentação das formas, a dramaticidade das figuras e a policromia das composições evidenciam as características da linguagem Maneirista, uma clara reação ao classicismo do Renascimento. (21) MICHELANGELO, O ÚLTIMO JULGAMENTO, CAPELA SISTINA, AFRESCO, , MUSEU DO VATICANO RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

15 Outro exemplo de pintura Maneirista, a obra de Ticiano da Escola Veneziana, denota o desaparecimento da linha e enfatiza a sua pincelada direta, mesclando zonas de empaste das tintas com outras de veladuras mais transparentes. (22) TICIANO, RETRATO DE PIERO ARETINO, ÓLEO S/ TELA, 1545, PALACIO PITTI, FLORENÇA, ITALIA El Greco, que nasceu em Creta e se estabeleceu na Espanha, realizou a maior parte de suas pinturas em Toledo. Sua característica pictórica fundamental é a singular riqueza cromática aliada às distorções das figuras e ao movimento dos tecidos, onde podemos notar a fisicalidade da tinta e o dinamismo das pinceladas. Sua técnica original e suas cores ácidas provocaram a rejeição do seu talento, que só foi valorizado com o surgimento da Arte Moderna, no final do século XIX. (23) EL GRECO, MADONA E O MENINO COM STA MARTINA E STA AGNES, ÓLEO S/TELA, , NATIONAL GALLERY OF ART, WASHINGTON, EUA RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

16 Caravaggio, um dos primeiros nomes da pintura Barroca, tinha no tratamento realista e no dramático emprego da luz e das sombras, aliado ao ilusionismo espacial, as marcas do seu talento e do domínio da técnica da tinta a óleo. Apesar da influência que sua pintura exerceu sobre muitos artistas, seu estilo era criticado pelos conservadores, acusado de abandonar a idealização clássica renascentista. (24) CARAVAGGIO, A CEIA DE EMMAUS, ÓLEO S/TELA, , NATIONAL GALLERY, LONDRES Dentre os outros artífices da pintura Barroca do século XVII estão: Velazquez, Rembrandt e Vermeer. Embora cada um apresente especificidades no manejo dos pincéis e na aplicação das tintas, o que podemos enfatizar como características marcantes são: pinceladas livres sugerindo detalhes luminosos e brilhantes, formas sugeridas e não a imitação perfeita do real, poucas texturas, veladuras finas e pequenos pingos sugerindo reflexos das luzes. O domínio da tinta a óleo e os recursos que cada um soube tirar dessa técnica transformaram esse artistas em fontes de grande influência sobre os artistas modernos. (25, 26 e 27) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

17 VELAZQUEZ, AS MENINAS, ÓLEO S/TELA, 1656, MUSEU DO PRADO, MADRI REMBRANDT, HENDRICKJE BANHANDO-SE NO RIO, ÓLEO S/PAINEL, 1654, NATIONAL GALLERY, LONDRES RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

18 VERMEER, A ARTE DA PINTURA, ÓLEO S/TELA, , KUNSTHISTORISCHES MUSEUM, VIENA Com Goya, a pintura se torna um símbolo da revolta popular contra a opressão. Ao pintor da corte se soma a consciência crítica dos fatos e tragédias do cotidiano espanhol, enfatizando a mistura de estilos que permeiam a sua trajetória (rococó, neoclassicismo, romantismo e realismo). Com formas inacabadas, pinceladas expressivas e luzes dramáticas ele deixou profundas marcas na História da Arte do século XIX. (28) GOYA, O FUZILAMENTO DE 3 DE MAIO DE 1808, ÓLEO S/TELA, 1814, MUSEU DO PRADO, MADRI No final do século XVIII o Neoclassicismo havia trazido de volta os valores da estética Renascentista. Mas Ingres, com seu estilo pessoal e sensual, se destaca dos demais integrantes desse movimento. Sua pintura com uma iluminação suave e frontal, cores delimitadas pela linha e figuras modeladas com proporções alongadas de acordo com a RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

19 composição, denotam a importância que essa obra, tão independente dos cânones acadêmicos, vai ter para a linguagem modernista. (29) INGRES, A GRANDE ODALISCA, ÓLEO S/ TELA, 1814, MUSEU DO LOUVRE, PARIS Os Românticos que atribuíam grande importância ao significado dramático do tema - como Delacroix, com suas cores quentes e pinceladas soltas e Turner, com suas paisagens, os efeitos de tormentas e seus matizes com transparências - se distanciaram da rigidez das pinturas acadêmicas e liberaram o caminho para as novas conquistas pictóricas. (30 e 31) DELACROIX, MULHERES DE ARGEL, ÓLEO S/ TELA, 1834, MUSEU DO LOUVRE, PARIS RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

20 TURNER, TEMPESTADE DE NEVE, ÓLEO S/ TELA, 1842, NATIONAL GALLERY, LONDRES A partir de meados do século XIX, como conseqüências da Revolução Industrial, vários fatores serão fundamentais para as transformações radicais da linguagem das artes visuais. O desenvolvimento da indústria de tintas a óleo com tubos metálicos, as pesquisas no campo da química introduzindo novos pigmentos, as teorias científicas sobre luz e cor e principalmente o surgimento da técnica fotográfica em 1839, são alguns dos mais notáveis avanços que vão definir uma nova trajetória no campo das artes plásticas. Com o advento da fotografia, um meio mecânico de captar e multiplicar a realidade, a pintura teve que buscar a única alternativa que lhe restava: enfatizar o tratamento pictórico através da fisicalidade da tinta, uma textura que era exclusiva da técnica a óleo. Qual seria a diferença entre as técnicas artísticas e as novas técnicas industriais em relação ao valor e ao significado das imagens produzidas pela máquina e as criadas pelo pintor? A pintura liberada da sua tradicional função de representar o real, buscou um papel mais específico, se apresentando como puramente pintura, ou seja, com procedimentos técnicos específicos se obtém valores plásticos impossíveis de se realizarem com outro método qualquer. O único aspecto que a fotografia não poderia substituir na pintura era esse contato direto entre o olho e a tinta. Dos realistas, Courbet foi dos primeiros a abordar essas questões. Seus temas típicos foram os trabalhadores, as mulheres do povo, ou seja, os assuntos sociais, embora sua maior contribuição tenha sido a ênfase de que a força da pintura residia na própria pintura e não na temática. (32) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

21 COURBET, O ESTÚDIO DO ARTISTA, ÓLEO S/ TELA, 1855, MUSEU D ORSAY, PARIS Entretanto, foi com Manet que a pintura realista deu o salto definitivo. Ao abandonar as cores, as pinceladas e os assuntos tradicionais, ele abriu as portas da Modernidade. A temática transgressora enfrentava os valores burgueses com mulheres nuas, mas não eram ninfas ou deusas, e sim, cenas da vida urbana contemporânea. Manet não queria representar uma perspectiva ou uma paisagem real, ele observava os elementos e organizava um espaço mais ou menos semelhante, arranjados especificamente segundo uma lógica pictural. Quanto à transformação da técnica ele modificou a aplicação das tintas - primeiro as camadas mais gordurosas e por cima a pintura mais diluída. Ele suprimiu os tons médios e reforçou as zonas de luz forte e direta, sem claro-escuro, nem relevos, evitando também o espaço profundo, a separação entre o vazio espacial e o volume das coisas. Há nessas pinturas uma interação entre as cores que precede a análise cromática dos Impressionistas. (33) MANET, O ALMOÇO NA RELVA, ÓLEO S/ TELA, 1863, MUSEU D ORSAY, PARIS RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

22 A partir do Impressionismo a tinta passa a ter uma importância fundamental na História da Arte. O emprego das cores primárias, secundárias e suas complementares, bem como a pincelada virgulada, passam a definir a abordagem dos efeitos fugazes da luz e da cor sobre a natureza. Uma questão fundamental para essas mudanças é a inusitada vivência do tempo com os novos meios de transporte como o trem e a proliferação dos relógios públicos, determinando o tipo de efeitos dinâmicos através das pinceladas. Monet, o introdutor da pintura ao ar livre, representava a paisagem, a passagem do tempo e os efeitos atmosféricos através da espontaneidade e da aparência flou, com composições assimétricas e uma paleta luminosa. A textura da tinta e o emprego das cores frias e quentes, com seus contrastes simultâneos, assumiram a função de aproximar as distâncias e evitar os ilusionismos espaciais. O tema é apenas um motivo para o exercício soberano da pintura, pois ela representa a aparência das coisas e não as coisas propriamente ditas. (34) MONET, BARCO-ESTÚDIO, ÓLEO S/ TELA, 1876, ART AND HISTORY MUSEUM, NEUFCHÂTEL, FRANÇA Com Seurat a pincelada estruturada em pontinhos passa a definir um sentido mais científico para as suas composições, gerando o novo estilo Pontilhista. Ele se ateve às investigações científicas acerca das leis óticas da visão e dos contrastes simultâneos, mas sua intenção não era fazer uma pintura científica e sim criar uma pintura como uma ciência autônoma, uma análise plástica dentro do próprio procedimento técnico. (35) RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

23 SEURAT, O CIRCO, ÓLEO /TELA, 1891, MUSEU D ORSAY, PARIS Van Gogh, o holandês que liberou a cor da sua função naturalista, empregava as cores da maneira a mais arbitrária para enfatizar a força dos contrastes e a sua visão rebelde em relação à submissão das convenções. A textura das pinceladas e as camadas espessas aproximam os planos e convocam o olhar do fruidor para a fisicalidade da superfície pictórica. (36) VAN GOGH, A NOITE ESTRELADA SAINT REMY, ÓLEO S/ TELA, 1889, MUSEU DE ARTE MODERNA, N. YORK A liberação do espaço do ilusionismo da perspectiva foi a tarefa primordial de Cézanne, o grande pai da Arte Moderna. Sua busca incessante visava o afastamento da simples transcrição da natureza e a problematização da diluição dos volumes engendrada pelos RReevvi iisst ttaa EEl lleet ttr rrôônni iiccaa JJoovveemm MMuusseeool ll ooggi iiaa VVool ll...33,,, nnúúmm eer rroo 55,,, 11º º/ //

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