TRAÇANDO POSSÍVEIS SENTIDOS PARA OS AUTORRETRATOS DE VAN GOGH: o meio e as leituras de mundo impulsionando a criação artística

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1 1427 TRAÇANDO POSSÍVEIS SENTIDOS PARA OS AUTORRETRATOS DE VAN GOGH: o meio e as leituras de mundo impulsionando a criação artística Rosana Raposo Momentel, Joana Sanches-Justo Universidade do Oeste Paulista UNOESTE. RESUMO O artigo aborda os autorretratos do pintor pós-impressionista Vincent van Gogh, sobre os quais foram realizadas análises embasadas em leituras de livros, artigos científicos e cartas que o pintor mandava ao irmão Theo. Foram analisados três autorretratos de Van Gogh, correlacionando-os com a vida pessoal, seu estado de saúde física e emocional durante o período de execução traçando, assim, alguns possíveis sentidos aos autorretratos. A pesquisa foi de cunho bibliográfico e os autorretratos analisados foram escolhidos pela data: três anos antes da morte de Van Gogh, período em que sua arte tenha alcançado o ápice. Foram analisados também elementos estéticos e harmônicos, composições e cores. Assim, foi possível perceber que cada autorretrato carrega mais do que elementos gráficos, pois traz consigo seu contexto e toda uma vida a cada pincelada. Palavras-chave: Vincent Van Gogh. Autorretrato. Pós-impressionismo. Composição. Análise crítica. INTRODUÇÃO E OBJETIVO Vincent van Gogh foi um pintor pós-impressionista que nasceu em Zundert, Países Baixos, em 1853, filho de Theodorus, um pastor da Igreja Reformada Neerlandesa, e de Anna Cornelius, mulher religiosa e aquarelista nas horas vagas. Sempre desenhou, mas começou a pintar com aproximadamente 27 anos e teve seu período de produção mais expressivo nos seus últimos anos de vida. Van Gogh cresceu em um ambiente rural, em uma família que não podia dar aos filhos uma ótima educação devido ao bairro em que se localizavam e às condições sociais do local, mas também não passaram fome, como alguns da região. Tinha cinco irmãos, mas era próximo apenas de Theo, com quem compartilhava seus anseios e pensamentos (NAIFEH, S.; SMITH, G.W., 2012, p.23). Outra pessoa marcante na vida de Van Gogh foi sua mãe, que esperava que o filho tivesse um emprego e vida social como toda a população, e não se tornasse um pintor fracassado (NAIFEH, S.; SMITH, G.W., 2012, p.31). Van Gogh vendeu apenas um quadro durante sua vida toda e não foi por admiração do comprador, foi uma troca com o proprietário para pagar um de seus aluguéis. Seu estilo é até hoje único na arte e mesmo com todas as dificuldades que serão descritas nesse trabalho, Van Gogh se manteve sempre produzindo, como se apenas a arte o pudesse compreender. Podemos dizer que a arte era seu principal meio de expressão, pois mesmo alegre

2 1428 ou ansioso, fazia suas pinturas, que retratavam não apenas seu estado emocional, mas leituras particulares do mundo. Considerando a influência do contexto biopsicossocial na produção artística o objetivo da pesquisa foi analisar os autorretratos de Van Gogh evidenciando seu estilo e técnicas e traçando possíveis sentidos e correlacionados ao estado de saúde física e emocional do autor. METODOLOGIA Esta pesquisa teve caráter bibliográfico, abrangendo leituras pautadas principalmente nos estudos de NAIFEH; SMITH (2012) e YACUBIAN (2008), como também as cartas enviadas a seu irmão mais novo, contidas no livro Vincent van Gogh Cartas a Théo, de Machado (2012). Ao todo foram três autorretratos analisados, escolhidos devido a sua data de realização, dois anos antes da morte do pintor e que, provavelmente, sua doença tenha alcançado o cume: entre 1888 até 1890, sendo que o pintor faleceu em São autorretratos com características peculiares: o primeiro com a orelha cortada, retratando o clímax de seus acessos emocionais. O segundo, um autorretrato pintado no Hospital de Saint-Rémy, onde ficou internado. O terceiro se mostra com um turbulento fundo azul, se torcendo totalmente, em numerosas curvaturas. Foram analisados nestas obras elementos estéticos e harmônicos: as composições, as harmonias cromáticas, dentre outros elementos inseridos nas obras. Também foi considerado o contexto em que foram produzidos os autorretratos, a época em relação ao momento da vida pessoal de Van Gogh buscando constatar nas correspondências com o irmão se o próprio Van Gogh em suas cartas teria revelado algumas percepções de mundo ou leituras sobre sua vida, à luz da metodologia de Jorge Coli (2006). RESULTADOS Van Gogh pintou o autorretrato abaixo (FIGURA 1) semanas depois de sua automutilação. Já havia saído do hospital e estava produzindo arte freneticamente (MACHADO, 2012).

3 1429 Figura 1. Vincent Van Gogh Autorretrato, Óleo sobre tela, 60 cm x 49 cm, 1889, Courtauld Institute of Art, Londres.Fonte: ZszJluddqh8/T6ElQc-uimI/AAAAAAAABh0/FxPY4DHoNl0/s320/gogh.bandaged-ear.jpg Um fato atípico é o pintor aparecer sem barba e com o rosto bastante modificado, talvez devido ao cansaço físico e mental. Seu olhar é aparentemente perdido e não foca nem seu reflexo no espelho, nem o observador, fica perdido entre esses dois pontos. O quadro de uma maneira geral é aparentemente apático, sem cores vibrantes como usava antes do ocorrido com Gauguin, citado abaixo. Os tons de verde não são entusiasmados e estão em toda parte: parede, casaco de Van Gogh, seus olhos e levemente em sua pele. Ele morava com Paul Gauguin em uma casa (A Casa Amarela) em Arles, França. Os dois não conviviam muito bem, devido ao temperamento explosivo de ambos. Em meados de dezembro de 1888, enquanto Van Gogh bebia absinto em um café, terminou o último gole e arremessou o copo em direção a Gauguin. Este por sua vez, apenas se desviou do objeto, pegou Van Gogh pelo braço e levou-o para a casa em que moravam, onde Van Gogh dormiu profundamente. Ao acordar no dia seguinte, Van Gogh tinha a vaga memória de que [Gauguin]o havia ofendido (YACUBIAN, 2008). Na noite de 23 de dezembro, Gauguin saiu pelas ruas para esfriar a cabeça, pois havia novamente se desentendido com Van Gogh. Aos poucos, sentiu passos lhe seguindo e quando se virou, viu Van Gogh com uma navalha na mão, que ao ser descoberto, fugiu. Gauguin passou à noite em um hotel e, quando voltou na manhã seguinte, encontrou a casa rodeada de vizinhos e

4 1430 policias. Van Gogh, ao voltar para casa, havia cortado parte da orelha esquerda e a levado para Rachel, uma prostituta que também conhecia Gauguin. Depois do ocorrido, Van Gogh foi transferido para o hospital de Arles onde passou apenas duas semanas. Foi o tempo necessário para a cicatrização de sua orelha e a aparente melhora do pintor. O quadro abaixo (FIGURA 2) foi pintando enquanto o pintor ficou internado no Hospital Saint-Rémy, por pedidos assinados de seus vizinhos e por ordem da polícia. (YACUBIAN, 2008, p. 70). Figura 2. Vincent Van Gogh Autorretrato pintado no Hospital Saint-Rémy, Óleo sobre tela, 349 x 776 cm, 1889, National Gallery of Art, Washington,Estados Unidos. Fonte: O quadro é único na obra de Van Gogh. A variação de cores aqui é pequena em relação às outras obras que possuem uma vasta quantidade de tonalidades diferentes. O roxo profundamente escuro ao fundo se mostra descaradamente sombrio e perturbado, é inusitado e parece vibrar ao redor de Van Gogh. O fundo possui uma aparente movimentação devido às pinceladas, dando a impressão de que tudo em volta de Van Gogh é pura inquietação. Seu rosto se destaca dos outros elementos do quadro, com cores quentes em oposição ao fundo, frio. Mais tardar no mesmo ano demonstra que sabe de suas doenças, mas que a arte seria seu melhor remédio: O trabalho me distrai infinitamente mais que qualquer outra coisa e se por uma vez nele eu pudesse me lançar com toda a minha energia, este possivelmente seria o melhor

5 1431 remédio (MACHADO, 2012, p.360). São visíveis as marcas do pincel em volta do pintor, como quem simboliza a solidão e tristeza em torno de si através da cor escolhida. Sabendo que esse quadro foi feito enquanto estava internado, percebemos as diferenças para os seus demais autorretratos desde a escolha de cores até o próprio olhar de Van Gogh. O terceiro autorretrato (FIGURA 3) é um dos mais conhecidos do pintor. Figura 4. Vincent Van Gogh Autorretrato, Óleo sobre tela, 65 x 54 cm, 1889, Museu d Orsay, Paris, França. Fonte: O fundo da obra é preenchido com cores que se contorcem, formando arabescos alucinatórios e voltas quase inteiras, de forma que a tela de uma maneira geral mostra movimento intenso do azul, aparentando o fundo em movimento inquietante e apenas Van Gogh parado, olhando para o observador da obra. Todo o fundo quase se mistura com a roupa de Van Gogh, compartilhando de um mesmo azul claro, ora com tons escuros ora com tons um pouco esverdeados. A luz vem do lado direito da tela e ilumina diretamente seu rosto, de forma que seu olho fique especialmente iluminado e mostre também as sobrancelhas levemente tensionadas, dando uma aparente tristeza em seu olhar. No momento em que pintou este quadro Van Gogh, segundo Yacubian (2008), possuía glaucoma e as distorções nas cores poderia estar relacionadas à perda visual crônica decorrente da doença. Isso também explica o interesse do pintor por Arles, onde havia mais sol, visto que a luz intensa promove contração pupilar, uma forma de tratamento do glaucoma.

6 1432 Neste ano as crises nervosas de Van Gogh se agravaram. Em maio de 1889 Van Gogh deixou Arles para ser internado pacificamente em uma clínica particular perto de Saint Rémy, a Saint-Paul-de-Mausole. (MACHADO, 2012) Um tempo depois, com sucessivas crises, Van Gogh deixou a clínica e voltou ao trabalho incessante. Com seu estilo totalmente definido, Van Gogh passou a colocar todo o seu sentimento na pintura, observando sempre sua vizinhança, a natureza e a paisagem. Dessa forma, é possível observar que esse autorretrato é único. Segundo Yacubian (2008), em nenhum outro autorretrato aparecem tantas formas que possam caracterizar sua obra de forma tão expressiva. DISCUSSÃO Um aspecto marcante da vida do pintor que certamente influenciou crucialmente a construção de sua personalidade foi a vida em família, colocada pela mãe como um refúgio diante de um mundo conturbado e decepcionante. Vincent teve uma vida conturbada ao longo dos anos. A sua criação, a vila onde morava e seu comportamento adulto precoce, tudo fez com que o pintor pudesse ter uma personalidade bastante peculiar (VAN GOGH, 2007). Era introspectivo e sério, uma criança calada que raramente brincava com os irmãos. Com o tempo, sua mãe, Anna, passou a compreender menos o filho, que não apresentava as ideias de uma vida convencional, como ela queria. Isso a envergonhava, até chegar à raiva. Quando Van Gogh se tornou adulto, ela perdeu as esperanças e passou a desprezá-lo, julgando estar fazendo vagabundagens sem futuro (NAIFEH, S.; SMITH, G.W., 2012, p.31). Apesar do repulso da mãe, Vincent sentia-se muito ligado a ela. Com o incentivo do irmão Theo, começou a pintar pequenos quadros a partir das noções de desenho que obtivera desde a infância somadas às de pintura que aprendera com a mãe. Em seus últimos três anos de vida, passou por turbulentos acessos de ansiedade e irritabilidade, que eram intensificados com o uso de álcool e sua má nutrição. Como dito anteriormente, em alguns relatos o pintor afirma que sabe de sua condição insalubre e de sua postura displicente em relação a ela, considerando a arte como o seu melhor remédio. Atravessados pelo ambiente familiar, social, doenças e o alcoolismo, cada um dos autorretratos evidencia uma faceta diferente de Van Gogh, sendo a grande questão que está por trás destes autorretratos. Fica claro que Van Gogh falava através deles de uma maneira não verbal. O olhar de Van Gogh sempre é intimidador em seus autorretratos. Apresenta um ar

7 1433 desafiante e indagador, como se estivesse perguntando ao observador como seria seu futuro, se iria se tornar um grande pintor ou não, ou mesmo até quando conseguiria levar a vida que tinha. CONCLUSÃO Autorretratos requerem a introspecção, o olhar para si mesmo e, por isso se tornam uma grande autoanálise (PESSOA, 2006). Os autorretratos de Van Gogh eram mais do que simples registros na linha do tempo: eram a expressão do eu. Diversos fatores contribuíram para Van Gogh ter seu estilo de pintura característico. Acreditamos que suas obras refletem sua personalidade, o contexto em que viveu e tudo que o cercava e atravessava sua passagem pela vida. A família insegura somada ao fanatismo religioso não o fizeram uma pessoa firme e com a moral concreta para prosseguir a vida. Não foi lhe dada base alguma, pelo contrário, apenas medos e incertezas. Sua mãe não teve a paciência de que Vincent necessitava, pois desde cedo andava sozinho pelas redondezas, observando a natureza e também a paisagem de sua janela, evitando contato com pessoas desconhecidas. Tinha um gosto pelas coisas não convencionais e sua personalidade era bastante peculiar, caracterizando-o, desde pequeno e até sua morte, como um indivíduo excêntrico. Os autorretratos evidenciam sua vida, tudo o que passou até o momento de pintá-los. Dessa forma, analisando as obras, verifica-se que há muito por trás de um simples quadro, seja qual for a época. Há o afeto e a personalidade atravessados pelo contexto e ambiente embutidos em cada pincelada, carregando a obra de sentido. Assim, os autorretratos de Van Gogh podem ser tomados como pontos de apoio, de autoafirmação; como quem quer provar, através da arte, que existe: que passa fome e não possui uma moradia que o conforte, mas que sobrevive dia após dia através da pintura. REFERÊNCIAS COLI, J., Vincent van Gogh A Noite Estrelada. 1 Ed. : Perspectiva, NAIFEH, S.; SMITH, G.W. Van Gogh: a Vida. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, MACHADO, I. P. (org). Vincent van Gogh Cartas a Théo. 2ed. Porto Alegre: L&PM, PESSOA, H. G.R., Auto - retrato: O espelho, as coisas f. Dissertação (Mestrado em Artes Plásticas) Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. São Paulo.

8 1434 VAN GOGH, V. Gênios da Arte Van Gogh. 1 Ed. Barueri: Girassol, YACUBIAN, E. M. T. A Doença e a Arte de Vincent Van Gogh. 1.ed. São Paulo: Leitura Médica, 2008.

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