Um nome para Van Gogh Caciana Linhares 1

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1 Um nome para Van Gogh Caciana Linhares 1 Até o momento, no entanto, a solidão não me incomodou muito, de tão interessante eu achei o sol mais forte e seu efeito sobre a natureza. Vincent Van Gogh Vincent Van Gogh nasce em 30 de março de 1853, em uma comunidade rural (Groot Zundert) ao sul da Holanda. É o mais velho dos filhos, mas não o primogênito: um irmão mais velho nascera morto. O nome de Vincent é o mesmo deste irmão morto, e na lápide, que ficava em um cemitério ao lado de sua casa, constava a mesma data de seu nascimento. A mãe, descrita pelos biógrafos como uma mulher melancólica e para sempre enlutada deste filho (BONAFOUX, 2011; FELL, 2007; HAZIOT, 2010), partilhava com Vincent, todos os domingos, um ritual sombrio: levava-o até a lápide do irmão para decorá-la com flores. Flores que, aliás, pintava. Apresentado nas falas recolhidas por biógrafos como uma criança séria e pouco comunicativa, passava seus dias sozinho pelos jardins, lendo e desenhando. O único que passa a levar em seus passeios em determinado momento é Theo, irmão que irá sustentá-lo por toda a vida e com quem irá estabelecer uma forte relação. Das cartas e biografias, podemos ver sua relação visceral com a leitura. A todo instante refere-se a autores, citações, e indica livros àqueles com os quais se 1 Psicanalista. Membro do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise. Docente do Curso de Psicologia do Centro de Ciências Humanas da Universidade de Fortaleza (Unifor). Doutoranda em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

2 corresponde. Aos 25 anos, fala de uma paixão violenta pelo mundo dos quadros. Desta paixão e da leitura incansável, acontece de Van Gogh ser absorvido, abstraído (VAN GOGH, 2002), pecando contra as conveniências sociais shocking para os outros: Depois, às vezes pode-se até ficar um pouco abstraído, um pouco sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo... O sonhador às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue. (VAN GOGH, 2002, p.31). A família dos Van Gogh tinha uma história relacionada ao mercado de quadros, e é daí que surge sua primeira proposta de trabalho. Vincent passa pelo mercado dos quadros, nas galerias e museus, e não se sustenta. É demitido por seu caráter arredio, distante e, por vezes, colérico. Decide seguir a carreira teológica seu pai era pastor e segue para a Escola de Evangelização de Bruxelas. Assumiu um posto evangélico junto a uma comunidade carbonífera em Borinage, Bélgica. Lá, assumiu a causa dos mineiros em uma violenta greve, tratava dos feridos, dormia em cima de palhas e estendia sua compaixão aos animais e insetos. Assumiu a aparência enegrecida dos mineiros, recusando-se a trocar de roupa e escovar os dentes. Os mineiros não entendiam sua posição, não o consideravam sério em seu posto, chamavam-no de louco. Despedido, seguiu para Bruxelas, voltou a Etten, partiu para Haia, de lá para Drenthe, depois Nuenem, Antuérpia, Paris, Arles, volta para Paris (internado em St.-Rémy) e morre em Auvers, com um tiro no estômago. Os habitantes das cidades o tomavam como um homem bizarro, de hábitos estranhos: Por mais que esta etapa tenha sido dura para mim, e que eu tenha voltado esgotado, os pés machucados, e num estado mais ou menos melancólico, não me arrependo. (...)Ganhei alguns pedaços de pão pelo caminho, aqui e ali, em troca de alguns desenhos que eu tinha em minha mala... (VAN GOGH, 2002, p.28). Van Gogh expõe a maldição que é a sua, dos vagabundos, dos perigosos, dos andarilhos, que partilham de uma impossibilidade em relação aos outros, à vida em família, ao trabalho rentável:

3 Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? (...)Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. Vejam que vagabundo, diz um outro pássaro que passa, esse aí é um tipo de aposentado. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia mas dizem as crianças que o criam na gaiola, afinal ele tem tudo o que precisa. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis. Tenho tudo o que preciso. Ah! por bondade, liberdade! ser um pássaro como outros. (VAN GOGH, 2002, p.32). Errando, de cidade em cidade, de livro em livro, faz da pintura sua pátria: Em vez de sucumbir de saudades eu disse: O país ou a pátria estão em todos os lugares. Em vez de me deixar levar pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto tinha potência de atividade. (VAN GOGH, 2002, p. 22). Na melancolia há um modo de deserção da parte do Outro em relação ao sujeito, uma ruptura na iniciação mesma ao desejo (DIAS, 2002; HASSOUN, 2003; LAMBOTTE, 2001). No seminário sobre a transferência (LACAN, 1992), Lacan observa que o melancólico está no simbólico: diz eu não sou nada, e este nada ocupa a posição de um significante que faz manter um discurso. Nas palavras de Lambotte, o melancólico é sempre, com efeito, este perigo de ir juntar-se ao nada, de se colar ao nada porque não há identificação à imagem (LAMBOTTE, 2001, p. 86). Diante de um

4 Outro que desapareceu bruscamente, o sujeito identifica-se à marca do Outro, ao nada. Se nos chamados estados depressivos há um sujeito que produz um saber endereçado ao Outro, situando, por exemplo, que algo oorreu e depois fiquei assim, na melancolia o sujeito não situa seu mal estar na linhagem de alguma causa. Nã há ponto de origem para o mal. Lambotte observa que aparecem, nesta fala, grandes idéias gerais: não existe verdade, não tem sentido, você há de concordar... Ocorreria uma espécie de assimilação do outro, de fechamento numa espécie de esquema tautológico. Alguns psicanalistas (DIAS, 2002; HASSOUN, 2003; LAMBOTTE, 2001) observam que a análise pode promover a emergência de um terceiro lugar: o sujeio, a partir de determinado ponto, passaria a investir em uma composição: (...) bem concretamente, pacientes que organizam o interior de um apartamento, que o estruturam, ou que passeiam na natureza e acham isto muito bonito, mas descrevem a natureza como uma paisagem, uma composição. Há, assim, um terceiro lugar, onde me parece que o paciente investe todas as suas atividades de organização, de composição, de estruturação. Aí, igualmente, neste efeito imaginário, ele pensa que o analista, ele também, está interessado...(lambotte, 2001, p.92). Este intermediário formal de organização, de composição, constitui, de modo particular, um campo estético. Se o objeto anterior do melancólico é um objeto que não apenas desapareceu, mas desertou, desistiu do sujeito e o efeito dessa deserção é a indiferença, o nivelamento, a falta de relevo da realidade há uma figura que aparece por trás desta realidade sem relevo: a figura de uma verdadeira realidade : Quer dizer, justamente, uma realidade brilhante.(...) Há, então, com freqüência, figuras como esta: as coisas são iluminadas por trás (LAMBOTTE, 2001, p. 93). O melancólico testemunha que a realidade sem relevo, cinza, encobre uma verdade, que pode ser recolhida através de um trabalho. Encontramos por toda parte da correspodência de Van Gogh a produção da figura do pintor, que equivale à do artista, e que equivale, por extensão, à dos

5 vagabundos, dos exilados, dos operários... 2 Esta produção situa Van Gogh em um nós, nós, os artistas, estabelecendo com o outro uma parelha imaginária que lhe confere um lugar em relação aos outros. Se esta identificação lhe viabiliza um caminho, uma pátria, também produz efeitos trágicos. A relação com Gauguin é paradigmática: Van Gogh forma com ele esta parelha, intensa e avassaladora, e o que era puro idílio se transforma num inferno. No último encontro Van Gogh lhe persegue com uma navalha e, depois de um corpo-a-corpo no qual Gauguin se defende, volta para casa e amputa uma orelha. Envia a orelha para Rachel, prostituta preferida de Gauguin, mas partilhada entre os dois. Durante o idílio, partilhavam passeios, ideais, pintavam lado a lado, e partilhavam as mesmas mulheres. Quando Gauguin ameaça partir, Van Gogh tem um acesso de cólera. Se esta relação é paradigmática, é porque atualiza um roteiro e uma posição que encontramos em toda a vida do artista. Eugene, Kee Vos, Sien, Margot, Gauguin, o Dr. Gachet e sua filha Marguerite... Relações marcadas por um encontro ideal fracassado, ou, a um fracasso anterior a qualquer encontro. Sobre Kee, dizia: a única mulher no mundo, ela e nenhuma outra, é como se Kee Vos fosse a pessoa mais próxima de mim e eu a mais próxima dela. A queda era sempre iminente: a impossibilidade do encontro ideal o lançava no desespero. Propomos, então, uma diferença entre o efeito da produção do pintor, assim como da parelha com o semelhante, e o efeito da produção do objeto estético. Podemos situar esse efeito em, pelo menos, dois níveis: a indicação do Outro como interessado ou ligado ao objeto (diferente da posição do outro na vertente mortífera do encontro imaginário, da dualidade) e a criação/emergência de uma realidade mais além da realidade sem relevo, monocórdica. No trajeto de Van Gogh há uma intensificação na produção desta realidade verdadeira, que ele nomeia em diferentes momentos como descobertas. Em sua última internação, no limite do cansaço, extenuado, as cores assumem um lugar exuberante, nos quadros e nas cartas. Van Gogh toma a cor, esta outra língua, como matéria de sua artesania: É antes traduzir para uma 2 Os tipos que Van Gogh passa a eleger são mineiros, tecelões, chamados bandidos, perigosos, malditos, posição mesma de Vincent: O homem do fundo do abismo, de profundis, é o mineiro, o outro tem um ar sonhador, quase pensativo, quase sonâmbulo: é o tecelão. (...)cada vez mais vejo algo de comovente, e até pungente, nestes pobres e obscuros operários, os últimos de todos, por assim dizer, e os mais desprezados, que ordinariamente idealizamos, talvez pelo efeito de uma imaginação intensa, mas muito falsa e injusta, como uma raça de malfeitores e de bandidos...

6 outra língua a das cores as impressões de claro-escuro em branco e preto... Van Gogh estuda a nomenclatura das tonalidades: (...) o Mediterrâneo tem uma cor igual à das cavalas, ou seja, mutante; nunca se sabe se é verde ou violeta, nunca se sabe se é azul... (...) O céu de um azul profundo estava salpicado por nuvens de um azul ainda mais profundo que o azul fundamental de um cobalto intenso, e por outras de um azul mais claro, como a alvura azulada de vias lácteas. No fundo azul as estrelas cintilavam claras, esverdeadas, amarelas, brancas, rosas, mais claras, adiamantadas mais como pedras preciosas, que para nós mesmo em Paris seria o caso de dizer: opalas, esmeraldas, lápis-lazúli, rubis, safiras. (VAN GOGH, 2002, p. 62). Do trabalho com as cores, o que se produz é uma interpretação : tomo a cópia em preto-e-branco de um Delacroix ou de um Millet como meu motivo. Depois improviso nas cores. (...) a evocação e a harmonia aproximada das cores registradas emocionalmente constituem a minha própria interpretação. A matéria em preto e branco não indicaria a própria realidade nivelada? E o trabalho com as cores, produzindo uma interpretação, não indicaria a emergência de outra realidade? Quanto a isso, é o artista que esclarece diferenciando a fotografia equivalente da realidade nivelada e a pintura, realidade verdadeira : Esses retratos fotográficos se degeneram muito mais depressa do que nós mesmos, enquanto o retrato pintado é uma coisa que é sentida...(...) Ah, que retratos se poderiam fazer com a fotografia e a pintura! Para Van Gogh, não era a cor localmente verdadeira do ponto de vista realista do ilusionismo, mas uma cor que sugere uma emoção qualquer de um temperamento ardente (VAN GOGH, 2002, p. 74). Se a cor sugere, sugere a alguém, a um olhar que se interessa...: Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor. Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente. Apesar da minha suposta grosseria, você me entende?

7 Referências bibliográficas ARTAUD, A. Van Gogh o suicida da sociedade. Trad. de Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: José Olympio, DIAS, M. M. Caderno do seminário: neuroses e depressão/programa de transtornos afetivos. São Paulo: Instituto de Psiquiatria de Campinas, BONAFOUX, P. Van Gogh el sol em la mirada. Barcelona: Blume, FELL, D. As mulheres de Van Gogh seus amores e sua loucura. Trad. de Antonio de Padua Danesi. Campinas, SP: Verus Editora, FREUD, S. O eu e o id (1923). In: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Edição standard das obras completas de Sigmund Freud.Vol. 3. Rio de Janeiro: Imago, HASSOUN, J. A crueldade melancólica. Trad. de Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, HAZIOT, D. Van Gogh. Trad. de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, LACAN, J. O seminário, livro 08: A transferência. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., LAMBOTTE, M-C. Entrevista A deserção do Outro. In: Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 20. Porto Alegre: APPOA, VAN GOGH, V. Cartas a Théo. Trad. De Pierre Ruprecht. Porto Alegre: L&PM, VAN GOGH-BONGER, J. Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada. Trad. de William Lagos. Porto Alegre: L&PM, 2008.

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