O reencontro do Rio. Sérgio Ferraz Magalhães, FAU-UFRJ

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1 O reencontro do Rio Favela Bairro da Mangueira Foto de Thiago Santana Sérgio Ferraz Magalhães, FAU-UFRJ Janeiro de

2 Sinopse O estudo avalia as causas do divórcio entre o Rio de Janeiro e o seu genius loci. Aponta como causa exógena, a perda da centralidade econômica, que permitiu a desconstrução da centralidade política. Como causa endógena, aponta a perda do paraíso, pela degradação dos ambientes naturais e construídos; e a da cordialidade, pela violência urbana. Para o reencontro, reconhece a importância de políticas nacionais de desenvolvimento e de segurança pública, que sejam federativas e republicanas; mas também defende a autonomia de políticas locais de democratização da cidade, com a articulação das forças políticas fluminenses, institucionais, empresariais e da sociedade, em torno de objetivos comuns, simples, para a recuperação urbanística e ampliação da qualidade de vida da Região Metropolitana. A construção de uma nova sustentabilidade urbana, apoiada no tripé transporte-habitação-meio ambiente, poderá alcançar o reencontro do Rio de Janeiro com seu genius loci. Texto elaborado a partir do preparo de tese de doutouramento em Urbanismo, no Prourb-UFRJ, adaptado para publicação na revista do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, Rio de Janeiro, março de

3 O reencontro do Rio Sérgio Magalhães* O século XX foi a mãe e a madrasta da Cidade Maravilhosa; foi a fada madrinha e a bruxa malvada. O mundo clássico sabia que os lugares são regidos por divindades, os genius loci, que determinam as condições sobre as quais as cidades se desenvolvem. Atender ao espírito do lugar é o meio de se alcançar a harmonia entre a natureza e a cultura. No século XX, o Rio esteve ao amparo ( ) e ao desamparo ( ) de seu genius loci. o espírito da questão Ao longo dos quatrocentos e quarenta anos de sua história, o Rio teve quatro períodos a distinguir: I) os primeiros duzentos anos, onde a natureza foi hegemônica; corresponde à idealização da América como o Paraíso na Terra; II) os cento e cinqüenta anos seguintes ( ), onde a cidade se consolidou; corresponde ao tempo da riqueza do ouro e do café; III) os setenta iniciais do séc XX ( ), no qual foi a Cidade Maravilhosa; corresponde ao apogeu, que se dá ao término desse terceiro período, quando o Rio é o dínamo e a imagem dos Anos Dourados e quando, paradoxalmente, a capital é transferida para Brasília; IV) os últimos trinta, quando deixou de ser capital federal, foi Estado da Guanabara, depois sede do novo estado; corresponde a um período de grandes dificuldades. Nos três primeiros períodos, o Rio de Janeiro soube bem representar o Brasil paraíso tropical, o Brasil das riquezas, o Brasil da cordialidade. O quarto período, os trinta anos que medeiam entre 1970 e nossos dias, viu romper-se esse tripé estabilizador. 3

4 as causas do desamparo O divórcio entre a cidade e seu genius loci se deu em duas direções: uma exógena, a perda da centralidade política; e outra endógena, a perda do paraíso e da cordialidade. A causa exógena é a perda da centralidade econômica, que deu a base para a desconstrução da centralidade política. O Rio tornou-se capital colonial no século XVIII, quando passou a ser o porto através do qual o ouro das minas gerais era enviado para a Metrópole. Com o ouro e com o interesse estratégico português na região do Prata, a Guanabara passa a ser o foco da Colônia. O século seguinte, do Reino Unido e do Império, viu o ouro das minas e o açúcar do nordeste esvaírem-se e serem substituídos pela riqueza do café. A província fluminense, com o café, passou a ser economicamente a mais forte do país. A cidade do Rio de Janeiro centralizava politicamente o Brasil e era o foco de sua mais rica região. Até este momento, as centralidades econômica e política estiveram no mesmo lugar. Ao início da República, ocorrem dois fundamentais movimentos com sentidos opostos: (I) a demarcação no Planalto Central do lugar onde se ergueria a nova capital brasileira prevista na Constituição republicana de 1891, assim como em todas as anteriores, desde a Independência-; e (II) a reforma da capital, o Rio de Janeiro, segundo o modelo parisiense, dando lugar à Cidade Maravilhosa. Por que a debutante República quis transferir a capital? A partir da derrocada do café em solo fluminense, encerrou-se um ciclo de quase quatrocentos anos da economia brasileira, em que esteve referenciada ao litoral, quando os vetores do desenvolvimento tinham o sentido de dentro para fora. Com o café das terras roxas, com o gado e o beneficiamento da carne, inverte-se o sentido do vetor do desenvolvimento. O desenvolvimento tecnológico, que permitiu as ferrovias e depois as rodovias, e a necessidade de expansão da fronteira agrícola, robusteceram a idealização de interiorização. Uma capital no interior, na região central, permitiria que as forças reprimidas se expandissem e levassem o Brasil ao futuro. São Paulo, já então o principal centro de riqueza do país, estava à cabeceira do grande planalto que se derramava para o interior e passava a ser a demonstração da viabilidade do sertão. Para Caio 4

5 Prado Jr. (1965), será o primeiro passo para a concorrência (...) entre as cidades do Rio e São Paulo. No início do século XX, pela primeira vez na história do Brasil, a capital se encontra em uma região que é um vazio econômico. Para Lessa (2000), esta circunstância fez do Rio uma cidade capaz de ser a síntese da nacionalidade e de não entrar em competição com nenhuma outra do país, já que não tinha território econômico a defender. Contudo, esta foi a condição que permitiu que no alvorecer da República se procedesse à demarcação do quadrilátero onde se construiria a nova capital. Sendo assim, por que a debutante República contentou-se em reformar a capital? O espaço que medeia entre a idealização e a realidade é elástico. À época, o Rio de Janeiro era a mais importante cidade do Brasil, mais rica, mais populosa; não havia outra a ombreá-la. Encontravase em um vazio econômico, mas ainda era, ela mesma, muito forte economicamente. A viabilidade de uma nova capital republicana estava na própria cidade do Rio de Janeiro. O Rio de Pereira Passos é assim a representação de um novo Brasil, republicano, que se abre ao mundo na idealização de uma sociedade desenvolvida, afinada com a civilização. (Ao molde francês, como convém aos tempos.) Paradoxalmente, é com a República, que queria transferir a capital, que o Rio de Janeiro se torna Cidade Maravilhosa. O Centro do Rio representa o Brasil e a Cinelândia é o seu símbolo. A República café-com-leite quer a transferência. Se, de um lado, o Rio de Janeiro se internacionaliza, e se apresenta de certo modo dissociada da caipirice brasileira, representação do homem do interior, São Paulo assume o papel em contraponto. Enquanto São Paulo se fortalece no contexto da política nacional, inclusive como matriz de políticos que incluem os primeiros civis presidentes da República, o Rio de Janeiro, sem interesses regionais a preservar e defender, se apresenta como o palco dessa política. É nessas primeiras décadas, que são construídos os dois principais movimentos que vieram a situar São Paulo como reivindicante da expressão brasileira. São duas construções simultâneas: o mito bandeirista e o movimento Pau-Brasil/Semana de Arte Moderna de

6 Com a primeira construção (sim, o mito bandeirista é construído no início do século XX), é desfeita a imagem do bandeirante bárbaro, predador de índios, e, ao contrário, é ele apresentado como o empreendedor do passado onde se situam as bases quatrocentonas do empreendedor paulista do presente. Com a segunda construção ideológica, a Semana de 22, é demonstrada a aliança entre a elite empresarial e a vanguarda artística, é demonstrada a adesão paulista à modernidade, portanto, a base sobre a qual se erguerá o futuro. O Brasil não está mais para macaquear a Europa, mas para antropofagicamente refazer a civilização... Vistos desde Piratininga, estão em oposição dois modelos de desenvolvimento: o estruturado na capital federal, agregado ao governo e dele dependente, voltado para o exterior e arcaico; e o estruturado na paulicéia, autônomo, fundado na iniciativa arquisecular bandeirista, voltado para o país e moderno. Enquanto na capital, desde a Colônia, o empreendedorismo era condenado tal como se viu com Mauá, no Império-, no planalto do Tietê as iniciativas eram rompedoras das proibições; na capital, a burocracia; no planalto, a rebeldia. A capital não satisfazia aos novos promotores do desenvolvimento. Portuguesa na origem, francesa no redesenho, mesmo que maravilhosa, a capital no Rio era símbolo de um país que se pretendia ultrapassar. Concomitantemente, um dos financiadores da Semana de Arte Moderna, o fazendeiro de café e escritor paulista Paulo Prado, fazia articulações com dois dos artistas modernistas influenciadores da Semana de 22, Blaise Cendras e Fernand Léger, franceses, para a contratação de Le Corbusier o grande arquiteto modernista do século- para ser o projetista da nova capital, que se ergueria no Planalto Central, por determinação contida na Constituição republicana. Como seria de esperar, Le Corbusier se entusiasma 1, estabelece que o seu desenho obedecerá ao modelo de uma cidade para um milhão de habitantes, e se chamará Planaltina. As tratativas prosseguem, chegam a 1929, quando o arquiteto faz sua primeira viagem à América do Sul; alcançam 1930, quando finalmente se ajusta com o presidente eleito do Brasil, Júlio Prestes. A Revolução de 30 derruba Prestes antes da posse; São Paulo perde a revolução de 1932; inicia-se a Era Vargas, que faria do Rio o centro das estatais 1 Ver a correspondência de Le Corbusier, transcrita em Pereira, Margareth da Silva et.al.. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo. Tessela-Projeto Editores, 1987, bem como o depoimento de Blaise Cendras, em Etc., Etc., Um Livro 100% Brasileiro, São Paulo, Ed. Perspectiva,

7 e o foco do nacionalismo brasileiro -e retarda a transferência da capital para 1960!... Em 1955, na campanha eleitoral para a Presidência, Juscelino Kubitschek é instado, em comício em Goiás, a fazer cumprir a Constituição, que previa a transferência da capital para o Planalto Central. A construção de Brasília passa a ser a 31 a. meta de seu Plano de Metas... E, afinal, a belacap embala a sucessora. O Plano de Metas de JK foi muito bem sucedido. Durante os cinco anos de seu mandato, o Brasil passou por uma renovação em todos os setores. A implantação da rede de rodovias federais, ligando todos os pontos do território nacional; a construção de uma nova base energética; a implantação da indústria automobilística; a estabilidade política e institucional até aqui uma raridade; o desenvolvimento das artes em geral, a música e o cinema em especial; a política externa que se propõe independente; o país estava otimista e construíra uma nova capital. A ironia histórica é justamente que os anos de ouro da alegria e do desenvolvimento, da integração nacional, do crescimento industrial, da valorização das regiões e sobretudo do interior brasileiro, tenham sido comandados desde a capital que se pretendia destituir justamente porque era percebida como um entrave a esses propósitos... O Rio de Janeiro que, no Brasil Colônia, cumprira papel central na articulação do rosário dos núcleos litorâneos, que foi o ponto nodal da relação entre as minas gerais e a Metrópole ao mesmo tempo em que serviu de esteio para o controle do sul até o Prata; que no Reino e no Império soube expressar a unidade nacional, sendo a síntese cultural brasileira no primeiro século da República; esta cidade que, amada como poucas, passou a ser vista como empecilho para a integração entre as regiões é ela mesma que, generosamente, despreocupadamente, serve como base, agora, para o grande surto de desenvolvimento dos anos dourados, cuja coroação seria a nova capital, isto é, a sua própria ruína. Vivendo sua proclamada beleza e vocação para o prazer, o Rio não admitia ter sido atingido com a desconstrução da centralidade econômica, perdida para São Paulo, nem tampouco com a desconstrução da centralidade política, para Brasília. Seria sempre a belacap. 7

8 A causa endógena do divórcio entre o Rio de Janeiro e seu genius loci foi a perda do paraíso e a perda da bem-aventurança. Ao longo da segunda metade do século XX, mas especialmente a partir dos anos setenta, houve a evidência da degradação ambiental, das águas e das terras, que atingiu a imagem de paraíso; a seguir, a crescente violência urbana, que atingiu a imagem de cordialidade. Degradação ambiental e violência atingem o coração do Rio de Janeiro. A perda do paraíso A percepção coletiva de que o ambiente saudável é um bem fundamental se tornou muito mais importante nas últimas décadas. Até então, a degradação ambiental podia ser confundida com exigências do progresso, como teria ocorrido em Londres com a Revolução Industrial. Nessa cidade, o fog era percebido como do reino da natureza e só com o grande esforço de despoluição a que a região londrina foi submetida, pode-se constatar que a origem da eterna bruma era outra. Poluição e degradação ambiental vieram a compor-se como um problema político para os estados, reunidos na ONU. Essa mudança de percepção de desejável a tolerável e a absolutamente intolerável- chegou ao Rio de Janeiro em um período em que se deterioraram muito rapidamente as águas tanto da baía de Guanabara quanto das principais praias oceânicas. As praias oceânicas tiveram apreciável melhora com a construção do emissário submarino. Já a baía de Guanabara não teve melhoras percebidas pelo público; continua interditada para o uso das praias e muito aquém das possibilidades de desfrute para o lazer. Há outros fatores percebidos coletivamente como degradação ambiental, tais como a expansão de favelas; a demolição de edifícios pequenos para dar lugar a grandes edifícios, na Zona Sul; a perda de qualidade dos transportes metropolitanos, com a derrota da ferrovia, na Zona Norte e Baixada Fluminense, que inibem novos investimentos, especialmente imobiliários, e fez com que toda a região passasse a ser vista como decadente. De efetivo, o ambiente natural e construído do Rio de Janeiro é percebido como em processo de deterioração. A noção de paraíso tropical fica atingida. 8

9 A perda da cordialidade O outro componente da causa endógena de divórcio entre cidadeespírito do lugar é a violência urbana, que atingiu a imagem da cordialidade. Capital federal em um país de escassas oportunidades de emprego para a classe média, até ao advento do surto industrial brasileiro o Rio era o lugar de melhores salários. Bons horários, proteção trabalhista, prestígio, faziam o funcionário público estar de bem com a vida. Morando na melhor cidade do país, o bom humor carioca era sua expressão maior. O malandro era um ser afável, que vivia de expedientes singelos, sem prejuízos maiores, como retratado no personagem Zé Carioca, de W. Disney. O envolvimento do carioca com a marginalidade era percebida com grande tolerância. O jogo do bicho, centenário, só quando adquiriu poder e lançou suas redes na política, na polícia e na economia, é que passou a preocupar. A grande questão de hoje é a insegurança pública. Atribuída ao tráfico de drogas, alcança dimensão que há poucos anos seria inimaginável. E pior: radicalmente em oposição à idéia de bem-aventurança que preside o Rio desde sua origem. De fato, a violência urbana tem valores absolutos muito elevados e impactam o quotidiano do carioca de modo avassalador. São números muito desproporcionais aos alcançados em países europeus e mesmo em grandes cidades norte-americanas; no entanto, são de menor valor proporcionalmente a outras cidades brasileiras, como São Paulo. Não obstante, a violência urbana atinge o Rio de Janeiro mais fortemente, comparativamente com São Paulo, mesmo que com valores relativos menores. Poluição e violência não fazem parte do espírito do Rio de Janeiro, são incompatíveis com a cidade que existe na emoção e na memória. Poluição e violência atingem a alma carioca. 9

10 o reencontro da proteção Será possível reencontrar o amparo? É verdade que a complexidade dos problemas a enfrentar exige uma ampla luta nos diversos campos que influenciam a cidade. No âmbito econômico, por exemplo, esforço máximo deve continuar a ser feito para desenvolver a indústria do petróleo, os pólos de agronegócios, a indústria naval, estes e todos os possíveis setores empregadores em especial o estímulo aos pequenos empreendimentos. Uma política nacional de desenvolvimento que seja federativa e republicana é essencial para o Rio. Não obstante, o diferencial do Rio dificilmente voltará a ser função do crescimento econômico. Igualmente essencial é uma política de combate à violência urbana, que também seja nacional, federativa e republicana. Porém, o diferencial do Rio tampouco voltará a ser definido por uma outorga externa. O diferencial do Rio precisa ser re-construído a partir daqui. (As divindades costumam ser receptivas a chamados desse tipo...) Assim, em face da gravidade do quadro, por certo são indispensáveis amplos acordos no âmbito político envolvendo as forças institucionais, empresariais e da sociedade. Mas, justamente porque o quadro é complexo, essas forças podem melhor se estruturar em torno de objetivos comuns, simples, passíveis de serem percebidos como sinalizadores de novas possibilidades. Para isso, sem ser reducionista, há um tema que pode significar uma nova sustentabilidade metropolitana: a radicalização da democratização da vida urbana. Isto é, a recuperação urbanística e ampliação da qualidade de vida, alcançando todos os cidadãos. Uma metrópole tem, urbanisticamente, três grandes problemas permanentemente colocados: transporte, habitação e meioambiente. No nosso caso, este pode ser o tripé que fará o reencontro do Rio. 10

11 O ovo de Colombo É unanimidade: só o transporte de massa isto é, sobre trilhos- tem condições de oferecer qualidade em grandes metrópoles. Ocorre que, para implantar o transporte sobre trilhos, os dispêndios são altos e os orçamentos públicos em geral são escassos... No caso do Rio de Janeiro, o sistema de metrô está em implantação desde os anos sessenta e atende apenas parte central da cidade. Não obstante, continuam em pauta planos de expansão que exigem bilhões, seja para chegar ao outro lado da baía de Guanabara, por sob o mar, seja para alcançar a Barra da Tijuca, por vários caminhos. Quaisquer dessas novas linhas exigirão recursos que só estarão disponíveis em décadas. Uma década é tempo pequeno para a história de uma cidade; mas também pode ser tempo exagerado para esperar reverter um quadro de dificuldades. No entanto, temos um patrimônio que, se bem tratado, pode significar uma verdadeira redenção urbanística para a cidade e para os municípios da Baixada Fluminense: o sistema de trens metropolitanos. As antigas linhas da Central do Brasil, Auxiliar e Leopoldina, constituem um sistema que abrange área onde moram 70% da população da RM. Com a privatização da operação, houve melhora nos serviços. Mas o potencial da área é várias vezes maior. O modelo utilizado para a melhora foi o da recuperação como sistema de trens suburbanos. Esse modelo deve revisto frente às exigências de democratização urbanística: o sistema de trens precisa ser transformado em metrô de superfície. Existem projeto e estratégia para essa transformação, o projeto RioMetropolitano. Estruturado em parceria entre as secretarias estaduais de Projetos Especiais e de Transporte, recebeu a aprovação do Banco Mundial, financiador do Plano Estadual de Transportes Pet. Levado ao debate entre órgãos representativos da sociedade civil e profissional, tais como o Clube de Engenharia, a Associação Brasileira de Empresas de Consultoria de Engenharia, a Associação de Empresas de Engenharia no Rio de Janeiro, a Federação das Indústrias, o Sindicato da Indústria da Construção, entre outros fóruns, recebeu franco estímulo. A transformação de trens em metrô é projeto para a redenção dos bairros da Zona Norte/Oeste e da Baixada Fluminense, dando 11

12 conforto aos moradores e permitindo o desenvolvimento imobiliário e dos serviços. Igualmente, a transformação dos trens em metrô é projeto estratégico para o fortalecimento do Centro do Rio e reversão do quadro de esvaziamento em que se encontra. Zona Norte - Zona Oeste Baixada Primeira etapa: linha Central do Brasil, trecho Estação Pedro II- Bangu e Pedro II-Nova Iguaçu. Intervalo de 5minutos; todas composições com ar condicionado. Tempo para implantação: 18 meses É ovo de Colombo porque utiliza o leito existente (a construção do leito é o maior investimento para novos metrôs) e, com um custo inferior a cem milhões de reais, atende a 45 bairros e três municípios, já na primeira etapa em dezoito meses! É obra de interesse não apenas do governo do Estado e dos municípios a que serve, mas também deve ser para o governo federal agora, especialmente, em que foi criado ministério para as cidades, que tem o transporte público de qualidade como um de seus objetivos. 12

13 O eixo da democratização urbana No caso brasileiro, a falta de crédito para moradia é uma razão central para o crescimento das favelas e dos loteamentos irregulares e clandestinos. É possível que estejam sendo construídos na irregularidade ¾ dos novos domicílios urbanos brasileiros. Logo, o quadro não poderia ser outro que não aquele de degradação urbanística evidente em nossas cidades. Mas, nessas décadas de grande expansão urbana, em que as famílias tiveram que construir suas casas de qualquer maneira, em situação de grande precariedade, esses investimentos foram muito elevados. Essa poupança popular na produção habitacional é um patrimônio que precisa ser preservado e melhorado. É indispensável reconhecelos administrativamente e urbanizar favelas e loteamentos. É direito de cidadania e condição para democratização da cidade. Felizmente, o Rio de Janeiro tem boa experiência na urbanização de assentamentos populares. Os programas Favela-Bairro, Morar Legal e Morar Sem Risco, desenvolvidos pela Prefeitura desde 1993, tiveram bom resultado. No âmbito da Região Metropolitana outros programas foram também desenvolvidos, como o Nova Baixada, conduzido pelo Governo do Estado, de características semelhantes ao Morar Legal. Não há, no Brasil, experiência como essa do Rio de Janeiro, seja pela abrangência, seja pelo conjunto de políticas urbanísticas e sociais de educação, saúde, esportes, atendimento à primeira infância, geração de trabalho e renda, desenvolvidas integradamente. Este caminho é instrumento poderosíssimo para a melhora da qualidade de vida de toda a Região Metropolitana. Integração urbanística e social das favelas e loteamentos populares como instrumento para a ampliação da qualidade de vida metropolitana. 13

14 A reversão dos vetores para o reencontro Há ainda outra e fundamental tarefa possível a realizar, para alevantar a qualidade de vida e atender ao espírito fundador da cidade: a despoluição das águas, em especial as da baía da Guanabara. O superior benefício que a despoluição da baía da Guanabara poderá representar para o Rio de Janeiro será o re-equilíbrio dos vetores de desenvolvimento que, hoje, estão majoritariamente direcionados para a Barra da Tijuca. Como se sabe, tendo a cidade nascido à beira da baía, no Centro histórico, sua estrutura urbana foi construída a partir desse foco. Os bairros cariocas e, depois, as cidades da Região Metropolitana, tanto de um lado quanto de outro da baía, tiveram nesse foco a sua polarização. O patrimônio cultural que aí está implantado é o mais importante conjunto arquitetônico brasileiro. Para Argan (1993), o centro da cidade é o ambiente histórico das pessoas históricas ; para ele, o que proporciona coesão à comunidade urbana já não é o interesse comum pela prosperidade econômica, mas o pensamento de uma ascendência e de uma função histórica comuns. Desconstruída a condição de capital, desconstruídas as centralidades nacionais que se encontravam representadas no Rio de Janeiro, o Centro da cidade, que detinha a maior parte dessa representação, foi atingido por essa nova realidade. A perda da centralidade financeira retirou do Centro um vetor importante de atratividade. Conquanto o vazio da ocupação eventualmente possa ser suprido por outros segmentos, a modernização do lugar fica prejudicada pela ausência de setores dinâmicos e melhor remunerados da economia. Essa é uma conseqüência grave, porque as áreas de expansão das classes de alta renda exercem grande atração por sobre os investimentos públicos. A grande atratividade da Barra da Tijuca sobre esses investimentos é uma evidência desse princípio. E, atraindo mais investimentos públicos, realimenta a idéia da Barra como o lugar do progresso metropolitano. A centralidade metropolitana na Barra da Tijuca significa a consolidação do esvaziamento do Centro da Cidade. 14

15 Por isso, a eventual consolidação da Barra da Tijuca como lugar hegemônico do desenvolvimento da Região Metropolitana, deverá necessariamente ser associada ao processo da mudança da capital do Rio para Brasília e, se ocorrer, será o seu coroamento, que se completa na desconstrução da centralidade carioca. O Centro, a Cidade para os mais antigos, terá passado de capital a subúrbio... Com a recuperação da baía e com a transformação dos trens em metrô-, provavelmente ocorrerá a densificação urbana (em volume e qualidade de serviços) nos centros do entorno da baía da Guanabara: Flamengo, Centro, Ilha do Governador, Duque de Caxias, São Gonçalo e Niterói. A despoluição da baía de Guanabara reestruturará o Rio de Janeiro metropolitano. Estarão refeitas as bases da centralidade carioca. Os vetores do desenvolvimento metropolitano se re-equilibram. Transporte de qualidade, bairros integrados e ambiente saudável. Será que saberemos fazer com que o século XXI seja o do reencontro do Rio com o seu genius loci? Sérgio Magalhães é arquiteto, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. 15

16 Referências Bibliográficas: Argan, Giulio Carlo. Clássico anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. São Paulo. Editora Scharwcz, Bosi, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia. das Letras, Bojunga, Cláudio. JK, O Artista do Impossível. Rio de Janeiro. Objetiva, Bueno, Eduardo. Brasil: Uma História. São Paulo. Ed. Ática, Buarque de Holanda,. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro. Livraria José Olímpio Editora, Castells, Manuel. A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura. (3 vol.) São Paulo. Ed. Paz e Terra, Capistrano de Abreu, J. Capítulos de História Colonial. São Paulo. Editora da USP, Lessa, Carlos. O Rio de Todos os Brasis. Rio de Janeiro. Editora Record, Magalhães, Sérgio. Sobre a Cidade Habitação e Democracia no Rio de Janeiro. São Paulo. Ed. Pro-Livros, De capital a subúrbio a desconstrução das centralidades. Rio de Janeiro, Ensaios Prourb, s/e Mela, Alfredo. A Sociologia das Cidades. Lisboa. Editorial Estampa, Pandiá Calógeras, J. Formação Histórica do Brasil. São Paulo. Cia. Editora Nacional, Pereira, Margareth da Silva et.al.. Le Corbusier e o Brasil. São Paulo. Tessela-Projeto Editores, Prado Jr, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo. Brasiliense, Silva, Hélio. Nasce a República, São Paulo. Editora Três,

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