VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA ou ADOLESCENTE

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1 VIOLÊNCIA CONTRA A CRIANÇA ou ADOLESCENTE Equipe LENAD: Ronaldo Laranjeira Clarice Sandi Madruga IlanaPinsky Maria Carmen Viana Divulgação: Maio de 2014.

2 1. Porque esse estudo é relevante? Segundo a Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente do governo federal, as denúncias de violência vem apresentando uma acentuada curva de crescimento no Brasil (UNICEF, 2010). O número de vítimas é elevado, mas as estimativas de violência ainda estão subestimadas, uma vez que grande quantidade de casos, talvez a maioria não é reportada. Estudos mostram que a violência contra crianças assume uma variedade de formas e é influenciada por grande diversidade de fatores, desde características pessoais da vítima e do agressor, até o ambiente físico e cultural em que ambos estão inseridos (Nações Unidas, 2011). Embora as consequências da violência contra a criança e o adolescente variem de acordo com a natureza, gravidade e tempo de exposição, as repercussões de tais experiências são, quase sempre, danosas e permanentes. Sabe- se que a exposição à violência (tanto sexual quanto física) na infância e adolescência pode levar a uma maior suscetibilidade para problemas sociais, emocionais e cognitivos. Uma série de estudos mostram que tais consequências são persistentes e diversas: iniciação sexual precoce; doenças psiquiátricas como ansiedade e depressão; déficit cognitivo; comportamento agressivo; doenças pulmonares, cardíacas e sexualmente transmissíveis; suicídio e o uso problemático de substâncias psicoativas. 2. Sobre o LENAD O Segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) foi realizado pelo INPAD (Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas) da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo); financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e executado pela Ipsos Public Affairs. Entrevistas em domicílio foram realizadas em 149 municípios de todo o território nacional, com 4607 indivíduos de 14 anos de idade ou mais. A escolha dos entrevistados, bem como de sua residência, setor e município foi aleatória (amostragem probabilística), o que garante que essa amostra de indivíduos seja representativa de toda a população brasileira. Figura 1: Distribuição do número de entrevistados (n=4607) pelo II LENAD 2

3 Os entrevistados responderam sigilosamente a um questionário padronizado com mais de 800 perguntas que avaliaram o padrão de uso de drogas lícitas e ilícitas, bem como fatores associados ao uso. Para a atual análise, focamos nos relatos sobre eventos estressores na infância e adolescência tais como: uso de psicoativos pelos pais ou cuidadores, agressão física e psicológica, abuso sexual, exploração sexual, bullying na escola e eventos adversos ambientais, antes dos 16 anos de idade. Avaliação de Eventos Estressores: Figura 2: Questionário sobre violência na infância- II LENAD 3

4 3. Eventos adversos antes dos 16 anos de idade Evidências mostram que a ocorrência de eventos adversos na infância ou adolescência, como, por exemplo, dificuldade financeira grave, insegurança alimentar, doença ou morte de um membro da família, podem provocar consequências negativas permanentes na vida adulta. Nossos dados mostram que quase 1 a cada 10 brasileiros viveu dificuldades financeiras graves antes dos 16 anos de idade, e 2 a cada 10 relataram ter passado fome nesta faixa etária. Em torno de 17% da população relatou ter vivido a experiência de uma doença grave na família, e mais de um terço dos brasileiros perderam algum membro da família durante a infância e/ou adolescência. Já a prevalência de ter sido vítima de um assalto a mão armada ou ter sofrido um sequestro antes dos 16 anos foi de 2%, representando quase 3 milhões de brasileiros 1. Gráficos 1 a 6: Ocorrência de eventos adversos antes dos 16 anos de idade (em %). 1 O cálculo para projeções em números absolutos é baseado nos dados do IBGE para a população total com idade de 14 anos ou mais. Adolescentes considerados a população total com idade de 14 a 17 anos e adultos com idade de 18 anos ou mais. 4

5 4. Violência 4.1 Testemunho de violência doméstica Presenciar violência doméstica com agressão física entre pais ou cuidadores durante a infância e/ou adolescência pode ter um impacto negativo quase tão grande quanto ser propriamente vítima da agressão. Mais de 11% dos adultos e 10% dos adolescentes relataram ter presenciado, durante sua infância ou adolescência, seus pais ou cuidadores agredirem um ao outro, representando um total de quase 18 milhões de brasileiros. Testemunho de Violência Física na infância e/ou adolescência entre os Pais ou Cuidadores Gráfico 7: Prevalência de testemunho de violência doméstica na infância e/ou adolescência entre respondentes adolescentes e adultos, por gênero (em %). 4.2 Violência física contra a criança ou adolescente Mais de 2 a cada 10 brasileiros relataram ter sido vítimas de algum tipo de violência física na infância ou adolescência (21.7%), representando mais de 30 milhões de pessoas. Não houve diferença entre os gêneros entre os adultos, mas a prevalência entre meninas foi maior (20.5%) do que entre meninos (17.8%) adolescentes. Em dois a cada dez casos o agressor estava sob o efeito de álcool durante a agressão. A frequência de ter sofrido algum tipo de violência na infância ou adolescência sobe para um terço nos casos em que o participante relata que o agressor estava sob a influência do álcool. Dentre as agressões mais comuns estão arranhar, beliscar ou empurrar (12.4%) e bater até causar marcas no corpo (11.9%). Destaca- se o fato de que quase 1% dos entrevistados relatou ter sido vítima de um ataque com faca ou arma de fogo por seus pais ou cuidadores durante a infância e/ou adolescência. 5

6 Prevalências de Agressão Física Contra a Criança ou Adolescente Gráfico 8: Prevalência de agressão física durante a infância e/ou adolescência por gênero. Tipos de Agressão Física Contra a Criança ou Adolescente Perpetrada por Pais ou Cuidadores Gráfico 9: Prevalência dos tipos de agressão contra a criança por gênero. 6

7 Prevalência de Exposição a Agressão Física e Relação com o Consumo de Álcool Gráficos 10 e 11: Prevalência de brasileiros que sofreram pelo menos um tipo de agressão física na infância ou adolescência e destes, proporção de casos em que o agressor estava sob o efeito de álcool. A associação entre violência contra a criança e abuso de álcool é amplamente conhecida. O uso abusivo de álcool afeta funções físicas e cognitivas, reduzindo o auto- controle e aumentando as chances de um indivíduo agir violentamente. Também é sabido que o uso de álcool e outras drogas por pais e cuidadores afeta seu senso de responsabilidade, diminuindo o tempo e dinheiro disponíveis para o cuidado da criança e promovendo a negligência. 5. Uso de substâncias ilícitas por familiares Diversos estudos mostram que o uso de substâncias psicotrópicas no domicílio da criança é um fator de risco para o consumo e desenvolvimento de dependência química na sua vida adulta. O LENAD avaliou a exposição de crianças ou adolescentes ao uso de substâncias ilícitas com a pergunta: Na sua infância ou adolescência alguém próximo a você consumia substâncias ilícitas (maconha, cocaína, crack, etc) dentro da sua casa? Quem?. Nossos dados mostraram que 8% dos brasileiros relataram possuir alguém próximo que consumia substâncias ilícitas dentro da sua residência, na sua maioria eram parentes próximos (3.7%). Exposição ao Consumo de Substâncias Ilícitas em Casa Gráficos 12 e 13: Proporção de indivíduos que relataram ter sido expostos ao uso de substâncias ilícitas na sua própria casa durante a infância ou adolescência e frequência de tipo de relação com o usuário. 7

8 6. Violência sexual na infância ou adolescência Dentre todos os tipos de violência precoce, o abuso sexual é provavelmente o evento que leva a consequências mais drásticas e permanentes a longo prazo. Nosso levantamento mostrou que mais de 5% da população adulta (maior de 18 anos) relatou ter sido vítima de abuso sexual, representando cerca de 5 milhões e meio de brasileiros adultos. O abuso de meninas (7%) foi mais alto que o de meninos (3.4%). Esta prevalência está acima das estimativas advindas de estudos anteriores; isso provavelmente se deve ao fato da coleta de dados ter sido feita de forma fechada e com sigilo absoluto 2, não sendo baseada em dados de denúncias ou serviços de saúde, que são geralmente subestimados. Prevalência de Abuso Sexual de Crianças ou Adolescentes Gráficos 14 e 15: Prevalências de abuso sexual de crianças ou adolescentes e frequência de tipo de relação com o agressor. 2 Relato através de questionário auto- preenchido separadamente e entregue ao entrevistador em envelope lacrado. 8

9 6.1 Exploração sexual de menores de idade Apesar de diversas iniciativas de prevenção, a prostituição infantil continua sendo um problema social e de saúde pública gravíssimo no Brasil. O LENAD II identificou que mais de 1% da amostra relatou 2 já ter recebido dinheiro para fazer sexo antes dos 18 anos de idade, representando mais de um milhão de brasileiros. Ao contrário do esperado, a prevalência da prostituição precoce entre meninos (1.6%) foi maior que entre meninas (1%). Prevalência de Prostituição Infantil Gráfico 16: Proporção de indivíduos que relataram ter recebido dinheiro para fazer sexo antes dos 18 anos de idade, por gênero. 9

10 7. Bullying na escola Bullying é o termo utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos e dirigidos a uma vítima, causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder. Evidências mostram que a exposição ao bullying na escola está associado com maior risco de uso nocivo de álcool e substâncias ilícitas, e de tentativas de suicídio. O LENAD avaliou bullying com a pergunta: Durante sua infância ou adolescência você já sofreu bullying na escola? Por exemplo: atitudes agressivas intencionais repetidas de um ou mais colegas contra você?, também avaliando a frequência dos tipos de bullying mais comuns. Observou- se que 13% da população relataram ter sofrido bullying, sendo a agressão verbal e o bullying indireto (definido por ser vítima de fofocas e isolamento social) os mais comuns (12.6% e 5.5% respectivamente). Prevalência de Bullying na Escola entre Adolescentes Gráficos 17 e 18: Proporção de indivíduos que relataram ter sido vítima de bullying na escola por gênero e frequências de cada tipo de bullying. 10

11 8. Impacto da violência no consumo de substâncias na vida adulta Estudos epidemiológicos mostraram associação positiva entre a exposição a abuso físico e psicológico na infância e desfechos negativos na saúde física e emocional na vida adulta, sustentando a hipótese de que experiências adversas precoces podem levar a um aumento significativo da predisposição a depressão e, principalmente, ao uso problemático de substâncias psicotrópicas na vida adulta. Nossos dados corroboraram essa hipótese, uma vez que as taxas de prevalência de consumo de substâncias entre as vítimas de violência precoce são significativamente superiores às da população geral. Observa- se, por exemplo, que mais da metade dos usuários de cocaína e mais de um terço dos usuários de maconha foram vítimas de abuso infantil. Prevalência de Violência Precoce e Consumo de Substâncias Gráfico 19: Prevalências de exposição a pelo menos um tipo de violência física na infância ou adolescência na população geral, entre usuários de maconha e entre usuários de cocaína por gênero (em %). 11

12 9. Medidas de prevenção e intervenção A maior estratégia de prevenção é a promoção de saúde, que deve ocorrer nas escolas, na atenção primária e, principalmente, na própria família. Discutir amplamente a violência contra a criança e o adolescente e suas consequências,, bem como o treinamento dos profissionais envolvidos na educação e na atenção à saúde para a identificação de situações de risco e de vítimas é fundamental. É dever da sociedade civil proteger a criança e o adolescente. O Estatuto da Criança e do Adolescente impõe uma corresponsabilidade entre a família, a comunidade, a sociedade e o Poder Público pela garantia dos direitos da criança e do adolescente. Trata- se de uma responsabilidade solidária na medida em que, a cada um destes protagonistas, atuando em dimensões distintas, cabe a promoção e proteção de todos os direitos assegurados pela legislação. O que fazer se identificar crianças ou adolescentes vítimas de violência: Informe o Conselho Tutelar mais próximo (disque 100 Direitos Humanos) Na dúvida, DENUNCIE! Disque 100 Direitos Humanos 12

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