EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA VARA DA FAZENDA PÚBLICA MUNICIPAL DA COMARCA DE GOIÂNIA GO.

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1 EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA VARA DA FAZENDA PÚBLICA MUNICIPAL DA COMARCA DE GOIÂNIA GO. O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS, por seu Promotor de Justiça que ao final assina, com fundamento nos Arts. 1.º incisos I e VII, 5.º e 21 da lei 7.347/85 (Lei de Ação Civil Pública), Art. 25, IV, "a, da Lei n.º 8.625/93 ( Lei Orgânica Nacional do Ministério Público), Arts. 127 e 129, incisos II e III, da Constituição Federal, vem propor AÇÃO CIVIL PÚBLICA COM OBRIGAÇÃO DE FAZER e NÃO FAZER na forma da legislação civil e processual em vigor, em face de : MUNICÍPIO DE GOIÂNIA, pessoa jurídica de direito público interno, representado por seu Prefeito ou Procurador (artigo 12, II do CPC), instalado no Paço Municipal de Goiânia, sito à Av. do Cerrado, nº 999, qd. APM9, Park Lozandes, nesta Capital, pelos fatos e motivos de direito aqui narrados. 1

2 I - DOS FATOS No ano de 2002 várias famílias montaram acampamento em logradouro público, ali instalando-se, sem qualquer tipo de infra-estrutura e condições sanitárias, fixando residência sem qualquer condição digna de vida. A invasão se instalou na Avenida João Leite, em frente as Quadras 4 e 6 do Setor Santa Genoveva. Ergueram-se edificações na área pública, fato que gerou algumas ações coercitivas por parte da Prefeitura do Município de Goiânia, entretanto ineficazes e ignóbeis, visto que a ocupação só se fez por aumentar em número de invasores, buscando ali um lar. Existem muitas crianças e adolescentes no local, sem qualquer tipo de assistência(médica, educacional,etc), ocupando a vida com a atividade de mendicância. No ano de 2003 já existiam 37(trinta e sete) crianças e muitas mulheres gestantes (Doc 1, fl 26). Atualmente, estima-se que o número de invasores do bem público é de 100(cem) pessoas, que continuam residindo no local de forma precária, provocando danos ao meio ambiente cultural-artificial(ordem urbanística) e ao meio ambiente natural(degradação ambiental ao longo do Ribeirão João Leite)(Doc 2, fl 64). 2 - Do Direito O processo de urbanização das cidades brasileiras se demonstrou ao longo dos séculos como desordenado, tanto por parte dos loteadores 2

3 quanto por parte do Poder Público, que não exerceu de forma eficaz a fiscalização e a distribuição correta do espaço urbano. Frente à ocupação desenfreada e a especulação imobiliária, vários bolsões se formaram nas urbes: aqueles ricos suficientes se protegem em seus condomínios fechados e prédios de luxo, os de classe média tentam sobreviver às custas de seu trabalho e adquirir um imóvel, enquanto que os miseráveis, pessoas marginalizadas do sistema sócio-econômico, procuram abrigo em barracões, loteamentos irregulares, pois são mais baratos, e ocupações de áreas particulares e públicas. Os problemas estruturais da cidade devem ser resolvidos, à luz da Constituição Federal, Estatuto da Cidade e Plano Diretor, através de projetos e programas de regularização fundiária, que deverá corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente(estatuto da Cidade, art 2º, inciso IV), evitar o uso excessivo ou inadequado em relação à infraestrutura urbana(estatuto da Cidade, art 2º, inciso VI), garantir a oferta de equipamentos urbanos e comunitários, transportes e serviços públicos adequados aos interesses e necessidades da população(estatuto da Cidade, art 2º, inciso V), zelar pela proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico(estatuto da Cidade, art 2º, inciso XII). Os Poderes da República devem observar sempre os fundamentos do Estado Democrático de Direito, principalmente a dignidade humana(art 1º, inciso III, Constituição Federal), a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, erradicação da pobreza e da marginalização e a redução das desigualdades sociais e regionais, a promoção do bem de todos, sem preconceito de origem, sexo, raça, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, bem como cumprir o disposto no art. 6º da Constituição Federal, que inclui como direito social a moradia. A urbanização é o controle do crescimento das cidades e a urbanificação é o que José Afonso da Silva denomina de processo deliberado de correção da urbanização, consistente na renovação urbana, que é a reurbanização, ou na criação artificial de núcleos urbanos, como as cidades novas da Grã Bretanha e Brasília. 3

4 O termo urbanificação foi cunhado por Gaston Bardet, para designar a aplicação dos princípios do urbanismo, advertindo que a urbanização é o mal, a urbanificação é o remédio (Direito Urbanístico Brasileiro). A Constituição Federal, em seu Título Dos Direitos Sociais, estabelece como direito social de todos o direito à moradia: Art 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. Sendo um direito fundamental, possui eficácia autoaplicável, conforme a prescrição constitucional do parágrafo primeiro do art 5º, necessário para sua eficácia social plena a ação do Poder Público em implementar programas habitacionais. A Política Fundiária deve considerar as terras e imóveis públicos vazios ou subutilizados de domínio da União, Estados e Municípios para a produção de habitação. A Política Fundiária para a habitação deve apoiar municípios para: regularizar situações de posses em áreas públicas, disponibilização de recursos específicos para habitação e exigência de plano para utilização de terrenos e imóveis localizados no Município. A Lei nº /2005, regulada pelo Decreto nº 5.796/2006, instituiu o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social SNHIS, cujo objetivo é a viabilização para a população de menor renda de habitação digna e sustentável(art 2º, I), através da implementação de políticas e programas destinados ao acesso à habitação(art 2º, II). Os princípios norteadores de tais programas são o desenvolvimento urbano-ambiental(art 4º, I, b ), a moradia digna como direito social(art 4º, I, c ) e a função social da propriedade urbana. O Poder Público deve atentar-se às diretrizes de prioridade de projetos habitacionais para população de menor renda, aproveitamento de áreas 4

5 dotadas de infra-estrutura não utilizadas, utilização prioritária de propriedade do Poder Público para implantação de projetos habitacionais. Cabe ao Poder Público, utilizando-se de verbas instituídas do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social FNHIS, aplicar tais recursos na produção de lotes urbanizados para fins habitacionais(art 11, II), processo de urbanização(art 11, III), implantação de saneamento básico, infra-estrutura e equipamentos urbanos(art 11, IV), tendo o Município de Goiânia a possibilidade de implementar tais empreendimentos através da apresentação vinculada pela Lei, portanto obrigatória, do Plano Habitacional de Interesse Social(art 12, III). O decreto regulamentador do FNHIS estabelece que: Art 3º. Os recursos do FNHIS serão aplicados de forma descentralizada, por intermédio dos Estados, Municípios e Distrito Federal, em ações vinculadas aos programas de habitação de interesse social que contemplem: I aquisição, construção, conclusão,melhoria, reforma, locação social e arrendamento de unidades habitacionais em áreas urbanas e rurais; II produção de lotes urbanizados para fins habitacionais; IV implantação de saneamento básico; V aquisição de materiais de construção, aplicação e reforma de moradias. A Política de planejamento e ordenamento do espaço urbano, contida nos artigos 182 e 183 da Constituição Federal, devidamente regulada, no âmbito federal pela Lei /2001 Estatuto da Cidade, consolidou a ordem urbanística, e sua competente defesa através de ação coletiva(lei 7.347/85, art 1º, VI), instituiu normas gerais para o pleno ordenamento da cidade, regularização fundiária como política integradora dos excluídos ao meio urbano, garantindo dignidade e urbanidade aos cidadãos. 5

6 O ordenamento do espaço urbano é de responsabilidade do Poder Público, neste incluída à proteção ambiental, e deve refletir em ações positivas da Administração Pública em administrar seu patrimônio social, integrar os espaços livres à cidade, organizar a utilização das áreas públicas e, efetivamente, proteger o patrimônio ambiental, considerado direito de terceira geração, bem comum de todos, independentemente da dominialidade da área, de acordo com o artigo 225, caput, da Constituição Federal de Além do descaso em relação ao patrimônio do povo, em administrar o bem público comum de todos que é a via de circulação invadida denominada Avenida João Leite, a Administração Pública permitiu, em verdadeira omissão ao seu dever constante e permanente de fiscalização, a degradação de floresta permanente, consistindo na retirada da vegetação ciliar das margens do Ribeirão João Leite. O dever de proteção e preservação do meio ambiente recai à coletividade e ao Poder Público, devendo este, por fiscalização intensiva e eficaz, a fim de coibir qualquer tipo de degradação ambiental, e a Administração Pública do Município de Goiânia tem se olvidado com tal incumbência. Trata-se de área pertencente ao sistema viário, sendo impraticável a regularização da posse através de concessão de uso especial, devendo os ocupantes dos imóveis serem retirados, concedidos aos mesmos, se preenchidos os requisitos necessários, um local próprio para habitação e serem realizados, imediatamente após a remoção do imóvel, as obras de galeria pluvial necessárias e a devida pavimentação. A área não é propícia para o assentamento, visto que é destinada para o sistema viário, portanto é incoerente defender o direito de posse sobre a coisa pública, pois tal assunção traria um descompasso com a estética urbana, no sentido que deve existir no local uma via pública, devidamente urbanizada, bem cuidada, capaz de propiciar a circulação da comunidade, e não por edificações precárias, sem condições mínimas de uma moradia digna. 6

7 Não se quer retirar o direito garantido pela Constituição Federal à habitação dos ocupantes e suas famílias, entretanto este deve ser exercido em local apropriado para tanto, em área de parcelamento aprovado pelo Poder público Municipal ou área apta para tanto. 3 - DOS PEDIDOS Face ao exposto, conclui-se que além dos interesses difusos tutelados na Ação Civil Pública (ordem urbanística), existem ainda, os interesses coletivos relativos à proteção ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Tais interesses são por legitimidade defendidos pelo Ministério Público como parte ativa, através da Ação Civil Pública, por força do dispositivo constitucional (arts. 129, III e 225), sendo que a defesa dos interesses de tais direitos, uma de suas funções institucionais. Isto posto, o Ministério Público requer: I - Citação do requerido, para vir, querendo, responder à presente ação; II Recebimento do presente feito, acompanhado do Inquérito Civil Público de nº RA 352; III A procedência in totum dos pedidos contidos nesta inicial que se materializa na condenação do réu em: 7

8 A) Obrigação de Não Fazer, consistindo em não permitir invasões de áreas públicas e degradações ao meio ambiente; B) Obrigação de Fazer, consistindo em: B.1) Retirada dos ocupantes da área pública e inserção dos mesmos em Programas Habitacionais; B.2) Reflorestamento da vegetação ciliar degradada; B.3) Intensificação da fiscalização de Posturas e Ambiental; IV - A publicação de edital com prazo de 15(quinze) dias, para se dar conhecimento a terceiros interessados e ao público em geral, considerando, notadamente, o caráter erga omnes da ação civil pública. V - Protesta-se pela produção de todo o meio de prova em direito admitido, como documentos, testemunhas e perícias, para provar o alegado, bem assim, por possível emenda, retificação e complementação da presente inicial, se porventura necessário; efeitos fiscais em atendimento à lei. Dá-se à causa o valor de R$ 5.000,00 (Cinco Mil Reais), para Goiânia, 01 de agosto de Dr MAURÍCIO JOSÉ NARDINI 8º Promotor de Justiça 8

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