Jorge Almeida Pereira. Instituto Politécnico de Setúbal, Portugal Resumo

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1 Intelligence como factor de risco nos Sistemas de Informação Jorge Almeida Pereira Instituto Politécnico de Setúbal, Portugal Resumo A importância crescente da informação na tomada de decisão e o emprego de meios tecnológicos conducentes ao aumento da eficiência organizacional colocam um desafio social que envolve pessoas e organizações de uma forma em que a cumplicidade se torna factor primordial para o sucesso de ambos. Através da visão sistémica do ambiente urbano em que se inserem, apesar da crescente complexidade das arquitecturas disponíveis, podem simplificar-se os processos de obtenção da informação económica relevante. Como o recurso a meios ilícitos de pesquisa ou a indução em erro dos oponentes são factores concorrenciais que não podem ser desprezados, as pessoas, mais do que os processos e a tecnologia, são a origem e o objecto da introdução de factores de risco intangíveis numa análise organizacional dos Sistemas de Informação (SI). Da necessidade de promover a consolidação interpretativa do conhecimento nesta área e uma reflexão estratégica sobre a segurança das fontes, dos dados e da informação resulta o objectivo deste artigo. Palavras chave: competitividade, risco, vigilância, intelligence 1. Introdução A evolução semântica do conceito de novidade tende a deixar definitivamente de ser sinónimo de primeira vez, como o que tinha no século XV, quando novas rotas eram concebidas, investigadas e desenvolvidas, secreta e minuciosamente pela Ordem de Cristo a mando do Infante D. Henrique. Registadas nas páginas da História encontram-se definições onde os descobrimentos portugueses representam a reconversão de uma acção de guerra naval numa actividade de exploração científica [Saraiva 2001]. Nos nossos dias, a diferenciação e exclusividade competitivas, base fundamental para o desafio da inovação imposto pela abrangente difusão de informação e globalização dos mercados, induzem as preocupações de carácter económico e dirigem os estudos científicos, na tentativa de combater e evitar desestabilizações mais profundas nos ambientes social e geostratégico. Faz hoje sentido voltar a falar de guerra, quer esta seja fria, convencional, electrónica, contra o terrorismo ou, sobretudo, da guerra económica, porquanto a luta pelo registo de procedimentos de vanguarda permite decidir, em termos de eficácia, a diferença entre vencedores e vencidos. A continuidade das organizações depende, fundamentalmente, da sua capacidade de adaptação à mudança. Quanto melhor se conhecerem os fundamentos que levam à tomada de decisão de

2 indivíduos e organizações, sendo que estas possuem o capital de conhecimento tácito e explícito [Nonaka e Takeuchi 1995] daqueles que as compõem, mais eficientes se tornam os processos, permitindo uma interpretação mais eficaz dos dados registados e da informação alcançada. Logo, a sensibilização de todos os actores da vida económica para a necessidade de integração da informação nos processos de tomada de decisão é primordial para promover conscientemente a sua recolha, tratamento e protecção. A aquisição, processamento e comunicação de informações impõem-se num quadro muito competitivo, face a um contexto económico, político, social e cultural onde a informação se tornou matéria-prima fundamental e principal fonte de poder. Considerando que existe ainda sensibilização insuficiente para as questões da segurança, em particular para a necessária prevenção, com implicações graves num quadro de ameaça à integridade das informações nas organizações, sustenta-se neste artigo a necessidade de avaliar convenientemente as ameaças e permitir uma investigação mais alargada, com o consequente aproveitamento de oportunidades. Desta forma, evitar ou mitigar o risco, associando-o a pontos fracos e pontos fortes, escondendo o que é estrutural e estrategicamente importante, apresentase em função das formas com que se elaboram os planos para a concretização dos objectivos, longe dos olhares alheios. Embora todos possam ver os aspectos exteriores, ninguém deve compreender a forma como se cria a vitória [Sun Tzu 2007]. Decorrente do facto de o potencial económico estar cada vez mais ligado à capacidade de controlar e manipular informação [Miguel 2002], a confusão ética produzida pelo exame dos conceitos de Inteligência Competitiva (IC) e de espionagem merece um exaustivo detalhe analítico [Kaplan e Norton 2004], no qual possam operar as organizações, em ambiente socioeconómico e tecnológico turbulento que desafia a sua própria sobrevivência. Com origem num passado recente de práticas distintas nos diferentes países, a União Europeia persiste na indefinição em relação a uma hipotética política comum, enquanto que nos EUA, o investimento em actividades de Intelligence técnica e humana continua a ser gigantesco, garantindo a liderança mundial. A espionagem económica e industrial, sendo um crime punido por lei (Artigo 317º, do Código Penal) e, nos termos do Artigo 21º da Lei Orgânica n.º 4/2004, pode interferir decisivamente na avaliação de risco dos Sistemas de Informação (SI). Tem, portanto, importância relevante na análise das definições e fronteiras do conhecimento organizacional que se pretendem avaliar, paralelamente e com o mesmo objectivo de outras formas de recolha de informação eticamente aceitáveis.

3 2. Intelligence O sentido comum da inteligência social, como capacidade do ser humano para pensar, conceber, compreender, aprender e julgar, e o de inteligência económica, que tem contornos que se enquadram na perspectiva de acordo secreto entre duas ou mais pessoas no intuito de enganar alguém [DLPC 2001], diluem-se como um risco desconhecido se limitados por esta definição. Os governos recolhem, processam e usam informação secreta. Apesar das organizações possuírem os seus sistemas de informação próprios, e o termo Intelligence ser aplicado em todos eles e à informação que produzem, é a nível governamental que se usa o sentido mais restrito, associado a relações internacionais, defesa, segurança nacional e segredo [Herman 1996]. Na literatura militar a Intelligence resulta da busca de informações relevantes sobre o ambiente estrangeiro e o adversário. Sistemas de vigilância monitorizam os alvos e ambientes prioritários para reduzir a incerteza e aumentar o conhecimento e a confiança. Definir a estratégia, a partir da informação, avaliando as oportunidades ou ameaças existentes e a sua capacidade de accionar os seus activos para responder aos novos desafios, tem sido a ocupação principal dos generais, líderes e outros decisores [McGee e Prusak 1993]. No âmbito dos Sistemas de Informação (SI), exemplos de preocupação na definição do termo, apresentados pela Society of Competitive Intelligence Professionals (SCIP) foram tomados em consideração na comunidade profissional mundial e são seguidos por muitos como tópicos essenciais ao dispor das comunidades organizacionais que pretendam proteger os interesses dos seus membros, através do uso de Intelligence. O constante apelo ao cumprimento de normas e a divulgação de regras de conduta instituem o dever de preservar os princípios éticos subjacentes aos Sistemas de Informação Organizacionais. Deste modo, afasta-se da palavra Intelligence o seu significado principal com conotação menos própria, e limita-se a sua utilização ao socialmente correcto no ambiente organizacional, na observância dos direitos e deveres das partes interessadas. Haverá razões que levem a ultrapassar os rígidos princípios éticos? As organizações devem ter bem presente o que não é Inteligência Competitiva (IC), pois as fronteiras éticas e práticas estão bem definidas, no entanto, não é muito clara a definição dos campos em que se podem desenhar essas fronteiras [Brody 2008]. A recolha e análise da informação sobre as capacidades, vulnerabilidades e intenções dos concorrentes do negócio, de forma ética e legal [SCIP 2007] é uma definição que tem levado os profissionais a conseguir delimitar correctamente os objectivos da sua acção perante a gestão de topo das organizações, cada vez mais preocupadas e dependentes da evolução das tecnologias, dos processos e das pessoas, e da sua forma de participação nas actividades económicas.

4 3. Inteligência Competitiva A informação económica tornou-se uma das principais fontes de preocupação dos serviços secretos ocidentais [Boniface 2003]. No entanto, a evolução recente e o futuro incerto garantem que muito ainda há para fazer na elaboração de padrões e modelos que identifiquem peremptoriamente os limites da actividade profissional nesta área. A guerra económica é defendida por autores de uma escola de pensamento que se baseia na constatação da existência de uma forma de violência económica. Na Europa, um especialista francês, fundador da Escola de Guerra Económica, em Paris, constitui uma referência no despertar de uma nova abordagem do problema; Christian Harbulot, historiador e politólogo, é considerado o criador do conceito de guerra cognitiva, que tenta responder, entre outras, à seguinte pergunta: Pode um estado ou uma empresa sobreviver, no âmbito hiper-competitivo deste tempo de globalização, sem inteligência económica? [TDSnews 2007] Os ataques da espionagem industrial e económica destinam-se a ganhar vantagem competitiva sobre a concorrência. Tentando alcançar os segredos dos concorrentes, à margem da proclamada ética empresarial, as organizações podem investir fundos na espionagem, conscientes do elevado retorno do investimento [Costa 2004]. Embora muitos questionem a utilização do termo para designar a competição entre empresas e nações, a evidência das ameaças e confrontos duríssimos, denunciados publicamente pelos média, apontam diariamente para a existência de alegados utilizadores de práticas ilegais e posicionam estas práticas no universo das possibilidades mais susceptíveis de afectar o desenvolvimento e a utilização de processos seguros nos SI. Neste teatro de guerra constata-se que os média se transformaram num poderoso instrumento à disposição dos actores que têm interesse em produzir uma percepção da realidade que lhes seja estrategicamente favorável. Sejam eles económicos, políticos, militares ou de outra natureza [Santos 2007]. Na definição dos objectivos estratégicos devem ser ponderados os factores críticos de sucesso aliados à segurança e integridade organizacionais, no intuito de obter, por recurso a um conjunto de meios de acesso condicionado, controlado e dirigido ao mais alto nível de gestão, a informação que melhor sirva de apoio à tomada de decisão. Desta forma a inteligência que se deverá impor na Sociedade da Informação como objecto de estudo, e se substitui frequentemente pelo termo, quase considerado anglicismo, Intelligence, tenderá exclusivamente para o significado de recolha secreta de informação. Partindo desta perspectiva, a globalização, competição, inovação, informação e conhecimento como recursos económicos, estando presentes nas propostas de desenvolvimento dos países e das organizações, devem constar dos

5 relatórios de Business Intelligence e integrar os processos de avaliação de risco nos SI das empresas, mas a Competitive Intelligence tem implícita uma vertente de secretismo que poderá fazer a diferença. A utilização de argumentos menos claros, considera-se no âmbito deste estudo e das supostas opções de escolha das organizações, ao nível do admissível pelos padrões éticos e legais. Por um lado, só assim se evitam situações constrangedoras e perigosas para a continuidade da organização, e por outro, porque é esse o limite das duas definições inultrapassáveis no âmbito dos SI que importa referenciar: Business Intelligence, define-se como a ferramenta que permite ter acesso aos dados ou à informação certa, na forma certa, no sentido de tomar as decisões de negócio certas em tempo certo [Stackowiak et al. 2007], ou, numa outra perspectiva, uma arquitectura e um conjunto operacional integrado bem como uma aplicação e base de dados de suporte à decisão que fornecem acesso facilitado a informação de relevo para o negócio [Moss e Atre 2003]; Competitive Intelligence, um processo para gerir estrategicamente a informação em ambiente organizacional que tem as suas raízes práticas, conceptuais, e históricas no campo da estratégia militar e nos organismos de segurança e Intelligence. A IC apresenta-se como um processo organizacional de recolha e análise da informação, que por sua vez é disseminado como inteligência aos utilizadores em apoio à tomada de decisão, tendo em vista a geração ou sustentação de vantagens competitivas [Herring 1996]. No primeiro caso temos uma das mais recentes novidades anunciadas pelas consultoras de SI. Pela sua característica de ferramenta analítica, é proposta como um pacote de software que permite aos responsáveis das organizações, aos mais diversos níveis, em tempo real, não apenas a informação para a gestão corrente, mas também a informação para a decisão, ou seja, a informação tratada e agregada de modo a produzir os indicadores que suportam as decisões. Utilizam os dados disponíveis nas organizações para disponibilizar informação relevante para a tomada de decisão, combinando ferramentas de interrogação e exploração dos dados com ferramentas que permitem a geração de relatórios [Santos e Ramos 2006]. Todo o ambiente envolvente é considerado através da informação que pertence ao domínio do conhecimento organizacional sendo consolidada com base na qualidade dos processos usados. Como de facto importa analisar outros factores de referência para além dos enunciados, partimos da segunda definição de referência assinalando que a Intelligence aliada à

6 competitividade permite às organizações: monitorizar mudanças no ambiente competitivo; identificar ameaças e oportunidades de mercado; perceber os movimentos competitivos da concorrência; identificar novos parceiros, produtos ou serviços; identificar vantagens competitivas; melhorar a gestão organizacional e promover a inovação. Pode realizar-se através de processos cíclicos ou de Key Intelligence Topics (KIT) [Herring 1999] e resulta da interligação harmoniosa de três componentes fundamentais: Vigilância sistemática do ambiente competitivo, pela recolha tratamento e difusão de informação estratégica de apoio à decisão (intelligence); Protecção do património face às ameaças externas, sobretudo de cariz informacional (desinformação, rumores, manipulação de informações); Influência do meio, de modo a criar as condições favoráveis à prossecução dos desígnios estratégicos das empresas. Para o estudo e reflexão pretendidos para alcançar um padrão de avaliação de risco, a componente vigilância é a mais significativa, sobretudo porque engloba, entre outros, aspectos internamente controláveis. Sabendo que as organizações precisam desenvolver continuamente a sua capacidade de criar conhecimento [Nonaka e Takeuchi 1995] e é desse conhecimento que pode surgir a diferenciação competitiva que faz sentido e permite a tomada de decisão na organização do conhecimento [Choo 2006] a vigilância implica um estado de alerta permanente. Neste contexto, a importância do conceito estratégico, que enaltece o valor da informação, impede que se esqueça o facto de que possuir grande quantidade de informações ou de dados não é suficiente. A diferenciação consiste em seleccionar e analisar essa profusão de informações, transformando-as em inteligência [Gomes e Braga 2004], de modo a que as organizações se possam, conscientemente, adaptar às exigências do ambiente em que estão inseridas. 4. Avaliação de Risco Numa análise comparativa, dado a sua difusão e peso económico, a tecnologia situa-se actualmente numa posição de independência e igualdade de oportunidades para a classificação das vantagens dos operadores. Todos os actores podem dispor e utilizar armas e sistemas amplamente divulgados, incluindo os criados em regime de código aberto e disponibilizados através de General Public Licence (GNU). Existem utilizações comuns de Data Warehouses, o recurso a Business Activity Monitoring (BAM) e a decisões tomadas com base em Activity- Based Management (ABM), pelo que a diferenciação pode resultar de apreciações em sectores

7 menos convencionais. Convém, no entanto, salientar que em certas situações, as aplicações comerciais disponíveis na área do Business Intelligence não correspondem aos requisitos do negócio e são preferíveis as ferramentas customizáveis [Stackowiak et al. 2007]. Com a generalização do recurso ao outsourcing, a diferenciação por processos deixa também de ser notória e, numa Sociedade da Informação e do Conhecimento em que o fornecimento de serviços em SI atinge muitos e diferentes sectores de actividade, as parcerias podem representar um risco imprevisível ou insuficientemente calculado. Resta acentuar a importância das pessoas, e a compreensão do ambiente para o qual a estratégia vai ser dirigida e executada, sendo esse o primeiro passo para o desenvolvimento estratégico [Kerzner 2001]. O factor principal da inteligência económica é o papel das pessoas no seio da organização. Numa perspectiva de análise de risco podem referir-se as fases de identificação dos activos, identificação dos riscos, atribuição de prioridade dos riscos e identificação dos controlos e medidas preventivas [Peltier 2001], considerando ainda os componentes intangíveis dos activos [Kaplan e Norton 2004]: Capital humano Capital informacional Capital organizacional Como são todos demasiado importantes para as organizações e nenhuma concebe adequadamente os seus objectivos estratégicos sem os levar em consideração, as flutuações de capital de conhecimento que podem fluir entre os concorrentes carecem de acompanhamento constante e apertado, no sentido de preservar a sua integridade, confidencialidade e disponibilidade [Freire 2007]. Importa pensar a segurança relacionando-a com a protecção dos activos contra a perda, má utilização, revelação, ou dano, sabendo que as ameaças incluem erros e omissões, fraude, acidentes e prejuízos causados intencionalmente [NCC 2005]. Um dos maiores problemas da segurança é a inadaptação dos modelos propostos à filosofia global de segurança da organização [Albanese 2004]. Ao examinar com atenção a sociedade organizacional encontra-se, com maior ou menor dificuldade, uma nebulosa teia de conhecimento, não referenciado pelo sistema, que flui livremente entre elementos de organizações diferentes, concorrentes ou não. O exame desse conjunto de dados disponível, mas não tratado nem classificado, permitirá iniciar uma avaliação dos riscos associados à transferência de valor de forma oculta, se avaliarmos a sua importância para a organização. Podemos chamar-lhe a nuvem escura da informação e representar a sua evolução em torno das organizações (figura 1).

8 5. Vigilância Da direcção e esforço que cada organização atribui à Intelligence depende a origem da recolha e a quantidade de informação. No entanto, existem dados que podem chegar de uma nuvem de vigilância formada espontaneamente, não sendo por isso menos válidos, mas justificando a inexistência de uma indicação de origem nesse sentido, ou seja, nem sempre é necessário provocar ou efectuar a vigilância para obter resultados ou dar início à formação de uma nuvem. Figura 1 A vigilância na produção de dados No triângulo das Tecnologias de Informação (TI) pode considerar-se que as pessoas são acérrimas defensoras de uma política de segurança bem estruturada, porém, a vigilância pode ser dirigida para a obtenção de dados aparentemente menos importantes, mas com potencial interesse para terceiros. Cresce a preocupação sobre a forma descuidada como muitas vezes se justifica e concretiza a adopção de TI [Amaral 2005]. Por isso, na área dos SI, abrangendo as medidas de segurança associadas ao comportamento de todos os elementos intervenientes nos processos internos e externos da organização [Peltier 2002], [Silva 2004], os regulamentos e as normas devem condicionar todos os fluxos de dados que entram, saem ou são processados e armazenados no espaço de intervenção das unidades que compõem o sistema.

9 Gerir a informação não se reduz à tarefa operacional de garantir a racionalidade e a eficiência na produção e circulação de dados, mas prepara-a para uma resposta eficaz aos desafios ambientais [Zorrinho 1991]. Configura-se a partir desta informação um modelo potencialmente importante de análise baseado em dados concretos, disponíveis e úteis na tomada de decisão que só depende de um factor, a perspectiva da vigilância, individualizando distintamente, deste modo, as potencialidades das organizações associadas ao grau de exposição que detêm. Esta aparente variedade de situações, necessidades e características de análise da mesma nuvem, transparente para uns e opaca para outros, determina as diferenças e as potencialidades de utilização das informações no universo da informação organizacional ou a sua ignorância. Da mesma forma que se consegue distinguir informação de informações, em termos de conceitos, a gestão pode preocupar-se com o primeiro e esquecer o segundo na sua análise estratégica. Essa discrepância, colocada ao nível da competitividade, da análise de risco e dos consequentes factores de apoio e suporte à decisão, constitui uma componente adicional ainda pouco divulgada no ambiente organizacional nacional. Assim, a inteligência competitiva tende a centrar-se exclusivamente no estudo do ambiente interno e na rentabilização do capital tácito e explícito, na informação, permitindo a existência descontrolada de informações e a fraca utilização de nuvens escuras em benefício próprio. O actual estado de evolução económica e de desenvolvimento tecnológico, aliado à globalização dos mercados e ao aumento da competitividade, faz com que possamos afirmar peremptoriamente que o segredo, ainda é a alma do negócio. Nas organizações devem ser calculados os riscos de ser o alvo de actividades ilícitas de espionagem ou vigilância, sabendo que algumas pessoas apresentam um factor de risco mais elevado que outros, por inerência da sua posição financeira, ocupação, situação legal, ou doméstica. Há que lembrar sempre que qualquer pessoa com dinheiro, poder, influência, ou que tenha acesso a matéria considerada como sensível, classificada, ou de informação pessoal poderá estar em situação de risco pessoal sério. No entanto, no âmbito desta análise importa referir que os dados circulam livremente através da organização e do meio que a envolve, embora só se transformem em informação quando devidamente contextualizados. Ora, identificar a nuvem que paira sobre o nosso ambiente organizacional torna-se desta forma imprescindível para definir estrategicamente a posição de competitividade e Intelligence mais adequada. Talvez não haja almoços grátis, mas em certa medida pode tornar-se importante saber quem almoça com quem, e essa, pode ser uma informação valiosa, sem que para obtê-la se tenha comprometido qualquer princípio ético ou legal.

10 6. Conclusão Ao promover e aprofundar o conceito de inteligência competitiva, refletindo sobre a estratégia aplicada aos Sistemas de Informação no âmbito da segurança, determinam-se potenciais factores de risco que concorrem para a necessidade de definição de políticas mais exigentes e abrangentes, permitindo a monitorização da denominada nuvem escura da informação. Os riscos inerentes à pretensa ausência de conhecimento do ambiente organizacional assumem um papel determinante na inadequada utilização da inteligência competitiva. A fronteira entre os conceitos de Intelligence e dos padrões que lhe estão associados carece de uma exaustiva e contínua pesquisa, abordando alguns campos que podem ir para além dos limites da ética e da legalidade. O conhecimento das matérias consideradas secretas poderá ser interpretado na sua componente teórica como parte integrante da avaliação de risco nos Sistemas de Informação Organizacionais, contribuindo eficazmente para a elaboração das políticas de segurança. Tendo por referência o carácter holístico da segurança, aos vulgares processos de recolha, análise, tratamento e comunicação da informação devem juntar-se os associados a políticas de Sistemas de Informações, vulgarmente denominados por Intelligence, conseguindo, dessa forma, controlar um conjunto de elementos que de outro modo flutuariam livremente nas fronteiras do conhecimento organizacional. O aumento significativo da sensibilidade da gestão de topo nesta área irá contribuir definitivamente para o sucesso da organização, protegendo melhor os activos tangíveis e intangíveis e promovendo a cultura organizacional segura que se torna imprescindível num ambiente competitivo cada vez mais exigente. O capital humano é demasiado volátil nas organizações para que se não considere essencial a manutenção de regras apertadas de controlo. A criação de processos e metodologias que o permitam fazer, caso não existam, é fundamental na salvaguarda dos interesses comuns e no respeito pela ética e legalidade que se exige. Este processo tem de contar com as possibilidades tecnológicas actuais que permitem, cada vez mais facilmente, a obtenção de informações relevantes em tempo útil, e usar a seu favor as potencialidades da inteligência competitiva, protegendo dos ataques dos concorrentes. Pensar que não é necessário, é ingenuidade. A longevidade das organizações depende da forma como interna e externamente encaram a mudança, de como se integram com o meio que as rodeia e da capacidade em manter um elevado nível de protecção dos seus activos em paralelo com os ataques concorrenciais com que lutam nos mercados económicos pela sobrevivência. Os factores intangíveis continuarão a definir, secreta e incompreensivelmente, a diferença que separa o sucesso do fracasso na contínua evolução das organizações.

11 7. Referências Amaral, L. Da Gestão ao Gestor de Sistemas de Informação: Expectativas Fundamentais no Desempenho da Profissão, in Amaral, L. et al. Sistemas de Informação Organizacionais, Edições Sílabo, Lisboa, Boniface, P., Guerras do Amanhã, Editorial Inquérito, Mem-Martins, Brody, R., Issues in Defining Competitive Intelligence: An Exploration, The Journal of Competitive Intelligence and Management, SCIP, 4, 3, Choo, C.W., The Knowing Organization: How Organizations Use Information to Construct Meaning, Create Knowledge, and Make Decisions, 2 nd Ed., Oxford University Press, New York, Costa, J., Segurança da Informação no Contexto das Novas Tecnologias. Um modelo para o Exército, Curso Superior de Comando e Direcção 2003/2004 Trabalho Individual de Longa Duração, Lisboa, Instituto de Altos Estudos Militares, DLPC, Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Artes e Ciências de Editora Verbo, Lisboa, Freire, M., Interoperability Among Intrusion Detection Systems in Khadraoui, D., Herrmann, F. (2008). Advances in enterprise information technology security, Information Science Reference, London, 2007, Gomes, E. Braga, F., Inteligência Competitiva: Como transformar informação em um negócio lucrativo. 2ª Ed., Editora Campos, Brasil, Herman, M., Intelligence Power in Peace and War, Cambridge University Press, New York, Herring, J., Measuring the effectiveness of Competitive Intelligence, Society of Competitive Intelligence Professionals, Alexandria, Herring, J., Key Intelligence Topics: A process to identify and define intelligence needs, Competitive Intelligence Review, 10, 2 (1999) Kaplan, R. Norton, D., Strategy Maps: Converting Intangible Assets into Tangible Outcome, Harvard Business School Publishing Corporation, Kerzner, H., Strategic planning for project management using a project management maturity model, John Wiley & Sons Inc., New York, McGee, J. Prusak, L., Managing Information Strategically, John Wiley & Sons Inc., New York, Miguel, A., Gestão do Risco e da Qualidade no Desenvolvimento de Software, FCA Editora de Informática, Lisboa, Moss, L. Atre, S. Business Intelligence Roadmap: The Complete Project Lifecycle for Decision-Support Applications, Pearson Education Inc., Boston, NCC, IT Governance - Developing a successful governance strategy: A Best Practice Guide for decision makers in IT, The National Computing Centre, Nonaka, I. Takeuchi, H. The Knowledge-Creating Company: How Japanese Companies Create the Dynamics of Innovation, Oxford University Press, New York, Peltier, T., Information security policies, procedures, and standards: Guidelines for Effective information security management, Auerbach Publications, Boca Raton, 2001.

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