Reflexões sobre Impasses e Possibilidades da Psicanálise no Hospital Público

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1 Reflexões sobre Impasses e Possibilidades da Psicanálise no Hospital Público Ludmila Stalleikem Sebba 1 e Ademir Pacelli Ferreira 2 Resumo A partir do referencial da psicanálise procura-se apontar elementos para a reflexão do trabalho clínico em instituição hospitalar pública. Trata-se de projeto de mestrado cujo objeto de estudo visa analisar o lugar do psicanalista e de sua práxis neste espaço onde predomina o discurso médico mais centrado no biológico, além da função social da instituição. São várias as solicitações que são dirigidas ao analista no hospital, o que exige que este possa oferecer uma mediação para que o sujeito se implique e transforme sua queixa em demanda de tratamento. A saúde como ideal, como bem comum e a tarefa de eliminar as doenças podem excluir a singularidade e o sujeito da experiência do adoecer. As manifestações do paciente e a chamada não adesão ao tratamento deve ser escutada de uma outra posição de inclinação frente a este sujeito com seu pathos. 1 Psicóloga do IPEC/FIOCRUZ, Mestranda do Programa de Pós-graduação em Psicanálise do IP/UERJ sob orientação do prof. Ademir Pacelli Ferreira. End. Elet. End: Rua Vital Brasil 56/402 Vital Brasil Niterói - RJ 2 Prof. Adjunto do IP/UERJ, Prócientista, atual diretor do IP/UERJ. Supervisor de Extensão e de Iniciação científica junto ao CAPS/UERJ e da Unidade de Psiquiatria/HUPE/UERJ. Membro do corpo docente do Programa de pós-graduação em Psicanálise do IP/UERJ. Membro da AUPPF. End: Rua Uruguai, 449b/402 Tijuca, Rio de Janeiro

2 A partir da prática clínica, apresentaremos questões suscitadas pela experiência múltipla e de grande complexidade que caracteriza a hospitalização. Neste espaço, vários discursos tentam lidar desta experiência de sofrimento e cuidados, onde também procuramos sustentar nossa práxis orientada pela psicanálise. São condições muito distantes das encontradas nos consultórios particulares, local convencionalmente estabelecido para o setting analítico. Nas emergências, UTIs e enfermarias, lidamos com espaço e tempo de dimensões próprias, e o sofrimento físico, de causas orgânicas, domina o cenário. Nesse sentido, apresentaremos um fragmento clínico que funcionou como disparador das questões aqui abordadas. Sou chamada pelo serviço social para atender Paula 3, uma paciente jovem, HIV positivo, que convive com o vírus há alguns anos e vem apresentando dificuldades para seguir as prescrições médicas e fazer uso dos medicamentos de forma satisfatória, razão pela qual já passou por diversas internações. Logo no primeiro atendimento, encontro próximo ao leito alguns comprimidos no chão. Interrogo-a sobre o significado disso. A paciente diz que a enfermagem poderia tê-los deixado cair ou, ela mesma poderia ter se esquecido de tomá-los. Digo que fui chamada pela equipe por estarem preocupados com seu estado de saúde e que gostaríamos de ajudá-la. Perguntei como ela se sentia. Respondeu que estava com dor no peito, fraqueza, havia emagrecido muito no último mês e em casa já não conseguia realizar nenhum tipo de atividade; só ficava no quarto, deitada. Ao longo do período de internação, a equipe de saúde demonstrava grande mal estar com a situação da paciente e também certa irritação por vivenciarem uma experiência de fracasso frente à não aceitação dela com relação ao uso de medicações necessárias para a sua sobrevivência. Era como se essa atitude da paciente fugisse à compreensão da equipe e desafiasse o saber médico. Deste modo, podemos inferir a não adesão ao tratamento não está nos planos do hospital, ou ainda, se acontece deve ser rapidamente eliminada. É interessante pensar, no entanto, o que está implicado no discurso da chamada não adesão. O fato de acatar ou não as prescrições, só poderá ser verificado em cada situação, 3 Chamarei a paciente com o pseudônimo de Paula. Tomarei também o cuidado de escolher outro pseudônimo para o casos que se segue, com o intuito de garantir o sigilo e a não identificação do mesmo. 2

3 para cada paciente, no que há de singular e particular de cada caso. Será que o sinal dos medicamentos jogados no chão do quarto, visível a todos, não seria a insistência de um pedido de ajuda? Não basta tomar seu comportamento como uma rebeldia; dizer que ela não está cooperando para sua melhora ou ainda algum outro julgamento pejorativo sobre sua atitude. Como afirma Berlinck (2008:177), o sujeito freudiano não só não se confunde com o eu como concebe um eu que sempre fracassa aí quando o sujeito se manifesta. A noção de aderência está vinculada semanticamente a outros sentidos como: colarse, unir-se, conformar-se. Não aderir, portanto, interroga ao que não cola, não une e não se conforma. Certo dia de atendimento Paula diz que está muito triste e que precisa de mim: Sei que estou agindo errado, mas não consigo fazer diferente. Queria que me ajudasse a saber o que está acontecendo comigo, queria me entender. O trabalho da paciente, que se inicia com essa solicitação endereçada ao analista, pôde trazer recordações, experiências de vida, temores, dúvidas e planos para os atendimentos que se seguiram durante o período da internação hospitalar. Posteriormente, a paciente demonstrou interesse em continuar o acompanhamento no ambulatório do hospital. A medicação nunca é um ato isento da participação do sujeito que, por sua vez, não se revela de modo transparente e unívoco (Figueiredo, 1997). Portanto, a recusa de Paula pode possibilitar a abertura para outro saber, ou seja, aquele que está em jogo na psicanálise. Tomemos, ainda, a existência do sofrimento físico dos pacientes acometidos por patologias graves, pela necessidade de procedimentos clínicos dolorosos e/ou pelos períodos longos de internação. Nestes casos, alguns profissionais da equipe de saúde contra-indicam a intervenção analítica ou não a valorizam. Existem, também, pacientes que rejeitam atendimento nessas circunstâncias, pela vivência de algum tipo de dor física intensa. Estou me sentindo muito mal, não consigo nem pensar, muito menos falar!, nos comunica José num dos atendimentos. Como já indicava Freud (1914) no artigo sobre o narcisismo, se por um lado o sofrimento físico aparece como contraproducente para a análise, interferindo na atenção do 3

4 paciente ou mesmo propiciando a retirada narcisista das posições da libido até o próprio eu; por outro lado, revela sua ligação intrínseca com o sofrimento psíquico que se evidencia na clínica e transborda como um desafio a mais para o analista no acolhimento desses pacientes e seus familiares. Frente a tantas particularidades, procuramos, então, estabelecer alguns balizamentos teóricos que justifiquem nossa aposta na práxis da psicanálise no hospital. Mas concordamos com Freud (1918: ), quando afirma que no esforço de adaptar a psicanálise às novas condições, seus ingredientes mais efetivos e mais importantes continuarão a ser, certamente, aqueles tomados à psicanálise estrita e não tendenciosa. Tomando a aposta freudiana e analisando nossa experiência de trabalho institucional percebemos que há necessidade de um manejo cuidadoso, por se tratar de um lugar permeado por outros discursos, diferentes dos da psicanálise. Os ideais da ciência, da medicina e da saúde pública estão ligados à coletividade, ao bem comum, à preocupação com a cura e à eliminação das doenças e descartam o sujeito no que este tem de mais valioso e particular, sua subjetividade. As manifestações de angústia ou melancolia são rapidamente alvos de medicalização sem ao menos se perguntar por que elas apareceram. A psicanálise tem no sofrimento psíquico e, nas suas diversas formas de manifestação, o fio condutor para a experiência do inconsciente e pela via da investigação dos sintomas podemos iniciar uma intervenção analítica. Os profissionais de saúde que convivem com a realidade da dor (tanto física quanto psíquica), do sofrimento e da morte se deparam cotidianamente com os limites das próprias intervenções e recomendações terapêuticas. Em situações em que a medicação e a relação entre o paciente e o profissional de saúde não correspondem ao que é esperado pelo profissional ou pela instituição são comuns os pedidos ao analista visando o apaziguamento da dor, à eliminação do sofrimento e à promoção do bem estar. Nesse cenário, são constantes as demandas para exercício de ações pedagógicas para resolver dificuldades dos pacientes em relação à aceitação do diagnóstico e a adesão ao tratamento. Entretanto, como nos aponta Moura, não somos avessos a isso. Não colocamos um ponto de ruptura com essa demanda, mas respondemos a ela de outro lugar. Segundo Moura (2000:6), (...) tocamos na questão fundamental da psicanálise que é o que se transmite quando se responde a uma demanda com uma oferta. 4

5 Entendemos que as reflexões sobre o trabalho do psicanalista no hospital podem contribuir para a afirmação deste e ainda produzir novos caminhos e possibilidades. Bibliografia ALBERTI, S. e ELIA, L. (orgs.). Clínica e pesquisa em psicanálise. Rio de Janeiro. Rios Ambiciosos, BERLINCK, M. T. Psicopatologia fundamental. Escuta, São Paulo FIGUEIREDO, A. C. Vastas Confusões e atendimentos imperfeitos. Relume-Dumará, Rio de Janeiro FREUD, S. (1912). Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: Obras Completas. Imago Editora LTDA. Rio de Janeiro, 1969, v. XII. (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Obras Completas. Imago Editora LTDA Rio de Janeiro, 1969, v. XIV. (1919). Linhas de progresso na terapia psicanalítica. In: Obras Completas. Imago Editora LTDA. Rio de Janeiro, 1969, v. XVII. (1930). O mal-estar na civilização. In: Obras Completas. Imago Editora LTDA Rio de Janeiro, 1969, v. XXI. LACAN, J. ( ). Seminário 7, A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,1988. MOURA, M. (org.). Psicanálise e Hospital. Livraria e Editora Revinter, Rio de Janeiro QUINET, A. As 4+1 condições da análise. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor RINALDI, D. Clínica e política: a direção do tratamento psicanalítico no campo da saúde mental. In: Psicanálise, Clínica e Instituição. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos,

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