ARTES VISUAIS E DEFICIÊNCIA VISUAL: UMA REFLEXÃO SOBRE A INCLUSÃO EM ESCOLAS PÚBLICAS MUNICIPAIS DE UM ESTADO DO SUL DO BRASIL

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1 ARTES VISUAIS E DEFICIÊNCIA VISUAL: UMA REFLEXÃO SOBRE A INCLUSÃO EM ESCOLAS PÚBLICAS MUNICIPAIS DE UM ESTADO DO SUL DO BRASIL SILVEIRA, Tatiana dos Santos da FURB - Universidade Regional de Blumenau Eixo: Educação e arte/ n.16 Agência financiadora: Sem financiamento Resumo A inclusão social é um tema polêmico que envolve diversas discussões no sociedade contemporânea. A inclusão em arte ainda é uma tema pouco explorado, pois, segundo levantamento realizado, existem poucas pesquisas relacionadas a este tema. No presente artigo, buscou-se refletir sobre a inclusão do educando deficiente visual nas aulas de artes visuais de seis escolas públicas municipais de um estado do Sul do Brasil, quanto ao grau de deficiência, quanto às necessidades mais específicas para que ocorra a inclusão desse educando nas aulas de artes visuais e quanto às metodologias que norteiam o trabalho dos arte-educadores para que esta inclusão realmente aconteça. A pesquisa, de abordagem qualitativa, teve, como sujeitos, seis arte-educadores e seis educandos deficientes visuais e, como instumentos de coleta de dados, questionário estruturado e conversa informal sobre atividades realizadas pela professora regente. Constatou-se que educandos deficientes visuais e arte-educadores sentem dificuldades no trabalho com artes visuais devido à falta de informação e recursos. Palavras-chave: Arte. Deficiência visual. Inclusão social. A sociedade contemporânea permite dizer que a inclusão, hoje, é um dos temas mais discutidos nos meios cultural, social e educacional do país. Porém, muitos educadores ainda manifestam grande desconforto e, até mesmo, resistência em refletir sobre esta questão tão importante, da qual depende grande parte dos educandos. Ao falar em inclusão, os educadores se deparam com uma lei federal que garante a escola para todos. Porém, sabe-se que, para idealizar este modelo de escola, ainda é necessário muito empenho do governo, da formação docente, da administração escolar, do grupo de funcionários da escola, dos professores, dos pais e dos educandos. Mittler (2003, p. 21) sugere que a inclusão é uma visão, uma estrada a ser viajada, mas uma estrada sem fim, com todos os tipos de barreiras e obstáculos, alguns dos quais estão em nossas mentes e em nossos corações. Acredita-se que a inclusão começará realmente a acontecer quando os educadores se conscientizarem da diversidade cultural, social e emocional existente nas salas de aula, bem como dos direitos do educando enquanto ser humano, sobretudo o direito de ser respeitado na sua individualidade e de participar do aprendizado desenvolvido em sala de aula.

2 Segundo Mittler (2003, p. 20), a inclusão depende do trabalho cotidiano dos professores na sala de aula e do seu sucesso em garantir que todas as crianças possam participar de cada aula e da vida da escola como um todo. No entanto, como os educadores apresentam grande dificuldade em trabalhar esta questão, faz-se necessário pesquisar a fim de descobrir qual o ponto de partida da inclusão. No que se refere à inclusão nas aulas de artes visuais, esta se tornou um grande desafio, principalmente em relação ao educando deficiente visual, pois esta área trabalha diretamente com imagens. A importância da arte na inclusão das crianças deficientes já aparece como tema de algumas pesquisas, entre elas na de Tojal (2000), sobre a acessibilidade ao museu do público especial. Tojal é uma das responsáveis pelo desenvolvimento do projeto Museu de arte e inclusão de públicos especiais, no qual propõe a visualização de obras por diferentes sentidos. No caso de deficientes visuais, foi explorado o tato, recurso que tem se mostrado eficiente para o trabalho com este público. Em entrevista para a agência Educa Brasil, Tojal comenta: A Arte é uma forma de conhecimento e expressão pessoal e coletiva que todo ser humano acaba desenvolvendo de uma maneira ou de outra. Ela é exatamente a maneira com que as pessoas conseguem se comunicar não verbalmente. Seus sentimentos, seus conhecimentos com relação ao universo, à vida e ao cotidiano... Para pessoas portadoras de deficiências ela tem também uma grande importância porque estas pessoas tem uma necessidade muitas vezes maior de trabalhar as suas questões emocionais, sensoriais e de comunicação não-verbal. A Arte poderá, desta forma, oferecer melhores subsídios para que elas possam se comunicar e se expressar dentro de suas necessidades e limitações. (TOJAL apud MENEZES, 2000, p. 2). Por meio da arte, as pessoas demonstram o que sentem e o que pensam. Com o deficiente visual não é diferente. É necessário criar possibilidades para que ele também faça parte deste mundo sensível, bem como estimulá-lo a desenvolver sua percepção tátil, o que possibilitará que participe de propostas e interaja com a arte da melhor forma possível. É necessário pensar a arte na escola já não mais como meio de despertar apenas os sentimentos dos educandos. O ensino da arte vai muito mais além. Desde o momento em que passou a ser considerada área de conhecimento, é conteúdo cultural que pode despertar não apenas sentimentos, mas também reflexões sobre a cultura do mundo e da própria realidade. O papel da arte na educação está relacionado aos aspectos artísticos e estéticos do conhecimento. Expressar o modo de ver o mundo nas linguagens

3 artísticas, dando forma e colorido ao que até então se encontrava no domínio da imaginação, da percepção, é uma das funções da arte na escola. (PILLAR, 2003, p. 71) A arte na escola tem o papel de desenvolver a criatividade das crianças, possibilitando a expressão dos sentimentos e da própria visão de mundo por meio das diferentes linguagens artísticas. A criança, quando cria, desenvolve a forma de pensar e de comunicar-se por meio da arte e normalmente o faz brincando. A arte como linguagem, expressão e comunicação trata da percepção, da emoção, da imaginação, da intuição, da criação, elementos fundamentais para a construção humana sensível. (PILLOTTO, 2006, p. 58). Ao pensar em construção humana sensível, como sugere Pillotto, pensa-se na possibilidade de despertar a criança para sua leitura de mundo, de manifestações culturais, de política, de jogos de interesse, de conflitos, festas, tristezas e alegrias. Assim, ela passa a observar e a perceber que, além de fazer parte, também constrói a sua história. Tendo como base o exposto, realizou-se uma pesquisa, que teve o objetivo geral de refletir sobre a situação dos educandos deficientes visuais em seis escolas da rede pública municipal de um estado do Sul do Brasil, quanto ao grau de deficiência e quanto às necessidades mais específicas para que ocorra a inclusão deste educando nas aulas de artes visuais. Também se teve o objetivo de refletir sobre as metodologias que norteiam o trabalho dos arte-educadores para que esta inclusão realmente aconteça. Neste sentido, buscaram-se subsídios teóricos a fim de se obterem dados que mostrassem a verdadeira situação desse educando nessas aulas. Para a escolha das escolas, fez-se um levantamento no município onde se realizaria a pesquisa para identificar aquelas que tivessem, em seu corpo discente, alunos com deficiência visual. Constatou-se que, das 16 escolas municipais, 6 delas apresentavam, em seu quadro de matrículas, educandos deficientes visuais, o que definiu que a pesquisa seria realizada nessas seis escolas. Como sujeitos da pesquisa, definiu-se que seriam os arte-educadores das seis escolas que têm, em suas classes, educandos deficientes visuais. Como cada escola possuía uma classe com educandos deficientes visuais, obteve-se o número de 6 professores para participarem da pesquisa. Também se contou com a participação de 6 educandos com deficiência visual.

4 A pesquisa teve caráter qualitativo, sendo o instrumento de coleta de dados o questionário estruturado, com questões abertas e fechadas, para os professores, e, entrevista informal para os educandos deficientes visuais. O questionário estruturado apresentava 5 questionamentos, os quais podem ser visualizados no Quadro 1, juntamente com os resultados obtidos com os mesmos. QUESTIONAMENTOS Número de educandos deficientes visuais por escola Característica da deficiência visual RESULTADOS de 1 a 5 educandos Todos os educandos com visão subnormal Participação dos educandos deficientes visuais das aulas de artes Disponibilização de monitores nas escolas 04 dos educandos participam 02 dos educandos participam algumas vezes Nenhuma das escolas dispõe de monitor Conhecimento dos arte-educadores sobre materiais específicos para trabalhar a leitura de imagem 03 dos professores conhecem Quadro 1 Questionamentos e resultados da entrevista estruturada Fonte: A pesquisadora. 03 dos professores não conhecem Conforme se pode observar no Quadro 1, as seis escolas municipais pesquisadas, têm, em seu quadro de educandos, de um a cinco deficientes visuais, todos com visão subnormal. Chama-se visão subnormal (ou baixa visão, como preferem alguns especialistas) a alteração da capacidade funcional decorrente de fatores como rebaixamento significativo da acuidade visual, redução importante do campo visual e da sensibilidade aos contrastes e limitação de outras capacidades. (GIL, 2000, p. 6) Em relação a este aspecto, considera-se de extrema importância que o educador tenha conhecimento sobre as características da deficiência visual dos educandos, para poder pesquisar recursos e desenvolver a educação de forma inclusiva, e não equivocada. Em relação aos seis arte-educadores das escolas pesquisadas, como também se pode observar no Quadro 1, constatou-se que estes não dispõem de auxílio de monitor. Constatou-se, igualmente, que não dispõem de materiais específicos para trabalhar com esses educandos deficientes visuais. No máximo, dispõem de algumas ampliações feitas por eles mesmos. O material utilizado pelos arte-educadores é um material básico e, algumas vezes, os educandos que apresentam maior dificulade dispõem de lápis 6 B e

5 cadernos com linhas ampliadas. Porém, os quadros da sala ainda são verdes, e não brancos, como seria o ideal, por proporcionarem contraste. Já dos seis educandos participantes da pesquisa, constatou-se, por meio da entrevista informal, que dois apresentavam maior dificuldade, enquanto os outros admitiram conseguir acompanhar as aulas com a utilização do óculos recomendado por especialista. Alguns recursos ópticos são recomendados por Conde (1998) para trabalhar a leitura de imagem com educandos portadores de visão subnormal. Entre os recursos óticos sugeridos pelo autor, encontram-se: Óculos com prescrições especiais, óculos bifocais, prismas, lentes de contato, lentes ligeiramente tingidas ou escuras podem ser usadas pela criança sensível à luz, em lugares fechados e ao ar livre, lentes de aumento manuais ou lentes de amplificação que são usadas para aumentar o tamanho da imagem e melhoram o funcionamento visual de crianças com quase todos os distúrbios visuais. Esses ampliadores podem ser usados para tarefas como ler, escrever e estudo de arte. (CONDE, 1998, p. 03). A leitura de imagem é uma das propostas mais utilizadas para se fruir a arte. Entretanto, os seis arte-educadores entrevistados apontaram que não conhecem materiais específicos para trabalhar a leitura de imagem com educandos deficientes visuais; no máximo, conhecem as ampliações proporcionadas pelo retroprojetor. Os arte-educadores que afirmaram conhecer materiais específicos para trabalhar a leitura de imagem com educandos deficientes visuais, citaram o recurso do aparelho retroprojetor. São vários os recursos para trabalhar a leitura de imagem com o educando deficiente visual. Com o educando com visão subnormal, é necessário que as imagens sejam apresentadas de forma ampliada, que o educando possa manuseá-las para observá-las perto dos olhos e, dependendo do caso, que seja feito uso de recursos ópticos, principalmente da lupa, que é um material que deve estar disponível em todas as escolas. Cabe salientar que a leitura de imagem também pode ser trabalhada por meio de ações que envolvem a relação com o corpo. Jogos de expressão corporal e representação de imagens com o corpo são ações que poderão proporcionar diferentes olhares, não apenas com o educando deficiente visual, como com todos os educandos. Além do exposto, esta pesquisa também permitiu constatar que, enquanto algumas turmas são preparadas para a inclusão, por meio da amizade, do companheirismo e do trabalho em grupo, outras não são preparadas nem orientadas sobre a deficiência e necessidade especial dos colegas.

6 Ao final desta análise, conclui-se que, para trabalhar as artes visuais com educandos deficientes visuais, é fundamental que ocorram varias mudanças, principalmente aquelas que dizem respeito à construção humana sensível das pessoas. O papel da arte é desenvolver o conhecimento sensível, proporcionar aos seres humanos momentos de reflexão sobre a vida para que possam perceber, sentir, imaginar e criar perante a vida. Segundo Shaw (2007, p. 01), Os espelhos são usados para ver o rosto; a arte para ver a alma. Com base no autor, entende-se que a arte tem muito a contribuir para a inclusão, pois está diretamente ligada à construção humana sensível, característica indispensável para entender e trabalhar a diversidade. REFERÊNCIAS BARBOSA, Ana Mãe, (org) Inquietações e mudanças no ensino da arte. São Paulo: Cortez, CONDE, Antonio João Menescal (Adap). Quando houver crianças deficientes da visão em sua sala de aula: sugestões para professores. Disponível em: < o1.doc>. Acesso em: 27 jul GIL, Marta (Org.). Deficiência visual. Brasília, Disponível em: < Acesso em: 20 dez MENEZES, Ebenezer de. Ensinando arte para um público especial: entrevista com Amanda Tojal Disponível em: < Acesso em: 23 jun MITTLER, Peter. Educação inclusiva: contextos sociais. Porto alegre: Artmed, PILLOTTO, Silvia Sell Duarte. Gestão e conhecimento sensível na contemporaneidade. Joinville: UNIVILLE; Florianópolis: UFSC, SHAW, George Bernard. Frases de artistas. Disponível em < Acesso em 22 out

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