anped 25ª reunião anual

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1 II CONCURSO NEGRO E EDUCAÇÃO Projeto - RAÇA E EDUCAÇÃO: OS EXCLUÍDOS DO ENSINO SUPERIOR Autora Delcele Mascarenhas Queiroz Orientador - Prof. Dr. Jocélio T. dos Santos A pesquisa examina as desigualdades raciais no ensino superior, no Brasil, a partir da análise da realidade da Universidade Federal da Bahia UFBA, buscando compreender a contribuição da raça para a seleção que ocorre no vestibular. A pretensão do estudo é conhecer o perfil do estudante eliminado nesse processo, no sentido de: dar visibilidade à situação dos segmentos raciais com relação ao seu acesso à universidade pública; constituir um acervo de informações que possa subsidiar a formulação de políticas educacionais voltadas para a população negra. Origem dos dados: Metodologia UFBA - demanda de estudantes nos vestibulares dos anos 1998 e 2001 Procedimentos estatísticos: Análises univariada, bivariada e multivariada/regressão múltipla Literatura sobre o tema Os estudos que buscam articular raça e educação são ainda insipientes, sobretudo no que se refere à educação superior (Queiroz, 2001). Os autores que vêm se ocupando da temática, entre outros, Hasenbalg, 1979; Hasenbalg e Silva, 1988; Rosemberg, 1991; Barcelos, 1992; Silva, 1988; Picanço e Hita 1987;

2 Teixeira,1998; têm apontado para as desvantagens que atingem a população negra, nos diversos estágios do sistema de ensino e sob diversos aspectos, alertando para a urgente necessidade de adoção de medidas de combate ao racismo. cor Resultados preliminares Os resultados da análise evidenciaram a expressiva presença do segmento branco na população que se candidatou ao Vestibular da UFBA, em 1998 e Eles são também majoritários no conjunto dos aprovados, onde representam quase a metade. Os pardos têm a participação diminuída nesse conjunto, enquanto a situação dos pretos se mantém quase inalterada, como se pode perceber na representação gráfica. Distribuição dos estudantes inscritos segundo a cor. UFBA 1998 e ,2 8,7 2,3 2,8 Branca Parda Preta Amarela Indígena 44

3 38,4 Gênero Distribuição dos aprovados segundo a cor. UFBA 1998 e ,2 Branca Parda Preta Amarela Indígena Os dados revelaram uma seletividade também por gênero na UFBA. Embora as mulheres sejam a maioria dos que se inscrevem, os homens são majoritários entre os aprovados. Esse padrão é comum aos segmentos branco, pardo e preto. Status socioeconômico A seletividade socioeconômica tem sido uma característica marcante da universidade brasileira, demonstram diversas análises (entre outros, Ribeiro, 1988; Carvalho e Brito, 1978; Prior, 1984). O exame das informações sobre o vestibular da UFBA confirma os resultados desses estudos, indicando que quase a metade dos estudantes aprovados se enquadram nos níveis de status alto e médio superior. Os brancos são o contingente mais privilegiado, na medida em que pertence a esse segmento racial mais da metade dos estudantes que se situam nos níveis de status referidos. Os pardos encontram-se mais de dezesseis pontos percentuais abaixo da posição dos brancos e os pretos estão a vinte e quatro pontos de distância destes, apontando para as análises que mostram a 49,4 associação entre cor e status na sociedade brasileira.

4 Status socioeconômico da família dos inscritos por cor. UFBA 1998 e B ranca P arda P reta Outras Alto Médio Superior Médio Médio Inferior Baixo Superior Baixo Inferior Status socioeconômico da família dos aprovados por cor. UFBA 1998 e Branca P arda P reta Outras Alto Médio Superior Médio Médio Inferior Baixo Superior Baixo Inferior Escola média Inscrevem-se para o Vestibular majoritariamente estudantes oriundos de escolas privadas, o que sugere a hipótese de uma auto-seleção por parte daqueles que freqüentaram escolas públicas. Entre os aprovados, aumenta consideravelmente a participação dos primeiros, reduzindo-se, conseqüentemente a presença dos últimos. Entre os brancos está a mais expressiva proporção dos que freqüentaram escolas privadas, sobretudo no conjunto dos aprovados. Ao contrário, entre pardos e pretos é forte a presença de estudantes vindos da escola pública, não surpreendendo, deste modo, o modesto índice de aprovação desses contingentes, quando se conhece a precariedade do ensino oferecido pela escola pública. Apenas no contingente que se autoclassificou como preto, os oriundos da escola

5 pública têm maior participação que os que vieram da escola privada, no conjunto dos aprovados. Branca Parda Preta Outras Estudantes inscritos e aprovados segundo a escola média e a cor. UFBA 1998 e 2001 Freqüência a Cursinho Pública Privada Em elevadas proporções, candidataram-se ao vestibular, estudantes que buscaram o apoio de um cursinho. A presença deles é também mais elevada entre os aprovados. Isso se verifica em quase todos os segmentos raciais. Entre os brancos, contudo, tanto entre os inscritos quanto entre os aprovados, mas, sobretudo entre os últimos, é mais elevada a presença dos que prescindiram desse apoio. São os pretos e pardos aqueles que, com maior freqüência, recorreram a um curso dessa natureza, evidenciando a precariedade da escola a que tem acesso significativa parcela do seu contingente. Experiência em vestibular Quase dois terços dos estudantes que disputaram uma vaga na UFBA, já haviam prestado vestibular em anos anteriores. Eles representam quase três quartos dos aprovados, o que ocorre em proporções similares, em todos os segmentos raciais. Prestígio do curso

6 Um pouco mais da metade dos estudantes candidataram-se a cursos considerados de alto prestígio social, mas os que ingressaram nesses cursos representam pouco mais de um terço dos aprovados. Nos cursos desse nível de prestígio, tomando-se a condição racial e examinando a distância entre a presença de estudantes no conjunto dos inscritos e sua presença no conjunto dos aprovados, percebe-se que, a distância é menor entre os brancos que entre pardos e entre pretos. 10 segundo o prestígio do curso e cor. UFBA 1998 e B ranca P arda P reta Outras Alto Médio Alto Médio Médio Baixo Baixo segundo o prestígio do curso e cor. UFBA 1998 e 2001 Branca Pard a Preta O utras Alto Médio Alto Médio Médio Baixo Baixo Considerações finais A análise preliminar dos dados revela que a UFBA é um espaço fortemente marcado pela seletividade, em que a raça, o gênero e o status socioeconômico, se associam para excluir da oportunidade de acesso ao ensino superior significativas parcelas de estudantes. Assim, são os negros ( pretos e pardos), as mulheres e os de mais baixo status, os mais sujeitos à exclusão. Nessa seleção, cerca de nove em dez estudantes são eliminados. Se este cenário não surpreende, por se

7 tratar de uma realidade historicamente pautada pela desigualdade de oportunidades, ele preocupa por se tratar de uma universidade pública, num contexto marcado por forte seletividade no qual a escolaridade tem peso bastante considerável. Bibliografia Barcelos, Luiz Cláudio. Educação: um quadro de desigualdades raciais. Rio de Janeiro: Estudos Afro-Asiáticos (23), 37-69, dez., Brito, Luiz N. e Carvalho, Inaiá M. de. Condicionantes sócio-econômico dos estudantes da Universidade Federal da Bahia. Salvador: CRH/UFBA, Hasenbalg, C. Discriminação e desigualdade racial no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro: Edições Graal, Hasenbalg, C. e Silva, e Valle Silva, Nelson do. Estrutura social, mobilidade e raça. Rio de Janeiro: IUPERG/Vértice.1988 Picanço, Iraci e Hita, Maria Gabriela. Bahia cor e analfabetismo nos Censos de 1950 e Salvado: CRH/FINEP, 1987, (mimeo.). Prior, Wilma P. Determinantes do rendimento no vestibular da Universidade Federal de Sergipe. Salvador: Faced/UFBA, 1984 (Dissertação de Mestrado). Queiroz, Delcele M. Raça, Gênero e educação superior. Salvador: FACED/UFBA, 2001 (Tese de Doutorado) Ribeiro, Sérgio Costa. O vestibular de 1988: Seleção ou exclusão?. Educação e Seleção. Nº 18, Jul. dez. 1988, p Rosemberg, F. Raça e educação inicial. Cadernos de Pesquisa (77), mai. 1991, pp Silva, Ana Célia da. O estereótipo e o preconceito em relação ao negro no livro de comunicação e expressão de 1º. grau, nível 1. Salvador: FACED/UFBA, 1988 (Dissertação de Mestrado). Teixeira, Moema de P. Negros em ascensão social. Trajetórias de alunos e professores universitários no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 1998 (Tese de Doutorado).

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