II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014

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1 O poder em Muito além do cidadão Kane : uma análise a partir de Steven Resumo Lukes. Hellton Vinicius Patricio Maciel Universidade Federal da Paraíba Diogo Henrique Helal Universidade Federal da Paraíba A proposta deste estudo é analisar o documentário Além do Cidadão Kane (que trata do poder da Rede Globo de televisão) na perspectiva do pensamento de Stephen Lukes (1980) sobre o poder: o poder aparente, não aparente e o poder difuso. A investigação do estudo foi realizada tendo por base metodológica a observação não participante. Como principais achados de pesquisa, evidenciamos: as expressões comportamentais, todo um conjunto de simbologias que leva a um nível mais interno de poder: o controle subjetivo. E por fim, no cerne do poder, está o potencial governista que a rede Globo possui perante a política. Palavras-Chave: Poder; Controle Subjetivo; Governo. Abstract The purpose of this study is to analyze the documentary Beyond Citizen Kane (which deals with the power of Globo TV) from the perspective of the thought of Stephen Lukes (1980) on the power: not apparent apparent power, and diffuse power. The research study was conducted with methodological basis for the non-participant observation. As main research findings, we noted: behavioral expressions, a whole set of symbols which leads to a more internal level of power: the subjective control. Finally, at the heart of power, is the governing potential Globo network has before the policy. Keywords: Power; Subjective control; Government. 1 INTRODUÇÃO Estudar o poder nas organizações é um desafio para o pesquisador visto sua natureza complexa e ampla. Nada impede que este promova recortes de sua grandeza e delimite o foco de sua abordagem. Há diversas formas de se estudar este tema, dependendo da lente que se use para analisar o poder, seu estudo poderá abordar aspectos constitutivos do fenômeno: suas manifestações aparentes, seus aspectos ocultados, seu caráter individual, abstrato ou mesmo advindo de uma coletividade. Pfeffer (1994) estuda o poder sobre uma perspectiva organizacional, de interação entre seus atores, por meio de rupturas as normas por meio do comportamento, das ações visíveis. Já Bordieu (2000) estuda o fenômeno sobre uma lente bidimensional, analisando o poder não aparente, aquele que está oculto por trás dos símbolos 1

2 de sua manifestação. Foucalt (2004) traz a discussão sobre Poder sobre o âmbito do domínio difuso e latente, não identificável nos sujeitos mas sobre eles. Neste artigo, a âncora teórica escolhida firma-se nos pressupostos sobre Poder na perspectiva de Lukes (1980) por entender que sua ótica possui caráter sistêmico em três dimensões distintas: o poder aparente, o não aparente e o poder difuso, abarcando visões multifacetadas abordadas por outros autores. A proposta central deste estudo é analisar o documentário Além do Cidadão Kane à luz do pensamento de Lukes (1980) sobre três dimensões do poder apresentadas pelo autor. Como desdobramento desta proposta, buscou-se analisar as dimensões do poder por meio do levantamento político-histórico da emissora, como também a influência das novelas e dos programas de entretenimento citados pelo documentário. A produção do documentário foi realizada pela parceria entre duas empresas britânicas de televisão em 1993, a BBC e o Channel Four, sendo dirigido por inglês Simon Hartog. Conta o trajeto da Rede Globo de Televisão na década de O título original é Beyond Citizen Kane i. O documentário alvo deste estudo aborda a influência do poder ideológico de uma emissora de televisão sobre a política governamental e sobre o povo, nele, consegue-se perceber aspectos inerentes ao estudo deste fenômeno: a identificação das manifestações visíveis do poder por meio do discurso explícito das personalidades entrevistadas (políticos, jornalistas, editores de imagem, historiadores, artistas, executivos, publicitários, apresentadores...); a análise dos conflitos encobertos e não aparentes apresentados pelo documentário; o reforço ao posicionamento crítico do documentário alude ao estágio mais profundo da manifestação do poder exercido pela rede Globo: o caráter dominador ideológico, não questionado e não sentido conscientemente pelos seus telespectadores da emissora e não apenas apoiado como também condicionador de muitos governos no país. 2 DISCUSSÃO TEÓRICA O poder foi estudado durante muito tempo como sendo uma manifestação explícita de conflito, de embate onde uma força tenta dominar a oura por meio de mecanismos percebidos e sentidos. Desta forma, a investigação da influência do poder na sociedade era realizada por meio da existência ou não destes embates. Aqueles que ganhavam um conflito eram entendidos como detentores de poder, enquanto os que não obtinham êxito eram classificados como agentes dominados. Esta percepção é entendida como sendo avaliatória, pois parte da observação explícita das ações dos agentes envolvidos, quem ganha, quem perde. 2

3 Ao estudar o poder, Lukes (1980) apresenta uma discussão conceitual sobre o entendimento deste fenômeno, contestando a visão puramente avaliatória que muitos estudos desenvolveram sobre tal abordagem. O poder, sobre um olhar mais aprofundado, ultrapassa os limites do behaviorismo ii ; busca refletir sobre a influência dos aspectos que não estão aparentes, como também, numa perspectiva mais difusa e complexa, envolve uma face política e social de sua manifestação que, algumas vezes, se permite ocultar em meio a uma naturalização inconsciente dos sujeitos sobre seu ideal dominante. Após ler a obra do autor, conseguimos visualizar o poder como um fenômeno constituído por dimensões em que, a cada recorte, novos elementos gradativamente mais complexos se apresentam, requerendo do pesquisador maior esforço para seu entendimento. Eis suscintamente as camadas discutidas: Uma primeira camada, mais superficial e aparente, foi defendida por estudiosos denominados de pluralistas, denominação esta criticada por Lukes (1980), visto o caráter unidimensional dos estudos. De acordo com esta abordagem, o poder é estudado após a análise cuidadosa de uma série de decisões concretas por meio dos comportamentos efetivos: quem prevalece do discurso da tomada de decisão, os confrontos diretos (reais e observáveis), os conflitos de preferências, de interesses, são objetos de estudo do poder em sua perspectiva mais externa. A nosso ver, estudos descritivos podem, com tranquilidade, estudar o poder neste cenário. Analisa-se, nesta perspectiva, o que está tangível e suficientemente claro e explícito à sensibilidade do pesquisador. Entretanto, se a intenção do pesquisador é saber por que existe tal prevalência no discurso, conhecer e refletir sobre os conflitos que estão velados formalmente, sobre os interesses ocultos daqueles que não se posicionam ou que não se tornam evidentes nas disputas de poder, a saída se torna inviável pela lente unidimensional dos pluralistas. O caminho a ser buscado deve ser iluminado por uma abordagem que possa adentrar um pouco mais a fundo na diversidade de camadas que compõem o fenômeno. Bachrach e Baratz (1962) citados por Lukes (1980) acrescentaram uma segunda dimensão aos estudos sobre o poder, não negando a face do poder que se reflete nas decisões concretas, mas afirmando que tal fenômeno também poder ser analisado sobre elementos que não estão explícitos: as não decisões, os fracassos e omissões no processo de tomada de decisão. A abordagem destes autores envolve o estudo sobre o conflito não apenas aberto, mas também encoberto, refletindo sobre as discussões não apenas reais, mas também potenciais. Nesta abordagem, os interesses são articulados e observáveis conscientemente; as pessoas se expõem ou permanecem omissas nos processos de tomada de decisão ou de 3

4 resolução de conflito por razões conscientes a elas. Fala-se aqui em conflito consciente visto que ainda existem aspectos que vão além desta apreciação que não foram alvo de estudo por esta perspectiva de poder. Seja no ambiente organizacional, seja na academia e sobretudo, nos palanques políticos, os conflitos observáveis ou omissos ainda são instrumentos de forte mobilização utilizados pelo agir político: A opressão explícita, a fala impostada ou mesmo suave (mas dissimulada e manipuladora), os gestos bruscos que denotam força e superioridade, os rituais e símbolos, ainda são ferramentas de controle dos liderados e mensuradores sociais de domínio e poder. Schattschneider (1960) apud Lukes (1980:13) resgata um aspecto de relevância nesta perspectiva bidimensional do poder, mais precisamente a respeito da criação e do reforço de obstáculos ao arejamento público dos conflitos políticos nas organizações. Segundo ele, todas as formas de organização política têm um preconceito em favor da exploração de algumas espécies de conflito e a supressão de outras, porque a organização é a mobilização do preconceito. (grifo nosso), e isso faz com que muitos dos potenciais debates não ocorram, pois alguns temas meramente não interessam ao aporte conceitual da organização. Tal mobilização é conceituada por Bachrach e Baratz (1962) apud Lukes (1980, p.13-14): Um conjunto de valores, crenças, rituais e processos institucionais predominantes, são as regras do jogo, que operam sistemática e consistentemente em benefício de certas pessoas e grupos, às custas dos outros. Aqueles que se beneficiam estão colocados numa posição preferencial. Cabe ao sujeito querer jogar o jogo ou não, mas a sua omissão não o exime de posicionamento, seu comportamento demonstra um valor que não está evidente. E não o está por uma causa que pode possuir origens em diversas fundamentações: o não querer se expor pelo medo de ser interpretado equivocadamente, o receio de não saber quais as possíveis consequências, o desinteresse real do que se está tratando, o receio de ser prejudicado de outras formas na ação do sujeito, a acomodação para uma possível posição futura e de melhor aceitação pelos demais, enfim, as alternativas não se esgotam, visto a complexidade dos fenômenos sociais, de seu nascituro e de suas interações no contexto de trabalho. De acordo com a abordagem bidimensional, é a existência de queixas (observáveis ou encobertas) a esta mobilização de preconceito que indica os interesses em um sistema político. A visão bidimensional é entendida como uma relação causal cujas formas de controle expressam, com êxito, a dominação de A sobre B, podendo A criar ou inibir conflitos 4

5 ao seu favor. Temos aqui o panorama clássico causal do exercício do poder, onde A incide sobre B e B faz o que A deseja sendo que de outra forma B não faria, sendo tal exercício entendido por Lukes (1980) como relevância contrafatual. Neste processo, várias estratégias podem ser tomadas pelos atores envolvidos neste fenômeno: coerção, influência, autoridade e manipulação. Não é nossa proposta aqui dissertar sobre cada um destes desdobramentos das formas de controle, porém acredito que seja pertinente apontar a existência destes: a obediência enfatizada pela coerção, a influência sem ameaças tácitas, a autoridade legitimada, e a ausência de reconhecimento por quem obedece oriundos da manipulação, representam as mais diversas manifestação das maneiras como o poder exerce controle. Ressalte-se que a visão bidimensional, evidenciando a existência dos conflitos encobertos, da não tomada de decisão, das queixas à mobilização do preconceito, ainda é limitada se comparada ao panorama apresentado pela visão tridimensional do poder. Não há dúvidas que a visão do poder em três dimensões avança em relação as suas antecessoras. Uma primeira razão se dá pela amplitude do entendimento da visão tridimensional sobre a mobilização do preconceito. Tal sistema de crenças, valores e pressupostos não é mantido apenas por atos observáveis ou encobertos. Este fenômeno pode ser sustentado por aspectos tão profundos e difusos que nem mesmo as pessoas que estão debaixo da influência do poder o percebe. A ideologia é tão impregnada na organização (e não se entenda aqui organização apenas como empresa, mas como uma organização social de sujeitos) e em seus integrantes que tais práticas de dominação se tornam parte de um senso comum difuso. Na visão tridimensional, o poder assume o patamar de ideologia, naturalizando-se no âmbito inconsciente dos sujeitos. O poder aqui é visto como uma camada mais interna e ideológica, socialmente amorfa, extensa e constante, controlando o corpo por meio de estratégias que promovam docilidade e utilidade deste. A ausência de queixas, por exemplo, pode ocultar um falso consenso, consistindo numa contradição entre os interesses dos detentores de poder e os verdadeiros interesses dos excluídos que por nunca terem acesso a elementos que os levem a maior entendimento de suas reais potencialidades ou necessidades. Estes apenas se conformam em aceitar as verdades de seus dominadores. O que se nota é que o conflito se apresenta sobre uma forma latente, cujo cerne não está apenas oculto, mas também dissimulado para os que dominam, e inebriante para os que são dominados. Desta forma, esta visão vai além da existência do exercício de poder aparente ou não aparente. Há nela uma perspectiva mais aprofundada dos estudos de poder, acrescentando ao arcabouço de reflexões sobre tal fenômeno social: a análise das relações de poder, o controle 5

6 da agenda política e as formas de inibição de discussões potenciais. Mas como percebê-los, sendo este tão difuso e de profunda influência inconsciente? Existem complicadores para qualquer intenção de análise empírica já que, neste nível, o poder pode estar agindo em meio a inatividade e na não-consciência dos sujeitos ou mesmo nas grandes massas coletivas ou institucionais cujo acesso é deveras restrito e esguio. Porém, Lukes (1980) tenta dirimir tais dificuldades a partir de um estudo mais detalhado dos frutos das medidas de dominação em meio ao ambiente dominado, em tempos de (a)normalidade, como também em relação à manipulação do ambiente, ao estudo da capacidade dos agentes do poder em criar uma realidade ilusória aceita sem questionamentos pelos liderados. Didaticamente, a figura 1 fornece uma distinção sobre as três dimensões do poder. É importante que se diga para os mais desavisados que uma dimensão mais profunda não exclui a anterior, ou seja, a visão tridimensional não nega a existência de conflitos aberto ou encobertos da visão bidimensional ou mesmo aqueles oriundos da tomada de decisão explícita. Na verdade, uma dimensão complementa a anterior, evidenciado elementos do poder que até então estavam omissos por sua antecessora. Figura 1 As três dimensões do poder Fonte: Lukes (1980:20) A visão do poder por meio de dimensões, sua noção avaliatória ou mesmo de perspectiva causal ou ideológica é apenas uma perspectiva de estudo sobre tal fenômeno social. Ainda é possível estudá-lo sobre a lente de outros sociólogos que contribuíram consideravelmente. O entendimento de poder segundo Parsons envolve metas coletivas, depende da institucionalização da autoridade do meio generalizado de mobilizar a ação coletiva, sendo desviado enquanto interesse de partidos específicos. 6

7 Na visão de Arendt, o poder emerge do povo que empresta seu poder a um representante eleito para cumprir os anseios da coletividade. Esta visão se baseia na origem greco-romana de poder, do ideal de democracia onde os cidadãos participam do exercício pleno do direito político. Porém estudos históricos demonstram que o referido ideal de democracia greco-romano possui caráter elitista e discriminador (RUZZA, 2008), visto que, nas cidades gregas, poucos sujeitos eram considerados cidadãos de direito. Não pretendemos dizer que a visão de Arendt não seja possível, até porque na época da revolução francesa, muito se observou sobre uma plena manifestação do povo em seu próprio favor. Mas aqui gostaria de abrir uma reflexão sobre esta perspectiva de poder no contexto brasileiro. Acreditamos que, no Brasil, a ideia de poder emergente do povo é no máximo uma visão romântica. Afirmo isto resgatando alguns fortes indícios de nossa tenra e controversa história enquanto nação. Resgatando diversos eventos históricos no Brasil, apoiado nos escritos de Carvalho (2008), podemos evidenciar estas deficiências, a começar pela forma como fomos colonizados: o objetivo dos nossos colonizadores era extrair as riquezas de nossa terra e destiná-la para outro país. Reflexo este que até hoje perdura, não em formato de colonização, mas de dominação econômica, a qual é maquiada e sofisticada. A própria independência brasileira, que literalmente foi um acordo para inglês ver, consolidado em um tratado de gabinete, sem a participação efetiva do povo demonstra a nossa subserviência histórica, tanto que o resultado de tal independência foi a continuidade de um regime governamental monárquico que perdurou ainda por longos anos. Outro traço que marcou história brasileira foi o latifúndio monocultor e exportador, cuja base produtiva era escravista. A escravidão por si só já elimina o direito de qualquer direito cidadão, ou qualquer manifestação legitimada do povo. O ideal coronelista era tão forte nesses latifúndios que as influencias do estado terminavam na porteira das grandes fazendas (CARVALHO, 2006, p.21). Aos poucos cidadãos livres que existiam nesse período restavam recorrer à proteção dos senhores de engenho ou estariam à mercê dos mais fortes. Aos escravos, cabia a alternativa da fuga para os quilombos que foram severamente combatidos pelo Estado. Os nativos do próprio país muitas vezes não eram privilegiados no exercício do direito civil, muitos pequenos comércios preferiam contratar imigrantes a contratar indivíduos abolidos da escravatura. Pelos menos, alguns destes imigrantes trouxeram um pouco da experiência de outros países europeus na prática de ideias cidadãs. Mesmo assim muitas destas práticas foram distorcidas. O próprio direito ao voto foi modificado diversas vezes 7

8 provocando instabilidade do ideal cidadão. Ora precisava-se comprovar renda, ora precisavase comprovar alfabetização, escravos não votavam, depois passaram a votar, mesmo contexto para as mulheres. As próprias eleições ocorriam sem muito rigor. Muitos eram os que se passavam por outros para votar, a lei do cabresto, da imposição em quem votar, da troca de favores, até hoje assola o exercício de cidadania. O Brasil é marcado por um conjunto de coletivismos estratificados, onde uns preponderam em relação a outros, o que reforça a distância de poder que aqui existe. É bem verdade que tivemos muitas revoltas no país em prol da cidadania, como a inconfidência mineira, a revolta dos alfaiates, a revolta de canudos, dentre outras. Todavia elas não foram suficientes para a legitimação dos direitos reais de cidadania, dentre outro fatores pela limitação dos movimentos em virtude da grande expansão territorial do Brasil. Sendo assim, se não há plena cidadania ou uma luta conjunta em prol dela, não há poder emergente do povo, e sim a utilização da sociedade como massa de manobra em favor de pequenos grupos como corrobora Lukes ao interpretar a visão de poder de Parsons. Como afirmamos no início deste artigo, analisar poder é estudar algo de extrema complexidade em meio as dificuldades de sua natureza. A identificação do poder em um prisma tridimensional possui elevado caráter difuso e profundo. A identificação de um alegado exercício de poder nesta perspectiva deve debruçar-se em uma exaustiva investigação da inação, da inconsciência e das movimentações das coletividades e das instituições. A própria relevância contrafatual (A incide sobre B e B faz o que A deseja sendo que de outra forma B não faria) é difícil de ser entendida a fundo, podendo ser genuinamente implícita. Sabe-se que A afeta B, mas o que faz A afetar B? A resposta pode ser consciente ou até mesmo inconsciente, tornando o terreno ainda mais desafiador de ser explorado. A divergência na coexistência de concepções de mundo distintas para a ação e para o discurso ainda pode ser um fator de impacto sobre o poder de acordo com Gramsci. O povo ainda pode apresentar formas distintas de reação em tempos encarados como normais (inação popular, pouca mobilidade social) e anormais (diminuição da subordinação intelectual com a ausência do poder). Esta distinção nas formas de reação é inclusive a forma de estudo melhor observáveis das influencias da terceira dimensão de poder de acordo com Lukes. Considerei interessante a visão de outro autor que analisa este parâmetro de estudo da terceira dimensão do poder. A terceira dimensão pode ser entendida não apenas pelas movimentações presentes ou futuras de (a)normalidades, cujo fruto é o consenso. Mas também por um profundo resgate 8

9 histórico das movimentações do poder, das discrepâncias entre as visões de mundo, das consequências nas derrotas sistemáticas, na luta social (PERISSINOTTO, 2008). Desta forma, não apenas o presente pode ser estudado de forma a aprofundarmos a influencia tridimensional do poder, as movimentações de outrora também podem oferecer subsídios pertinentes de análise, visto que também são repletos de interações sociais em que interesses distintos estavam em jogo, sendo forte arena potencial para articulações de dominação e manipulação para se alcançar ou para se manter no poder. Nos estudos sobre poder, é prudente antecipar a informação do recorte que sustentará a análise para que não haja falsas pretensões ou mesmo equívocos de entendimento e compreensão. Como não pretendemos correr este risco, nos dispomos a fazer a análise do documentário Muito Além do Cidadão Kane, que já aborda as influências da mídia e o poder no Brasil, e detalha a posição dominante da Rede Globo na sociedade brasileira. Aqui tentamos estabelecer uma relação da dominação da emissora com as dimensões de poder defendidas por Lukes (1980). Debatemos a influência da empresa, seu poder e suas relações políticas, que são entendidas como manipuladoras e formadora de opinião tendenciosa. Apesar dos quase 20 anos de sua exibição por uma emissora pública no Reino Unido, seu conteúdo nos ajuda a entender as dimensões do poder, suas relações e influência sobre os governos e sobre o povo em nosso país que pouco é discutida ou evidenciada, tendo em vista o seu poderio ideológico. 3 DESENVOLVIMENTO DO ESTUDO EMPÍRICO Os recursos audiovisuais são extremamente ricos em informações verbais e nãoverbais passíveis de serem estudadas e analisadas à luz da ciência. Os filmes, documentários, séries, imagens podem ser entendidos, a priori, como representações da realidade. Quanto mais fidedigno a um determinado contexto social for o recurso audiovisual em questão, maior a pertinência de seu pormenorizado estudo e reflexão para as ciências sociais. Esta é uma das peculiaridades dos documentários que visam analisar criticamente um contexto real. E para estudar metodologicamente tal recurso, vejo a observação científica como metodologia pertinente para este feito (ABBAGNANO, 2003 apud LEITE ET AL, 2012). Tal método deve ser utilizado a partir de critérios previamente estabelecidos pelo pesquisador, buscando responder a uma questão formulada a princípio. No caso deste artigo, o objetivo foi o de analisar o poder e suas influências nos três níveis propostos por Lukes a partir do documentário escolhido. Ancoro-me aqui ao desdobramento metodológico da observação 9

10 indireta e não participante. Tal estratégia é considerada por Flick (2004) como observação de segunda mão, por ser oriunda de filmes, sem que tal fato represente restrição metodológica aos pesquisadores/observadores. Analisa-se o filme enquanto uma narrativa discursiva e, nesse sentido, uma análise discursiva crítica (RESENDE e RAMALHO, 2006), buscando ao final sintetizar a narrativa em elementos distintos e vinculando-a as dimensões propostas por Lukes sobre as manifestações do Poder. 3.1 ANÁLISE DO DOCUMENTÁRIO Como já mencionado, o documentário foi exibido em 1994 e reflete a análise do contexto midiático e televisivo de massa da época. Neste tempo, a Rede Globo, apesar de ser menor que três emissoras americanas no cenário global, possuía um poderio muito superior em circunstâncias proporcionais geográficas. Já na década de 1990 suas emissoras e afiliadas cobriam 99,2% do território do país, e sua audiência em rede nacional era cerca de 80%, o que levava a emissora a usufruir de mais de 70% dos recursos federais destinados à mídia nacional. Armando Falcão, ministro da fazenda entre os anos de 1974 a 1979 defendia o monopólio de televisão da rede Globo, dizendo que se existia algum tipo de monopólio, este estaria voltado para o monopólio da competência. Inclusive foi categórico ao afirmar que Roberto Marinho nunca lhe criou qualquer tipo de dificuldade. Em primeiro lugar, qual a ideia de competência que o ex ministro possuía? Mediante o cenário de dominação, podemos apenas conjecturar que sua ideia é de resultado, de audiência, de números. A ideia de competência não se restringe a isso. Não é de nosso intuito tratar desta temática, mas estudos mais profundos sobre competência nunca a limitam a uma única dimensão. Aspectos cognitivos também fazem parte de seu entendimento. Nesse sentido, a ideia de competência exposta pelo documentário não aborda quaisquer qualidades política ou educacional (ZARIFIAN, 2001; BITTENCOURT, 2010). Os resultados da supremacia da Rede Globo de televisão são entendidos pelo documentário como sendo construídos em bases sustentadoras de um ideal que fascina o telespectador brasileiro, mas que é ilusório em sua capacidade criar possibilidades e realidades que dificilmente todos terão acesso a ela. As chamadas da emissora são excessivamente reforçadas por imagens paradisíacas da nação, e pelos jargões e jingles que buscam estabelecer uma identificação genuína com a sociedade: Globo e você, tudo a ver Globo noventa, não tem pra ninguém, é nota cem. Os jargões forçam uma identificação entre a emissora e o telespectador. A ideia de totalidade, de 10

11 domínio e de exclusão são muito significativas nestas frases. Quem não se identifica com ela, é um excluído social, não está integrado ou informado. Aqui temos um dos primeiros indícios da busca pelo senso comum promovido pela emissora. Para entender um pouco mais sobre a emissora, o documentário nos traz a visão que alguns pensadores da época tinham a respeito de seu fundador. As famosas chamadas de final de ano são ainda mais intensas se analisarmos os jargões contemporâneos: Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou. Nesses novos dias as alegrias serão de todos é só querer. Nossos sonhos serão verdade, o futuro já começou. A Globo reforça o seu poder por meio da manipulação dos sonhos brasileiros. Discutiremos mais sobre este ponto ao abordarmos as estratégias de entretenimento e o uso do carnaval a favor do seu poder perante a sociedade. Mas é fato que a Rede Globo se coloca como a frente de seu tempo, estando em situação retrograda aqueles que não a acompanharem. Roberto Marinho presidiu a empresa durante 38 anos ( ) e foi detentor não apenas da emissora, mas também de jornais e rádios de grande circulação e difusão. Brizola o considerava um Stalin das comunicações no país, tal a sua influência: Quem não concorda com ele, ele manda para a Sibéria, a Sibéria do gelo, a Sibéria do esquecimento. Ora, essa expressão do político está diretamente associada aos jargões da emissora (Globo noventa, não tem pra ninguém é nota cem). A Rede Globo passa a ser um instrumento de poder utilizado por Roberto Marinho para seus próprios interesses. O que se tem é um Estado dentro de outro Estado, a visão de Brizola sobre a atuação de Marinho no país reflete a busca pelo consenso político, uma das manifestações do exercício do poder, na visão do político. A comparação à Stalin acaba se dando pela tentativa da emissora de aniquilar queixas contrárias à sua visão, criando uma verdade superior que omite um conflito latente entre os interesses de Marinho e os verdadeiros interesses ocultos e inconscientes dos telespectadores excluídos. Na visão de Chico Buarque, um dos cantores de maior consciência política no Brasil, Roberto Marinho foi mais poderoso que o próprio cidadão Kane iii, sendo detentor de atroz poder político Histórico A Rede Globo começou em 1965 após o golpe militar, obtendo a primeira concessão no governo de Juscelino Kubitschek em 1957, e a segunda do governo João Goulart, que Roberto marinho ajudou a depor. Apesar de se considerar um jornalista, Roberto Marinho era um astuto empresário. Em 1962 Roberto Marinho assinou uma parceria com um grupo 11

12 americano de televisão, recebendo incentivos de mais de seis milhões de dólares para as instalações das emissoras do grupo. Após oito anos de atuação, a rede globo estava fadada a falir devido aos grandes gastos com a manutenção de sua estrutura. Uma grande enchente desastrosa em 1966 ajudou a alavancar os números da Rede Globo visto que fez a cobertura ao vivo nos pontos mais graves. Quando Costa e Silva assumiu a presidência em 1967, começou o breve milagre econômico brasileiro. Uma das célebres frases de seus discursos deprimentes e simplistas foi: Que os ricos sejam mais ricos, para que, graças a eles, os pobres sejam menos pobres. Tal discurso reforça o caráter utilitarista, concentrador e discriminador do capitalismo, onde a menor pobreza é encarada como uma dádiva vinda de uma alta burguesia centralizadora da riqueza. No excêntrico governo de Médici, o slogan torpe Brasil, ame-o ou deixe-o foi levado a ferro e fogo. Em 1970 com a exibição da Copa do Mundo e a vitória da seleção brasileira, o governo encontrou uma forma de explorar ao seu favor tal conquista. Em 1972, ele inaugurou a televisou a cores, uma grande revolução para o sistema televisivo da época, acabando por reforçar a superioridade da Rede Globo, tendo em vista o seu desenvolvimento tecnológico, estabelecendo o padrão Globo de qualidade. Segundo o presidente Médici, todas as noites quando vejo o noticiário, sinto-me feliz, por que? Porque no noticiário da tv Globo o mundo está um caos e o Brasil está em paz. É como tomar um calmante depois de um dia de trabalho (40min50seg) A frase do presidente reforça o poder ideológico da emissora, que consegue inserir nas pessoas a ideia de que o Brasil é um paraíso sem conflitos e sem guerras. Ora, vimos com Lukes (1980) que a ausência explícita de queixas não necessariamente significa harmonia social. Na verdade, o poder exercido é tão profundo que não apenas omite, mas cria uma verdade ilusória que é incorporada pelas pessoas. A frase do presidente apresenta a Rede Globo como uma espécie de redentora para os problemas reais, trazendo à tona um cenário em que os problemas vivenciados no dia a dia não são tão graves quanto os que acontecem ao redor do mundo. Após a ditadura, nos primeiros anos da democracia brasileira, o discurso da emissora era de que muitas das mazelas resultantes das ações governamentais não tinham sido denunciadas em virtude do próprio regime anterior. As eleições em 1989 foram marcadas pelo segundo turno entre Lula e Collor, porém no intuito de eleger Collor, a Rede Globo, que possuía maioria absoluta na audiência, editou o debate de forma a favorecer Collor à presidência do Brasil, concedendo mais tempo ao candidato e podando as falas de lula, a diferença de votos que era de 1% entre os dois candidatos, passou a ser de 4% após a exibição 12

13 da edição do debate. Os funcionários que estavam eram envolvidos com as atividades de edição e que protestaram, foram afastados da empresa. Durante a posse do novo presidente, Roberto Marinho foi em pessoa parabeniza-lo pela vitória, apertos de mão e risos fáceis entre os dois foram apresentados pelo documentário. Muitos aspectos obscuros do governo de Collor em Alagoas não foram exibidos pela emissora, omitindo ao máximo possíveis prejuízos a sua candidatura. A Globo se apresenta como vocacionada a uma atuação governista, e não pretende que a presidência da república seja ocupada por políticos que não coadunam com seus interesses. Após o debate, foi exibido os dados de uma pesquisa telefônica que traziam perguntas vagas sobre o debate, não se perguntava em quem as pessoas iriam voltar, talvez porque a emissora soubesse do favoritismo de lula. A pesquisa trazia critérios que analisavam o debate em si, em todos eles Collor estava à frente de Lula, o que, certamente, levou à grande massa de pessoas que assistiam a repensar sua opção de voto em favor de Collor. Em seguida, um dos principais jornalistas da empresa enfatizou a importância da transparência, do diálogo franco e aberto, do respeito a democracia. Percebe-se aqui o caráter demagogo do jornalismo da emissora que cria uma cortina de fumaça para valorizar uma política distorcida, encarada como verdade pela maioria dos brasileiros. De acordo com Lukes (1980), este poder é sentido em momentos como este, considerados pelo autor como períodos anormais, quando há mobilização ou fragilização do poder estabelecido. Receosa que as eleições pudessem provocar uma reviravolta e que seu candidato perdesse, já que se tratava do governo do país, dos milhares de telespectadores que alimentavam o poderio da emissora, esta, mobilizando o poder que possuía e ainda possui, conseguiu convencer milhares de brasileiros de que a sua verdade é fato sem precisar deixar claro e explicito sua opção eleitoral. Somasse a este caráter outras evidencias explicitas de seu poder, como por exemplo, a não concordância de funcionários, resignados ao sistema por mais de 20 anos, que foram demitidos de seus postos de trabalho por ousarem contrariar o pensamento dominante de Roberto Marinho. A contraprova da edição do debate das eleições e os resultados de demissão evidenciam o poder da rede em níveis profundos Programação O falso otimismo também era exibido no programa Fantástico exibido aos domingos, sendo um dos principais programas da Rede Globo neste dia. Já na abertura do programa, 13

14 mais uma vez, o telespectador é alvejado por explosões de cor, mulheres seminuas, fantasia e belezas naturais paradisíacas. As informações repassadas pelo programa afirmavam o modo de pensar e de fazer pensar condicionado pela emissora. Os demais telejornais da emissora que passam diariamente tratam de matérias curtas e atraentes, enfatizando muito mais aspectos de grandes escândalos de corrupção dificilmente velados, matérias de celebridades nacionais e internacionais como também expressões culturais inofensivas à imagem da emissora. As peculiaridades das riquezas culturais regionais são reduzidas a matérias folclóricas turísticas, algo muito presente na época em que o documentário foi construído, mas que ainda é percebido atualmente. Cidadãos que foram entrevistados no documentário afirmam que o que se passa no jornalismo da emissora é verdade que ela (a Globo) é detentora da informação do mundo inteiro segundo os entrevistados. O elevado índice de audiência da mesma nos revela que a Globo não apenas representa uma verdade, mas a verdade que a grande massa acredita e segue. Isto atribui a Rede Globo um poder ideológico de proporções de alta difusão e alienação, já que existe a legitimidade a favor dela, o que se torna um grande fator de domínio, pois nada impede que a cúpula da emissora distorça certas informações para poder levar vantagem. Ela tanto constrói ídolos como também os destrói pelo poder de convencimento que possui perante o povo. O domínio forja uma imagem de tv impessoal mas que na verdade vela seu posicionamento político de forma que a grande maioria dos brasileiros que assiste a emissora se quer percebe tal tendenciosidade. Sendo assim fica fácil para alguns representantes da emissora afirmaram: É o povo que faz a televisão, é a cabeça do povo que faz a televisão, a televisão no Brasil é um reflexo do próprio povo, o que o povo pensa e quer, porque é uma televisão comercial, e sendo comercial ela precisa ter em primeiro lugar ter rating no ibope iv. Esta frase foi dita por Dias Gomes, um dos mais renomados escritores de novela da emissora. Ora, fica fácil de afirmar que a Globo é a voz do povo quando e ela quem indiretamente sugere a este mesmo povo o que deve assistir, o que deve considerar como certo ou errado. Umas das jornalistas da própria emissora, Beth Costa, que trabalha diretamente na redação construindo as matérias que irão ser exibidas em rede nacional, afirmou que eles apenas recebem as ordens do que deve ser exibido, do que não deve ser e do que deve ser mudado, alterado. Distorcendo o real sentido da matéria a fim de que a mesma se torne mais atrativa para o grande público. Tal desvio do real significado apenas reforça o caráter ilusório da emissora. O abuso não se configura apenas no campo da expressão das ideias transcritas 14

15 nos jornais, mas também na sujeição às imposições de ritmo e de jornada da emissora. Recentemente, em uma das matérias exibidas pelo Esporte Espetacular (programa esportivo apresentado nas manhãs de domingo), a repórter e apresentadora, Glenda Koslovski, emocionada pela homenagem feita ao programa e a ela em especial, atribuiu tal homenagem à equipe que muitas vezes deixava de estar em casa com a família para estar ali, noites e noites para montagem das matérias jornalísticas. Isso demonstra o grau de apropriação do sujeito e do poder de negação do individuo em prol da manutenção da imagem empresa. As novelas são o início da supremacia da rede Globo. Washington Olivetto, especialista em publicidade afirmou no documentário que às vezes tenho a sensação que o Brasil não foi descoberto, ele foi escrito tal é a fascinação que o especialista percebe no comportamento e mobilização social provocada pelas novelas. Considerando as novelas como um dos maiores projetos da Rede Globo, Maria Rita Kehl, historiadora, afirma que: Não se trata de um projeto que esqueceu da pobreza, da periferia; Contemplou. Porque se esquecesse, não daria certo. Contemplou, mas contemplou maquiando a pobreza e apontando uma perspectiva de ascensão pelo trabalho, pelo investimento. É como se o Brasil estivesse tentado viver na forma de farsa o que foi o sucesso mesmo do self-man em outra época do capitalismo (KANE DOCUMENTÁRIO, 38min25seg) A violência e o erotismo eram marcas de seus enredos respectivamente. Algumas destas programações, em virtude de seu sucesso, foram exibidas em mais de cinquenta países. A gente costuma a dizer que o Brasil em determinado momento, apesar da dimensão continental, deixou de falar português, que é a língua dele, para falar TV Globês. (OLIVETTO, 1994 citado por KANE DOCUMENTÁRIO, min49seg). A adaptação da linguagem em tais proporções demonstra a dominação explícita que as novelas da rede globo sobre os indivíduos, criando tendências, jargões e comportamentos que passaram a ser incorporados pelas pessoas. A impressão que eu tenho é que a Globo conseguiu melhor do que qualquer política repressiva, de proibição, de censura, alterar a consciência do brasileiro sobre sua condição. Aqui a historiadora Maria Rita Kehl evidencia o poder profundo que a Rede Globo passa a exercer sobre os sujeitos, a dominação da consciência, mudando a concepção de mundo destes, tornando a sua palavra, verdade que diz e pensa. As reflexões de Lukes (1980) se fazem pertinentes aqui. O poder para o autor se configura em um emaranhado de teias visíveis 15

16 e invisíveis, tecidas cuidadosamente por aqueles que detém a matéria prima, ou seja, os instrumentos de poder. Nesse caso, o controle da mídia de massa promovido pela Emissora é capaz de sugestionar a população de modo a reformar o pensamento dela em prol do interesse de seus dirigentes. Quanto maior o controle, maior o potencial governista, aqui há interesses mútuos entre Governo e Rede Globo que a fazem ter um papel crucial para a mudança ou permanência do poder político em nosso país. A globo não tem necessariamente uma vocação militarista ou ditatorial, mas ela tem uma vocação governista, onde tem governo está a rede globo. Quem saiu do governo já não interessa mais, ela é habilíssima em fazer um casamento de interesse com o governo. E o governo também precisa porque qualquer governo de um mais de 150 milhões de habitantes que tem quase 100 milhões de espectadores precisa de 70% de audiência. (PRIOLLI, Gabriel jornalista, citado em KANE, DOCUMENTÁRIO, min19seg) Não há imposição da Rede Globo, mas dominação pelo fascínio, pela verbalização de que a arte imita a vida, mas que, nas entrelinhas, apresenta o seu real intuito controverso, onde a vida passa a imitar a arte maquiada e distorcida dos sonhos possíveis e alcançáveis. Iludindo milhares de pessoas sobre uma realidade que não é aquela que se vivencia, a Rede Globo passa a incutir nas pessoas que o que se passa na tela da televisão é algo real, tangível e possível, quando na verdade, ela submete as pessoas a uma ilusão com trejeitos de realidade. Uma de suas novelas, exibida no ano de 1991, intitulada Anos Rebeldes, tinha como pano de fundo o contexto da época de 1960 no Brasil, ano em que a ditadura militar dominava o regime político no país. Porém, em nenhum momento se percebe uma retratação fidedigna ao contexto social da época, apenas uma rebeldia romântica era exibida em seus capítulos. Anos mais tarde, foi descoberta uma sepultura coletiva do início da década de 1970 com mais de mil corpos; concluiu-se que se tratava de vítimas dos movimentos contra o regime militar após analisar os corpos de jovens que participaram do movimento e que foram tidos como desaparecidos na época. As novelas das 18h são voltadas para as donas de casa, jovens e crianças. As novelas das 19h são destinadas às pessoas que chegam cansadas do trabalho e não exigem muito do espectador. A novela das 20h é a mais elaborada, suas tramas apresentam temas como traição, manipulação, ambição, subserviência e sensualidade e, normalmente, apresentam índices de audiência mais altos. Nas ultimas semanas de apresentação de uma novela, sobretudo daquela 16

17 das 20h, há uma mobilização nacional impressionante para não perde-la, sobretudo o ultimo episódio. É bem verdade que esta emissora também apresenta em sua grade programas associados à educação. Porém, estes não pertencem ao horário entendido como nobre da televisão, ou estas exibições educativas são exibidas muito cedo, ou muito tarde. A Rede Globo também não fica a desejar no aproveitamento do sonho dos telespectadores. Apesar de não ser foco do estudo do artigo podemos elencar, que na programação atual da rede, muitos são os programas que premiam pessoas de classes sociais de baixo poder aquisitivo com casas, automóveis, cestas básicas, prêmios em dinheiro, etc. benefícios estes concedidos por meio de toda uma construção que resgata o histórico precário do sujeito contemplado, suas frustações sentimentais, a marginalização social, as dificuldades do cotidiano. A chegada da Rede Globo neste ambiente precário transmite ao telespectador uma imagem de redenção atrelada à dádiva concedida. 4. Considerações finais A Rede Globo apresenta diversas manifestações do seu poder na sociedade. A seguir, apresenta-se um quadro demonstrativo de evidências da manifestação do poderio ideológico da empresa nas três dimensões elencadas por Lukes. Visão Unidimensional do Poder Visão Bidimensional do Poder Visão Tridimensional do Poder Quadro 1 Manifestações do poder da emissora Comportamento Linguagem - o discurso superior Crítica (qualificada) do foco comportamental Tomada e não-tomada de decisão A necessidade de consenso Tomada de decisão e controle da agenda política (não apenas por decisões) Discussões e discussões potenciais Interesses subjetivos e reais Propagandas que apresentam consumo elitista (modo de vestir, bebidas, carros); aberturas de programas glamurosas e fantasiosas, exibindo mulheres seminuas e belezas naturais; atitudes dos personagens de novela. As pessoas no Brasil deixaram de falar Português para falar Globês "Globo noventa não tem pra ninguém é nota cem" "O futuro já começou" Roberto Marinho nunca me criou qualquer tipo de problema Quem não concorda com ele, ele manda para a Sibéria, a Sibéria do gelo, a Sibéria do esquecimento O favoritismo das concessões das redes de comunicação Roberto Marinho é uma das formas políticas mais influentes no país, nada se faz sem consultar o Roberto Marinho. É assustador Onde está o governo está a Rede Globo A impressão que eu tenho é que a Globo conseguiu melhor do que qualquer política repressiva, de proibição, de censura, alterar a consciência do brasileiro sobre sua condição. O fascínio a partir da venda do sonho, da possibilidade de melhoria das chances de vida 17

18 Fonte Elaboração própria. Percebe-se que o poder da Rede Globo pode ser percebido nas mais diversas profundidades do prisma do fenômeno. Na dimensão mais aparente, a emissora enfatiza o uso de uma linguagem e do condicionamento do comportamento dos sujeitos por meio de suas novelas e programas de entretenimento. Os jargões da emissora facilmente são memorizados e replicados pelos telespectadores que assistem à rede globo. Em um nível mais interno do poder, permeado pelas criticas qualificadas, ou seja, pelos conflitos encobertos e não aparentes, mas uma vez recorremos aos jargões, mas desta vez, buscando captar o que está oculto e não explícito. Não estar conectado à emissora é estar à margem da informação, da legitimação que a Globo incute na mentalidade dos indivíduos como também dos governos. A emissora busca enfatizar o consenso a partir da determinação de seus valores, a concordância de um imperativo velado v. Fica claro, a partir do documentário, que a Rede Globo possui o perfil governista, da apropriação do sonho dos sujeitos na sociedade para o seu bel prazer. A coisificação do sonho, usado como instrumento de fascínio nos revela o poder não questionado, aceito no inconsciente dos sujeitos que admiram e assistem diariamente aos programas de entretenimento e às noticias televisionadas, as quais são encaradas por muitos como a verdade a ser aceita. A alienação promovida pela emissora passa também a ser imitada enquanto estratégia de audiência pelas outras emissoras que se utilizem de programas e jornais tão ou mais apelativos no sentido de abuso do uso do sonho dos sujeitos. O que mostra que a nossa sociedade ainda apresenta percalços ideológicos, algemas invisíveis que ainda limitam o poder do povo perante o uso deliberado de seus desejos e anseios contra si mesmos. Os canais educativos que porventura estas emissoras disponibilizem ficam limitados a horários de pouca audiência como uma espécie de égide contra analises mais críticas. Porém, é inegável o poder ideológico avassalador de tais emissoras que ainda são consideradas ópio para nossa sociedade, sobretudo, para os menos esclarecidos por vontade ou por condição imposta. Resgatando o objetivo deste artigo, percebe-se o poder avassalador da rede Globo nos três níveis de poder de acordo com Lukes (1980). Na esfera mais superficial do poder estão as expressões comportamentais disseminadas pela emissora: as formas de vestir, de falar e de se portar, as imagens associadas à emissora: a beleza tropical, o avanço tecnológico. Todo um arsenal de simbologias que nos leva a um nível mais interno desta rede nefasta de poder: o controle subjetivo do que está na moda, do que é belo, do que é agradável aos olhos e aos ouvidos, a menção de que a Rede Globo é o futuro, em um esforço não aparente, mas que fica 18

19 nas entrelinhas, de que a empresa é o consenso e que todos os telespectadores devem concordar com ela, não por meios impositivos, mas pelo fascínio, pelo sonho, pela admiração distorcida e velada que a emissora promove aos seus telespectadores. Por fim, no cerne do poder, está o potencial governista que a rede Globo possui perante as forças políticas do país de tal forma que consegue eleger ou mesmo afastar representantes políticos em um cenário que subverte todo o entendimento sobre cidadania, democracia e política. O panorama do poder possuído pela rede Globo nos anos de 1990 ainda está presente nos dias atuais, os discursos ainda se mantêm agradáveis, mas ainda escondem o poder dominador da emissora. Novos estudos aqui podem evidenciar tal poderio que é mas devastador que qualquer armada bélica, pois se dissemina, sem ruído, explosões ou extermínios físicos, o poder de dominar, agindo como um sibilo como uma leve brisa, mas que carrega em si o vírus da subserviência. REFERÊNCIAS BITENCOURT, C. (org). Gestão Contemporânea de Pessoas. P. Alegre: Bookman, BOURDIEU, P. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000 BOSI, A. Dialética da Colonização. São Paulo: Cia das Letras, P Cultura brasileira e culturas brasileiras. CARVALHO, J. M. Cidadania no Brasil. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira DAMATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, FOUCAULT, M. Vigiar e punir. 28. ed. Petrópolis: Vozes, FLICK, W. Uma introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Bookman, KANE, DOCUMENTÁRIO. Muito além do cidadão Kane, título original: beyond citizen kane. título traduzido: muito além do cidadão kane. release: profil. origem/ano: 1994 gênero: documentário. duração: 90 m, 304 mb. direção: Raoul Simon Hartog. LUKES, S. O poder: uma visão radical. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, PERISSINOTTO, R.M. Poder: Imposição ou consenso ilusório? Por um retorno a Max Weber. In: R.F.Nobre (Org.). O poder no pensamento social. BHorizonte: Ed. UFMG, PFEFFER, Jeffrey. Gerir com Poder. Lisboa: Bertrand Editora, 1994 RESENDE, V. M. e RAMALHO, V. Análise de discurso crítica. S.Paulo:Contexto,2006. RUZZA, A. Rousseau e a crítica à representação política. Integração (USJT), São Paulo, p , 01 jul ZARIFIAN, P. Objetivo Competência. São Paulo: Atlas,

20 i Kane foi um personagem criado em outro filme, Citizen Kane, inspirado em William Randolph Hearst, capitalista de grande notoriedade na história da comunicação nos Estados Unidos. ii Por behaviorismo se entende o estudo comportamental nas organizações, no caso da temática aqui trabalhada, as manifestações observáveis do poder por meio das atitudes demonstradas pelos sujeitos. iii Kane faz menção a um ícone da imprensa americana, de garoto pobre no interior a magnata de um império dos meios de comunicação. Inspirado na vida do milionário William Randolph Hearst. iv No Brasil o Ibope foi a primeira empresa a apresentar índices de audiência na televisão, um ibope alto significa um programa assistido por milhares de pessoas, enquanto um ibope baixo significa poucas pessoas assistindo ao programa em exibição. v Segundo o documentário, a própria concessão das redes de comunicação pelo governo denuncia o poderio oculto da rede globo. 20

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