UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO MESTRADO EM COMUNICAÇÃO A representação das identidades homossexuais nas telenovelas da Rede Globo: uma leitura dos personagens protagonistas no período da censura militar à televisão Juiz de Fora Março de 2012

2 Guilherme Moreira Fernandes A representação das identidades homossexuais nas telenovelas da Rede Globo: uma leitura dos personagens protagonistas no período da censura militar à televisão. Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação em Comunicação, área de concentração: Comunicação e Sociedade; linha de pesquisa: Comunicação e Identidades, da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Comunicação. Orientadora: Profª. Drª. Maria Cristina Brandão de Faria Juiz de Fora Março de 2012

3 Fernandes, Guilherme Moreira. A representação das identidades homossexuais nas telenovelas da Rede Globo: uma leitura dos personagens protagonistas no período da censura militar à televisão / Guilherme Moreira Fernandes f. : il. Dissertação (Mestrado em Comunicação)-Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, Telenovela. 2. Homossexualidade. 3. Identidade. 4. Televisão. 5. Censura. I. Título.

4 Guilherme Moreira Fernandes A representação das identidades homossexuais nas telenovelas da Rede Globo: uma leitura dos personagens protagonistas no período da censura militar à televisão. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Comunicação, área de concentração: Comunicação e Sociedade; linha de pesquisa: Comunicação e Identidades, da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Comunicação. Orientadora: Profª. Drª. Maria Cristina Brandão de Faria Dissertação aprovada em 28/03/2012 pela banca composta pelos seguintes membros: Profª. Drª. Maria Cristina Brandão de Faria Orientadora Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF Prof. Dr. Aluizio Ramos Trinta Convidado Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF Profª. Drª. Maria Immacolata Vassallo de Lopes Convidada Universidade de São Paulo - USP Conceito Obtido:

5 Dedico esta dissertação a quatro mulheres importantes na minha vida e que, infelizmente, não estão mais entre nós: À minha avó Dorinha Stopato; À minha avó Maria Umbelino; À minha tia Norma Fernandes; À minha professora e amiga Nelma Fróes.

6 AGRADECIMENTOS Esse trabalho não seria o mesmo se não fosse a ajuda e empenho de algumas pessoas que gostaria de agradecer. Primeiramente, agradeço os meus familiares, especialmente minha mãe, Maria de Fátima Moreira; meu pai, Etelvino de Oliveira Fernandes; minhas irmãs Ana Cristina, Fernanda e Andressa; e a minha madrinha Leninha Fernandes. Também não posso deixar de agradecer meus tios, tias, primos e sobrinhos, especialmente as sempre presentes Tia Carmem, Tia Rita e Tia Ana; minha avó Terezinha e meu bisavô Geraldo. Agradeço especialmente minha orientadora, Maria Cristina Brandão de Faria, pela amizade, confiança e por me convidar para do grupo Obitel. Tenho certeza que vivemos bons momentos durante esses dois anos. À Ana Brandão, secretária do PPGCOM e nossa super mãe. Agradeço aos professores da Facom-UFJF, pelos conselhos e confiança no meu trabalho, em especial: Aluizio Trinta, Christina Musse, Wedencley Alves, Iluska Coutinho, Paulo Roberto Leal, Boanerges Lopes, Marise Mendes e Cláudia Lahni. Agradeço também a todos os professores que fizeram parte de minha vida desde minha primeira infância. Agradeço aos amigos (presenciais e virtuais) que se dispuseram a discutir comigo, emprestar material e me ajudar nos momentos de estresse: Fulvio Flores, Patrícia Mendes, Claiton Cesarewski, Rogério Terra, Álvaro Nunes, Claudinha Figueiredo, Flávio Lins, Evandro Medeiros, Flávia Crizanto, Marise Baesso, Sílvia Gomide, Adriana Agostini, Raphael Carvalho, Rafael Grohmann, Francislene de Paula, Marcello Machado, Thais Torres, Diogo Mendes, Paulinho Jones, Arthur Ovidio, Sabina Anzuategui, Guilherme Salviano, Abraão Gouvêa, Donizetti Teixeira, Fábio Durso, Cibele Carneiro, Meire Vieira, Dircimar Carneiro, Aparecida Firmo, Sérgio Benatti, Alexandre Serpa, Durval Teixeira, Diego Noronha, Camila Silva, Eduardo Mendes, Fábio Costa (e demais membros da comunidade Teledramaturgia do Orkut); E, especialmente, André Tavares, Alan Rodrigues e Maria José Oliveira. Agradeço a confiança e paciência dos meus alunos de Pesquisa em Comunicação e Teledramaturgia; à época de meu Estágio Docência. Aos amigos da Rede Folkcom e do Obitel. Ao Centro de Estudos de Telenovela (CETVN) da ECA-USP; em especial as professoras Maria Immacolata Vassallo de Lopes e Maria Cristina Palma Mungioli. À Rede Globo de Televisão, em especial ao Globo Universidade (GU) e o Centro de Documentação (Cedoc), pelo amplo apoio a esta pesquisa; especialmente a atenção recebida por Viviane Tanner (GU), Laura Martins (Cedoc) e suas equipes. À CAPES e a PROPG pela concessão da bolsa de pesquisa.

7 And now the end is near So I face the final curtain My friend, I'll say it clear I'll state my case of which I'm certain I've lived a life that's full I've traveled each and every highway And more, much more than this I did it my way Regrets, I've had a few But then again, too few to mention I did what I had to do And saw it through without exception I planned each charted course Each careful step along the byway Oh, and more, much more than this I did it my way Yes, there were times, I'm sure you knew When I bit off more than I could chew But through it all when there was doubt I ate it up and spit it out I faced it all and I stood tall And did it my way I've loved, I've laughed and cried I've had my fails, my share of losing And now as tears subside I find it all so amusing To think I did all that And may I say, not in a shy way Oh, no, no not me I did it my way For what is a man, what has he got If not himself, then he has not To say the words he truly feels And not the words of one who kneels The record shows I took the blows And did it my way The record shows I took the blows And did it my way (MY WAY - PAUL ANKA)

8 RESUMO Nossa dissertação parte dos conceitos de identidade cultural na contemporaneidade à luz de autores filiados aos Estudos Culturais, ao Interacionismo Simbólico e ao Pós-estruturalismo. A partir das conceituações de identidades, passamos a discutir as identidades de orientação sexual e de gênero. Também observamos a narrativa da telenovela como forma de revelar a nação em uma época marcada pela censura federal à televisão. No processo construtivo da narrativa daremos ênfase aos personagens homossexuais nas telenovelas da Rede Globo, protagonistas de histórias escritas em pleno controle oficial da censura, mas que, de certa forma, abordaram ora timidamente, ora com mais contundência a homossexualidade de personagens centrais dessas tramas. Nosso recorte temático versou os protagonistas homossexuais desta época, assim analisamos com profundidade, de acordo com as premissas da Análise de Conteúdo de Laurence Bardin, três telenovelas. A primeira, O Rebu, de Bráulio Pedroso, exibida em 1974, narrou a festa oferecida por Conrad Mahler para recepcionar uma princesa italiana. Durante a festa, um crime é cometido pelo próprio anfitrião, sendo uma relação homoafetiva um dos motivos do assassinato. Ainda em O Rebu, Roberta e Glorinha abandonam seus respectivos maridos e passam a viver juntas. A telenovela seguinte, Os Gigantes, de Lauro César Muniz, 1979, narra a história de Paloma Gurgel, uma mulher livre, a frente do seu tempo, que se permitia inclusive uma relação com outra mulher. Por fim, em Brilhante de Gilberto Braga (1981), acompanhamos os dilemas de Inácio, um homossexual que sofreu para ser aceito por sua família. Concluímos a importância das telenovelas mostrarem personagens LGBTs em um período onde à censura inibia a sociedade de debater, em esfera pública, essa possibilidade de cidadania. PALAVRAS-CHAVE: Telenovela; Homossexualidade; Identidade; Televisão; Censura.

9 ABSTRACT This master s thesis is based on the concepts of cultural identity in contemporaneity in the light of authors linked to Cultural Studies, Symbolic Interactionism and Post-Structuralism. We first focus on identity concepts and after discuss sexual orientation and gender identities. We also observe the soap opera narrative as a form of revealing the nation in a time marked by federal censorship on television. In the constructive process of the narrative we will emphasize the homosexual characters in Rede Globo s telenovelas, protagonists of stories written under the official control of censorship, but that in a way approached sometimes timidly, sometimes more incisively the homosexuality of main characters of these plots. Our thematic focus is on the homosexual characters of this period, so we have analyzed three telenovelas in accordance with the premises of the Content Analysis by Laurence Bardin. The first telenovela is O Rebu, by Bráulio Pedroso, aired in 1974, which presented the story of a party offered by Conrad Mahler to entertain an Italian princess. During the party, the host commits a crime, being a homoaffective relationship one of the reasons of the murder. In this telenovela, Roberta and Glorinha leave their husbands and move together. The second one is Os Gigantes, by Lauro César Muniz, aired in 1979, in which Paloma Gurgel, a free woman ahead of her time takes the liberty of relating herself to another woman. The third one is Brilhante, by Gilberto Braga, aired in In this telenovela we follow the predicaments of Inácio, a homosexual who suffers to be accepted by his family. We argue for the importance of telenovelas showing LGBT characters in a period in which censorship repressed society from publicly debating this possibility of citizenship. KEYWORDS: Telenovela; Homosexuality; Identity; Television; Censorship.

10 SUMÁRIO INTRODUÇÃO TELENOVELA E HOMOSSEXUALIDADE: O QUE DIZEM AS PESQUISAS JÁ REALIZADAS IDENTIDADES E SEXUALIDADES: A PERSPECTIVA CONTEMPORÂNEA O DEBATE CONTEMPORÂNEO SOBRE AS IDENTIDADES IDENTIDADES HOMOSSEXUAIS: HISTÓRIAS E CONTEMPORANEIDADES Identidades de Gênero: de Scott à Butler BREVE HISTÓRIA DO MOVIMENTO HOMOSSEXUAL MINORIAS E HOMOSSEXUALIDADE TEORIA QUEER E TRANSGRESSÃO IDENTITÁRIA A estética camp Diálogos possíveis: Teoria Queer e Estudos Culturais TELENOVELA, CIDADANIA E REPRESENTAÇÃO IDENTITÁRIAS BREVE HISTÓRIA DA TELEFICÇÃO NO BRASIL A HOMOSSEXUALIDADE NO TELETEATRO BRASILEIRO 122

11 3.3 CIDADANIAS, IDENTIDADES E PROJEÇÕES NA TELENOVELA A TELENOVELA NARRANDO A NAÇÃO: DENTRO E FORA DA ESFERA PÚBLICA A CENSURA DURANTE O REGIME MILITAR E A REPRESENTAÇÃO DAS IDENTIDADES HOMOSSEXUAIS NAS TELENOVELAS A CENSURA MILITAR E A TELEDRAMATURGIA BRASILEIRA A TRAJETÓRIA DOS PERSONAGENS HOMOSSEXUAIS NO CONTEXTO DA CENSURA MILITAR Assim na terra como no céu O Grito O astro Dancin Days Marron Glacé Ciranda de pedra Partido Alto UMA PROPOSTA DE ANÁLISE TELEFICCIONAL A ANÁLISE DE CONTEÚDO SEGUNDO BARDIN CATEGORIAS TEMÁTICAS DA NOSSA ANÁLISE DE CONTEÚDO Manifestação de amor e afetividade homoconjugal Processo de coming out e a narrativa da revelação Família (como a família lida com a orientação homossexual) A homossexualidade vista por outros personagens fora do núcleo 215

12 familiar Relacionamentos heterossexuais que perturbam à ordem do romance homossexual; O Happy end (a narrativa dos felizes para sempre); Destaque da telenovela como foi a representação da homossexualidade e o que a distingue das outras tramas A OUSADIA TEMÁTICA EM O REBU DE BRÁULIO PEDROSO CONRAD MAHER: O OTELO REPRESENTADO POR ZIEMBINSKI Manifestação de amor e afetividade homoconjugal Relacionamentos heterossexuais que perturbam a ordem do romance homossexual ROBERTA E GLORINHA: MUITO MAIS DO QUE BOAS AMIGAS Manifestação de amor e afetividade homoconjugal; Processo de coming out e a narrativa da revelação A homossexualidade vista por outros personagens fora do núcleo 250 familiar O Happy end (a narrativa dos felizes para sempre) DESTAQUE DA TELENOVELA COMO FOI A REPRESENTAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE E O QUE A DISTINGUE DAS OUTRAS TRAMAS A TENTATIVA EM OS GIGANTES DE LAURO CÉSAR MUNIZ A HOMOSSEXUALIDADE NA TRAMA Manifestação de amor e afetividade homoconjugal DESTAQUE DA TELENOVELA COMO FOI A REPRESENTAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE E O QUE A DISTINGUE DAS OUTRAS TRAMAS 275

13 8. A HISTÓRIA BRILHANTE DE GILBERTO BRAGA A HOMOSSEXUALIDADE NA TRAMA Manifestação de amor e afetividade homoconjugal; Família (como a família lida com a orientação homossexual) A homossexualidade vista por outros personagens fora do núcleo familiar Relacionamentos heterossexuais que perturbam à ordem do romance homossexual O Happy end (a narrativa dos felizes para sempre) DESTAQUE DA TELENOVELA COMO FOI A REPRESENTAÇÃO DA HOMOSSEXUALIDADE E O QUE A DISTINGUE DAS OUTRAS TRAMAS 324 CONCLUSÃO 330 FONTES DE PESQUISA 337 FONTES PRIMÁRIAS 337 FONTES JORNALÍSTICAS E DE DEPOIMENTOS 338 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 341 ANEXOS 352

14 12 INTRODUÇÃO Em fevereiro de 1952 foi ao ar, pela TV Tupi de São Paulo, o último capítulo da primeira telenovela brasileira, Sua Vida me Pertence, de Walter Forster. Sessenta anos depois, redigi uma dissertação de mestrado sobre o tema. Uma homenagem à telenovela brasileira, este foi um dos meus objetivos ao escrever estas páginas. A telenovela brasileira lança modas, costumes e hábitos. Suas histórias encantam e já encantaram muitos brasileiros, que se viram representados nos diversos plots 1 criados pelos autores. As histórias e as representações foram muitas. Desta forma, foi necessário criar um recorte do público representado e, também, do período, para a realização desta homenagem. Desde que acompanhei, assim como milhares de brasileiros, o desfecho do personagem Júnior (Bruno Gagliasso) da telenovela América de Glória Perez, em 2005, me perguntei sobre a trajetória dos personagens homossexuais na televisão brasileira. Naquela época, o comentário da impressa era que seria exibido o primeiro beijo homossexual da TV no Brasil. Infelizmente, naquela telenovela, apesar de a autora ter afirmado a gravação da cena, ela não foi exibida. Nossas pesquisas nos levaram a duas constatações. A primeira delas é que aquele não foi e nem seria o primeiro beijo homossexual da televisão, pois ele já havia acontecido no teleteatro nos idos de 1963, entre as atrizes Vida Alves e Geórgia Gomide. A Rede Manchete, em 1990, também mostrou um beijo entre dois homens na minissérie Mãe de Santo, entre os personagens Rafael (Rai Alves) e Lúcio (Thiago Justino), dois jovens universitários, que se 1 Em linguagem televisual, o termo plot é usado como sinônimo de enredo, trama ou fábula: uma cadeia de acontecimentos, organizada segundo um modo dramático, escolhido pelo autor. (CAMPEDELLI, 2001, p. 92).

15 13 conheceram na Bahia. A segunda constatação é que, ao contrário da nossa crença até então, um beijo homoafetivo não é a representação mais importante das identidades homossexuais. O público que gostaríamos de retratar nas telenovelas já estava escolhido: os homossexuais. Faltava ainda um norte para a pesquisa. O primeiro que estabelecemos foi o de trabalhar com as telenovelas da Rede Globo, a principal produtora desse gênero no Brasil e uma das principais do mundo. Parte dessa pesquisa, desenvolvemos durante nossa monografia de conclusão de curso em Comunicação Social, porém, estávamos mais preocupados com a pesquisa de recepção. À época, aplicamos uma pesquisa de opinião e realizamos um grupo focal, com cenas das telenovelas globais a partir de (FERNANDES, 2009a). Nosso projeto de mestrado também visava dar continuidade aos estudos de recepção, contudo, a partir de leituras de teses e dissertações que abordavam a homossexualidade nas telenovelas percebemos uma carência de informações sobre a trajetória dos personagens homossexuais nas telenovelas brasileiras. A partir desse ponto, foi esta trajetória e as formas de representação LGBT 2 (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais) nosso problema de pesquisa. Não encontramos praticamente nenhuma referência sobre as telenovelas globais da década de 1970 e Sabíamos da existência de personagens LGBT, mas não tínhamos dados concretos do enredo. Foi então que decidimos submeter nosso projeto de pesquisa do projeto Globo Universidade (GU) das Organizações Globo. Com o aceite do projeto, tivemos 2 Em 2008 realizou-se, em Brasília, uma Conferência Nacional GLBT inédita, com o objetivo de elaborar propostas para o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT. A denominação LGBT aqui usada segue a fórmula aprovada nessa Conferência, referindo-se a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Antes disso, o XII Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas e Transgêneros, de 2005, incluiu oficialmente o B de bissexuais e convencionou que o T referia-se a travestis, transexuais e transgêneros. Embora, com a deliberação da I Conferência Nacional, a sigla LGBT venha predominando nos meios ativistas, ela eventualmente assume outras variantes, que inverte a ordem das letras (colocando o T à frente do B ), duplicam o T (para distinguir entre travestis e transexuais, por exemplo) [em alguns casos também há triplicação do T, para além de travestis e transexuais; distingui-los dos transgêneros] ou acrescentam novas letras que remetem a outras identidades (como I de intersexual e/ou Q de queer ). (adaptado de SIMÕES e FACCHINI, 2009, p. 15). Os significados das letras vão ser expostos no segundo capítulo.

16 14 acesso aos scripts com todos os capítulos das telenovelas que iríamos estudar. Fomos duas vezes ao Cedoc (Centro de Documentação da Rede Globo) fazer a leitura. Tíamos um universo muito grande de informações e um tempo relativamente escasso para concluir o mestrado. Desta forma, tivemos que realizar um recorte temporal, já que não havia como retratar toda a trajetória dos personagens homossexuais. Foi então que privilegiamos o período mais carente de informações sobre esses personagens: o da censura militar à televisão. Não objetivamos reconstruir historiograficamente esse período. Faremos apenas alguns apontamentos sobre os generais-presidentes e focaremos a prática da censura. Notamos que este é outro tema muito carente de estudos em nível stricto sensu. Encontramos pouquíssimos materiais que versassem especificamente sobre a censura às telenovelas. Desta forma, a história nos foi contada pelos autores, diretores e produtores. Foram as experiências que eles viveram sob a censura que nos serviram de base teórica. Como forma metodológica, exploramos o material empírico (os scripts de telenovelas), juntamos críticas de jornais e revista sobre as tramas e anotamos os principais diálogos dos personagens homossexuais nessas tramas. Como o material e as formas de abordá-lo seriam múltiplas, optamos por trabalhar em profundidade as novelas que apresentavam o homossexual como parte do núcleo dos protagonistas, em que sua homossexualidade, de certa forma, ocupava grande importância narrativa. Para essas telenovelas a saber: O Rebu (1974, de Bráulio Pedroso), Os Gigantes (1979, de Lauro César Muniz) e Brilhante (1981, de Gilberto Braga) utilizamos a técnica da análise categorial de conteúdo, concebida por Laurence Bardin. Esse caminho metolodógico foi escolhido por acreditarmos que seria o que melhor nos permitiria explorar, em profundidade, o material. Desta forma, juntamos o material que colhemos no Cedoc e o dividimos em categorias temáticas; englobando, assim,

17 15 todo o enredo do universo homoafetivo dessas três telenovelas analisadas em capítulos separados. As demais telenovelas com personagens homossexuais no período da censura militar à televisão foram estudas de forma exploratória, apenas apresentando os personagens homossexuais. Não utilizamos nosso protocolo metodológico para estudá-las, apenas descrevemos como foi a representação da homossexualidade. Além da Análise de Conteúdo, utilizamos a pesquisa bibliográfica para realizar essa pesquisa. Recorremos, também, às pesquisas stricto sensu para nos revelar o estado da arte, ou melhor, a ciência constituída, sobre os objetos telenovela e homossexualidade. As pesquisas de mestrado e doutorado que versaram a homossexualidade nas telenovelas fazem parte do nosso primeiro capítulo. Encontramos oito dissertações de mestrado (TREVIZANI, 2002; MARQUES, 2003; PERET, 2005; TONON, 2005; GOMIDE, 2006; LIMA, 2007; SOARES, 2009; e TRINDADE, 2010) e uma tese de doutorado (BORGES, 2008). Procuramos neste capítulo justificar o período histórico que vamos trabalhar. O segundo capítulo vai estabelecer as concepções contemporâneas das identidades, à luz de distintas correntes, como os Estudos Culturais, o Interacionismo Simbólico e os estudos Pós-estruturalistas. Ainda neste capítulo, serão explanadas algumas considerações sobre o que poderia ser chamado de identidade homossexual e identidade de gênero, levando em conta que tais conceitos não são fechados e por vezes são ambíguos. Orientação sexual não define uma identidade de gênero. O tópico traz ainda as ideias da teórica feminista Judith Butler, que radicalizou as propostas históricas e concebeu o gênero como um ato performático. Com Butler, veio a teoria queer, que propõe a acabar com os modelos normalizadores e binários. O conhecimento da teoria queer direcionou nossos olhares para outras questões. Acreditamos que a reflexão

18 16 sobre as identidades e o discurso que cada pessoa faz de si próprio seja fundamental para entender a representação no âmbito da telenovela. O capítulo seguinte trata da história da telenovela, passando pelas suas origens: o folhetim, o melodrama, as soap operas norte-americanas e as radionovelas cubanas. Nele também se busca retratar a experiência de personagens homossexuais no teleteatro brasileiro, tanto o paulista como o carioca. Para tal, comentaremos as peças Calúnia, Entre Quatro Paredes e O Caso Maurizius. O capítulo mostra ainda a telenovela como espaço para projeção de identidades e como recurso narrativo, utilizando as concepções dos professores Aluizio Ramos Trinta e Maria Immacolata Vassallo de Lopes. Em seguida, no quarto capítulo, vamos retratar a história da censura às telenovelas e a trajetória dos personagens homossexuais nas tramas globais de sete telenovelas no período histórico de 1964 a 1985: Assim na Terra como no Céu (1970 Dias Gomes); O Grito (1975 Jorge Andrade); O Astro (1977 Janete Clair); Dancin Days (1978 Gilberto Braga); Marron Glacé (1979 Cassiano Gabus Mendes); Ciranda de Pedra (1981 Teixeira Filho); e Partido Alto (1984 Glória Perez e Aguinaldo Silva). O capítulo seguinte vai mostrar nossas premissas metodológicas. Nele, definimos por trabalhar com a Análise de Conteúdo sistematizada por Laurence Bardin e elencamos as sete categorias temáticas que serão utilizadas para analisar em profundidade três telenovelas escolhidas: O Rebu, Os Gigantes e Brilhante. A escolha do uso da Análise de Conteúdo de Bardin se justifica por acreditarmos que é a técnica de pesquisa que melhor nos daria um panorama temático ao se preocupar com a análise da mensagem cumprindo critérios de sistematicidade e confiabilidade. Utilizamos as palavras do professor Wilson Corrêa da Fonseca Júnior (2006) para defendermos esta escolha metodológica: No contexto dos métodos de pesquisa em comunicação de massa, a análise de conteúdo ocupa-se basicamente com a análise de mensagens, o mesmo ocorrendo com a análise semiológica ou análise de discurso. As principais diferenças entre essas modalidades são que apenas a análise de conteúdo cumpre com os requisitos de sistematicidade e confiabilidade. (FONSECA JÚNIOR, 2006, p. 286).

19 17 E ainda a perspectiva de José Carlos Lozano A análise de conteúdo é sistemática porque se baseia num conjunto de procedimentos que se aplicam da mesma forma a todo o conteúdo analisável. É também confiável ou objetiva porque permite que diferentes pessoas, aplicando em separado as mesmas categorias à mesma amostra de mensagens, possam chegar às mesmas conclusões. (LOZANO, 1994, p ; apud FONSECA JÚNIOR, 2006, p. 286). Os capítulos que seguem (sexto, sétimo e oitavo) serão dedicados às análises dos personagens protagonistas nessas três telenovelas. No capítulo de O Rebu abordamos o triângulo amoroso formado por Mahler (Ziembinski), Cauê (Buza Ferraz) e Sílvia (Bete Mentes). Nessa mesma trama, também encontramos o casal Roberta (Regina Viana) e Glorinha (Isabel Ribeiro) que, mesmo não sendo os protagonistas da narrativa (papel que coube a Mahler, Sílvia e também a Boneco [Lima Duarte]), são importantes personagens para o desenrolar da narrativa. O capítulo de Os Gigantes vai destacar a liberal Paloma (Dina Sfat), uma mulher livre, a frente de seu tempo, capaz de tudo, até de uma relação amorosa com Renata (Lídia Brondi). O affair das duas ficou só na insinuação. Mas, a bissexualidade de Paloma era uma marca identitária. Por fim, em Brilhante o destaque caberá a Inácio (Dennis Carvalho) e seu sofrimento para ser aceito pelos pais, que queriam arranjar-lhe um casamento, acreditando ser a felicidade do filho. O capítulo realça ainda as figuras de Luísa (Vera Fisher), a amiga fiel; Sérgio (João Paulo Adour) e Cláudio (Buza Ferraz), parceiros homoafetivos de Inácio; e de Leonor (Renata Sorrah), sua esposa de fachada. Especialmente nesses capítulos de análises (como também estiveram presentes no quarto capítulo), inserimos uma série de diálogos dos personagens envolvidos com a orientação homossexual. Poderíamos ter apenas descrito, com nossas palavras, algumas cenas. Porém, como parte dessa homenagem, preferimos reproduzir os diálogos na íntegra. Assim como nas telenovelas, cada um dos capítulos dessa dissertação vai iniciar-se com a letra de uma música que reproduza o espírito do mesmo, é a nossa trilha sonora.

20 18 Não se afobe, não Que nada é pra já O amor não tem pressa Ele pode esperar em silêncio Num fundo de armário Na posta-restante Milênios, milênios No ar E quem sabe, então O Rio será Alguma cidade submersa Os escafandristas virão Explorar sua casa Seu quarto, suas coisas Sua alma, desvãos Sábios em vão Tentarão decifrar O eco de antigas palavras Fragmentos de cartas, poemas Mentiras, retratos Vestígios de estranha civilização Não se afobe, não Que nada é pra já Amores serão sempre amáveis Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber Com o amor que eu um dia Deixei pra você (Chico Buarque) FUTUROS AMANTES Com GAL COSTA

21 19 1. TELENOVELA E HOMOSSEXUALIDADE: O QUE DIZEM AS PESQUISAS JÁ REALIZADAS Este capítulo tem a finalidade de apresentar as pesquisas, em nível stricto sensu, que tinham como problema a relação da homossexualidade com a telenovela brasileira 3. Desta forma, não consideramos outros formatos ficcionais brasileiros ou estrangeiros. É justamente por meio do diagnóstico das pesquisas já realizadas nos programas de pós-graduação que nos propusemos a tratar, especificamente, da trajetória dos personagens homossexuais nas telenovelas no período da Ditadura Militar no Brasil, já que esse período, marcado pela forte censura federal, a nosso ver ainda não havia recebido devida atenção das pesquisas acadêmicas. Registros do Centro de Estudos de Telenovela (CETVN) da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) apontam a pesquisa O estereótipo visual da telenovela como instrumento de educação permanente de João Luís Van Tilburg (1975) como a primeira dissertação de mestrado sobre telenovela. No que diz respeito à pesquisa de doutorado, consta o trabalho de Mauro Wilton de Sousa (1986) A rosa púrpura de cada dia: trajetória de vida e cotidiano de receptores de telenovela como a primeira tese nesse campo de estudos. Em relação à homossexualidade, o primeiro estudo acadêmico, no Brasil, é a monografia de especialização de José Fábio Barbosa Filho, intitulada Homossexualismo em São Paulo: estudo de um grupo minoritário escrito em 1958, defendido em 1960 e publicado somente em O trabalho foi orientado por Florestan Fernandes e contou com Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni na banca na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 3 Existem diversos outras pesquisas que não mencionamos aqui e que têm como objeto de estudo a homossexualidade nas telenovelas. Destacamos o trabalho desenvolvido pelo grupo CUS sob a coordenação do Prof. Dr. Leandro Colling. Para acesso aos textos, consultar: 4 Ver GREEN e TRINDADE (orgs.), 2005.

22 20 Todavia, a união desses dois objetos de estudos (homossexualidade e telenovela) é recente. Com base nos arquivos do CETVN e em pesquisas nos sites do Domínio Público 5 e da Capes 6 encontramos apenas oito dissertações e uma tese que focam especificamente os personagens homossexuais em telenovelas brasileiras. Localizamos outros trabalhos que também se dedicam a este tema, porém com um corpus de pesquisa maior, ou seja, trabalham com outros programas de TV, como humorísticos, seriados, entre outros. Desta forma, vamos refletir sobre os resultados desses trabalhos acadêmicos fazendo um cotejamento sobre eles e a nossa pesquisa, semelhanças e diferenças. O primeiro trabalho que encontramos foi a dissertação de William Caldas Trevizani, orientada por Elizabeth Gonçalves, defendida em 2002 no Programa de Pós- Graduação em Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo. Intitulada O discurso da telenovela sobre a homossexualidade, a pesquisa de Trevizani foca, sobretudo, a telenovela Roda da Vida (2001) de Solange Castro Neves, exibida às 20h pela Rede Record. Nas palavras do pesquisador, sua dissertação busca investigar como a telenovela transforma em linguagem televisiva o discurso sobre a homossexualidade oferecido pela ciência e até que ponto esse discurso é realmente transmitido para o telespectador (TREVIZANI, 2002, p. 11). A escolha da trama da Rede Record é justificada porque à época do início da pesquisa, era a única que apresentou um homossexual entre seus personagens (TREVIZANI, 2002, p. 89). O foco do autor foi perceber as ferramentas das linguagens televisiva e de telenovela usadas para a simulação do real, para traduzir o discurso científico de forma a ser aceito como natural pelo espectador. Trevizani utilizou a metodologia da pesquisa descritiva, colhendo os dados com observação direta (gravação dos capítulos da telenovela e entrevista com a autora e os dois colaboradores) e indireta (referências teóricas). 5 Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/pesquisaperiodicoform.jsp>. Pesquisa realizada em setembro de Disponível em: <http://capesdw.capes.gov.br/capesdw/teses.do>. Pesquisa realizada em setembro de 2011.

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