JOSÉ MARCOS PRENAZZI

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1 JOSÉ MARCOS PRENAZZI A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES BRASILEIRAS NA TV: ANÁLISE DE REPRESENTAÇÕES VEICULADAS NO QUADRO ME LEVA BRASIL E NA SÉRIE BRASILEIROS, DA REDE GLOBO DE TELEVISÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LETRAS: TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA Outubro de 2012

2 JOSÉ MARCOS PRENAZZI A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES BRASILEIRAS NA TV: ANÁLISE DE REPRESENTAÇÕES VEICULADAS NO QUADRO ME LEVA BRASIL E NA SÉRIE BRASILEIROS, DA REDE GLOBO DE TELEVISÃO Dissertação apresentada ao Programa de Mestrado em Letras da Universidade Federal de São João del-rei, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Letras. Área de Concentração: Teoria Literária e Crítica da Cultura Linha de Pesquisa: Discurso e Representação Social Orientador: Guilherme Jorge de Rezende PROGRAMA DE MESTRADO EM LETRAS: TEORIA LITERÁRIA E CRÍTICA DA CULTURA Outubro de 2012

3 JOSÉ MARCOS PRENAZZI A CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES BRASILEIRAS NA TV: ANÁLISE DE REPRESENTAÇÕES VEICULADAS NO QUADRO ME LEVA BRASIL E NA SÉRIE BRASILEIROS, DA REDE GLOBO DE TELEVISÃO Banca Examinadora: Prof. Dr. Guilherme Jorge de Rezende UFSJ Orientador Profa. Dra. Iluska Maria da Silva Coutinho UFJF Prof. Dr. Antônio Luiz Assunção UFSJ Profa. Dra. Eliana da Conceição Tolentino Coordenadora do Programa de Mestrado em Letras São João del-rei, de de 2012

4 Aos meus pais, Arlindo e Lígia, por me mostrarem, cada um a seu modo, a poesia que há na vida. Por investirem em minha formação e por serem, para mim, exemplos de amor, humildade e perseverança.

5 AGRADECIMENTOS À UFSJ e à agência financiadora Reuni, pelo subsídio concedido a esta pesquisa. À Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais, pelo afastamento de minhas atividades profissionais, concedido para a realização deste trabalho. Ao meu orientador, Guilherme Jorge de Rezende, que sempre me incentivou a fazer o mestrado. Pela sua sabedoria e tranquilidade, por compartilhar comigo seus conhecimentos e, no momento em que as reflexões beiravam o devaneio, por me puxar para o centro das questões, com a sua objetividade e clareza de jornalista. Aos professores do Promel, que contribuíram de forma direta para o meu desenvolvimento acadêmico, em especial à professora Eliana da Conceição Tolentino, que além do seu papel de coordenadora, sempre esteve ao nosso lado como uma amiga. À professora Suely da Fonseca Quintana, que muito me ensinou e que foi quem primeiro me apontou os caminhos da pesquisa científica. Aos meus companheiros do Promel não cito nomes para não correr o risco de ser injusto por fazerem parte dessa etapa da minha vida, pela troca de experiências, pela convivência produtiva, amizade e pelos momentos de descontração. Ao professor Paulo Henrique Caetano que, além de ceder algumas de suas aulas para que eu realizasse o meu estágio de docência, compartilhou comigo importantes experiências e conhecimentos. À diretora da escola onde trabalho, Irani Sena Veloso, pela seriedade com que se dedica à educação, por compreender certas ausências e negociá-las, quando foi preciso. À toda a minha família, sem exceção, pelo incentivo e apoio constante, principalmente nos momentos em que mais precisava. A minha vitória, com certeza, é vitória deles também. Em especial aos meus irmãos, pela nossa união e por sempre terem acompanhado meu crescimento, nos estudos e na vida.

6 Às amigas Mara e Eni, pelas ideias e pelo auxílio nos primeiros passos que antecederam essa jornada acadêmica. À Adriana, a mais bela flor que surgiu em meus caminhos, principalmente pela compreensão e paciência pelos meus momentos de estudo e reclusão para concluir este trabalho, pelo sacrifício de tantos finais de semana. Finalmente, à força que nos move neste universo, que nos faz capazes de grandes realizações, de buscar o progresso das ciências e a evolução do espírito humano.

7 RESUMO O objetivo desta pesquisa é analisar o processo discursivo de representação de identidades brasileiras em dois programas da Rede Globo de Televisão, integrante do grupo de mídia hegemônico no sistema de comunicação nacional, constituindo-se como uma grande difusora de representações sociais para a sociedade brasileira: a série Brasileiros e o quadro Me Leva Brasil, do Fantástico. Partimos dos conceitos de Indústria cultural e Cultura de massa para voltarmos nossa atenção para questões como a espetacularização, os hibridismos, o sincretismo realidade-ficção e o caráter opaco versus transparente das representações através das mensagem audiovisuais transmitidas pelos programas analisados. Mediante a articulação entre a fundamentação teórica e a análise do corpus, verificamos que fragmentos de identidades brasileiras representados pelos dois programas generalizam atributos positivos, qualificando o brasileiro como um povo solidário, perseverante, trabalhador, criativo, bem humorado, muitas vezes exótico e dotado de grande capacidade de superação. Palavras-chave: Identidade, representações sociais, televisão brasileira, Rede Globo, Me Leva Brasil, Brasileiros.

8 ABSTRACT The aim of this research is to analyze the discursive process of Brazilian identities representation in two TV programs from the Rede Globo de Televisão, integral of the hegemonic media group of the national communication system, and therefore constitutes itself as a great broadcaster of social representations for the Brazilian society. The TV programs are the series Brasileiros and Me Leva Brasil, part of the Sunday program Fantástico. We depart from the concepts of Cultural industry and Mass culture in order to direct our attention at subjects as the spectacularization, the hybridisms, the syncretism reality-fiction and the opaque versus transparent character of the representations through audiovisual messages transmitted by the analyzed programs. By articulating theoretical grounding and corpus analysis, we found out that fragments of Brazilian identities represented by the two programs generalize positive attributes, qualifying Brazilians as a solidary, perseverant, hardworking, creative, good humored people, oftentimes exotic and endowed with great capacity to overcome. Keywords: Identity, social representations, Brasilian television, Rede Globo, Me Leva Brasil, Brasileiros.

9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO O corpus, a abordagem e os passos da análise CAPÍTULO 1 MÍDIA, CULTURA E SOCIEDADE A Indústria cultural e a Cultura de massa A cultura como recurso Mídia e Espetacularização O formato do espetáculo nas narrativas midiáticas Modos de ver as imagens-representações A visibilidade dos olimpianos e dos anônimos Midiacentrismo Hibridismos, aceleração e fugacidade CAPÍTULO 2 IDEOLOGIA, REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E IDENTIDADES Ideologia e me(i)diação cultural As categorias de interpelação ideológica Representações sociais e identidade O humor nas representações A construção das identidades Identidades nacionais Contribuições da Análise do Discurso Identificação e fluidez das identidades A segurança da comunidade de pertença CAPÍTULO 3 ANÁLISE DA CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADES EM BRASILEIROS E ME LEVA BRASIL A Rede Globo de Televisão A condição hegemônica Um certo sentimento nacional O dispositivo pedagógico da mídia Campanhas de valorização do Brasil e do povo brasileiro Me leva Brasil, que eu sou brasileiro Me Leva Brasil

10 3.2.2 Famílias do Brasil Todo brasileiro é um artista As histórias de superação em Brasileiros Lua Nova Reconfigurando histórias e transformando vidas Jovens Talentosos Resgatando talentos e oferecendo oportunidades CONSIDERAÇÕES FINAIS Somos brasileiros e não desistimos nunca? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Sites ANEXOS ANEXO ANEXO ANEXO ANEXO ANEXO

11 ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 - Logomarca de Me Leva Brasil apresentada na vinheta de abertura..105 Figura 2 - Maurício Kubrusly apresenta o episódio Figura 3 - Kubrusly sendo coberto por imagens Figura 4 - Celso Neidert: um brasileiro típico Figura 5 - Celso Neidert com família reunida Figura 6 - Filhos de Sérgio Moura estudando Figura 7 - Foto da família de Sérgio reunida Figura 8 - Uma das filhas em atividades escolares Figura 9 - Família de Aúro reunida Figura 10 - Meninos trocando de embarcação Figura 11 - Foto da família de Keila reunida Figura 12 - Celton e seu trabalho no trânsito Figura 13 - O "artista empresário" em entrevista Figura 14 - Logomarca da série Brasileiros apresentada na vinheta de abertura Figura 15 - Introdução do episódio feita por Neide Figura 16 - Raquel fala sobre a Comunidade Figura 17 - Cena de Camila grávida Figura 18 - Documento de identificação do bebê Figura 19 - Taís se pergunta sobre sua condição

12 Figura 20 - Luzitânia: Você acha que tenho jeito? Figura 21 - Daiane: A minha história é a pior Figura 22 - Detalhe de bonecas fabricadas no Criando Arte Figura 23 - Bandeira brasileira se destaca na abertura Figura 24 - Edney Silvestre introduz o episódio Figura 25 - Leopoldo de Meis em entrevista a Edney Silvestre Figura 26 - Amanda trabalhando no laboratório Figura 27 - Pais da garota falam do apoio à filha Figura 28 - Reinaldo com a avó: incentivo constante Figura 29 - Wagner: o discípulo que virou mestre Figura 30 - Wagner: motivo de orgulho da família Figura 31 - Anderson no laboratório Figura 32 - Mãe: ele tem que ser nota Figura 33 - Gislaine é entrevistada no laboratório

13 INTRODUÇÃO Quem não se lembra com uma certa dose de saudade da própria infância? Eu me recordo com um pouco de saudosismo dos meus tempos de criança. Lembro-me de eu menino a correr e a pular pelo meu quintal, pelos arredores do meu lugar, inventando histórias, brincadeiras e cidades, imaginárias ou de papelão. Lembro-me de brincar com fogo, fogos de artifício, subir na laje e me arriscar com tudo aquilo que todo moleque gosta e que deixa os pais loucos. Durante muito tempo o meu lugar era pequeno, se resumia ao espaço do lar e ao quintal, onde reinavam tranquilos, numa profusão de cores, plantas e animais domésticos, onde as invenções podiam surgir e durar dias. Nos meus domínios também estava a rua, íngreme rampa com calçamento de pedras, como muitas outras assentadas pela cidade pelas mãos de meu avô, tios e pai. Ladeada por casas que eram praticamente extensões da minha, por serem todas, na época, de parentes. Pequena rua que brilhava de noite molhada pela chuva. Fora isso, fazia parte desse meu lugar alguns pares de outras ruas poucos quarteirões. É certo que fazia passeios, ia a outros lugares, cidades, pequenas viagens, finais de semana na fazenda. Mas esses espaços já eram outros domínios. Iria conquistá-los mais tarde. Mas um local que realmente me fascinava e onde sempre passava algum tempo, era a oficina de meu pai, que ocupava todo o porão de minha casa. Ficava curioso com a forma dos objetos guardados ali, meio amedrontado com alguns cantos sombrios, ávido por mexer nas máquinas, ferramentas, tintas e engenhocas que o povoavam. Espaço de escavações quase arqueológicas, de quadros de santo, de todos os tipos de metais e madeiras, de peças que se abrem, se apertam, se parafusam, residência das mais diversas formas, residência da poeira de diversas épocas, das teias de aranha que emprestavam um ar de filme de terror e que me faziam crer que outras formas de vida mais misteriosas existiam ali, na espreita, só esperando que as luzes se apagassem para voltar à atividade. Parafraseando levianamente o poeta, cada objeto ali parecia conter o eco de antigas palavras e 13

14 vestígios de estranha civilização 1. Lá também havia um possante esmeril, que cuspia fogo quando trabalhava. A única coisa ali que era mais fascinante do que assistir televisão. E era grande o meu interesse por tudo que estava lá para ser descoberto, explorado e apreendido. Lá eu passava horas na companhia de meu pai. Enquanto ele realizava consertos, achava soluções, puxava um dedo de prosa, cortava o cabelo de algum dos sobrinhos (e muitas vezes o meu e de meus irmãos), ia trazendo novamente à vida objetos e peças que há muito já eram dadas como irrecuperáveis. E o mais impressionante: Passavam a funcionar quase que para sempre... Enquanto ele trabalhava, estava sempre escutando o rádio, se distraindo com as músicas da AM e se informando com as notícias, que invariavelmente serviam para incrementar a pauta das rodas de conversa. Enquanto isso, eu pedia alguma máquina velha para mexer, desmontar, quebrar e transformar em um bocado de pedaços que nem mesmo meu pai podia depois recompor. Mais tarde esses fragmentos acabavam virando um robô, uma arma, um carrinho maluco ou qualquer outra obra, fragmentária como uma escultura cubista. Naquela época não tinha dimensão de fronteiras, nem a necessidade de um território maior, mas sabia que existiam no mundo muitos outros domínios aos quais eu não tinha acesso. E esses outros mundos me chegavam justamente pelo rádio, nas minhas mais remotas lembranças. Ainda hoje consigo me lembrar das chamadas, anúncios e jingles que compunham a programação: O globo no ar... Rádio Globo!, deixando um eco inconfundível na memória, ou A Voz do Brasil, com sua melodia tediosa e monótona, que dava sono e não interessava a nenhuma criança. Quando terminavam os trabalhos (no meu caso, as brincadeiras), a luz era apagada, o portão rangia e subíamos para dentro de casa. Minha mãe chamava e era hora de comer, tomar banho e preparar para o descanso. Em momentos como esse, normalmente entrava em cena a televisão. A cor, as imagens, as músicas, os diálogos, as histórias divertidas dos desenhos e dos Trapalhões, as incríveis aventuras de personagens dotados dos mais loucos poderes faziam da 1 BUARQUE, Chico. Futuros Amantes. In: Paratodos. São Paulo: BMG Ariola, CD, digital. 14

15 televisão uma presença muito mais marcante e envolvente que a do rádio. Minhas mãos já não ficavam ocupadas enquanto conhecia outros universos, como o rádio permitia. Os olhos, a atenção e a imaginação se voltavam pra tela onde explodia tanta novidade. E ali tudo parecia muito mais fascinante do que em qualquer outro lugar. Cada emoção era uma emoção elevada ao quadrado. Cada novo golpe ou ação do herói eram os mais espetaculares que podiam existir. Cada tombo do palhaço era o mais atrapalhado e divertido do que qualquer um que tivesse visto na vida real. Cada dificuldade ou drama dos personagens eram os mais tocantes e os mais dignos de serem superados. Na minha cabeça de criança, pouco podia distinguir ali o que era verdade do que era ficção é certo que ainda hoje, muitos telespectadores, mesmo os adultos, também se confundem. Na minha cabeça de criança, não tinha a exata noção (era mais uma leve suspeita), mas minha vida cotidiana já era regrada em parte pelo horário dos programas. Quando escutava pelo rádio, por exemplo, O globo no ar... está no ar o boletim do Sentinela da Mantiqueira... Soldado Valério está de plantão!, era a hora mais triste do dia. Faltavam poucos minutos para almoçar e ir para a escola. Quando voltava e, já tendo tomado café, descia ao porão (que mais parecia a caverna onde o mito platônico foi inspirado), estava quase na hora da Voz do Brasil, com aqueles trombones rufantes e aquela pompa que em poucos instantes se transformava nas monótonas vozes que falavam daquilo que eu não entendia. A solene Voz do Brasil... Depois, mais tarde, a parte melhor... ligada a televisão, a família reunida e começavam as viagens por lugares nunca antes percorridos. Se a programação da semana já atraía, a do final de semana era mais fascinante. Ficava absorvido com os filmes e outros programas de sábado, muitas vezes trocando aventuras reais pelas aventuras da TV, que pareciam muito mais reais que as minhas em meu pequeno reinado. Já no domingo, estar sintonizado na TV reservava prêmios ainda maiores, exceto pela vontade de brigar com os adultos e tirar do ar o Velho Guerreiro, que a mim não dizia nada. Fora isso, era puro deleite. Normalmente era o momento da reunião e do descanso de todos, do lazer abastecido pelas comidas de domingo, muitas vezes em frente à TV. 15

16 Só de escutar a música de abertura do programa dos Trapalhões, deixava de lado qualquer coisa e corria para a televisão. Também o Fantástico exercia um fascínio enorme em mim, ficava maravilhado com tanta diversidade e curiosidades espalhadas pelo mundo. Impressionava-me com as matérias científicas, com as reportagens sobre viagens e aventuras realizadas nos mais diversos lugares do planeta, com o que havia de inusitado e espetacular na natureza e na vida dos seres humanos, com a possibilidade de percorrer muitos mundos, nas noites de domingo, sem precisar sair de casa. Terminado o programa, as histórias fictícias e reais que chegavam até a mim povoavam a minha imaginação durante dias. Naquela época, esses programas ocupavam minha cabeça de forma quase mítica, como se fossem grandes revelações. Mas, aos poucos, fui começando a compreender como se estruturavam e o que se escondia por trás das maravilhas que nos chegavam com tamanha facilidade. O tempo foi passando e o mundo da comunicação continuou presente em minha vida. Em Barbacena, minha cidade natal, junto a um grupo de amigos, atuei como editor do Informativo Cultural O Grito, impresso de periodicidade mensal que trazia poesias e outros textos literários, fotos antigas, humor, reproduções de obras de arte e outros assuntos ligados às artes e à cultura de uma forma geral. Ao entrar para a meio universitário, escolhi a Graduação em Letras, Artes e Cultura da Universidade Federal de São João del-rei. Na instituição, além de cursar as disciplinas, fiz Iniciação Científica em Literatura, me dedicando a uma pesquisa que envolveu as representações sociais, a questão da alteridade e das personagens femininas nos contos infantis. Apesar da minha graduação ser em Letras, direcionei boa parte dos meus estudos e atividades extracurriculares para a área da Comunicação e do Jornalismo. Uma dessas atividades foi ter trabalhado, já morando em São João del-rei, como repórter do jornal impresso Gazeta de São João del-rei, o que me deu a oportunidade de vivenciar na prática o trabalho existente por trás de um veículo de comunicação e certas questões que o cercam. Mesmo desvelando vários e consecutivos véus o que tirou muitas de minhas ilusões meu interesse por essas questões aumentou e em meus 16

17 estudos universitários, busquei me aproximar mais dessas temáticas. Foi por esse motivo que ao elaborar o projeto da presente dissertação, resolvi enveredar novamente pelos caminhos da mídia e estudar mais a fundo alguns dos processos que a tornam tão onipresente em nossa sociedade contemporânea. Continuo ouvinte e telespectador, embora a forma de ver e ouvir tenha mudado em muitos sentidos, embora tenha eu próprio mudado muito... em muitos sentidos também. Paro para pensar e me questiono: o que hoje é imutável? O que hoje é perene e constante, como julgava ser muitas coisas nas minhas concepções de menino do interior? Acredito que muito pouca coisa... A própria noção de identidade, que será discutida em momento apropriado, no segundo capítulo, perdeu seu caráter essencialista, fixo, e hoje figura como algo que pode ser alterado constantemente. Ao expandir questões como essas e direcioná-las aos papéis assumidos socialmente pelos veículos de comunicação de massa, principalmente pela televisão, podem ser propostas novas perguntas: Quais os valores, identidades e práticas sociais estão sendo encenadas? Com base em quais elementos e como são construídas muitas das representações dirigidas aos telespectadores brasileiros? Será que a televisão realmente tem a capacidade de estimular determinadas práticas e comportamentos? Partindo de questionamentos básicos como esses e já nos dirigindo aos nossos objetivos propriamente ditos, o presente trabalho vai tomar como ponto de partida de sua análise, questões referentes às relações entre linguagem, construção de identidades, ideologia e os discursos 2 veiculados pela mídia 3. Dentro desse estudo, serão trabalhados também aspectos da cultura de massa e hibridização cultural. À luz de diversos autores, que serão apresentados ao longo do texto, abordaremos essas questões dentro do contexto das sociedades contemporâneas, capitalistas e globalizadas, inseridas em um mundo onde a informação é cada vez mais valiosa e atinge um nível crescente de espetacularização (DEBORD, 1997). 2 O termo discurso está sendo usado nesse trabalho em seu sentido amplo, como qualquer produção verbal de enunciados, estando carregado ou não de sentidos ideológicos. 3 Assim com o termo discurso, o conceito de mídia será usado de uma forma ampla, significando o conjunto dos meios de comunicação de uma forma geral, ou seja, as instituições públicas ou privadas que são responsáveis pela mediação cultural nas sociedades contemporâneas. 17

18 Esse panorama só foi possível porque os avanços tecnológicos e as transformações dos meios de comunicação de massa ocorridos no século XX influenciaram todo um sistema de representações sociais das populações que fazem parte do mundo globalizado. Daí infere-se o grande alcance dos discursos midiáticos no modo de agir e pensar de grande parcela das sociedades atuais. Nesse sentido, os grandes palcos erguidos pelas mídias definem-se como espaços privilegiados das questões sociais, nos quais os meios de comunicação têm um papel de predominância na construção de identidades. Ao levar ao público informação, cultura e entretenimento, as mídias constroem discursos e efeitos de sentido, aliando-os a inúmeros recursos e estratégias como forma de concretizar a mediação. O estudo e a crítica dessa cultura midiática nos parecem bastante significativos, visto que analisar a orquestração desses elementos nos aproximaria muito da análise dos próprios processos representacionais utilizados, no caso, pela mídia brasileira. O corpus, a abordagem e os passos da análise Esta pesquisa se insere nos estudos de Crítica da Cultura, área de concentração do Programa de Mestrado em Letras da Universidade Federal de São João del-rei. Volta sua atenção para atuação da mídia contemporânea, sob o viés da linha de pesquisa que trata das relações entre discurso e representações sociais. Nosso objetivo neste estudo é analisar como se dá a representação de identidades brasileiras na TV, mais especificamente pela Rede Globo de Televisão. Selecionamos essa rede, hegemônica no sistema midiático nacional, por reconhecer as contribuições que trouxe para a consolidação de um sentimento e de uma identidade nacional. Para tanto, escolhemos como corpus dois programas da Rede Globo de Televisão, por eles promoverem nitidamente representações identitárias de brasileiros, mesmo apresentando perfis e propostas diferenciadas. O primeiro é o quadro Me Leva Brasil, do Fantástico, veiculado nas noites de domingo. De todos 18

19 os quadros do Fantástico, é o que traz de forma mais explícita representações típicas brasileiras. O outro é a série Brasileiros, que foi ao ar em nove episódios, nas noites de quinta-feira, do dia 17 de junho ao dia 12 de agosto de Porém, torna-se necessário delimitar ainda mais nosso corpus de estudo. No que diz respeito ao Me leva Brasil, abordamos genericamente vários episódios que foram ao ar em 2010, ano em que o quadro completou 10 anos. Isso foi feito em função de se exemplificar e traçar um perfil do quadro, mas nos restringimos a analisar mais profundamente os episódios dos dias 08 e 15 de agosto de Quanto à forma de abordagem da série Brasileiros, o procedimento adotado foi o mesmo, no intuito de demonstrar sua recorrência temática e de tornar possível uma análise mais aprofundada do corpus. Assim, atentamos de forma geral para vários dos nove episódios que compõem a sua primeira temporada, mas analisamos de forma mais detalhada os episódios do dia 01 e 29 de julho de 2010, por verificarmos que neles, com bastante clareza, as identidades podem ser construídas e também reconfiguradas, mediante performances discursivas. Partindo do pressuposto de que a linguagem é fundamental para se representar a cultura e vários outros elementos do social, esta pesquisa foi estruturada de forma a permitir a análise de certas práticas de linguagem para observar como o sujeito e o social se constroem discursivamente. Com base nos referenciais teóricos apresentados na revisão de literatura, realizamos a análise da versão integral dos programas que compõem o corpus de estudo, buscando observar como os indivíduos apresentados são constituídos nos enunciados produzidos por eles próprios e pelos repórteres dos programas. Os procedimentos metodológicos aplicados ao corpus compreenderam as seguintes ações: identificação, transcrição e descrição dos discursos veiculados, considerando a constituição tríplice da linguagem televisiva: icônica, linguística e sonora. Nosso objetivo aqui é focar no aspecto linguístico dos programas, mas não podem ser ignorados o icônico e o sonoro por isso optamos pela transcrição e descrição, que constam nos anexos, como forma de abarcar elementos sonoros e visuais. 19

20 Após o tratamento dos dados, partimos para a interpretação dos discursos veiculados nos programas, visando identificar e descrever as relações discursivas que estabelecem entre si, as suas características e a forma como são construídas as identidades. Essa interpretação, como será visto no terceiro capítulo e também em nossas considerações finais, nos permitiu tecer uma análise das representações sociais propriamente ditas, desvelando as ideologias implícitas em tal sistema de representação. Nesse estágio, procuramos estabelecer uma comparação entre as características principais de cada programa e responder a questões fundamentais desta pesquisa: Como são construídas as representações de identidade? Quais são os papéis sociais que estão sendo articulados e as estratégias discursivas que os programas utilizam para construir todo esse conjunto de significações? A análise do corpus nos permitiu a comparação de como as identidades podem ser construídas de formas diferentes na televisão e numa mesma emissora. Possibilitou também observar e refletir sobre elementos característicos da cultura de massa presentes nos programas, como a espetacularização (DEBORD, 1997), o hibridismo (BURKE, 2003) e o fait-divers (BARTHES, 1970). O programa Fantástico se mostra um corpus riquíssimo para análise e aplicação de teorias críticas da cultura, pois utilizando os conceitos de Peter Burke, o Fantástico (e consequentemente o quadro Me Leva Brasil, por possuir características muito semelhantes ao programa como um todo), é um claro exemplo de hibridização cultural e da criação de um mundo crioulizado 4 (BURKE, 2003, p ). Ao promover a tradução de diversos tipos de comunidades e culturas a serem apresentadas ao público brasileiro, o Fantástico representa modelos culturais híbridos. Já numa reflexão preliminar, percebe-se que o programa é voltado para o entretenimento, se dirige a um público genérico, seus conteúdos são normalmente massificados e usa muitas vezes, como o próprio nome sugere, recursos que provocam a espetacularização. Além disso, não se deve esquecer que, como formador de opinião, o programa constitui um sistema de referências para os indivíduos, é assistido pela 4 Em Hibridismo Cultural, Peter Burke (2003), chama a atenção para o fato de que as trocas culturais estão ficando cada vez mais constantes e intensas e chega ao conceito de crioulização do mundo, que seria uma nova ordem, um espaço sempre aberto à reconfiguração de culturas e a confluências diversas, que vai promover a cristalização de novas formas. Esse conceito será melhor apresentado no item 1.3 deste trabalho. 20

21 maioria dos brasileiros e tem penetração em praticamente todas as camadas sociais. Ele utiliza, como uma de suas estratégias, a aproximação com o ambiente familiar (SODRÉ, 1977), pois cria um ambiente amigável e confortável, para informar e entreter os brasileiros nas noites de domingo. Sem sair da poltrona e da segurança do lar, o público se informa e forma sua opinião, como se ela fosse única em um mundo tão multifacetado e plural. Pluralidade esta que também é representada pelo povo e pela cultura brasileiros. Ao apresentar um mix de culturas mundiais e regionais, o Fantástico acaba por promover representações identitárias brasileiras. Existem vários trabalhos acadêmicos no Brasil que se dirigem ao programa. Germana Barata analisa como o Fantástico apresenta a Aids para o público na primeira década de disseminação da doença no país (BARATA, 2000), Gláucia Guimarães e Raquel Barreto abordam a articulação de linguagens em matérias sobre assuntos educacionais (GUIMARÃES; BARRETO, 2008). Nenhum deles, porém, enfoca a questão das identidades e das representações sociais propriamente ditas, da forma como se propõe aqui. Maior afinidade com nossa pesquisa encontramos no estudo de Lara Linhalis Guimarães e Iluska Coutinho (2008). Elas partem da indagação sobre como o brasileiro é construído discursivamente no JN, para constatar que aspectos como a resignação, o sofrimento (e a maneira particular de lidar com ele), o tratamento do povo como vítima (do governo, das empresas, da natureza em fúria, de doenças), a solidariedade e a cordialidade dos brasileiros (Idem, p. 10) predominaram no conteúdo do corpus analisado. Esse mesmo foco na construção discursiva da identidade brasileira na TV está presente na análise das representações veiculadas pelos programas que compõem o corpus desta pesquisa. Esta investigação é de extrema relevância para os estudos culturais sobre a contemporaneidade, por ser uma forma possível de se chegar aos processos representacionais corporificados nos programas televisivos, principalmente no que diz respeito à constituição e representação de identidades. Voltando ao nosso objetivo específico, o quadro Me Leva Brasil, Maurício Kubrusly, que o apresenta, convida os telespectadores a viajarem de norte a sul 21

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