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1 Fany Aktinol o tom da infância o tom da infancia - miolo 7L.indd 3 24/1/ :24:50

2 Eu me chamo Françoise e escrevo para não esquecer, para não deixar morrer, mas principalmente para lembrar e preencher o vazio em que consiste minha vida. Minha infância solitária, silenciosa características talvez nem tão incomuns com algumas lembranças tão vivas e marcantes, pede que eu a perpetue através da palavra escrita. Por isso, vou gotejando registros daquele tempo, quando as perspectivas de uma sobrevivência digna eram quase nulas, quando não entendia o presente, o mundo que me circundava e me desconsiderava. Quando perguntava em momentos de tédio e absoluta falta do que fazer o que fazer? recebia a resposta, bate com a cabeça na parede. Não entendia a ironia das palavras e as aventuras do espírito, e quando me encontrava sozinha batia com a cabeça na parede. Desde pequena, possuía forte vínculo com a morte; com a sede (real e metafórica) ora pela vida, ora pela morte, através da absoluta passividade ou da total agressividade. Minha ausência, transmitida pelo silêncio, era tão temerária, tão próxima do abismo, que ainda guardo feridas profundas. Eu me sentia inviável, a tempestade perfeita. Mas posso dizer que até este momento a vida me escolheu. 9 o tom da infancia - miolo 7L.indd 9 24/1/ :24:50

3 Quase todas as lembranças que guardo da infância têm a presença de minha mãe. Minha casa era uma bagunça total à maneira de minha mãe, desorganizada e caótica. Ela se vestia com roupas gastas, velhas, quase rasgadas, não tinha um pingo de vaidade e não se incomodava com a sujeira. Nós também andávamos com roupas gastas dentro de casa e vivíamos em meio à desordem. Em meio a essa desordem, havia, porém, um método, ou melhor, ela era uma pessoa metódica, melancolicamente metódica, e cumpria escrupulosamente seus deveres de mãe. Cumpria-os de forma burocrática, com seu jeito peculiar. No meio da manhã, ela preparava um suco de tomate com laranja: esmagava os tomates numa peneira velha com as mãos que nunca me pareciam suficientemente limpas e eu tomava meio enojada aquele líquido. Era impossível protestar ou se negar às suas imposições, principalmente aquelas relacionadas com comida. Não me lembro de diálogos. Acho que eu somente gritava não quero comer e ela dizia asperamente tem que comer, ou nem respondia, somente olhava com seu olhar desaprovador e enfurecido fazendo-me encolher de medo e engolir a raiva. Nós, seus quatro filhos, comíamos pouco e éramos magros, numa época em que criança cheinha era sinal de saúde. Mas, apesar da magreza, tínhamos boa saúde. A neurose dela com a comida nos traumatizou, e o primeiro lugar da magreza me pertencia. 10 o tom da infancia - miolo 7L.indd 10 24/1/ :24:50

4 Nasci em Vaz Lobo, subúrbio do Rio, e, quando eu tinha uns dois anos de idade, viemos morar num pequeno apartamento de um prédio na Tijuca, onde moravam meus avós maternos. Guardo poucas recordações dessa época e uma delas é do completo e livre acesso que tínhamos à casa dos meus avós, que era muito mais organizada do que a minha, com paninhos de renda na sala e na cozinha, toalhas decentes no banheiro e tudo parecendo estar sempre limpo e em seu devido lugar. Havia também um pequeno quintal, porque o apartamento ficava no andar térreo. Embora nosso apartamento também ficasse no térreo, era de fundos e, portanto, não possuía qualquer área externa. Até o quintal deles estava sempre limpo, apesar de ser um lugar onde vizinhos dos andares de cima tenham, muitas vezes, o incivilizado hábito de jogar lixo. Lá, milagrosamente, nunca vi nenhuma sujeira, muito menos lixo. Acho que algumas vezes levei minha boneca ali para dar umas voltas, dar comida para ela ou niná-la para dormir. Meus avós brigavam muito entre si, em iídiche, uma língua que eu pouco entendia, mas nos tratavam com extremo carinho. Meus irmãos Henry e Louis jogavam bolinha de gude na rua e eu, às vezes, ficava olhando, mas não sei o que passava na minha cabeça, o filme está todo apagado. Eles dois brincavam o tempo todo na rua, que era muito tranquila. Minha irmã Paloma e eu só brincávamos dentro de casa. 11 o tom da infancia - miolo 7L.indd 11 24/1/ :24:50

5 Entre meus seis e sete anos de idade, nos mudamos para um prédio novo, também na Tijuca, não muito longe dos meus avós. Lembro do dia em que fomos visitar o apartamento pronto e vazio. Era um apartamento grande, arejado, com sinteco brilhando no chão e cheiro de tinta fresca na parede. Tinha sala, três quartos, cozinha e banheiro grandes. Até o quarto de empregada era grande. Corremos e gritamos, com nossa empolgação infantil, pelo apartamento, enorme para nós, impressionados principalmente com seu tamanho (vínhamos de um apartamento minúsculo). Difícil descrever nossa alegria e surpresa, foi uma experiência incomum parecia um sonho. Estávamos com meu pai, minha mãe, meus avós e um homem que parecia ser o corretor, e que conversava com meu pai o tempo todo. Reparei também, e não esqueci, que minha mãe ficou parada olhando pela janela um longo tempo. Por alguns momentos eu parava de correr e olhava para ela, que parecia hipnotizada. Eu não entendia por que ela estava parada ali, de costas para todos. Será que estava feliz, mas ficou com a alma dividida por alguma culpa visceral, ancestral, que carregava e que não a deixava se sentir livre, no direito de possuir uma casa que transbordava seus padrões? Minha intuição era algo assombroso na aurora da vida. Eu vivia pensando no que ela pensava e quase sempre eu absorvia tristeza e sofrimento. 12 o tom da infancia - miolo 7L.indd 12 24/1/ :24:51

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