Quem pode desapropriar e quem pode executar a desapropriação

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1 Capítulo I Quem pode desapropriar e quem pode executar a desapropriação Desapropriação é o termo jurídico que indica ato, emanado do poder público, do qual resulta a resolução do domínio do titular sobre determinada coisa que lhe pertencia. Pela desapropriação, portanto, extingue-se o direito de propriedade que alguém detinha sobre determinado bem, que por sua vez passa ao domínio da pessoa política que desapropriou e dá origem a um crédito indenizatório para o desapropriado. Qualquer coisa, corpórea ou incorpórea, pode ser desapropriada, se sobre ela incidir necessidade ou uti- Desapropriação.indd 13 27/02/ :20:19

2 14 PEDRO RIBEIRO DO VAL NETO lidade pública, ou ainda interesse social, declarado em Lei ou por Decreto do Presidente da República, dos Governadores dos Estados Federados ou do Distrito Federal, dos Interventores e dos Prefeitos Municipais, conforme disposto nos artigos oitavo, sétimo e segundo da Lei de Desapropriações (Dec. Lei 3.365/41). Já o parágrafo segundo do artigo segundo da citada Lei estabelece as condições que possibilitam à União desapropriar bens dos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios e, aos Estados, os bens dos municípios contidos em seu território. A escala estabelecida não diz respeito aos bens pertencentes às pessoas jurídicas estatais ou paraestatais, se estes bens não foram utilizados para integralização do capital social. Assim, desde que a titularidade não provenha de integralização do capital social, um bem situado no Estado de São Paulo e que pertença à Petrobrás S/A, sociedade de economia mista de cujo capital social participa a União, pode ser desapropriado pelo Estado de São Paulo, mediante decretação, na forma legal, da prevalência de interesse coletivo sobre referido bem, Desapropriação.indd 14 27/02/ :20:19

3 DESAPROPRIAÇÃO POR ENTIDADE PRIVADA 15 que deixa de pertencer ao patrimônio dessa empresa comercial e passa ao domínio da Fazenda Pública. A execução da desapropriação, por sua vez, pode ser atribuída a um órgão público, como as suas próprias procuradorias jurídicas ou a uma pessoa cuja natureza jurídica pode ser administrativa ou privada, quando essa pessoa for também prestadora de serviço público, como é, por exemplo, o caso das autarquias, como o INSS e das sociedades de economia mista, como a PETROBRÁS. Mas a execução da desapropriação também pode ser executada por entidade desvinculada do poder público expropriante, como ocorreu por meio do Decreto Estadual de São Paulo n o /2000, em que a executora é a CONCESSIONÁ- RIA ECOVIAS DOS IMIGRANTES S/A: Artigo 1 o Ficam declaradas de utilidade pública, a fim de serem desapropriadas pela CONCESSIONÁRIA ECOVIAS DOS IMIGRANTES S.A., empresa concessionária de serviço público, por via amigável ou judicial, os bens imóveis descritos e caracterizados nas plantas cadastrais de código DE D. 03/001 e memoriais descritivos, necessários à construção de dispositivo à Rodovia dos Imigrantes SP-160, situado no Município Desapropriação.indd 15 27/02/ :20:19

4 16 PEDRO RIBEIRO DO VAL NETO e Comarca de Cubatão com área total de ,67m² (quarenta e três mil, oitocentos e noventa e nove metros quadrados e sessenta e sete decímetros quadrados) situados dentro dos perímetros a seguir descritos, assim como eventuais áreas remanescentes, imóveis estes pertencentes a vários proprietários, a saber:... Desta forma, decretada a desapropriação, os atos que a concretizam tanto podem ser executados por órgãos públicos, como por entidade privada que seja concessionária de serviço público e for capacitada para tanto no referido decreto. Esta entidade privada atuará em nome próprio e em substituição ao poder expropriante, praticando negócio jurídico diferente do mandato, em que o mandatário não age em seu próprio nome, mas em nome do mandante. Nesta hipótese em que terceiro toma o lugar do poder público, acontece uma substituição legal, pela qual o substituto está colocado no lugar do expropriante por determinação da lei que lhe atribuiu essa função. Esta substituição legal tanto pode acontecer na consecução amigável da desapropriação, como no procedimento judicial para tanto. Desapropriação.indd 16 27/02/ :20:19

5 DESAPROPRIAÇÃO POR ENTIDADE PRIVADA 17 No primeiro caso, em que o valor do ressarcimento pela desapropriação é ajustado amigavelmente e, v.g., respeitar a imóvel, será estabelecido em escritura pública (Código. Civil, Art Não dispondo a lei em contrário, a escritura pública é essencial à validade dos negócios jurídicos que visem à constituição, transferência, modificação ou renúncia de direitos reais sobre imóveis de valor superior a trinta vezes o maior salário mínimo vigente no País ). Nessa escritura deverá ser mencionado o decreto expropriatório e a condição de substituto pela qual a ela, escritura, comparece o concessionário. Observe-se, a este passo, que o decreto, baixado pelo Poder Executivo, não pode abrir exceção à exigibilidade de escritura pública para a execução da desapropriação. No segundo caso, o da desapropriação promovida judicialmente, ocorrerá no processo a figura jurídica conhecida como substituição processual, estando assim prevista pelo Código de Processo Civil: Art. 6 o Ninguém poderá pleitear, em nome próprio, direito alheio, salvo quando autorizado por lei. Tal disposição significa que só está legitimado a litigar judicialmente quem é ou pretende ser titular de um direito material, salvo se houver uma lei que au- Desapropriação.indd 17 27/02/ :20:19

6 18 PEDRO RIBEIRO DO VAL NETO torize alguém a ser parte processual, podendo agir em nome próprio, mas no interesse do titular do direito material objeto da lide. A Lei das Desapropriações, os decretos expropriatórios e o Código de Processo Civil são os diplomas legais que conferem, à entidade privada executora, legitimação para a desapropriação amigável ou judicial, que concretizará o domínio público, mediante correspondente indenização ao patrimônio atingido. Tomemos como exemplo o Dec /90, que, ao declarar a utilidade pública das glebas situadas em território do município de São José dos Campos, indispensáveis à construção da SP-070, legitimou formalmente a Dersa Desenvolvimento Rodoviário S/A a agir em nome próprio, com a finalidade de obter, para o Estado de São Paulo, a titularidade de imóveis que, consequentemente, tornaram-se patrimônio público: Art. 1 o Ficam declarados de utilidade pública, a fim de serem desapropriadas pela Desenvolvimento Rodoviário S/A,... os terrenos e benfeitorias situados dentro dos perímetros a seguir descritos, necessários à construção da Rodovia Governador Carvalho Pinto.... Desapropriação.indd 18 27/02/ :20:19

7 DESAPROPRIAÇÃO POR ENTIDADE PRIVADA 19 Esclarecedoramente, quanto ao domínio pela pessoa política sobre o bem desapropriado e a legitimação processual substitutiva, dispõe a Lei de Desapropriações: Art. 2 o Mediante declaração de utilidade pública, todos os bens poderão ser desapropriados, pela União, pelos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios... Art. 3 o Os concessionários de serviços públicos e os estabelecimentos de caráter público que exerçam funções delegadas de poder público poderão promover desapropriações mediante autorização expressa, constante de lei ou de contrato. (grifei). O art do vigente Código Civil enumera as faculdades que o proprietário tem sobre o que lhe pertence, mas no parágrafo terceiro ressalva a possibilidade de ser privado da sua titularidade em virtude de desapropriação. Cabe aqui um parêntesis para examinar a autorização expressa em contrato para promover a desapropriação contida no art. 2 o supra reproduzido. Baixado em 1941, a este Decreto-Lei de n o 3.365, sobreveio o Código de Processo Civil de 1973, cujo artigo sexto, também acima transcrito, prescreveu a substituição processual somente por lei, diante do que entendemos derrogada a possibilidade de autorização por meio de contrato, tanto em razão da competência Desapropriação.indd 19 27/02/ :20:19

8 20 PEDRO RIBEIRO DO VAL NETO constitucional para legislar sobre matéria, hoje reflexamente reservada ao Poder Legislativo pela letra b do inciso I do parágrafo 1 o do art. 62 (EC 32/2001), como pelo advento da lei nova regulando a matéria (Lei de Introdução ao Código Civil, art. 2 o, 1 o ). O até aqui simploriamente exposto, concernente à posição substitutiva da entidade privada executora da desapropriação, mereceu o superlativo magistério de PONTES DE MIRANDA, lição que não se deve entender restrita apenas ao aspecto processual: 3) QUEM É PARTE. Partes são as pessoas para as quais e contra as quais é pedida a tutela jurídica. As partes é que pedem, ou contra elas é que se pede. De regra, são as partes os sujeitos do direito e do dever, da pretensão, da obrigação, ou da exceção que se discute. Todavia, pode dar-se que terceiro, que não é sujeito ativo ou passivo da res deducta, possa ser parte, isto é, ter a ação. De onde se tira que o conceito de parte é direito formal, e de ordinário coincide, porém não precisa coincidir, com o de titular do direito na relação jurídica controvertida, ou com o de sujeito passivo dessa relação. Às espécies em que se atribui a alguém, que não é sujeito na relação jurídica deduzida em juízo, o ser parte, tem-se dado o nome de sub-rogação processual ou de Desapropriação.indd 20 27/02/ :20:19

9 DESAPROPRIAÇÃO POR ENTIDADE PRIVADA 21 substituição processual. (Comentários ao CPC, Tomo I, pág. 241, Forense, 1973 grifei). Podemos resumir o capítulo dizendo que somente pessoas políticas podem desapropriar e que apenas elas próprias adquirem o domínio do bem desapropriado, embora a desapropriação possa ser executada tanto por órgãos do poder expropriante, como por pessoas jurídicas de Direito Público ou de Direito Privado, desde que sejam concessionárias dos serviços públicos para os quais o bem desapropriado é necessário. Desapropriação.indd 21 27/02/ :20:19

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