Dádivas de sangue aumentam na região do Médio Tejo

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1 Quatro alunos da Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, de Abrantes, entrevistaram dois Físicos portugueses, no âmbito da disciplina de Filosofia. O ESTAJornal publica as entrevistas com um duplo objectivo: valorizar o trabalho dos estudantes, mas também aumentar o conhecimento geral sobre o assunto. P PUB N.º 22. Ano 8 Directora: Hália costa santos JUNHO JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL» ESCOLA SUPERIOR DE TECNOLOGIA DE ABRANTES» INSTITUTO POLITÉCNICO DE TOMAR Dádivas de sangue aumentam na região do Médio Tejo Portugal não é auto-suficiente em termos de recolha de sangue, mas a generosiade dos dadores é notável. Os técnicos e os serviços preocupam-se com a questão da qualidade, enquanto promovem campanhas de sensibilização. Porque o sangue nunca é demais. P. 4 e 5 pedro colaço Os agentes funerários trabalham ao lado da morte, mas vivem a profissão como qualquer outra: adoptam conceitos modernos, lidam com a concorrência e tentam cobrar dívidas dos clientes. Mas há coisas piores: Custa mais aos bombeiros retirar pessoas de dentro dos carros. P. 6 Escola Marquesa de Alorna, de Almeirim, exemplo de boa alimentação P. 8 Cidade de Abrantes, símbolo de Cultura P. 10 Moita Flores, presidente da Câmara de Santarém, acredita em Passos Coelho P. 3 PUB

2 editorial 2 ESTA JORNAL Junho 2010 OPINIÃO Fácil acesso à informação Hália Costa Santos Há 25 anos atrás, fazer um trabalho académico significava muita pesquisa nas bibliotecas e uma verba considerável para fotocópias. Um curso de dactilografia dava jeito, mas muitos alunos acabavam por entregar trabalhos escritos à mão, que levavam horas para ficarem prontos. Habilidade para recortar e colar (literalmente) também ajudava. Se o trabalho fosse de História, a colecção de postais dos pais ou dos irmãos era uma mais-valia. Se o trabalho fosse sobre Ambiente ou Ciências, os folhetos das exposições eram a cereja no topo do bolo. E os estudantes aplicados reuniam tudo o que encontravam e recorriam à imaginação para apresentar um trabalho com mais conteúdo e mais bonito. Vieram os computadores mais a internet e a arte de procurar reduziu-se aos motores de busca. De repente, a sabedoria, os documentos (em papel) e os materiais recolhidos por outras gerações deixaram de fazer sentido. Muitos dos mais novos nem imaginam os verdadeiros tesouros que têm lá por casa, ou na casa dos avós. Como em quase tudo na vida, a Estatuto Editorial O ESTA é um jornal de Escola, de pendor assumidamente regional, mas que nem por isso abdica da dimensão de um órgão de grande informação ou da ambição de conquistar o público para além do meio universitário. O ESTA Jornal adopta como lema e norma critérios de rigor, de absoluta independência e de pluralismo dos pontos de vista a que dá expressão. O ESTA Jornal aposta, por isso, numa informação plural e diversificada, procurando abordar os mais diversos campos de actividade numa atitude de criatividade e de abertura perante a sociedade e o Mundo. O ESTA Jornal considera como parte da sua missão contribuir para a formação de uma opinião internet representa uma grande janela para o mundo, mas também um estímulo à preguiça. Facilita o acesso à informação e às pessoas, mas, por isso mesmo, também reduz os contactos que podiam ser feitos directamente. No campo do jornalismo, facilita imenso o acesso à informação e à opinião e torna possível, de forma rápida e eficaz, a produção de conteúdos. Esta edição do ESTAJornal começa e acaba com entrevistas feitas por . Outras pessoas, no âmbito de outros assuntos, foram também contactadas e responderam por correio electrónico. E em todos os casos, nomeadamente nas entrevistas feitas a dois Físicos por alunos do ensino secundário, esta é uma excelente forma de ter acesso ao conhecimento. Uma coisa é usar a internet e as tecnologias para obter informação original, que é só nossa. Outra coisa é picar a net e reproduzir citações de determinadas pessoas, feitas a outros ou publicadas em blogues, sem referir a origem da informação. Isso é desrespeitar o trabalho dos outros e não considerar o leitor. Para além do acesso à informação, os receptores esperam honestidade dos produtores de informação. E isto é válido para o jornalismo, como é válido para os trabalhos académicos. pública informada, emancipada e inter veniente - condição fundamental da democracia e de uma sociedade aberta e tolerante. A democracia participativa e entendida para além da sua dimensão meramente institucional, o pluralismo, a abertura e a tolerância são os valores primaciais em que se alicerça a atitude do ESTA Jornal perante o Mundo. O ESTA Jornal considera-se responsável única e exclusivamente perante a ambição e a exigência dos seus redactores, alunos do Curso de Comunicação Social da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes e perante o público a que se dirige. O ESTA Jornal está por isso plenamente disponível e empenhado com os leitores, comprometendo-se a manter canais de comunicação abertos com quantos connosco queriam partilhar as suas ideias e inquietações. Do Titanic à Playboy Diz a história que o primeiro orgulho de Portugal foram os seus navegadores. Bem, em pleno ano de 2010, somos um autêntico país de náufragos. Saúde? No fundo. Economia? No fundo. Impostos? Ah, em alta! Talvez náufragos não seja o termo mais adequado. Digamos que passamos de uma época de descobrimentos para uma época de encobrimentos e carinhas ocultas. Mas enfim, não quero lançar uma teoria da conspiração, senão ainda arranjam maneira de cancelar a minha opinião. Ainda assim, dentro da hipótese de sermos náufragos, questionome sobre o porquê de não se criar um canal subaquático para o TGV. Já que em terra o Governo não acerta uma, talvez fosse melhor tentarmos a nossa sorte debaixo de água. Lá a temperatura até é mais fria, talvez não seja necessário congelar os salários. Portugal está no grupo da morte e não é só no Campeonato do Mundo. Há muito que andamos enforcados por um aglomerado de cordas sem ponta nem fim. A maior delas é a do desemprego que se nos enrola ao pescoço e se estende até aos nossos pés. Depois, outras mais curtas se vão apoderando de nós, a pouco e pouco. A fibra das cordas de que falo, difere. Para os lados de São Bento, o material utilizado nas pequenas cordinhas, é uma fibra especial e quase não dá a volta ao pescoço. Não magoa. Mesmo que magoasse, há sempre um hospital ou outro que não foi encerrado e ao qual se pode recorrer. No restante pais as cordas são das maiores possíveis e mais descuidadas também. João Ruela Tenho apenas a elogiar a credibilidade do Plano de Estabilidade e Crescimento. De facto, estamos estabilizados na mais alta taxa de desemprego de sempre e as dívidas de milhões de portugueses não param de crescer. A carga fiscal também aumenta e Portugal permanece na pole-position para suceder à Grécia. Talvez com o TGV cheguemos lá mais rápido. Vivemos num país injusto, caro leitor! Como deve estar recordado, uma professora de Mirandela foi suspensa por ter posado nua para a revista Playboy. Ora, o Governo português tem estado a despir as finanças do país e, até hoje, não foi sequer repreendido. Devemos A nossa pena Vanda Botas O que será pior? Morrer queimado nas chamas do Inferno, ou desfazer o ordenado dos contribuintes com uma simples ordem. A consciência não pesa a quem pratica tais actos, pois se assim fosse, assistiríamos a uma decapitação em praça pública. Agora até podíamos transmiti-la em ecrãs gigantes, como fazemos nos jogos do Mundial. Certamente o público ia aderir. Por terras africanas as coisas também não são fáceis. No entanto, o tuga já vem habituado a esperar até quando para vermos algum critério de igualdade? É que até a tanga já lá vai! Resignadamente, admito que só nos reste uma solução: esperar por um ensaio de José Sócrates e Teixeira dos Santos para a revista Playboy. Uma produção sem censura e de olhos vendados, bem à imagem de como têm gerido as finanças do país. Sugiro a manchete conheça o interior dos homens que nos obrigam a ir viver para o exterior. Peço desculpa ao leitor pela imagem que acabei de transmitir para o seu cérebro, mas sejamos realistas, será pior que o cenário financeiro e económico do país ao som da vuvuzela? Para concluir, dizer apenas que Sócrates disse ser um confesso admirador de José Mourinho e das suas capacidades de liderança. Bem, a minha mãezinha sempre me disse que os bons exemplos eram para se seguir. sofrer, seja pela situação do seu país seja em jogos do campeonato do mundo. Conseguimos passar de bestas a bestiais e rumar contra a maré. Felizmente, a força e vontade dos onze navegadores parece estar a resultar. O grande problema é que fiquem assuntos por resolver enquanto se vêem jogos do Mundial. Enquanto gritamos por Portugal e tocamos as vuvuzelas os transportes estão em greve e os hospitais fechados. Enquanto fazemos uma pausa no trabalho o tempo não pára e corre com jogadores que lutam por uma final. Não acredito em mortes sem sofrimento e como tal, esta é nossa pena, para que um dia possamos descansar em paz. Em paz mas num mundo que não seja este. Ficha técnica d i r e c to r a : Hália Costa Santos editora executiva: sandra barata P r o j e c to g r á f i co e pag i n aç ão : joão pereira t i r ag e m : exemplares r e dacç ão : Ana isabel silva, João Ruela, Pedro colaço, Pedro correia, Priscila Caniço, vanda botas, Victor francisco.

3 Francisco Moita Flores, presidente da Câmara de Santarém, criminologista e escritor Junho 2010 ESTA JORNAL 3 SOCIEDADE A minha intervenção política é passageira e pouco relevante Pedro Correia O que o levou a candidatar-se à presidência da Câmara Municipal de Santarém? Resultou de uma reflexão cívica. Tinha 52 anos quando me candidatei, senti que trabalhara arduamente acumulando conhecimento, experiência, uma visão ampliada dos problemas urbanos para poder, como independente, fazer uma proposta cívica, e só depois política, a Santarém, cidade onde tinha/tenho um apartamento onde me resguardo para escrever. E foi assim. Muito estímulo, muita gente de vários partidos a apoiar, depois o apoio do PSD e, pronto! Reuniram-se as condições para apresentar a candidatura e acho que valeu a pena. Em quatro anos provocámos uma reviravolta completa em Santarém, projectando-a novamente entre as grandes capitais de distrito e as últimas eleições falam por si. Dos novos vereadores, a minha lista conquistou sete. Como pretende reduzir a dívida da autarquia de Santarém? Herdei uma Câmara sufocada por dívidas. Aliás, o meu antecessor chegou a declarar a falência da autarquia numa entrevista ao Diário de Notícias. Temos vindo a resolvê-la. Devagar, pois que a cidade e concelho tinham necessidade absoluta de investimento. Sobretudo nas escolas e nos espaços públicos que estavam todos degradados. O país vive dificuldades, a Câmara de Santarém vive essas dificuldades, porém, apesar de tudo, não somos das mais endividadas, tendo mesmo recuperado dos excessos de endividamento e situando-se agora nos limites legais. Em Agosto de 2009 afirmou que não votaria em Manuela Ferreira Leite. A que se deveu essa posição? A várias razões, todas elas na altura explicadas e que a vida veio mostrar que não era o único a pensar assim. Quando um país está a viver uma crise intensa e que se percebe ser ainda mais grave, discursos sobre asfixia democrática são adjacentes. Hoje em dia expressa o seu apoio a Pedro Passos Coelho. Que motivos o levam a acreditar na credibilidade do novo líder do PSD? Expressei esse apoio porque sou amigo dele e é um homem sensato. Não sou do PSD.Nem tenho disposição, nem vida para a partidarite. Mas julgo que pode fazer uma boa carreira. Tem o meu apoio enquanto estiver convencido disto. Se vier a desilusão, ficará sem ele, coisa que não lhe fará grande diferença pois a minha intervenção política é passageira e pouco relevante. As relações entre a polícia e a comunicação nunca foram fáceis mas com o programa Casos de Polícia, em que participou, assistimos a um ponto de viragem nestas relações. A que se deveu esse facto? A um desafio que a Polícia Judiciária, na altura, tinha de viver. Tinham surgido os canais privados, as notícias sobre sociedade começaram a abrir telejornais, secundarizando a agenda política, e a polícia sentiu necessidade de se adaptar à nova realidade emergente da mediatização do crime. Fui escolhido para ser esse mediador. Foram dois anos terríveis, intensos e apaixonantes, mas valeu a pena. A partir daí, nada ficou como dantes e democratizou-se a relação entre polícia e comunicação social. Esteve ligado à Polícia Judiciária mais de uma década. No seu ponto de vista, quais as prioridades que a política criminal deveria ter em Portugal? Toca no ponto certo. O nosso problema é a definição de prioridades da política criminal em função das agendas noticiosas e tem sido um desastre. E nem sempre as notícias são o reflexo exacto do real. Os nossos problemas essenciais estão circunscritos a três grandes áreas: os crimes contra as pessoas e a repressão da violência como patamar absolutamente prioritário. Depois consideraria as infracções económico-financeiras e finalmente o tráfico e o branqueamento de capitais. Que meios são necessários para que a Polícia Judiciária consiga diminuir a criminalidade no nosso país? Quando se fala de meios que faltam, e sendo certo que faltam, é lamúria que procura iludir a essência dos problemas. Não são tanto os meios que faltam. Faltam coisas essenciais e sobram outras. Dou um exemplo: toda a prova recolhida pela investigação criminal, testemunhos, confissões, peritagens, não tem qualquer valor em Tribunal a não ser indicativo. Tudo tem de ser repetido até à saciedade. É um absurdo no tempo das novas tecnologias. Como é absurda uma lei processual penal muito permissiva por um lado e muito severa por outro. Por exemplo: O problema é a definição de prioridades da política criminal em função das agendas noticiosas e tem sido um desastre dr Não tenho disposição, nem vida para a partidarite um homicida, mesmo de uma morte violentíssima, não terá prisão preventiva se se provar que tem domicílio certo e não foge. Do outro lado, a lei das armas. Basta que na posse de alguém seja encontrada uma munição de pistola, mesmo que não haja pistola, para essa pessoa ser imediatamente detida e presente a um juiz. É coisa de doidos. Como consegue conciliar a sua vida de autarca com a de escritor? Essa pergunta é recorrente em cada entrevista que me fazem e a resposta é sempre a mesma: o segredo do sucesso é apenas muito trabalho e disciplina. Sou filho de gente pobre, desde rapaz que tive de me fazer à vida, trabalhando muito. A Polícia Judiciária deu-me a disciplina e somando as duas coisas resulta esta conciliação entre a minha vida como escritor e autarca. De onde retira a inspiração expressa nas suas obras literárias? Das mais variadas fontes. Por exemplo, A Ferreirinha foi a minha mulher que me ofereceu um pequeno folheto com a biografia da senhora. Nem fazia ideia que ela tinha existido com a grandeza que teve. Depois foi pesquisar em profundidade e dar uma narrativa dramática quer à série quer ao romance Fúria das Vinhas. Este último romance, Mataram o Sidónio! resultou de um acaso. Estava a estudar o nascimento das ciências forenses em Portugal quando, nos arquivos do Instituto de Medicina Legal, me surgiu a autópsia do Sidónio Pais. Percebi numa primeira leitura que os resultados da autópsia não eram coincidentes com a versão histórica da sua morte e daí resultou mais investigação e este romance. Aliás, investigação já velha, com uma década, tempo durante o qual este romance viveu dentro de mim, à espera de uma oportunidade. Quais as próximas obras com que vai presentear os fiéis seguidores da sua escrita? Tenho uma peça de teatro em fase de finalização sobre Luísa de Gusmão, um livro de contos juvenis que sairá em Novembro. Francisco Moita Flores nasceu em Moura a 22 de Fevereiro de 1953 onde estudou até aos 15 anos. É escritor, investigador e actual presidente da Câmara de Santarém. É conhecido por ser um trabalhador incansável, minucioso e rigoroso, embora com uma actividade policial intensa foi sempre estudante-trabalhador. Licenciou-se em História, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Simultaneamente desenvolveu intensa actividade como escritor. Colabora regularmente em vários jornais e revistas nacionais onde desenvolve estudos sobre a violência e morte violenta. O seu nome está ligado aos projectos da maior qualidade da televisão portuguesa. Já foi várias vezes premiado em Portugal, por exemplo com o título de Grande Oficial da Ordem do Infante. No que respeita à política, é independente. Depois de na juventude ter vivido a euforia decorrente do 25 de Abril (que o apanha com 21 anos), afastou-se de qualquer actividade política. Reside em Santarém (S. Bento) e, confrontado com a degradação da cidade e do concelho, depois de pressionado por amigos, estimulado pela dificuldade da tarefa que tem pela frente, decidiu avançar. O PSD deu-lhe apoio depois de ter ficado claro que o combate que vai travar é pela população e para trazer Santarém para a ribalta do país, sem preocupações político-partidárias.

4 4 ESTA JORNAL Junho 2010 GRANDE TEMA Doar sangue em Abrantes Ana Isabel silva Dar uma gota à humanidade Deitados de braços estendidos, a mão abre e fecha, sorrisos de missão cumprida. Este é o cenário da sala de recolha de sangue, no Hospital de Abrantes. O ânimo é notável nos rostos daqueles que, de três em três meses, ou até mesmo de ano a ano, tomam esta iniciativa. A satisfação é a palavra de ordem. Ana Isabel Silva O Serviço de Sangue de Abrantes, inserido no Centro Hospitalar do Médio Tejo, fecha apenas aos feriados e fins-de-semana, tendo uma excepção num fim-de-semana de cada mês, em que se encontra aberto das 10h00 às 13h00. Tem, também, a particularidade de às terças e quartas-feiras, para além da recepção do sangue, receber as dádivas de medula óssea. Assim que for possível, quero voltar à doação, revela Sílvia Pinto Patrício, grávida de oito meses. Começou na Universidade através das brigadas móveis do Instituto Português do Sangue (IPS). Sou dadora há 10 anos, explicaram-me na altura que não traria efeitos secundários, por isso tomei a iniciativa - explica Sílvia Pinto Patrício. Enquanto os dadores estão deitados a fazer a sua dádiva, Dulce é uma estreante, mas sentese motivada para o voltar a dar. Contudo, só o poderá fazer daqui a quatro meses, o que não acontece com os homens, que podem dar de três em três meses, esclarece a enfermeira de serviço. Como a população jovem está a diminuir, é fundamental para o futuro das colheitas que os jovens adquiram o hábito de doar sangue, explica Gabriel Olim, presidente do Instituto Português de Sangue (IPS), em entrevista por ao ESTAJornal. Este responsável explica a importância das brigadas móveis se deslocarem às Universidades e Politécnicos. Com esta iniciativa, o IPS consegue que, em média, pessoas por dia doem sangue. Enquanto estava a doar sangue pela primeira vez, Dulce, técnica dos tempos livres, diz sem hesitações e entre gargalhadas: É para continuar, claro! Na outra cadeira, encontrava-se Carlos, de 38 anos, trabalhador na construção civil. Não tendo ideia de há quantos anos é dador, confessa ao ESTAJornal: Fui incentivado por uma pessoa de família e comecei a vir. Entre 25 hospitais, fomos considerados os melhores do país no cumprimento das regras, aqui no Centro Hospitalar do Médio Tejo, diz com satisfação Leonor Gonçalves, coordenadora do Centro Hospital Médio Tejo. Enquanto a enfermeira não disser que os dadores podem sair da cadeira eles não saem. Então, lá estavam eles deitados, aguardando autorização para se levantarem. Enquanto isso, a enfermeira faz algumas recomendações para a novata Dulce: Deve beber muita água e não fazer esforços físicos nas próximas horas. Os dadores, depois de fazer a sua boa acção, devem comer. Na sala de recolha de sangue está uma mesa com comida para que possam alimentar-se depois de perder meio litro de sangue. António Neto, de 27 anos, afirma: Agora, sinto-me uma pessoa realizada! Voluntariado. Agora sinto-me uma pessoa realizada Próximas paragens das Brigadas Móveis do IPS no distrito de Santarém A Brigada Móvel, do Instituto Português de Sangue, estará no próximo mês a percorrer o distrito de Santarém. A primeira paragem será no dia 2 em Santarém, na Unidade Móvel. No dia seguinte, a recolha será feita em Tomar e Torres Novas, na Liga dos Amigos dos Bombeiros e no Torres Shopping, respectivamente. A recolha de sangue em diferentes locais resulta é uma das formas de chegar a uma população potencialmente dadora de sangue, como explica, por , a assessora de imprensa do IPS. No caso das escolas do ensino superior, o objectivo é iniciar os jovens numa vida como dadores de sangue, proporcionando-lhes uma experiência única. Basta terem mais de 18 anos de idade e hábitos de vida saudáveis. A assessora garante que, no que diz respeito à dádiva de sangue, e um modo geral, a população é generosa. Nomeadamente quando são feitas campanhas de sensibilização através dos órgãos de comunicação social, a participação da população é grande. E acrescenta que hoje em dia existe uma maior sensibilidade para as causas sociais, apesar da correria do dia-a-dia, há tempo para este gesto da dádiva. Diariamente, 10 brigadas circulam pelo país para procederem às recolhas de sangue. O sangue doado nas dádivas é recolhido de forma voluntária e em pessoas com condições de saúde. O sangue bom é o que nós queremos, não queremos que as pessoas tenham comportamentos de riscos, afirma ao ESTAJornal Leonor Gonçalves, coordenadora do Serviço de Sangue do Hospitalar do Médio Tejo. Depois da falta de sangue registada em Fevereiro do presente ano, o Presidente do IPS, Gabriel Olim, revela, em entrevista por mail ao ESTAJornal, que neste momento têm sido suficientes para 12 dias de consumo normal, o que é muito bom. E acrescenta que, como regra geral, calcula-se que haverá sangue suficiente se 36 em cada mil habitantes doarem sangue uma vez por ano. Neste momento, o índice de doação em Portugal é de 40 por mil habitantes. A.I.S. PUB

5 Junho 2010 ESTA JORNAL 5 GRANDE TEMA Antes da Dádiva: - Tomar o pequeno-almoço, ou seja, não ir em jejum; - Ter uma noite descansada antes do dia da iniciativa; Depois da Dádiva: - Não sair da cadeira sem autorização da enfermeira; - Comer e beber alguma coisa antes de sair do serviço; - Beber muitos líquidos, mais do que habitual, nas quatro horas seguintes; - Não beber bebidas alcoólicas; - Não fumar durante, pelo menos, uma hora. Brigadas Móveis: Equipa de médicos, enfermeiros e assistentes do Instituto Português do Sangue que se desloca a escolas, Universidades, Politécnicos, Centro de Saúde, entre outros, para fazer a recolha de sangue junto da população local. Instituto Português de Sangue: Tem como principal objectivo organizar o sector da medicina de transfusões, mas também é responsável pela disponibilidade e acessibilidade ao sangue, bem como à componente sanguíneas de qualidade. Obter o cartão de dador: Qualquer indivíduo que tenha feito, pelo menos, uma dádiva tem direito ao cartão. Como o cartão é feito pelo IPS, não o obtêm de imediato, ficando assim com uma declaração, tendo o mesmo efeito. Com este cartão, os dadores estão isentos de pagar taxa moderadora nos hospitais e também podem entrar nas visitas quando estas têm limite. Isto apenas acontece se o cartão estiver actualizado. Leonor Gonçalves, Coordenadora do Serviço de Sangue do Centro Hospitalar do Médio Tejo Portugal não é auto-suficiente, mas tem melhorado No seu gabinete, no Hospital Dr. Manuel Constâncio, em Abrantes, Leonor Gonçalves fala sobre o seu começo na Hemoterapia, a sua especialidade, mas também da dificuldade em conciliar a sua actividade profissional com a vida privada. Embora não tenha sido a sua primeira opção, é agora perita nas inspecções ao serviço de sangue de todo o país. Tem a seu cargo o serviço de sangue de três hospitais: Torres Novas, Tomar e Abrantes, o Centro Hospitalar do Médio Tejo. Ana Isabel Silva Passados alguns meses depois da falta de sangue no Instituto Português de Sangue (IPS), Leonor Gonçalves afirma que o Centro Hospitalar do Médio Tejo em Abrantes é o que está estagnado nas colheitas. No global, a estatística tem aumentado, ou seja, agora como o funcionamento é conjunto, os três colhem e dá de uns para os outros, explica a médica, referindo-se à união dos três hospitais do Médio Tejo. A coordenadora explica como se organiza a recolha de sangue nos três hospitais: Não temos ninguém a ajudar-nos. O Instituto Português do Sangue colhe aqui, como colhe nos outros hospitais. Em Torres Novas há muitos dadores, mas também Ana Isabel silva não fazemos campanhas. Os dadores têm uma boa adesão ao serviço. Por outro lado, em Tomar há uma associação que trabalha nas ajudas aos dadores, o que não acontece em Abrantes, pois o número de dadores mantém-se. Quando, em Fevereiro, houve a falta de sangue e o presidente do IPS, Gabriel Olim, o comunicou aos órgãos de Comunicação Social, a região do Médio Tejo não foi afectada. Leonor Gonçalves refere a situação de estabilidade: Nós não tivemos falta de sangue, aqui, nessa fase. Normalmente temos sempre os nossos stocks estáveis. E este foi um dos motivos pelos quais o Centro Hospitalar que coordena em termos de colheitas de sangue foi referido pelo Instituto e pelo Dr. Gabriel Olim como sendo um dos poucos hospitais que se mantém sempre na zona verde. A médica acrescenta ainda que as faltas de sangue em Portugal são pontuais. Portugal não é auto-suficiente, mas tem melhorado nesse sentido. Na opinião de Leonor Gonçalves, Gabriel Olim tem tido um bom relacionamento com os hospitais e uma política certa. Isso viu-se agora nesta falta de sangue, na forma como se dirigiu à população. Nesta perspectiva, a coordenadora acha que as pessoas, principalmente os jovens, estão sensibilizadas para dar sangue. Recentemente, o Bloco de Esquerda levou à Assembleia da República uma questão relacionada com as colheitas de sangue, alegando que os homossexuais estavam a ser discriminados nalguns hospitais, onde eram rejeitados como dadores. Para Leonor Gonçalves, este é um caso bastante polémico, que precisa de ser tratado com bom senso e que não se faz por lei, nem por decreto. Para esta médica, este não é o ponto principal, mas sim as pessoas que têm comportamentos de risco e que levam a que o sangue possa transmitir doenças. A coordenadora do Médio Tejo caracteriza este serviço como sendo uma fábrica que comercializa um produto e, por isso, a pessoa que está a ver os dadores tem que ser bem informada e tem que saber se é homossexual ou heterossexual, mas também ter um bom relacionamento, para saber se está a dizer a verdade e se é uma pessoa de risco. Leonor Gonçalves acredita que deve haver muito homossexual que não é de risco, que sabe proteger-se, que não está infectado e que quem está infectado saiba como é que se infectou. E conclui a sua ideia dizendo que é fundamental ver caso a caso: Mas dizer por decreto que têm que dar, ou podem dar pelo facto de serem homossexuais também não! Portanto tem que ser o médico a avaliar e ter bom senso. Quando se fala um pouco mais de si, e pelo que já fez pelo serviço de sangue, a médica revela: Eu tenho a minha consciência mais ou menos tranquila, eu lutei muito pelos serviços de sangue, até no país, fazendo com que se mantenha um serviço de qualidade, mas também para que se mantenham os dadores nos hospitais, até porque acho que é importante, para sermos auto-suficientes. O seu sonho desde pequena era ser anestesista, mas por força do destino, ou porque o seu marido já o era, foi então para esta especialidade, que era nova e que poderia ser importante. Actualmente, admite que esta foi uma boa opção, adaptou-se e hoje exerce-a da melhor forma. Com um sorriso no rosto, a coordenadora termina: Quando me reformar penso que vou ter a sensação que poderia ter feito mais. Fonte: Estabilidade. O Centro Hospitalar do Médio Tejo não se sentiu falta o problema de falta de sangue

6 6 ESTA JORNAL Junho 2010 SOCIEDADE Funerárias Eles trabalham ao lado da morte Esta podia ser a história de personagens de uma qualquer série televisiva americana, mas a HBO já pegou no conceito e criou aquela que viria a tornar-se num clássico. Trata-se de Six Feet Under (Sete Palmos de Terra), na qual os donos de uma agência funerária vivem e trabalham no mesmo local. A realidade portuguesa é bem diferente. Os agentes funerários trabalham cara-a-cara com a morte e, apesar de não estarem no topo da lista das profissões mais estranhas do mundo, alguém tem de as fazer. Pedro Colaço Há quem fuja da morte a sete pés e há quem precise dela para sobreviver. João Martins é uma dessas pessoas. Está atrás de uma secretária a poucos minutos do centro da cidade das Caldas da Rainha. O espaço, em nada se assemelha às funerárias tradicionais. O conceito é moderno e menos sombrio, com candeeiros e mesas actuais ou não tivesse a agência aberta desde Novembro do ano passado. João Martins tirou o curso de Design em Lisboa. Já trabalhou como segurança privado, mas foi na agência que encontrou dinheiro palpável ao fim do mês, ainda que também neste ramo se sinta o peso da crise económica. Em alturas de vacas gordas fazíamos os chamados funerais bons. Entre os 1500 e 2000 euros. Hoje, as pessoas querem o mais barato, revela. Já tinha trabalhado numa funerária. Saiu, mas voltou e garante: Não volto a sair. Não exerce o que estudou porque diz não haver mercado e, quando há, o ordenado é mínimo. Já fez tudo e não vê o porquê de não trabalhar com pessoas mortas. João tinha medo de chegar a casa, fechar os olhos e ter pesadelos. No início tudo fora estranho. Queria olhar, mas depois não queria, diz ao lembrar-se de como era antes de o hábito lhe tomar conta das acções. Hoje diz olhar para um corpo como se de uma pessoa viva se tratasse, a única diferença são os olhos que estão fechados. Lidar com pessoas fragilizadas diz ser algo que lhe custa. Recorda alturas em que não sabe como falar com as pessoas que soluçam e gritam à sua frente. E tens sempre perguntas para fazer que são inevitáveis, mas tens medo de as magoar, conta João. Afirma-se quase como um psicólogo, ao ter de falar com pessoas em estados emocionais desequilibrados e profundamente angustiadas. Ri-se e franze a sobrancelha ao falar da sua própria morte. Mas não tem medo. Se existe alguém lá em cima que me queira levar, é quando quiser. Perdi o medo. Ao mesmo tempo deixa escapar a pergunta: Como é que pode haver vida depois da morte?. Diz ser tudo uma fachada e acusa a igreja de lavagem de dinheiro. É uma empresa. Para benzer um crucifixo tens de pagar. Passam facturas. Vejo Padres com carros que eu nunca vou ter. Na série americana, a família Fisher, que detinha a funerária, estava prestes a ser engolida por um grande grupo de empresários. Mas o problema que existe aqui é outro. Bem mais simples, mas capaz de acabar com a boa camaradagem. Até nesta profissão a rivalidade não se compadece. Quando uma funerária faz 20 e outra faz 15 funerais, os ânimos aquecem, conta João Martins. E explica que cada agência tem uma zona, mas que acabam por entrar nas zonas uns dos outros e por se difamar entre eles. É normal em todo o lado, acrescenta. Quanto a esta rivalidade entre agências, Augusto Dias, sóciogerente da Funerária Paulino, em Abrantes, fala em boa vizinhança entre funerárias. Diz haver uma boa relação e dar-se bem com todos. Não deixa, no entanto, de reconhecer que são um caso à parte: Em Castelo Branco já andaram aos tiros. Augusto Dias exerce a profissão há vinte anos e começou como um negócio de família. O seu tio estava à frente da funerária que abriu quando veio do Canadá onde era emigrante. No Canadá tinha padarias, mas em Portugal os pães passaram a ser outros. O espaço cheira a flores, mas não é uma florista. Também cheira a velas. É uma agência funerária aberta há 60 anos. Augusto trata de tudo. Levanta o certificado de óbito dado pelo médico, marca o cemitério e prepara o serviço religioso. Ainda veste e arranja as pessoas em casa ou nos hospitais. Queixa-se dos horários incertos da profissão, mas o que PEDRO COLAÇO o mais aborrece são as dívidas que se acumulam na secretária e que se apressa a mostrar. Chega-se a casos de penhora, ainda que facilitemos com crédito e com várias modalidades de preço, explica. Abrantes inaugurou em Novembro de 2007 um novo cemitério, conhecido pela semelhança com os cemitérios tipicamente americanos. Luísa Oliveira, uma habitante da cidade, espelha algumas opiniões gerais quanto ao local. Prefiro ser cremada, do que ir para um campo de futebol, afirma. Também fazemos funerais lá, refere Augusto Dias. Segundo este profisisonal, ninguém escolhe para qual cemitério vai, pois são obrigados. Agora este cemitério de Santa Catarina vai entrar em obras, uma vez que não há mais espaço, afirma. Inicialmente existiu alguma polémica em relação a este tipo de cemitérios, mas é agora preparado o segundo talhão, como explica Augusto. Também Augusto Dias conta o seu período de adaptação à actividade. Conta que se interrogou se seria o sítio certo para si: Custa mais aos bombeiros retirar as pessoas de dentro de carros do que a minha função. E conclui: Às vezes vemos pessoas com dez dias a apodrecer. Não é pelo dinheiro, mas alguém tem de fazer o trabalho! Explicar a morte às crianças As pessoas temem a morte. Ela é complexa, envolve questões e desafia conceitos culturais. Saramago no seu livro, Intermitências da Morte, disse: No dia seguinte ninguém morreu. E, se assim fosse, os pais não tinham de se preocupar com explicações. Mas isso não acontece. A morte continua a ser inevitável e desconhecida e, acima de tudo, um tabu. Os adultos não a percebem, mas para as crianças a questão é de extrema complexidade. Mesmo para os adultos é um tema difícil de lidar e mais ainda quando o têm de explicar às crianças, afirma Liliana Dias, da Associação Vidas Cruzadas. Trabalhou no IPO de Lisboa, na área da pediatria, e teve de lidar com crianças num processo de aproximação à morte, mas também com doentes oncológicos. Actual psicóloga no CAFAP, Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental, e tendo já passado pelo Centro de Saúde de Abrantes, actualmente trabalha com crianças inseridas em famílias negligentes ou vítimas de maus tratos e violações, mas não perde a componente da psicologia na área do luto. Liliana Dias explica que as crianças, quando são pequenas, não percebem conceitos necessários para a compreensão da morte em todas as suas dimensões como a irreversabilidade e a universalidade: A compreensão sobre a morte nas crianças mais novas depende muito da sua fantasia e magia que caracterizam esta fase de desenvolvimento. A psicóloga afirma a necessidade de explicar de forma simples mas não esconder, ainda que esta não seja uma tarefa fácil. Deixar a criança perceber que se vai deixar de ver determinada pessoa e assegurar que não vai ficar sozinha mantendo ao máximo as suas rotinas habituais. É preciso deixar claro para que a criança não se veja como culpada, porque naquele dia se portou mal, por exemplo, explica. Se os pais ou algum familiar estiver doente, Liliana Dias explica a importância da necessidade de fazer um trabalho de preparação. Ainda assim, nem todas as mortes podem ser preparadas e o choque acaba por ser inevitável. Levar uma criança a um funeral, depende muito dos casos. A criança não deve ver adultos emocionalmente descontrolados, refere. Mas alerta para a necessidade de uma despedida: Deixar uma flor ou escrever uma carta são óptimos métodos. Liliana Dias faz ainda uma distinção entre culturas: Para nós a morte é algo muito sofrido. Para algumas culturas a morte é uma libertação. Encontra uma certa protecção quando os pais fantasiam sobre o assunto e dizem, por exemplo, que o avô se transformou numa estrela. Explicar a realidade, nua e crua, é bem mais realista, mas mais assustador, diz. Conta um caso de uma criança de cinco anos que tinha medo de crescer e de fazer anos, porque pensava que ia morrer. Há ainda as crianças que começam a ter medo das doenças. Se a mãe tem uma constipação, têm medo que morra. É natural e faz parte do processo de crescimento, conclui. P.C.

7 Junho 2010 ESTA JORNAL 7 SOCIEDADE João Ruela João Ruela Jornalista colaboradora da Revista Sportlife, Filipa Vicente é licenciada em Nutrição e Engenharia Alimentar, pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz e está a terminar o Mestrado em Patologia Experimental na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Dá aulas práticas de Gastrotecnia, do curso de Ciências da Nutrição na instituição onde se licenciou e trabalha como nutricionista no Instituto do Corpo em Lisboa, além de acompanhar atletas de lazer em BTT e corrida em várias distâncias. É também co-autora do livro Correr por Prazer - já correu hoje?, fruto da sua participação regular no webzine de corrida Correr por Prazer. Em entrevista, sugere fórmulas para uma alimentação mais saudável e para uma vida com mais exercício. Defende em muitos artigos que não há desporto que valha sem uma alimentação saudável. Que regime alimentar adopta? Eu acredito que não existe uma fórmula ideal, por isso a alimentação saudável é aquela que melhor se adapta às nossas características, gostos, cultura, tradição e Filipa Vicente, nutricionista O povo português está muito mal habituado que é compatível com os nossos objectivos. Sendo uma adepta de culturismo, segue os príncipios básicos da nutrição culturista? Sim. Depois de muito exprimentar, encontrei um equilíbrio saudável entre alguns princípios da fórmula culturista - elevada em proteína e controlada em hidratos de carbono. Privilegio sobretudo três regras: um bom fraccionamento das refeições, tomar sempre o pequenoalmoço e não ingiro açúcares ou gorduras de adição. Aposto muito em fontes de hidratos de carbono pouco refinados, como aveia, arroz e massa integral, batata-doce, leguminosas, verduras muitos variadas, carnes brancas, peixe, frutos secos e fruta fresca com moderação. Todos os culturistas, até mesmo os profissionais, têm as suas escapatórias à rotina. Quais são as suas? Gosto muito da cozinha tradicional e aprecio um bom cozido à portuguesa, embora seja muito cuidadosa na escolha das carnes, não consumindo, por norma, carne vermelha ou enchidos. Quando quero fazer um excesso procuro sempre que tenha um objectivo - premiar, variar, etc. Acima de tudo, que me saiba bem no lugar de comer só por gulodice. Aproveitando a sua referência à comida tradicional portuguesa, que comentário lhe merecem os hábitos alimentares dos portugueses? Penso que a globalização tem feito os seus estragos, mas o que me assusta mais é a perda da identidade e da cultura, além do gosto pela comida em si. Comer por comer tem essa consequência. Facilmente as pessoas descuram a escolha dos alimentos que compram para ter em casa, e na hora comem qualquer coisa. Além disso, a alimentação é muito falada e todos têm a sua fórmula. Mas ter a fórmula significa saber o que se come? Diria que não, as pessoas restringem alguns alimentos e confiam muito noutros sem entenderem que o segredo está no equilíbrio das quantidades, da diversidade e sobretudo na qualidade. Qual o papel do nutricionista na luta contra os maus hábitos? O nutricionista tem uma responsabilidade acrescida de explicar a todos os seus doentes que não interessa seguir um plano durante três meses pensando que é a solução para todos os problemas, e já agora voltar a ele um ano depois quando o Natal e a Páscoa voltaram a fazer das suas. Penso que devemos sobretudo ensinar a pessoa a comer e mostrar como se podem apreciar os alimentos de que mais gostamos, mantendo hábitos saudáveis e conseguindo os resultados pretendidos. Mas para isso é também necessário que a Consulta de Nutrição seja encarada como tal e não como a fórmula mágica para o Verão. É preciso promover um acesso mais facilitado, como em parte tem vindo a ser feito, com a inclusão de nutricionistas nos Centros de Saúde e não apenas no privado. O sedentarismo na nossa sociedade deve-se à falta de tempo ou ao zapping televisivo? Cito uma frase que tenho na primeira página do livro de que sou co-autora: Quando uma pessoa diz eu simplesmente não tenho tempo para o exercício, o que essa pessoa quer essencialmente dizer é o exercício não é uma grande prioridade para mim. A frase é do ultramaratonista Dean Karnazes, um dos meus grandes ídolos. Não acredito que todos possamos ser grandes atletas e ter uma prática desportiva de fazer qualquer um bater-nos palmas, mas penso que fazer alguma coisa é melhor que não fazer nada. E a esse respeito, penso que o povo português está muito mal habituado. Das três faixas etárias, quais são aquelas que lhe parecem mais dedicadas a um estilo de vida saudável? Neste momento, penso que os mais dedicados vão dos 35 aos 50 anos, habitualmente homens e mulheres casados, que encontram na actividade física um escape ao seu dia-a-dia, e querem ser um bom exemplo para os filhos. Os bons hábitos de um estimulam o cônjuge que acaba por entrar no esquema, e os dois juntos fazem mais do que 1+1. É da opinião que adoptar um estilo de vida saudável é mais dispendioso do que comer fast-food? Embora os alimentos menos bons sejam normalmente mais baratos, fazer boas escolhas não é caro nem obriga a que se comprem alimentos esquisitos e muito difíceis de preparar. Por vezes é necessário pôr a mão na consciência e analisar correctamente a lista de compras e o talão de supermercado para vermos exactamente onde gastamos mais dinheiro. Felizmente, algumas superfícies de distribuição alimentar já começam a disponibilizar receitas relativamente saudáveis e a incluir o custo por porção. Quais são os seus principais conselhos para incentivar à prática de exercício físico? O meu principal conselho vai de novo ao encontro de uma expressão do Karnazes, dêem passinhos de bebé. Não recomendo a ninguém que mude radicalmente os seus hábitos alimentares de um dia para o outro, devemos privilegiar alguns hábitos essenciais como tomar sempre o pequeno-almoço, não passar mais de três horas sem comer, eliminar açúcares e gorduras (açúcar no café, molho na salada, sumos e refrigerantes açucarados). Ao mesmo tempo tentem ser mais activos, mesmo que não pratiquem propriamente uma actividade formal e programada: subam as escadas, vão almoçar um pouco mais longe e a pé, vão ao mercado comprar verduras frescas de bicicleta ou a pé. Enfim, pequenas mudanças que levam ao aumento dos gastos calóricos no dia-a-dia, sem prejudicarem muito a vossa agenda pessoal e profissional, estes hábitos se forem adquiridos no verão poderão ajudar a ultrapassar o medo de ganhar peso nos longos invernos que estamos a ter. A esse respeito, no tempo frio, aproveitem bem a hora de almoço. Como melhorar as refeições dos portugueses? Aos poucos vão melhorando a vossa alimentação, diminuindo por exemplo a frequência com que comem o bolo preferido, sem deixar de o comer, racionando a dose de pizza, incluindo sempre verduras no prato o que diminui a quantidade de carne/peixe e acompanhamento, cortando para metade o prato de batatas fritas e pedindo mais arroz. Parece pouco, mas todas estas mudanças podem significar reduções na ordem das 50 a 100kcalorias/ dia, o suficiente para perder pelo menos meio quilo por mês. Está mais do que provado que as pequenas mudanças têm mais sucesso e tendem a ser mantidas ao longo do tempo. O bodybuilding é um estilo de vida Aquilo que começou por ser uma recomendação médica acabou por se tornar numa paixão. Entre a faculdade e o trabalho como bagageiro de hotel, Tiago Ramos consegue tempo e motivação para treinar diariamente e procurar levar o corpo a expandir os seus limites. O jovem de 23 anos fala sobre a sua experiência, os seus objectivos e um desporto que é incompreensivelmente olhado com preconceito em Portugal. Entrei para o ginásio por causa de uma hérnia discal. Precisava de ganhar massa muscular para corrigir o problema. Depois, à medida que os pesos iam aumentando, apercebi-me que a paixão e o prazer em treinar também aumentavam, recorda Tiago, que já conta com quatro anos de treino. O bodybuilding é um desporto que, para além do árduo trabalho de ginásio, requer muitos cuidados a nível nutricional, algo que Tiago Ramos garante não ser problema: Os bodybuilders são as pessoas que mais percebem de nutrição no mundo. Procuram saber tudo sobre todos os alimentos e sobre as suas composições, e sabem melhor que ninguém como Tiago Ramos tirar proveito dos seus nutrientes. O menu de um bodybuilder gira à volta de proteínas magras, legumes, leguminosas, vegetais, hidratos de carbono complexos e gorduras boas, evitando açúcares e gorduras. Isso leva Tiago Ramos, na sua vida social, a ser constantemente questionado sobre as suas escolhas. Acham estranho não comer isto ou aquilo, perguntam se estou de dieta, acaba por ser cansativo... mas vou-me mantendo fiel ao meu estilo de vida. Em Portugal, a nutrição é muito desvalorizada, afirma Tiago. A alimentação em Portugal é demasiado focada em hidratos de carbono e gorduras de má qualidade, algo desnecessário e incorrecto. Ainda assim, os próprios bodybuilders também têm os seus desejos e uma vez por outra é perfeitamente normal ceder a um capricho. Eu raramente como fast-food, mas uma vez ou outra lá vou ao McDonald s e como uns quantos hambúrgueres, mas sempre sem molhos, sal, batatas e refrigerante. No bodybuilding, o trabalho de ginásio é feito com cargas muito pesadas, levando os praticantes a terem necessidades nutricionais acrescidas para recuperar fisicamente. Para isso, o recurso aos suplementos torna-se útil, embora haja muito preconceito infundamentado, explica Tiago. Eu mesmo já tive esses preconceitos antes de me informar correctamente. Uma coisa são os suplementos alimentares, outra coisa esteróides anabolizantes. A suplementação é essencial para qualquer praticante sério de desporto. Consciente das suas limitações físicas e genéticas, Tiago admite que só muito dificilmente poderá chegar a uma competição de fisioculturismo. Ainda assim, não deixa de estabelecer objectivos: Quero aumentar a massa magra e ficar o mais pesado e seco possível e, acima de tudo, ter uma vida saudável e sentir-me bem com o meu corpo. Quero também acabar a minha licenciatura (em Turismo), uma vez que só me faltam duas cadeiras. Convidado a descrever o que significa o bodybuilding para si, Tiago é directo: É um estilo de vida, com muitos sacrifícios, privações e injustiças. É, resumidamente, uma paixão! J.R.

8 8 ESTA JORNAL Junho 2010 SOCIEDADE Escola Secundária Marquesa de Alorna, em Almeirim, proporciona alimentação saudável Apenas temos que colocar um pouco de sal na sopa Com a legislação que saiu em 2007, os refeitórios e bares das escolas ficaram com poderes de boa alimentação. Os profissionais de saúde já defendiam há muito tempo a sua aplicação nas instituições de ensino. A Escola Secundária Marquesa da Alorna é um dos bons exemplos desta nova Era Alimentar. Priscila Caniço Batatas fritas empacotadas, refrigerantes, bolos com creme, fritos e águas gaseificadas com sabores são os alimentos que estão proibidos de entrar na Marquesa de Alorna de Almeirim. Medidas criadas devido às novas directivas do Ministério da Educação, colocadas em prática pelo professor Joaquim Borda Água, director-adjunto do Conselho Executivo. A instituição é palco diário de algumas críticas dos alunos, mas Joaquim Borda Água descarta-se afirmando que isso tem a ver com a legislação que foi colocada em vigor, em que as escolas têm de apostar numa alimentação mais saudável. Existe apenas um tipo de doces que são permitidos no buffet: os chocolates com um peso máximo de 50 gramas e alguns tipos de gelados. O pastel de nata é o único bolo com creme que aparece na vitrine; os restantes são bolos de pão, como caracterizam os alunos. Por outro lado, no refeitório, o professor afirma que na Marquesa de Alorna de Almeirim estão a ser cumpridas todas as normas e talvez um pouco mais do que nos sugerem. Joaquim Borda Água acrescenta: Aqui o aluno não pode acusar o local com falta de variedade, porque estão sempre disponíveis três diferentes categorias de saladas. Reforçando a ideia, há dias em que oferecemos mais variedade, desde ervilhas, alface, cenoura, rabanos, tomate e pepino. Acrescenta ainda que, neste momento, o refeitório está com uma afluência de 200 almoços o que é muito significativo para nós. Isto apesar de terem tomada a decisão de limitar as batatas fritas nas refeições, que apenas são feitas duas vezes por mês. Uma das vantagens desta instituição é que, para além das refeições serem variadas, todas elas são preparadas diariamente por funcionárias na própria cantina, não recorrendo a serviços exteriores. Assim, conseguem oferecer e garantir uma melhor e maior qualidade aos alunos e professores. Outro dos incentivos que dão aos alunos para almoçarem na cantina é o preço da refeição, que é de Com esta nova fase, o buffet ficou com pão integral e de mistura, o pão branco apenas é consumido para as tostas. Bolos sem creme, frutas da época e alguns sumos enpacotados de polpa, chocolates e gelados. Outra inovação que veio para ficar foi a máquina para fazer sumos de laranja. Comprámola há cinco anos e primeiro os alunos estranharam-na e depois entranharamna. Pagam 60 cêntimos por um copo de sumo natural de laranja, o que significa que, às vezes, a escola tem prejuízo, porque o preço de quilo é muito elevado. Em frente da instituição existem vários cafés onde os alunos se deleitam com os bolos com creme e com os refrigerantes. Joaquim Borda Água faz o que pode: Por vezes, comento com os miúdos que os preços são mais elevados do que os da nossa escola. Mas eles preferem pagar o dobro lá fora, quando podem ter aqui mais qualidade pela metade do preço. O que é mais problemático, no ponto de vista do professor Borda Água, é que, como os pais das crianças não têm hábitos alimentares saudáveis, não sabem transmiti-los para os seus filhos e depois com a concorrência desleal que temos é difícil. Ricardo Senhorinho, aluno da escola, é o reflexo destas afirmações. Prefere almoçar em casa, porque são outros cozinhados. Na comida de casa colocam mais gordura do que na da escola. Lá como batatas fritas, carne frita e guisados. Apesar dos seus 12 anos de idade, tem consciência que este tipo de alimentação não é a mais adequada. Mas eu também não a como todos os dias. Eu até pratico karaté. A sua atitude em casa é passiva. Ao ser confrontado com os perigos dos fritos para a saúde, Ricardo não alerta nem a sua mãe nem avó, pois estas defendem que é um tipo de comida rápida e acessível. Miguel Vieira, 12 anos, partilha da opinião do colega, visto que na sua casa também se comem fritos. Já avisou a mãe para os perigos desta alimentação e mostra-se disponível para mudar os seus hábitos alimentares. Em relação ao almoço na cantina, os dias de peixe não o seduzem, optando por uma bifana e um compal manga laranja no bar da escola. É devido ao preço aliciante das refeições da cantina que Tatiana Carvalho Cantina ganha em preço e qualidade opta por lá almoçar. Sou subsidiada e por isso sai-me mais barato comer na cantina do que no café. Em comparação com as refeições de outras escolas que já frequentou, a aluna afirma que prefere o actual estabelecimento de ensino pois a comida é melhor, apenas temos que colocar um pouco de sal na sopa. A explicação do porquê destes cortes fica a cargo do professor de Biologia, João Coco Martins: Os alimentos retirados do buffet são desnecessários. Os fritos contêm excesso de óleo e sal o que provoca obesidade. No caso dos Ice-Tea, contêm aditivos excitantes, como é o caso da cafeína e taína, não sendo aconselhados à alimentação dos adolescente porque em muitos casos provocam excesso de nervosismo. Além de todas estas problemáticas, os aditivos excitantes actuam ao nível do sistema nervoso central provocando uma certa habituação e dependência. O professor aconselha os seus alunos a alimentarem-se na cantina. São refeições mais equilibradas porque contêm vários grupos alimentares necessários a uma alimentação equilibrada,tais como proteínas, nutrientes, sais, vitaminas entre outros. Por outro lado, ao alimentarem-se no bar apenas vão absorver o amido do pão, os conservantes e o excesso de açúcar dos sumos empacotados. Sempre atento as características da nossa sociedade para situações múltiplas, João Coco muitas das vezes tem um papel complementar na educação dos seus alunos. Afirma que o professor tem obrigação, quanto mais não seja moral, de contribuir para a formação do seu aluno. Isto porque, infelizmente, muitas das famílias não têm capacidade para fornecer essas indicações aos seus filhos, tornando revelante o papel do professor. Consumo abusivo de álcool nos jovens DR Pedro Correia Se eu não beber sou o único que está sério. Fico à parte do grupo. Este é um dos comentários que uma enfermeira, contactada pelo ESTAJornal, ouve com frequência quando lida com jovens alcoólicos. Chegam-lhe ao hospital com alterações de comportamento, pânico, convulsões, quadros depressivos. Alguns têm antecedentes de alcoolismo no seio familiar, nomeadamente os pais, e o consumo de alcoól acaba assim por ser um refúgio da adolescência. Tudo porque não tem graça sair sem beber. Jorge é um jovem com opinião formada sobre este tema. Revela que, com uma idade por volta dos 16 anos, a cultura portuguesa leva os jovens ao álcool. Concorda que é muito cedo e que, apesar de ser um comportamento generalizado, nem tudo deve ser aceite: Como sou rapaz, é natural que isso aconteça, mas no entanto existem limites. Diz ainda que às raparigas Rapazes. Aos 14 anos muitos já se embebedaram, mas às raparigas fica mal que bebem de mais fica-lhes mal, porque este comportamento ainda não é aceite pela sociedade em geral. Segundo a enfermeira contactada, muitos jovens com 14 anos já se embebedaram. Mas a percentagem aumenta substancialmente quando se trata de jovens com 18 anos. Metade dos adolescentes nesta idade admitem que se embebedam. O tipo de alcoolismo actual com que a sociedade portuguesa se depara é mais grave pois há fenómenos como o binge drinking beber muito num curto período de tempo principalmente ao fim-de-semana e ao qual surgem associados problemas como a violência, os acidentes de viação e o sexo desprotegido com desconhecidos. Fátima Ismail, presidente da Sociedade Portuguesa de Alcoologia, revelou, em declarações ao Jornal de Notícias, que os jovens que consomem álcool em excesso não o fazem porque têm uma dependência mas sim porque é socialmente bem aceite. Chamou a atenção para a desvalorização que os pais atribuem ao facto de os filhos aparecerem de vez em quando embriagados. É fundamental sensibilizar as famílias que as bebedeiras frequentes nos jovens são tão graves como o consumo de drogas ilegais. A especialista não está alarmada com os dados apresentados, mas afirmou que, quanto mais precoce for o hábito de consumir álcool, mais fácil será para as pessoas ficarem alcoólicas. Fernanda Feijão, autora de um estudo que se realizou em 600 escolas do país e abrangeu 18 mil jovens, disse, também, numa entrevista dada ao Jornal de Notícias, que o consumo de álcool nos rapazes é mais elevado do que nas raparigas. 13% dos rapazes com 18 anos dizem que precisam de mais de dez bebidas para se embriagarem. Salientou que, ao contrário das raparigas, que são muito mais comedidas, os rapazes a partir dos 16 anos acham-se muito valentões e por isso crêem que precisam de mais de dez bebidas. Já Rui Tato Marinho, presidente da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado, fala, numa declaração que está ao alcance de todos no site www. drogas.misterquim.com, de casos de cirrose hepática na juventude, alcoólicos puros, que bebem uma garrafa de uísque por noite.

9 Futsal Feminino Equipa Riachense na Taça Nacional A Taça de futsal feminino é a única competição de carácter nacional para as equipas que passam o ano inteiro a jogar nos campeonatos distritais. O campeonato nacional da modalidade há muito que é reclamado, mas por agora ainda não existe. Os campeões de cada distrito reúnem-se em vários grupos, com quatro equipas cada. Nesta primeira fase, os jogos disputam-se a duas voltas, efectuando as equipas três jogos em casa e três fora. No final são apurados apenas os primeiros lugares, reduzindo assim o número de equipas participantes. Seguem-se as meias-finais e a final para decidir quem fica com o desejado troféu. O representante do distrito de Santarém voltou a ser, este ano, o Clube Atlético Riachense (CAR). Depois de no ano passado não ter conseguido alcançar o primeiro lugar e, consequentemente, o apuramento para a Taça, a equipa feminina do CAR regressou à competição nacional. Em anos anteriores a equipa já tinha experimentado esta competição e por isso mesmo este ano o objectivo era ambicioso. Não vamos apenas pela experiência nem para marcar presença, vamos disputar o acesso à fase seguinte e desta vez é para passar! As palavras do treinador Riachense, Paulo Mira, elucidavam o espírito que toda a equipa levou para a participação na prova. Do grupo das riachenses faziam parte as equipas de Golpilheira (Associação de Futebol de Leiria), Estação da Covilhã (Associação Futebol Castelo Branco) e a equipa de Posto Santo (Associação Futebol Angra do Heroísmo). No primeiro jogo em casa, a turma dos Riachos ganhou por quatro bolas sem resposta dr Resultados. Cometemos erros que não podiam acontecer. à equipa do Posto Santo. De visita à ilha, em fim-de-semana de festas locais, a equipa voltou a ganhar pelo mesmo resultado. No regresso ao continente, o CAR perdeu os dois jogos com a Golpilheira, que era à partida o principal favorito à passagem. O primeiro acabou por ser uma pesada derrota, mas em casa das leirienses a equipa de Santarém apresentou-se bem e apenas perdeu por 3-2, com um golo já nos minutos finais do encontro. Com estas duas derrotas era necessária uma conjugação de resultados muito difícil para que fosse possível alcançar o primeiro lugar do grupo. Com a equipa da Covilhã, os resultados foram os mesmos. A lutar apenas pelo segundo lugar, as riachenses perderam em casa e fora. Tal como defendia o seu treinador, cometemos erros que não podiam acontecer. O sonho do CAR ficou pelo caminho. A equipa da Golpilheira foi mais forte e em seis jogos conseguiu outras tantas vitórias. Todas as equipas se esforçaram para demonstrar que a prova deve ser respeitada. O mérito foi de todos naquela que é a única montra para excelentes atletas que jogam apenas em campeonatos distritais. V.B. Junho 2010 ESTA JORNAL 9 DESPORTO Campeonato precisa-se Vanda Botas Opinião Os jogos em equipa têm por base a união, o espírito de grupo e a promoção do desporto. No entanto, esta mesma promoção torna-se difícil quando falamos no futsal feminino. Os campeonatos nacionais são apenas para algumas modalidades. Não existe explicação para que assim aconteça. Pela falta de competitividade não é certamente, nem pela falta de valor e potencial em jogadoras dos campeonatos distritais. Mas a realidade é que nada disto tem sido motivo suficiente para que o campeonato nacional de futsal feminino surja. As vantagens seriam muitas e confesso que contrariedades não encontro. A não ser, claro, o factor custo. Mas esse, existe quase sempre em exagero para outras modalidades. A Taça Nacional é a única competição que permite aos clubes dos vários distritos do país competirem entre si e sonharem conquistar algum prémio a nível nacional. Estas equipas passam o ano a competir, muitas vezes com dificuldades e pouco apoio de patrocínios, mas nem isso as faz desistir. A Taça Nacional vem premiar apenas a equipa campeã de cada distrito. E as outras? Sem elas também não haveria primeiro lugar! Estas acabam o campeonato no início do ano e depois estão até Setembro sem competir. São os torneios que vão mantendo viva a actividade de muitas jogadoras que aproveitam o Verão para jogar e preparar a época seguinte. Um campeonato ao qual tivessem acesso as primeiras duas equipas de cada distrito seria interessante. Seria uma promoção ao desporto, à modalidade do futsal e um grande incentivo para todas as jogadoras e equipas do país. Tal como o campeonato nacional, a selecção também não investe na modalidade feminina de futsal. Depois, verificamos que são convocadas jogadoras de futsal para jogar na selecção de futebol de 11, tudo isto devido ao excelente valor das mesmas e à de uma selecção nacional feminina. PUB

10 10 ESTA JORNAL Junho 2010 CULTURA A pedra mais importante do nosso desenvolvimento Abrantes é uma cidade de Património, uma cidade de Cultura. Este foi o modo como o Secretário de Estado da Cultura, Elísio Summaviele, iniciou o seu discurso nas cerimónias do dia da cidade. As comemorações, que no dia 14 de Junho decorreram no Castelo, cumpriram três objectivos: assinalar os 94 anos da cidade, apresentar a edição facsimilada do primeiro foral de Abrantes e fazer a II Antevisão do Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA). Ana Isabel Silva e Vanda Botas Victor Francisco Comemorações. O Castelo de Abrantes foi o palco das cerimónias oficiais do dia da cidade. Em representação da ministra da Cultura, Elísio Summaviele defendeu que actualmente a Cultura é a pedra mais importante do nosso desenvolvimento e futuro sustentável. Por isso, considera que Abrantes está a ser um exemplo de boas práticas, na qual toda a região e todo o país se devem rever. Momentos antes, a presidente da autarquia, Maria do Céu Albuquerque, tinha sublinhado a construção de um novo paradigma que passa pelo desenvolvimento de esforços para captar novos públicos para as artes. Nesse sentido, a Galeria Municipal vai passar para o antigo quartel dos bombeiros e estão a ser criados espaços como um núcleo para o desenvolvimento de ateliers e, no Edifício Carneiro, uma Oficina de Cultura. Confirmando a importância que a Câmara de Abrantes atribui à Cultura, a presidente ofereceu ao jovem acordeonista abrantino, André Teixeira, ao Secretário de Estado da Cultura e, também, ao Director Regional de Cultura, João Soalheiro, a medalha da Cidade Imaginária, produzida pelo escultor Charter de Almeida. Esta medalha simboliza a promoção da Cultura na música, mas também nos membros que valorizam o trabalho que a Câmara Municipal de Abrantes está a desenvolver. Ao som do hino nacional, cantado pelo coro Orfeão de Abrantes, e das peças do campeão mundial de acordeão, André Teixeira, iniciou-se a cerimónia da II Antevisão do MIAA de Abrantes. O jovem músico abrantino impressionou os convidados, interpretando peças de diferentes épocas, incluindo contemporâneas. Aos 19 anos de idade, comprovou a versatilidade do instrumento e transformou-se num talento que é motivo de orgulho para a cidade. A música deu lugar às explicações históricas sobre a importância do Foral que a Câmara agora editou em versão facsimilada. Joaquim Candeias da Silva, professor e historiador de Abrantes, não pôde estar presente na cerimónia, deixando as suas palavras escritas. Ana Soares, chefe da divisão de Cultura da Câmara Municipal de Abrantes, deu voz a essas palavras: O Foral Novo de Abrantes foi concebido há 500 anos. Foi, sem dúvida, de uma importância para o tempo este texto jurídico, um instrumento típico de Portugal. No dia em que Abrantes festejou os 94 anos em que se consagrou cidade, Maria do Céu Albuquerque explicou a importância da data: No princípio do século XX, este concelho revela-se como activo alicerce republicano, quando se torna local das reuniões preparatórias do 5 de Outubro de Actualmente, a Cultura é uma clara aposta do município, pelo que o MIAA se assume como um projecto âncora, ao englobar quatro colecções de reconhecida qualidade. Uma dessas colecções foi construída por João Estradas. Ao ESTAJornal o coleccionador mostrou-se surpreendido pelos resultados da avaliação que está a ser feita das peças que foi juntando: Não tinha noção que estas peças fossem assim tão valiosas. Os convidados percorreram a II Antevisão do MIAA guiados pelo professor Batista Ferreiro, que foi explicando a importância de cada uma das peças expostas. Luiz Oosterbek, professor do Instituto Politécnico de Tomar (IPT), e avaliador das peças em exposição, esclareceu ao ESTAJornal que entre as 5 mil peças, encontrámos 10 falsificadas. O especialista não esconde o facto de poder haver mais, mas acrescenta que em todos os museus do mundo é normal que uma parte das peças sejam cópias. Para terminar a cerimónia, teve lugar uma degustação do melhor vinho rosé do mundo, o Vinho Casal das Coelheiras, produzido em Abrantes. Festa do Cinema Italiano em Abrantes Os flyers espalhados pela cidade, nas esplanadas dos cafés, dentro deles, e por todas as lojas da cidade, faziam adivinhar um evento de cinema. Foi um dos trunfos do Cineclube de Abrantes e do Espalhafitas, que levou ao Cine-Teatro S. Pedro, de 2 a 6 de Junho, documentários e filmes onde só a língua Italiana se fez ouvir. Pedro Colaço O ciclo de cinema italiano resultou de um conjunto de vontades, que permitiu exibir um cartaz conjunto em quatro cidades diferentes: Lisboa, Coimbra, Porto e Abrantes. A vinda a Abrantes contou com o apoio da Câmara Municipal e da Associação Il Sorpasso. Ainda que com pouca adesão por parte da população, Lurdes Martins, coordenadora de projectos do Espalhafitas, mostra-se satisfeita com os resultados da iniciativa: Não posso fazer um balanço negativo. Enaltece o contacto com a cultura italiana e o facto de Abrantes ter entrado num circuito nacional, estando ao nível de outras instituições de credibilidade. Com oito anos de idade, o Espalhafitas soma e segue com festas dedicadas a vários países. Do cinema espanhol ao japonês, Abrantes tem vivido semanas intensas onde estão presentes várias componentes. Inclusão e aproximação entre países são algumas delas. Pedi alguns filmes, em especial ao nível do documentário tendo em vista o curso de Vídeo e Cinema Documental, conta Lurdes Martins. Era pertinente ter documentários. Quanto aos outros filmes, foram escolha da organização que, em contacto com a embaixada de Itália, referiram o que de melhor se faz por lá, acrescenta. No primeiro dia fazia-se sentir alguma insegurança quanto à adesão da população à Opera, com o grupo Amarcord, e Lurdes Martins deixava escapar alguma ansiedade: Espero que seja apelativo e que as pessoas venham. Principalmente para amanhã que não temos pessoas na tela mas sim no palco. Ansiedade de lado, o balanço que Lurdes faz agora é bem diferente: Foi extremamente positivo. As pessoas vinham dizer o quanto tinham gostado. Assim sabemos que podemos organizar mais espectáculos deste tipo que o público gostará seguramente. Diferentes géneros misturaramse num contraste harmonioso. Dos documentários aos filmes, passando pelo espectáculo de ópera e por uma selecção de curtas-metragens, quem viu gostou. Isabel Costa, moradora de Abrantes, destaca o documentário Videocracy : São documentários que espelham a realidade que se vive na Itália. Este em particular mostra o domínio da corrupção, o poder da televisão e tudo aquilo a que as jovens italianas se submetem para atingirem a fama. Apostando sobretudo na qualidade em vez da quantidade, Lurdes Martins deixa clara a sua opinião: Procuramos não pensar muito no número de pessoas que vêm mas sim na oportunidade de dar às pessoas o que habitualmente não podem ver. Quando passamos este tipo de filmes, sabemos que não são para as grandes massas. E acrescenta: O nosso papel é passar cinema de qualidade e de intervenção. Lurdes confessa ainda o difícil que é ver filmes comerciais quando alguém se habitua a outro nível de cinema, ainda que valorize a importância de haver os dois lados para que se possa comparar. Lurdes Martins acredita também no potencial dos alunos do curso de Vídeo e Cinema Documental da ESTA: São dedicados. Há ali coisas muito boas mas é preciso mostrálas. Refere ainda a ajuda prestada por alguns alunos como um dos aspectos mais positivos: Houve alunos que se aproximaram de nós enquanto cineclube. Ajudaram nas actividades, algumas inclusive, foram deixadas nas mãos deles. Carlos Coelho, coordenador do curso, realça o privilégio que os alunos tiveram com esta iniciativa, pois assistem a filmes que ainda não estrearam em Portugal e possivelmente não estrearão. E acrescenta que, de outro modo, como alguns participaram na organização do evento, os alunos conhecem por dentro este tipo de evento. Depois de ter visto praticamente todos os filmes que passaram pelo ciclo de cinema italiano, Carlos Coelho também aconselha Videocracy, pelo retrato que faz da sociedade italiana que, ao fim e ao cabo, é consequência do que se passa na contemporaneidade (futilidade apresentada nos canais de televisão e valores transmitidos). Quanto à semelhança que se encontra entre a realidade italiana e outras realidade, o docente refere o exemplo que se pode ver em Debito d Ossigeno, que retrata a dificuldade de pessoas de média idade encontrarem emprego e a angústia da sua procura. O checkout deste ciclo de cinema italiano foi feito e para trás fica mais um balanço positivo naquela que foi uma iniciativa que envolveu, não só um contacto com o cinema, mas também com a música e a própria gastronomia do país. Projectos que dão cartas, no que de melhor se faz por Abrantes.

11 Projecto Ciência com Consciência Junho 2010 ESTA JORNAL 11 CIÊNCIA Alunos do secundário entrevistam dois Físicos No âmbito da disciplina de Filosofia, quatro alunos do 11º ano da Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, de Abrantes, desenvolveram um trabalho subordinado ao tema Ciência com Consciência. Para o concretizar, enviaram, por , um questionário em forma de entrevista a dois dos mais prestigiados Físicos portugueses: Carlos Fiolhais e Jorge Dias de Deus. Orientados pela professora de Filosofia, Cláudia Nascimento, estes alunos comprovam que aprender, sobretudo nos dias de hoje, implica uma atitude dinâmica, de procura de conhecimento por todos os meios. Porque as boas práticas devem ser divulgadas e partilhadas, o ESTAJornal publica o resultado deste trabalho de Daniel Teixeira, Margarida Pereira, Marco Nobre e Sara Corda, da Turma 11º B (Área de Ciências e Tecnologias). Qual é a sua posição sobre a seguinte afirmação? Se formos buscar uma balança e se pusermos no prato BEM os benefícios que a ciência trouxe ao longo dos seus cerca de cinco florescentes séculos e no prato MAL os malefícios que dela vieram, para que lado se irá inclinar o fiel da balança? Jorge Dias de Deus, Ciência, Curiosidade e Maldição, pág.134. Jorge Dias de Deus: A ciência é produzida em sociedade e portanto é natural que ela influencie a própria sociedade, afectando a economia, a cultura, a religião, a arte etc. A ideia de que a ciência vive numa redoma, num mundo aparte, está errada. Os resultados da ciência têm consequências que podem ser más ou podem ser boas. Um exemplo. Talvez que a maior descoberta de Einstein tenha sido a fórmula E=Mc2, que diz que toda a massa M se pode converter em energia E, o factor de conversão envolvendo o quadrado da velocidade da luz, c2. Ora essa fórmula foi usada para produzir as bombas atómicas que destruíram em 1945 Hiroshima e Nagasaki. Mas é essa mesma fórmula que está constantemente a ser usada pelo Sol para produzir a energia que chega brilhantemente à Terra e que assegura as condições para nós vivermos. A ciência está entre o Bem e o Mal exactamente porque ela influencia profundamente a sociedade, porque ela não é charlatanice, porque ela produz resultados que têm a ver com um mundo real. É conhecido o paralelo entre o desenvolvimento da ciência e o do capitalismo. De facto, as sociedades capitalistas basearam muito do seu desenvolvimento na mudança tecnológica, e essa mudança tecnológica é fruto da ciência. Deste casamento entre capitalismo e ciência resulta que onde há capitalismo há ciência e mudança, onde não há uma coisa também não existe a outra. Em consequência, de maneira grosseira, podemos dividir o Mundo em hemisfério norte, onde há sobretudo ricos, e hemisfério sul, onde há sobretudo pobres, o sentido das migrações sendo do sul para o norte, e não em sentido contrário. Isto é, as populações percebem onde é que a mortalidade infantil é mais baixa e a esperança de vida é mais alta, por exemplo. Em conclusão, julgo que marginalmente a ciência está mais do lado do Bem do que do lado do Mal. Mas se a ciência não é propriamente a causa da divisão norte/sul, pelo menos possibilitou-a. Carlos Fiolhais: Os benefícios da ciência suplantam de longe os malefícios. Os benefícios são, em primeiro lugar, conhecimento e, em segundo lugar, bem estar proporcionado por esse conhecimento. O conhecimento, qualquer que ele seja, é sempre um benefício: saber muito é sempre melhor do que saber pouco e saber pouco é sempre menor do que não saber. A esmagadora maioria das aplicações da ciência são também Jorge Dias de Deus benéficas: basta pensar nas aplicações médicas que prolongam a vida humana e a tornam mais confortável. Quando se fala em malefícios da ciência pensase geralmente em más utilizações da ciência, em tecnologias que trazem prejuízos ao homem. Elas existem, são de certa forma inevitáveis e só podemos esperar que haja a vontade de as minorizar. Mas convém insistir num ponto: uma coisa é a ciência em si e outra a eventual má utilização que se faz dela. A ciência não se torna má por a sua utilização ser má. Uma consciência crítica sobre a utilização da ciência é necessária não apenas da parte do cientista a ética é um imperativo para ele mas também e sobretudo da parte da sociedade como um todo. Qual a sua opinião acerca da clonagem humana com base na bioética e no conceito de Pessoa? J.D.D.: Com as biotecnologias, e em especial a clonagem, deparamo-nos novamente com o problema do Bem e do Mal. Certamente que com as biotecnologias e as manipulações de pequenas escalas (nanotecnologias) será possível melhorar o funcionamento do corpo humano, tornando-o mais saudável e mais durável tudo coisas que são ambição de qualquer ser humano. Mas também é verdade que se podem melhorar os seres humanos noutros sentidos como, por exemplo, eliminando-lhe a liberdade de pensamento ( ver os clássicos da literatura do século XX: Aldous Huxley e George Orwell). A sociedade tem de construir uma ética que torne possível distinguir o Bem do Mal. A clonagem constitui um bom exemplo. C.F.: Vejo a clonagem terapêutica, como aliás os cientistas que investigam nessa área, como uma esperança para a humanidade. Oxalá se venha a conseguir curar ou pelo menos tratar por esse meio doenças hoje incuráveis ou intratáveis. Já é discutível a clonagem reprodutiva, sendo bom que se continuem a discutir e a estabelecer os limites legais da biologia e da medicina nessa área. Nem tudo o que se pode fazer deve ser feito, embora seja conhecido da história que haverá sempre alguém que pisa o risco e ultrapassa os limites que foram definidos pela sociedade. Por vezes essas ultrapassagens redundaram em malefícios, pelo que devemos estar muito vigilantes quanto ao que se passa na fronteira do que é permitido Carlos Fiolhais socialmente. Noutras vezes essas ultrapassagens conduziram a benefícios. De qualquer modo, a palavra clonagem tem uma carga negativa, que vem da ficção científica. Não há que alimentar o receio comunicado por alguns filmes pois é impossível criar um bando de Marilyn Monroes iguaizinhas umas às outras. Felizmente, acrescento eu. Na sua opinião, estará a população, a nível mundial, disposta a alterar os seus hábitos e comportamentos com base num bem maior? J.D.D.: Tornamos às questões do Bem e do Mal. Ao contrário do pensamento mágico primitivo, que explicava e justificava o que existia, o que interessa ao pensamento científico não é tanto o que existe mas o que poderá existir. A ciência nutre a dinâmica da mudança, quer ultrapassar sempre o que havia antes. Não é conservadora, nem alimenta sonhos do homem primitivo: a ciência, pela sua natureza vai interferir com questões deontológicas, ecológicas e outras que tal. Mas em certo sentido é inocente: tanto pode fazer o Bem como o Mal Ou talvez não seja mesmo assim... Quer dizer, em minha opinião, a ciência por si só não dá garantias de um comportamento social que conduza, por exemplo, à sustentabilidade. Para além da ciência, uma consciência social tem de existir. C.F.: Não penso que seja urgente travar a ciência. Aliás, travar a busca do conhecimento é uma atitude obscurantista, com exemplos na história que deram mau resultado. Aliás, a ciência não cria problemas à humanidade, mas sim a tecnologia, uma espécie de filha da ciência que saiu de casa e às vezes se porta mal. Que culpa é que a mãe tem? Convém não esquecer que é a mesma tecnologia, baseada na ciência, que nos permite resolver os problemas que nos afectam, incluindo os problemas devido a erros que cometemos. Por exemplo, a poluição não se resolve com o abandono da química mas com um reforço, mais consciente e mais cuidadoso, da química. Qual a sua opinião acerca das teorias do fim do mundo de que se especula? J.D.D.: Na tradição cristã há um fim do mundo que corresponde a uma espécie de ajuste de contas final, com os maus a arder no inferno e os bons a aborrecer-se no paraíso ( o paraíso sendo mais substancial no caso do islamismo ). Claro que nada disto tem a ver com ciência, pelo que não me vou pronunciar mais. C.F.: Em geral, são mitos e erros sem qualquer substância. A cultura científica é o melhor antídoto para combater esses disparates, como o fim do mundo em 2012, etc. Não têm qualquer justificação nem fazem sentido nenhum! Como será, na sua perspectiva, o fim da ciência, da humanidade e do Universo? J.D.D.: O modelo dominante para o universo é o do big-bang : tudo começou com um inferno a alta temperatura e densidade, a que se seguiu uma expansão sem fim. O universo foi arrefecendo e as distâncias entre galáxias foram aumentando. Claro que no inferno inicial não havia vida, mas com a expansão e o arrefecimento foi possível o aparecimento de núcleos atómicos, átomos (carbono, oxigénio, hidrogénio.,.), moléculas (moléculas orgânicas) e apareceram as condições para a vida ( e muito depois surgiu vida inteligente). A pergunta que naturalmente é legítimo colocar é a das condições para a continuação da vida no universo. Por exemplo, com muita segurança sabe-se que o Sol tem cerca de 5 mil milhões de anos de vida, até se gastar o combustível nuclear. Sem Sol é evidente que as formas de vida mais sofisticadas, incluindo os humanos, não podem sobreviver. Nos finais do século XIX e começo do século XX acreditava-se na morte térmica do universo com um equilíbrio das temperaturas e a cessação de toda a actividade. Mas a evidência é um pouco ao contrário: a Terra parasitando o Sol criou condições para a vida enquanto o Sol foi gastando o seu potencial energético. C.F.: O fim da ciência, isto é, do conhecimento, só acontecerá se houver o fim da humanidade uma vez que, como disse Carl Sagan, o nosso destino é o conhecimento. Mesmo assim, o eventual fim do homo sapiens pode não ser o fim da ciência pois pode haver, no vasto Universo, outras formas de vida inteligente, que fazem ciência. O fim da humanidade é possível, pois o homem tem hoje à sua disposição meios de auto-aniquilação. Se não tiver juízo... Estou convencido que é muito pouco provável. Poderá também acontecer o fim da humanidade por acabarem as condições de vida na Terra. Daqui a cinco mil milhões de ano o Sol vai extinguir-se... Quanto ao fim do Universo, não faz muito sentido, tanto quanto sabemos hoje o Universo, que teve um início há milhões de anos, é eterno para a frente...

12 3.º lugar: Entre-dois - Luís Filipe Montanha Abrantes Concurso de Fotojornalismo dedicado à cidade de Abrantes, promovido no âmbito do Festival de Eventos da ESTA. 1.º lugar: Trovoada - Daniela Soares 4.º lugar: Abrantes, tudo como dantes - Andreia Carvalho 2.º lugar: Espelho - Cátia Correia