Soneto Serás sempre o mais belo. rosto no meio do nevoeiro. que orla a duna do medo. em ser a copa do pinheiro. Com sabor a sal na brisa

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1 António Fernandes

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3 Soneto Serás sempre o mais belo rosto no meio do nevoeiro que orla a duna do medo em ser a copa do pinheiro Com sabor a sal na brisa o tronco pelo vento curvado as pinhas, a lenha, a cinza, de um tempo já passado no recorte e no carreiro do recanto escolhido a caminho do mar pinhão caído do pinheiro asa solta, com sentido, o de tanto te amar! Braga, 4 de janeiro de

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5 Soneto Há palavras que ferem como o gume de uma lâmina dizendo aquilo que sentem como se foram uma arma Há palavras que escritas marcam profundamente o momento em que são lidas e se alojam para sempre Por isso deve a palavra de uma forma inteligente quando for proferida ou de outra forma lavrada ser cuidado e paciente franca, clara e sentida! Braga, 13 de janeiro de

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7 Soneto Perdi o ar, assim, repentinamente, quando te vi no cimo da rua, no meio de uma multidão de gente. A pele alva, anca curva, completamente nua. Surpreendeu-me que ninguém visse aquilo que só os meus olhos viam. E por isso, para mim próprio disse: Que a rua, a multidão e tu, não existiam. Para além da criação de um momento artificial numa tela por fazer, numa rua por abrir aonde as casas em geral não tem vida, nem canção. Braga 26 de janeiro de

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9 SONETO 4/2018 Há flores a despontar no mato e libelinhas a voar no rio. Há sempre um sorriso no rosto que desponta sem arrepio. Há também a flor da carrasca espalhando seu manto lilás que pinta em toda a encosta esse sorriso belo que tens. Há uma lágrima de orvalho que desliza para regar as mais belas flores Do cimo desse orgulho que teimoso, só por teimar, esconde os seus amores. Braga, 28 de janeiro de

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11 Soneto Tenho uma saudade enorme, das coisas pequenas em grandes momentos que trago gravadas no cerne aonde se incutem os pensamentos Sem que o saiba ou sequer o queira. Sem premeditação ou sequer vontade. Construí muros, cavei trincheira, na linha do horizonte prendi a liberdade! Tenho uma saudade imensa do riso, do toque, da altivez, da áurea distante. Daquela forma de ser, intensa. Da incerteza com sensatez De quão sou, insignificante... Braga, 31 de janeiro de

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13 Soneto Os dias são as opções. Boas, más, mais ou menos. Os dias, são as decisões, com cujo ónus arcaremos. Não adianta por isso tirar a agua do capote como se fosse feitiço, maleita, sina, ou a má sorte. Porque a água que escorre face abaixo até ao chão e a terra vazia sulca, não é mais do que a polpa de uma outra encenação que nasce, vive e morre! Braga, 6 de fevereiro de

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15 Soneto Não sei o sentido dessa dor sofrida no sobrolho franzido de um olhar sem vida Que ficou no soslaio do que já não interessa. Um acaso. Um devaneio. Um andar. Sem pressa. Um momento sofrido nas entranhas amorfas de um troço sitiado Que para castigo fechou todas as portas e saiu, apressado! Braga, 14 de fevereiro de

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17 Soneto Sinto um peso enorme no peito Um pulsar da saudade sem jeito Na brisa que o ar amacia doçura Na paz solta que irradia ternura Nos pinheiros mais altos da duna de que cuja copa ondula Em beijo intenso de cópula na alma de todos os sobressaltos Braga, 14 de fevereiro de

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19 Soneto 9/2018 Foi num fim de tarde frio com o vento a gretar esta chama que arde e que não se deixa apagar Foi num fim de tarde na contraluz crepuscular que faz no molde a arte e não a deixa esgotar Nos devaneios suaves de quem não sabe sonhar nem sequer sentir o calor que une as futilidades aos sons fugazes do mar e as contradições do amor. Braga, 16 de fevereiro de

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21 Soneto 10/2018 Passou por mim uma mágoa que teimou em ficar qual lapa, resistente à água da onda batida do mar. Passou por mim uma dor que teimou em ficar doeu, como só dói o amor quando teima em acordar Melhor fora adormecido na maré vaza e calma de uma manhã pachorrenta No trovejar que rebenta por de dentro da alma que quero, mas não consigo! Braga, 19 de fevereiro de

22 Textos: António Fernandes Fotografias: Isabel Costa Pinto 22