CULTURA, GASTRONOMIA E TURISMO: DESENVOLVIMENTO LOCAL ESTUDO DE CASO DA III FESTA DA FARINHA DE ANASTÁCIO (MS)

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1 CULTURA, GASTRONOMIA E TURISMO: DESENVOLVIMENTO LOCAL ESTUDO DE CASO DA III FESTA DA FARINHA DE ANASTÁCIO (MS) 1 TREVIZAN, Fernanda Kiyome Fatori INTRODUÇÃO A promoção dos recursos humanos e do planejamento e manejo do uso sustentável da terra estão entre as propostas da Agenda 21, dessa forma, propõem a utilização dos habitantes e das terras de dadas localidades para o desenvolvimento das mesmas. O município de Anastácio, localizado na região centro-oeste do Estado de Mato Grosso do Sul, vem realizando há quatro anos o evento Festa da Farinha de Anastácio, com o objetivo de promover o município turisticamente e também à produção artesanal de farinha de mandioca proveniente dos assentamentos rurais, onde moram os migrantes nordestinos que fazem parte da formação populacional e cultural da sociedade anastaciana. A localidade apresenta potencialidade turística em recursos naturais, no entanto, não possui destaque na atividade (seja em âmbito regional ou estadual), sendo considerada como uma cidade de trânsito, por onde os fluxos de turistas que vão em direção ao Pantanal (Sul) apenas se deslocam pelo seu espaço. Tendo conhecimento da deficiência no tocante aos atrativos turísticos em Anastácio e também da ausência de alternativas para o lazer e o entretenimento da população local, no ano de 2006 a Prefeitura Municipal, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Sustentável e de um turismólogo local (à época, vinculado à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), criou a Festa da Farinha de 1 Discente na Universidade Estadual de Ponta Grossa-PR (UEPG) no Programa de Pós-Graduação em Geografia Mestrado em Gestão do Território. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

2 Anastácio-MS com o intuito de promover o município em âmbito estadual, gerar renda e desenvolvimento para o município e os produtores de mandioca locais; além de divulgar a produção artesanal de farinha de mandioca proveniente dos assentamentos rurais locais, principalmente, da Colônia Pulador, onde se concentram grande parte dos migrantes e descendentes nordestinos da localidade. O evento acontece uma vez por ano no município de Anastácio-MS, sendo que sua data de realização coincide com a semana de comemorações do aniversário da cidade, cuja temática principal está voltada para os produtos oriundos da mandioca ou que tenham algum subproduto da mandioca em sua composição. No evento participam os moradores da Colônia Pulador, localizada na área rural do município. OBJETIVOS O presente trabalho teve como objetivos diagnosticar a demanda da terceira edição do evento, verificar se as metas do evento (promover a atividade turística e gerar renda e desenvolvimento para o município de Anastácio e os produtores de mandioca) foram atingidas nas três edições do evento, dessa forma, caracterizar a consolidação e o sucesso da Festa da Farinha de Anastácio-MS; através da análise das características culturais presentes no município. METODOLOGIA Os dados apresentados na pesquisa foram obtidos através de pesquisas em referenciais teóricos e não-teóricos, em entrevistas com os organizadores do evento e administração municipal, questionários (fechados e abertos) com o público do

3 evento, além da utilização de documentos do órgão municipal responsável pela organização do evento (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Sustentável de Anastácio). Os questionários foram divididos em três partes: dados gerais, para turistas e para todos. À parte de dados gerais e para todos, eram aplicáveis tanto a turistas, visitantes e a população local. Já a parte para turistas era aplicável somente aos turistas e visitantes, ou seja, quem não fosse das cidades de Anastácio. RESULTADOS Discute-se nas sociedades a posição que se estabelece a partir das interações entre o turismo e as demais esferas das sociedades. Algumas dessas esferas podem ser compreendidas como a cultura (e suas vertentes) e de que forma a atividade turística pode promover o desenvolvimento nas localidades em que se insere, direta e indiretamente. De acordo com Irving e Azevedo (2002, p.134), o turismo "[...] implica na busca por diferenças [...]" sendo que estas diferenças são delimitadas pela cultura e pelos patrimônios encontrados em cada localidade. Ainda segundo as autoras, "ao representar um dos veículos de promoção, o turismo emerge, ele próprio, como um instrumento de reafirmação de cultura (s) e de patrimônios singulares". O turismo se apropria de diferentes aspectos e elementos da localidade onde se instala ainda mais da cultura e da gastronomia, transformando-os em atrativos turísticos, criando assim, o turismo cultural e o turismo gastronômico, que muitas vezes são alternativas de desenvolvimento para diversas localidades. No tocante a cultura, esta recebeu inúmeras conceituações, sendo considerada como o conjunto que [...] inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e

4 todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem sendo ele um membro da sociedade (TAYLOR, 1871 apud LAKATOS, 1991, p. 128). A cultura encontrada em determinadas sociedades é composta por elementos que caracterizem estas sociedades. Dentre esses elementos, podemos citar a gastronomia que, segundo Schütler (2003, p. 27), muitas vezes constitui a identidade de uma sociedade, além de constituir uma linguagem mediante a qual está expressa de maneira inconsciente. Ainda segundo a autora, a gastronomia é um fator de diferenciação cultural que permite aos integrantes a manifestação de sua cultura (p. 32), sendo que a identidade é caracterizada como uma construção simbólica e, também, a gastronomia pode ser utilizada como uma forma de divulgar a identidade de uma localidade. A gastronomia é vista como um fato que leva a interação social, seja em espaços públicos ou privados. Desta forma, a gastronomia passa a ser tratada como um componente do patrimônio cultural de uma localidade, resultando em uma maior valorização da gastronomia. Tal valorização, concentrada nas diferenças regionais e nacionais, em um mundo globalizado, encontra-se em franco crescimento o interesse por restaurantes étnicos, onde se servem comidas que fazem parte da tradição local (SCHLÜTER, 2003 p ). Com relação à promoção da cultura e da gastronomia nordestinas que são encontradas na localidade (devido os migrantes nordestinos) observa-se que esse objetivo do evento é atendido, pois dentre as motivações levantadas pela demanda são principalmente a gastronomia e as atrações (culturais e os shows) que encontram no evento. Uma alternativa encontrada para a divulgação da gastronomia de uma localidade e, conseqüentemente, sua identidade, são os eventos, onde a gastronomia pode constituir-se no centro do evento por si mesma ou associada a alguma festividade (SCHLÜTER, 2003 p.66), tal como o Festival da Lingüiça de

5 Maracaju-MS; a Festa do Porco no Rolete nos municípios de São Gabriel do Oeste e Sonora, no Mato Grosso do Sul; a Ocktober Fest em Blumenau-SC, entre outros. A utilização da gastronomia em eventos pode caracterizar tanto a gastronomia quanto o evento, separadamente ou juntos, em um objeto de utilização do turismo, pois estes acontecimentos acarretarão em uma demanda que, muitas vezes pode ser da localidade somente, mas como também pode ser originária de outros centros, que passam a ser emissores. Para tanto, a indústria turística vem sendo implantada de maneira rápida e crescente nas localidades que tinham um grande potencial com relação ao patrimônio cultural e ambiente (IRVING e AZEVEDO, 2002). Uma participação importante em toda atividade é a demanda, pois sem este público, tanto potencial como real, nenhuma atividade ocorreria, muito menos a atividade turística. Segundo Beni (2002, p. 211), a demanda turística corresponde as pessoas que se deslocam temporariamente de sua residência habitual, com propósito recreativo ou por outras necessidades ou razões [...]. Beni também afirma que esse deslocamento de pessoas faz com que surja a necessidade de transportes, seja por terra, água ou ar, para que chegue a seu local de destino. A demanda em eventos pode ser conhecida também como público-alvo, é compreendida como todo aquele, pessoa física ou jurídica, que seu evento pretenda atingir em quaisquer classificações [...]. A atenção e cautela para incluir os possíveis segmentos de participantes que poderão vir a participar de seu evento devem nortear [...] sua organização e planejamento (MARTIN, 2003). Os eventos surgem em razão de uma demanda, seja ela turística ou não. No estudo de caso sobre a III Festa da Farinha de Anastácio-MS não foi diferente, entretanto, a demanda foi estadual com grande participação da comunidade local, e tendo como objetivo não só de fomentar a atividade turística na cidade, mas também de promover, em âmbito estadual, a produção da farinha de mandioca, feita de modo artesanal nas colônias de nordestinos presentes na área rural do município.

6 No que diz respeito à aceitação (e, logo, a consolidação do evento), pode-se notar que o evento vem sendo aceito de forma expressiva tanto pela população local quanto os turistas; dessa forma, também podemos observar que o evento está consolidado no Estado e na região. Considerando que o evento foi criado com o objetivo de promover o desenvolvimento e gerar renda para o município e os produtores de mandioca locais, pode-se observar que houve um crescimento significativo da venda de farinha de mandioca artesanal proveniente dos assentamentos rurais (dos produtores que vendem e expõem seus produtos na festa) na cidade e entorno, pois houve a divulgação da produção da farinha de mandioca e, consequentemente, acarretou na geração de renda para os produtores da mesma. CONCLUSÃO A Festa da Farinha de Anastácio-MS surgiu como uma alternativa para promover a atividade turística no município, além de divulgar a produção artesanal de farinha de mandioca e gerar desenvolvimento e renda para a localidade. No evento em questão, a III Festa da Farinha de Anastácio, pode considerar que sua demanda está satisfeita com o evento e, que apesar de ser composta mais por pessoas da população local, está bastante divulgado, dessa forma, atingindo ao objetivo da organização, de promover a cidade e a produção artesanal de farinha de mandioca, proporcionando o fomento da atividade turística no município, que irá acarretar na geração de renda tanto para o município quanto para os produtores de mandioca (diretamente no período da festa, e, indiretamente nos outros períodos do ano, pois os produtos que são comercializados no evento podem vir a assumir o caráter de souvenirs para os turistas).

7 O nível de governo mais próximo do povo, desempenha papel essencial na educação, mobilização e resposta ao público, em favor de um desenvolvimento sustentável (AGENDA 21); dessa forma, a administração de Anastácio, ao criar um evento onde sua temática principal e os participantes principais (desde os diretos pessoas que expõem seus produtos e os indiretos visitantes e público em geral), faz-se próximo aos habitantes do município e além de promover o desenvolvimento local sustentável, uma vez que busca utilizar de forma consciente os recursos disponíveis na localidade, também promove a conservação, resgate e divulgação dos hábitos e costumes nordestinos presentes em Anastácio. O futuro da Festa da Farinha será continuar, visto que se tornou um evento consagrado e muito conhecido no Estado de Mato Grosso do Sul, e também diante do fato de que passou a atrair pessoas de outros Estados da Federação; além do sucesso que as edições anteriores apresentaram e do satisfatório resultado desta terceira edição. No entanto, a localização geográfica do município não o caracteriza como sendo um município com traços nordestinos em sua cultura, mas sim como sendo o homem pantaneiro seu principal foco de sua identidade. Podemos considerar o evento Festa da Farinha como sendo uma identidade artificial para Anastácio, no entanto será considerada artificial devido sua localização geográfica na entrada do Pantanal Sul, mas que possui características peculiares para que sua cultura possa sim, ser considerada influenciada pela presença dos migrantes nordestinos. Diante do que foi apresentado, pode-se concluir que a III Festa da Farinha de Anastácio-MS atingiu não somente os objetivos da organização do evento, mas também da demanda que participou dele, sendo que esta demanda vem, ao longo de três eventos, se tornando cada vez mais diversificada e fiel; e, dessa forma, divulgando em diferentes lugares o município e suas potencialidades.

8 REFERÊNCIAS BENI, Mario Carlos. Análise Estrutural do Turismo. São Paulo: Senac, CABRAL, C; CABRAL, Silas. & ANGELO, R. Anastácio 38 Anos. Campo Grande- MS: Gráfica e Editora Alvorada, CONFERÊNCIA das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Agenda 21. Disponível em: (acesso em: 22 de Nov. de 2009). IRVING, Marta de A. e AZEVEDO, Julia. Turismo: o desafio da sustentabilidade. São Paulo: Futura, LANZARINI, Ricardo. Projeto II Festa da Farinha de Anastácio-MS. Anastácio- MS: S/ed, MARCONE, Maria de A. Cultura e Sociedade. In: LAKA TOS, Eva M. Sociologia Geral - São Paulo: Atlas, MARTIN, Veloso. Manual Prático de Eventos. São Paulo: Atlas, SCHLÜTER, Regina G. Gastronomia e Turismo. São Paulo: Aleph, TREVIZAN, Fernanda Kiyome Fatori. III Festa da Farinha de Anastácio-MS: Cultura, Gastronomia e Turismo Um Estudo de Caso. Aquidauana-MS: UFMS, (monografia de conclusão de curso Turismo).

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