ASSUNTO: Livro verde. Reduzir os trâmites administrativos para os cidadãos. Reconhecimento dos efeitos dos actos de registo civil.

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1 PARECER DESPACHO ASSUNTO: Livro verde. Reduzir os trâmites administrativos para os cidadãos. Reconhecimento dos efeitos dos actos de registo civil. Em 17 de Dezembro de 2010, a Comissão Europeia apresentou o livro verde Reduzir os trâmites administrativos para os cidadãos: Promover a livre circulação dos documentos públicos e o reconhecimento dos actos de registo civil, dando assim início a um processo de consulta sobre as questões relacionadas com a livre circulação de documentos e o reconhecimento dos efeitos das certidões de registo civil. 1

2 Pretende-se, com a consulta, encontrar soluções que facilitem o exercício da livre circulação dos cidadãos europeus através da eliminação dos entraves à circulação de documentos e do reconhecimento mútuo do estado civil das pessoas. Dada a importância da questão, foi solicitado que o IRN, IP participasse na análise. Cumpre analisar, na dupla perspectiva da livre circulação dos documentos e do reconhecimento dos efeitos dos actos de registo civil. Como questão prévia refira-se que a estrutura do trabalho apresenta-se numa dupla vertente. A primeira procura dar resposta directa às questões suscitadas no livro verde, opinando-se quanto às diversas soluções que relativamente a elas foram equacionadas. A segunda vertente traduz-se em propostas de sugestões que este Instituto entendeu pertinente formular. Assim: A mobilidade dos cidadãos europeus é uma realidade evidenciada pelo facto de vários milhões de pessoas estudarem, trabalharem ou viverem num Estado-Membro diferente do da sua nacionalidade. Essa mobilidade é facilitada pelos direitos inerentes à cidadania da União europeia, em particular com o direito de livre circulação. No entanto, na sua vida quotidiana alguns cidadãos europeus ainda se deparam com inúmeros obstáculos para exercer esses direitos. 2

3 Uma das causas alegadas é a obrigação de apresentarem às autoridades de outro Estado-Membro documentos públicos para apresentar as provas exigidas para poderem exercer um direito ou cumprir uma obrigação, documentos que podem ser de natureza muito diversa. Muitas vezes os documentos só são aceites pelas autoridades públicas de um Estado-Membro se os cidadãos tiverem cumprido formalidades administrativas complexas. A incerteza e os constrangimentos daqui derivados não são compatíveis com o objectivo de criação de uma Europa dos cidadãos. No que respeita à supressão das formalidades administrativas para autenticação de documentos públicos, essa supressão responde em parte às dificuldades que se colocam aos cidadãos. Todavia, tal supressão não pode colocar em causa a autenticidade do documento, pelo que terão que se criar mecanismos simplificados, cujo ónus não recaia sobre o cidadão, de verificação dessa autenticidade. Uma das hipóteses poderá ser a circulação electrónica dos documentos entre as diversas autoridades dos Estados-Membros. Os actos de registo civil devem ficar sempre reflectidos nos Estados em que são praticados, sem prejuízo de se entender como uma mais valia a centralização da informação num único Estado-Membro, designadamente o da nacionalidade. Mais se considera útil a disponibilização de informação através da Internet, nomeadamente pelo site do IRN, IP ( e do Portal do cidadão ou, ainda, a criação de plataforma on line com a finalidade de colocar questões de registo civil, com interesse para os países aderentes. 3

4 No que concerne à questão de evitar ao máximo as traduções tal objectivo implicaria a criação de um formulário multilingue opcional quanto à utilização pelo cidadão mas cuja existência fosse obrigatória para todos os Estados-Membros. Contudo, este formulário necessariamente deveria respeitar as especificidades e necessidades de cada Estado. Outra possibilidade seria a eliminação de tradução dos documentos de registo civil emitidos pelos países da U.E apresentados perante as autoridades de cada estado -membro, devendo ser criados centros de tradução, em suporte informático, que permitam o arquivamento electronico dos mesmos; Quanto ao certificado europeu de registo civil as menções a nele figurar deverão ser todas as referentes aos factos sujeitos a registo civil, previstos no artigo 1º do Código do Registo Civil, designadamente nascimento, casamento, óbito, perfilhação, responsabilidade parental, divórcio e separação, alteração de nome. Deverão ainda contemplar as que se mostrarem necessárias à identificação do país e do serviço emissor, bem como do funcionário que o emitiu e a respectiva data, podendo o certificado conter uma marca comum a todos os países europeus que garantisse a sua proveniência. Não sendo um certificado emitido electronicamente, e como tal permanentemente actualizado, deverá ser previsto um prazo de validade para o mesmo. No que concerne ao reconhecimento dos efeitos dos actos de registo civil levanta-se a questão de saber se é necessária uma acção da União para proporcionar maior segurança jurídica aos cidadãos europeus em matéria de registo civil e suprimir eventuais obstáculos com que estes se deparam quando 4

5 pedem o reconhecimento num Estado-Membro de uma situação jurídica criada noutro Estado-Membro. Em face da problemática sumariada duas opções das elencadas no livro verde, por se entenderem as potencialmente mais eficazes para o debelar dos aludidos constrangimentos, importa considerar, a saber o reconhecimento de pleno direito num Estado-Membro das ocorrências de registo civil estabelecidas noutros Estados-Membros e o reconhecimento com base na harmonização das normas em matéria de conflito de leis. É nossa opinião que o reconhecimento de pleno direito seria a forma mais eficaz de alcançar o desiderato pretendido permitindo, simultaneamente, a subsistência dos sistemas jurídicos de cada Estado-Membro. Um dos argumentos que se nos afigura de peso, referenciado no livro verde, será o da transparência na imutabilidade do estado civil e da simplicidade. A situação jurídica ocorrida seria juridicamente reconhecida nos demais Estados-Membros. Um exemplo desta mesma eficácia encontra-se plasmado no Regulamento Comunitário (CE) nº 2201/2003, do Conselho, de 27 de Novembro de Por outro lado, os receios manifestados de eventuais abusos ou fraudes poderiam ser, desde logo, minorados mediante previsão normativa, à semelhança do que acontece no identificado Regulamento, no seu artigo 22º, que os pudessem obviar ou minorar. Julgamos que o reconhecimento de pleno direito poderia ser aplicado a situações de estado civil como o estabelecimento da filiação, a composição e alteração de nome, e ainda o casamento. 5

6 Quanto ao reconhecimento com base na harmonização das regras aplicáveis aos conflitos de leis pensamos que ainda que pudesse apresentar alguns benefícios, o processo apresenta-se como mais moroso e difícil porquanto nos encontramos em domínios como o direito da família e o direito das pessoas. Estes ramos do direito são mais sensíveis aos valores ético-jurídicos, e até de natureza histórica, de cada comunidade estadual, valores a que os Estados não estarão tão disponíveis para renunciar mesmo na regulação das relações transnacionais. Por outro lado, ainda que se pudesse vir a admitir a possibilidade de os cidadãos poderem escolher a lei aplicável às situações transnacionais, essa liberdade não poderia ser absoluta, por poder originar a escolha de uma lei sem qualquer conexão com a situação ou o cidadão em causa. Em sede de sugestões, considera este Instituto dever formular as seguintes: 1. Eliminação de transcrição de óbitos e casamentos, com o reconhecimento dos actos praticados em países da U.E, desde que não seja posto em causa princípios fundamentais de ordem publica. Este reconhecimento fár-se -ia por simples depósito dos documentos que serviriam de base á actualização dos respectivos assentos; 2. Abolição dos processos de verificação de capacidade matrimonial para os cidadãos da U.E, tendo por base o reconhecimento dos actos praticados nesse espaço; 3. Reconhecimento das sentenças proferidas por tribunal europeu, relacionadas com o direito de familia ex: interdições, inabilitações etc, tal como já existe para os divorcios e as responsabilidades parentais ; 6

7 4. Criação de modelo europeu de certidão multilingue ; 5. Certificação online de assinaturas constantes dos documentos de registo civil, onde cada entidade, pode verificar a autenticidade do certificado digitando um código, á semelhança do que acontece com o certificado criminal brasileiro ou com as certidões de Cabo Verde. 7

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