A PRÁTICA DE FORMAÇÃO DE DOCENTES: DIFERENTE DE ESTÁGIO Maria de Fátima Targino Cruz Pedagoga e professora da Rede Estadual do Paraná.

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1 A PRÁTICA DE FORMAÇÃO DE DOCENTES: DIFERENTE DE ESTÁGIO Maria de Fátima Targino Cruz Pedagoga e professora da Rede Estadual do Paraná. O Curso de Formação de Docentes Normal, em nível médio, está amparado pela Resolução 02/99 do CNE/CEB, Parecer 01/99 do CNE/CEB e da Deliberação 010/99 do CEE/PR. O referido curso prevê na sua organização curricular a Prática de Formação, que segundo as Diretrizes colocadas pelo Conselho Nacional de Educação CNE trata-se da reflexão sistemática sobre o saber do fazer de cada professor e da escola como um todo é impulsionadora do processo de produção do conhecimento que se instaura como uma atividade crítica desde as origens da formação do professor. (Princípio VI). Portanto, a Prática de Formação, não é Estágio, é uma disciplina do Currículo e como tal tem caráter rigorosamente pedagógico, pois se constitui como eixo articulador das disciplinas que compõem a formação profissional. Ela também contextualiza e transversaliza as demais áreas curriculares, na perspectiva de articular teoria e prática práxis pedagógica. Isso significa dizer que é através da Prática de Formação, que o futuro professor ou professora, busca as ferramentas para construir as categorias de análises que lhes permite apreender e compreender as diferentes concepções e práticas pedagógicas no bojo das transformações e relações sociais. O Estágio por sua vez, diferentemente da Prática de Formação e da perspectiva acima apresentada, representa e tem o sentido de atividade prática. Se recorrermos ao significado que consta no dicionário, veremos que o mesmo indica o Estágio como período de estudos práticos, exigidos dos candidatos ao exercício de certas profissões liberais. (AURÉLIO, Dicionário). Por outro lado, a legislação de Estágio (Lei n de 25/09/2008), apresenta na sua definição que: Estágio é o ato educativo escolar supervisionado no ambiente de trabalho, que visa à preparação para o trabalho produtivo de educandos que estejam freqüentando o ensino regular em instituições de educação superior, de educação profissional, de ensino médio, educação especial e dos anos finais do ensino fundamental, na modalidade profissional de educação de jovens e adultos.(art. 1 ) Portanto a compreensão que subjaz o Estágio é a de que promover o contato dos alunos

2 estagiários com as práticas pedagógicas das escolas é suficiente para dar o caráter prático (ou seria pragmático?) à formação do estudante. Daí que acrescentar as palavras curricular, pedagógico, supervisionado, não é suficiente para caracterizar o Estágio como essencialmente pedagógico, na perspectiva da Prática de Formação. Trata-se de diferenças conceituais e conceptuais, ou seja, de conceito e de concepção, sobretudo de concepção. Como se pode observar a concepção de Estágio traz no seu bojo os elementos e o sentido de atividades práticas com fins produtivos e imediatos no sentido da prática instrumental e pragmática. Isso atende perfeitamente ao mercado de trabalho, não atende a formação de professores na sua essência e também não se articula com o mundo do trabalho. Sua relação, portanto, é com o mercado de trabalho, pois se trata de uma relação mediata. Nesse sentido, é importante que se aponte alguns elementos que vão configurar o que é o trabalho para o mercado de trabalho e para o mundo do trabalho. O trabalho no mundo do trabalho constitui-se a base para a compreensão de como se organiza a nossa sociedade nas suas relações Homem Homem e Homem natureza. Assim o trabalho se revela como práxis humana numa dimensão ontológica e também como princípio educativo. Como tal organiza a prática de formação, ou seja, a práxis pedagógica, na medida em que na unidade entre epistemologia e metodologia, tendo o trabalho como princípio pedagógico, os processos produtivos e as transformações científico-tecnológicas passam a ser estudadas como momentos históricos, como relações políticas e sociais concretas. (RAMOS, 2004, p.51) O mercado de trabalho por sua vez concebe e reduz o trabalho à mercadoria e força produtiva, o que aliena o homem da sua condição de sujeito histórico. Essa situação acaba por violentar as condições de um trabalho emancipador do homem. Assim o Estágio tem a função de preparar para o trabalho e, preparação para o trabalho tem significado sempre de preparação para o mercado, com prejuízo de funções mais elevadas da escola. Isso precisa ser combatido de forma veemente, pois trata de arrebatar a escola (seus fins e propósitos) das mãos do capital, ou pelo menos fazer o máximo nesse sentido. (PARO, 1999, p ).

3 Nesse sentido, fica cada vez mais evidenciado o significado e a diferença da Prática de Formação em relação ao Estágio, sobretudo quando se apresenta a atividade de ensinar como complexa, na medida em que exige dos professores, uma formação consistente constituída de conhecimentos sólidos em face de responsabilidade assumida frente aos desafios que permeiam a sua práxis. Se a Prática de Formação tem na sua essência a articulação teoria e prática práxis, é fundamental a explicitação do seu significado, para que fique bem demarcada a diferença anteriormente estabelecida, ou seja, práxis e atividade. Apoiando-se na compreensão marxista, Vázquez faz uma distinção entre práxis e atividade: Toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis. Quando Marx assinala que o idealismo, ao contrário do materialismo, admite o lado ativo da relação sujeito - objeto, e quando acentua, por outro lado, seu defeito não ver essa atividade como prática - ele nos adverte contra qualquer tentativa de estabelecer um sinal de igualdade entre atividade e práxis. (VAZQUEZ, 1977, p.185) Nesse caso, o sujeito da práxis, o professor, segundo esta concepção, é um ser reflexivo teórico - prático, de ação e reflexão com consciência, sensibilidade, vontade de criar e produzir para satisfazer suas necessidades humanas. Este sujeito é o ser humano, e sua ação propriamente humana só se verifica quando os atos são dirigidos a um objeto com a perspectiva de transformá-lo. Esse momento se inicia com um resultado ideal, ou finalidade, e termina com um resultado ou produto efetivo, real (Cf. VÁZQUEZ, 1977). Portanto, pode-se caracterizar a Prática de Formação como práxis, como atividade humana consciente, e o Estágio como atividade prática, tendo em vista que nessa última, a ação do sujeito se debruça sobre a matéria que existe, independentemente da sua consciência e do seu processo de transformação. (Cf. VÁZQUEZ, 1977) Apresentada e demarcada à diferença entre a Prática de Formação docente, no Curso Normal médio e o Estágio, é importante que se explicite melhor o que significa a ação docente na unidade teoria e prática práxis. A ação de ensinar na perspectiva teórico-prática constitui-se como o núcleo do trabalho

4 docente. Portanto, é a Prática de Formação enquanto disciplina do currículo que estabelece no seu programa, o estudo sobre o fenômeno ensino e aprendizagem, apresentando para os professores as ações do ato de ensinar. Nesse sentido, há que se explicar qual o sentido e o significado do trabalho docente, no contexto da escola. Segundo Saviani, a escola deve organizar-se para propiciar a aquisição dos instrumentos que possibilitam o acesso ao saber elaborado (ciência), bem como o próprio acesso aos rudimentos desse saber. (SAVIANI, 1991, p.23) Assim o trabalho docente ganha sentido e significado, na medida em que articulado à proposta de escola apresentada tem a finalidade de ação mediadora entre a formação do sujeito aprendente na vida cotidiana, onde ele aprende de forma espontânea, através da interação com a linguagem, os objetos, usos e costumes, e a sua formação de conhecimentos científica (ciência), onde ele interage com a ciência, a arte, a política, etc., proporcionando-lhe condições de uma postura crítica diante da sociedade em que vive. Pode-se afirmar, portanto, que a Prática de Formação exige dos professores uma atuação concreta nos campos da prática, que se expressam como o locus de integração e síntese dessa prática e que possibilita a atribuição de sentido e significado à ação docente. Assim, as práticas e os saberes construídos pelos professores nesse processo de integração, resultam de uma ação-reflexãoação, realizada coletivamente na escola campo de estudo. Para finalizar, é importante esclarecer que a diferenciação aqui apresentada, tem o seu pressuposto na concepção do materialismo histórico dialético e toma como base epistemológica de análise os princípios do trabalho como princípio educativo, a práxis como princípio curricular e a integração como princípio formativo integral. Sendo que esse último articulado aos demais, explicita ainda no contexto dessa discussão, a necessidade de superação da lógica de fragmentação dos saberes numa concepção propedêutica de educação que objetiva preparar para o vestibular. Lógica essa que está nos fundamentos e princípios do Estágio. Vale ressaltar que esses princípios são também os que norteiam a Proposta Curricular do Curso Normal médio do Estado do Paraná. REFERÊNCIAS: FRIGOTTO, Gaudêncio. CIAVATTA, Maria (orgs). Ensino Médio: ciência, cultura e trabalho. Brasília, MEC/SEMTEC, 2004 PARO, Vitor Henrique. Parem de preparar para o mercado de trabalho! Reflexões acerca dos efeitos

5 do neoliberalismo sobre a gestão e papel da escola básica. In: FERRETTI, Celso João et alii (orgs).trabalho, formação e currículo: para onde vai a escola? São Paulo, Xamã, Disponível em: SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 2ª. ed. São Paulo, Cortez, VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da práxis. 4ª. ed. Tradução de Luiz Fernando Cardoso. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.

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