Escolher o futuro O papel do/a psicólogo/a clínico/a no contexto de intervenção em comunidades socioeconómicas desfavorecidas 1

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1 Escolher o futuro O papel do/a psicólogo/a clínico/a no contexto de intervenção em comunidades socioeconómicas desfavorecidas 1 Mário Jorge Silva (psicólogo clínico) e Marli Godinho (psicóloga clínica) CESIS Centro de Estudos para a Intervenção Social O CESIS Centro de Estudos para a Intervenção Social, é uma instituição sem fins lucrativos que se dedica desde 1992 a desenvolver trabalho de investigação na área social, tendo sido pioneiro na realização de estudos sobre a pobreza e exclusão social em Portugal. Atualmente, com trabalhos em áreas diversas como a igualdade de género e a violência doméstica, os trabalhos sobre a pobreza em contextos urbanos sócio economicamente desfavorecidos e os estudos sobre a juventude neste meios, tiveram uma importância central na definição daquilo que é a postura metodológica do trabalho do CESIS. É uma preocupação central do trabalho de investigação, poder ser aplicado no desenvolvimento de projetos de intervenção que possam conferir um conteúdo prático à investigação e dar uma orientação à intervenção no terreno. Desta forma, desde o início, que o CESIS assumiu a opção por desenvolver trabalho segundo uma metodologia de investigação-acção e, no que se refere à juventude, tem a sua intervenção essencialmente territorializada no Bairro do Zambujal na Amadora, onde foram desenvolvidos projetos com jovens que abandonaram precocemente o sistema de ensino, tal como projetos que se destinam a prevenir o abandono escolar precoce. Atualmente decorre o Projeto Percursos Acompanhados, no âmbito do Programa Escolhas, que se destina a crianças e jovens do Bairro do Zambujal, envolvendo as suas famílias, a escola 1 Texto adaptado da comunicação apresentada no1º Congresso Nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses com o mesmo título

2 e a comunidade. Tem como objetivo primordial promover o sucesso escolar dos seus destinatários, aumentar a literacia digital e a inclusão social. O Projeto Percursos Acompanhados tem por base uma metodologia de trabalho multidisciplinar, contando atualmente com 2 técnicas pemanentes, 1 monitor a tempo parcial e o apoio semanal de 2 voluntários/as, as quais se reúnem semanalmente para debater as várias questões, definir ações e adequá-las constantemente. Acompanha neste momento cerca de 88 jovens, dos 6 aos 24 anos, que apresentam, na sua maioria, dificuldades ao nível da gestão do comportamento, das emoções e das relações, assim como baixas percepções de eficácia e autoconceito/autoestima. A esta realidade acresce o facto de alguns educadores (mães, pais, avós ou outros) demitirem-se de um acompanhamento efetivo aos seus educandos e/ou não disporem das competências educativas necessárias para promover padrões familiares positivos. Tudo isto representa uma multiplicidade de necessidades que o/a psicólogo/a clínico/a, considerando a sua formação e recursos, poderá apoiar de modo eficaz, envolvendo a criança/jovem, os seus familiares, a escola e a comunidade. Como exemplos ilustrativos, destaca-se a capacidade deste/a psicólogo/a para promover: - maior autocontrolo comportamental do jovem, - capacidade de se expressar e autoregular emocionalmente, - maior consciência e valorização das suas competências (autoestima/autoconceito), - capacidade de tomada de perspetiva nas interações sociais e de tomada de decisão (resolução de problemas/conflitos), - consciencialização e apropriação de métodos de estudo mais adequados, - apoiar numa reflexão consciente sobre o seu futuro, - uma relação de segurança, confiança e sigilo, diferente do que lhes é familiar, na qual proporciona uma modelagem de relacionamentos mais positivos e uma reparação de questões emocionais (vinculação, ressonância afetiva, ) e cognitivas (padrão de crenças, expectativas, ) decorrentes das interacções.

3 Com os/as educadores/as é possível trabalhar competências educativas, consciencializar para a importância do papel parental e para a realidade e características desenvolvimentistas dos seus educandos, entre outos. Adicionalmente, ao trabalhar numa equipa desta natureza, este e esta profissional tem um papel fundamental no desenho e acompanhamento do próprio Projeto e da forma como a equipa orienta o seu trabalho: - estruturação e inclusão de atividades que promovam tanto o desenvolvimento de competências cognitivas como pessoais e sociais e que permitam tanto o apoio escolar, como a componente lúdica e social. - orientação dos momentos de reflexão e partilha da equipa, com base na sua capacidade de avaliação mais objectiva das situações e de integração dos vários factores envolvidos, - melhor esclarecimento e orientação dos colegas, incluindo por exemplo a gestão das suas expectativas face aos jovens e às situações, gestão de conflitos, antecipação de situações de risco, adequação da comunicação e promoção de um contexto de aprendizagem mais adequados (maximizando a atenção, motivação, autocontrolo, ). No fundo, trata-se do apoio à melhor forma de promover e manter as mudanças desejadas juntos destas crianças e jovens. Outro aspecto da competência do psicólogo diz respeito à observação dos princípios éticos. Tal é de importância fulcral em qualquer contexto de acção dos psicólogos, sendo, no contexto comunitário, o sigilo profissional e a partilha de informação aspectos bastante sensíveis. Tendo em conta o código deontológico da profissão, é importante saber que o trabalho multidisciplinar implica a partilha de informação com a equipa, sendo esta informação fundamental para a intervenção nos casos e no delinear de acções. A relação com a escola e com as próprias famílias colocam também muitas vezes questões sobre o sigilo. O/a psicólogo/a deve, pois, ter em consideração que a relação de confiança que estabelece com os/as jovens, embora com características muito diferentes das que se estabelecem em

4 prática privada, necessita de ter como base a confiança e a confidencialidade. As informações a sem partilhadas com as famílias ou outros profissionais devem ser alvo de reflexão com os jovens que são acompanhados. Estas informações obtidas no contexto da relação com o/a psicólogo/a devem assumir um carácter especial e ser utilizadas apenas em circunstâncias específicas e com conhecimento dos jovens. O papel do/a psicólogo/a também aqui assume um carácter distintivo que obriga o profissional a não se distanciar da equipa mas a conseguir estabelecer uma relação de colaboração adequada, preservando princípios que se revelam de crucial importância para a obtenção de resultados positivos. Tal implica a possibilidade de reservar informações de que tenha conhecimento e, em outros momentos, partilhar informações que se revelem necessárias para a resolução ou orientação das situações (salvaguardando o maior interesse da criança/jovem). Sem dúvida que esta acção eticamente orientada do/a psicólogo/a pode, por vezes, ser desafiante e implica uma reflexão constante sobre a sua actuação. A discussão destas reflexões e tomadas de decisão com outros/as colegas psicólogos/as da instituição e no grupo de supervisão têm sido uma prática fundamental e que é aconselhada a quem assumir funções desta natureza. É ainda importante destacar que em casos particulares, em que se verifique a necessidade, se procede ao encaminhamento da criança/jovem para outros profissionais/serviços de psicologia. Embora o/a psicólogo/a não possa chamar a si a exclusividade dos resultados de um trabalho essencialmente de equipa, a sua presença na mesma potência a consecução desses mesmos resultados. Da experiência neste Projeto podemos salientar, a título de exemplo, que se verificou: - um aumento dos jovens e dos próprios familiares e professores/as no sentido da procura espontânea do apoio do Projeto e/ou do acompanhamento psicoterapêutico. - um aumento dos jovens que conseguem perspectivar um futuro incluindo a progressão no ensino, em muitos casos, com o desejo de frequência do ensino superior (menor abandono

5 escolar; maior longevidade dos percursos escolares até ao 12º ano mesmo quando não obrigatório). - Sem dúvida, um dos indicadores de que temos mais orgulho, taxas de transição escolar na ordem dos 80% nos cerca de 40/45 jovens acompanhados sistematicamente ao longo dos últimos 4 anos, oscilando entre 76% e 92%. - Valorização das crianças e jovens pela escola e outros parceiros, realçando as mudanças comportamentais e de relacionamento interpessoal com os pares. De modo a ilustrar a importância do/a psicólogo/a nesta equipa, podemos salientar que por detrás destes resultados referidos a sua prática foi determinante para se ter conseguido: - Diminuição de comportamentos desadequados; - Melhor auto-estima e auto conceito; - Maior valorização e sentimento de pertença face à escola; - Melhor relacionamento parental com maior adequação das competências parentais; - E um melhor desenvolvimento emocional que permite uma maior liberdade de escolha. É esta maior liberdade de escolha, que inspira o título desta reflexão Escolher o Futuro e todo o trabalho desenvolvido diáriamento no terreno. Queremos que estas crianças e jovens possam escolher o seu futuro, possam pensar num futuro mais positivo, que quebre com os condicionalismos com que à partida se deparam, e que efetivamente disponham de mais ferramentas e meios para o conseguir alcançar. Mas não só Escolher o futuro tem um duplo significado. Temos também como objetivo que psicólogos/as cada vez mais escolham o seu próprio futuro e se afirmem. Numa sociedade em constante mudança, onde as ofertas profissionais escasseiam, cabe a cada um e uma de nós refletir sobre o mundo que nos rodeia e encontrar novas formas de intervir. Esta reflexão procura dar um passo nesse sentido, procura que os/as psicólogos/as com formação clínica se

6 consciencializem da pertinência e necessidade da sua intervenção fora do tradicional contexto de consultório e da importância fundamental de se desenvolver um trabalho com rigor e qualidade que valorize o profissional e a psicologia em Portugal.

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