ANÁLISE COMPORTAMENTAL DAS REGRAS DE UMA COMUNIDADE TERAPÊUTICA DO INTERIOR PAULISTA

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1 FACULDADE SUDOESTE PAULISTA Instituição Chaddad de Ensino S/C Ltda. PSICOLOGIA GEOVANA DE MORAES FUSCO ANÁLISE COMPORTAMENTAL DAS REGRAS DE UMA COMUNIDADE TERAPÊUTICA DO INTERIOR PAULISTA AVARÉ-SP 2013

2 GEOVANA DE MORAES FUSCO ANÁLISE COMPORTAMENTAL DAS REGRAS DE UMA COMUNIDADE TERAPÊUTICA DO INTERIOR PAULISTA Monografia apresentada ao curso de Psicologia da FSP Faculdade Sudoeste Paulista como requisito parcial para obtenção do título bacharel em Psicologia. Orientador: Prof. Ms. David Marconi Polonio. AVARÉ-SP 2013

3 FACULDADE SUDOESTE PAULISTA FSP PSICOLOGIA FOLHA DE APROVAÇÃO DE MONOGRAFIA ANÁLISE COMPORTAMENTAL DAS REGRAS DE UMA COMUNIDADE TERAPÊUTICA DO INTERIOR PAULISTA. AUTOR: GEOVANA DE MORAES FUSCO ORIENTADOR: PROF MS. DAVID MARCONI POLONIO Prof Ms. David Marconi Polonio DATA DA APROVAÇÃO: / / NOTA FINAL:

4 DEDICATÓRIA Com muito carinho, dedico aos meus pais pelo apoio, incentivo pela realização dos meus ideais, encorajando-me a cada dia a enfrentar todas minhas dificuldades e medos.

5 AGRADECIMENTOS Primeiramente agradeço a DEUS pela dádiva da vida, e por ter ajudado a manter a fé nos momentos mais difíceis e poder ter iluminado meus caminhos nessa trajetória do curso de psicologia onde ser psicóloga é um sonho muito esperado. Em especial aos meus pais Geraldo e Lucelena que me incentivaram em minha trajetória, sendo eles além de pais amigos, companheiros e confidentes, que hoje sorriem orgulhosos ou choram emocionados, que muitas vezes, na tentativa de acertar, cometeram falhas, mas que inúmeras vezes foram vitoriosos, que se doaram inteiros e renunciaram aos seus sonhos, para que, muitas vezes, eu pudesse realizar o meu sonho. Compartilharam o meu ideal e os alimentaram, incentivando a prosseguir na jornada, mostrando que o meu caminho deveria ser seguido sem medo, fossem quais fossem os obstáculos minha eterna gratidão vai além de meus sentimentos. A você meu irmão Geraldo que por muitas vezes pode compartilhar minhas angústias, que agradeço por todo amor e carinho. Ao meu namorado Leandro, por todo amor, carinho, paciência e compreensão quem me dedicou seu tempo e compartilhou sua experiência para que minha formação fosse também um aprendizado de vida, meu carinho e meu agradecimento, o seu olhar crítico e construtivo me ajudou a superar os desafios desse trabalho de conclusão de curso, serei eternamente grata. Ao professor e coordenador David Marconi que, com muita paciência e atenção, dedicou do seu valioso tempo para me orientar em cada passo deste trabalho. Aos professores Rubens, Márcia, Maria Isabel, Tatiane, Edson, Ana Cláudia, João, Maria Cristina, Rafael, Diego, entre tanto outros pela contribuição na minha vida acadêmica e por tanta influência na minha futura vida profissional. Agradeço também ao Pablo Kurlander pela sua confiança e dedicação por ter me ensinado aos primeiros passos na atuação prática da psicologia como estagiária na Comunidade Terapêutica Nova Jornada pelo imenso aprendizado no decorrer do estágio com cada dependente químico, e o quanto cada um deles fez com que eu também pudesse realizar este trabalho. Aos meus colegas de classe, em especial Camila, Andréia, Tassiana, Nadia, a quem aprendi a amar e construir laços eternos. Obrigada por todos os momentos em que fomos es-

6 tudiosas, brincalhonas, atletas e cúmplices. Porque em vocês encontrei verdadeiras irmãs. Obrigada pela paciência, pelo sorriso, pelo abraço, pela mão que sempre se estendia quando eu precisava. Esta caminhada não seria a mesma sem vocês. A todos também meus companheiros de classe que nesses cinco anos que ouviram os meus desabafos, que presenciaram e respeitaram o meu silêncio, que partilharam este longo passar de anos, de páginas, de livros e cadernos, me acompanharam, choraram, riram, sentiram, participaram, aconselharam, dividiram as suas companhias, os seus sorrisos, as suas palavras e mesmo as ausências foram expressões de amor profundo. As alegrias de hoje também são de todos nós, pois seus amores, estímulos e carinhos foram armas para essa minha vitória. A minha amiga querida Camila por todo apoio e cumplicidade, dedicação e preocupação, porque mesmo distante estava presente em minha vida. Obrigada a todos que, mesmo não estando citados aqui, tanto contribuíram para a conclusão desta etapa e para a Geovana que sou hoje. Que todo o meu ser louve ao Senhor, e que eu não esqueça nenhuma das suas bênçãos Salmo 103:2.

7 Um ambiente físico e cultural diferente fará um homem diferente e melhor (SKINNER, 2002).

8 RESUMO O presente trabalho trata-se de uma análise comportamental de uma área das normas do setor de generalidades das regras de uma Comunidade Terapêutica do interior do Estado de São Paulo. Trata-se então de uma pesquisa documental, ao analisar comportamentalmente as regra da Comunidade Terapêutica foi possível avaliar sua clareza e, posteriormente, sua possível eficácia. Esta análise foi feita transformando as regras em descrições de contingências, identificando-se inicialmente os antecedentes, as respostas e as consequências, dispondo as descrições de contingências em um quadro funcional. Em seguida, foi avaliada a probabilidade de tais regras serem seguidas. Através deste trabalho foi possível verificar que a maioria delas não descreve seus antecedentes e resposta o seguimento de regras, portanto não se torna claro devido a não descrição de contingências. Palavras chaves: Dependência química, Comunidade Terapêutica, regras, comportamento governado por regras.

9 ABSTRACT The present paper treats of a behavioral analysis about the rules of a Therapeutic Community in São Paulo countryside. Being a documentary research upon analyzing behaviorally the rules of the Therapeutic Community, it has been possible to evaluate its explicitness and, later, its effectiveness. This analysis has been accomplished turning the rules into descriptions of contingencies, identifying initially, the backgrounds, the replies and the consequences affording the descriptions of contingencie in a functional approach. Then, it has been evaluated the probability of these rules be followed. Through this task, it has been possible to verify that the most of them don't obtain in the functional board their backgrounds and the reply in the following rules, however, it doesn't become clear due to the lack of descriptions of contingencies Keywords: Chemical dependency, Therapeutic Community, Rules, Behavior managed by Treatment Rules.

10 ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 1 Proporções das regras com antecedentes...34 Gráfico 2 Proporções das regras com consequências...34 Gráfico 3 Proporções das regras com antecedentes e consequências...35 ÍNDICE DE QUADROS Quadro 1 - Modelo de análise de contingências...26 Quadro 2 - Análise de contingências das Normas de Moradia...30

11 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO DESENVOLVIMENTO Fundamentação Teórica A dependência química como problema social Comunidades Terapêuticas Comunidades Terapêuticas no Brasil Comportamento governado por regras Regras em Comunidade Terapêutica Fatores que facilitam ou dificultam o seguimento de regras Método Cenário Análise e discussão CONCLUSÃO...37 REFERÊNCIAS...38 ANEXOS...40 Anexo 1 Normas de Moradia: Generalidades...41 Anexo 2 Autorização...43

12 11 1. INTRODUÇÃO A Comunidade Terapêutica tem dado provas de constituir uma eficiente abordagem de tratamento do abuso de substâncias químicas e de problemas da vida vinculados a esse abuso. Por isso tem se tornado, nas últimas décadas, uma das modalidades mais procuradas para a recuperação de dependência química do álcool e das drogas, tanto no Brasil como em muitas partes do mundo (KURLANDER, 2012), atendendo no Brasil a 85% das internações por álcool e drogas (UNIAD, 2013; SENAD, 2013). Segundo Kurlander (2012), De Leon (2008) e Fracasso (2008) as Comunidades Terapêuticas existem há mais de 50 anos, tempo suficiente para caracterizar uma dinâmica específica de trabalho, assim como uma problemática que merece ser estudada à luz da sua própria história. De Leon (2008) e Fracasso (2008) afirmam que cada vez mais, tanto a população leiga quanto os profissionais da área da saúde, procuram ou encaminham para este tipo de tratamento a maioria dos casos de dependência química e do álcool, em detrimento dos antes tradicionais tratamentos de base medicamentosa hospitalar. Segundo De Leon (2008) e Kurlander (2012) a problemática se deve também ao fato de que o alcoolismo e, principalmente, a dependência química, mesmo havendo registro do consumo de álcool e drogas desde a antiguidade, são doenças da atualidade, motivo pelo qual o seu tratamento e recuperação ainda estão em foco de pesquisa e desenvolvimento. Uma das principais características do comportamento da maioria dos dependentes químicos é uma grande dificuldade em seguir regras básicas de comportamento em grupo, o que faz com que seja extremamente importante o aprendizado destas regras para favorecer tanto a adesão ao tratamento quanto a vida em abstinência de álcool e drogas após o mesmo. Segundo Baum (2006), as regras são úteis para complementar contingências fracas e complexas 1, como acontece com muitas das regras das Comunidades Terapêuticas, objeto deste estudo. Na medida em que as contingências se tornem mais claras, elas se tornarão mais fortes, ou seja, o controle do estímulo será mais eficaz. Skinner (2003) descreveu comportamento governado por regras como sendo comportamentos que se encontram sob controle de estímulos discriminativos verbais. 1 Segundo Baum (2006), contingências complexas são aquelas nas quais não está descrito claramente o comportamento a ser seguido. Isso as tornaria fracas, ou seja, menos prováveis de serem seguidas.

13 12 É importante ressaltar que comportamento governado por regras refere-se a dois operantes que são mantidos por contingências diferentes: o operante de seguir regras e o operante especificado pela regra. O comportamento especificado pela regra se mantém pelas contingências nela descrita e o comportamento de seguir regras é mantido por suas consequências naturais (SKINNER, 2003). Então comportamento governado por regras pode ser modificado através da alteração tanto dos antecedentes como das consequências ou de ambos. Segundo Skinner (2003, p. 145) o comportamento governado por regras é particularmente importante em algumas circunstâncias. Regras facilitam a aquisição e manutenção do comportamento quando as consequências do comportamento são pouco claras ou ineficazes. São de fundamental importância nessas ocasiões, pois podem possibilitar certo controle por consequências remotas. Além disso, regras apresentadas pelo experimentador e a- quelas elaboradas pelo próprio sujeito têm sido consideradas como uma das variáveis determinantes das diferenças entre o desempenho de humanos e não humanos submetidos a esquema de reforçamento. O comportamento inadequado dos residentes 2 durante o tratamento, caracterizado pelo não seguimento das regras básicas da Comunidade Terapêutica, pode trazer consequências negativas tanto para si mesmo quanto para o grupo, como a perda de privilégios, por exemplo. Este estudo tem como objetivo descrever, a luz da análise de comportamento, as contingências das regras de moradia de uma Comunidade Terapêutica. Os objetivos específicos deste estudo são: a) descrever as regras em termos de contingências de reforçamento; b) avaliar se os antecedentes e consequentes são claros para os residentes; c) identificar se estas contingências são fracas ou fortes; d) classificar o efeito como sendo de curto ou longo prazo. Espera-se que este estudo possa contribuir para a identificação das possíveis fragilidades regras da Comunidade Terapêutica estudada, contribuindo para que sejam feitas as mudanças necessárias, fortalecendo assim as contingências para as adequações comportamentais esperadas. 2 Residente é o nome utilizado na Comunidade Terapêutica estudada para designar cada um dos dependentes químicos que se encontram em tratamento.

14 13 2. DESENVOLVIMENTO 2.1 Fundamentação Teórica A dependência química como problema social De acordo com Baum (2006) os problemas sociais são problemas comportamentais. Todos eles têm a ver com o fazer as pessoas se comportarem melhor governar bem, obedecer à lei, apreender na escola, reciclar o lixo. Como levar as pessoas a se comportar adequadamente? Para Silva (2000), o problema da dependência química é visto como resultado de uma falta de adaptação à realidade e uma ausência de habilidade do indivíduo em lidar com o meio social, ou ainda de uma incapacidade em resolver os problemas que a vida lhe apresenta. O uso de drogas infelizmente continua sendo um grande problema na atualidade. A produção delas é combatida, mas é grande o número de pessoas que permanecem no uso de álcool e drogas, não buscando um tratamento, tanto em Comunidade Terapêutica como em qualquer outra modalidade disponível. O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), realizado pelo Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas (INPAD) e pela Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD, 2013), afirma que o consumo de drogas e álcool em excesso traz, além do dano para a saúde da população, outros problemas sociais agregados à degradação causada pela compulsão pelas drogas em geral e bebidas. Dissociar diversão de exagero e combater a banalização e a irresponsabilidade com o esclarecimento contínuo e a insistente exemplificação dos estragos causados pela bebida e pelas drogas, podem promover mudanças em uma sociedade vulnerável à dependência química de forma claramente desigual. De acordo com Fracasso (2008) o consumo de droga e álcool, tal como outras problemáticas, é influenciado pelos contextos social e cultural, pelo estilo de vida e comportamento que o usuário dependente químico apresenta, afetando também muitas áreas do social na vida do individuo sua relação com a família, amigos, a busca de um emprego, área da saúde e o julgamento da sociedade. Desde a vida do indivíduo, aos amigos, a família, a produtividade escolar e profissional, a área da saúde entre outras. Segundo Fracasso (2008) o indivíduo que procura um tratamento pode vir voluntariamente ou pressionado por questões legais, familiares e outras, porém devemos ter presente

15 14 que, mesmo aquele que vem voluntariamente, apresentará, inicialmente, um período de resistência. Este problema se manifesta no sintoma da dependência química, mascarando-se, em vários níveis da sua vida como a perda da autonomia e liberdade pessoal para fazer projetos, escolhas e decisões como ser esse candidato a procurar um tratamento, mas o dependente químico tenta resgatar essa autonomia individual. Segundo Fracasso (2008, p. 277), Dependente químico é um ser humano confuso e ferido. Está fazendo mal a si mesmo e, neste momento, é incapaz de se defender. Por isso necessita de uma ajuda externa que o acompanhe em uma nova direção e o sustente com amor e profissionalismo. É um ser humano sozinho, fisicamente separado dos outros, emocionalmente fechado, socialmente marginalizado, que, porém, não perdeu a criatividade, a necessidade de pertencer, de fazer amizades e ter amor. Um ser humano capaz de confrontar, estimar, respeitar, perdoar, de mostrar qualidades e de ter consciência. É um protagonista digno, comunicativo e dinâmico, que expressa muda, cresce. Desenvolvendo-se partindo de si mesmo em direção aos outros. É um ser humano feito para viver em grupo, expressando sentimentos, fatos e acontecimentos para resgatar valores comuns e reduzir as tensões sociais. Quando se fala desse ser humano o dependente químico deve-se considerar que é um ser único em sua dimensão familiar e social, um indivíduo potencialmente capaz de renascer e projetar a própria vida em direção à autonomia e liberdade, através de seus relacionamentos familiares e afetivos. A sua presença ativa no contexto social exige um comportamento mais adequado e aceitável, tanto para a sociedade na qual se insere, quanto para si mesmo. Para isso precisa buscar ajuda, favorecendo o crescimento através de um processo individual e social Comunidades Terapêuticas Segundo De Leon (2008), a Comunidade Terapêutica se constituiu, há mais de 50 anos, como o modelo que mais tem dado provas substanciais para o tratamento do abuso de álcool e drogas, assim como de outros problemas associados. De acordo com Fracasso (2008) e De Leon (2008) em 1860 foi fundada uma organização religiosa chamada Oxford. Esta organização era uma crítica à Igreja da Inglaterra, e seu objetivo era o renascimento espiritual da humanidade. Originalmente chamada Associação Cristã do I Século, acabou mudando o nome em 1900 para Moral Rearmement. Este grupo, conhecido como Grupo de Oxford, buscava um estilo de vida mais fiel aos ideais cristãos:

16 15 encontrava-se várias vezes por semana para ler e contemplar a bíblia e se comprometiam reciprocamente a ser honestos. Em Oxford, cujo objetivo era o renascimento espiritual da humanidade, acomodava de modo amplo todas as formas de sofrimento humano. No início do século XX, com as suas atividades em alta, os dirigentes do grupo constataram que aproximadamente 25% dos seus participantes eram alcoolistas em abstinência, o que acabou dirigindo naturalmente o seu foco de atenção para esta problemática específica. Segundo De Leon (2008) e Fracasso (2008) alguns integrantes deste Grupo Oxford influenciaram a formação de outro grupo, atualmente conhecido a nível mundial, os Alcoólicos Anônimos (AA). Em 1935 dois alcoólicos tentando se recuperar, Bill Wilson, corretor da bolsa de Nova York, e doutor Bob Smith, médico cirurgião de Akron, se conheceram na casa deste último, quando o primeiro tentava se contatar com outro alcoólico em recuperação, a fim de evitar uma recaída. Segundo Fracasso (2008, p. 273) A aplicação do conceito de ajuda às pessoas em dificuldades, feita pelos próprios pares, é a base das relações vividas na Synanon, posteriormente onde cada pessoa se interessa e se sente responsável pelas outras. Desde o início acolheram alguns jovens que estavam tentando ficar em abstinência de outras drogas, e em decorrência disso a Comunidade Terapêutica que teve seu início a uma CT para alcoolistas, abriu portas para jovens que usavam outra substância psicoativas. Ainda segundo De Leon (2008), Fracasso (2008) em 1958, Charles Dederich, alcoólico em recuperação e membro dos AA, uniu suas experiências pessoais com as experiências de grupo, e iniciou um grupo semanal de associação livre no seu apartamento junto com outros membros da irmandade, que acabou resultando em perspectíveis mudanças psicológicas nos participantes. Essas reuniões foram consideradas pelos seus membros como uma nova modalidade de terapia, e em pouco tempo resolveram constituir esse grupo como comunidade residencial, até que em Agosto de 1959, em Santa Mônica, Califórnia, EUA, foi fundada oficialmente Synanon, o primeiro protótipo de Comunidade Terapêutica para a recuperação de dependentes químicos da história. De acordo com Kurlander (2012, p. 20) a mais notável mudança promovida por este grupo foi a passagem do ambiente não residencial das reuniões regulares para a convivência integral no modelo de Comunidade Terapêutica. Obviamente as questões relativas ao ambiente residencial do novo programa de tratamento exigiram mudanças radicais quanto à estrutura organizacional, regras, metas, filosofia e orientação ideológica e, principalmente, o perfil dos atendimentos pelo programa.

17 16 Outra particularidade deste grupo foi o atendimento de dependentes químicos, e não somente o alcoolismo, já que outros grupos anteriores (Oxford e AA) atenderiam unicamente esse tipo de dependência. Como, de acordo com De Leon (2008), o perfil do dependente químico é diferente do perfil do alcoólico, isto também exigiu uma mudança na postura e metodologia do grupo, o que significou também um marco evolutivo na conceituação do que é, e a quem trata, a Comunidade Terapêutica. Synanon também introduz uma série de atividades culturais na vida da comunidade, como, por exemplo, pintura, música e dança, como uma nova modalidade terapêutica, o que representa, sem dúvidas, uma inovação na forma de tratar os dependentes químicos. Estas mudanças também significaram modificações nos elementos básicos e essenciais do que tinha sido o grupo num começo, e isto provocou sérias controvérsias na direção do mesmo. De Leon (2008) e Fracasso (2008) indicam que o primeiro modelo autodenominado como Comunidade Terapêutica foi o Daytop Village, fundado em Nova York, em 1963, por egressos de Synanon, junto ao Monsenhor William O Brien e David Deitch. O principal diferencial desta nova abordagem foi a inclusão de profissionais da área da saúde dentro da equipe técnica, o que, apesar das grandes resistências por parte dos participantes das primeiras gerações de Comunidades Terapêuticas, se tornou parte integrante do modelo principal do que se entende atualmente como Comunidade Terapêutica. É claro que muitas são as discussões a respeito, já que a vivência diária dentro da Comunidade Terapêutica com as tensões e conflitos que tanto a caracterizam, e a teoria asséptica de muitos profissionais da área que se dedicam à pesquisa, nem sempre parecem falar da mesma realidade. Quanto a isto De Leon (2008, p. 8) afirma que o que as Comunidades Terapêuticas têm questionado ou rejeitado não são novas informações, mas formulações abstratas, vistas muitas vezes pelos profissionais das Comunidades Terapêuticas como irrelevantes para a vida real dentro e fora dessas comunidades. Após Daytop Village as iniciativas dirigidas à recuperação da dependência química em regime de Comunidade Terapêutica aumentaram vertiginosamente pelo mundo todo, proporcionalmente ao aumento do problema da dependência química. Programas terapêuticos na Europa e nas Américas floresceram, expandindo este ideal e adaptando-o a cada realidade. Este tipo de alternativa terapêutica se consolidou e deu origem a outras Comunidades Terapêuticas que conservando os seus conceitos básicos de uma comunidade terapêutica fo-

18 17 ram se aperfeiçoando e fazendo com que essas Comunidades Terapêuticas se tornassem mais reconhecidas. De acordo com De Leon (2008) embora a Comunidade Terapêutica de tratamento da dependência química tenha por base várias fontes, tanto recentes como antigas, a expressão Comunidade Terapêutica é moderna. Seu uso inicial servia para descrever as Comunidades Terapêuticas psiquiátricas surgidas na Grã-Bretanha no curso dos anos Não há nenhum elemento que permitia ver com clareza se as Comunidades Terapêuticas psiquiátricas inglesas influenciaram as Comunidades Terapêuticas de tratamento da dependência química na América do Norte. Porém um breve exame do uso da Comunidade Terapêutica na psiquiatria social revela algumas características comuns a todas as Comunidades Terapêuticas, o que explicaria a sua origem comum: De acordo com De Leon (2008, p. 15) são características da Comunidade Terapêutica psiquiátrica: - considera-se a organização como um todo responsável pelo resultado terapêutico; - a organização social é útil para criar um ambiente que maximize os efeitos terapêuticos, em vez de constituir mero apoio administrativo ao tratamento; - um elemento nuclear é a democratização: o ambiente social proporciona oportunidades para que os pacientes participem ativamente dos assuntos da instituição; - todos os relacionamentos são potencialmente terapêuticos; - a atmosfera qualitativa do ambiente social é terapêutica no sentido de estar fundada numa combinação equilibrada de aceitação, controle e tolerância com respeito a comportamentos disruptivos; - atribuir-se um alto valor à comunicação; - o grupo se orienta para o trabalho produtivo e para o rápido retorno à sociedade; - usam-se técnicas educativas e a pressão do grupo para propósitos construtivos; - a autoridade se difunde entre funcionários e responsáveis e os paciente.

19 18 Segundo Fracasso (2008) as características da Comunidade Terapêutica psiquiátrica são idênticas às das atuais Comunidades Terapêuticas para dependentes químicos, já que ambas se organizam em torno aos mesmos princípios básicos Comunidades Terapêuticas no Brasil Após um breve histórico da Comunidade Terapêutica ela então chega ao Brasil. Segundo Fracasso (2008), em 1968, na cidade de Goiânia nasce à primeira Comunidade Terapêutica brasileira, o Desafio Jovem do Brasil. Porém Kurlander (2012) relata que o site oficial do Desafio Jovem do Brasil teria divulgado a fundação da primeira casa de Goiânia teria acontecido em 1977, tendo como primeiro presidente o Pr. Bernardo Johnson, cinco anos depois do lendário Pr. David Wilkerson ter vindo ao Brasil pela primeira vez através deste. Em 1978, segundo Fracasso (2008) e Kurlander (2012) e o site oficial da Fundação Padre Haroldo (2013), foi fundada uma entidade filantrópica chamada Associação Promocional Oração e Trabalho (APOT), hoje designada Instituto Padre Haroldo, que no mesmo ano iniciou os trabalhos na Comunidade Terapêutica Fazenda do Senhor Jesus para homens adultos dependentes químicos. A mesma instituição fundou em 1989 uma unidade em Campinas, SP, para meninos de rua e em 1993 uma unidade para adolescentes. Em 1990 foi fundada a Federação Brasileira de Comunidades Terapêuticas (FEBRACT, 2013), oferecendo cursos de capacitação para a equipe de trabalho. A sua sede está localizado em Campinas, SP, sendo o Padre Haroldo Rahm, acima citado, o presidente. Em pesquisa realizada em 2004 pelo Ministério da Saúde, sobre o perfil das Comunidades Terapêuticas no Brasil, como mostra Duarte (2010), foram identificadas 339 Comunidades Terapêuticas que faziam internação integral para dependentes químicos. Destacou-se que 55% encontravam-se na região Sudeste, cerca de 30% no Sul e as demais regiões do país concentravam apenas 15% das instituições deste tipo. A grande maioria das comunidades (73%) foi implantada a partir da década de 1990 e atendiam, principalmente, homens (77%). De acordo com os dados da FEBRACT (2013), 30% a 35% das pessoas que frequentaram Comunidades Terapêuticas deixaram definitivamente de consumir drogas. Segundo o Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (OBID) (BRASIL, 2013) existem quase 1700 Comunidades Terapêuticas cadastradas no Brasil, embora se considere que existam mais de 3000 no total.

20 19 Esta grande expansão das Comunidades Terapêuticas no Brasil evidencia o vertiginoso aumento da procura por tratamento para a dependência química, fruto da crise social existente, decorrente do evidente crescimento do problema no país e no mundo. O modelo de Comunidade Terapêutica mostra que cada indivíduo deve se responsabilizar pelo seu progresso, pelo seu crescimento como indivíduo e na sociedade, assim como em cada grupo em que esteja inserido, para que possa sim ser alcançada a abstinência de álcool e drogas. De acordo com Fracasso (2008, p. 279) o programa terapêutico-educativo a ser desenvolvido no período de tratamento na Comunidade Terapêutica tem como objetivo ajudar o dependente químico a se tornar uma pessoa livre através com a mudança de seu estilo de vida. A proposta da CT deve considerar que o dependente químico pode desenvolver-se nas diversas dimensões livre entre a equipe e os residentes, em uma organização solitária, democrática, e igualitária. A Comunidade Terapêutica se torna um ambiente terapêutico ao dependente químico, com o tratamento ao decorrer dos meses em que ele permanece em seu tratamento o residente tem a necessidade de libertar suas energias em um sentido pleno de eficácia capaz de realizar um projeto de vida construtivo de apreender a lidar consigo mesmo Comportamento governado por regras Toda cultura tem suas regras. A criança que cresce em uma determinada cultura pode apreender a obedecer a algumas de suas regras sem que seja explicitamente instruída a fazê-lo (BAUM, 2006). Baum (2006) afirma que talvez as pessoas sejam tão propensas a seguir regras em parte porque são expostas, desde muito cedo, a tantas e tão diferentes relações de reforço próximas. Inúmeras vezes as crianças fazem o que lhes mandam fazer e ganham doces, afeto e aprovações. As regras são verbalizadas pela mãe, pai, outros membros da família e depois pelos professores. Segundo Baum (2006) dizer que comportamento é controlado por uma regra é dizer que está sob controle do estímulo regra, e que a regra é certo tipo de estímulo discriminativo. Nós nos concentramos nas discriminações que envolvem enunciados verbais de regras, tal como as regras de um jogo, porque historicamente as pessoas têm a capacidade de responder ao comportamento verbal. As regras podem ser tanto escritas como faladas, como:

21 20 não é permitido jogar bitucas ou papéis fora das caixas de lixo. Além de a regra ser falada, existe esse local certo com objetivo para serem jogados, mas não é sempre que isto ocorre. Skinner (2003) diz que uma regra funciona como um estímulo discriminativo verbal e é eficaz como parte de um conjunto de contingências de reforço. As regras descrevem contingências, ou seja, relações entre eventos que antecedem o comportamento, a resposta e suas conseqüências. O comportamento governado por regras sofre pouco efeito das consequências desse comportamento. Uma pessoa segue regras porque em sua história foi reforçada a seguir regras similares, ou por reforçadores sociais arbitrários ou pela consequência natural do comportamento especificado pela regra. A sociedade arranja as consequências para o responder de a- cordo com as regras, estabelecendo e mantendo, desta forma, o comportamento(paracampo, 2005). O comportamento de seguir regras ou instruções pode se modificar em função das condições antecedentes ou de consequências. Segundo Baum (2006, p. 166) apenas os comportamentos que podem ser descritos por regras podem ser chamados de controlados por regras no sentido empregado. Os behavioristas sustentam a possibilidade de uma explicação científica e tentam mostrar que o seguimento de regras pode ser explicado por conceitos de análise comportamental (reforço, controle de estímulo). As regras são apresentadas na comunidade desde o momento em que os residentes chegam até o fim de seus tratamentos, são explicadas verbalmente a todo o momento e também escritas em suas apostilas. Sempre que as regras são seguidas passam a ser algo comum, não há reforçadores, mas no momento em que são violadas surgem as punições, que nem sempre são eficazes, pois o comportamento volta a se repetir. Para Baum (2006) o comportamento controlado por regras envolve duas relações, sendo elas a longo prazo e a curto prazo. Há mudanças de comportamento em todo tempo, algumas regras são adquiridas e incorporadas rapidamente, configurando-se como de curto prazo. Já para outras regras é necessária uma intervenção mais específica para que seja adquirida, como sendo um reforçador ou uma punição. Através destes haverá consequências específicas para o comportamento, o que colaborará com que este seja repetido ou extinguido. Esta seria a relação de longo prazo. Regras especificam contingências, mas apenas isso não seria suficiente para defini-las. Ao invés de, simplesmente, evocar um comportamento que foi reforçado no passado, as re-

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