ASSUNTO: Partilha por divórcio art.º 1790.º do Código Civil Impostos.

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1 Proc.º n.º C. N. 20/2009 SJC CT ASSUNTO: Partilha por divórcio art.º 1790.º do Código Civil Impostos. DESCRIÇÃO E ANÁLISE DO PROBLEMA: O helpdesk do Balcão das Heranças e Divórcios com Partilha colocou as seguintes questões: a) num divórcio, quando o regime de bens for o da comunhão geral, o estatuto de bens comuns mantem-se para todos ou apenas para os adquiridos na constância do casamento; b) em que momento se define a quota-parte de cada um dos cônjuges; c) quais as implicações fiscais da partilha por divórcio. Cumpre emitir parecer. Refere-se, previamente, que estas questões se colocam nos dois tipos de divórcio existentes (por mútuo consentimento e sem o consentimento do outro cônjuge), conforme já ficou resolvido no Proc.º Div. 68/2008 SJC CT. Relativamente à primeira questão: Dispõe o n.º 1 do art.º 1730.º do Código Civil (CC) 1, que Os cônjuges participam por metade no activo e no passivo da comunhão, sendo nula qualquer estipulação em sentido diverso. Tal significa que, relativamente aos bens integrados na comunhão, quaisquer que eles sejam no caso concreto, não poderão desviar-se da regra da metade, tendo-se especialmente em vista fixar a quota-parte a que cada um dos cônjuges tem direito no momento da partilha do património comum, subsequente à dissolução do casamento. 2 A norma em apreço atribui a cada cônjuge o direito à metade do valor do património comum, do activo e do passivo. Não é um direito à metade de cada bem em concreto mas sim à metade do valor global, conforme refere o Prof. Pereira Coelho no Curso de Direito da Família, vol. 1, pág Este preceito não foi alterado pela Reforma do Regime Jurídico do Divórcio, operada pela Lei n.º 61/2008, de 31 de Outubro. 2 Pires de Lima e Antunes Varela, in CC anotado, comentário ao art.º 1730.º 1

2 Atente-se em que, apesar desta norma estar inserida na subsecção (II) respeitante ao regime da comunhão de adquiridos, se aplica ao regime da comunhão geral por força do art.º 1734.º do CC. A regulação do regime da comunhão de adquiridos é paradigmática dos regimes da comunhão e não há dúvidas de que a fixação, em termos imperativos, da participação dos cônjuges no património comum, abrange ambas, como reconhecem os Profs. Pires de Lima e Antunes Varela. 3 Vejamos, agora, o art.º 1732.º do CC, específico do regime da comunhão geral: Se o regime de bens adoptado pelos cônjuges for o da comunhão geral, o património comum é constituído por todos os bens presentes e futuros dos cônjuges, que não sejam excepcionados por lei. Isto significa que, com excepção dos bens incomunicáveis, elencados no art.º 1733.º, todos os outros são comuns. Os bens cujo título de aquisição seja anterior à data do casamento (bens presentes) e os bens adquiridos depois do casamento (bens futuros), tanto os adquiridos a título oneroso como a título gratuito. No regime anterior à vigência da Lei n.º 61/2008, de 31 de Outubro, o cônjuge declarado único ou principal culpado não podia receber na partilha mais do que receberia se o casamento tivesse sido contraído segundo o regime da comunhão de adquiridos. Portanto, só um dos cônjuges era atingido por essa restrição. No regime actual, são sempre os dois, nada impedindo que se faça, agora, um aproveitamento (com as necessárias adaptações) da doutrina produzida relativamente à versão anterior do art.º 1790.º do CC. Assim, como refere o Prof. Pereira Coelho, 4 a aplicação daquele preceito não implica a substituição do regime da comunhão geral pelo da comunhão de adquiridos. Não podem pois os cônjuges pedir a inscrição a seu favor dos bens que levaram para o casamento ou depois lhe advieram por herança ou doação com base na decisão de divórcio. Tendo estipulado o regime da comunhão geral, esses bens entraram na comunhão e nela permanecem até à partilha; só depois desta poderá saber-se a quem ficam a pertencer. A lei não exige que na partilha os cônjuges sejam encabeçados nos bens que cada um levou para o casamento ou depois lhe advieram por doação ou herança, como aconteceria se o regime de bens estipulado fosse o da comunhão de adquiridos; só quer que os cônjuges não recebam na partilha mais (sublinhado nosso) do que receberiam se 3 Obra citada, anotação ao art.º 1734.º 4 Obra citada, pág

3 tivesse sido convencionado esse regime. Não importam os bens em espécie, mas só o seu valor. Esta é, de resto, a única interpretação que se ajusta ao estabelecido no n.º 1 do art.º 1730.º do CC que, como já se disse, não foi modificado pela revisão do regime do divórcio e cujo alcance já ficou acima exposto (interpretação tendo sobretudo em conta a unidade do sistema jurídico art.º 9.º do CC). Simplificar o divórcio separando-o de certas questões a ele ligadas, foi tão só a motivação do legislador, ao acabar com o sistema de culpa no divórcio e aplicar sempre a ambos os cônjuges o mesmo critério de partilha que antes atribuía apenas ao declarado único ou principal culpado. E isso é perfeitamente compatível com o conteúdo do dito n.º 1 do art.º 1730.º do CC (reconstituição do pensamento legislativo citado art.º 9.º). Aqui chegados, impõe-se concluir que no divórcio, o estatuto de bens comuns mantemse para todos os bens e não só para os adquiridos a título oneroso na constância do casamento (cfr. art.º 1724.º do CC). Vejamos agora a segunda questão. Em que momento se concretiza o valor da quota-parte de cada um dos cônjuges? O divórcio dissolve o casamento, extingue as relações matrimoniais e faz cessar, para o futuro, os efeitos daquelas relações mantendo-se, porém, os efeitos já produzidos. 5 Tal significa que se, por exemplo, um dos cônjuges que era estrangeiro, adquiriu a nacionalidade portuguesa pelo casamento (art.º 3.º da Lei da Nacionalidade), mantemna após o divórcio. Os efeitos pessoais do divórcio produzem-se a partir da data do trânsito da sentença ou da decisão que o declarou (1.ª parte do n.º 1 do art.º 1789.ºdo CC). É o caso dos deveres dos cônjuges. Porém, os efeitos patrimoniais, produzem-se, ou podem produzir-se, num de dois momentos anteriores àquele trânsito: a) Na data da propositura da acção ( 2.ª parte do citado n.º 1 do art.º 1789.º); b) Na data, fixada na sentença, do início da separação de facto, quando estiver provada no processo e essa fixação seja requerida por qualquer dos cônjuges (n.º 2 do mencionado artigo). 5 Prof. Pereira Coelho, obra citada, pág

4 Contudo, esta segunda alternativa só é viável nos processos requeridos sem o consentimento do outro cônjuge e que assim terminem, pois, só nestes existe produção de prova. 6 Assim, tratando-se de cônjuges casados no regime da comunhão geral, se um deles herdar bens na pendência do processo de divórcio, se este vier mesmo a ser decretado, tais bens não se comunicam ao outro cônjuge. Tal acontece, precisamente, pela retroactividade dos efeitos patrimoniais do divórcio à data da propositura da acção. Por outro lado, se ficou provado no processo e fixado na sentença que a separação de facto já se verificou há, por exemplo, cinco anos (ou desde determinada data anterior à propositura da acção), se depois dessa referência no tempo, um dos cônjuges for donatário de um bem, esse bem não se comunica ao outro cônjuge, apesar do casamento se ter mantido muito tempo para além da doação. E se, em regra, a prova de que cessou a coabitação em determinada data se faz num pedido de divórcio (sem o consentimento do outro cônjuge) com fundamento na separação de facto (alínea a) do art.º 1781.º do CC), nada na lei parece excluir que se aplique aos pedidos com outro fundamento. 7 O interesse em requerer a fixação na sentença, da data em que tenha começado a separação de facto reside precisamente em afastar o outro cônjuge da comunhão de bens que chegaram posteriormente a essa data à esfera patrimonial do requerente. Já não existe comunhão, no âmbito patrimonial, porque a dissolução do casamento opera desde a referida data. Aqui chegados, podemos já dar resposta à segunda questão: o momento em que se concretiza o valor da quota-parte de cada um dos cônjuges, é aquele em que se produzem os efeitos do divórcio no que respeita às relações patrimoniais entre os mesmos. É nessa altura que se estabiliza o valor dos bens a partilhar. Falta referir, a propósito, o seguinte: 6 Idem,, pág Nesse sentido, Prof. Pereira Coelho, obra citada, pág

5 Ambas as hipóteses de retroacção dos efeitos patrimoniais do divórcio estão, porém, restringidas ao círculo das relações entre os cônjuges pois, estando em causa interesses de terceiros a estes só lhes podem ser opostos a partir do registo da sentença ou decisão de divórcio no assento de casamento e nos assentos de nascimento dos cônjuges (n.º 3 do art.º 1789.ºdo CC). 8 Voltemos à partilha. Estabilizado o valor dos bens, verifica-se o seu valor total. De seguida: a) - Apura-se o valor dos bens adquiridos na constância do matrimónio que não sejam excluídos (pela lei) da comunhão de adquiridos (art.º 1724.º - b) do CC). Cada um dos cônjuges tem direito a metade desse valor. b) - Calcula-se o valor dos bens que, se tivesse vigorado o regime da comunhão de adquiridos, seriam bens próprios de cada um dos cônjuges. Cada um tem direito ao valor correspondente a esses bens ficcionados como sendo bens próprios, para efeito de partilha. Somam-se depois, os dois valores, apurados em a) e em b) para cada um dos cônjuges, resultando dessa soma o valor da quota-parte de cada um, preenchida com dinheiro ou bens. O que na respectiva composição exceder a sua quota-parte, recebe tornas do outro. O cônjuge que recebeu bens que, no total, exceda a sua quota-parte, está sujeito ao pagamento do Imposto do Selo, sobre o excesso verba 1.1 da Tabela Geral. A taxa é de 0,8 % sobre o valor do excesso constante da partilha ou do valor patrimonial tributário, consoante o que for maior (art.º 12.º, n.º 1 do Código do IMT). A liquidação do imposto cabe à conservatória onde for efectuado o procedimento de partilha (art.ºs 21.º, n.º 1 a) e 23.º, n.º 1 do Código do Imposto do Selo). Face ao exposto formulamos as seguintes conclusões: 8 Nesse sentido, de novo o Prof. Pereira Coelho, obra citada, pág

6 1 No divórcio, o estatuto de bens comuns mantem-se para todos os bens e não só para os adquiridos a título oneroso na constância do casamento (cfr. art.º 1724.º do CC). 2 O momento em que se concretiza o valor da quota-parte de cada um dos cônjuges é aquele em que se produzem os efeitos do divórcio, no que respeita às relações patrimoniais entre os mesmos. 3 - Sobre o valor que exceda a quota-parte a que cada um tem direito, é devido Imposto do Selo. Lisboa, 19 de Novembro de O relator, 6

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