Bancos brasileiros prontos para um cenário de crescimento sustentado e queda de juros

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1 1 Bancos brasileiros prontos para um cenário de crescimento sustentado e queda de juros Tomás Awad Analista senior da Itaú Corretora Muito se pergunta sobre como ficariam os bancos num cenário macroeconômico de juros efetivamente baixos. Para que nível iria o lucro dos bancos se a Selic estivesse em um dígito? O censo comum diz que a taxa de juros elevada é o fator que suporta o bom nível de rentabilidade dos bancos privados brasileiros. È possível que até algum tempo atrás até os próprios banqueiros acreditassem nisto. Da mesma maneira, estes mesmos empresários viam com grande preocupação a entrada de bancos estrangeiros no seu mercado. Muito mudou passados praticamente oito anos de estabilidade monetária. A começar pela visão que os próprios banqueiros, ou os que ainda estão ativos, têm do setor, de seus concorrentes e por que tipo de perspectivas macroeconômicas eles têm preferência. Existem dois cenários nos quais bancos normalmente conseguem atingir bons níveis de rentabilidade (RPL Retorno sobre o Patrimônio Líquido). No primeiro, e que tem caracterizado o Brasil, temos taxas de juros reais elevadas e fraca atividade econômica. Neste contexto, o banco empresta primordialmente para o setor público e adapta sua estrutura operacional (estrutura de custos) para fazer baixo volume de empréstimos com spreads maiores e ter menor volume de transações (menos serviços como cobrança, cartão de crédito e etc). No segundo cenário as taxas de juros são baixas, acompanhadas de uma expansão econômica efetiva. O banco direciona crédito para o setor privado, que oferece maior spread e neste ambiente deve apresentar inadimplência baixa, e ajusta sua estrutura para trabalhar com maiores volumes de crédito e outros serviços como cobrança e cartão de crédito. Nos arriscamos a dizer que, mesmo tendo algum medo do desconhecido, afinal a atual geração de banqueiros (e analistas!) nunca trabalhou num ambiente de juros reais (menos ainda nominais) de um dígito, acreditamos que hoje estes tenham preferência pelo segundo cenário. Passado um período de concentração e/ou depuração, a posição competitiva dos grandes bancos de varejo brasileiro é muito boa e os estrangeiros já não são motivo de grande preocupação. A possibilidade de obter ganhos atraentes num ambiente mais estável, ante o risco da instabilidade macroeconômica que pode quebrar um banco de maneira relativamente rápida, é um fator que deve pesar cada vez mais na opinião destes banqueiros.

2 2 A verdade é que o sistema financeiro de uma maneira geral já vem se preparando para a transição do primeiro cenário para o segundo há algum tempo, ou teve a felicidade de ter uma fase de transição relativamente longa. Esta preparação incluiu expansão da base de clientes significativa, com crescimento de 25% de Dez 1998 a Dez São estes clientes que devem demandar crédito e utilizar serviços como cartão de crédito, seguros e asset management. Mesmo com uma expansão nas atividades (tanto de crédito como outros serviços), de 1997 a 2000 o total de empregados do setor caiu 12%. Rentabilidade (RPL) deve cair, mas ainda assim se manter em patamares atraentes. Não consideramos sustentáveis os atuais níveis de RPL dos principais bancos privados. Em nossas avaliações já consideramos uma queda gradual na rentabilidade, com RPLs sustentáveis, por exemplo, próximos a 24% e 20% para o Banco Itaú e para o Bradesco, respectivamente, ao invés dos 32% e 25% de Exceções a esta tendência devem ser os casos do Unibanco e do BB, uma vez que estão incrementado seus negócios geradores de rentabilidade (considerando as perspectivas de longo prazo). A escala crescente do Unibanco deverá permitir retornos mais altos, enquanto a recente troca de ativos do BB (com o Governo Federal) trouxe liquidez adicional que deverá ser direcionada para ativos mais rentáveis (em comparação com os empréstimos agrícolas subsidiados, que dão margens pequenas). Com base nas nossas premissas macroeconômicas para a inflação, crescimento do PIB e taxa de juros, estimamos os lucros do Bradesco, do Itaú, do Unibanco e do Banco do Brasil até o 4T06, assim como a qualidade dos seus ativos, impactos na eficiência e necessidades de capital. Premissas Macroeconômicas Projeções Econômicas E 2002 E 2003 E 2004 E 2005 E 2006 E Taxa de Inflação (IGP- M) 20.0% 10.7% 9.6% 5.5% 3.5% 3.0% 3.0% 3.0% PIB 0.8% 4.5% 2.0% 2.4% 4.1% 4.1% 4.1% 4.1% Taxa Selic 25.6% 17.4% 17.2% 16.9% 12.7% 12.0% 10.1% 8.6% Taxa de Câmbio Final do Ano (R$/US$) Taxa de Câmbio Média (R$/US$) Fonte: BBA Economic Research. Vale enfatizar que, nas nossas premissas macroeconômicas para 2006E, estamos considerando uma taxa de juros reais (acima da inflação) de 5,6%. Durante este período (de hoje até o 4T06), a taxa de câmbio deverá somente incorporar o diferencial da inflação entre Brasil e EUA, não representando uma fonte substancial de lucros para esses bancos. Também estimamos o crescimento da carteira de crédito para todo o setor bancário, comparando a sua evolução com o crescimento previsto para o PIB, identificando as perspectivas para a penetração de ativos bancários em relação ao PIB assim como as

3 3 participações de mercado dos bancos sob a nossa cobertura (Bradesco, Itaú, Unibanco e Banco do Brasil). É claro que este cenário somente será viável se as eleições de 2002 trouxerem uma continuidade dos atuais fundamentos macroeconômicos. Uma política fiscal responsável é sustentáculo e pré-requisito para que este cenário se realize. Estabilidade Econômica Crédito Deve Fomentar o Crescimento dos Ativos e Reduzir a Exposição dos Bancos ao Governo Brasileiro A mudança mais importante nos balanços dos bancos deverá ser a redução de sua exposição ao governo brasileiro. Além dos benefícios em termos da percepção do risco do negócio, a mudança no mix de receitas em favor de uma maior participação de receita de operações de crédito também deverá tornar mais suave a redução na MIF (margem de intermediação financeira). Projetamos uma taxa de crescimento da carteira de crédito do sistema bancário que representa 4x a taxa de crescimento do PIB. A taxa CAGR relativamente alta dos empréstimos, em comparação com a do PIB, é justificada, na nossa opinião, devido à penetração muito baixa do crédito ainda observada no Brasil, o que pode ser averiguado através de uma comparação com o Chile e a Espanha. Chile, Espanha e Brasil CAGR de Empréstimos / CAGR do PIB Total dos Empréstimos como % do PIB ao final do período Chile (1993 a 1999) 3,2x 65,0% Espanha (1980 a 1998) 3,7x 78,0% Brasil CAGR de Empréstimos x CAGR do PIB (2001 a 2006) Estimativa 4,0x 43,8% Fonte: Banco de Espanha e Banco de Chile. O crescimento de 1999 até 2000, embora seja um período muito curto, serve como indicador do crescimento potencial num cenário de juros em queda e de retomada da atividade econômica. Devemos destacar que a taxa de crescimento para 2000 (assim como as demais da tabela) foi apurada em termos reais, num ano em que a taxa de inflação foi de 10,7%. Em períodos de inflação mais baixa, conforme a expectativa para os próximos anos, 5,9x não nos parece tão alto assim. CAGR de Crédito x CAGR do PIB Nosso Universo de Cobertura (CAGR em termos reais) CAGR de Crédito x CAGR do PIB (2001 a 2006) Estimativa para os bancos de nossa amostra 5,9 CAGR de Crédito x CAGR do PIB (1996 a 2001) 3,8 CAGR de Crédito x CAGR do PIB (1999 a 2000) 5,0 Fonte BBA Equity Research.

4 4 Neste cenário, os bancos de nossa amostra (Bradesco, Itaú, Unibanco e Banco do Brasil) conquistariam uma fatia considerável da participação de mercado dos outros concorrentes. De 2001 a 2006, eles deverão apresentar um múltiplo de CAGR de Crédito 5,9x o CAGR do PIB, comparado com 4x para o setor como um todo. Além de concentrarem grande parte dos recursos baratos no setor bancário, o que nós consideramos mais importante é o fato destes competidores terem as bases de clientes mais amplas, o que lhes confere uma vantagem competitiva muito importante. Sua penetração extraordinária no segmento de clientes pessoa física deverá favorecer esse crescimento, uma vez que tais clientes deverão apresentar as mais atraentes oportunidades de crescimento (em produtos como crédito imobiliário). Das cerca de 55 milhões de contas correntes no Brasil, o Bradesco têm 12,0 milhões, o Banco do Brasil, 12,0 milhões, o Itaú, 9,0 milhões e o Unibanco, 5,6 milhões. Há algumas sobreposições a serem deduzidas. No entanto, esta participação de mercado de 70% (sem deduzir as sobreposições) parece bastante alta e mostra sua excelente posição competitiva. Atualmente, as pessoas físicas são responsáveis por 35% (considerando os créditos imobiliários e outros) do total da carteira de crédito do sistema bancário. Em comparação com um mercado maduro e desenvolvido como o dos EUA, podemos ver que o potencial de crédito para pessoas físicas é muito alto. Comparação da Carteira de Crédito (EUA à esquerda e Brasil à direita) Outros 16% Construção e Desenvol.Terrenos 4% 50,0% 45,0% 40,0% 43% 36,5% Crédito ao Consumidor 14% Crédito Comercial e Industrial 25% Crédito Imobiliário 44% Resid. Para 1 a 4 Famílias 25% Imóveis Residenciais Multifamiliares 2% Terras Agrícolas 1% Não Agrícola, Não residencial 13% 35,0% 30,0% 25,0% 20,0% 15,0% 10,0% 5,0% 0,0% 26% 16,9% 19,4% 20% 14,6% 6% 8,6% 4% 4,0% 1% Imobiliário Comercial Pés. Física Agrícola Governo Outros Brasil Brasil (excl. bancos estatais) Fonte: Federal Reserve, FDIC, BC e BBA Equity Research. Os brasileiros de uma maneira geral têm dívida muito baixa, e acreditamos que essa característica pode mudar num cenário de crescimento econômico saudável. Em média cada brasileiro deve R$ 430,00, ou 6% de sua renda per capita anual. No Chile a dívida de pessoas físicas com instituições financeiras representa aproximadamente 18% da sua renda per capita anual, na Espanha é 43% e nos Estados Unidos 64.7% (neste caso incluímos cartão de crédito). Assumindo que de 2001 a 2006 as pessoas físicas respondam por 65% dos novos empréstimos, ao final do período o brasileiro deverá em média 21% de sua renda per capita anual, indicador que não nos parece excessivamente elevado. Ao final do período de 2001 a

5 5 2006, a carteira de crédito bancário total deverá representar 43,8% do PIB do País, acima dos que os atuais 26,4%, mas ainda mais baixo do que em outros países. É importante enfatizar que os bancos brasileiros deverão assumir um papel especialmente importante no crescimento do crédito em comparação com outros países. Com marcas fortes, bem reconhecidas, e muito bem capitalizados, eles controlam empresas de cartões de crédito e de arrendamento mercantil, e é de se esperar que tenham uma presença preponderante no negócio de crédito imobiliário. Crescimento do Crédito x Crescimento do PIB E PIB (R$ Bilhões) 1.200, ,1 Total da Carteira de Crédito Bancário 317,1 760,8 Carteira de Crédito dos Bancos da amostra (Bradesco+Unibanco+Itaú+Banco do Brasil) 146,7 481,9 Total da Carteira de Crédito Bancário como % do PIB 26,4% 43,8% Carteira de Crédito dos Bancos da amostra como % do PIB 12,2% 27,8% Carteira de Crédito dos Bancos da amostra como % do Total da Carteira de Crédito Bancário 46,3% 63,3% Fonte BBA Equity Research. Nossas estimativas indicam um crescimento anual (CAGR) de 26.8% para os bancos de nossa amostra e 19.1% para a indústria bancária como um todo Ano de Inflexão Durante 2003, uma redução mais forte nas taxas de juros deverá ter um impacto direto no resultado final dos bancos no curto prazo, uma vez que os bancos não deverão conseguir realizar a mudança para uma maior participação de operações de crédito no total das receitas suficientemente rápido para compensar a redução nas receitas com títulos e valore mobiliários. O Itaú e o Banco do Brasil deverão ser os mais afetados por este fenômeno (menores taxas de juros não compensadas por maiores receitas em operações de crédito no curto prazo), já que é impossível incrementar o volume de operações de crédito na proporção necessária tão rapidamente. No entanto, no médio prazo eles conseguirão realizar essa mudança. Um bom indicador disto é o histórico do Itaú (compare as receitas de crédito atuais com as de 1995/1996 no gráfico abaixo). Como já comentamos anteriormente, os bancos de nossa amostra possuem uma ampla base de clientes e não deverão ter problemas sérios para expandir a base de crédito em um ambiente macroeconômico positivo.

6 6 Carteira de Crédito como % do Total do Ativo 50,0% 45,0% 40,0% Bradesco 35,0% BB Itaú 30,0% Unibanco 25,0% 20,0% Fonte: Banco Itaú, Bradesco, Unibanco e Banco do Brasil. Conclusão Os Bancos Brasileiros Devem Continuar Apresentando Resultados Atraentes. Percepção de Risco em Queda Deve ser Principal Catalisador de Valor de Mercado dos Mesmos Deixando um pouco de lado uma possível reviravolta no front econômico, nossa conclusão é que rentabilidade dos bancos medida pelo RPL deve cair para níveis mais normais, mas seguir em padrões atraentes. Os níveis de concentração avançaram perceptivelmente. Mesmo a questão de massa crítica (em ativos totais, por exemplo), citada como fator indicativo de que teremos muito mais concentração é discutível. Os bancos locais já possuem massa crítica razoável para o tamanho da economia brasileira, que é o que nos parece relevante de se considerar. Bradesco e Itaú detêm aproximadamente 9% e 7%, respectivamente, em Ativos como % do PIB brasileiro. Nos EUA, por exemplo, CitiGroup e o JP Morgan Chase detêm valores próximos á 7% (ativos nos EUA sobre PIB dos EUA). A penetração do crédito ainda é muito baixa, mas deve decolar à medida que melhorem as perspectivas de longo prazo quanto ao crescimento macroeconômico e à estabilidade. Os bancos brasileiros devem desempenhar um papel especial no crescimento do crédito, em comparação com outros países; os mesmos controlam empresas de cartões de crédito e de arrendamento mercantil, e logo é de se esperar que tenham uma presença preponderante no negócio de crédito imobiliário. Além disso, diferentemente dos países mais desenvolvidos, os bancos brasileiros já são muito atuantes tomando freqüentemente uma posição de liderança em negócios correlatos, como seguros e administração de recursos. Também cobrem o país inteiro, o que constitui um diferencial em termos de escala. De agora em diante, acreditamos que a redução do risco será o mais relevante catalisador de valor das ações no setor bancário brasileiro. Podemos dividir este risco em dois eixos. O primeiro refere-se à redução do risco Brasil, que afeta diretamente o modelo de avaliação de empresas e bancos. Este impacto é mais importante para o setor bancário, que usa exclusivamente o capital próprio. O segundo é a percepção do risco do negócio bancário. A diminuição da exposição ao governo brasileiro e o aumento da dependência dos clientes privados deverão melhorar a percepção do risco destes bancos.o principal catalisador de tais mudanças deve ser a queda da taxa de juros paga pelos títulos públicos.

7 7 Por isto consideramos a manutenção de uma política fiscal responsável ponto chave para que nosso cenário ocorra. Os bancos querem manter níveis de rentabilidade atraentes e sabem que para isto, num cenário de taxa de juro mais baixo, vão precisar expandir sua base de crédito, e muito. Caso isto se concretize, muitos paradigmas se quebraram. É esperar para ver. O presente artigo é cedido por seu(s) autor(es), sem ônus, à Apimec-MG, exclusivamente para publicação no portal sob responsabilidade da entidade. O texto apresentado constitui a versão final. Todos os direitos sobre esta propriedade intelectual pertencem exclusivamente ao(s) seus autor(es), único(s) responsável(eis) pelo conteúdo.

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