ATUAÇÃO Para que a atuação de uma UPA seja efetiva, a sua relação com os demais serviços de saúde do SUS, na opinião. Reportagem de Marla Cardoso

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1 SALVADOR SCOFANO/GOVERNO DO ESTADO RJ ATENÇÃO ÀS 20 Atuação das UPAs modifica o cenário de atendimento no país, mas necessita que a integração com outras unidades assistenciais seja melhorada iante da necessidade de expandir a rede de assistência às urgências e regionalizar esses atendi- Dmentos no país, o MS (Ministério da Saúde) insti- tuiu as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), definidas como estruturas de complexidade intermediária entre as Unidades Básicas de Saúde e as portas de urgência hospitalares, compondo uma rede organizada de atenção às urgências. A Política Nacional de Atenção às Urgências foi uma prioridade do governo Lula e a atribuição das UPAs surgiu como suporte da atenção básica para o atendimento às urgências menos graves, por isso sua implantação é dependente da integração com a rede de atenção básica, explica a médica e pesquisadora na área de Urgências, Gisele O dwyer. Desde a instituição das Unidades e com a publicação de portarias que estabeleceram pré-requisitos para a implantação destes centros, o atendimento às urgências no Brasil começou a ganhar um novo contorno. As UPAs completam o sistema de saúde com atendimento de Urgência e Emergência, servindo de retaguarda para as Unidades Básicas de Saúde e aliviando a pressão de demanda sobre os hospitais. Além disso, e talvez a mais importante vantagem das Unidades, é sua função enquanto Observatório do Sistema, aumentando a capacidade de captação de usuários para o cuidado integral com a saúde, afirma o secretário de Saúde de São Bernardo do Campo/SP, Arthur Chioro. A opinião do secretário é compartilhada com a visão de dirigentes de Unidades que têm implantado e acompanhado o desenvolvimento das UPAs em diferentes regiões do Brasil. Ao longo da reportagem é possível conhecer como essas Unidades estão se desenvolvendo no país, como sua implantação é definida, quais as suas prioridades e dificuldades de atuação e a importância das UPAs para a assistência à saúde pública brasileira. 20 Emergência

2 URGÊNCIAS HISTÓRICO As UPAs são integrantes do componente pré-hospitalar fixo e devem ser implantadas em locais estratégicos para a configuração das redes de atenção à urgência, com acolhimento e classificação de risco em todas as unidades, em conformidade com a Política Nacional de Atenção às Urgências. Sua estratégia de atendimento está diretamente relacionada ao trabalho do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que organiza o fluxo de atendimento e encaminha o paciente ao serviço de saúde adequado à situação. Para estabelecer as diretrizes para a implantação do componente pré-hospitalar fixo, indicando as competências e responsabilidades das UPAs, bem como detalhes sobre a estrutura física mínima para uma Unidade, o Ministério da Saúde publicou, no dia 13 de maio de 2009, a portaria nº Em julho de 2011, a portaria nº 1.601, revogada pela de nº 2648, estabeleceu novos critérios para a implantação do componente Unidades de Pronto Atendimento e o conjunto de serviços de urgência 24h da Rede de Atenção às Urgências. A proposta de integrar as UPAs à rede de atenção básica de saúde foi importante na visão da pesquisadora Gisele O dwyer para diferenciá-las dos antigos centros de pronto atendimento. Eles produziam atendimento de baixa qualidade e pequena resolutividade com repetidos retornos e enorme produção de consultas de urgência, destaca. Por outro lado, a pesquisadora defende que a atuação das Unidades ainda funciona como escoamento para a atenção básica, que tem dificuldade com a demanda espontânea, e para as emergências hospitalares, que têm dificuldade com a pequena urgência. Se pensarmos no exemplo do Rio de Janeiro, as UPAs foram implantadas como estratégia compensatória da insuficiência da atenção básica e da superlotação das emergências hospitalares no município, em especial entre os anos de 2007 e O Rio é um caso emblemático, já que tem a maior rede de UPAs do Brasil, enfatiza. ATUAÇÃO Para que a atuação de uma UPA seja efetiva, a sua relação com os demais serviços de saúde do SUS, na opinião Reportagem de Marla Cardoso Emergência 21

3 VANOR CORREIA/GOVERNO DO ESTADO RJ de Gisele, deve construir fluxos de atendimento, preferencialmente pactuados e que produza informação para a gestão. As UPAs são informatizadas, mas, em geral, não produzem informação para o planejamento. Elas devem se somar à atenção primária a fim de favorecer a regionalização, sugere. Já para o diretor técnico do Sistema de Urgência e Emergência de Curitiba/ PR, Eduardo Mischiatti, para que a atuação das Unidades seja efetiva, deve haver uma política de consolidação do binômio UPA/unidades básicas, para que se possa implementar mecanismos de integração com todos os demais pontos de atenção, incluindo os hospitais, por meio de um complexo regulador efetivo. Na visão do secretário de Saúde de São Bernardo do Campo/SP, Arthur Chioro, as Unidades também devem conseguir funcionar como Observatório do Sistema de Saúde, referenciando os pacientes para a Unidade Básica de Saúde de referência de seu território, para que a atenção básica consiga fazer a UPAs são estruturas de complexidade intermediária entre Unidades Básicas de Saúde e as portas de urgência hospitalares gestão do cuidado de cada usuário. Além disso, esses fluxos devem ter um espaço real de discussão, com participação de todos os serviços em reuniões territoriais respaldadas pelo nível central, que garantam que todos os pontos dessa rede entendam a missão de cada unidade, suas necessidades, dificuldades e potencialidades, opina Chioro. DIRETRIZES A portaria que redefiniu as diretrizes para implementação das Unidades estabelece que a UPA deve ser implantada em locais e unidades estratégicas para a configuração da Rede de Atenção às Urgências, em conformidade com a lógica de acolhimento e a classificação de risco, funcionando 24h do dia e em todos os dias da semana, além de possuir equipe multiprofissional interdisciplinar compatível com o seu porte. O ideal seria que estas Unidades estivessem inseridas em uma rede de serviços de saúde, hierarquizada com fluxos multidirecionais que permitam a construção de projetos terapêuticos adequados para os usuários, apoiados na gestão do cuidado no nível da atenção básica, opina Chioro. Já Mischiatti acredita que o Ministério da Saúde vem condicionando algumas contrapartidas que favorecem a racionalização de utilização das UPAs. A recomendação de inserção da atenção básica como ponto de entrada na Rede da Urgência e Emergência, bem como a resolubilidade de cada ponto, hierarquizado e regulado pelo Complexo Regulador, fará com que o dimensionamento de uma UPA não sofra a sobrecarga por ser esta a única alternativa ao cidadão, indica. COMPETÊNCIAS Em relação às competências da UPA na Rede de Atenção às Urgências, a portaria indica que à Unidade cabe acolher os usuários e seus familiares sempre que buscarem atendimento, articular-se com a atenção básica à saúde, SAMU 192, unidades hospitalares, unidades de apoio diagnóstico e terapêutico e com outros serviços de atenção à saúde. As Unidades devem prestar atendimento resolutivo e qualificado aos pacientes acometidos por quadros agudos de natureza clínica, e prestar primeiro atendimento aos casos de natureza cirúrgica e de trauma, estabilizando os pacientes e realizando a investigação diagnóstica inicial, de modo a definir, em todos os casos, a necessidade ou não de encaminhamento a serviços hospitalares de maior complexidade. Ainda é indicado fornecer retaguarda às urgências a- tendidas pela Rede de Atenção Básica à Saúde e funcionar como local de estabilização de pacientes atendidos pelo SA- MU 192. Também cabe às UPAs realizar consulta médica em regime de pronto atendimento aos casos de menor gravidade; realizar atendimentos e procedimentos DEFINIÇÃO DOS PORTES APLICÁVEIS ÀS UPAs 24h UPA População da Área Área Física Número de Número Mínimo Número Mínimo 24h de Abrangência Mínima Atendimentos de Médicos de Leitos de da UPA Médicos em 24 horas por Plantão Observação Porte I a m² até 150 pacientes 2 médicos 7 leitos habitantes Porte II a m² até 300 pacientes 4 médicos 11 leitos habitantes Porte III a m² até 450 pacientes 6 médicos 15 leitos habitantes Fonte: portaria nº 2.648, de 7 de novembro de 2011 VANOR CORREIAG/OVERNO DO ESTADO RJ 22 Emergência

4 LUÍS OLIVEIRA/MS 24 Emergência SECOM/PMSBC Chioro: observatório do sistema Desafios das UPAs Profissionais de saúde refletem sobre a atuação das Unidades de Pronto Atendimento no país médicos e de Enfermagem adequados aos casos demandados à Unidade; prestar apoio diagnóstico e terapêutico ininterrupto; manter pacientes em observação, por período de até 24h, para elucidação diagnóstica e/ou estabilização clínica; e encaminhar para internação em serviços hospitalares, por meio das centrais reguladoras, os pacientes que não tiverem suas queixas resolvidas nas 24h de observação. Ainda é de competência das Unidades contrarreferenciar para os demais serviços de atenção integrantes da Rede de Atenção às Urgências, proporcionando continuidade ao tratamento com impacto positivo no quadro de saúde individual e coletivo; além de solicitar retaguarda técnica ao SAMU 192, sempre que a gravidade/complexidade dos casos ultrapassarem a capacidade instalada da Unidade. O documento ainda define que as Unidades são classificadas em Portes I, II e III (ver Definição dos Portes Aplicáveis às UPAs 24h). Até 2014 a perspectiva é atingir a marca de mil Unidades Mesmo com a implantação e consolidação das UPAs em diferentes regiões do país - hoje são 650 Unidades em andamento, considerando as que estão em construção, sendo que 156 realizam atendimento - e com a perspectiva de atingir a marca de mil Unidades até a Copa de 2014, quem está à frente desses centros aponta alguns aspectos que ainda precisam melhorar para o pleno funcionamento das Unidades. Entre eles, está a falta de recursos para o seu custeio. A UPA tem sua construção financiada pelo Ministério da Saúde, mas para a manutenção, os repasses não cobrem nem a metade das despesas. Estados e municípios acabam se comprometendo com os altos custos demandados, principalmente, com a contratação de pessoas, em especial os médicos, pontua o secretário de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte, Domício Arruda da Câmara Sobrinho. Para Eduardo Mischiatti, diretor técnico do Sistema de Urgência e Emergência de Curitiba/PR, o financiamento do Minis- tério também fica aquém do necessário para o custeio de uma Unidade. FRAGILIDADES Para a pesquisadora Gisele O dwyer, uma fragilidade importante das urgências é a gestão de pessoal. Destaco o pequeno investimento no profissional médico. Este profissional precisa ser capacitado (uma necessidade identificada pela Política Nacional de Urgência). Para ser um bom profissional, o médico deve se sentir vinculado ao serviço, diferente do que acontece com muitos profissionais que atribuem ao seu trabalho um caráter temporário e secundário. Esse é um problema também da atenção básica e do hospital, critica. Outra grande fragilidade, na visão da pesquisadora, é estrutural. O SUS, de a- cordo com Gisele, ainda é muito deficiente em leitos hospitalares e de UTI. Principalmente no atendimento ambulatorial nas especialidades médicas e nas unidades de investigação diagnóstica, como a de imagem. Os serviços de urgência (SAMU, UPA, urgência hospitalar) refletem essa precariedade estrutural, finaliza. Algumas Unidades ainda sofrem dificuldades na composição de profissionais para os quadros das UPAs. Para o secretário de Saúde de São Bernardo/SP, a falta de profissionais médicos para as unidades de urgência e emergência é um problema crônico no Brasil. Devido a diversos fatores relacionados ao processo de formação do médico, nuances do mercado de trabalho e até número e distribuição deste profissional, algumas especialidades não possuem médicos em número suficiente para cobrir todos os postos de trabalho. Esse problema, especialmente para a área de Pediatria, é extremamente preocupante, ressalta Arthur Chioro. No município paulista, para não conviver com a falta destes profissionais, a Secretaria de Saúde desenvolveu um estudo de demanda em suas unidades, dimensionando os atendimentos pediátricos. A partir deste estudo, nas quatro unidades que ocorriam o menor número de atendimentos, o pediatra foi retirado da escala regular de plantões, sendo deslocado para a composição completa da grade das outras unidades. Com tal medida, equacionamos a problemática da escala das unidades de maior fluxo de atendimento, explica o secretário.

5 Para não perder a capacidade de atendimento nestas outras unidades e manter o nível de atendimento, o órgão estabeleceu os chamados Cinturões de Proteção à Criança. Nestas unidades, o médico clínico está sendo treinado como médico socorrista de UPA, com a tarefa de identificar e atuar nas principais questões de baixa e média complexidade em Pediatria. Este profissional está amparado por uma Unidade de Pronto Atendimento que conta com o pediatra 24 horas como referência, bem como o matriciamento à distância, por telefone, de profissionais experientes e um fluxo diferenciado para remoção dos casos mais complexos para o Pronto-Socorro Central, principal referência de urgência e emergência no município, completa. A estratégia, de acordo com Chioro, não pretende que este profissional substitua o Pediatra. Apenas permite que um médico treinado possa dar resposta aos casos de baixa complexidade, identificar as questões de maior gravidade e servir de porta de entrada mais qualificada do que uma negativa de atendimento. Diversos médicos já entenderam a proposta e aderiram à estratégia. É interessante ressaltar que, atualmente, o quadro destes profissionais está composto, na sua maioria, por clínicos, mas também por outros especialistas, inclusive pediatras, reforça. OFERTA Outra questão aponta para o caso de UPAs no país que atendem muitos cidadãos que se encontram em vazios assistenciais, ou seja, em municípios vizinhos sem serviço na área de saúde, fazendo com que muitos pacientes procurem a- tendimento em uma única Unidade. Curitiba é uma das cidades que possui uma região metropolitana que se apresenta com uma desigualdade de oferta de assistência bastante significativa, de cidades com hospitais de alta complexidade a outros com vazios assistenciais ainda na atenção básica, como chama a atenção Eduardo Mischiatti. Como a distribuição das Unidades foi planejada em pontos geográficos estratégicos de Curitiba, inclusive por serem bases descentralizadas do SAMU, temos uma demanda heterogênea com algumas Unidades sofrendo uma grande pressão dos municípios da região, completa. Para o coordenador das UPAs da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, Flávio Monteiro, historicamente, as redes de atenção à saúde da população no Brasil são deficitárias e não conseguem abarcar adequadamente todo o volume de atendimentos que deveriam. Isso acontece tanto no nível primário de atenção quanto na atenção especializada e é, especialmente, delicado em pequenos municípios. As UPAs vêm para reduzir esse vazio assistencial em um dos aspectos, o do atendimento a casos de urgência clínica, mas para que o cidadão seja assistido integralmente é necessário esforço no sentido de fortalecer o nível básico de assistência, assim como a atenção especializada, recomenda. Conforme Monteiro, a rede deve se formar com a participação de unidades de atenção básica (saúde da família, postos de saúde etc.), unidades de pronto atendimento (tais como as UPAs) e unidades hospitalares de urgência e de casos que não sejam urgentes, mas que necessitem de internação hospitalar (tais como cirurgias de rotina). Em suma, as UPAs devem fazer parte da rede de atenção à saúde e devem trabalhar integradas a todos os níveis de assistência. As Unidades no Rio de Janeiro trabalham dentro dessa filosofia, explica. Emergência 25

6 Dia a dia nas UPAs Como funcionam algumas Unidades de Pronto Atendimento instaladas no país O Estado pioneiro na implantação das Unidades de Pronto Atendimento no Brasil foi o Rio de Janeiro, com a inauguração da Unidade da Maré, no dia 30 de maio de A Unidade atende, hoje, cerca de 300 pacientes por dia. De lá pra cá, o Estado carioca já inaugurou 48 Unidades, que contabilizam mais de 11 milhões de pacientes atendidos. Para o secretário de Estado de Saúde, Sérgio Côrtes, um dos méritos do projeto é que foi possível instalar as Unidades dentro de comunidades. Essa é uma alternativa eficiente para diminuir a demanda dos hospitais da região. Hoje, estes pacientes que recorriam às grandes emergências têm a garantia de serem atendidos nas UPAs próximas de suas casas, comemora. Aproveitando o pioneirismo, o Estado carioca sempre procurou exceder o preconizado pela portaria do Ministério da Saúde em relação à estrutura das Unidades. Um desses exemplos diz respeito ao número de profissionais envolvidos em cada plantão das UPAs. Nossas Unidades também estão equipadas com todo o equipamento necessário para dar suporte à vida do paciente, caso necessário, como uma unidade de terapia intensiva, reforça o coordenador das UPAs da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, Flávio Monteiro. MODELO Muito antes da publicação da portaria do MS que estabelece as diretrizes para o funcionamento das UPAs, em Curitiba, em 1992, foi inaugurada a Primeira Unidade de Saúde 24h. Na capital paranaense elas são denominadas Centro Municipal de Urgências Médicas e já somam oito unidades. De acordo com o diretor técnico do Sistema de Urgência e Emergência de Curitiba, E- duardo Mischiatti, a cidade já tem projeto arquitetônico e local para dois novos Centros autorizados pelo Ministério como UPA 24h porte III, com cronograma de implementação até Uma delas será a UPA de referência para os jogos da Copa 2014, por sua proximidade com o estádio, explica o dirigente. Pelos critérios do MS portaria nº 2.648/2011 as Unidades de Curitiba se enquadram no porte III, superando o mínimo exigido em área física (média dos Centros de m²), número de atendimentos médicos/dia (média de 550 atendimentos médicos/dia), número de médicos (10 médicos por plantão) e leitos de observação (média de 18 leitos clínicos e seis pediátricos para observação e internamento). Contamos com uma infraestrutura de hospital de pequeno porte, com internação clínica de pacientes que necessitem inclusive de manejo em ventilação assistida, acrescenta Mischiatti. ESTRUTURA As UPAs criadas no Rio Grande do Norte também são anteriores ao programa do Ministério da Saúde. Há cerca de 26 Emergência

7 12 anos duas Unidades foram criadas pelo governo municipal na cidade de Mossoró. A Prefeitura de Natal também inaugurou há dois anos a única Unidade da capital do Estado em funcionamento. Outras 12 Unidades estão previstas para serem construídas. Nosso principal problema nas urgências e emergências na região metropolitana é o pequeno número de portas de entrada, praticamente com uma única unidade, o Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, que concentra quase todos os atendimentos clínicos e os traumas. As UPAs ajudam a melhor distribuição dos atendimentos, reservando aos hospitais os atendimentos somente dos casos de maior complexidade, afirma o secretário de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte, Domício Arruda da Câmara Sobrinho. ASSISTÊNCIA No final de dezembro de 2009, em São Bernardo do Campo/SP, foi inaugurada a primeira Unidade da cidade paulista. Em dois anos, outras cinco Unidades foram construídas e a previsão é inaugurar, ainda nesse ano, outras três novas Unidades. A cidade comporta Unidades Tipo I e II, atendendo em Clínica Médica e Pediatria, incorporando o atendimento com classificação de risco em sua estrutura, com capacidade de resposta para atendimento de urgências e emergências de baixa e média complexidade/gravidade. Nossa estrutura possui de dois a quatro consultórios, laboratórios de análises clínicas, radiologia simples, eletrocardiografia, bem como leitos de observação com equipe de Enfermagem exclusiva e monitorização. Os casos mais graves são atendidos em uma sala que possui dois leitos com infraestrutura similar a uma unidade de terapia intensiva, com ventilador mecânico, desfibrilador e EGC exclusivo, revela o secretário de Saúde, Arthur Chioro. O principal diferencial das UPAs de São Bernardo está no fato das Unidades funcionarem como Observatórios do Sistema de Saúde. Os pacientes hipertensos e diabéticos descompensados, as crianças menores de um ano e as gestantes que buscam atendimento nas UPAs, após a resolução de sua queixa atual e alta da unidade, são referenciados à a- tenção básica para realizarem o acompanhamento horizontal de suas necessidades em saúde. Em Pernambuco, as UPAs têm como diferencial a inclusão do Traumato-ortopedista no elenco de profissionais médicos na maioria das 14 unidades do estado, descentralizando o atendimento da especialidade de média complexidade, deixando as grandes emergências para os casos mais graves. Em conformidade com a Política Nacional de Atenção às Urgências, as outras cidades do estado também começaram a se mobilizar para a implantação de UPAs 24h municipais. O projeto está ocorrendo a partir da construção dos Planos de Ação Regionais, coordenado pela Secretaria Estadual de Saúde, sendo prevista a implantação de, aproximadamente, 27 Unidades, afirma Danielle Ducca, diretora-geral de Modernização e Monitoramento da Assistência à Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco. MELHORIAS Para melhorar a qualidade do atendimento prestado, algumas Unidades têm buscado certificações ou implantado sistemas como o Protocolo de Manchester, reconhecido como o grande diferencial das UPAs em Curitiba. Implantada desde o ano passado, a metodologia de tra- Emergência 27

8 balho visa estabelecer um tempo de espera pela atenção médica e não de estabelecer diagnóstico. O método consiste em identificar a queixa inicial e seguir o fluxograma de decisão e, por fim, estabelecer o tempo de espera que varia conforme a gravidade. Com isso, garantimos uma espera segura ao atendimento médico, reforça Mischiatti. Cinco Unidades do Rio de Janeiro também vem passando pelo processo de acreditação da Joint Comission International (JCI), grande referência quando o assunto é qualidade em instituições de saúde. O objetivo da Secretaria de Saúde do RJ é levar o projeto para todas as demais Unidades. TECNOLOGIA Algumas Unidades ainda têm investido em soluções tecnológicas desenvolvidas, especialmente, para o seu gerenciamento. A ECO Sistemas, empresa que atua na implantação de UPAs no país, está presente em 46 unidades do Estado do Rio de Janeiro, em quatro Unidades na Argentina, além de ter atuado na primeira UPA de Salvador, na Bahia. Entre as soluções tecnológicas desenvolvidas pela empresa está uma ferramenta que integra por meio de um sistema todos os processos da unidade envolvendo os aspectos clínico, operacional, administrativo e gerencial. A empresa também criou uma ferramenta web para atender as necessidades de administração de materiais. Permite ao gestor avaliar, a qualquer momento, a necessidade de reposição, o saldo e valores financeiros, além de acompanhar a validade dos estoques, eliminando desperdícios. Ainda é possível gerenciar várias unidades com total independência, controlando, assim, diversos depósitos individualmente. Conseguimos eliminar quase que por completo o fluxo de papéis impressos, o que também é um fator ecológico, explica o analista de negócios da ECO Sistemas, Fernando Ferreira. Entre as principais vantagens que as ferramentas têm trazido para o atendimento das Unidades está no fato de ajudarem na missão de organizar os atendimentos nas UPAs e também seu fluxo de materiais. No sistema de acolhimento e seleção, por exemplo, o número de pacientes encaminhados para hospitais diminui muito em todos os lugares onde nossos sistemas foram empregados. O projeto de implantação das UPAs demonstra um esforço do Ministério da Saúde para melhorar o cenário de atendimento às urgências no país. Como foi possível observar ao longo da reportagem, alguns modelos vêm se desenvolvendo positivamente, e mesmo enfrentando desafios, têm conseguido contribuir para a melhoria da Saúde Pública no Brasil. O que ainda precisa ser aprimorada é a integração do sistema com as outras unidades assistenciais que compõe a rede de urgência, fazendo com que o papel das UPAs seja cumprido integralmente. Palavra oficial ANTONIO LEDES m entrevista exclusiva à Emergência, o coordenador-geral de Urgência e Emergência do Ministério da Saúde, Paulo de Tarso, fala dos investimentos do órgão para a implantação e manutenção das UPAs do país e do projeto para a abertura de novas Unidades até De Eacordo com o dirigente, para que o trabalho das UPAs seja mais efetivo é preciso que os municípios invistam na atenção básica à saúde. QUANTAS UPAs JÁ FORAM IMPLANTADAS E QUAL A META DO MS PARA NOVAS UNIDADES? Hoje, existem 650 UPAs em andamento, contando as que estão em construção. Dessas, 156 estão em funcionamento. Nossa meta é chegar a mil Unidades até COMO O MS AVALIA A ATUAÇÃO DAS UPAs QUE ESTÃO OPERANDO HOJE NO PAÍS? A UPA é um dos componentes da Rede de Atenção às Urgências e Emergências, que começa na promoção e prevenção à saúde, com ações que previnam ocorrências de urgência, a exemplo da violência no trânsito. Um outro componente é as salas de estabilização. Os municípios com até 50 mil habitantes oferecem nas unidades de saúde as salas de estabilização, que criamos com todos os equipamentos e protocolos necessários para a manutenção da vida. Já nas cidades acima de 50 mil habitantes, contamos com as UPAs, o SAMU e a rede hospitalar. A UPA é apenas um desses componentes, que deve ser encarada como um apoio para as Unidades Básicas de Saúde e não para desafogar as portas hospitalares. A ideia é que realizem o atendimento às urgências quando as unidades de saúde estiverem fechadas. QUAIS OS INVESTIMENTOS DO GOVERNO FEITOS NESSE PROJETO? O Governo Federal já investiu R$ 1,3 bilhão nas UPAs, contemplando a construção das Unidades, equipamentos e seu custeio. As UPAs de Porte I recebem para a implantação recurso de R$ 1,4 milhão, as de Porte II, R$ 2 milhões e as de Porte III, R$ 2,6 milhões. Além disso, as Unidades recebem um custeio mensal para a manutenção, variando também de acordo com o porte da Unidade. A de porte I recebe R$ 100 mil por mês, a de porte II, R$ 175 mil e a de porte III, R$ 250 mil. Todas as UPAs habilitadas recebem este recurso e a portaria também determina que as UPAs qualificadas, aquelas que atenderem critérios de qualidade da atenção, ainda são contempladas com um valor/custeio mês diferenciado. As unidades de saúde já existentes, mas que ainda não se enquadram no perfil de UPAs, podem ser reformadas ou ampliadas e, para isso, também são contempladas com recurso financeiro. A FALTA DE ESTRUTURAÇÃO DA ATENÇÃO Paulo: atenção básica é alicerce da Rede de Saúde BÁSICA DE SAÚDE FOI APONTADA COMO UM FATOR QUE PREJUDICA AS UNIDADES. COMO O MS AVALIA ESSA QUESTÃO? Toda a estrutura da Rede de Saúde, não só das Emergências, mas de toda a Rede, tem como alicerce a atenção básica à saúde. Se os municípios não contarem com uma boa cobertura na atenção básica, todos os demais equipamentos da Rede não darão conta do atendimento. Por isso, é preciso investir em prevenção, atenção e cuidado à saúde. O nosso discurso e empenho é para que todas as Secretarias Municipais de Saúde possam dar 100% de cobertura na atenção básica. 28 Emergência

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