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1 CF156_P78a :18 Page 78 família Mãe solteira sim, mas por escolha 78 Crescer novembro/2006

2 CF156_P78a :18 Page 79 A ausência de um marido ou parceiro deixou de ser impedimento para as mulheres que desejam ser mães. Um número cada vez maior de brasileiras opta por, sozinhas, assumir uma gravidez acidental, adotar uma criança ou recorrer a um banco de sêmen para realizar o sonho. Conversamos com especialistas e com algumas dessas mulheres. Elas revelaram suas motivações, alegrias e dificuldades POR ANA CLÁUDIA CRUZ ILUSTRAÇÕES MAURO NAKATA oo que faz uma mulher solteira para realizar o sonho da maternidade? Até a década de 60, pouca coisa. Hoje, mais de 40 anos depois da revolução feminista, as opções cresceram. As mulheres que desejam ser mães, já têm estabilidade profissional e financeira, chegaram a uma idade limite entre 35 e 40 anos, mas estão sós, sem marido, parceiro ou namorado, optam por assumir uma gravidez acidental, adotam uma criança ou simplesmente entram numa clínica de fertilização e recorrem a doadores anônimos de sêmen. Escolher ser mãe, mesmo que solteira, é um fenômeno crescente em todo o mundo. Nos Estados Unidos, ele chamou a atenção da socióloga Rosanna Hertz e resultou no livro, recém-publicado e ainda não lançado no Brasil, Single by Chance, Mothers by Choice, algo como Solteiras por Acaso, Mães por Opção (leia entrevista no final da desta reportagem). No Brasil, não existem estudos específicos sobre a mulher que decide encarar a chamada produção independente.as estatísticas tratam de mães solteiras em geral e surpreendem: números de um estudo do Ibope Mídia sobre mães contemporâneas apontam que um terço das mães brasileiras não vive com companheiros nem é casado. Essas mulheres enfrentam as agruras de criar seus filhos sozinhas. A diferença é que as retratadas nesta reportagem fazem isso por escolha.a questão é: por que Satisfação em dose dupla Os gêmeos Luiz e Paulo nasceram há dois anos e transformaram a vida de Cleide Pereira. Ela mudou para a casa dos pais, em Mato Grosso, morou lá um ano e meio e deixou de trabalhar. Natural, quando chegam dois bebês ao mesmo tempo. A diferença é que Cleide é solteira. Aos 37 anos, decidiu que havia chegado a hora de realizar o sonho de ser mãe. Seu parceiro de dez anos tentou adiar o projeto outra vez, mas ela não hesitou. Colocou um fim no relacionamento, procurou uma clínica de fertilização e engravidou com a utilização de sêmen de doador anônimo. No começo foi difícil, porque iniciei o tratamento enquanto ainda morávamos juntos, mas depois foi tranqüilo. Havia me preparado para a chegada dos meus filhos, até planejei parar de trabalhar, diz ela. A notícia de que seriam gêmeos não a assustou. Ao contrário, foi comemorada. Queria mais de um filho, mas dificilmente faria tratamento para engravidar do segundo. Tive muita sorte. O apoio da família e amigos foi importante. Há seis meses de volta a São Paulo, Cleide abriu um negócio e retomou a vida profissional. Já considera até namorar. Nem tinha tempo para pensar nisso, mas se for alguém que goste dos meus filhos, por que não? escolhem esse caminho? Suas histórias apontam problemas, desencontros, descobertas e, acima de tudo, grande satisfação com a maternidade. Os motivos que levam as mulheres a esse caminho variam, mas, assim como quase tudo o que está em transformação no universo feminino, têm forte influência do crescimento da participação das mulheres no mercado de trabalho, de sua busca por realização pessoal e profissional. Elas estão se preocupando com a maternidade cada vez mais tarde, porque dão prioridade à carreira e à independência financeira. Só quando o relógio biológico faz o alerta, decidem pensar seriamente no assunto. Em muitos casos, é nesse momento que percebem não ter com quem dividir esse sonho. 79

3 CF156_P78a :32 Page 80 família A gravidez durou três anos A adoção foi o caminho escolhido pela catarinense Maria da Graça Arruda para ser mãe.desde muito nova ela sabia que não poderia engravidar, em razão de um distúrbio na hipófise, e decidiu adotar.aconteceu de não se casar e, por isso, encarou a maternidade independente. Eu não poderia passar nesta vida sem filhos, diz.maria da Graça esperou ter condições financeiras e, no dia que mudou para a casa própria, começou a fazer o enxoval do bebê. A questão é que uma gravidez mais complicada.a gente não sabe quanto tempo vai ter de esperar.a minha durou três anos. A chegada de Guilherme foi a realização completa.para Gracinha, ser mãe é a coisa mais maravilhosa que existe. É uma felicidade poder conviver com os filhos, vê-los crescer, se desenvolver. Há dois anos, quando Guilherme já estava com 16 anos, ela recebeu a filha, Alexandra Vitoria.A menina chegou com 6 anos, uma adoção tardia e, por isso, mais complicada.mas hoje ela já está bem integrada à família.o apoio que sempre recebeu da mãe e da família foi fundamental. Até adotaria mais, mas precisamos ser realistas, afirma. Os avanços da medicina reprodutiva estão permitindo que a mulher adie o sonho da maternidade e tenha mais tempo para encontrar o parceiro com quem deseja formar família. Trata-se do congelamento de óvulos, quando a mulher ainda está numa idade mais adequada para ser mãe, que serão utilizados depois. Até dois anos atrás, o processo era difícil e poucos médicos arriscavam, pois no descongelamento o gameta feminino perdia a capacidade fértil. Recentemente, o norte-americano Gary Smith, da Universidade de Michigan, desenvolveu uma técnica que mantém a fertilidade do óvulo depois do descongelamento. Em razão de uma parceria com o cientista Na cultura brasileira, a mulher, durante muito tempo, sentia-se pressionada a casar, mesmo que não considerasse que o parceiro era o homem dos seus sonhos. Hoje ela pode escolher. Se não encontra alguém com quem deseja constituir família, não casa, mas realiza o sonho de ser mãe assim mesmo, afirma o ginecologista e obstetra Alfonso Araújo Massaguer, especialista em reprodução assistida. No dia-a-dia do trabalho, ele convive com as dúvidas e os medos de quem investe na maternidade independente. A verdade é que essas mulheres, além de todas as preocupações de qualquer futura mãe, acabam se defrontando com o preconceito, às vezes até de familiares e amigos, com o peso de tomarem todas as decisões sozinhas e a falta de alguém com quem dividir medos e angústias. Sabemos que é complicado, mas será que não é mais difícil para essa mulher abrir mão do desejo de ser mãe? Percebemos na clínica que as que optam pela maternidade, mesmo que independente, são mais felizes que aquelas que, apesar da vontade de serem mães, desistem no meio do caminho, afirma Alfonso. Quando a família apóia, a mulher que resolve ser mãe solteira, em geral, se sente plenamente recompensada, não importa a forma escolhida para alcançar esse sonho. Mesmo aquelas que trilham o caminho da clínica de fertilização, uma solução ainda pouco comum no Brasil, sentem-se realizadas quando recebem a aprovação dos pais, irmãos e amigos próximos. Porque não é fácil assumir a maternidade sozinha no Brasil. Aquelas que fazem isso são muito questionadas e algumas acabam desistindo. As que vão até o fim são aquelas cujos familiares e amigos apoiaram a atitude. Elas são muito Ciência já permite adiar o sonho norte-americano, todos os nascimentos de crianças com óvulos congelados por essa técnica se deram no Brasil, afirma o ginecologista Eduardo Motta, diretor da clínica Huntington Medicina Reprodutiva. Um trabalho sobre o assunto foi apresentado no Congresso Americano de Reprodução Assistida, em outubro, em New Orleans. A alternativa é importante para mulheres novas que desejam ser mães no futuro, mas precisam se submeter ao tratamento contra o câncer que pode deixá-las estéril. A medicina conseguiu tratar problemas de esterilidade, mas só agora dá uma resposta para preservar a fertilidade, diz Motta. 80 Crescer novembro/2006

4 CF156_P78a :19 Page 81 satisfeitas e confiam terem tomado a decisão correta, diz o ginecologista Eduardo Motta, diretor da clínica Huntington Medicina Reprodutiva. Motivação Independentemente da maneira pela qual a mulher solteira opta por ser mãe, psiquiatras e psicólogos alertam para o que a motivou. Não pode ser apenas mais uma conquista na vida delas. Ou seja, elas conseguiram tudo na vida, no trabalho, e falta o filho. Filho não é troféu. Elas devem ter o desejo grande de ser mãe, afirma a psicóloga Daniela da Rocha Paes Peres. A psicanalista Regina Maria Rahmi, chefe do Departamento de Família do Instituto Sedes Sapientiae, salienta outro aspecto: A questão da mãe solteira por escolha traz à discussão a idéia da auto-suficiência feminina, da quase ditadura da independência que existe hoje. Essa cultura da auto-suficiência ainda é reflexo da própria revolução feminista. O outro extremo da grande dependência da mulher em relação ao marido no passado. Além disso, é um sintoma de que o processo de mudança iniciado há 40 anos ainda não acabou. Quando essa mulher decide ser mãe descobre que precisa do outro, nem que o outro seja o sêmen de uma clínica de fertilização, e isso a coloca em conflito.a idéia de precisar de alguém é abominada e criticada atualmente, afirma Regina. Como ficam as crianças? Outra questão a ser considerada é o desenvolvimento da criança. Para elas crescerem de maneira saudável, precisam da figura materna e da paterna, desvinculadas O significado do amor Raquel Lucat jamais planejou se tornar mãe. Passou por dois casamentos sem atender aos desejos dos ex-maridos de ter filho. Quando engravidou, aos 37 anos, foi um susto. Vinha me recuperando de problemas familiares meu pai muito doente, além de já ter passado momentos difíceis, como a morte da minha mãe quando era adolescente, sem ir à lona. Mas a notícia da gravidez foi um nocaute. O namorado era mais novo e possuía um nível sociocultural muito diferente. Não daria certo na hora de educar Alice. O namoro acabou com a gravidez, ele faleceu quando Alice tinha 6 meses. Ao longo dos últimos quatro anos, nos momentos críticos de tomada de decisões ou ao encarar as dificuldades por estar sozinha, chegou a se arrepender. Mas a maternidade foi aos poucos se revelando uma coisa fascinante. Minha filha me ensinou o que é realmente amar outra pessoa. Ainda assim, ela admite que não é uma mãe convencional e afirma que sempre foi boa em desempenhar papéis masculinos, de liderança e chefia na vida profissional. Sou boa em cuidar e organizar a vida da Alice, mas nem tanto para brincar ou contar história. 81

5 CF156_P78a :33 Page 82 família do sexo biológico ou seja, num casal homossexual, basta que os papéis feminino e masculino sejam bem definidos. No caso da produção independente, alguém terá de fazer o papel paterno. Nem que seja o avô, o tio ou o terapeuta, diz Regina. Quando falta um dos lados, há desequilíbrio na formação da criança. A figura paterna deve estar presente, mesmo que ele seja anônimo. Senão ela vai crescer com a imagem de que a mãe é inalcançável, absoluta, o que não é bom. É necessário ainda ter o cuidado de não depreciar o outro sexo, afirma Daniela. Quando são tomados esses cuidados em relação ao desenvolvimento do filho,ser mãe,mesmo que solteira, deixa de ser problema.a experiência de muitas mulheres vem mostrando que, em razão de um desejo genuíno de ser mãe, as dificuldades são superadas e elas se sentem realizadas. Maternidade desejada Socióloga norte-americana discute a opção de mulheres que, mesmo sem companheiro, decidiram se tornar mães Por Malu Echeverria Ser mãe solteira é para mim? Nove sessões para ajudar você a decidir. O anúncio de jornal local voltado para mulheres cujo relógio biológico está batendo chamou a atenção da socióloga Rosanna Hertz, professora da Universidade Wellesley, Massachusetts, dez anos atrás.ainquietação se transformou no livro Single by Chance, Mothers by Choice (algo como Solteiras por Acaso,Mães por Opção ),recémlançado nos EUA e ainda sem tradução no Brasil. Para estudar a criação desse novo modelo familiar composto por mãe e filho(s), um fenômeno crescente por lá, Hertz entrevistou 65 mães solteiras de todos os tipos, de médicas a secretárias.a maneira como se tornaram mães também varia.entre elas, há as que engravidaram naturalmente,outras que adotaram,as que se submeteram à fertilização assistida com doadores conhecidos ou anônimos e até as que compraram sêmen pela Internet. Todas realizaram um sonho comum a maternidade de um jeito incomum sozinhas, que está ganhando cada vez mais adeptos nos EUA.Quem são essas mulheres? Por que reverteram a tradicional seqüência amor,casamento e filhos? O papel do pai na família está com os dias contados? Essas e outras perguntas, Hertz responde a seguir. Por que mulheres independentes querem ser mães, uma experiência que vai contra o estilo de vida autônomo da maioria delas? As mulheres que entrevistei, em geral, se tornaram independentes por volta dos 20 anos, eram graduadas e estavam no mercado de trabalho.muitas já com casa própria.nunca imaginaram que não se casariam.estavam felizes com a vida que levavam, mas sentiam que o relógio biológico estava batendo.lá no fundo, algo as incomodava e era a maternidade.é possível que tenham sido influenciadas pela idéia social de que todas as mulheres devem ser mães. Ser mãe solteira, então, não é a primeira opção? Para a maioria, não.elas crescem acreditando que se tornarão mães do jeito convencional.mesmo depois do parto ou da adoção, ainda esperam encontrar um parceiro que ame o bebê.imaginam,então,que estão apenas adiantando uma etapa do processo.adecisão não é feita da noite para o dia, mas, nos últimos anos, as mulheres não estão deixando a escolha para o último minuto.algumas das que entrevistei decidiram por volta dos 32 anos. Você diz que, nos EUA, é mais fácil ser mãe solteira por inseminação do que por adoção. Por quê? A maioria das mulheres que entrevistei preferiu buscar clínicas de reprodução assistida, mas qualquer uma delas Foto divulgação 82 Crescer novembro/2006

6 CF156_P78a :33 Page 83 Pelo direito de ter o nome do pai Cerca de 800 mil crianças brasileiras são registradas sem o reconhecimento paterno todos os anos. Ou seja, por volta de 30% dos registros. A estimativa é da socióloga Ana Liési Thurler, autora da tese Paternidade e Deserção Crianças sem Reconhecimento, Maternidades Penalizadas pelo Sexismo, defendida em 2005 no Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB). O problema é que, apesar das mudanças na constituição familiar, a maioria dessas mulheres não optou por criar o filho sozinha. Muitas ousaram assumi-lo após o abandono do parceiro. É lamentável que a união formal ainda seja determinante para que o pai honre a filiação, diz. Sem apoio do parceiro ou do estado, resta às mães arcar com custos emocionais e financeiros. Vivemos numa sociedade sexista, na qual o exame de DNA tem sido usado para reforçar a desqualificação da mulher. Ainda que um juiz obrigue o suposto pai a fazer o teste, os que se ausentam não são punidos. Buscar insistentemente o reconhecimento da criança pelo pai é uma violência psicológica contra a mulher. Muitas desistem, diz. Para ela, a solução é a inversão do ônus da prova da paternidade, como já acontece na União Européia e no Peru. A mãe registra o filho com o nome do pai e ele terá de provar o contrário, caso não concorde. M.E. poderia ter comprado esperma pela Internet.Imagino que nas clínicas todas sejam tratadas igualmente, casadas ou não.em resumo, ao decidirem pela inseminação artificial, elas não são submetidas a qualquer tipo de vistoria.já a adoção envolve leis governamentais,que determinam que os interessados sejam interrogados para saber se eles se enquadram no modelo ideal.pessoas solteiras, incluindo homens, têm mais trabalho para adotar.a tendência é de as crianças serem entregues a casais.apesar da burocracia, às vezes, é mais fácil recorrer à adoção internacional. Quais são as vantagens e as desvantagens em se tornar mãe solteira por inseminação artificial? Quando os doadores são anônimos,há vantagens na lei. Isso porque, nos EUA, esses pais, ao contrário de doadores conhecidos, não têm direitos e deveres em relação ao filho.assim,as mães não precisam se preocupar com questões legais.entretanto, essas crianças não têm uma figura que represente o pai, ainda que distante.além disso, em minha pesquisa, nenhum dos doadores conhecidos demonstrou interesse em reclamar a paternidade. Você não acha injusto uma criança não poder conhecer o próprio pai? Essa é uma questão importante.nos EUA, a lei protege a identidade dos doadores anônimos.na Inglaterra, o anonimato expira quando a criança completa 18 anos.a legislação, no momento, está só do lado dos adultos.na minha opinião, as crianças deveriam ter a oportunidade de saber mais sobre sua origem. Espero que tais leis mudem futuramente. As mães solteiras são acusadas de egoísmo por privarem a criança da convivência com o pai? Não se o filho for adotivo ou fruto de um relacionamento.nesses casos, foram "abandonadas" ou estão fazendo o bem.algumas são criticadas, entretanto, por minar a família composta por pai, mãe e filho.para mim, elas estão inventando um novo tipo de família e pretendem torná-la tão estável quanto a tradicional.até porque a presença do pai não é garantia de que os filhos serão bem criados. O papel do pai estaria ameaçado? Talvez alguns homens possam se sentir receosos ao perceber que essas famílias são bem-sucedidas e, principalmente, que as mães têm parcela nisso.mas isso não significa que elas estejam tentando destruir a função paterna. Qual o futuro da família? O modelo composto por mãe e filho(s) tornou-se o centro da família americana.apenas 24% delas estão com ambos os pais.a maioria das crianças, em algum momento, vai morar com apenas um deles.os números indicam que as mulheres economicamente independentes não precisam de homem ou casamento para ser mães.hoje, algumas mulheres cujos filhos foram concebidos por inseminação com doador anônimo estão procurando, pela Internet, os irmãos de seus filhos.há famílias nas quais o lado paterno está sendo criado sem a presença do pai biológico.o fenômeno das mães solteiras de classe média veio para ficar. O livro recém-lançado da socióloga norte-americana Rosanna Hertz trata sobre o fenômeno das mães solteiras por opção, nos Estados Unidos 83

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