Revista Eletrônica da FJAV - ANO III nº 05, outubro 2010 ISSN

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1 ANO III nº 05, outubro 2010 ISSN

2 APRESENTAÇÃO Chegamos à V edição da Revista Eletrônica da FJAV com muitos motivos de satisfação, entre eles o fato de a comunidade acadêmica ter contribuído em larga escala na construção dessa edição, fato que não ocorreu na edição anterior. Alunos, professores, funcionários administrativos e a direção. Estamos todos de parabéns! Estamos amadurecendo a cada dia nossas reflexões metodológicas e isso se mostra no número de artigos que recebemos para publicação. A mente que se amplia jamais volta para o estado anterior e isso ocorre pela busca constante pelo aperfeiçoamento, tanto do quadro acadêmico (professores e alunos) da FJAV quanto dos demais funcionários que compõem essa comunidade. saber, um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível (Roland Barthes). Esse sabor vinculo aqui ao prazer, à emoção, que não devem estar ausentes de qualquer relação como o fenômeno denominado viver. A emoção, o prazer da descoberta, são resultados da busca do investigador, pois a satisfação cognitiva está justamente em conseguir descobrir, por si mesmo, as relações, ora causais, ora conseqüentes, existentes nos fenômenos, objetos de estudo. Parabéns aos autores dessa V Edição. Editor-chefe Prof. Me. Adalberto de Oliviera Brandão Não podemos perder de vista que há uma idade em que se ensina o que se sabe, mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe: isso se chama pesquisar. Depois, talvez venha outra, o momento de desaprender, de deixar trabalhar o remanejamento imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes, das culturas, das crenças que atravessamos. Essa experiência tem, creio eu, um nome ilustre e fora de moda que ousarei tomar aqui sem complexo, na própria encruzilhada de sua etimologia: Sapientia: nenhum poder, um pouco de 2

3 EXPEDIENTE: Revista Eletrônica da Faculdade José Augusto Vieira ISNN EDITOR-CHEFE: Prof. Me. Adalberto de Oliviera Brandão CONSELHO EDITORIAL E REDAÇÃO: Prof. Me. Adalberto de Oliveira Brandão (Administração/Serviço Social) Prof. Me. Ademário Alves dos Santos (Geografia) Profa. Ma. Ana Lúcia Simões Borges Fonseca (Letras Português/Inglês) Prof. Me. Rômulo Augusto Canuto (Administração) Prof. Me. Fernando José Ferreira Aguiar (História/Serviço Social) Profa. Ma. Luciana Novais dos Santos (Letras Português/Inglês) Prof. Me. Paulo Roberto Boa Sorte Silva (Letras Português/Inglês) Profa. Ma. Silmere Alves Santos de Souza (Serviço Social) Profa. Esp. Vera Cândida Ferreira de Carvalho (Matemática) Prof. Esp. Mário Lúcio do Espírito Santo (Ciências Contábeis) Prof. Esp. Robério Viana de Souza (Engenharia de Produção) Prof. Me. José Aélio de Oliveira Júnior (sistema de Informação) Prof. Me. Almir Souza Vieira Junior (Geografia) Profa. Ma. Fabiana Cristina Oliveira Silva de Oliveira (Matemática) REVISÃO ORTOGRÁFICA: Profa. Ma. Ana Lúcia Simões Borges Fonseca (Letras Português/Inglês) * A revisão e a formatação dos artigos são de responsabilidade dos seus autores. COLABORADORES PROFESSORES: Prof. Esp. Luiz Alberto Cezar Prata (Letras Português/Inglês) Profa. Mestranda Ítala Santana Souza (Geografia) FICHA CATALOGRÁFICA: Ilmária Chaves Sena de Carvalho (Bibliotecária) APOIO: Mônica de Almeida Santos Prata Vagner dos Santos Freitas Andrade Alfredo Meneses Vieira Efeito X (Capa e divulgação) 3

4 ÍNDICE ADMINISTRAÇÃO...5 A VARIÁVEL AMBIENTAL COMO FATOR ESTRATÉGICO DE PLANEJAMENTO NO SETOR DA CONSTRUÇÃO CIVIL...5 GEOGRAFIA...34 ABORDAGENS SOBRE A FORMAÇÃO DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA NO BRASIL...35 EDUCAÇÃO AMBIENTAL: discurso e prática na sociedade do consumo...45 UMA DISCUSSÃO SOBRE A DINÂMICA REGIONAL: Abordagens Teórico-Metodológicas sobre a Categoria...61 LETRAS...72 O CONTO INFANTIL E A CONSTRUÇÃO DE ESTEREÓTIPO...73 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA: técnicas de ensino em ambientes virtuais de aprendizagem...88 ESCOLA ESPECIAL X ESCOLA INCLUSIVA PARA ALUNOS COM SURDEZ: o que dizem as pesquisas FAHRENHEIT 451 : conhecimentoversus poder O QUASÍMODO DA SOCIEDADE: a prostituta como monstro no conto Ana Frágua, de Antonio Carlos Viana SITUAÇÕES FORMAIS DE COMUNICAÇÃO: desvios do portuguêspadrão SERVIÇO SOCIAL VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES. 154 O SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL: trajetória histórica e significado das dimensões profissionais SEGURIDADE SOCIAL NO BRASIL: desafios e Perspectivas para o Serviço Social TRABALHO INFANTIL ABUSO SEXUAL EM CRIANÇAS NO BRASIL VERSUS POLÍTICAS PUBLICAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES USUÁRIOS DE DROGAS VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: dura realidade A GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS SOCIAS E PSICOSSOCIAIS FRENTE À QUESTÃO FAMILIAR NO BRASIL HISTÓRIA O MUNICÍPIO DE RIACHÃO DO DANTAS - SE: nas visões histórica, geográfica e econômica NAS PAREDES DA MEMÓRIA: a disseminação dos grupos escolares em Sergipe ( )

5 ADMINISTRAÇÃO A VARIÁVEL AMBIENTAL COMO FATOR ESTRATÉGICO DE PLANEJAMENTO NO SETOR DA CONSTRUÇÃO CIVIL instrumento de pesquisa, levantamentos em fontes bibliográficas e pesquisas efetuadas na área de estudo. Palavras Chaves: Estrutura Organizacional, Sistemas de Gestão, Gestão Ambiental. RESUMO AUGUSTO CÉSAR VIEIRA DOS SANTOS Mestrando Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente PRODEMA Universidade Federal de Sergipe, Cidade Universitária Prof. José Aloísio de Campos, Pólo de Gestão/Pós-Graduação, Av.: Marechal Rondon, S/N, São Cristóvão Sergipe, CEP.: , Tel.: (79) , ROSEMERI MELO E SOUZA Profª Drª Programa de Desenvolvimento e Meio Ambiente PRODEMA Universidade Federal de Sergipe, Cidade Universitária Prof. José Aloísio de Campos, Pólo de Gestão/Pós-Graduação, Av.: Marechal Rondon, S/N, São Cristóvão Sergipe, CEP.: , Tel.: (79) , Muitas das teorias organizacionais contribuíram para o desenvolvimento de uma consciência ecológica e voltada para o meio ambiente. Neste estudo, procuramos mostar qual a melhor estrutura organizacional para as empresas construtoras, as ferramentas de gestão existentes para a elaboração de um sistema de gestão que traga eficácia para a empresa e satisfação para os clientes, utilizando a variável ambiental na estratégia das organizações construtoras. Para esse estudo, utilizamos como ABSTRACT Many of the organization theories had contributed for the development of a conscience ecological and directed toward the environment. In this study, we look for to show which the best organization structure for the construction companies, the existing tools of management for the elaboration of a management system that brings effectiveness for the company and satisfaction for the customers, using the ambient variable in the strategy of the construction organizations. For this study, we use as instrument of research, surveys in bibliographical sources and research effected in the study area. Key-words: echo-efficiency, productive chain, civil construction. 5

6 2.0 - INTRODUÇÃO Estamos na era das transformações, as mudanças foram tão grandes que atingiram em cheio as empresas. No contexto atual, para que as organizações possam sobreviver num mercado altamente competitivo, é condição primordial que adotem preceitos de qualidade, meio ambiente, produtividade e flexibilidade em suas formas de gestão. Se faz necessário que as empresas revejam suas formas de gestão, incorporando métodos mais eficazes no que concerne à formação de mentalidade voltada para resultados direcionados para a melhoria da competitividade. As micro, pequena e média empresas, por terem estruturas mais enxutas, estarem mais próximas dos clientes e tomarem decisões de forma mais rápida, conseguem ser mais ágeis, mais eficientes. As empresas, com o objetivo de combater desperdícios, aumentar a produtividade e a qualidade, necessitam de pessoal com melhor formação, que possam contribuir na melhoria de processos, pois, se uma unidade falha, o processo empresarial como um todo terá problemas e, se essa falha for muito grande poderá levar à morte da empresa. O sucesso alcançado ou as ameaças sofridas pela empresas, são refletidos imediatamente no seio da organização. O processo de globalização, competitividade e de abertura dos mercados, vem fazendo com que as empresas tenham que se preocupar não somente com o controle dos seus impactos ambientais, como também com o seu desempenho ambiental, necessitando conhecer melhor seu desempenho para sobreviver neste novo cenário, fazendo com que haja uma maior interação dos seus objetivos e metas ambientais às estratégias, objetivos e metas organizacionais. Os aspectos relacionados à estrutura organizacional das empresas do setor de construção civil, como as formas de departamentalização utilizadas, os principais cargos existentes e suas funções, a cultura organizacional, bem como outros aspectos administrativos, não têm sido objeto de intensa investigação. Avançar em estudos acerca das estruturas organizacionais e os modelos de gestão das empresas construtoras de edifícios se fazem importante pelo seu caráter elucidativo. 6

7 Para esse estudo, utilizamos como instrumento de pesquisa, levantamentos em fontes bibliográficas e pesquisas efetuadas na área de estudo. 2.1 AS ORGANIZAÇÕES E AS TEORIAS DA ADMINISTRAÇÃO Diversas teorias administrativas foram surgindo ao longo do século XX com o intuito de entender a dinâmica organizacional. Em 1903, surgiu oficialmente uma teoria administrativa através da publicação do primeiro livro sobre administração de organizações, sob autoria de Taylor. A partir daí surgiram diversas abordagens subdivididas em era industrial clássica, era industrial neoclássica e a era da informação (Chiavenato, 1997). As abordagens tradicionais da administração, que fazem parte da era industrial clássica, enfatizam as tarefas, a estrutura e as pessoas, é composta pela Administração Científica, a Teoria Clássica, a Organização burocrática e a Teoria das Relações Humanas. Já as novas abordagens da era industrial neoclássica enfatizam também a estrutura e as pessoas, mas focam o ambiente e a tecnologia, são elas a Teoria Estruturalista, Neoclássica, Comportamental, de Sistemas e a Teoria da contingência (Chiavenato, 1997). Ferreira (2005), divide as abordagens do pensamento administrativo em abordagem estrutural, composta pelos modelos de gestão de orientação mecânica, teoria da burocracia e teoria da decisão; abordagem humanística, composta pelos modelos de gestão de cunho humano; e a abordagem integrativa, composta pelas teorias de gestão voltadas para os processos internos da organização da produção e do trabalho. Park (1997), divide em abordagem clássica, das relações humanas, comportamental, estruturalista, Sistêmica e abordagem contingencialista Do desenvolvimento organizacional à teoria da contingência A década de 1960 foi marcada pelo surgimento de um conjunto complexo de idéias de estudiosos e pesquisadores a respeito do homem, da organização e do ambiente, com o sentido de propiciar o crescimento e o desenvolvimento segundo as suas potencialidades. 7

8 Daí, nasce em 1962, o termo Desenvolvimento Organizacional (D.O.), definido por French e Bell, citados por Chiavenato (1997), como esforço de longo prazo, apoiado pela direção, no sentido de melhorar os processos de resolução de problemas de renovação organizacional, particularmente através de um eficaz e colaborativo diagnóstico e administração da cultura organizacional. A partir dessa definição, torna-se claro a contribuição da Teoria Comportamental e da Teoria de Sistemas, unindo aspectos estruturais a aspectos comportamentais, realizando mudanças estruturais e em procedimentos que ocorrem em pessoas e grupos (Chiavenato, 1997). Para ele, e outros autores especialistas no assunto como Blake, Mouton, Roeber, o D.O. possui como pressupostos básicos fundamentais os seguintes pontos: a constante e rápida mutação do ambiente; a necessidade de contínua adaptação; a interação entre organização e ambiente; a interação entre indivíduo e organização; a mudança organizacional planejada; a necessidade de participação e de comprometimento; o incremento da eficácia organizacional e do bem-estar da organização; e visão de organização como sistemas abertos; entre outros. Na década de 1970, com o surgimento da Teoria da Contingência, consolidou-se a afirmativa de que as organizações bem sucedidas eram aquelas que, com mais desenvoltura e agilidade, conseguiam se adaptar às pressões, coações e contingências do ambiente e aproveitar as oportunidades surgidas (Chiavenato, 1997). A Teoria da Contingência é fundamentada na idéia de que o ambiente muda a cada instante devido a forças econômicas, tecnológicas, sociais, culturais, legais, demográficas e ecológicas, que introduz a necessidade de contínua mudança organizacional através da inovação, renovação, revitalização e melhoria constante como meio de alcançar a sobrevivência, crescimento e sucesso (Park, 1997; Chiavenato, 1999; Ferreira, 2005). 8

9 Paralelamente às discussões sobre desenvolvimento organizacional e teoria da contingência, começava a se discutir sobre os riscos da degradação do meio ambiente, causando preocupação em toda comunidade internacional com os limites do desenvolvimento do planeta. As discussões ganharam mais ênfase quando, em 1972, pesquisadores apresentaram um relatório de pesquisa com a seguinte conclusão continuando o consumo de recursos e poluição e níveis de industrialização como vinham sendo feitos, em um século haveria uma catástrofe ambiental e social (Rattner, 2005). Todo alarde à cerca deste assunto ganhou tamanha proporção que levou a ONU a promover uma Conferência sobre Meio Ambiente. Mary Parker Follett ( ), chamada de a profeta do gerenciamento por ter sustentado idéias revolucionárias e muito além do seu tempo em relação ao trabalho em equipe e formas de liderança, também foi pioneira no desenvolvimento de uma abordagem holística e ecológica: para salvar a nós mesmos, bem como a natureza, devemos renunciar a crença de que a natureza deve ser dominada e escravizada, aceitando que, como indivíduos, empresas ou indústrias, pertencemos ao mesmo sistema (Graham, 1997 apud Ferreira, 2005). Esse pensamento se contrapõe ao modelo mecanicista vigente na época, que se apoiava numa ética antropocêntrica que pressupunha que a natureza podia ser apreendida pela razão. Essa forma de pensar se apoiava nas idéias de Descartes, que no livro Discurso do Método, apresentou a idéia de que a natureza existia para servir ao homem e que ele poderia dominá-la através da ciência (Waehneldt, 2001; Ferreira, 2005) Abordagem sistêmica Para Berrien (apud Chiavenato, 1997) a Teoria Geral de Sistemas, que teve início por volta da década de 1960, está fundamentada em três premissas básicas: os sistemas existem dentro de sistemas; os sistemas são abertos, pois interagem intensamente com o ambiente, seja recebendo, seja contribuindo com outros sistemas; e suas funções dependem de sua estrutura. Caracteriza-se pelo intercâmbio entre o ambiente e seus demais sistemas. Em contraste temos as teorias tradicionais que 9

10 visualizaram as organizações como sistemas fechados e independentes sem levar em consideração o ambiente. Morgan (1996), diz que muitos teóricos organizacionais transformaram a teoria da organização, na qual as distinções e relações entre moléculas, células, organismos complexos, espécies e ecologia são colocadas em paralelo com aquelas entre indivíduos, grupos, organizações populações (espécies) de organizações e a sua ecologia social. Para ele, um organismo vivo, uma organização ou um grupo social são sistemas completamente abertos. Para ele, a metáfora do organismo ajudou os teóricos organizacionais a identificar e estudar diferentes necessidades das organizações enquanto sistemas abertos, o processo de adaptação das organizações aos ambientes, os ciclos de vida organizacionais, os fatores que influenciam a saúde e desenvolvimento organizacional, as diferentes espécies de organização, bem como as relações entre as espécies e a sua ecologia. Bertalanffy concebeu os princípios da Teoria Geral dos Sistemas, como um meio de interligar diferentes disciplinas científicas (Morgan, 1996; Chiavenato, 2000). Andrade (2000) diz que o gerenciamento ecológico envolve a passagem do pensamento mecanicista para o pensamento sistêmico. Um aspecto essencial dessa mudança é que a percepção do mundo como máquina cede lugar à percepção do mundo como sistema vivo. Essa mudança diz respeito a nossa concepção da natureza, do organismo humano, da sociedade e, portanto, também de nossa percepção de uma organização de negócios. Afirma ainda que: As empresas são sistemas vivos cuja compreensão não é possível apenas pelo prisma econômico. Como sistema vivo, a empresa não pode ser rigidamente controlada por meio de intervenção direta, porém pode ser influenciada pela transmissão de orientações e emissão de impulsos. Este novo estilo de administração é conhecido como administração sistêmica. Foi Ludwig von Bertalanffy que soube enfeixar tantos conhecimentos de cientistas, predecessores contemporâneos seus, para propor-nos um arcabouço teórico descrevendo os princípios de organização dos sistemas vivos (Coimbra, 2002). Ludwig van Os organísmicos ajudaram no surgimento do pensamento sistêmico, cujos conceitos-chaves são conexidade, relações, 10

11 contexto, inter-relações e relações entre as partes e destas com o todo (Capra, 2002). Na abordagem sistêmica, o foco da atenção se transfere da análise da interação das partes para o todo, contrariamente ao pensamento pré-sistêmico, no qual o método analítico procurava chegar à compreensão do todo a partir do estudo independente das partes (Andrade, 2000). A idéia de que as organizações podem adaptar-se aos seus ambientes, atribui muito mais flexibilidade e poder à organização e muito pouco ao ambiente como força na sobrevivência organizacional. Esse desequilíbrio deve ser neutralizado, focalizando a maneira pela qual os ambientes selecionam as organizações e que isso pode ser mais bem feito pela análise das populações das organizações e sua ecologia de forma mais ampla. A perspectiva da ecologia das populações está associada, principalmente, aos trabalhos de Hannah e Freeman, Aldrich e Pfeffer, Kasarda e Bidwell, e Mckelvey. A teoria não foca uma organização específica, mas a população de organizações que possuem funções similares, competem entre si e utilizam os mesmos tipos de recursos ambientais. A ecologia organizacional é a principal perspectiva sociológica no estudo das organizações. Ela se dirige para questionamentos sobre como e por que as populações organizacionais evoluem ou se desenvolvem (Hannah & Freeman in Sena, 2002). Para Morgan (1996), essa visão da populaçãoecologia das organizações coloca a teoria da evolução de Darwin exatamente no centro da análise organizacional: As organizações, como organismos da natureza, dependem, para sobreviver, da sua habilidade de adquirir adequado suprimento de recursos necessários ao sustento da existência. Nesse esforço, tais organizações enfrentam a competição de outras organizações e, uma vez que comumente existia a escassez de recursos, somente os mais adaptados sobrevivem. A natureza, o número e a distribuição de organizações em qualquer tempo dependem da disponibilidade de recursos, bem como da competição dentro e entre diferentes espécies de organizações. O modelo de sistema aberto é aquele em que as teorias ambientalistas mais bem se encaixam, onde os sistemas e estruturas 11

12 organizacionais são invadidos por e se sujeitam a uma grande variedade de influências externas. A forma como essas influências modelam uma organização é o que distingue as várias teorias inclusas no modelo de sistema aberto. Podemos dizer então que abordagem sistêmica é um método que permite compreender o sistema, seus vários componentes e as interações entre esses componentes, num determinado contexto. Dessa forma, podemos identificar problemas em níveis mais abrangentes e, conseqüentemente, propor soluções otimizadas para tais problemas. Mas para fazermos uma abordagem sistêmica, precisamos ter um conhecimento prévio dos diversos componentes do contexto em questão, o que nos levará às áreas específicas de cada um desses componentes (Waehneldt, 2001). 2.2 ESTRUTURA ORGANIZACIONAL internos estão relacionados à sua estrutura e ao comportamento de seus colaboradores; já os fatores externos estão relacionados às pressões demandadas ou influenciados pelo ambiente (Chiavenato, 1999). Para que seus objetivos sejam alcançados, a organização deve ser estruturada em função do dinamismo das condições circunstanciais do meio em que está inserida, pois a maneira como ela se relaciona com esse ambiente irá definir sua sobrevivência ou extinção. E é a capacidade de adaptar-se, de manter sua estrutura, de sobreviver, numa condição dinâmica que garante, diretamente, a eficiência da organização. E para sobreviver e manter sua estrutura deve ser capaz de gerir conflitos entre pessoas, processos, recursos e outros, para atingir um objetivo comum. (Chiavenato, 1999). Para Vasconcellos e Hemsley (1986), estrutura organizacional é o resultado da interação entre os seguintes aspectos: Crescer e se desenvolver é uma tendência natural de toda organização; sua origem parte de fatores endógenos internos à organização, e de fatores exógenos externos a ela. Os fatores a) Escolha dos critérios de departamentalização; b) Definição quanto à centralização ou descentralização de áreas de apoio; 12

13 c) Localização de assessorias; d) Decisão quanto à amplitude de controle; e) Definição do nível de descentralização de autoridade; f) Sistema de comunicação; e g) Definição quanto ao grau de formalização. A estrutura formal é conceituada por Oliveira (1998), como aquela deliberadamente planejada e formalmente representada, em alguns dos seus aspectos, pelo organograma. Mintzberg (1995), diz que apesar de o organograma não mostrar os relacionamentos informais, retrata fielmente a divisão do trabalho e exibe de forma clara: quais posições existem na organização; como estas são agrupadas em unidades; e como a autoridade formal flui entre elas. Vale salientar a importância da estrutura informal nas organizações. Ela não é visível, mas exerce papel importante, cabe aos gestores saber tirar proveito das relações informais, procurando conhecê-las a fim de que possam ser úteis na coordenação dos trabalhos ou eliminá-las quando se tornarem prejudiciais à organização. A organização, segundo Chiavenato (1997), pode ser caracterizada através de quatro princípios básicos: a divisão do trabalho, que nada mais é do que a maneira pela qual um processo complexo pode ser decomposto em uma série de pequenas tarefas que o constituem; a especialização, que implica que cada órgão ou cargo passe a ter funções e tarefas específicas e especializadas; a hierarquia, que divide a organização em camadas ou escalas ou níveis de autoridade, tendo os superiores uma certa autoridade sobre os inferiores; e a distribuição da autoridade e da responsabilidade. Vasconcellos & Hemsley (1986), classificam as estruturas organizacionais em tradicionais e inovativas. Para eles as estruturas tradicionais adaptam-se bem às empresas que desenvolvem atividades repetitivas atuando em ambientes estáveis, pouco dinâmicos, enquanto as estruturas inovativas são soluções para ambientes organizacionais complexos. 13

14 Mintzberg (1995), diz que a estrutura organizacional é composta por cinco partes: a) Núcleo Operacional - engloba os operadores que perfazem o trabalho básico relacionado diretamente com a produção de bens ou prestação de serviços; b) Cúpula Estratégica - é encarregada de assegurar que a organização cumpra sua missão de maneira eficaz e, também, de satisfazer as exigências daqueles que controlam ou de outra forma exercem poder sobre a organização. Encontram-se ali pessoas em unidades e cargos com total responsabilidade pela organização; c) Linha Intermediária - é composta por uma cadeia de gerentes com autoridade formal, que liga a cúpula estratégica ao núcleo operacional; d) Tecnoestrutura é onde se encontram os que prestam serviços à organização atuando sobre as tarefas de outros. Estes analistas encontram-se fora do fluxo de trabalho operacional, mas podem o delinear, planejar e alterar, ou ainda treinar os indivíduos que o perfazem, porém, não o executam por si próprios. São incumbidos de padronizar o trabalho na organização; e e) Assessoria de Apoio - compõe-se de um conjunto de unidades especializadas, criadas com o fim de dar apoio para a os demais agentes da organização, situando-se fora de seu fluxo de trabalho operacional Tipos de estrutura Em pesquisa realizada por Vivancos (1999), chegou-se a conclusão de que o tipo de estrutura organizacional mais empregado pelas empresas construtoras, é a hierarquizada, que emprega a departamentalização por funções, com ênfase na unidade de comando e na comunicação vertical. Um terço das empresas estudadas adota a forma matricial de organização da estrutura de produção, o que nos leva a considerar que essa deve ser uma solução interessante para o setor. A estrutura Funcional, também chamada de linear e assessoria, agrupa o trabalho pela especialidade da ação desenvolvida. Os subsistemas especialistas são encabeçados por 14

15 diretores, gerentes ou chefes de departamentos, que por sua vez, são responsáveis pela coordenação das atividades dos referidos departamentos funcionais. Nesse tipo de estrutura, todas as funções que são criadas para colaborar com as funções de linha e que as assessoram de forma especializada são denominadas staff ou assessoria. São estabelecidas relações simples de subordinação e possibilita a especialização e a troca de conhecimentos entre indivíduos do mesmo departamento. Em contrapartida, há dificuldade de integração dos departamentos para o alcance dos objetivos globais da empresa. A estrutura por projeto ou produto é mais descentralizada, com os departamentos separados pela saída (na construção civil: o empreendimento, obra ou projeto, serviço). O gerente possui completa autonomia e autoridade sobre o empreendimento, dentro dos limites das políticas gerais da organização, permitindo uma melhor coordenação das atividades e imprimindo maior agilidade para a resolução dos problemas com clientes, fornecedores. Por outro lado, há um aumento na demanda de recursos humanos necessários para a execução dos serviços, os indivíduos nas divisões podem se sentir desestimulados a cooperar com outras áreas da organização, além de haver uma maior dificuldade de troca de conhecimento entre os especialistas que estariam alocados em seus empreendimentos específicos. Já estrutura matricial confere maior agilidade e flexibilidade à produção de edifícios, que envolve o trabalho de um grande número de especialidades e o emprego de uma enorme variedade de insumos, o que torna difícil sua coordenação por apenas uma unidade organizacional, sem comunicação direta com as demais unidades envolvidas. Por ser flexível e pela facilidade na coordenação de projetos, a estrutura matricial pode ser bastante adequada às necessidades das empresas construtoras, uma vez que, pela natureza da atividade pode ocorrer de ter que gerenciar vários canteiros de obra ao mesmo tempo, com características e sistemas construtivos distintos e produtos não padronizados. A estrutura matricial busca combinar as vantagens da organização funcional com as de projeto. Com a existência de departamentos funcionais atendendo aos gerentes dos empreendimentos, há uma diminuição do envolvimento desses gerentes com as funções puramente administrativas, direcionando seus esforços para o empreendimento. 15

16 A principal desvantagem desse tipo de organização está relacionada com a dupla autoridade e os conflitos gerados por essa duplicidade nas funções de caráter matricial. O desempenho deste tipo de estrutura dependerá muito do relacionamento existente entre o gerente do empreendimento e os gerentes especialistas. A estrutura sistêmica por sua vez, possibilita a indicação dos fatores interligados, equilíbrio entre os participantes e a diferenciação entre responsabilidade e autoridade o que possibilita uma gestão mais dinâmica. Ambas as estruturas possibilita um maior equilíbrio entre as funções administrativas e de construção e têm a vantagem de poder adaptar-se aos sistemas de gestão voltados ao Meio Ambiente, à garantia de qualidade, à Responsabilidade Social e à Saúde e Segurança no Trabalho que passaremos a ver agora. Através do Quadro 2.1, podemos observar as vantagens e desvantagens da adoção de uma estrutura matricial ou sistêmica. Quadro 2.1 Vantagens e desvantagens das estruturas matricial e sistêmica (adaptado de Tibor Simcsik O.M.I.S.: organização, métodos, informação e sistemas) Tipo de Estrutura Matricial Sistêmico Vantagens (situação positiva) Facilidade na coordenação de projetos. Possibilidade de acompanhar os objetivos e a realização. União da equipe em torno de objetivos. Promoção da concorrência profissional. Flexibilidade eliminando monopólios internos. Adoção de suborganogramas temporários com mobilidade do indivíduo (ad hocráticos). Apresentação de interfaces em volume ou quantificáveis. Possibilidade de indicar os fatores interligados. Análise da empresa com dinamismo. Equilíbrio entre os participantes Diferenciação entre responsabilidades e autoridades. Desvantagens (situação negativa) Não aplicável a serviços ou produtos padronizados. Não voltado à economia de escala. Descentralização demasiada das responsabilidades. Insegurança no término do projeto. Limitação a projetos. Fragmentação pelo crescimento da empresa. Desequilíbrio entre integração e diferenciação dos sistemas e subsistemas. Interfaces não ficam claras quando há excesso de sistemas. 16

17 2.3 PLANEJAMENTO ORGANIZACIONAL As organizações não operam na base da improvisação e nem funcionam ao acaso [...] elas requerem planejamento para todas as suas operações e atividades, principalmente quando operam em ambientes dinâmicos, complexos e competitivos. O planejamento é um importante componente da vida organizacional capaz de dar-lhe condições de rumo e continuidade em sua trajetória em direção ao sucesso. [...] significa interpretar a missão organizacional e estabelecer os objetivos da organização, bem como os meios necessários para a realização desses objetivos com o máximo de eficácia e eficiência [...] é um processo que inclui a definição dos objetivos organizacionais e a seleção das políticas, procedimentos e métodos desenhados para o alcance desses objetivos (Chiavenato, 1999). O planejamento é composto de seis etapas, são elas (Chiavenato, 1999; Simcsik, 1992; Maximiano, 2004): 1) Definir objetivos através da especificação de resultados desejados e de onde se quer chegar; 2) Verificar a situação atual em que a organização se encontra; 3) Analisar e estabelecer previsões sobre condições futuras em que poderá se encontrar; 4) Desenvolver alternativas de ação, ou seja, relacionar e avaliar ações, através de planos de ação, que podem ser empreendidas para alcançar os objetivos preestabelecidos; 5) Tomar decisão quanto à alternativa que será desenvolvida; e 6) Implementar o plano e avaliar os resultados. Diferentes tipos de plano abrangem períodos de longo, médio e curto prazo, e podem ser desenvolvidos em sua estrutura como um todo, em departamentos ou divisões e em tarefas. A combinação entre período e nível hierárquico em que o planejamento é elaborado determina o tipo de planejamento em que a organização está atuando, podendo ser: operacional, tático ou estratégico. O planejamento operacional está relacionado ao curto período de tempo e seu conteúdo é detalhado e analítico, cobrindo cada tarefa e operação individualmente. Este nível é formado pelos executores das ordens: mestres, encarregados, oficiais, serventes, 17

18 agentes de escritório (ajudantes de contabilidade e pessoal, almoxarife, etc.). O tático é o plano que aborda cada unidade ou departamento, é definido em médio prazo. Neste nível estão os cargos de gerência (produção, finanças, recursos humanos, projetos, etc.) e engenheiros de obras. O planejamento estratégico estabelece as metas e objetivos da empresa, aborda a organização como um todo, é estabelecido em longo prazo e seu conteúdo é genérico e sintético, para tanto, é necessário um mapeamento ambiental e avaliação das forças e limitações da organização. Neste nível estão os cargos de direção e presidência A variável ambiental e a estratégia organizacional A variável ambiental nas organizações tem ganhado destaque significativo pela sua importância para a qualidade de vida da sociedade. Alguns países começam a entender que as medidas de proteção ambiental criadas não impedem o seu desenvolvimento econômico e, em seus estudos sobre desenvolvimento, estão inserindo modelos de avaliação de impacto e de custos/benefícios ambientais na análise dos projetos econômicos, o que têm gerado novas diretrizes e regulamentações e leis na formulação de suas políticas públicas (Donaire, 1999). Para Donaire (1999), tal iniciativa acarreta nova visão na gestão dos recursos naturais a qual possibilita, ao mesmo tempo, eficácia e eficiência na atividade econômica e mantém a diversidade e estabilidade do meio ambiente. Foi nos anos 1980, que as empresas passaram a observar que as despesas referentes à proteção ambiental poderiam se transformar em vantagem competitiva. E Quais os motivadores que fizeram e fazem com que as empresas aceitem a responsabilidade pela proteção ao meio ambiente? Donaire (1999) cita alguns: a) Sentido de responsabilidade ecológica; b) Requisitos legais; c) Salvaguarda da empresa; d) Imagem; e) Proteção do pessoal; f) Pressão do mercado; 18

19 g) Qualidade de vida; e h) Lucro. A partir daí muitas empresas passaram a incluir a dimensão ecológica nos seus processos de gestão: De início isto ocorreu de forma esporádica quando gerentes e empresários começaram a desenvolver programas de reciclagem, de economia de energia, de aproveitamento dos resíduos etc. em suas empresas. Estas práticas disseminaram-se rapidamente e logo muitas organizações passaram a desenvolver sistemas administrativos em consonância com a causa ambiental. (Donaire, 1999, p. 57) traçam políticas gerais de atendimento às exigências ambientais que irão influenciar as estratégias de suas filiais, pois, em muitos países, principalmente os de terceiro mundo, é quase que inexistente a preocupação com as questões ambientais por parte da administração. No contexto nacional, a estratégia organizacional é influenciada pelas exigências da legislação ambiental. As ações voltadas ao atendimento às exigências legais por parte das empresas acabaram por interiorizar as questões ambientais, inclusive influenciando e repercutindo na estrutura organizacional. 2.4 SISTEMAS DE GESTÃO O impacto da variável ambiental na estratégia da organização está ligado diretamente ao seu potencial de poluição (Donaire, 1999). Quanto maior for o potencial de poluição gerada, torna vital a sua importância na formulação da estratégia organizacional. Para Donaire (1999), a influência da variável ecológica na estratégia pode ser dividida em dois contextos: nacional e internacional. No âmbito internacional as empresas multinacionais Sistema é um conjunto de partes integrantes e interdependentes que, conjuntamente, forma um todo unitário com determinado objetivo e efetuam determinadas funções Oliveira (1998). A norma NBR ISO 9000:2000 o define como: conjunto de elementos inter-relacionados ou interativos. 19

20 Chiavenato (1997), diz que um sistema é caracterizado por elementos, são eles: a entrada, o processamento ou processo, a saída, a retroação e o ambiente. organizacionais disponíveis. Na Figura 2.1, podemos visualizados melhor essas funções: A entrada fornece material, energia ou informação para a operação do sistema; a saída, é o resultado de um sistema, é a Ambiente Externo finalidade para qual se reuniram seus elementos e relações; o processo é o mecanismo de transformação de entradas em saídas; a Planejamento retroalimentação tem como função analisar os resultados e comparálos com os padrões previamente estabelecidos; o ambiente, influenciando e sendo influenciado. Entradas Controle Organização Saídas Numa organização inserida num contexto ambiental dinâmico, para alcançar um determinado objetivo é necessário que conheça primeiramente a si própria, como também o ambiente que a influencia. Insumos Direção Resultados Figura 2.1 O processo administrativo (funções da administração) Fonte: Chiavenato (1999) Para atingir esses objetivos preestabelecidos, Mescon et al (1985, in Chiavenato, 1999), diz que é conveniente que uma organização utilize o conceito de Administração, que nada mais é do que o processo de planejar, dirigir, coordenar e controlar os esforços dos membros das organizações e de utilizar todos os recursos Oliveira (1998), define gestão como atividades coordenadas para dirigir e controlar uma organização e denomina sistema de gestão como um sistema para estabelecer política e objetivos. 20

21 Seguindo a mesma linha de pensamento, Cardella (1999, apud Maciel, 2001) define mais detalhadamente sistema de gestão como sendo um conjunto de instrumentos inter-relacionados, interatuantes e interdependentes que a organização utiliza para planejar, operar e controlar suas atividades para atingir objetivos. Os requisitos impostos pelo desenvolvimento sustentável nas organizações, tais como: mapeamento de seus cenários de atuação, tradução dos requisitos em informações que possam ser utilizadas para a tomada de decisão, estabelecimento de estratégias, planejamento preventivo, melhoramento contínuo da sua eficácia, recursos, padrões e sistema de medição e controle; impõe a construção de um sistema de gestão organizado e coerente, que possa assegurar a previsibilidade requerida no atendimento aos requisitos essenciais (Cerquiera, 2006). 2.5 FERRAMENTAS DE GESTÃO processo contínuo de adequação e melhoria, podendo evidenciar inclusive as variáveis ambientais. Podemos destacar alguns reconhecidos no mercado internacional, são eles: 1) O sistema de gestão Balanced Scorecard (BSC) cujo foco não está voltado somente para resultados financeiros; 2) O sistema de gestão da qualidade representado pelas normas da série ISO 9000 (International Standardization Organization), está relacionado aos processos internos que afetam a satisfação dos clientes; 3) O sistema de gestão ambiental, que trata de gestão do meio ambiente, representado pela série ISO 14000; 4) A segurança e saúde ocupacional, representada pela OHSAS 18001; e 5) A recém criada norma brasileira que trata de responsabilidade social, a NBR Atualmente existem diversas metodologias para elaboração e implantação de sistemas de gestão que possibilitam às organizações estabelecer o controle em relação aos seus processos internos e externos, favorecendo uma condição de sobrevivência através de um Esta última, ainda não esta disseminada e reconhecida como as outras normas citadas, porém, cada norma trata de temas distintos, e esta, de forma mais abrangente, contempla assuntos como: boas práticas em governança, combate à pirataria, sonegação, 21

22 direitos das crianças, questões raciais, proteção do meio ambiente, promoção da saúde e segurança, entre outros Balanced Scorecard (BSC) Originalmente chamado de Tableau de Bord, surgido na década de 60, na França, o modelo de medição ficou limitado a medidas financeiras, porém, no início dos anos 90, Kaplan e Norton propuseram um novo modelo chamado de Balanced Scorecard. Esse modelo traduz a missão e a estratégia das empresas em um conjunto Balanceado e abrangente de medidas de desempenho, que serve de base para um sistema de medição e de gestão estratégica (Mauad e Pamplona, 2003). E pode ser considerado como ferramenta organizacional para fins gerenciais, pois estabelece metas individuais e de equipe, remuneração, alocação de recursos, planejamento e orçamento, e retroação e aprendizados estratégicos. O BSC é fundamentado em indicadores, chamados de scorecard, que acompanhados e estudados ao longo do tempo possibilitam a visualização de uma projeção para alcance desses objetivos estratégicos. Os indicadores são definidos em função de quatro perspectivas distintas financeira, do cliente, interna e de inovação e aprendizagem (Kaplan e Norton, 1997). Os objetivos e medidas utilizados no BSC são determinados a partir do estabelecimento da missão, visão e estratégia da organização, que são desdobrados em objetivos, indicadores, metas e iniciativas que atendam de modo equilibrado os fatores críticos associados ao atendimento das necessidades de acionistas, clientes, negócios, inovação e aprendizado. Para Kaplan e Norton (1997), a perspectiva financeira e os objetivos financeiros servem de foco para os objetivos e medidas das outras perspectivas do scorecard. O BSC permite tornar os objetivos financeiros explícitos, e ainda, permite ajustar esses objetivos às unidades de negócio nas diferentes fases de seus ciclos de vida e crescimentos. Tudo isso de forma que alcance os objetivos e metas de longo prazo, gerando retornos satisfatórios sobre o capital investido. Para tanto, seus vetores estão condicionados pelo setor de mercado, pelo ambiente competitivo e pela estratégia da unidade de negócios. 22

23 Na perspectiva dos clientes, as organizações identificam os segmentos de clientes e mercados em que vão atuar e ainda definem medidas essenciais como: satisfação, fidelidade, retenção, captação e lucratividade (Kaplan e Norton, 1997). Essa perspectiva permite que estas organizações alinhem o mercado aos resultados oferecidos para clientes específicos desse mercado. Estes resultados representam metas para produção, marketing, logística e outros, sendo necessário que a empresa identifique o que os mercados-alvo valorizam e, com isso, escolham a proposta de valor a ser oferecida a estes clientes (Kaplan e Norton, 1997). Nos processos internos, a empresa deve identificar os processos mais críticos para a realização dos objetivos dos clientes e acionista. De forma seqüencial após definir os objetivos e metas para as perspectivas financeiras e do cliente esta perspectiva permite que as organizações focalizem sistemáticas de medição para os processos que conduzirão os objetivos dos clientes e acionistas. Por último, temos a perspectiva de aprendizado e crescimento que são os vetores de resultados excelentes das três primeiras perspectivas do scorecard. Esta perspectiva visa desenvolver objetivos e medidas orientados para aprendizado e crescimento organizacional. Para integrar o BSC de uma empresa à sua estratégia, é necessário seguir três princípios, a saber: relações de causa e efeito; vetores de desempenho; e relação com os fatores financeiros (Kaplan e Norton, 1997). Um BSC elaborado de forma consistente deve contar a história de uma unidade de negócios, identificando as relações de causa-efeito entre os seus resultados, servindo como elemento comunicador do significado da estratégia à organização. Deve ser uma combinação adequada de resultados e impulsionadores de desempenho ajustados à estratégia da unidade de negócios, e as relações de causa e efeito, devem estar associadas a objetivos financeiros (Kaplan e Norton, 1997). Na figura 2.2, apresentamos o BSC como um sistema de gestão, onde, a perspectiva financeira está disposta acima na figura e representa os indicadores de ontem. As perspectivas processos internos e clientes estão dispostas no meio e representam os indicadores de hoje e a perspectiva aprendizado e crescimento representa os indicadores de amanhã. 23

24 2.5.2 Sistemas de gestão da qualidade Deming, Juran e Crosby, os gurus da qualidade, iniciaram seus trabalhos no Japão, introduzindo práticas de gestão da qualidade segundo princípios definidos por cada autor. Deming (1990) defende que a qualidade é definida em função das exigências e das necessidades do consumidor. Como estas necessidades estão evoluindo constantemente é necessário que a organização altere as especificações numa mesma dinâmica para acompanhar a tendência. Figura 2.2 O Balanced Scorecard como sistema de gestão Fonte: Kaplan e Norton (1997). Juran (1990), que foi considerado o primeiro autor que aplicou a qualidade à estratégia empresarial, definiu que qualidade é a adequação ao uso. Estabeleceu que a qualidade é realizada através de três processos básicos: o planejamento, o controle e a melhoria, chamados de trilogia de Juran. Luz (2002), diz que, para Crosby, qualidade está associada aos conceitos de defeito zero e fazer bem da primeira vez. Sob esse ponto de vista, mostramos no Quadro 2.2 exemplo de metas do controle de qualidade e ambiental a serem atingidos em 24

25 cada etapa do processo construtivo dentro de uma perspectiva ambiental: Quadro 2.2 Metas de controle de qualidade e ambiental Planejamento Projeto Materiais Execução Uso Atender ás normas gerais de desempenho, código de obras e regulamentos. Atender à legislação ambiental. Atender às normas específicas de desempenho, às normas e documentos prescritivos. Procurar desenvolver projetos com habitações ecoeficientes e adequados ao entorno. Produzir e receber de acordo com o especificado. Utilizar materiais com baixo impacto ambiental. Atender ao projeto e ao especificado. Reduzir o volume de resíduos sólidos Assegurar a adequada utilização do produto. Assegurar a redução do consumo de água e energia. Assegurar a redução da geração de resíduos. Uma organização é orientada para o mercado quando se baseia na definição de diretrizes coerentes com as metas da companhia, expectativas e necessidades dos clientes, e na conexão destas aos processos de negócios. Para saber se a qualidade foi alcançada ou não é necessário que a organização possua um sistema de forma a medir a qualidade do produto ou serviço, o número de reclamações dos clientes, atrasos, custo, etc. (Luz, 2002). Existem normas que podem auxiliar o processo de qualidade de uma organização, mas apenas orientando-a no que fazer, dentre as existentes, destacam-se as normas ISO. As normas da série ISO, isoladamente, não produzirão qualidade nas empresas. Elas, como toda e qualquer norma, são apenas uma referência do que fazer. O como fazer é um problema que a própria empresa deverá estudar, planejar e executar com seus próprios recursos e adaptados à sua realidade (Barros, 1992 in Luz, 2002). Para uma organização obter sucesso é necessário gerir seus processos de maneira sistemática e transparente. Esse sucesso pode resultar da implementação e manutenção de um sistema de gestão, ou seja, de uma sistemática que melhore continuamente, sempre levando em conta os interesses de todas as partes. A ISO 9000 é um sistema normativo internacional de gerência da Qualidade assegurada. Ela estabelece estrutura e os processos organizacionais para assegurar a produção de bens e serviços que atendam aos níveis de qualidade pré-estabelecidos para os clientes 25

26 de uma empresa [...], pode se adequar a qualquer tipo de organização. (ABNT, 2005) A Norma NBR ISO 9001:2000 pode ser usada para avaliar a capacidade da organização de atender os requisitos do cliente, os regulamentares e os da própria organização. Para o adequado gerenciamento do sistema, leva-se em conta a metodologia do PDCA - Plan (planejar), Do (fazer), Check (checar) e Act (agir) em todos as etapas do processo produtivos. Planejar significa estabelecer objetivos e processos necessários para fornecer resultados de acordo com requisitos [...] e políticas da organização; fazer significa implementar tais processos planejados; checar é monitorar e medir processos e produtos em relação às políticas, aos objetivos e aos requisitos para o produto e relatar os resultados; e agir, executar ações para promover continuamente a melhoria do desempenho do processo (NBR ISO 9001:2000). A (ACTION) C (CHECK)) Definir metas Atuar corretivamente Definir os métodos para operação das educar e Verificar os treinar resultados da tarefa executada Executar a tarefa Coletar P (Plan)) D (DO) Figura 2.3 Ciclo PDCA Fonte: Cerqueira, 2006; Reis, 2002 Para a construção do sistema de gestão a ISO 9001:2000 apresenta os seguintes requisitos relacionados ao sistema de gestão da qualidade: 4 - requisitos gerais; 5 -responsabilidade da direção; 6 - gestão de recursos; 7 - realização do produto e 8 -medição, análise e melhoria, que são subdivididos para melhor entendimento. 26

27 2.5.3 Sistemas de gestão ambiental Bateman e Snell (1998) salientam que as organizações, atualmente, estão desenvolvendo novas relações entre seus negócios, a sociedade e o meio ambiente de forma a minimizar um processo global de dano ambiental. Têm se sensibilizado na questão ambiental tanto de forma ceticista com relação aos investimentos ambientais e seu retorno respectivo, como do desenvolvimento de uma capacidade ecoempreendedora. As atividades organizacionais, com maior destaque ao setor industrial, geralmente resultam na geração de resíduos sólidos, líquidos ou gasosos. Estes resíduos quando não recicláveis devem receber tratamento e destinação adequados. Por isso, cada país, incluindo seus estados e municípios, desenvolve sua legislação ambiental no sentido de especificar e regulamentar estas atividades potencialmente poluidoras. Portando as organizações devem atender aos parâmetros e requisitos exigidos por lei para as atividades que executa. (Coral, 2002) As metodologias ou sistemas de avaliação de desempenho são instrumentos que podem auxiliar neste processo e têm como principal objetivo estabelecer o grau de evolução ou estagnação dos seus processos, definindo indicadores de desempenho que devem estar alinhados às estratégias e objetivos da organização. O processo de transformação no comportamento das organizações frente ao meio ambiente, tem se dado, na maioria das vezes, obedecendo três passos: primeiro, o controle ambiental nas saídas; segundo, a integração do controle nas práticas e processos industriais; e, terceiro a integração do controle na gestão administrativa (Donaire, 1995). Embora até recentemente a maioria das iniciativas das organizações no sentido de preservação do meio ambiente se concentrassem no controle das saídas a fim de adequar-se às legislações ambientais, com a criação do SGA (Sistema de Gestão Ambiental), muitas empresas passaram a integrar o controle nas práticas e nos processos industriais, bem como na gestão administrativa. O SGA, assim como o SGQ (Sistema de Gestão da Qualidade), deve ser acompanhado por um organismo credenciado de certificação. A adesão a um sistema de certificação é voluntária do ponto vista legal, mas na prática tem sido cada vez mais exigida 27

28 pelo mercado. (Almeida, 2002). O sistema de certificação ambiental mais geral, aplicável a todos os setores, é a série de normas ISO Na Inglaterra, o British Standards Institution (BSI) desenvolveu a BS7750, Sistemas de Gerenciamento Ambiental, como um complemento à norma BS 5750 sobre Sistemas de Gerenciamento da Qualidade" (Hemenway e Gildersleeve, 1995: 10). E ainda, em 1991, a Organização Internacional de Normalização (ISO), estabeleceu o Grupo de Aconselhamento Estratégico sobre Meio Ambiente (SAGE), que após dois anos de estudo sobre a BS7750 e de outros padrões nacionais de sistema de gestão ambiental, formou um comitê técnico para desenvolver a série ISO Em 1996, foi publicada a primeira Norma da Série 14000, referente à certificação de Sistema de Gestão Ambiental (SGA), a Norma No que diz respeito à aplicação, As normas de sistemas de gestão ambiental podem ser aplicadas a qualquer atividade econômica, fabril ou prestadora de serviços, e, em especial, àquelas cujo funcionamento ofereça risco ou gere efeitos danosos ao meio ambiente.( Maimon, 1996). Assim como todas as normas desenvolvidas pela ISO, as da Série também são voluntárias, isto é, não há instrumentos legais para forçar os países a adotá-las. Ainda, de acordo com a NBR ISO (1996: 2), as Normas Internacionais de gestão ambiental têm por objetivo prover às organizações os elementos de um sistema de gestão eficaz, passível de integração com outros requisitos de gestão, de forma a auxiliá-la a alcançar seus objetivos ambientais e econômicos. A NBR ISO 14001:2004 estabelece como requisitos do sistema de gestão ambiental os itens: requisitos gerais, política ambiental, planejamento, implementação e operação, e verificação. Seguindo mesma sistemática de gestão por processo da ISO 9001:2000, através do P.D.C.A., a NBR ISO 14001:2004 descreve seu modelo conforme figura a seguir: 28

29 Análise pela Administração Verificação Monitoramento e Medição Avaliação do atendimento a requisitos legais e outros Não Conformidade, Ação Corretiva e Ação Preventiva Controle de Registros Auditoria Interna Melhoria Contínua Planejamento Figura 2.4 Modelo de sistema de gestão ambiental Fonte: NBR ISO 14001:2004/Cerqueira, Aspectos Ambientais Requisitos Legais e Outros Objetivos, Metas e Programas Implementação e Operação Recursos, funções, Respons. e Autoridades Competência, Treinamento e Conscientização Comunicação Documentação Controle de Documentos Controle Operacional Preparação e resposta à emergência podem que podem ser compartilhados, integrando esses requisitos em um único sistema de gestão que objetive não só atender à satisfação dos clientes com seus produtos e serviços, mas também as demais partes interessadas que impõem requisitos às organizações investidores, acionistas, empregados e colaboradores, fornecedores, órgão governamentais etc. (Cerqueira, 2006). As exigências do mercado estão obrigando as organizações a repensarem sua forma de atuação para assegurarem um desenvolvimento sustentável para seus negócios. Para que possam sobreviver e se perpetuarem no mercado, suas ações de hoje não podem prejudicar a geração atual e nem as futuras. Essa postura requer das organizações uma análise e avaliação continuadas de seus desempenhos ambiental, tecnológico, econômico, cultural, político e social (Cerqueira, 2006) Sistemas de gestão integrados A construção de um sistema de gestão esta focada nos requisitos comuns do diferentes tipos de sistemas de gestão que O sistema de gestão de uma organização pode ter seus elementos organizados ou agrupados para atender a diferentes propósitos de gestão: gestão da qualidade, gestão ambiental, gestão de segurança e saúde ocupacional, gestão da responsabilidade social, gestão financeira, gestão de recursos humanos, gestão da 29

30 informação, entre outras. Para Cerqueira (2006), esses sistemas podem ser tratados em sistemas isolados ou agrupados (integrados) em um único sistema que englobe seus elementos essenciais. 2.6 CONCLUSÃO Podemos perceber que os primeiros teóricos da ciência da administração contribuíram para um modelo de gestão mecanicista, voltado para as máquinas e para os níveis de produção, as pessoas eram tratadas como máquinas, não se levava em consideração os seus sentimentos, frustrações e objetivos de vida, quem pensasse de maneira contrária poderia ser considerado louco. E foi o que aconteceu com Follett, muito além do seu tempo, já pensava nas relações de poder levando-se em consideração as pessoas e o trabalho em equipe. Suas idéias em relação ao respeito ao meio ambiente e à preservação do mesmo foi por muito tempo esquecida em função do modelo hegemônico da época satisfazer aos interesses dos industriais, voltando à tona somente na década de 1970 quando se percebeu que os recursos naturais são finitos. Sendo o setor de construção civil um dos grandes responsáveis pela poluição no planeta, pois gera resíduos poluindo terra, ar e a água, se faz necessário que as empresas do setor encontre o melhor caminho para redução desses impactos, a nosso ver o primeiro caminho está no ajuste de suas estruturas administrativas buscando adequar melhor os recursos organizacionais ao seu modo de produção. Neste contexto, verificamos que as estruturas matricial e sistêmica são as mais adequadas para as empresas do setor, combinadas com modelos ou ferramentas de gestão atualizados, considerados, por alguns autores como modelos de gestão em construção como o sistema de gestão BSC, sistema de gestão da qualidade (SGQ), sistema de gestão ambiental (SGA) e o sistema de gestão integrado (SGI). Os sistemas BSC e o SGI por suas características podem ser aplicados a qualquer tipo de empresa e de qualquer tamanho, dando às organizações que os adota a possibilidade de adequação aos objetivos da organização, esses sistemas têm ainda como vantagem a evidência de utilização de indicadores ambientais incluídos na estratégia da organização. 30

31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, Fernando. O Bem negócio da sustentabilidade. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, p ANDRADE, Rui Otávio Bernardes de, TACHIZAWA, Takeshy, CARVALHO, Ana Barreiros de. Gestão Ambiental Enfoque Estratégico Aplicado ao Desenvolvimento Sustentável. 2ª ed. São Paulo, SP: Makron Books, 2000, 232 p. CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à teoria geral da administração. 6ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Editora Campus, COIMBRA, Ávila. O outro lado do meio ambiente: uma incursão humanista na questão ambiental. Campinas, SP: Millennium, p DONAIRE, Denis. Gestão ambiental na empresa. 2ª Ed. São Paulo, SP: Ed. Atlas, BATEMAN, T.S. & SNELL, S.A. Administração: construindo vantagem competitiva. São Paulo, SP: Editora Atlas, CAPRA, Fritjof. Conexões ocultas: ciência para a vida sustentável. 2ª ed. São Paulo, SP: Cultrix, 2002, cap. 1,2 e 3. CERQUEIRA, Jorge Pedreira de. Sistemas de gestão integrados: ISO 9001, NBR 16001, OHSAS 18001, AS 8000: conceitos e aplicações. Rio de Janeiro, RJ: Qualitymark, p. CHIAVENATO, Idalberto. Introdução à teoria geral da administração. 5ª ed. São Paulo, SP: Makron Books, CHIAVENATO, Idalberto. Administração nos novos tempos. 2ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Editora Campus, FERREIRA, Victor Cláudio Paradela., CARDOSO, Antônio Semeraro Rito., CORRÊA, Carlos José., FRANÇA, Célio Francisco. Modelos de gestão. Série Gestão de pessoas. Rio de Janeiro, RJ: Editora FGV, 2005, 186 p. JURAN, J. M. Juran planejando para a qualidade. São Paulo, SP: ed. Pioneira, KAPLAN, R. S. & NORTON, D.P. A estratégia em ação: balanced scorecard. 10ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Campus, LUZ, Carolina da. Implantação de programas da qualidade pela certificação ISO 9001 como diferencial competitivos para as organizações. Florianópolis, SC: Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, Universidade Federal de Santa Catarina 31

32 (UFSC), Dissertação Mestrado. 14 jun MACIEL, Jorge Luís de Lima. Proposta de um modelo de integração da gestão da segurança e da saúde ocupacional à gestão da qualidade total. Florianópolis, SC: Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Tese Doutorado. 14 jun MAIMON, Dalia. Passaporte verde: gestão ambiental e competitividade. Rio de Janeiro, RJ: Ed. Qualitymark, MAUAD, Luiz G. A. e PAMPLONA, Edson de O. ABC/ABM e BSC Como essas ferramentas podem se tornar poderosas aliadas dos tomadores de decisão das empresas. In: VIII Congreso Internacional de Costos. Punta Del Leste, Uruguay, C_ABM.pdf. 5 dez MAXIMIANO, Antônio César Amaru. Introdução à administração. 6ª ed., rev. e ampliada. São Paulo, SP: Editora Atlas, MINTZBERG, H. Criando Organizações eficazes: estruturas em cinco configurações. São Paulo, SP: Editora Atlas, 1995, 304 p. MORGAN, Gareth. Imagens da organização. Tradução: Cecília Whitaker Bergamini e Roberto Coda. São Paulo, SP: Editora Atlas, OLIVEIRA, D. de P. R. de. Sistemas organização e métodos uma abordagem gerencial. São Paulo, SP: Editora Atlas, PARK, Kil Hyang (Coord.), BONIS, Daniel F. de, ABUD, Marcelo R.. Introdução ao estudo da administração. São Paulo, SP: ed. Pioneira, RATTNER, Henrique, VEIGA, José Eli. Desenvolvimento Sustentável: Histórico. Colméias, SP: Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais, Cidade Universitária (USP). Artigo. _ historico.html. 17 mai RIBEIRO, M. A. Governo e Ecodesenvolvimento. In: Ecologizar. Brasília, DF: Edições IBAMA, 1999, p SENA, Paulo Sérgio de. Modelo de Ecologia organizacional: releitura para a atualização do fundamento darwiniano. Revista Ângulo, Lorena/SP, n. 92, p , abr/mai, mai

33 SIMCSIK, Timbor. OMIS: organização, métodos, informação e sistemas. São Paulo, SP: Makron Books, V. 1, 1992, 618 p. VASCONCELLOS, E.; HEMSLEY, J. R. Estrutura das Organizações: Estruturas Tradicionais, Estruturas Para Inovação, Estrutura Matricial. São Paulo, SP: Editora Pioneira, 1986, 208 p. VIVANCOS, Adriano Gameiro, CARDOSO, Francisco Ferreira. Estruturas organizacionais e estratégias competitivas de construtoras. Artigo, %20est%20Org/ Vivancos%20e%20Cardoso%20Sibragec%2099.pdf. 33

34 GEOGRAFIA A Geografia desde sua sistematização no século XIX tem buscado a compreensão das interações Homem-Meio. Ao longo de sua evolução o profissional de Geografia tem sido questionado quanto às novas problemáticas impostas por essa relação. O saudoso mestre, Milton Santos, já ressaltava em suas obras, que vivemos no meio técnico-científico-informacional, onde as distâncias estreitam-se, o tempo relativiza-se e novos paradigmas são colocados à luz da sociedade. Dessa forma o investimento em educação contribui para a valorização do profissional. O curso de licenciatura em Geografia da FJAV, autorizado pela portaria MEC Nº , de 23 de setembro de 2004, busca o compromisso de formar professores aptos para a docência qualificada, objetivando o desenvolvimento científico, social e ético, voltados para a formação de uma sociedade mais justa e responsável. Prof. Almir Junior Coord. Do Curso de Geografia 34

35 ABORDAGENS SOBRE A FORMAÇÃO DA AGROINDÚSTRIA CANAVIEIRA NO BRASIL RESUMO Ademário Alves Santos 1 The question years recent, sugar cane subject has been associated to a general and permanent situation of crisis, allegedly due to its singular economical circumstances, thus causing emersion of restrictive measures from public sector towards sugar cane and alcohol production activities. From this fact, the main resolutions adopted by Brazilian state will be shown, conducted either by pressure within the sector itself, or by necessities created by the policies of the market. A questão da cana-de-açúcar nos últimos anos é associada a uma atividade em permanente estágio generalizado de crise sob a alegação das particularidades das circunstâncias econômicas, as quais fizeram emergir as medidas de restrição do setor público frente às atividades sucroalcooleiras. Diante disso, serão postas as principais medidas adotadas pelo Estado brasileiro, guiado ora pelas pressões do próprio setor; ora pelas necessidades oriundas das políticas de mercado. Palavras-chave: Cana-de-açúcar, produção e espaço ABSTRACT 1 Ademário Alves é Geógrafo e Mestre em Geografia humana. Professor de Geografia Humana da Faculdade José Augusto Vieira, Cultura, Homem e Sociedade, Métodos de Pesquisa e Ciências Sociais da Faculdade Sergipana desde Key-worlds: sugar-cane, production and space. INTRODUÇÃO As narrações que envolvem o espaço da agroindústria açucareira no Brasil sempre foram pautadas nas agendas das discussões políticas com objetivos de serem utilizadas como instrumentos de regulamentação do Estado: seja para subsidiar e para pagar dividas; para incentivar a produção e equilibrar o mercado; seja para arcar com os prejuízos onde a conta final era distribuída para todos pagarem. Desde os tempos coloniais, passando pelo período do Império, pela República até chegar aos dias atuais, não se pode omitir a participação efetiva do Estado Brasileiro na existência desse setor, o que nos permite afirmar que a 35

36 agroindústria canavieira desenvolveu-se estruturalmente em linhas de estreita dependência do Estado (LIMA, 1998). Constata-se que um marco importante para a sustentabilidade dessa afirmação, dá-se com a criação do IAA Instituto do Açúcar e do Álcool, em 1933, constituindo-se como órgão fundamental responsável pela participação decisiva do Estado nesse setor. Através das políticas protecionistas e paternalistas, o IAA, sob comando dos Usineiros do Nordeste, privilegiava as usinas nordestinas de baixa produtividade na disputa com as Usinas do Centro-Sul. Em muitas de suas decisões, o órgão garantia a sobrevivência do setor sucroalcooleiro como um todo com grandes vantagens econômicas (ANDRADE, 1998). Percebe-se, porém, que os instrumentos utilizados pelo IAA como cotas de produção, preços mínimos, financiamentos, cobranças de taxas e etc. contribuíram para o desenvolvimento da atividade açucareira do Sudeste e facilitaram a viabilização da transferência da hegemonia industrial sucroalcooleira para a região centro-sul, de forma especial, São Paulo (LIMA, 2000). Essa situação só foi possível por conta de duas situações distintas: o Centro-Sul dispunha de um elevado volume de capital disponível, oriundo da atividade cafeeira que, naquele momento passava por crises; segundo, o mecanismo dos preços do IAA, com o objetivo de proteger os produtores de custos mais elevados, capitalizava a agroindústria canavieira em São Paulo (MORAES, 2001). A atuação do IAA, mesmo sob o comando de Nordestinos, resultou na reprodução modernizada do capital sucroalcooleiro de São Paulo e para o Nordeste representou a perpetuação de todas as peculiaridades atrasadas da economia nordestina (OLIVEIRA, 1985). É no contexto da liderança produtiva do setor paulista, que os mecanismos do Estado para protegerem o setor nordestino fazem a diferença (ANDRADE, 1998). A diferença nos custos finais de produção de cana-de-açúcar e álcool no Nordeste era considerada maior em relação a São Paulo, porém, essa situação não parecia afetar os lucros das empresas nordestinas onde a capacidade de obter rentabilidade era equivalente aos das empresas paulistas. Tudo se passava como se o Nordeste desacreditasse nas leis de competitividade numa economia de Mercado (LIMA, 1998, P. 24). 36

37 Entretanto, o que se percebe é que a política de preços praticada pelo IAA, através dos subsídios, chamada de equalização de custos, transferia-se dinheiro público para o ramo menos eficiente dessa agroindústria, assim, garantia-se a equivalência de lucratividade entre as empresas. Os empresários do Nordeste receberam no período entre cerca de 2,2 bilhões, ou seja, 95,6% do total de recursos destinados à equalização de custos (LIMA, 1998). Em Sergipe, a formação do espaço açucareiro dá-se de forma tardia em relação aos outros estados produtores da região Nordeste. Todavia, pode-se dizer que as mesmas características do capital açucareiro são percebidas também em seus limites territoriais, quando já se verificava o declínio da produção de ouro em Minas Gerais, a cana-de-açúcar surge nas terras sergipanas como o mais novo foco de reprodução do capital (NETO, 1990). As mesmas fases que ajudaram a marcar e a construir a história açucareira em outros estados também surgem em Sergipe como a fase dos bangüês, da transição para as usinas, das usinas, dos engenhos centrais. Em tudo isso, mescla-se um pouco da formação sucroalcooleira sergipana. É importante ressaltar nessas considerações, que os processos modernizadores também foram incorporados ao longo de seu desenvolvimento pela agroindústria açucareira. Seja com as antigas moendas movidas à força humana e animal, seja na fase de instalação das usinas até os dias atuais com a introdução de técnicas avançadas, sobretudo, no campo da indústria, onde já se produz em Sergipe um açúcar de qualidade. Além dos modernos e avançados mecanismos de fertilização e irrigação do solo ainda que de forma modesta. O espaço açucareiro sergipano, também no decorrer de seu desenvolvimento, produz e reproduz as mesmas características levadas pela introdução do capital, pois onde se produz riqueza também se produz pobreza. Os exemplos podem ser vistos nos baixos salários, na concentração da renda e da terra dentre outros (BORGES, 1998). A CANA-DE-AÇÚCAR E A PROBLEMÁTICA AMBIENTAL Os problemas ambientais relacionados com a cultura da canade-açúcar no Brasil remontam desde os tempos coloniais, afinal para ocupar vastas áreas do litoral foram necessários utilizar-se de 37

38 grandes desmatamentos, sobretudo, no tocante à mata Atlântica praticamente devastada para dá lugar a grandes canaviais. Outros tipos de vegetação também foram destruídos como manguezais (ASSIS, 1979). Para ASSIS: O inicio do desmatamento deu-se a partir da faixa costeira portadora de grandes extensões de florestas tropicais, hoje vulgarmente conhecidas como zonas da mata. Começou com a derrubada das florestas de forma generalizada para dar inicio a introdução das construções das fábricas destinadas á produção do açúcar, os Engenhos Bangüês e suas respectivas áreas de cultivo. Uma vez que a matéria-prima, a cana-de-açúcar, necessitaria, para seu pleno desenvolvimento e expansionismo, de áreas totalmente livres de outras espécies de plantas. Absoluta que é no seu espaço não há lugar para competição (In: Capítulos de Geografia Nordestina, 1998; p. 330). A crescente expansão dos canaviais tanto para áreas mais próximas do litoral quanto a aquelas mais afastadas foi um dos fatores mais importantes que fez impulsionar de um lado o desenvolvimento da agroindústria canavieira e do outro a completa destruição de vastas áreas de mata nativa. Segundo CASTRO: Mais destrutiva que esta ação sobre o solo é a sua ação indireta, através do sistema de exploração, monocultura latifundiária (1979, P. 117). As atividades ligadas ao cultivo da cana-de-açúcar estão ligadas entre aquelas que mais causam impacto em relação ao meio ambiente (SACS, 1996). A queima dos canaviais, aliada ao desmatamento bem como a destruição da vegetação natural e a renovação de pastagens colocam o Brasil como um dos grandes causadores da degradação ambiental (FORTI, 1999). O desenvolvimento da agroindústria canavieira contribui muito com a aceleração do processo de degradação ambiental, e suas conseqüências para o ambiente rural e urbano estão também presentes na destruição das nascentes, causada, sobretudo, pelo desmatamento da vegetação nativa, intenso desde o período colonial. (ANDRADE, 1994; GONÇALVES, 2001). O lançamento de substâncias como o vinhoto (encontrado na atividade industrial) o uso excessivo de fertilizantes químicos, tudo isso ajuda a formar um cenário devastador ao meio ambiente. O surgimento de mudas mais resistentes às pragas não impede a utilização das substancias referidas. Assim, ainda que se 38

39 perceba constantes investimentos nos laboratórios para a obtenção de novas variedades, nota-se por outro lado, que os vírus relacionados ao aparecimento de novas doenças apresentam-se cada vez mais resistentes (FINOTTI 1980). Nos canaviais do Sudeste, os dados sobre o lançamento na atmosfera do dióxido de carbono (CO2), e monóxido de carbono (CO), oriundos da queima da cana, entre outros, indicam a formação em elevados níveis da fuligem ou carvãozinho como é chamado em outras regiões como resultante da queima incompleta da palha da cana ainda que não traga grandes estragos no tocante a quantidade de dejetos poluentes lançados na atmosfera (GOLDEMBERG, 1999). Quanto à fuligem, esta incomoda bastante a vida da população nas áreas de grandes queimadas dos canaviais (SACHS, 1993). O número de reclamações que está diretamente vinculada à queima da palha da cana, é significativo, sobretudo quando se considera que estas reclamações geralmente apontam o surgimento de asfixia nas crianças e dificuldades de respiração para os adultos, segundo consta nos autos dos processos na região de Piracicaba- SP, mesmo assim, ainda que existam indícios de que as emissões de gases na atmosfera são oriundas da combustão da biomassa e que estas provoquem o aumento das doenças respiratórias, nas áreas canavieiras não se pode comprovar cientificamente nada. Afirma (GODEMBERG, 1999). A queima da cana-de-açúcar no conjunto das questões ambientais é somente uma parte do processo de fabricação de seus derivados. Quando o sistema canavieiro é observado como um todo, sua participação na emissão de gás carbônico como elemento responsável é bastante irrisório (GONÇALVES, 2001). É relevante notar que não se percebe uma mobilização das comunidades atingidas diretamente pelo problema, isto se constata ou por não estarem devidamente preparadas para fazer valer seus direitos perante s órgãos públicos, ou o setor, economicamente poderoso anula todas as possibilidades reação por parte daqueles que almejam inibir suas decisões. A queima dos canaviais é considerada um instrumento necessário para a obtenção da limpeza e eliminação das folhas e palhas, possibilita também a eliminação de materiais estranhos, reduzindo a densidade do canavial, facilitando o trabalhador no corte manual e mecanizado da cana. Como desafoga os canaviais, 39

40 possibilita também ao cortador maior dinamismo no corte da cana (VIAN, 1997; VEIGA FILHO, 1998). FORTI argumenta que: A queima previa dos canaviais, uma antiga prática, sempre fora excelente instrumento de limpeza para a eliminação das folhas e palhas indesejáveis, assim como matérias estranhas, diminuindo a densidade do canavial. Gera diminuição do esforço físico dos trabalhadores braçais, aumento do desempenho operacional desses trabalhadores, com implicações diretas na diminuição dos custos das toneladas cortadas (1999; p. 33). A questão que envolve a prática da queima dos canaviais no Brasil não é uma tarefa simples de se resolver, isto porque, como esta atividade apresenta esta característica desde que foi plantada no Brasil, está no comportamento do produtor de cana-de-açúcar que queimar grandes faixas de terras cobertas de canaviais é coisa normal. Entretanto, o que se percebe, netas últimas décadas, é que o setor aos poucos já está se adéqua a nova realidade. Essa tendência é impulsionada por dois fatores: o primeiro com as tecnologias disponíveis, não compensa mais os usineiros perderem tempo com as queimas, pois uma máquina realiza de forma bem mais acelerada o corte da cana sem precisá-la queimar e isto reduz custos e tempo. Segundo, a questão ambiental tem feito com que a sociedade acompanhe mais de perto o que se passa no universo açucareiro, quando exige do setor maiores responsabilidades não apenas sociais, mas também econômicas e ambientais. CONSIDERAÇÕES FINAIS É consenso entre aqueles que fazem a agroindústria canavieira no Brasil de que algumas mudanças são fundamentais. Estas mudanças ensejam um conjunto de medidas que vão desde as práticas tradicionais de cultivo de cana, colheita, transformação em açúcar e álcool e recentemente energia à renovação completa do pensamento açucareiro no Brasil, isto inclui mudanças profundas na forma pela qual o setor se relaciona com as políticas estatais, com as questões de ordem ambientais e principalmente com a problemática das relações de trabalho que, em alguns casos, ainda são semelhantes àquelas praticadas no século XVI. A eliminação das queimadas nos canaviais traria grandes benefícios como a utilização da palha para a produção de energia, reduzindo a construção de grandes hidrelétricas, responsáveis pela destruição de grandes áreas. 40

41 Outro argumento colocado é que a proibição das queimadas poderia levar o setor canavieiro a uma paralisação de suas atividades, dispensando milhares de trabalhadores e criando um enorme desemprego. Esses fatos demonstram que a questão relacionada à queima dos canaviais não pode ser vista pelos aspectos somente ambientais e energéticos, mas também em escalas macro-sociais, pois está diretamente relacionado a problemas econômicos e práticas de planejamento e políticas regionais. Uma das acusações feita a pratica das queimadas freqüentes é em relação a destruição dos microorganismos presentes no solo. As queimadas possibilitam essa destruição tornando o solo cada vez mais empobrecido. A matéria orgânica, importante para o desenvolvimento do solo, e de outros vegetais, é total ou parcialmente destruída durante o período de queima, obrigando o uso de adubos. Outro prejuízo que se observa é a redução da umidade do solo até uma profundidade de 10 cm, quando os microrganismos e outras espécies são eliminados pelo calor e pela perda de água. Outra constatação feita através das queimadas dos canaviais é a devastação da fauna local visto que durante o período de crescimento da cana, uma quantidade expressiva de insetos, aves, répteis, que têm nesses locais seu habitat até de procriação, desaparece com o fogo, pondo em extinção algumas espécies locais desses animais. É importante observar que se de um lado há os que defendem a queima dos canaviais, há também aqueles que se posicionam contrários. Aqueles estão amparados pela convenção coletiva de trabalho do setor canavieiro, assinada a 08 de maio de 1996, a cláusula nº 14, que menciona a queima da cana antes do corte como elemento facilitador da vida dos cortadores. Não é uma tarefa fácil mudar os costumes de um setor que há séculos lida com a questão das queimadas. Não é apenas para os empresários que isto é difícil. Os trabalhadores sentem o peso das mudanças e mais: temem perder os empregos com a completa instalação e implantação de novas tecnologias no meio canavieiro. Para muitos destes trabalhadores, 74%, segundo dados da ÚNICA, (2007) a maior parte dos trabalhadores despedidos das atividades canavieiras tem enormes dificuldades em conseguir um novo 41

42 emprego. As causas são múltiplas, mas a baixa escolaridade á a principal delas. Portanto, outras questões colocadas com a proibição da queima da cana são os reflexos causados em todo o sistema produtivo, pois haveria a necessidade de modificações em equipamentos agrícolas, técnicas de gerenciamento, práticas agronômicas, transportes, comunicação e recepção de matériaprima. Em resumo, todo o sistema já consolidado teria de ser mudado. ASSIS, José Santino de. A Cana-de-açúcar em Alagoas e Pernambuco: A Expansão Territorial e Suas Relações com o Meio Ambiente. Natal: Projeto Radam/Brasil, BORGES. Uta. Proálcool Economia Política Avaliação Sócio- Econômica do Programa Brasileiro de Biocombustíveis ed. UFS, BORGES, J. M. A cana-de-açúcar. Viçosa-MG, Universidade de Minas Gerais, CASTRO, A. B. de, As Mãos e os Pés do Senhor do Engenho: Dinâmica do Escravismo Colonial, BIBLIOGRAFIA ANDRADE, Manuel Correa. Modernização e pobreza: A expansão da agroindústria canaviais e seu impacto ecológico e social. São Paulo: UNESP Área do sistema Canavieiros no Nordeste. Recife SUDENE, Estudos Regionais, nº18 Recife ANDRADE NETO, Joaquim. O Estado e a Agroindústria canavieira do Nordeste Oriental, São Paulo, FORTI. W. F. O Papel da Cana-de-açúcar na Produção do Espaço Agrário no Município de Piracicaba São Paulo, FERLINI, V. L. A. A Subordinação dos Lavradores de Cana aos Senhores de Engenho. São Paulo, Revista de história - Terra e Poder, FINOTTI, P. O sofrimento do solo. Folha de São Paulo, 13 de Abril, 1991, São Paulo, editora Hucitec,, Nordeste da influencia da Cana-de-açúcar na Vida e na Passagem do Nordeste, 2 Ed. Rio de Janeiro,

43 GOLDEMBERG, José. Estudo de Redução de Emissão de CO2. São Paulo, ÚNICA, 1999 SACS, R. C. Eliminação das Queimadas e Valorização da Biomassa da Cana-de-açúcar.Campinas Unicamp/ CETESB, GONÇALVES, D. B. A Regulamentação das Queimadas e as Mudanças nos Canaviais Paulistas. Campinas. Universidade Estadual de Campinas VIAN, C. E. F. Expansão e Diversificação do Complexo Sucroalcooleiro no Centro-Sul do Brasil São Carlos - São Paulo, LIMA, Arakem.Alves. A Crise que Vem do Verde da Cana, Maceió, edufal editora, LIMA, João Policarpo. Revistando Setor Sucroalcooleiro do Nordeste: o Novo contexto e Reestruturação Possível, VFPE, Inércia e Mudança Institucional: Estratégias Competitivas do Complexo Agroindústria Canavieira no Centro-Sul São Carlo, São Paulo, VIZIOLI, J. O Álcool Industrial e a Defesa da Indústria Açucareira. Boletim da Agricultura, São Paulo, MORAES, Márcia. Azanha. Ferreira. Agroindústria Canavieira no Brasil. São Paulo, Ed. Atlas, OLIVEIRA, Francisco. Eligia para uma Re (li) gião: Sudene, Nordeste, Planejamento e Luta de Classes. Rio de Janeiro, editora paz e Terra, VEIGA FILHO, A. de A Mecanização da Colheita da Cana-deaçúcar no Estado de São Paulo: uma Fronteira de Modernização Tecnológica da Lavoura. Campinas, Universidade Estadual de Campinas, FINOTTI, P. O sofrimento do solo. Folha de São Paulo, 13 de Abril, 1991, São Paulo, editora Hucitec,, SACHS I. Estratégias de transição para o século XXI: Desenvolvimento e meio ambiente. São Paulo. Studio Nobel. Fundap FORTI. W. F. O Papel da Cana-de-açúcar na Produção do Espaço Agrário no Município de Piracicaba São Paulo,

44 FORTI. W. F. O Papel da Cana-de-Açúcar na Produção do Espaço Agrário no Município de Piracicaba São Paulo, FERLINI, V. L. A. A Subordinação dos Lavradores de Cana aos Senhores de Engenho. São Paulo, Revista de história - Terra e Poder,

45 EDUCAÇÃO AMBIENTAL: discurso e prática na sociedade do consumo Narciso Lima de Oliveira Professor do Curso de Geografia da Faculdade José Augusto Vieira - FJAV. Mestrando em Geografia Pela Universidade Federal de Sergipe - UFS. Fábio de Jesus Barreto Mestrando em Geografia Pela Universidade Federal de Sergipe - UFS. 1 INTRODUÇÃO É inquestionável que se vive hoje um momento de euforia no mundo todo em torno das questões ambientais. A política publicitária constantemente incentivando o consumo e, conseqüentemente, a utilização desenfreada de recursos naturais e o descartamento de embalagens ou derivados não reutilizados ou subaproveitados tem levantado diversos debates acalorados acerca dos problemas ambientais. Em todo mundo multiplicam-se estudos que tem como objetivos analisar questões relacionadas à degradação do meio ambiente. Degradação e contaminação do solo, poluição e contaminação das águas superficiais e subterrâneas, desmatamentos e queimadas, excesso de lixo, bem como um destino mais adequado ou menos impactante e reciclagem de materiais, estão entre os principais temas debatidos e estudados. Atrelados a estas e outras questões de ordem pedagógica multiplicam-se também projetos de Educação Ambiental que viabilizem a aplicação e ao mesmo tempo promovam o debate a respeito dos referidos temas. Assim, observando o processo de desenvolvimento e aplicação de projetos de Educação Ambiental em todo o Brasil, e de modo particular em Sergipe, percebe-se que há uma transformação significativa nas relações entre a sociedade e a natureza, de modo que aquela toma a natureza apenas como objeto a ser dominado e explorado, acarretando, desta forma, transformações na forma de organização e apropriação do espaço, como também de seus elementos, afetando, desta maneira, o caráter relacional das sociedades com a natureza na medida em que acirra os problemas ambientais. 45

46 Assim, o presente trabalho partiu da necessidade de se avaliar os novos rumos que o sistema capitalista está impondo às relações educacionais no campo e na cidade, bem como da necessidade de estabelecer analogias e divergência quanto à percepção e a prática da Educação Ambiental nos diversos espaços de desenvolvimento de educação Ambiental, para que, a partir daí, se possam traçar projetos de Educação Ambiental que atendam às necessidades de cada comunidade e, conseqüentemente, contribua para minimizar os problemas globais. Neste sentido, o problema analisado se configura de extrema necessidade, na medida em que se avaliaram as práticas educacionais e sócio-ambientais decorrentes do desenvolvimento capitalista. Tal abordagem possibilita maior conhecimento científico acerca do tema, o que se configura como importante contribuição para o conhecimento científico educacional. Por outro lado, a referida discussão torna-se mais um instrumento embasador de projetos políticos pedagógicos para o desenvolvimento de projetos que visem a prática de Educação Ambiental. Ou seja, sua necessidade volta-se a objetivos outros que não somente o acúmulo de conhecimento científico, embora este fato seja por si só, de fundamental importância. Far-se-á necessário também como instrumento de apoio para revelar os problemas sócioambientais, e entraves das práticas da Educação Ambiental no ambiente escolar, permeado por necessidades consumistas e articulado ao modelo reprodutivista do sistema capitalista, que ora se apropria dos mais variados ambientes. A parir deste raciocínio, a pesquisa deve interessar ao poder público, para alicerçar políticas adequadas de Educação Ambiental, aos professores e gestores da educação oficial ou informal e ao público em geral que direta ou indiretamente sofrem os efeitos benéficos ou maléficos desta atuação do capital e dos projetos e políticas de Educação Ambiental. Para a realização dessa pesquisa foi necessária, inicialmente, uma vasta revisão bibliográfica relativa ao assunto abordado, que possibilitou uma melhor compreensão da análise dos dados obtidos. Baseado nas leituras realizadas e observações empíricas fez-se uma análise crítico-reflexiva dos dados obtidos aprofundando, dessa maneira, a discussão. Em síntese pode-se dizer que, o presente artigo foi desenvolvido através de observações empíricas, revisões 46

47 bibliográficas e análises metodológicas da prática pedagógica referente ao tema abordado bem como de discursos a respeito do mesmo. 2 RELAÇÃO HOMEM, MEIO AMBIENTE E SISTEMA ECONÔMICO NA PRÁTICA DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Ao longo do desenvolvimento histórico da humanidade, a relação que se estabelece entre homem e natureza tem ganho diversos significados, e esses são desdobramentos de modelos da sociedade que são estabelecidos e que dialeticamente ditam essa forma de interação que o homem realiza com essa natureza. Toda forma de mediação entre homem e natureza é, por sua vez, possibilitada através do trabalho e é dessa maneira, ou seja, através do trabalho, que essa interação se dá de forma plena. À medida que se consegue identificar os modelos como estão constituídas as formas de desdobramento do trabalho, também se consegue identificar como se dá a relação entre o homem e o meio ambiente, ou seja, entre o homem e a própria natureza. Verifica-se neste sentido também que nas últimas décadas do século XX aprofunda-se a crise, como assinala CAPRA (1982, p.19) As últimas duas décadas do nosso século vêm registrando um estado de profunda crise mundial. É uma crise complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos os aspectos de nossa vida a saúde e o modo de vida, a qualidade do meio ambiente e das relações sociais, da economia, tecnologia e política. É uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais, uma crise de escala e premência sem precedentes em toda a história da humanidade. Pela primeira vez, temos que nos defrontar com a real extinção da raça humana e de toda a vida do planeta. A crise ecológica é uma crise de nosso tempo (LEFF, 2003; 15). Nos últimos anos, assisti-se sistematicamente a intensos movimentos de tentativa de otimização do sistema produtivo, seja nos centros urbanos ou na zona rural. Comumente, houveram-se discursos que fervorosamente defendem, de diversas formas, o desenvolvimento tecnológico, científico e econômico como mecanismo de desenvolvimento humano, no sentido de que estes possibilitaram melhor qualidade de vida para todos, tanto quanto forem mais desenvolvidos. 47

48 Porém, o que se vê é uma crise que vai muito além das aparências. Leff (2003) aponta para uma crise no limite do real, o que torna necessário novos significados e rumos históricos, pois segundo o mesmo, há um limite de crescimento econômico e populacional; limite dos desequilíbrios ecológicos e das capacidades de sustentação da vida; limite da pobreza e da desigualdade social (2003;15-16) Contraditoriamente, o modelo econômico caminha na contramão destas observações. Conduz todas as formas de reprodução social na trilha do esgotamento das possibilidades de equilíbrio socioambiental. Pois, a partir da pseudo-necessidade de crescimento, todas as políticas de crescimento econômico e exploração dos recursos naturais são legitimadas. Verifica-se também que, fruto desta política de desenvolvimento econômico, acirra-se os problemas ambientais. Assim os apelos desesperados em relação à degradação têm tomado espaço nas mais variadas mesas de discussão, entretanto, quando se analisa as perspectivas atuais ligadas à própria evolução e desdobramento das relações entre sociedade e natureza, ou mesmo o modelo de desenvolvimento social e econômico abraçado pela sociedade moderna, notamos um desalinhamento entre o discurso e a prática. São perspectivas pouco esperançosas. Discute-se a questão ambiental de forma muito superficial, para que não sejam percebidos os seus verdadeiros motivos, e assim nos sintamos responsáveis pelas mazelas ambientais decorrentes do estado de desenvolvimento econômico e tecnológico pleno, que com fins de acumulação e lucro vê o meio ambiente como uma forma de negócio a ser explorado, pois, O principio básico de uma sociedade capitalista é a produção para o lucro, e dessa maneira, o circuito da produção possui um objetivo imediato que é a realização do lucro, que só se dará através do consumo da sua produção, dessa maneira todo o discurso que sustenta e fundamenta esse mecanismo de reprodução tem que estar dentro desse esquema de realização capitalista, é por isso que nos discursos convencionais de desenvolvimento capitalista quase nunca vemos um direcionamento a uma postura de combate ao consumo desenfreado, e sim um discurso normativo sobre esse consumo, ou seja, um discurso que funcionalize o consumo desenfreado, ou que ideologicamente transmita uma falsa preocupação social que desvia o olhar da sociedade do verdadeiro foco de destruição ambiental. (BARRETO e OLIVEIRA, 2007, p. 3). 48

49 E, é nesse sentido que se passa a reproduzir o discurso da Educação Ambiental, sempre como resultado de uma falta de educação ambiental, que se estabelece a partir dos indivíduos e para os indivíduos. Diante da formação dessa consciência ou percepção passa-se a reproduzir o discurso da Educação Ambiental como se para isso não se fizesse necessário discutir o próprio modelo socioeconômico de produção totalizante das relações sociais de produção. Neste sentido, aprender a aprender a complexidade ambiental implica uma revolução do pensamento, uma mudança de mentalidade, uma transformação do conhecimento e das práticas educativas para construir um novo saber e uma nova racionalidade que oriente a construção de um mundo de sustentabilidade, de equidade, de democracia. É um reconhecimento do mundo que habitamos (LEFF, 2003; 22) Do contrário, diante dessa falsa percepção criada, reprodui-se o tempo todo discursos românticos que tentam desmistificar o termo Educação Ambiental e neles a reprodução e responsabilização individual da degradação ambiental. É como se encontra nos mais diversos autores que versam sobre a educação ambiental. Educação ambiental é o processo que consiste em propiciar às pessoas uma compreensão do meio ambiente, para elucidar valores e desenvolver atitudes que lhe permitam adotar uma posição crítica e participativa a respeito das questões relacionadas com a conservação e adequada utilização dos recursos naturais, para melhoria da qualidade de vida e eliminação da pobreza extrema e do consumismo desenfreado (MEDINA, 1996). É dessa maneira que se encontra a maioria das discussões relacionadas ao tema Educação Ambiental, de forma a nunca abandonar a crítica pela crítica e ficar sempre na discussão superficial da degradação do meio ambiente, e nesse sentido é possível e necessário que sejam feitas algumas reflexões. Como é possível frear o consumismo quando a própria condição de manutenção do sistema é o lucro? Já que o lucro advém do próprio consumo. Como eliminar a pobreza quando ela é a própria condição da riqueza? E ainda nesse sentido, como utilizar os recursos naturais de forma adequada quando a própria adequação depende da necessidade de transformar esses recursos em mercadoria? Por outro lado, vive-se hoje um momento especial dentro da história da educação. Apesar das adversidades que permeiam a prática pedagógica, de caráter estrutural e conjuntural, é quase que unânime entre os educadores e profissionais de diversas áreas, 49

50 preocupados com o desenvolvimento socioeconômico da sociedade, diante da organização produtiva da mesma, que se baseia na maximização do lucro e na exploração do homem sobre o homem, apontar a Educação como instrumento de inserção e promoção do homem no mundo ecologicamente equilibrado. Neste sentido, e em consonância com os Parâmetros Curriculares Nacionais PCNs (1998), a Educação Ambiental (EA), como política do desenvolvimento sustentável, estágio que permeia a prática escolar como proposta interdisciplinar, deve aproveitar o momento especial para criar e reformular novas atividades de inclusão da comunidade escolar e extra-escolar que direta ou indiretamente também participam deste universo. E como tal deve fazer e participar ativamente das atividades de Educação Ambiental. Pois, de acordo com GARCIA, um projeto de Educação Ambiental,... só é possível quando resulta de um projeto políticopedagógico orgânico, construído coletivamente na interação escola comunidade, e articulado com os movimentos populares organizados comprometidos com a preservação da vida em seu sentido mais profundo (1993; 58). Portanto, pode-se perceber a importância do envolvimento da comunidade na construção e desenvolvimento da Educação Ambiental, a partir de um projeto político-pedagógico. Desta forma, é extremamente importante que projetos capazes de promover a inserção social dos alunos e da comunidade se façam presentes, pois, não se trata de criar atividades para contemplar o quadro de exigências pedagógicas, mas de necessidades urgentes para que se possa ter um ambiente mais equilibrado. Apesar de ser uma utopia, segundo o ponto de vista político-econômico convencional, a prática do desenvolvimento sustentável consiste numa profunda reorganização no modo de perceber, pensar e agir do homem, no que se refere ao seu mundo. Vale ressaltar que o desenvolvimento sustentável não ocorrerá de maneira espontânea, por representar uma ameaça a ordem mundial estabelecida, pois os modelos sócio-econômicos em vigor insistem em perpetuar as relações opressor-oprimido, dentro de uma visão ambiental imediatista e utilitarista. (SOUZA e CHAGAS, 1999; p. 45). Assim, mesmo que saiba que boa parte dos educadores defende a educação como elo de equalização socioambiental, não se pode cair na ilusão da educação como tábula de salvação, pois o mundo escolar não é exterior ao mundo real, que como tal está 50

51 atrelado a um sistema econômico que tem suas regras e modos de funcionamento. Desta forma, torna-se ilusório qualquer tipo de prática de Educação Ambiental que deixe de lado as análises do sistema econômico, pois, não é simplesmente um problema de aprendizagem do meio, mas de compreensão do conhecimento sobre o mundo (LEFF, 2003; 55). Não se pode esquecer que tão importante quanto o projeto de Educação Ambiental, desenvolvido com toda comunidade, é lembrar que tal Educação vive o dilema de não se concretizar caso não se tome uma dimensão mais crítica da configuração do modelo econômico, já que o mesmo presa pelo lucro e pela reprodução desenfreada do capital e, neste sentido, não permite maiores desdobramentos de políticas educacionais que venham a criar empecilho para o seu ciclo de reprodução. Entretanto, é de fundamental importância que a Educação Ambiental permeie o universo escolar com suas práticas interdisciplinares, de certa forma solitária dentro desta totalidade que envolve o Meio Ambiente, fazendo com que o aluno desperte seu olhar e raciocínio crítico em relação aos problemas ambientais, sobretudo percebendo o caráter degradador e contraditório do sistema capitalista. 3 REFLEXÕES CRÍTICAS SOBRE O PROCESSO DE EDUÇÃO AMBIENTAL Mais uma vez, torna-se extremamente salutar que, vive-se hoje um momento impar dentro da história da educação, sobretudo quando esta se encarrega de fornecer o suporte necessário ao pleno estabelecimento e manutenção da atual sociedade de consumo. Isso se dá vinculado, principalmente, ao discurso e a prática da Educação Ambiental e do Desenvolvimento Sustentável. As transformações cíclicas do sistema capitalista que visam à superação de suas crises conjunturais, o uso e a exploração indiscriminada dos recursos naturais que estão a serviço da reprodução ampliada do capital, nos mostram de que maneira a educação é utilizada para promover o desenvolvimento capitalista, ou participar ativamente na funcionalização de toda a degradação ambiental e esgotamento dos recursos naturais. 51

52 A partir dessa premissa tem-se o objetivo de analisar a percepção e a prática da Educação Ambiental no universo escolar decorrentes das práticas educacionais veiculadas e promovidas pelo sistema econômico vigente, além de discutir a forma como o discurso do desenvolvimento sustentável tem sido utilizado, bem como as contradições de sua prática no seio de uma sociedade capitalista, onde todas as formas de produção visam à reprodução ampliada de um sistema produtor de mercadorias que tem como principal objetivo a realização do lucro, sendo a produção, consumo e desperdício as principais características dessa sociedade de consumo. O capitalismo contemporâneo operou, portanto, o aprofundamento da separação entre, de um lado, a produção voltada genuinamente para o atendimento das necessidades e, de outro, as necessidades de sua auto-reprodução. E, quanto mais aumenta a competitividade e a concorrência intercapitais, mas nefastas são suas conseqüências, das quais duas são particularmente graves: a destruição e/ou a degradação crescente do meio ambiente, na relação metabólica entre homem, tecnologia e natureza, conduzida pela lógica societal subordinada aos parâmetros do capital e do sistema produtor de mercadorias (Mészáros, 2002, p. 18). 3.1 Discurso e Prática: (im)possibilidade da Educação Ambiental na sociedade de consumo É inquestionável que a atual sociedade capitalista deleita-se sobre o oceano do pseudo-progresso científico, que por sua vez é totalmente aproveitado no emprego da técnica das linhas produtivas, o que fatalmente acaba mergulhando essa sociedade em mares de concentração, consumo e desperdícios e que, paradoxalmente, acaba gerando os mais diversos tipos de problemas de natureza social e ambiental. É diante dessa perspectiva que se torna quase impraticável qualquer tipo de possibilidade de desenvolvimento que atenda padrões de significativa sustentabilidade ambiental. E a proposição desse discurso na grande maioria das vezes serve antes de tudo para atender ao mascaramento necessário ao controle aceitável da totalizante destruição ambiental causada inevitavelmente pelo desenvolvimento capitalista. Crescimento desordenado, desemprego, violência, crises em variados seguimentos sociais permeiam as discussões nos mais diferentes espaços de debate e veículos de comunicação. Porém, 52

53 mais do que nunca, vê-se o tema Educação Ambiental ganhar notoriedade, sobretudo a partir da necessidade da funcionalização da degradação ambiental desenfreada e indiscriminada dos recursos naturais, causada, sobretudo pela necessidade de acumulação crescente e reprodução ampliada do capital. Alguns autores mais entusiasmados com o romantismo do sistema produtor de mercadorias chegam a afirmar que: sem dúvida somente a prática de um desenvolvimento econômico que concilie as prioridades ambientais em seus objetivos pode alterar este quadro de insustentabilidade a longo prazo, proporcionando uma harmonia entre as atividades e o meio ambiente (FRANCISCO, 1996, p 149). Naturalmente a formula apresentada pelo autor serviria de fato como a salvação para todos os problemas de ordem socioambiental, porém, ele deixou de levar em consideração que estamos diante da necessidade de acumulação crescente do modo de produção capitalista, que para a sua sobrevivência tem que praticar de forma indiscriminada a sua reprodução, ou seja, a reprodução ampliada do capital, e nesse sentido qualquer possibilidade de conciliação entre produção e meio ambiente somente continuaria existindo na medida em que não se opusesse a essa reprodução tornando-se assim impraticável. Quando Marx escreve o capital ele coloca inicialmente que: A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção.(marx, 2004, p 57). Através desse texto é possível perceber que a mercadoria serve antes de qualquer coisa para satisfazer necessidades humanas, entretanto, sob a lógica do capital essa mercadoria passa a satisfazer a necessidade de acumulação do capital. Diante disso, a sua produção passa a ser uma necessidade constante, não interessando se essa mercadoria será consumida ou não, ou mesmo se essa produção destruirá o meio ambiente ou não. E essa duplicidade ou transferência de valor que o capital confere à mercadoria de valor de uso a valor de troca, modifica completamente a sua posição na relação entre homem e natureza, passando assim, a interessar somente o consumo produtivo. 53

54 O discurso do desenvolvimento sustentável torna-se, na atualidade, um dos mais proferidos, porém, qualquer leitor mais atento reconhece de imediato a suas contradições práticas diante de uma sociedade de consumo, onde a principal prática é o consumo com um conseqüente desperdício. Nesse sentido, a prática de um desenvolvimento sustentável, o qual insere no seu bojo a Educação Ambiental, conseqüentemente, teria de perpassar por uma nova maneira de se pensar a sociedade, um modelo de sociedade onde o objetivo principal não fosse a produção desenfreada que eclodisse no lucro, mas sim uma sociedade que produzisse para a satisfação das suas necessidades. Coleta seletiva, plantação de mudas de árvores, filtros purificadores automotivos, essas são geralmente as saídas básicas para se escapar da degradação ambiental. De fato não se pretende negar a importância de tais atividades, principalmente no seio da educação fundamental, entretanto, se olhar bem estas também são formas de potencializar o consumo. No entanto, quando se resolve nas conferências internacionais limitar a emissão de gases poluentes na atmosfera, produzidos pela produção industrial, esses argumentos são imediatamente refutados, pois isso se coloca contra os interesses das grandes empresas internacionais. Tudo que se opuser a acumulação estará se opondo ao funcionamento do sistema, que necessita de um grau cada vez maior de consumo, para alimentar a necessidade de acumulação crescente. Mas talvez a mais séria das atuais tendências de dominação econômica e cultural seja a forma voraz e terrivelmente perdulária com que os Estados Unidos tomam para si os recursos de energia e de matérias-primas do mundo: 25% deles para não mais que 4% da população do mundo, com dano imenso e crescente para as condições ambientais de sobrevivência humana. Pois, nesse mesmo espírito, os Estados Unidos continuam o processo de sabotagem ativa de todos os esforços internacionais que visam introduzir alguma forma de controle para limitar e, talvez no ano de 2012, reduzir em certo grau a atual tendência catastrófica de dano ambiental, que já não pode mais ser negado nem mesmo pelos mais empedernidos apologistas do sistema. (MÉSZÀROS, 2003, p53). A abordagem que se tem hoje de desenvolvimento sustentável bem como de educação ambiental, é totalmente apropriada e utilizada para que a sociedade acompanhe e encontre maneiras economicistas de lidarem com esse discurso, servindo assim de 54

55 potencializador na reprodução ampliada do capital. Essas medidas além de criarem as formas de controle social que possibilitam a solidificação desse discurso, reproduzem ainda de maneira perversa uma forma de controle ideológico eficiente, viabilizado graças aos meios educacionais. 3.2 A Prática Pedagógica X Funcionalização da Degradação Ambiental O objetivo central da educação na sociedade capitalista é fornecer os conhecimentos necessários à inserção do indivíduo no mercado de trabalho, além de preparar a sociedade para a aceitação e naturalização de todas as disfunções geradas contraditoriamente pelo sistema. Nesse sentido, utilizada dessa forma, a educação passa de instrumento emancipador do indivíduo a um aparelho ideológico de Estado. Ou seja, é apenas uma peça no funcionamento da engrenagem geradora de lucro. Fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário à maquinaria produtiva em expansão do sistema capitalista, mas também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes. (MÉSZÀROS, 2005, p15). Desta forma, a escola constitui-se como espaço aberto para efetivação do processo, em função de reunir em seu meio os instrumentos necessários para que tal prática se difunda com maior rapidez e confiabilidade, pois, ideologicamente, a escola é concebida como espaço de produção e transmissão de conhecimento, legitimado pelo sistema a partir do desenvolvimento de projetos que venham atender os seus próprios interesses. É nesta diretriz que, diante das atuais transformações sócioambientais provocadas pelo consumismo desenfreado e necessidades de respostas ao modismo da política de desenvolvimento da educação ambiental, o sistema educacional é permeado por projetos para atender e/ou propor medidas para a prática da educação ambiental. Porém, esta funciona apenas de maneira a normatizar a degradação ambiental, já que a preservação do meio ambiente ataca profundamente os mecanismos de reprodução desse sistema. Nas mais diversas instituições de ensino é possível observar o modismo do discurso convencional que chama a atenção para a importância do desenvolvimento sustentável tomando conta de todos os espaços como única alternativa para a continuidade viável para o 55

56 planeta. Porém, a reprodução desse pensamento, na maioria das vezes, acaba contribuindo com a consolidação e reprodução da ordem consumista, perdendo assim a noção da real idéia de como está solidificado esse discurso e qual é a sua principal finalidade. Esse discurso acaba transmitindo ao indivíduo a responsabilidade por toda a degradação ambiental, que hoje ameaça a humanidade, fazendo com que ele perca a real noção de como essa degradação ambiental está estabelecida e quais tipos de interesses a torna possível. O discurso e a prática da educação ambiental e do desenvolvimento sustentável constituem uma verdadeira anomalia quando aplicado a um modelo de sociedade onde todos os objetivos estão voltados para o lucro, que por sua vez só se realiza com o consumo. Esse consumo, por sua vez, de modo algum servira para satisfazer as necessidades humanas, mas sim a necessidade de acumulação crescente do capital, já que para a sua manutenção é necessário que se reproduza de forma ampliada, expandindo assim cada vez mais os seus horizontes produtivos. O sistema capitalista passa mais uma vez, na história da sua existência, por uma crise, dessa vez uma crise que ameaça a própria existência do modelo de sociedade. Uma das formas encontradas para controle dessa crise está na reprodução ideológica do controle da degradação ambiental, a partir do indivíduo, que agora passa a acumular os papéis de vítima e atualmente de principal autor dessa degradação ambiental, fazendo assim com que esse discurso aliado a essa prática acabe atuando de forma ideológica na funcionalização da degradação ambiental. Dessa forma, a criação da alternativa radical ao modo de reprodução metabólica do capital é uma necessidade urgente, mas não há de acontecer sem uma reavaliação crítica do passado (MÉSZÀROS, 2002, p21). É nesse sentido que defendemos, para que haja a possibilidade de um verdadeiro desenvolvimento sustentável, somente outro modelo de sociedade, uma sociedade onde o principal objetivo seja a satisfação das necessidades humanas, uma sociedade onde o principal objetivo seja a emancipação humana. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS De certo o momento vivido hoje não tem precedentes na história da humanidade dentro do contexto da sociedade do 56

57 consumo, conduzida pelas regras do sistema capitalista, o qual dita as normas de produção e organização social, bem como modela a história socioambiental. Período este que alguns chamam de sociedade pós-moderna, esquecendo que se trata de mais uma fase do sistema capitalista, em que tudo se dá, entre outras características, pela sua importância prática dentro desta sociedade de consumo. Nesse sentido, pode-se cair na superficialidade das análises, visto que na maioria das vezes as investigações radicais são taxadas de puras teorias. Claro que não se pretende aqui negar a importância da praticidade, sobretudo porque não existe teoria sem prática ou vice versa. A história da sociedade por si só já engloba a história política da Educação Ambiental. O que de fato é particularmente importante frisar aqui é o destaque dado à política ambiental, especialmente a partir deste modelo de Educação Ambiental proposto, o qual seja, é de fundamental importância, mas carece de algumas elucidações quanto ao seu caráter prático e ideológico. Uma série de perguntas vem à mente: de fato estamos propondo ou praticando uma correta Educação Ambiental, formal ou informal, que realmente venha a atender às necessidades da sociedade? Têm-se atribuindo na devida medida a responsabilidade a quem é de merecimento? A história recente das políticas de Educação Ambiental confunde-se com a própria história do desenvolvimento desenfreado do sistema capitalista, conseqüentemente da sociedade regida direta ou indiretamente por este. É, sobretudo nas últimas quatro décadas, especialmente no início e curso do século XXI, que tal preocupação ganha maior força em todo o mundo. A temática ganha espaço nos mais variados meios de comunicação e torna-se chavão de discursos políticos em todo o planeta. Fruto de tais preocupações, sem conotação pejorativa, surge também uma série de organizações não governamentais e partidos políticos, representantes legais da sociedade, na defesa de um ambiente mais saudável e ecologicamente correto. Neste contexto histórico, tem sido, a todo o momento, abordado a importância da participação da sociedade para que a política da Educação Ambiental funcione. É desta forma que a Educação Ambiental ganha voz nos centros acadêmicos de nível superior e nas escolas de educação básica. 57

58 Porém, como se pode detectar a partir de observações mais aprofundadas e pesquisa de campo, na prática da Educação Ambiental, a percepção do que seja o meio ambiente, apesar de amplamente debatido, tem sido questão de controvérsias, onde sua abordagem teórica e metodológica não ultrapassa a mera lógica da formalidade superficial. Não se tem de fato desvendado a necessidade de produção e consumo do atual sistema, o qual proporciona o consumo desenfreado dos recursos naturais. De nada servirá toda discussão a cerca dos problemas ambientais se dentro da política da Educação Ambiental não for revisto o fetiche do sistema que a todo o momento convence a sociedade de que não basta ter um produto X, ele deve ser de última geração. E, mesmo que você não seja ludibriado por esta carga publicitária, outros meios serão utilizados para que você passe a fazer parte do círculo do consumo. É a partir daí que entra o circuito da qualidade total, que nada mais é que a ausência da qualidade dos produtos para que tenham uma vida útil curta (dois, três anos, empiricamente observado), obrigando o consumidor, por necessidade ou por fazer parte da sociedade do espetáculo, a adquirir um novo produto. Assim, verifica-se que estas análises parecem estar um pouco longe da educação básica. Não que a discussão deva correr para determinados níveis de profundidade, mas que pelo menos sejam citados questões de maior profundidade. A sociedade é de fato elemento importante nesta tarefa, porém perpassa primeiro pela sua própria desfetichização, para daí partir-se para ações práticas e até quem sabe viver uma nova relação sociedade natureza, a partir de um sistema onde as reais necessidades da população estejam acima da reprodução desenfreada do capital, que não atenda apenas aos privilégios de poucos. Portanto, tão importante quanto a prática e a discussão da Educação Ambiental, deve-se penetrar na história do atual sistema econômico, percebendo seu comportamento, a partir daí verificar claramente que o discurso e a prática de tais propostas, ditas como Educação Ambiental, não passam de falácias ideológicas para mascarar as verdadeiras raízes da degradação ambiental, a qual deveria ser entendida como degradação da sociedade. De fato não se pode cruzar os braços. Entretanto, mais importante que estar de braços abertos, é abrir a mente para pensar. 58

59 Neste momento não há a mínima pretensão de esgotar o tema, mas acredita-se que tais pontuações são de fundamental importância para que se trilhem novos caminhos na relação sociedade natureza e aí, quem sabe, pautar-se em uma verdadeira Educação Ambiental. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GARCIA, Regina L. Educação Ambiental Uma Questão Malcolocada. Caderno CEDES. São Paulo, Papirus, nº 29, LEFF, Enrique. Pensar a complexidade Ambiental. In: LEFF, E. (Coord.) A Complexidade Ambiental. São Paulo: Cortez, MARX, K. O capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, BARRETO, Fábio de J.. & OLIVEIRA, Narciso L. de. A Falácia da Educação Ambiental e do Desenvolvimento sustentável. Artigo científico. Aracaju; MÉSZÀROS, I. Século XXI socialismo ou barbárie. São Paulo: Boitempo, BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: geografia / Secretaria de educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, p.. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, CAPRA, Fritjof. O ponto de Mutação, tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, FRANCISCO, C. F. Agricultura e meio ambiente. Um estudo sobre a sustentabilidade ambiental de sistemas agrícolas na região de Ribeirão Preto (SP), São Paulo, Tese de doutorado em Geografia. Departamento de Geografia do instituto de Geociências e Ciências Exatas, Universidade Estadual Paulista.. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, MEDINA, N. M. Educação Ambiental para o século XXI. ENCONTRO DOS CENTROS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL; V. III (4); jan/jun,

60 SOUZA, A. C. & CHAGAS, M. C. S. das. Educação Ambiental no Assentamento Cruiri (Pacatuba-SE): uma opção para o desenvolvimento sustentável. In: SANTOS, A. F. & FONTES, A. L. (organizadores) Geografia, Agricultura e Meio Ambiente. São Cristóvão: NPGEO/UFS,

61 UMA DISCUSSÃO SOBRE A DINÂMICA REGIONAL: Abordagens Teórico-Metodológicas sobre a Categoria RESUMO Juliana Souto Santos A Discussion on the Regional Dynamics: Theoretical and methodological approaches on the Category Este artigo apresenta uma discussão teórico-metodológica sobre a formatação do conceito de região desde as suas perspectivas históricas, isto é seu surgimento, até seus desdobramentos na sociedade atual. O texto integra a dissertação de mestrado intitulada, A Relação Campo-Cidade no Litoral Sul Sergipano - uma Abordagem Histórica e Regional, defendida por esta pesquisadora no Núcleo de Pós-Graduação em Geografia (NPGEO), da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O objetivo deste artigo é discutir as questões do espaço geográfico e regional a partir de uma base teórico-metodológica que permita a compreensão dos processos espaciais e sociais, modelos, estruturas e sistemas, econômicos, políticos e sociais, adotados nas regiões brasileiras, com vistas a verificar as formas de organização, reprodução e transformação do espaço natural em espaço geográfico, socialmente construído. ABSTRACT This article presents a theoretical and methodological discussion on the format of the concept of region from its historical perspective, this is his appearance, to its developments in society today. The text includes a Master's dissertation entitled, "A Field for City in the South Coast Sergipe - A Historical and Regional Approach," held by the researcher in the Center for Graduate Studies in Geography (NPGEO), Federal University of Sergipe (UFS). This article aims to discuss issues of regional and geographical area from a theoretical and methodological basis that allows the understanding of spatial and social processes, models, structures and systems, economic, political and social, adopted in Brazilian regions, with a view to verify the forms of organization, reproduction and transformation of natural space into geographic space, socially constructed. Keywords: Region, dynamic environment, regionalism. Palavras-Chaves: Região, Dinâmica Regional e Regionalismo. Autora: Juliana Souto Santos mestre em Geografia pelo Núcleo de Pós- Graduação em Geografia (NPGEO) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Mestre em Educação, pelo Núcleo de Pós-Graduação em Educação da UFS. E- mail: 61

62 1 INTRODUÇÃO O espaço regional define competências, limites, autonomias e poderes locais na gestão do território dos Estados. Pesquisadores demonstram que até hoje, a ciência utiliza uma noção de região próxima da sua etimologia. Isto porque, segundo Roberto Lobato Corrêa (2003: p. 54) a expressão regione era usada no mundo antigo designando áreas subordinadas às regras do Império Romano, para evidenciar a centralização do poder em um local e sua extensão em outras áreas que lhes pertencessem. Na Idade Média as demarcações regionais e as divisões administrativas fomentaram a origem espacial dos feudos. No Estado moderno europeu o problema das unidades espaciais regionais predominou como defesa contra os inimigos comerciais ou militares. Nos dias atuais, assiste-se ao ressurgimento dos conflitos regionais com a ruptura dos pactos territoriais mobilizando movimentos nacionalistas e regionalistas, de caráter até mesmo radical. José Graziano da Silva (1996: p ) ressalta que a reestruturação da economia mundial, a partir do pósguerra afetou as relações entre Estado e região, colocando esta última categoria em um novo patamar, pois com a globalização, a fragmentação política acompanhou os interesses localizados, pondo em risco a economia nacional. Embora em um contexto de transição, algumas tendências definem a postura da Geografia na atualidade reconhecendo a importância dos elementos da revolução científico-tecnológica que transformou a base produtiva da economia, com as mudanças na organização da produção e do trabalho impondo novos padrões de relações sociais. Marcelo Lopes de Souza (2003: p. 103) pontua que os estilos de vida, a ética, a cultura, a dinâmica político-social, a organização do espaço global, dos territórios e das regiões nacionais, estão sendo aos poucos redefinidos. Adverte ainda que, não basta identificar o aumento das disparidades sociais no Brasil e no mundo, mas implantar programas de redistribuição de renda satisfatórios com a necessidade dos grupos sociais em cada região. 2 DISCUSSÃO SOBRE A DINÂMICA REGIONAL Para compreender o conceito de região é imprescindível retomar as raízes desta análise segundo Vital de La Blache (1903), por que ele a concebia como algo vivo, munida de uma 62

63 individualidade e/ou uma personalidade geográfica própria. Sua obra tem grande relevância neste debate, pois pioneiramente o autor se utilizou da geologia e do método empírico-descritivo para criar a idéia de região natural. Segundo Corrêa (2003, p. 62), a contribuição de L. Gallois (1908), ao estudar as divisões da superfície terrestre enquanto conteúdo geográfico também é fundamental para compreensão construção desta categoria. O autor pontua que, as cidades são as grandes iniciadoras das unidades regionais, porque solidificaram a solidariedade das áreas. Reconstituindo o conceito, Rogério Haesbaert (1999) destaca a contribuição de Carl Sauer, haja vista que para esse autor a região representa uma morfologia da paisagem formada individualmente, podendo ser analisada por meio de estudos comparados. Neste contexto, dicotomizá-la é fundamental, uma vez que muitos fenômenos são produzidos simultaneamente como singulares/particulares e universais/gerais. Já Richard Hartshorne (1999), encarava a região como um constructo intelectual cuja delimitação varia de acordo com os objetivos do pesquisador. As estruturas territoriais da economia capitalista avançaram, ampliando a discussão sobre a dinâmica regional. Nota-se que em um sistema internacionalizado, a lógica do investimento privilegia os territórios econômicos garantindo vantagens competitivas às grandes empresas. Já a noção de região a partir da materialidade implica na interrelação do homem (cultura) com o ambiente (natureza), estabelecendo diferentes gêneros de organização. Lucin Fébvre (1922) citado por Haesbaert (1999) adverte que a diversidade espacial modela os gêneros de vida, mas é a sociedade, por meio da educação, quem seleciona os paradigmas para organização dos espaços. De acordo com Corrêa (2003, p. 56), as civilizações deveriam ser questionadas sobre a compreensão das regiões, porque são elas que ao desenvolver atividades produtivas nos territórios criam inter-relacionamentos entre indivíduos e setores. Para Marcelo Lopes de Souza (2003, p.79) o conceito de território elaborado a partir da matriz empírico-descritiva evoca o âmbito nacional destacando o Estado na defesa do território pátrio, não excluindo uma reflexão sobre esse, enquanto, recurso natural, posição geográfica frente a blocos econômicos. Uma sociedade autônoma é aquela que defende seu território como identidade cultural e ao mesmo tempo continente de recursos. 63

64 Segundo Abramovay (2003) o território, mais que simples base física para as relações entre indivíduos e empresas possui um tecido social que é edificado constantemente, por meio de suas organizações complexas, realizadas por laços que extrapolam os ambientes naturais, assim como as redes planejadas e construídas, como os trilhos para os transportes e os meios de comunicação. Um território representa uma trama de vínculos com raízes históricas, configurações políticas e identidades que desempenham um papel ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico (Idem, p. 45) Nesse sentido também Rogério Haesbaert (1999) ressalta que, a região é uma construção intelectual, mas é edificada pela atividade humana, em suas constantes produções da diversidade territorial, sendo a questão fundamental a percepção dos agentes e dos processos priorizados para entender as razões da diferenciação espacial. Uma alternativa para tratar a questão regional pode ser definida no quadro da integração territorial, enquanto síntese do processo de divisão técnica e social do trabalho, da concentração produtiva e da centralização financeira pressupondo a existência de relações de poder, definida por meio da política e da economia. No capitalismo, toda região possui um centro que a estrutura, sendo os níveis de integração territorial a consolidação de sua rede urbana, revelando produtividade financeira na reorganização e desempenho das redes urbanas e rurais, principalmente, nas economias avançadas. Nesse contexto, surgiram dois tipos de regiões. As homogêneas onde os intervalos espaciais são uniformizados. E as funcionais (polarizadas), onde a estruturação do espaço é vista a partir das múltiplas relações formadas em espaços diferentes. Essa valorização do papel da cidade como centro de organização espacial, constituída por focos populacionais, gestoras do seu e do território da sua influência, levou Pierre George ao comentário, na geografia clássica, a região fazia a cidade, na moderna, a cidade faz a região. (George, Apud: Corrêa, 2003: p. 64). A organização do território como forma de ampliar a capacidade extrativa do Estado foi um dos princípios mercantilistas que despertou interesses locais. Nessa perspectiva, a questão regional destacou-se pela ampliação da capacidade financeira, sendo que o planejamento do gasto público promoveu a economia nacional idealizando correção nas desigualdades sociais e territoriais (Idem, 2003, p.209). O planejamento regional adquire relevância no pósguerra sendo suas metas, a reconstrução e o desenvolvimento social e territorial. Nesse sentido, surgiu a noção de zonas - ativas e 64

65 passivas elaboradas por François Perroux (1955), sendo que as primeiras geraram um efeito de dominação e as segundas resultavam da dinâmica da desigualdade. Nas décadas de 80 e 90 do século XX ocorreram grandes transformações mundiais nas dinâmicas regionais. Jair Amaral (1996) cita cinco fontes estruturais dessas mudanças: a crise no planejamento e as intervenções regionais centralizadoras; a reestruturação do mercado; a megametropolização ; seguida pela emergência dos problemas urbanos, a globalização e a abertura da economia, e o incremento tecnológico da informação e da comunicação. Diante desse panorama, os impactos dos fenômenos sobre o padrão como a quebra da dinâmica regional e as modificações enquanto movimento do capitalismo que passou a premiar micros e médias empresas, sobre tudo, as flexíveis e inovadoras, nos territórios, conectado por redes de comunicação, formando a nova economia regional. Os principais ícones dessa nova economia estão situados em diversas localidades, como no Vale do Silício na Califórnia, na rota 128 em Massachusetts, Boston, na Terceira Itália com os Distritos Industriais (DI), chamado também de Tecnopólos na Europa e ainda o Japão, que também adotou esse modelo. Segundo Amaral (1996), o que caracteriza essa etapa de desenvolvimento são os níveis das instituições, a formação e o acúmulo de um capital social. Em termos de organização produtiva ele aponta as aglomerações das empresas diversificadas com as especializações e exportações produtivas, inseridas em fortes economias externas e de escala, bem como a acentuada visão entre as organizações. Outro aspecto destacado é o mercado de trabalho estruturado com a presença marcante das instituições reformadoras de mão-de-obra, sendo o micro-crédito e as inovações sempre incrementadas. Sobre as organizações político-administrativas, a parceria entre o poder público e o privado, assim como a participação múltipla de atores no processo de discussão, decisão, planejamento e intervenção no território também contém grande valor para esse momento histórico. Jair Amaral (1996) trabalha na linha de Perroux (1955), mostrando as experiências italianas, com suas associações de investimentos tradicionais e a ousada política de investimentos em bases para as regiões mais atrasadas, influenciando os modelos implantados no Brasil. Ele aponta que, a construção de uma política de desenvolvimento endógeno na sociedade brasileira deve embasar-se em três pontos: o novo papel do Estado, a estratégia de 65

66 desenvolvimento local ou regional e a valorização dos novos fatores de produção no contexto atual. Sendo uma de suas preocupações principais o romantismo em relação à visão do crescimento endógeno, acoplado ao planejamento relacionado à importação, a crítica de modelos externos, assim como, ao fato das estratégias de desenvolvimento local não passarem de meras políticas paliativas de proteção ao emprego e renda refletindo um aspecto setorial. Também faz parte dos seus questionamentos sobre essa conjuntura, o exagero em privilegiar as aglomerações de empresas na dinâmica industrial de um território qualquer e o abuso de enfocar o local em detrimento do regional. Os impactos sobre as políticas de intervenção pública incidem sobre os deslocamentos das decisões do poder central para os poderes locais, o compartilhamento das atitudes e resoluções sobre a valorização dos elementos, vocações e estratégicas formadoras dos sistemas produtivos. Essas modificações foram inspiradas nas experiências dos Distritos Industriais (DI) e dos Clusters. No primeiro modelo, o sistema produtivo local é caracterizado por um número de firmas envolvidas em vários estágios na produção de um produto homogêneo. Outro fator é o sucesso no aspecto econômico, mas também no setor social e no político-institucional. Este sistema representa a rivalidade entre os modelos tradicionais fundamentados no paradigma de organização fordista. Já o segundo tipo, se originou da região anglo-saxônica e funciona como uma síntese da estratégia anterior, por incorporar aspectos do conceito precedente, e não restringir suas ações às pequenas e médias empresas; recuperando temas tradicionais, como pólo de crescimento e efeitos conectados expressões criadas por Perroux e Hirschman, da idéia de indústria motriz, conjugada com uma cadeia de produção e valor ao máximo. A estratégia hegemônica de Cluster está mais próxima da produção flexível do que da pequena se diferenciando tanto da visão fordista tradicional, quanto da visão distritalista. No contexto da globalização o conceito de região, precisou ser redefinido, a partir dos debates acadêmicos, em função da proliferação dos regionalismos, identidades regionais e também a partir das novas-velhas desigualdades projetadas internacionalmente. A homogeneização da era global vem reconstruindo a heterogeneidade e fragmentando as sociedades, pois o problema regional evidenciou-se com a força da singularidade, com um revigoramento dos localismos e desigualdades espaciais, bem como da revitalização do enfoque regional nutrido pela mídia. Ou seja, simultaneamente a renovação da geografia regional 66

67 produzida no plano acadêmico, expandiu-se também um enfoque popular, com a difusão de revistas, vídeos, documentários, sites, voltados sobre modo para o turismo. Para Haesbaert (1999) região é um conceito que restringe seu significado, mas que aprofunda seu poder explicativo com teorias necessárias à compreensão das problemáticas como as escalas e os fenômenos sociais que produzem a diversidade geográfica do mundo contemporâneo. A luta entre uma face homogeneizadora demonstra os processos globais implantados no âmbito local e adaptados a ele, ao mesmo tempo em que, o local se universalizou, na medida em que, se difundem pelo mundo determinadas características. Olímpio J. de Arroxelas Galvão (1998) apresenta justificativas para a construção de novas políticas regionais para o crescimento brasileiro, na medida em que as disparidades entre as regiões permanecem evidentes, gerando efeitos danosos de ordem política, social e institucional. É de grande relevância sua pontuação sobre regiões desenvolvidas, no sentido de procurar alternativas que estipulem medidas para as regiões menos favorecidas, explicitando em percentuais de demanda por capital social, bem como na possibilidade de integração nacional, que apontam para uma relocalização e reordenamento do território para corrigir os desníveis agudos que representam um entrave para o crescimento. Nesse bojo, Galvão (1998) apontou uma tendência de aumento das disparidades regionais na atualidade e uma aproximação entre as rendas médias dos estados mais pobres e as dos mais ricos. Sobre esse aspecto, ele cita que nos Estados Unidos além das forças do mercado, há uma redução das diferenças com a efetiva participação do governo, assumindo o papel e a realização da reforma fundiária, o incentivo a agricultura, a tecnologia avançada, a legislação trabalhista e social, os investimentos em educação e a erradicação da segregação racial. Já os fatores políticos para o desenvolvimento regional na Europa representam uma prioridade para as reavaliações dos instrumentos, as políticas governamentais e intervencionistas de favorecimento continental. A desilusão e a eficácia das políticas regionais são apontadas como, grandes investimentos em mão-de-obra capazes de reduzir o desenvolvimento tecnológico, o financiamento de grandes corporações em detrimento do empreendimento local, os benefícios para firmas de outros países e por último às instabilidades nos níveis de emprego e da arrecadação de receitas tributárias dos governos provinciais ou os estados. Mediante a vigência desses impasses Haesbaert (1999) problematiza o local a partir de três enfoques: o 67

68 local vinculado aos processos gerais de heterogeneização e/ou diferenciação; o local como instrumento de análise, escala geográfica de abordagem e o local como lugar. Ele enfatiza a necessidade de redefinir a região frente à globalização, considerando que ela não acabou, mas que o seu conceito atual deve levar em conta, o grau de complexidade muito maior na definição dos recortes regionais, atravessados por diversos agentes sociais que atuam em múltiplas escalas. A mutabilidade mais intensa que altera a coesão e a inserção regional em processos concomitantes de globalização e fragmentação. Para esse autor, a região enquanto conceito, em sua interação sujeito-objeto, não pode ser algo auto-evidente a ser descoberto nem um simples recorte apriorístico, definido pelos pesquisadores com base unicamente nos objetivos de seu trabalho. Nesse bojo, Haersbaert (1999) sintetiza que a região pode ser definida a partir de três pontos de vista eivados de diferentes níveis de abrangência conceitual, sendo eles, qualquer recorte do espaço geográfico, independente da escala ou do processo social dominante podendo ser um instrumento para a análise do geógrafo ou, no senso comum, um instrumento para referência de localização das pessoas; um tipo de recorte do espaço geográfico, definido pela escala em que a diversidade territorial dos processos sociais se manifesta com maior evidência ou coesão; e ainda um determinado recorte do espaço geográfico, decorrente de fenômenos sociais próprios, não generalizáveis a todos os espaços, notadamente os regionalismos políticos e as identidades regionais. Ficando evidente a relevância em estudar os fatores regionais permanentemente, analisando a produção da diversidade territorial, seja a régio ou outro nome que o pesquisador intitule para os recortes que se produz. Mais do que avaliar um conceito o que importa é reconhecer a natureza dos novos-velhos processos que constroem o espaço geográfico. A questão da autonomia e da necessidade de participação das categorias frente à diversidade e transformações sociais ocorridas nas últimas décadas, destacando as considerações teóricas sobre o capital social. O revigoramento da dimensão local resulta das inter-relações entre aspectos sociais e econômicos, culturais e institucionais no mercado global. A adoção de diretrizes, políticas e estratégias intersetoriais integrando territorialmente à cidade ao campo, como por exemplo, a participação das comunidades locais em projetos nacionais, o combate aos entraves de infra-estrutura e a reestruturação da dimensão institucional favorecendo a incorporação 68

69 da gestão, certamente possibilitaria a superação das dicotomias vigentes entre o rural e o urbano. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Para que a noção de região se tornasse um conceito científico foi necessário haver uma reformulação de seus critérios e de sua natureza, estabelecendo novas técnicas de pesquisa das ciências e da própria Geografia. Alguns pesquisadores advogam que o conceito de região remete a uma reflexão política de base territorial, a partir dos interesses das comunidades identificadas a uma área autônoma de um poder central. Ao mesmo tempo, o discurso regional é o veículo encontrado por uma elite local para sua preservação, forjando conflitos e reiterando posições de liderança através do controle sobre o espaço. A concepção crítica analisando a região a enfoca como resultado de uma divisão do espaço que é submetido a um sistema classificatório e hierárquico. A tendência da Geografia crítica aborda o espaço como algo inteligível produzido pelo homem para sua organização e desenvolvimento. As situações contemporâneas onde à aspiração da autonomia calcada em um discurso regionalista está a serviço do grupo dominante em uma dada área, impõem-se como uma identidade posta em posição de controle legítimo do território. Nessa perspectiva, nota-se que o espaço regional define competências, limites, autonomias e poderes locais na gestão do território dos Estados. Pesquisadores demonstram que até hoje, a ciência utiliza uma noção de região próxima da sua etimologia. A reestruturação da economia mundial, a partir do pós-guerra afetou as relações entre Estado e região, colocando esta última em um novo patamar, pois com a globalização, a fragmentação política acompanhou os interesses localizados, pondo em risco a economia nacional. Nesse sentido, os resultados atingidos incidem sobre a constatação das desigualdades regionais e sociais vigentes, em países periféricos como o Brasil, evidenciando a elevada concentração financeira nas mãos dos proprietários e das precárias condições de sobrevivência da população. Sendo uma das alternativas postas por estudiosos da área, uma melhor utilização da terra para conseguir mais alimentos, por meio de uma política pública voltada para o pequeno e médio produtor. Em termos de conclusão, percebemos que é de fundamental importância à correção da fragmentação entre o setor público e o privado, no sentido de absorver, difundir e garantir investimentos em infra-estrutura e na valorização da força de trabalho, enquanto recurso técnico e 69

70 profissional que deverá ser reorientado para uma divisão mais equânime das atribuições relativas da riqueza gerada para a sociedade brasileira. A questão regional passou a ser tratada como um conhecimento prévio das metas a alcançar e informação dosada que respeita o tempo de reelaboração dos espaços sociais e locais. Este ponto realça o aspecto histórico fundamental sobre as políticas públicas no Brasil que está relacionado às formas de gestão das políticas sociais. Estrutura de gestão centralizada, com uma dispersão e multiplicidade de ações institucionais e participação da sociedade. As políticas clientelistas, nas esferas sociais e a supressão do espaço público enquanto local dos envolvidos, deixando para trás um papel outrora restrito à filantropia e a ações assistenciais, que ganharam notoriedade ao assumirem uma função propulsora de novos atores e alternativas sociais. No processo de produção do espaço existe uma dimensão política que leva a diferente forma de controle. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMOVAY, Ricardo. O futuro das regiões rurais. Porto Alegre: Editora da UFRGS, AMARAL FILHO, J. do. Desenvolvimento regional endógeno: (re)construção de um conceito, reformulação das estratégias. Revista Econômica do Nordeste, v. 26, n. 3, jul./set. Fortaleza, BEZZI, Meri Lourdes. O conceito de região na geografia crítica e nas novas tendências geográficas. In: Região: uma (re) visão historiográfica: da gênese aos novos paradigmas. Santa Maria, RS: UFSM, pp CASTRO, Iná Elias de. (et al.) Geografia: conceitos e temas. 6 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p. CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. Série Princípios. São Paulo: Ática, GALVÃO, Olímpio J. de Arroxelas. Por uma nova política de desenvolvimento regional: a experiência internacional e lições para o Brasil. São Paulo: Atlas,

71 LEFEBVRE, Henry. O direito à cidade. São Paulo: Centauro, p. OLIVEIRA, Ariosvaldo Umbelino; PONTUSCHKA, Nídia Nacib. (Org.) Geografia em perspectiva. São Paulo: Contexto, p. SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo: HUCITEC, p. SOUZA, Marcelo José Lopes de. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento. In: Geografia: conceitos e temas. 6 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p. 71

72 LETRAS O Curso de Letras Português / Inglês da Faculdade José Augusto Vieira visa formar profissionais capazes de assumir compromissos educacionais e sociais relativos às problemáticas das suas regiões e entender a ação docente a partir de uma perspectiva crítica e transformadora. Mediante o exposto, a Revista Eletrônica da FJAV constitui-se em um importante canal para viabilizar a publicação de trabalhos oriundos dessas ações; trabalhos que versem sobre temáticas diferenciadas relacionadas à área do Curso e demonstrem os resultados de trabalhos de profissionais constantemente comprometidos com a análise e a reflexão. Profa. Ma. Ana Lúcia Simões Borges Fonseca 72

73 O CONTO INFANTIL E A CONSTRUÇÃO DE ESTEREÓTIPO 2 CARVALHO, Eliana dos S. S. de (Curso de Letras Português - UFS) 3 OLIVEIRA, Jacqueline dos Santos (Curso de Letras Português UFS) JESUS, Rafaella Pômola dos Santos (Curso de Letras Português UFS) - discursive representations of fairy tales chosen (Three Little Pigs and Snow White). In this sense, we see the ideology behind these tales and the relationship with the myths, beliefs and different concepts. Moreover, to address these tales, we need to throw concepts about children's literature, especially in regard to social representation of them. Keywords: stereotypes, children's literature, interdiscourse. ABSTRACT Mesmo havendo uma distância significativa entre o comportamento da vida real e o comportamento do lúdico, a atuação no mundo imaginário e o estabelecimento de regras a serem seguidas criam uma zona de desenvolvimento proximal, na medida em que impulsionam conceitos e processos em desenvolvimento. (REGO,1995,p. 83) As children's literature the main focus of interest of this reflection, draw a route socio-historical and literary, about the fairy tales in the light of the postulates of Discourse Analysis. In this way, we aimed to analyze the construction of stereotypes, trying to understand the 2 Este trabalho é um desdobramento de um artigo que consistiu na terceira nota da disciplina Introdução às Teorias do Discurso, sob a orientação da professora doutora Maria Emília de R. de A. Barreto Barros. UFS, 2008II. 3 Graduanda do curso de Letras-Português da Universidade Federal de Sergipe Campus Prof. Alberto Carvalho, Itabaiana/SE. Pesquisadora na área de sociolinguística, atualmente desenvolvendo pesquisas no âmbito das categorias verbais que expressam passado imperfectivo na fala e escrita de Itabaiana/SE. RESUMO Sendo a literatura infantil o foco de interesse principal desta reflexão, traçaremos um percurso sócio-histórico-literário, a respeito dos contos infantis à luz dos postulados da Análise do Discurso. Nesse caminho, objetivamos analisar a construção de estereótipos, buscando compreender as representações discursivas dos contos de fadas escolhidos (Três Porquinhos e Branca de Neve). Nesse sentido, observamos a ideologia subjacente a esses contos e a relação com os mitos, crenças e conceitos variados. Ademais, para tratarmos desses contos, precisamos acionar conceitos acerca da literatura infantil, principalmente no que se refere à representação social deles. Palavras-chave: estereótipo, literatura infantil, interdiscurso. 73

74 INTRODUÇÃO Os contos de fadas são naturalmente repletos de elementos mágicos como bruxas, fadas, madrastas, caçadores, lobos malvados, príncipes encantados e, claro, mocinhas bondosas que, geralmente, são as principais personagens. Sendo assim, o conto de fadas apregoa, através de palavras, imagens e ações, episódios que estão muitas vezes na mente do público infantil. Conforme Bettelhein, (1980) a fantasia ajuda a formar personalidades". Desde tempos memoriais, a literatura infantil surge de maneira ainda tímida, acoplada a uma função que, por muitas vezes, não atende as necessidades do público, embora ainda seja muito marcante o cultivo da fantasia, especialmente seguindo as idéias dos irmãos Grimm e Perrault. No entanto, reconhece-se que tal literatura é forte o bastante para perpetuar no imaginário de seus ouvintes/leitores por muito tempo, corroborando a inculcação de discursos, haja vista se considerarem os próprios discursos literários como sendo discursos constituintes 4. Maingueneau (2006) considera que os discursos religioso, filosófico, literário e científico são discursos constituintes (doravante DCs). Nesse caminho, quanto à autoridade, estão acima dos outros. Ademais, deve-se levar em conta que há uma interação constante entre os discursos constituintes e os não-constituintes, entre discursos constituintes. Com efeito, os DCs operam a função de archeion na sociedade. Esta é uma função simbólica, um termo grego que significa a sede da autoridade. Como bem postula Maingueneau (2006, p. 33): O archeion associa assim intimamente o trabalho de fundação no e pelo discurso, a determinação de um lugar associado a um corpo de enunciadores consagrados e uma gestão da memória. Tal é a sua importância que eles representam o mundo a que estão circunscritos. Eis o argumento de Maingueneau (2006, p. 36) acerca de sua importância: Esses discursos representam o mundo, mas suas enunciações são parte integrante desse mundo que eles representam, elas são inseparáveis da maneira pela qual geram sua própria emergência, o acontecimento de fala que elas instituem. 4 Noção de discurso constituinte foi introduzida por Dominique Maingueneau e F.Cossutta, num artigo L analyse des discours constituants, no ano de Vale mencionar ainda que o Discurso constituinte designa fundamentalmente os discursos que se propõem como discursos de 74

75 Origem, validados por uma cena de enunciação que autoriza a si mesmo (MAINGUENEAU, 2006, p. 60). Dessa forma, o discurso constituinte pratica o poder e realiza seu curso na sociedade se for constituído por uma Instituição Discursiva. Nesse contexto, para subsidiar a análise, foram escolhidos contos de fadas aleatoriamente. Selecionamos dois contos (Os Três porquinhos, Branca de Neve), os quais são de fácil acesso não só ao público infantil, mas também aos adultos. Partindo dessa premissa, buscamos refletir acerca da valorização da literatura infantil. Além disso, para o desenvolvimento dessa pesquisa, fez-se necessária a leitura de alguns contos, inclusive, os que serão analisados para melhor compreender a questão da construção de estereótipos entre outros aspectos. 1 OS CONTOS DE FADAS, NUMA PERSPECTIVA DA LITERATURA E DA ESCOLA Nos contos clássicos infantis, podemos observar práticas vivas, que podem ser significativas até hoje. Tais práticas, por sua vez, reforçam ou produzem/reproduzem desigualdades, o que pode significar barreiras para superar essa situação, contrariando a promoção da equidade de gênero. Além disso, uma contradição marca a Literatura Infantil desde suas origens: é que, pensada e elaborada para a infância, na verdade, sempre ignorou seus anseios e impôs antes de tudo a visão do adulto sobre a criança. As histórias infantis mais tradicionais em especial os contos de fadas valorizam a autoridade dos pais e o bom senso dos adultos. Nesse caminho, há muitas imagens que a criança internaliza (imagem da bruxa, do príncipe, da princesa, do herói, do vilão, dentre outros), e estas imagens são muitas vezes perpassadas pela leitura em sala de aula. Sabemos ainda que os contos não são meramente objetos destinados a entreter o público infantil. Eles podem ser também considerados suportes, cujo conteúdo envolve crenças, ideologias, estereótipos e conceitos dos mais variados, pois se trata de produções culturais que não são neutras, mas que trazem características dos contextos históricos e sociais nos quais estão inseridos. Como, por exemplo, a autoridade dos pais, esta é muito valorizada, pois são eles que têm o saber e o conhecimento suficientes para que a criança lhes conceda a função de transportadores dos filhos. É nesse caminho que a ficção tem um poder grande sobre o indivíduo. 75

76 A escola, por sua vez, quanto às estórias infantis, promove a construção de um discurso ideologicamente tendencioso em relação ao público leitor, na medida em que essa instituição educacional assume um papel determinante em relação à construção da intelectualidade, ao conhecimento formal. Na constituição do discurso, por seu turno, a escola se vale das narrativas e do seu poder de fala para persuadir o aluno, apesar de, muitas vezes, a escola considerar a atividade de leitura como sendo um trabalho menor, podendo ser deixado em segundo plano. Ademais, há que se considerar a intertextualidade como um mecanismo intrinsecamente ligado ao leitor (no caso, o aluno), pois, além de fornecer informações novas, ele se identifica com os personagens em diversas situações. Nesse contexto, o que muitas vezes ocorre nos contos de fadas é associado ao que a criança vive ou está vivendo em um determinado tempo de sua vida. Nessa perspectiva, considerando-se o discurso literário como sendo um discurso constituinte, ele é capaz de promover a estreita ligação entre ficção e realidade, estabelecendo um sutil limite entre ambas. Realidade e fantasia, portanto, imiscuem-se; apenas os sujeitos agentes são distintos: leitor e personagens. Mikhail Bakhtin (1998, ), por sua vez, aborda a literatura numa perspectiva discursiva e permite repensar a literatura em sua manifestação social. Para o filósofo, a literatura é a imagem da linguagem do homem. Neste sentido, não é um retrato dos fatos históricos que estão postos, mas as imagens que se criam destes fatos por meio dos discursos. Isso faz com que a literatura se constitua enquanto tal, sem perder seu caráter literário, ou seja, o texto literário se inclui na classe de um gênero do discurso tomado como secundário. Segundo Bettelheim (1980), a narrativa da estória para uma criança tem de ser um evento interpessoal, moldado pelos que participam dela. Para este autor, nenhum tipo de leitura é tão enriquecedor e satisfatório do que os contos de fadas, pois eles ensinam sobre os problemas interiores dos seres humanos e representam soluções em qualquer sociedade. Ou seja, a fantasia ajuda a formar a personalidade e por isso não pode faltar na educação. Estórias de fadas ajudam à criança a entender-se a si própria, a se orientar para encontrar soluções para os problemas que os conturbam. Isso tem sempre um significado metafórico. Enquanto 76

77 que a criança frui a fantasia, o adulto pode derivar seu prazer da satisfação da criança; enquanto a criança pode sentir-se exultante porque entende melhor alguma coisa sobre si mesma, o prazer do adulto ao contar a estória pode derivar do fato de a criança experimentar um súbito choque de reconhecimento. De acordo com Bettelheim (1980, p. 189), narrar um conto de fada com uma finalidade específica que não seja a de enriquecer a experiência da criança transforma-o num conto admonitório (conto para advertir/repreender), numa fábula, ou em alguma experiência didática que, na melhor das hipóteses, fala à mente consciente da criança, ao passo que um dos grandes méritos desta literatura é atingir diretamente o inconsciente da criança. Desta forma, infelizmente, algumas pessoas modernas rejeitam os contos de fadas porque aplicam a esta literatura padrões totalmente inapropriados. Se tomarmos estas estórias como descrições de realidade, então os contos são verdadeiramente ultrajantes sob todos os aspectos cruéis, sádicos. Mas, como símbolos de acontecimentos ou problemas psicológicos, estas estórias são totalmente verdadeiras. Nesse caminho, Bettelheim (1980, p. 47) faz uma diferenciação entre mito e estória de fadas: o mito possui um caráter pessimista, enquanto a estória das fadas é otimista, mesmo que alguns traços sejam terrivelmente sérios. É essa diferença decisiva que separa o conto de fadas de outras estórias nas quais igualmente ocorrem coisas fantásticas, que o resultado seja feliz devido às virtudes do herói, à sorte, ou à interferência de figuras sobrenaturais. O pessimismo dos mitos é soberbamente exemplificado no paradigmático mito da psicanálise, a tragédia do Édipo. O mito do Édipo desperta poderosas relações intelectuais e emocionais no adulto de tal forma que pode provocar uma catarse, como ensinou Aristóteles sobre o que uma tragédia faz. Objeto literário, principalmente o destinado ao público infantil, deve despertar a reflexão e tornar o público leitor mais sutil e mais questionador, desde o início de sua formação de leitor, a literatura infantil constituiu uma espécie de contra-discurso conforme Foucault (2000, p.60-61). Esse contra-discurso deve permear o dizer da literatura infantil, para que esta seja instituída como literatura, como arte, pois quando a voz da criança, na prática de leitura, sofre exclusão pelo e no discurso que se revela doutrinário e 77

78 falseado, as coerções dos sistemas impõem ao leitor (criança) punições. 2 ALGUNS CONCEITOS EM ANÁLISE DO DISCURSO Como analisado anteriormente, os contos infantis são produções históricas institucionalmente constituídas e, na medida em que a linguagem também é constitutiva de práticas, cria a realidade, produz sentido e funciona como mecanismo de produção de identidades. Para Foucault (2000), há uma articulação entre o poder e o saber, o discurso sempre se insere no interior de uma ordem, que se produz em razão das relações de poder. Ainda segundo esse filósofo (2003), o discurso consiste em um sistema de regras que define a especificidade de uma enunciação. Nesse sentido, os discursos em circulação são controlados institucionalmente. Para se elaborar uma análise sobre os contos infantis, há de se levar em conta ainda os conceitos de interdiscurso, de memória discursiva, de ideologia. Quanto ao primeiro, Pêcheux (1997) afirma que o interdiscurso corresponde ao pré-contruído, é aquilo que se fala antes, em outro lugar, independente, e esquecido. Para Courtine (1999), por sua vez, o interdiscurso não é da ordem da língua, do material, mas do discurso, está na ordem do enunciável: [...] a ordem do que constitui o sujeito falante em sujeito de seu discurso e do qual ele se assujeita em contrapartida (p. 16). Há, assim, sempre um já discurso; no interdiscurso, o sujeito não tem um lugar assinalado, pois ressoa uma voz inominável. O que se vê é funcionarem as posições de sujeito reguladoras da enunciação. Ainda para este autor, a memória discursiva é concernente à existência histórica do enunciado. Tal memória se revela no interior de práticas discursivas. Estas, por sua vez, são reguladas pelos aparelhos ideológicos. Essa imbricação, por seu turno, origina atos novos, uma vez que toda prática discursiva ocorre em uma conjuntura dada, colocando em movimento formulações anteriores. Foucault (1997), por seu turno, observa que o já-dito não está circunscrito a uma frase já-(dita) pronunciada, mas a um jamaisdito. Esse filósofo interpreta o já-dito da seguinte forma: uma voz sem sopro, uma escrita que não é senão o vazio de seu próprio rastro (p. 28). Postula, então, que tudo que se formula já se encontra em meio-silêncio que lhe é prévio. Para ele (p. 28): O discurso manifesto não passaria, afinal de contas, da presença repressiva do 78

79 que ele não diz; e esse não-dito seria um vazio minando, do interior, tudo que se diz. E acrescenta: [...] não é preciso remeter o discurso à longínqua presença da origem, é preciso tratá-lo no jogo de sua instância. Já Orlandi (2001b), tratando da relação texto e discurso, acrescenta que há um longo caminho entre o interdiscurso e o texto. Aquele é identificado neste a partir da ordem das palavras, das repetições, das paráfrases que, por sua vez, revela que existem outros discursos no discurso, apagando a linearidade do texto. Todo esse trabalho é da ordem da ideologia e diz respeito, inclusive, à dominação em relação ao que pode e deve ser dito. A ideologia, por seu turno, segundo Orlandi (2007) 5, consiste na relação imaginária do homem com a sua realidade; não é ocultação da realidade. Para essa linguista, a ideologia produz, ao contrário da ocultação do real, a evidência de sentidos dominantes: o sentido parece ser um só, o eleito pela ideologia dominante. Ela é responsável pela ilusão de transparência, está no processo de produção de sentido, apesar de apagá-lo. 5 Minicurso Tópicos em Análise do Discurso, UFBA Salvador BA, de 16 a 20 de abril de É nesse ponto que se pode estabelecer uma relação entre sujeito, sentido e ideologia. Esclarece-se, então, o postulado referente às Formações Discursivas. Para Foucault (1997), o sentido está inserido nas formações discursivas que correspondem àquilo que o sujeito pode e deve dizer numa conjuntura dada, dentro de condições dadas. As formações discursivas representam o lugar de constituição do sentido e de identificação do sujeito. Tais formações, por sua vez, são atravessadas pelas formações ideológicas. Ou seja, as formações ideológicas interpelam as formações discursivas que, por sua vez, refletem-se no discurso, considerado por Pêcheux (1997b) como efeito de sentido. Tal efeito revela a ideologia funcionando, a partir da materialidade linguística, o texto. É nesse contexto que Pêcheux procede à seguinte idealização: a (re)significação da ideologia, no âmbito do discurso. 3 O CONTO DE FADAS E A RELAÇÃO COM A REALIDADE Ao considerar os contos de fadas um veículo de transmissão de conhecimento de si mesmo para a criança, cabe aqui tentar relacionar o real e o lúdico. 79

80 3.1 Os Três Porquinhos: Uma Análise madeira e o maior ia fazer de tijolos. Quando o lobo apareceu e queria comê-los deu um sopro sem fazer esforço e a casa de palha desmoronou. O porquinho mais novo foi correndo para a casa do porquinho do meio, e o lobo sem fazer esforço deu um sopro que a casa de madeira desmanchou. O porquinho mais novo e o do meio foram correndo para a casa do mais velho. O lobo soprou até ficar roxo, e a casa continuou intacta. E assim o lobo desistiu e os três porquinhos viveram felizes para sempre. Figura 1: Os três porquinhos. Disponível em: Acesso em 09/04/2010. Tal como todo discurso pedagógico, essa história traz em seu bojo a ideologia referente ao bom versus mau. No caso, o trabalho versus a preguiça. Esta, por sua vez, é caracterizada pelo lúdico, pela brincadeira, ensinando, portanto, ao aprendiz que o tempo tem que ser controlado, vigiado. O tempo não lhes pertence, mas pertence à sociedade em que ele vive. Caso contrário, será tachado de preguiçoso. Como bem argumenta Foucault (2008, p ): Eis o resumo dessa história: Era uma vez três irmãos que tinha saído para fazer suas casinhas, o menor ia fazer uma casa de palha, o do meio ia fazer de O tempo penetra o corpo, e com ele todos os controles minuciosos do poder. [...] No bom emprego do corpo, que permite um bom emprego do tempo, nada deve ficar ocioso ou inútil: tudo deve ser chamado a formar o suporte do ato requerido. Um corpo bem disciplinado forma o contexto de realização do mínimo gesto. [...] 80

81 A punição, por sua vez, é uma técnica de correção, que tem como função reduzir os desvios. Através do castigo, espera-se que o indivíduo mostre arrependimento. É isso que ocorre com os dois primeiros personagens: arrependeram-se por terem utilizado mal o tempo. Ambos foram castigados pela maldade do lobo. Tal história, portanto, é um ótimo conto para reproduzir as relações de poder instituídas sobre o tempo dos estudantes. E, na medida em que a escola aplica esses mecanismos de transformação e de aperfeiçoamento, transforma o corpo num organismo mecânico, para que ele possa exercer sua função com maior eficácia e rapidez, operando movimentos num tempo determinado. A isso o autor chama de "mecânica do poder", o que transforma os corpos submissos e exercitados em corpos dóceis, característica própria dos alunos. O lobo, por seu turno, representa a imagem de um animal malvado, carrasco para criança, pois destrói as casas dos dois primeiros porquinhos. A maldade do lobo é algo que a criança reconhece dentro de si. Assim o lobo é uma projeção da maldade. Logo, o lobo apresenta-se com o estereótipo das pessoas más, invejosas que só pensam em destruir a felicidade dos outros e por sua simples apresentação ao lado dos condenados (os três porquinhos), canta à justiça a aprovação de que ela precisa. E ainda garantem que o corpo e a dor não são os objetos últimos de sua atuação punitiva, dessa maneira, ele exerce forte poder ideológico, e influencia o indivíduo, construindo, assim, uma relação hierárquica entre eles (FOUCAULT,1997). O estereótipo relaciona-se, assim, ao pré-construído, segundo Pêcheux (1997), e se assimila ao ideologema, ou máxima subjacente ao desenvolvimento argumentativo de um enunciado, segundo Angenot (1989). Neste conto, observa-se ainda a ideologia dos unidos venceremos ou a união faz a força. A criança vê no terceiro porquinho a imagem de um ser inteligente e se identifica com este como uma imagem positiva, na medida em que se sente capaz de entender que o terceiro porquinho é sábio o suficiente para retardar o seu desejo de brincar e, consequentemente, calcular o que pode acontecer no futuro. O mais velho dos três porquinhos aprendeu a viver conforme o princípio da realidade. Nesse sentido, afirma-se o ideal do mais inteligente como o bem sucedido, corroborando os ideais da escola, na medida em que esta elege o melhor estudante, atribuindo-lhe nota máxima em suas atividades. 81

82 Uma rainha muito bela, porém má e invejosa, resolve mandar 3.2 Branca de Neve e os Sete Anões matar sua enteada Branca de Neve, uma princesinha bastante bela e bondosa. Isto porque, segundo seu espelho mágico, ela era a mais bela de todas. Mas o carrasco que deveria assassiná-la, a deixa partir. Durante a fuga pela floresta, Branca de Neve encontra a cabana dos sete anões, que trabalham em uma mina, e que passam a protegê-la. Algum tempo depois, a rainha descobre que Branca de Neve continua viva. Então, ela se disfarça de vendedora de frutas e vai atrás da moça para lhe oferecer uma maçã envenenada, que faz com que Branca de Neve caia num sono profundo. Porém, ela é salva pelo príncipe encantado, o grande amor de sua vida, que a desperta com um beijo de amor. Analisando esse conto, Bettelheim (1980, p. 242) mostra a Figura 2: Branca de Neve e os sete Acesso em: 09/04/2010. anões. Disponível em: questão do narcisismo da madrasta, que é demonstrada pela sua busca de confirmação quanto à beleza no espelho mágico. O Branca de Neve é um dos contos de fadas mais conhecidos. narcisismo em Branca de Neve quase a destrói quando ela cede No conto, a menina é criada por sua madrasta que só se transforma duas vezes às seduções da rainha que propõe torná-la ainda mais em Bruxa quando Branca de Neve começa a amadurecer, se tornar bonita, e a rainha é destruída pelo próprio narcisismo. adulta. Sentindo-se ameaçada, a madrasta começa a ter ciúmes de Branca de Neve. Eis o resumo desse conto: A rainha, que está fixada a um narcisismo primitivo e bloqueada pelo estágio incorporativo oral, é uma pessoa com quem 82

83 não é possível relacionamento positivo e ninguém pode se identificar com ela. Embora não tenhamos a nítida certeza de quem seja o pivô de tanto ciúme, supõe-se que a disputa seja pelo amor do pai de Branca de Neve, uma vez que este ficou viúvo e casou-se com a madrasta malvada. Bettelheim salienta ainda, na análise do conto Branca de Neve, a tendência que aparece desde cedo entre mãe/mulher e filha/mulher em desenvolvimento, quando competem pela atenção do homem/pai, ou pela vantagem que a mãe tem sobre a filha, por ser adulta e a filha sobre a mãe, por ser jovial e se encontrar no desabrochar da sexualidade. Os impasses do conto Branca de Neve estão intrinsecamente ligados às relações entre ela e os pais, que cunham a situação hipotética. Esta não é a primeira estória de uma mãe ciumenta da sexualidade florescente da filha, nem é tão raro uma filha acusar mentalmente a mãe de sentir ciúmes. (BETTELHEIM, 1980, p. 246). Com isso, a criança luta e esquiva-se da existência triádica, e desesperada adentra numa direção totalmente solitária em busca de si mesma. Os anões nesse contexto são vistos como elementos que facilitam este processo de busca de si mesma, porém os anos que Branca de Neve passa com os anões representam a época de maiores dificuldades, de preparação/elaboração dos problemas, que representa seu crescimento pessoal. Como já mencionado, o conto Branca de Neve aborda essencialmente os conflitos edípicos entre mãe e filha, (nesse caso entre madrasta e enteada), na medida em que estas disputam a atenção/amor de um ente que se divide entre o amor de pai e o amor de esposo. Sendo assim, a madrasta se mostra um elemento negativo na visão da criança pelo fato de esta se sentir ameaçada pelo crescimento e o desabrochar da beleza alheia, pois isso exprime o descontentamento com o envelhecendo. Nessa perspectiva, o estereótipo da madrasta é visto até hoje como algo perverso devido à versão dos contos infantis. Isso reflete na sociedade de uma forma tão clara que basta falar em madrasta para que a maioria das pessoas a associe a uma pessoa má. Além disso, é importante observar que a ideologia subjacente a esse conto refere-se à existência de pessoas dispostas a ajudar o próximo (no caso do conto, a menina teve ajuda dos anões). Além desse aspecto, pode-se perceber um ideal da sociedade capitalista (com ajuda da mídia): a imposição de uma ditadura da beleza. Assim as crianças 83

84 (meninas) identificam-se com as princesas, por serem belas e bondosas, enquanto que as madrastas da vida real não se enxerguem como as bruxas/madrastas dos contos de fadas. Muitas vezes os conflitos externos são simbólicos e a competição entre as mulheres são alegorias, pois reproduzem conflitos internos. Nesse caminho, as relações entre Branca de Neve e a rainha simbolizam algumas dificuldades graves que ocorrem entre mãe e filha. Mas são também projeções, em figuras separadas, das tendências incompatíveis dentro de uma pessoa. (BETTELHEIM, 1980, p. 250). Os embates, por sua vez, no conto de Branca de Neve, são entre a aceitação da velhice e o desejo de juventude, entre a inocência pueril e a maledicência experiente, a busca do amor pelo pai, em conflito, com a busca do amor de um homem. Este conto adverte sobre os efeitos trágicos do narcisismo 6 não só dos pais, mas, sobretudo da criança em suas diferentes fases de crescimento, especialmente na puberdade, pois nem a menina tampouco o pai 6 Em psicanálise o narcisismo representa uma modo particular de relação com a sexualidade e descreve a característica de personalidade de paixão por si mesmo. Disponível em: pt.wikipedia.org/wiki/narcisismo.acesso 30 de setembro de percebem que o amor que existe entre eles possa ocasionar problemas, uma vez que esse amor entre pai e filha é natural. Estas e muitas outras histórias nos mostram exemplos muito claros na utilização do estereótipo. Entendido como uma forma arbitrária de fixar característica, acaba formando identidades e rotulando o sujeito, inculcando nele algo que o diferencia dos demais e que não permite ver as suas características restantes, impedindo assim a circulação do significante à medida que aliena a mente da criança. Relacionando o conto à realidade, sempre que os conflitos edípicos são revividos na puberdade, a criança acha a vida familiar insuportável devido aos seus sentimentos ambivalentes violentos. Para escapar do turbilhão interno, sonham em ser filhos de outros pais melhores com quem não teriam nem uma dessas dificuldades psicológicas. Algumas crianças vão além, fantasiando e, na realidade, fugindo em busca desse lar ideal. Os contos de fadas, todavia, ensinam implicitamente às crianças que esse lar só existe em um país imaginário, e que, quando o encontramos, frequentemente se torna insatisfatório. 84

85 É comum na vida real escutarmos algumas expressões proferidas por crianças quando estão insatisfeitas com os seus pais, tais expressões resumem-se em: você não é mais meu pai ou minha mãe... não gosto mais de você, em algum momento que são podadas quando insistem em conseguir algo dos seus pais. Enveredando pelo caminho real de proteção paterna, o pai pode ser representado, neste conto, pela imagem do caçador, na medida em que este é visto como símbolo de proteção, considerando também que muitas crianças sentem medo e até fobias de alguns animais. Nesse sentido, Bettelheim (1980, p. 245) relata que o caçador é uma figura eminentemente protetora que pode realmente salvarnos dos perigos de nossas emoções violentas e das dos outros. As tarefas/obrigações ou os deveres dos pais com relação à proteção e educação dos filhos são geralmente divididos de forma arbitrária (a meu ver), na medida em que essas obrigações são vistas pelos filhos como sobreposição de poder entre o pai e a mãe. Contudo, em nossa sociedade, as crianças devem obediência e respeito aos pais, e estes são responsáveis pela conduta dos filhos. Ao pai cabem as decisões, a repressão e as autorizações consideradas mais relevantes, enfim, a palavra final no que diz respeito à educação dos filhos. A mãe, por sua vez, é responsável pelo controle, o cuidado e os ensinamentos cotidianos; são as mães que devem educar as filhas de acordo com os princípios morais, sempre as orientando para o casamento e a maternidade. Destarte, as histórias propiciam aos leitores parâmetros de certo e errado para que sirvam de modelos de comportamento. Nesse contexto, os contos infantis nos remetem a uma concepção de um mundo perfeito, onde existem castelos, princesas, heróis em que tudo acaba bem, ou seja, há sempre o final feliz. Mas, na verdade, o que há nestes contos é uma desconstrução, pois sabemos que na vida real nem tudo acaba bem. Logo, partindo do pressuposto da desconstrução em relação à literatura infantil, podemos perceber que os contos de fadas sofrem uma crítica severa quanto às novas descobertas da psicanálise e da psicologia infantil que revelam o quanto a imaginação da criança pode ser violenta, ansiosa, desconstrutiva e até mesmo sádica. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do que foi visto no decorrer deste artigo, podemos perceber que, através dos contos de fadas, a criança vê 85

86 representada no texto, simbolicamente, conflitos que enfrenta no seu dia a dia. Nesse sentido, é relevante se trazer à baila as noções de texto e de interpretação defendidas por Orlandi (2003), segundo a qual o texto é compreendido como um conjunto de relações significativas que mudam de leitor para leitor a partir de sua historicidade. Consequentemente, a interpretação é resultado de um trabalho histórico-social com regras de funcionamento. Ademais, entendendo-se a interpretação como ideologia (ORLANDI, 2003), aquela se modificará ao longo da história, uma vez que o papel dos sujeitos na constituição dos sentidos e a própria concepção de mundo se definirão diferentemente com o passar do tempo. Nessa direção, na medida em que a própria escola não institui um lugar de réplica dessas histórias, é negado ao aluno o espaço para reflexão sobre o que foi lido em sala de aula, provocando o silenciamento de sentidos. Com isso se cria uma situação mnemônica para o aluno e também para o professor. Este, por sua vez, fala do lugar da academia, repetindo o discurso desta. Com efeito, proporciona um ciclo de repetições de um mesmo discurso, reiterando o postulado de Foucault (2003) acerca de sociedade de discurso. Afora esses aspectos, percebemos, ao longo deste artigo, a reiteração das construções de imagens referentes ao bemcomportado, ao mau, ao bonito. Nesse sentido, confirmamos que os contos de fadas são reconhecidamente discursos constituintes. E, como tais, são formadores de opiniões, ou, no mínimo, reverberam discursos institucionalmente marcados. REFERÊNCIAS BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e Estética A Teoria do Romance. Trad. Aurora F.Bernardini et al. 4 ed. São Paulo: Editora da UNESP, BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. 7 ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e terra, COURTINE, J.J. O discurso inatingível : marxismo e lingüística ( ). Trad. Heloisa Monteiro Rosário. Cadernos de Tradução, Porto Alegre, n 6, FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas uma arqueologia das ciências humanas. Trad.Salma Tannus Muchail. 8 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000 (Coleção Tópicos). 86

87 . Vigiar e punir: história da violência na prisão.trad. de Raquel Ramalhete, 36 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. Eni Pulcinelli Orlandi (et al.). Campinas, São Paulo: Pontes, Editora da UNICAMP, A arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. Rio de Janeiro: Forense, REGO, T. C. (1995). Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Rio de Janeiro: Vozes.. A Ordem do Discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Edições Loyola, MAINGUENEAU, Dominique. Discurso Literário. São Paulo: Contexto, 2006 ORLANDI, Eni Pucinelli. A leitura e os leitores. Campinas-SP: Pontes, 2ª edição, Discurso e texto: Formulação e circulação dos sentidos. Campinas: Pontes, ORLANDI, E.P. Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos. Ed. Campinas, SP: Pontes, Minicurso Tópicos em Análise do Discurso, UFBA Salvador BA, de 16 a 20 de abril de

88 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA: técnicas de ensino em ambientes virtuais de aprendizagem 1 INTRODUÇÃO Fábio Costa Figueirôa 7 A luta e a persistência do homem em criar meios de registrar e passar adiante informações são tão antigas quanto a sua existência. A linguagem através de gestos, sinais de fumaça, pinturas, desenhos nas rochas e a escrita são exemplos de comunicação desde os primórdios da humanidade. Dos meios de comunicação mais antigos até os modernos (imprensa, telégrafo, cinema, rádio, televisão e internet), observa-se que, em qualquer época, o ser humano busca transmitir informações e obter conhecimento, através de tecnologias. As Tecnologias de Informação 7 Fábio Costa Figueirôa é bacharel em Comunicação Social, Jornalista, Radialista, Mestre em Educação pela Universidade Federal de Sergipe, coordenador do Núcleo de Ensino a Distância da Faculdade Tobias Barreto, Consultor em Educação a Distância, criando e instalando Ambientes Virtuais de Aprendizagem em IES, Professor Substituto do Departamento de Museologia da UFS, Assessor de Comunicação do Sintasa e Editor de Texto da TV Atalaia/Record. Sites: ou ou e Comunicação (TIC) têm possibilidades de levar conhecimento para os lugares mais longínquos e até mesmo diminuir distâncias, facilitando o acesso à educação. É possível afirmar que as TICs podem levar à constituição de novos espaços de conhecimento, contribuindo para a busca de caminhos que favoreçam a democratização e a universalização da educação, (LIMA & BOLAÑO, 2001). O avanço científico da humanidade desenvolve o conhecimento e cria tecnologias cada vez mais inovadoras. A evolução tecnológica transforma o comportamento individual e social. As tecnologias de comunicação, como a internet e o computador, evoluem com muita rapidez e geram produtos diferenciados e sofisticados telefones celulares, telefax, softwares, audiovisual, computador multimídia, internet, TV digital e videogames. Neste século, a sociedade está passando a cada descoberta tecnológica, principalmente na área da educação a distância, por uma transformação significativa. O mercado tecnológico sofre mudanças e a adaptação a essa realidade será, cada vez mais, uma questão de sobrevivência. A internet tornou-se aliada do sujeito, por apresentar interfaces interativas e por permitir, pela agilidade e infinitas informações até em tempo real, a realização de várias tarefas 88

89 concomitantes, a utilização de novas linguagens, um novo modo de pensar e agir, de ler e escrever, colocando-o num verdadeiro labirinto eletrônico e conduzindo-o ao afogamento no oceano de informações (ARAÚJO, 2007). A Educação a Distância (EAD) está se tornando, nas últimas décadas, uma verdadeira febre, desde o ensino básico até o superior. Em Educação a Distância, Maria Luiza Belloni traz várias definições sobre EAD de diversos estudiosos. Um desses conceitos nos chama a atenção, pela sua familiaridade com o que entendemos e classificamos o ensino em Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA): A educação é e sempre foi um processo complexo que utiliza a mediação de algum tipo de meio de comunicação como complemento ou apoio à ação do professor em sua interação pessoal e direta com os estudantes. A sala de aula pode ser considerada uma tecnologia da mesma forma que o quadro negro, o giz, o livro e outros materiais são ferramentas ( tecnologias ) pedagógicas que realizam a mediação entre o conhecimento e o aprendente. Na EaD, a interação com o professor é indireta e tem de ser mediatizada por uma combinação dos mais adequados suportes técnicos de comunicação, o que torna esta modalidade de educação bem mais dependente da mediatização que a educação convencional, de onde decorre a grande importância dos meios tecnológicos (BELLONI, p. 54, 2001). Em seu livro Multimídia: Conceituação, Aplicações e Tecnologia, Eduardo Chaves fala da distância que separa a sala de aula do teatro, do cinema ou de um concerto. "Dificilmente nos emocionamos em uma sala de aula, e isto, em parte, porque as aulas são mal preparadas e seu conteúdo pouco envolvente...". Baseado nessa afirmação de Chaves, é importante perceber o papel importante que o computador e a internet exercem em todos os níveis de ensino atualmente. O grande avanço das novas tecnologias na sociedade contemporânea ou da informação é um fato que a maioria das escolas desconhece, principalmente com relação à implantação de salas de aula virtuais. As escolas, por sua vez, oferecem, muitas vezes, um ensino arcaico e obsoleto. Observa-se que uma tendência dominante nas tecnologias de informação é a fusão progressiva de três componentes: o áudio, o vídeo e o computador. Os sistemas interativos audiovisuais possibilitam hoje experiências fascinantes e o professor poderá dar aulas com técnicas extremamente proveitosas, interessantes, lúdicas e que chamem cada vez mais a atenção dos 89

90 alunos. Antes do boom da Internet e do avanço de suas possibilidades, as mídias eram trabalhadas no processo ensinoaprendizagem de forma individualizada. Agora, com os recursos tecnológicos que a internet está oferecendo à educação, o docente já trabalha textos, imagens fixas e em movimento, a exemplo da fotografia, áudio e vídeo, em espaços virtuais pela tela do computador. Mas a utilização de um AVA no âmbito escolar ainda é incipiente e um verdadeiro tabu, mesmo com o desenvolvimento da internet nos dias atuais. Acreditamos que a resistência é uma questão de tempo e será a própria sociedade da informação que exigirá novos conceitos de ensino-aprendizagem. A mesma resistência acontecia com a utilização do vídeo/tv na escola. É o que mostra a tese de doutorado em educação: O Vídeo como Mediador da Comunicação Escolar, de Edilene Vieira Machado, da Universidade de São Paulo. Esse trabalho analisa o vídeo como mediador da comunicação escolar: Por desconhecimento, insegurança, rejeição do novo e despreparo, os professores se recusaram ao uso desse importante e moderno recurso pedagógico. A única professora que aceitou o desafio percebeu seu valor como facilitador do processo ensino-aprendizagem. O vídeo leva à interação, à construção dialógica do conhecimento, facilita a inclusão, ameniza as diversidades e torna mais atraente e interessante o trabalho com os alunos. A pesquisa aponta a necessidade de formação contínua dos professores para trabalhar com esse recurso, uma equipe multidisciplinar para orientação, acompanhamento e envolvimento da escola como um todo, o que resultará em uma práxis que garanta ao aluno o direito à expressão e construção do conhecimento (MACHADO, 2001). Se ainda há o medo e a insegurança entre os professores, ou até mesmo o despreparo em utilizarem as novas tecnologias na educação, fica claro que eles só poderão trabalhar os AVA, conhecendo técnicas para o desenvolvimento do ensinoaprendizagem em espaços on-line. 2 HISTÓRICO DA EAD NO MUNDO E NO BRASIL No século XVIII, um jornal da cidade de Boston, a Gazeta de Boston, nos EUA, precisamente em 20 de março de 1728, trouxe um aviso de mudança de endereço do professor de taquigrafia Cauleb Phillips, que dizia: toda pessoa da região, desejosa de aprender essa arte, pode receber em sua casa várias lições semanalmente e 90

91 ser perfeitamente instruída, como as pessoas que vivem em Boston. 8 Este anúncio é tido como o mais antigo comercial de um curso por correspondência que se tem registro. Fica claro que para o professor de taquigrafia, quem recebesse as lições em sua residência poderia ser tão bem instruído quanto em um curso presencial. Em 1840, um nome mais conhecido do ensino da taquigrafia, o americano Pitman, começou a oferecer cursos por correspondência. Deu início ao primeiro curso regular de taquigrafia por correspondência. Devido ao fato de ter inserido em seu modelo o elemento bidirecional de comunicação, Pitman é considerado o primeiro a praticar educação a distância nesta modalidade. 9 O conceito de comunicação bidirecional está relacionado com a possibilidade de interlocução entre o transmissor e o receptor da mensagem. No caso da educação a distância, o agente transmissor é o próprio educador e o agente receptor é o educando. Note que os níveis de interatividade dependem da maneira como a comunicação bidirecional acontece, que com a tecnologia possibilitou um aumento 8 Brasil. Ministério da Educação e Cultura. Apresenta informações sobre as publicações da TV Escola. Disponível em:. Acesso em: 20 janeiro Brown, H. The rhetoric of distance education, PhD Diss. Texas Woman's University (0925), 352 pp., na eficiência, ou seja, crescendo ainda mais o grau de interatividade entre o professor/aluno. Essa interatividade atual surge em função das novas técnicas de comunicação e cooperação à distância utilizadas, principalmente, em Ambientes Virtuais de Aprendizagem. Podemos perceber que foi a partir da iniciativa do americano Pitman, conhecido como o precursor do ensino a distância, ainda no século XIX, que se deu o grande avanço dessa modalidade em todo o mundo. Isso deixa bem claro que a educação a distância não é um termo recente e já era bastante utilizado. Entretanto ainda estavam iniciando as propostas desse ensino, já que muitos tinham aulas presenciais, como acontece até hoje. Esse boom só veio crescer mesmo no século XX, com a antiga União Soviética, quando criou cursos de graduação a distância. Os educadores daquela época tiveram uma grande importância junto ao ensino a distância, já que se tornou evidente a eficácia e a economia financeira que se obtinha. A partir do século XIX, os cursos que utilizavam os correios tornaramse cada vez mais populares, principalmente nos EUA, Canadá, Austrália e Europa. Em 1920, a União Soviética ampliou a abrangência da EAD, utilizando uma estrutura semipresencial nos cursos técnicos e superiores regulares. Os alunos cumpriam parte das tarefas do curso a distância e tinham momentos presenciais 91

92 obrigatórios. O modelo aperfeiçoado dos cursos da União Soviética foi o precursor da Britsh Open University 10. No Brasil, não se sabe ao certo o período exato do início da Educação a Distância no país. Wanderley Ribeiro (2000) cita João Roberto Alves (1994), (...) Entretanto, o Jornal do Brasil, que iniciou suas atividades em 1891, registra, na primeira edição da seção de classificados, anúncio oferecendo profissionalização por correspondência (datilógrafo), o que faz com que se afirme que já se buscavam alternativas para a melhoria da educação brasileira, e coloca dúvidas sobre o verdadeiro momento inicial da EAD. Mas oficialmente, os cursos por correspondência apareceram por volta de O Instituto Rádio-Monitor (1939) e o Instituto Universal Brasileiro (1941) foram os pioneiros e com experiências de relativo sucesso. Ainda hoje, os fascículos do Instituto Universal Brasileiro podem ser retirados nas agências dos Correios. No caso da educação formal, o curso supletivo de primeiro e segundo graus da Secretaria de Educação do Ceará, o da Televisão Educativa do Maranhão e o curso de aperfeiçoamento para professores alfabetizadores do Rio de Janeiro são os principais exemplos de sucesso usando esta estratégia 11. Entendemos que o melhor sistema de educação a distância deve ter um tutor que ofereça ao aluno o acompanhamento necessário, tirando dúvidas e orientando-o de maneira adequada. Os cursos sem tutoria são aqueles em que o material que será estudado pelo aluno é posteriormente avaliado após as atividades e, na maioria dos casos, no final do curso. Os cursos com a participação de tutores são oferecidos com a ajuda da interação, seja ela presencial ou a distância, entre o aluno e o professor. No século XX, o que se observa é um contínuo movimento de consolidação e expansão da educação a distância. Sob o aspecto quantitativo, amplia-se o número de países, de instituições, de cursos, de alunos e de estudos sobre o ensino por correspondência. Contudo, a significativa alteração qualitativa faz do ensino por correspondência apenas uma das estratégias do que se convencionou chamar de educação a distância. Novas metodologias e técnicas são incorporadas. Novos e mais complexos cursos são desenvolvidos. Novos horizontes se abrem pela educação a distância utilizada nos diversos graus de ensino, principalmente no superior, 10 Laaser, W. et al Manual de criação e elaboração de materiais para EAD, Trad. Marcelo C. de Oliveira, Brasília: Ed. Univ. de Brasília, 189 pp., SEERJ Curso de Aperfeiçoamento para Professores-Alfabetizadores: Correspondência, RJ, BNOO , 6 vols

93 não apenas para cursos de extensão ou preparatórios de exames, mas também como estratégia alternativa para cursos de graduação e de especialização. Mantendo, embora, a utilização de materiais de apoio didático-escritos como sua base, a EAD passa a incorporar de forma articulada e integrada os princípios, processos e produtos que o desenvolvimento científico e tecnológico vem colocando a serviço da comunicação e da informação. E esse crescimento da EAD no ensino superior é constatado por meio dos resultados do Censo da Educação Superior de 2006 que foram divulgados em 19 de dezembro de 2007 pelo Inep. Os dados mostram um grande crescimento nos cursos de educação a distância. De 2003 a 2006 houve um aumento de 571% em número de cursos e de 315% no número de matrículas. Em 2005, os alunos de EAD representavam 2,6% do universo dos estudantes. Em 2006 essa participação passou a ser de 4,4% 12. Percebe-se um crescente uso da Educação a Distância com o passar do tempo, proporcional aos avanços tecnológicos no campo da comunicação. Na mesma medida em que ficava mais fácil a comunicação entre lugares distantes, ficava também mais rápido promover ensino entre esses pontos. O modo síncrono, utilizado no ensino presencial, foi substituído pelo assíncrono na EAD. À medida que novas técnicas em tecnologias de comunicação vão surgindo, esse modo assíncrono vem sendo melhorado, facilitando a comunicação entre o agente emissor e receptor. Em função dessa evolução tecnológica, segundo Prates & Loyolla (1998), a EAD pode ser estudada em três gerações 13 : Geração textual onde o autoaprendizado era levado a efeito tendo como suporte textos simples, geralmente utilizando o correio, dominante até a década de Geração analógica onde o auto-aprendizado era baseado em textos com suporte intenso de recursos como áudio e vídeo, dominante entre os anos 1960 e Geração digital - onde o auto-aprendizado tem como suporte, quase exclusivo, recursos tecnológicos altamente diferenciados, dominante nos dias atuais. No Brasil, a tabela abaixo apresenta que a EAD começa a construir sua história para o ensino de profissões, na década de 1930, evoluindo em função da disponibilidade dos meios de comunicação. A tabela 1 mostra a cronologia da educação a distância no país. 12 <http://www.inep.gov.br/imprensa/noticias/censo/superior/news07_01.htm>. Acesso em: 21 dez PRATES & LOYOLLA. In: 93

94 Tabela 1 Data Recursos Utilizados Fato Folhetos, esquema de Rádio-escola Municipal do Rio de aula, cartas e 1934 Janeiro transmissões radiofônicas Fundado o Instituto Rádio Monitor, 1939 instituição privada que oferece ainda Folhetos hoje cursos profissionalizantes Fundado o Instituto Universal Brasileiro, instituição privada que 1941 Folhetos oferece ainda hoje cursos profissionalizantes Universidade do Ar voltada para 1941 Rádio professor leigo Universidade do Ar criada para treinar comerciantes e empregados em Leitura de aulas feita 1947 técnicas comerciais. Atingiu o ápice na por professores década de 1950, com 80 mil alunos. Sistema Radioeducativo Nacional 1957 passa a produzir programas Rádio transmitidos por diversas emissoras Data Fato Recursos Utilizados Movimento Nacional de Educação de Principalmente rádio Base, concebido pela Igreja e com supervisão patrocinado pelo Governo Federal. periódica. Terminou em Solicitação do Ministério da Educação de reserva de canais VHF e UHF para - TV educativas 1970 Projeto Minerva, em cadeia nacional Rádio Fundação Roberto Marinho (privado) Anos Rádio, TV e material inicia educação supletiva a distância 70 impresso para primeiro e segundo graus A Universidade de Brasília cria os Anos primeiros cursos de extensão a Diversos 80 distância Fonte: Programa de Educação a Distância do CEAD. Brasília, UNB, 1999, p In: Os dados mostram que a educação a distância no país começa com o rádio na década de 30, no Rio de Janeiro. As aulas aconteciam com a leitura de folhetos, cartas dos leitores ou 94

95 professores, por meio das transmissões radiofônicas dentro do estúdio da rádio. Só em 1941 é que se dá início aos cursos de educação a distância através dos impressos e folhetos, um meio que é utilizado até hoje. Agora só mesmo em 1964 é que o Brasil começa a desenvolver o sistema de educação a distância com a iniciativa da TV. Com a EAD, vieram novas formas e técnicas de como praticar cursos semipresenciais ou totalmente a distância. Assim se percebe um crescente uso da educação a distância com o passar do tempo, desde o século XIX, e que vem crescendo de forma proporcional com o aprimoramento das tecnologias e dos seus avanços no campo das técnicas de comunicação. Com isso, a EAD trabalha com dois tipos de comunicação como seus pilares no desenvolvimento do ensino-aprendizagem: a síncrona e a assíncrona. A primeira é a comunicação em tempo real, on-line, o que chamamos também de ao vivo, onde os interlocutores podem trocar informações no mesmo instante. Em Ambientes Virtuais de Aprendizagem, as ferramentas de comunicação, a exemplo do chat (bate-papo) ou videoconferência, são as utilizadas pelos docentes para aplicar a sincronia desejada. Para um aproveitamento em aulas realizadas em espaços virtuais, o tutor baseia-se em técnicas de ensino que são desenvolvidas durante os encontros mediados pelo computador. A segunda é uma comunicação intermitente, na qual os interlocutores necessitam esperar pela resposta. O é um tipo de comunicação assíncrona, bem como a correspondência. Em um AVA, a ferramenta utilizada é o fórum, onde o professor faz questionamentos, aplica atividades ou tarefas individuais ou em grupos, gerando uma interatividade entre os participantes, mas de forma off-line. O modo síncrono, utilizado no ensino presencial, onde professor e alunos reúnem-se para a aula oferecida num lugar e horário previamente determinados, foi substituído pelo assíncrono na EAD, pois não há previsão de encontros presenciais diários entre professor e seus alunos, ocorrendo à interação através das várias mídias disponíveis. À medida que novas tecnologias de comunicação e técnicas vão surgindo, o modo assíncrono vem sendo melhorado, facilitando a comunicação entre o agente emissor e receptor, sendo possível prever o emprego maciço do modo síncrono na EAD em breve tempo, pois a evolução das TICs tem gerado transmissões de videoconferência de alta qualidade, sendo experimentadas desde 95

96 1993 em cursos de pós-graduação pelo Laboratório de Ensino a Distância da Universidade Federal de Santa Catarina AMBIENTES VIRTUAIS DE APRENDIZAGEM (AVA) Os recursos utilizados para a realização de cursos on-line, a exemplo de textos, áudio, vídeo e infográficos, facilitam o entendimento dos conteúdos empregados no ensino a distância, através de Ambientes Virtuais de Aprendizagem. Dessa forma, é fundamental que os profissionais envolvidos em espaços on-line conheçam as técnicas de sua utilização como suporte ao ensino presencial e a distância com o apoio das ferramentas de comunicação, dos recursos disponíveis, dos modelos utilizados no Brasil, das ferramentas de aprendizagem, das comunicações síncronas e assíncronas disponíveis, entre outras possibilidades para docentes e instituições no desenvolvimento do ensino-aprendizagem. Atualmente, há vários recursos e instrumentos que podem ser utilizados na Educação a Distância, o que possibilita a expansão da informação e tem facilitado o acesso aos cursos oferecidos, ampliando assim a interação com o aluno. 14 Brasil. Apresenta informações sobre cursos de pós-graduação a distância. Disponível em:. <http://www.led.ufsc.br>. Acesso em: 9 agosto A EAD está cada vez mais conquistando o seu espaço frente a sociedade brasileira. Com as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, o aluno não se sente mais tão distante assim dos colegas e do professor. Em algumas plataformas de ensino on-line, já é possível ver, escrever, ouvir e falar com os seus colegas de curso e com o tutor, em tempo real, ao vivo, pela internet. Um AVA possibilita ferramentas de comunicação e cooperação em salas virtuais, oferecendo que os participantes estudem em casa ou na sala de aula de um mesmo Estado ou país, recebendo as mesmas propostas e orientações de forma similar, no mesmo espaço de tempo. O que antes era distante, ficou cada vez mais perto com a tecnologia. Finalmente, como afirma Litwin,... na virtualidade tais encontros são possíveis. Talvez tenhamos que dar um outro nome para a educação a distância, visto que hoje ela já não se define pela distância. O que seguramente não vamos mudar é sua definição de educação e a busca de produzir um bom ensino, do mesmo modo que em qualquer outra proposta educativa (LITWIN, p. 9, 1997). Pensando assim, é claro perceber que as TICs contribuem para o desenvolvimento das atividades em um AVA durante a realização de cursos a distância e no apoio aos presenciais. Como pensa Lévy, 96

97 As relações entre o homem, o trabalho, a própria inteligência dependem, na verdade, da metamorfose incessante de dispositivos informacionais de todos os tipos. Escrita, leitura, visão, audição, criação, aprendizagem são capturados por uma informática cada vez mais avançada. (LÉVY, 1993). Mas o que é realmente um AVA? Um Ambiente Virtual de aprendizagem (LMS Learning Management System) é um sistema para gerenciar cursos a distância que utilizam a internet. Almeida (2003) afirma que os ambientes digitais de aprendizagem são sistemas computacionais disponíveis na internet, destinados ao suporte de atividades mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação. Atualmente, existem diversos sistemas oferecidos em todo o mundo. Um Ambiente Virtual de Aprendizagem pode ser utilizado tanto para o ensino a distância quanto para complementação das atividades de educação presencial e treinamento de profissionais em empresas especializadas. Neste trabalho apresentaremos vários sistemas, mas vamos concentrar os estudos e pesquisas com mais exatidão no AVA Moodle 15. Esse LMS 15 A palavra Moodle referia-se originalmente ao acróstico (Modular Object- Oriented Dynamic Learning Environment), que é especialmente significativo para os programadores e acadêmicos da educação. É também um verbo que conta com traduções para mais de 50 idiomas diferentes. Começou a ser idealizado no início da década de 90, na Curtin University of Technology, na Austrália. Hoje, o Moodle não é usado apenas por universidades, mas também por escolas, organizações, empresas e por professores independentes. Atualmente, há vários ambientes virtuais de aprendizagem já utilizados por escolas, universidades e empresas particulares. Dente eles, estão: Teleduc, AulaNet, WebCT, Ensinar, Moodle e os criados por empresas que vendem ou prestam serviço do seu LMS. Uma das mais conhecidas com uma grande carteira de clientes é o webaula 16. Nas salas virtuais criadas pelo software Moodle, há possibilidades de inclusão de materiais de estudo em forma de textos, arquivos, vídeos, links e fotografias que levam ao aluno, onde quer que ele descreve o processo de navegar despretensiosamente por algo, enquanto se faz outras coisas ao mesmo tempo, num desenvolvimento agradável e conduzido freqüentemente pela perspicácia e pela criatividade. Outras informações no 16 Segundo informações do próprio o sistema para gerenciamento de educação a distância do Grupo webaula foi apresentado ao mercado em novembro de 1999, quando foi lançado o portal com o mesmo nome do grupo. Nele, foram disponibilizadas dezenas de cursos gratuitos de informática, para serem freqüentados através da Internet. No segmento corporativo, a ferramenta de e-learning do grupo webaula já está implantada em cerca de 40 empresas, com mais de 200 mil alunos. 97

98 esteja, não só uma oportunidade de aperfeiçoamento profissional, mas também a maior de todas as heranças: o conhecimento! Muitos cursos a distância são oferecidos com o apoio de algum ambiente computacional que é composto de várias ferramentas para gerenciá-los, possibilitar a comunicação entre seus participantes e facilitar a tarefa de organizar conteúdos. No ensino superior federal, são utilizados ambientes com licença livre e gratuita. Um exemplo desse software é o TelEduc, criado no Brasil pela Universidade de Campinas, que vem sendo desenvolvido desde 1997 de maneira participativa, com o apoio de vários especialistas em educação a distância. Outro que está sendo o mais utilizado por Instituições de Ensino Superior, tanto na rede privada quanto na pública, é o Moodle. Ambiente Virtual de Aprendizagem também de licença gratuita, porém criado pelo australiano Martin Dougiamas, especialista em informática, e já traduzido em mais de 50 idiomas. A estrutura de um curso e o planejamento dos conteúdos são fundamentais para aprendizagens significativas, ou seja, aquelas onde realmente o aprendiz adquiriu conhecimento. A adaptação dele às realidades dos alunos faz parte das estratégias e técnicas de ensino a distância. No mercado, há vários softwares livres e gratuitos, não só para a aplicação de cursos para o desenvolvimento do ensino-aprendizagem, como também para a produção de sites de conteúdo na web. O software livre é aquele onde o código-fonte está disponível e permite que os usuários copiem, repassem, distribuam e até modifiquem de acordo com os seus gostos, vontades e interesses próprios. Segundo Roberto Hexsel, software livre é: o software disponível com a permissão para qualquer um usá-lo, copiá-lo, e distribuí-lo, seja na sua forma original ou com modificações, seja gratuitamente ou com custo. Em especial, a possibilidade de modificações implica em que o código fonte esteja disponível. Se um programa é livre, potencialmente ele pode ser incluído em um sistema operacional também livre. E importante não confundir software livre com software grátis porque a liberdade associada ao software livre de copiar, modificar e redistribuir, independe de gratuidade. Existem programas que podem ser obtidos gratuitamente, mas que não podem ser modificados, nem redistribuídos. Por outro lado, existe a possibilidade de uso não-gratuito em todas as categorias listadas no que segue (HEXSEL, 2002). Já o Software gratuito ou freeware possui limites, não precisam ser pagos, onde a licença está liberada, porém com uma versão simplificada. Para Emerson Alecrim, 98

99 o software gratuito (freeware), por si só, é um software que você usa sem precisar pagar. Você não tem acesso ao seu código-fonte, portanto não pode alterá-lo ou simplesmente estudá-lo, somente pode usá-lo, da forma como ele foi disponibilizado. Isso deixa claro a diferença entre software livre e um sofware simplesmente gratuito. O software livre possui tanta importância que se não fosse assim o Linux não existiria ou ficaria restrito aos muros de uma universidade. Linus Torvalds, o "pai do Linux", quando criou o sistema, não quis guardá-lo para si só. Quis montar um sistema que atendesse às suas necessidades, mas que também pudesse ser útil para mais alguém. Fez isso sem saber que estava acabando de "fundar" uma comunidade: a Comunidade Linux (ALECRIM, 2004). Há diversas ferramentas de cooperação e comunicação nesses ambientes. A possibilidade de visualizar quem está presente na sala virtual é uma delas e tem se mostrado uma característica necessária para minimizar a sensação de solidão que os alunos sentem ao participar de cursos on-line, além de ser uma forma de promover o estabelecimento de relações pessoais e de comunicação, fundamental para o sucesso de qualquer atividade em grupo. Em cursos a distância, além de conhecer características dos demais participantes, é necessário também saber quem está conectado ao mesmo tempo no ambiente. Com isso, os usuários/alunos/participantes podem se comunicar automaticamente um com os outros, por meio de várias ferramentas de comunicação síncrona e assíncrona: , chat ou bate-papo, correio eletrônico dentro do próprio ambiente, fóruns, listas de discussão, etc. De acordo com Moran (1997), é importante que as instituições que trabalham com ambientes virtuais saibam como escolher, integrar e para que utilizar cada ferramenta de comunicação em um curso a distância. Analisando alguns aspectos de ferramentas de comunicação e cooperação não-presencial em cursos a distância pela web, podemos verificar que são atingidas as seguintes características: interação ativa que envolve tanto o conteúdo do curso quanto a comunicação pessoal; aprendizagem colaborativa evidenciada pelos comentários dirigidos dos tutores/professores aos alunos/participantes e vice-versa; significados construídos socialmente e evidenciados pela concordância ou questionamento, com a intenção de chegar a um acordo; compartilhamento de recursos entre os alunos; expressões de apoio e estímulo trocadas entre os alunos, tanto quanto a vontade de avaliar criticamente o trabalho dos outros (Palloff e Pratt, 2004). 99

100 Em Ambientes Virtuais, com já apresentado anteriormente, há ferramentas de comunicação e cooperação em cursos online tanto em formatos assíncronos quanto em síncronos. Tomando como exemplo o Moodle, AVA utilizado pela grande maioria das instituições federais de ensino, como a Universidade Federal de Sergipe, é possível conhecer ferramentas de atividades; notícias; participantes; próximos eventos; quickmail; usuários online; chat; diário; pesquisa; fórum; glossário; lição; questionário; tarefa; wiki; entre outras. Nas ferramentas síncronas de chat ou bate-papo e videoconferência, é possível encontros entre o tutor e seus alunos, em espaços virtuais, em tempo real, em dia e horários agendados. Nesses contatos, é possível uma interação de colaboração e cooperação por parte do professor junto aos participantes de cursos online. O chat é uma ferramenta de comunicação que permite a interatividade síncrona entre aluno/aluno e professor/aluno com data e horário previamente marcados. Os chats são agendados pelo professor, onde se pode criá-lo para que todas as mensagens discutidas fiquem arquivadas para futuras pesquisas entre os participantes. A atividade em Chat permite que haja uma interatividade entre todos, onde as dúvidas podem ser tiradas instantaneamente, por meio de texto, sem áudio e vídeo. Mas é necessário que o tutor saiba utilizar técnicas de mediação durante as aulas, só assim o aprendizado será significativo. Já a videoconferência é um método de transmissão de informações, na qual é possível uma comunicação bidirecional por meio de recursos sonoros e visuais, em tempo real, em que o aluno pode interagir com o professor, esclarecendo suas dúvidas conforme sua necessidade. Há diferença entre uma e outra é a possibilidade de recursos adicionais. Enquanto o chat só é possível a comunicação por meio de texto, na videoconferência ocorre, além de texto, por áudio e vídeo. Nesse caso, o aluno vê, ouve, fala e escreve para o tutor e seus colegas. Já as ferramentas de comunicação assíncrona, especialmente no ambiente Moodle, podemos citar: Diário (tem como objetivo permitir que os participantes do curso registrem suas impressões sobre qualquer assunto, como por exemplo, a respeito do andamento do curso, algo a lembrar); Pesquisa ou Escolha (funciona para registrar as respostas dos participantes a uma determinada pergunta), Fórum (ferramenta de interação entre alunos e professores, que propicia o debate de questões previamente relacionadas pelo tutor, ocorrendo assim, a troca de conhecimento entre todos na sala); Questionário (consiste em um instrumento de composição de questões com respostas do tipo, verdadeiro ou falso, múltipla escolha, associação, etc); Tarefa (o conteúdo da tarefa é 100

101 escrito em uma caixa de diálogo de texto, possui data de início e de entrega, pode-se impedir envio de tarefa atrasada, aceita arquivos em Word, pdf, entre outros. O aluno envia sua resposta que fica arquivado no sistema da sala virtual para posterior correção do professor. A partir do arquivo enviado, o tutor faz suas anotações, avaliando o aluno, dando o feedback necessário e até atribuindo nota ao material enviado) e Wiki (essa ferramenta é simplesmente uma página na web que conta com o apoio de todos no curso, onde qualquer aluno pode inserir textos, editá-los e deletá-los). É fundamental e essencial que antes de ministrar um curso on-line, o tutor conheça passo a passo as técnicas de ensino a distância e cada ferramenta disponível no LMS que irá trabalhar. Com isso, poderá tirar o maior proveito do AVA. O Moodle é um sistema de gerenciamento que serve para ajudar educadores que desejam criar cursos mediados pelo computador. O software é utilizado em todo o mundo por universidades, escolas, empresas e professores independentes. Ainda é um projeto em desenvolvimento e distribuído livremente por ser um software open source, ou seja, aberto, sob os termos de licença pública GNU 20. Ele pode operar em qualquer computador com acesso à internet. O inventor é o australiano, doutor em educação, Martin Dougiamas 21. Figura 1 4 O MOODLE De acordo com o próprio site traduzido em português 17, o Moodle é um pacote de software para a produção de sítios web e disciplinas na internet. Ou seja, é um software livre como o Xoops 18 ou Joomla 19 que são utilizados para a produção de sites de conteúdo. 17 Outras informações, acesse 18 Outras informações, acesse 19 Outras informações, acesse Martin Dougiamas O Moodle ainda é um projeto em andamento. Dougiamas vem desenvolvendo-o já há alguns anos, desde 1990, quando era 20 A licença do Moodle pode ser encontrada no 21 As informações pessoais, os gostos, a família de Martin Dougiamas podem ser acessadas no Para entrar em contato, envie para ou 101

102 webmaster da Curtin University of Technology e administrador de sistemas da instalação do WebCT 22 na instituição. Martin Dougiamas faz duras críticas ao uso do WebCT, o que lhe fez pensar no desenvolvimento do Moodle: encontrei muitas frustrações com esse bicho do WebCT e fui adquirindo uma coceira que precisa aliviar. Tinha que ter uma forma melhor. Vários protótipos foram criados até se chegar à versão 1.0 em 20 de agosto de Atualmente, já está em funcionamento, à versão 2.0. A filosofia de aprendizagem do Moodle é formada na pedagogia socioconstrucionista, baseada em quatro conceitos principais: Construtivismo, Construcionismo, Construtivismo Social e Comportamento Conectado e Separado 23. Em linhas gerais, o Ambiente Virtual de Aprendizagem Moodle promove uma pedagogia de colaboração, atividade e reflexão crítica; próprio para aulas por meio da Comunicação Mediada pelo Computador, com tecnologia simples e eficiente; instalado em qualquer plataforma para suporte PHP 24, exigindo apenas uma base 22 A WebCT é um gerenciador de cursos on-line, como o Moodle. Outras informações, acesse 23 Para obter mais informações sobre a filosofia do Moodle, acesse 24 PHP é uma linguagem de programação de computadores interpretada, livre e muito utilizada para gerar conteúdo dinâmico na World Wide Web, como por exemplo a Wikipédia. Apesar de ser uma linguagem de fácil aprendizagem e de de dados que pode ser compartilhada. Um site Moodle pode suportar milhares de cursos e a maioria das áreas de entrada de texto (recursos, postagens nos fóruns, envio de tarefas etc.) pode ser editada usando um editor HTML WYSIWYG 25 incorporado. Após a instalação do Moodle, o ambiente possibilita ao administrador escolher o tema específico que pretende trabalhar. Tema aqui tem o sentido de design, formato, cores... Na figura 2, observa-se uma interface da página principal ou home do Moodle. utilização para pequenos scripts dinâmicos simples, o PHP é uma poderosa linguagem orientada a objetos. 25 HTML é uma linguagem de marcação utilizada para produzir páginas na Web. Documentos HTML podem ser interpretados por navegadores. WYSIWYG é a capacidade de um programa de computador de permitir que um documento, enquanto manipulado na tela, tenha a mesma aparência de sua utilização, usualmente sendo considerada final a forma impressa. O uso inicial do termo foi relacionado a editores de texto, agora porém é aplicado a qualquer tipo de programa. Um exemplo clássico de editor WYSIWYG é o OpenOffice.org ou Microsoft Word, no qual o documento é mostrado na tela da mesma forma que será impresso. 102

103 Figura 2 Já a figura 3 mostra a interface criada do curso de Técnicas de Reportagem em Telejornalismo, realizado pelo Núcleo de Ensino a Distância da Faculdade Tobias Barreto26. Figura 3 Interface de uma sala virtual no Moodle Interface de um AVA Moodle 26 Outras informações, acesse 103

104 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A apresentação do cenário atual da Educação a Distância, no qual se destaca o advento das inovações tecnológicas da informação e da comunicação que, associadas ao processo de globalização, vem transformando a realidade mundial e colocando novos desafios para a sociedade e para a educação. Após um século de prática, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação 27 (LDB), em 1996, enfim, reconheceu a Educação a Distância como uma modalidade de ensino tão válida quanto a presencial. Esse fato, sem dúvida, trouxe à EAD um avanço inimaginável há poucos anos atrás, tanto em número de cursos quanto de instituições renomadas que passaram a ofertá-la. De acordo com o que pensa o filósofo francês, Pierre Lévy, os sistemas de educação e formação precisam de novas reformas. A educação aberta e a distância precisam ser assimiladas e incorporadas ao dia-a-dia do ensino, transformando-se assim, uma nova forma de pedagogia onde o docente não consiste mais como o detentor de conhecimento, e sim, passa a ser um animador da inteligência coletiva de seus grupos de alunos, em vez de um fornecedor direto de conhecimentos (LÉVY, 1999). Lévy acredita 27 Outras informações no que isso só é possível por meio das ferramentas tecnológicas da informática. O professor e sociólogo Marcos Silva nos ensina que a humanidade passa por um processo de transição da comunicação passiva para a interativa, no qual o ensino-aprendizagem atravessa por uma revolução. Silva acredita que a educação presencial ou a distância é baseada na transmissão do conhecimento que vem sendo superada pelo modelo interativo, ocorrendo assim, uma co-criação do conhecimento. O texto Sala de Aula Interativa: a educação presencial e a distância em sintonia com a era digital e com a cidadania desmistifica o que pensamos e achamos até então com relação à interatividade. Para o professor Marcos Silva, não significa que só há interatividade em cursos mediados pelo computador. Ela ocorre com ou sem os recursos da informática. Com isso, ele quer dizer que o ensino interativo acontece sempre quando ocorrem cooperações mútuas SILVA, Marcos. Sala de Aula Interativa: a educação presencial e a distância em sintonia com a era digital e com a cidadania. Disponível em: <http://www.senac.br/informativo/bts/272/boltec272e.htm> Acesso em: 21 dez

105 Interatividade é um conceito de comunicação e não de informática. Pode ser empregado para significar a comunicação entre interlocutores humanos, entre humanos e máquinas e entre usuário e serviço. No entanto, para que haja interatividade é preciso garantir duas disposições basicamente: 1. A dialógica que associa emissão e recepção como pólos antagônicos e complementares na co-criação da comunicação; 2. A intervenção do usuário ou receptor no conteúdo da mensagem ou do programa, abertos a manipulações e modificações. (SILVA, 2000). Com isso, fica claro que a interatividade não é um fenômeno único e exclusivo da era em que vivemos, a digital, e sim, pode ocorrer até sem os recursos da informática. Porém, não podemos negar que são nas tecnologias que a interatividade ganha força, o que Lévy chama de cibercultura. Pierre Levy acredita no uso do ciberespaço será inevitável para espalhar o conhecimento e a informação. E reitera que o ensino de quadro e giz não resiste mais à dinâmica que a humanidade está vivendo no mundo contemporâneo. As Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTIC) estão provocando mudanças em muitas áreas da sociedade, como também na educação por meio dos usos do computador e da internet. Moran (1997) ratifica a importância das instituições saberem trabalhar com ambientes virtuais e como escolher, integrar e para que utilizar cada ferramenta de comunicação em um curso a distância. Com a evolução das tecnologias, o homem acompanha ou pelo menos tenta acompanhar essa inovação de acordo com a sua época. O crescimento tecnológico gera um novo comportamento entre os indivíduos de uma sociedade. As Novas Tecnologias de Informação e Comunicação estão surgindo com uma rapidez impressionante. A nanotecnologia está criando diversos equipamentos que vão desde os telefones celulares que possuem câmeras de fotografia, áudio, vídeo e internet, aos novos softwares de computadores multimídia, principalmente os que possibilitam uma interação para o desenvolvimento do ensino-aprendizagem. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALECRIM, Emerson. Software Livre e Software Gratuito: a diferença. Disponível em:. <http://www.infowester.com/linlivrexfree.php>. Acesso em: 25 set ALMEIDA, M. E. B. de. (2003) Educação a Distância na Internet: abordagens e contribuições dos ambientes digitais de aprendizagem. Educação e Pesquisa, São Paulo. 105

106 ARAÚJO. J.C. (2007) Internet & ensino: novos gêneros, outros desafios. (Org.) Rio de Janeiro: Lucerna. BELLONI, Maria Luiza. (2001) Educação a Distância. 2ª ed. Autores Associados, Campinas, SP. CHAVES, Eduardo. O. C. (1991). Multimídia: Conceituação, Aplicações e Tecnologia. Campinas/SP: People Computação Ltda. HEXSEL, Roberto A. Propostas de Ações de Governo para Incentivar o Uso de Software Livre. Disponível em:. <http://www.inf.ufpr.br/info/techrep/rt_dinf004_2002.pdf>. Acesso em: 30 set LÉVY, PIERRE (1993) As Tecnologias da Inteligência. O Futuro do Pensamento na Era da Informática. Rio de Janeiro: Ed. 34 LTDA. LÉVY, PIERRE (1999). Cibercultura. São Paulo: Editora 34. LIMA, Maria de Fátima M. (2002). No Fio de Esperança: Políticas Públicas de Educação e Tecnologias da Informação e da Comunicação. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal da Bahia. Salvador. LIMA, Maria de Fátima; BOLAÑO, César. (2001) Mundo do Trabalho e Educação a Distância. In Comunicação & Educação: Revista do Curso de Gestão de Processos Comunicacionais. ECA USP. Artigo Nacional; São Paulo, Ano VII, jan./abr. nº 20 p LITWIN, Edith (1997). (org.) Tecnologia Educacional política, histórias e propostas. Porto Alegre: Artes Médicas. MACHADO, Edilene Vieira (2001). O Vídeo como Mediador da Comunicação Escolar. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de São Paulo. MORAN, J. M. Como utilizar a Internet na Educação. Ciência da Informação. Brasília, Vol 26, n.2, maio/agosto, 1997, p SILVA, Marcos. Sala de Aula Interativa: a educação presencial e a distância em sintonia com a era digital e com a cidadania. Disponível em: <http://www.senac.br/informativo/bts/272/boltec272e.htm> Acesso em: 21 dez SILVA, Maros (2000). Sala de Aula Interativa: a educação presencial e a distância em sintonia com a era digital e com a cidadania. Rio de Janeiro: Quartet. 106

107 ESCOLA ESPECIAL X ESCOLA INCLUSIVA PARA ALUNOS COM SURDEZ: o que dizem as pesquisas RESUMO Sandra Rosa Baldin 29 Este é um artigo de revisão do tipo bibliográfica que objetiva apresentar e discutir as diferentes visões sobre a inclusão escolar de pessoas com surdez na rede regular de ensino. Diante do movimento mundial da inclusão de todos nas escolas regulares de ensino, alguns autores defendem os ganhos que os surdos podem ter nesta escola, porquanto, na convivência entre surdos e ouvintes, todos acabam ganhando e aprendendo com a diferença. Por outro lado, alguns pesquisadores defendem a escola especial para surdos, onde estes podem se relacionar com seus pares, alegando que os surdos possuem cultura própria. ABSTRACT This is a literature review article which objective present and discuss the different views about the school inclusion of the deaf people into the regular school. Given the worldwide movement of inclusiveness in mainstream education, some authors defend the gains that the deaf can have in this school. In the relations between deaf and hearing all end up winning, learning with the difference. On the other hand, some researchers defend the special school for deaf people, where they can relate to each other, claiming that the deaf people have their own culture. Key-words: Deaf people. Inclusive school. Special school. 1 INTRODUÇÃO Palavras-chave: Pessoas com Surdez. Escola Inclusiva. Escola Especial. SPECIAL SCHOOL X INCLUSIVE SCHOOL FOR DEAF STUDENTS: WHAT DOES SEARCHES TELL ABOUT IT 29 Professora da Faculdade José Augusto Vieira FJAV. Desde a última década do século XX, o assunto sobre a inclusão da pessoa com deficiência, na rede regular de ensino, vem conquistando um importante espaço no meio acadêmico. Diversos autores vêm discorrendo sobre as vantagens para todos os alunos que a inclusão proporciona. Sendo assim, diversas experiências já foram realizadas, onde demonstram tal sucesso. 107

108 Quando se fala em deficientes físicos, deficientes intelectuais ou deficientes visuais há diversas publicações a favor da inclusão, bem como as famílias e os professores veem como positiva a inclusão destes na escola regular. Porém, quando se fala na inclusão escolar das pessoas com surdez essa realidade muda, pois existem divergências teóricas quanto à inclusão do surdo na rede regular. Os surdos possuem uma forma específica de comunicação, uma língua espaço-visual, a Língua Brasileira de Sinais LIBRAS. Segundo Quadros e Karnopp (2004, p. 30), as línguas de sinais são, portanto, consideradas pela linguística como línguas naturais ou como um sistema linguístico legítimo, e não como um problema do surdo ou como uma patologia da linguagem. Partindo desta perspectiva, alguns pesquisadores defendem que os surdos possuem uma cultura própria, isso faz com que o surdo identifique-se com outro surdo, é neste contato que ocorre o aprendizado. Sá (2005) afirma que a escola inclusiva não atende adequadamente ao direito das pessoas com surdez, pois não oferece a elas o ambiente adequado ao seu desenvolvimento e defende a escola somente às pessoas com surdez, principalmente nos anos iniciais. Por outro lado, há estudos realizados por outros autores que oferecem importantes contribuições quanto à inclusão das pessoas com surdez na escola regular, que ressaltam a valorização das diferenças no convívio entre os alunos. De acordo com Poker (2001 apud DAMÁZIO, 2007), as trocas simbólicas provocam a capacidade representativa desses alunos, favorecendo o desenvolvimento do pensamento e o conhecimento, em ambientes heterogêneos de aprendizagem. Para falar em inclusão é necessário citar a Declaração de Salamanca, um documento que foi utilizado como norteador para a legislação atual, bem como para as práticas educativas que visam à inclusão. A Educação inclusiva é caracterizada como uma política social que se refere a alunos com necessidades educacionais especiais 1, tomando-se o conceito mais amplo: O princípio fundamental desta linha de ação é de que as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de suas condições físicas, intelectuais, emocionais, linguística e outras. Devem acolher crianças com deficiência ou bem dotadas, crianças que vivem nas ruas e que trabalham, crianças de populações distantes ou nômades, crianças de minorias linguísticas étnicas ou culturais e crianças de outros grupos ou zonas 108

109 desfavorecidas ou marginalizadas (DECLARAÇÃO DE SALAMANCA, 1994, p ). Tendo em vista os dois posicionamentos teóricos elencados, o presente estudo objetiva apresentar e discutir as diferentes visões sobre a inclusão escolar de pessoas com surdez na rede regular de ensino, a partir de pesquisas dos principais estudiosos de tal temática e, desta forma, contribuir para a discussão deste tema e sua maior visibilidade. Para realização desta pesquisa foi utilizada bibliografia atualizada sobre as temáticas enunciadas, com o objetivo de esclarecer e discutir os posicionamentos dos autores. 2 EDUCAÇÃO DE PESSOAS COM SURDEZ mista, quando podem haver lesões na Orelha Externa, Média e/ou Interna (KATZ, 2004). Tendo em vista que a Língua Brasileira de Sinais LIBRAS é uma língua espaço-visual, os surdos possuem uma cultura diferente da dos ouvintes. De acordo com Wrigley (1996 apud QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 18), contrário ao modo que muitos definem surdez como um impedimento auditivo pessoas surdas definemse em termos culturais e linguísticos. Sendo assim, as formas de organizar o pensamento e a linguagem transcendem as formas auditivas. A ordem do pensamento é organizada de forma visual, podendo parecer aos ouvintes sem significado em alguns momentos. Essas características se formaram ao longo da convivência dos surdos em movimentos de resistência. É considerada surda a pessoa que possui perda parcial ou profunda da capacidade de perceber os sons. O grau das perdas auditivas pode ser leve, moderado, severo e profundo. Quanto à classificação, a perda auditiva pode ser do tipo condutiva, onde a lesão encontra-se na Orelha Externa e/ou na Orelha Média, neurosensorial, quando a lesão encontra-se na Orelha Interna e A LIBRAS foi oficializada pelo Governo Federal Brasileiro a partir da Lei de 24 de abril de 2002, entrando em vigor com o Decreto de 22 de dezembro de Desta forma, os surdos passaram a ter direito de acesso ao conhecimento e à informação a partir da sua língua. O português é utilizado na forma escrita, o qual não é substituído pela LIBRAS. 109

110 As línguas de sinas não são mundiais, ou seja, cada país possui a sua e, no caso do Brasil, é a Língua Brasileira de Sinais LIBRAS. Assim como a Língua Portuguesa, as línguas de sinais nascem a partir das relações sociais estabelecidas pelas pessoas de um determinado grupo. O canal de comunicação diferente das línguas orais é, conforme Quadros e Karnopp (2004, p. 23), visualespacial [e] significa aqui o conjunto de elementos linguísticos manuais, corporais e faciais necessários para a articulação do sinal em um determinado espaço de enunciação. Os estudos científicos da língua de sinais têm sua origem a partir de trabalhos realizados nos Estados Unidos por Willian Stokoe em 1957 sobre a ASL Língua Americana de Sinais. No Brasil, desde a última década alguns autores vêm pesquisando a LIBRAS e esclarecem que esta se constitui em uma língua que pode ser comparada à portuguesa, por exemplo. Como exemplifica Quadros (1997): Até recentemente, os sinais eram considerados apenas representações miméticas, totalmente icônicas, sem nenhuma estrutura interna formativa. Entretanto as pesquisas que vêm sendo realizadas nesse campo evidenciam que tais línguas são sistemas abstratos de regras gramaticais, naturais às comunidades surdas dos países que as utilizam (p. 38). Conforme esclarecem Quadros e Karnopp (2004), na língua espaço-visual os articuladores primários são as mãos, que se movimentam no espaço em frente ao corpo e articulam sinais em determinadas locações neste espaço. Um sinal pode ser feito com uma ou com as duas mãos. A formação dos sinais obedece aos mesmos princípios da construção das línguas orais. Sendo assim, possui um léxico, um conjunto de símbolos convencionais, um sistema de regras. Portanto, a Língua Brasileira de Sinais LIBRAS é uma língua com toda sua complexidade e não um conjunto de gestos aleatórios. Cada sinal, por mais simples e fácil que pareça, atende a uma estrutura linguística própria da língua de sinais, a qual deve ser respeitada, senão não será LIBRAS, e sim gestos sem significados. Em 1760, na França, a língua de sinais foi utilizada pelo Abade L Epée como língua de instrução para surdos, no então denominado Instituto de Surdos-Mudos de Paris. Tendo em vista o sucesso de tal metodologia, a mesma ganha legitimidade como eficiente método de ensino para surdos. No Brasil, a história dos surdos começa a ser viabilizada com a chegada ao país do francês Hernest Huet, filho de nobres, que 110

111 nasceu em 1822 e aos doze anos ficou surdo. Chegou ao Brasil em 1885 e, apoiado pelo então Imperador Dom Pedro II, ele fundou em 26 de setembro de 1857 o Imperial Instituto de Surdos-Mudos, hoje conhecido como Instituto Nacional de Educação de Surdos INES, localizado no Rio de Janeiro. O ano de 1880 é um importante marco na história dos surdos, pois neste ano aconteceu o famoso Congresso de Milão. O principal objetivo do Congresso foi o de definir qual o melhor método para ser utilizado na educação dos surdos no mundo. Deste congresso sai a orientação para a educação dos surdos. Segundo Skliar (2001), esse congresso é marcado por um numeroso grupo de educadores ouvintes que impôs a superioridade da língua oral sobre a língua de sinais e decretou, sem fundamentação científica alguma, que a linguagem articulada deveria constituir o único objetivo do ensino. Desse modo, passa a ser utilizado o oralismo na educação dos surdos. Este autor acrescenta que essa concepção enquadra-se dentro do modelo clínicoterapêutico da surdez, em oposição ao modelo sócio-antropológico. A metodologia do oralismo estava voltada para a cura do problema auditivo e para o desenvolvimento da fala (p. 112). Ainda de acordo com Skliar (2001, p. 114), numerosas pesquisas assinalam o estado de atraso considerável em que se encontram as crianças e adolescentes surdos, em relação aos seus companheiros ouvintes, em quase todas as áreas acadêmicas. A dificuldade que os surdos apresentam em seu desenvolvimento cognitivo não se deve à língua de sinais e sim à proibição desta durante tanto tempo. Skliar (2001, p. 129) esclarece que se aos surdos foi negada historicamente sua identidade e sua língua, seria um simples reducionismo acusá-los de ter limitações em seus processos psicológicos superiores. Diante desse difícil contexto, surge uma proposta que permite o uso da língua de sinais com o objetivo de desenvolver a linguagem na criança surda. Os sinais passam a ser utilizados pelos profissionais em contato com o surdo dentro da estrutura da língua portuguesa, o chamado português sinalizado Comunicação Total. Porém, tal método passa a ser criticado pelos estudiosos da área. Uma das críticas é feita por Brito (1993), ao notar que o sistema da comunicação total desconsidera a língua de sinais e sua riqueza estrutural e acaba por desestruturar também o português, além de que vem demonstrando não ser eficiente para o ensino da 111

112 língua portuguesa, pois se tem verificado que as crianças surdas continuam com defasagem tanto na leitura e na escrita, como no conhecimento dos conteúdos escolares. Ademais, verifica-se em alguns anos que o português sinalizado não corresponde ao desenvolvimento esperado da criança surda, iniciando-se a proposta da educação bilíngue. Conforme afirma a Lei, Quadros e Karnopp (2004, p. 23) lembram que, a educação de surdos no Brasil deve ser bilíngüe, garantindo o acesso à educação por meio da língua de sinais e o ensino da língua portuguesa escrita como segunda língua. Quadros (1997) define bilinguismo na educação de surdos como representante das...questões políticas, sociais e culturais. Nesse sentido, a educação de surdos, em uma perspectiva bilíngüe, deve ter um currículo organizado em uma perspectiva visual-espacial para garantir o acesso a todos os conteúdos escolares na própria língua de sinais brasileira (p. 14) O bilinguismo é apresentado por Brito (1993) como uma abordagem educacional para a integração social. Salienta que a língua apresenta um papel central no processo educacional, pois essa será usada constantemente durante as aulas. A língua portuguesa será ensinada com ênfase na escrita considerando que o canal de aprendizagem do surdo é visual. Sendo assim, a educação bilíngue vai além da questão linguística, vez que não basta à escola disponibilizar pessoas que dominem a LIBRAS, mas é necessária uma adaptação em todos os ambientes. Os surdos têm o direito de informação em todos os setores e eventos que acontecem no espaço escolar. Essa modalidade de educação implica em novas abordagens metodológicas, já que o surdo possui uma cultura visual. Para que os surdos tenham um efetivo desenvolvimento é necessária que lhes seja assegurada uma educação bilíngue. Conforme afirma Skliar (2001, p. 146), a partir do modelo bilíngue a criança surda poderá utilizar suas capacidades linguísticocomunicativas, desenvolver sua identidade cultural e aprender. De acordo com Quadros (2000, p. 54) quando me refiro ao bilinguismo não estou estabelecendo uma dicotomia, mas sim reconhecendo as línguas envolvidas no cotidiano dos surdos, ou 112

113 seja, a língua de sinais brasileira (LSB) e o português no contexto mais comum do Brasil. Conforme a mesma autora, quando se fala em ensino bilíngue para surdo refere-se ao ensino a partir de duas línguas, desta forma os surdos têm o direito de acesso ao conhecimento através da sua língua materna, a LIBRAS. Esse tipo de educação pode ser ofertado tanto na rede regular de ensino, como nas escolas especiais para surdos. A escola especial para surdos é pensada só para surdo, desta forma, possui uma organização visual diferenciada com todas as informações visíveis seja através de sinais em LIBRAS ou em Português escrito, as metodologias e materiais são preparados para esse público e todos os professores e funcionários desta escola devem dominar a LIBRAS. Vale ressaltar que as pessoas surdas possuem somente uma limitação, a de escutar, desta forma sua comunicação, quando não há LIBRAS, torna-se difícil e em alguns casos impossível (QUADROS, 2000). Já na escola regular de ensino, onde o surdo encontra-se matriculado juntamente às pessoas ouvintes, oferta-se ao aluno um intérprete de LIBRAS durante as aulas e, no turno contrário, o Atendimento Educacional Especializado. Este atendimento caracteriza-se como um complemento das aulas, tendo como foco o ensino de LIBRAS (da língua), o ensino em LIBRAS (dos diferentes conteúdos) e o ensino da Língua Portuguesa (DAMÁZIO, 2007, p. 15). O Intérprete de LIBRAS é uma pessoa fluente nesta língua e na Língua Portuguesa, que interpretará de forma simultânea o que o professor esta explanando em sala de aula, tendo a função de interpretar o professor e não de ensinar. De acordo com a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), as escolas regulares que possuem uma orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater atitudes discriminatórias, criando-se comunidades acolhedoras, construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos; além disso, tais escolas proveem uma educação efetiva à maioria das crianças e aprimoram a eficiência e, em última instância, o custo da eficácia de todo o sistema educacional. 113

114 Desde a última década do século XX que Sassaki, (1997), Mantoan (1997) e Stainback e Stainback (1999) enunciam o princípio de que todos podem participar da vivência escolar e comunitária. O processo de inclusão perpassa todas as esferas da sociedade, sendo uma ação mútua buscando, assim, a possibilidade de oportunidades entre todas as pessoas, independente de sua condição física ou sensorial. Segundo Bueno (2001), o desafio que confronta a escola inclusiva é o de desenvolver uma pedagogia centrada na criança, capaz de educar a todas com sucesso, incluindo aquelas que possuem desvantagens severas. Conforme Dorizat (1998 apud DAMÁZIO, 2007), o aperfeiçoamento da escola comum em favor de todos os alunos é primordial. Esta autora observa que os professores precisam conhecer e usar a língua de sinais, entretanto, deve-se considerar que a simples adoção dessa língua não é suficiente para escolarizar o aluno com surdez. Assim, a escola comum precisa implementar ações que tenham sentido para os alunos em geral e que esse sentido possa ser compartilhado com os alunos surdos. Conforme Bueno (2004 apud DAMÁZIO, 2007), é preciso ultrapassar a visão que reduz os problemas de escolarização das pessoas com surdez ao uso desta ou daquela língua, mas sim de ampliá-la para os campos sociopolíticos. Atualmente, o grande desafio da escola é mudar suas práticas educativas, atingir a todos os alunos independentemente de suas condições físicas, intelectuais ou sensoriais. É preciso que seja pensada uma prática para um novo tipo de homem, que valorize o multiculturalismo e a heterogeneidade dentro do espaço educativo. Os autores que defendem a escola especial para surdos partem do seguinte pressuposto: Perlin e Quadros (1997) criticam a educação inclusiva, enfatizando as implicações linguística e são enfáticas em afirmar a inviabilidade dessa possibilidade para as pessoas com surdez, baseadas em posições linguísticas, culturais, sociais e educacionais. Essas pesquisadoras acreditam que o fracasso das pessoas com surdez está relacionado, principalmente, à aquisição e uso da Língua de Sinais na escola comum. Ao questionar a um surdo se ele preferia estudar em escola especial ou de ouvintes, Sá (1997, p. 174) recebeu a seguinte resposta: 114

115 Eu fiz o segundo grau numa escola comum, conheço bem isso. Eram poucas as pessoas que vinham conversar comigo. Com muitas pessoas as ouvintes é como se fosse um estrangeiro, falando inglês. Pode ser que no futuro, até haver uma integração entre surdos e ouvintes, mas é importante é que os ouvintes aprendam sinais. A escola inclusiva, de acordo com Sá (1997), não beneficia ao surdo que tem direito a uma educação plena e significativa. Para esta autora, nessa escola torna-se impossível que o surdo venha a adquirir de modo natural a sua língua materna e arremata que a história já mostrou o fracasso de propostas como estas, no caso dos surdos. Nessa perspectiva, a única escola significativa para os surdos é a escola que reflete sua situação sóciopolítica. O que defendemos é Escola para Surdos. Posso até arriscar a dizer: defendemos escola regular para surdos, ou seja, escola comum, escola igual a qualquer outra escola, mas escola que usa a língua de sinais, que reflete sua condição de diferente (SÁ, 1997, p. 189). A escola inclusiva tem uma visão colonialista. Skliar (1999) alega que a escola especial está sendo substituída por uma escola inclusiva que não respeita a identidade política surda, sua cultura, sua comunidade. Os autores citados defendem a escola só para surdos, pois acreditam que o encontro surdo-surdo é fundamental para o desenvolvimento deste sujeito, no que diz respeito à cultura deste grupo. Para esclarecer: Considerando que a cultura surda mostra uma nostalgia curiosa em relação a uma comunidade imaginária e que é barbaramente ou profundamente transformada, senão destruída com o contato com a cultura hegemônica, ela age como reguladora da formação da identidade surda, que se reaviva novamente no encontro surdo-surdo. Este encontro é um elemento chave para o modo de produção cultural ou de identidade, pois implica num impacto na vida interior e lembra da centralidade da cultura na construção da subjetividade do sujeito surdo e na construção da identidade como pessoa e como agente pessoal (MIRANDA, 2001, p. 62). Pereira (2008) argumenta que a escola especial deve ter o papel de diagnosticar a surdez e orientar a família, que deve procurála ao desconfiar que seu filho seja surdo. E cabe a esta escola o dever de disponibilizar às famílias informações necessárias e as bases para iniciar o desenvolvimento da linguagem na criança. A tarefa destas escolas deve ser de preparar o surdo para a inclusão nas escolas comuns. 115

116 Damázio (2005) diz que ser contrário à educação inclusiva escolar de alunos com surdez é defender guetos normalizadores que, em nome das diferenças existentes entre pessoas com surdez e ouvintes, sectarizam e homogeneízam a educação escolar. A mesma autora, em sua pesquisa, faz o seguinte questionamento: a dificuldade de escolarizar alunos surdos estaria na língua ou nas práticas pedagógicas desenvolvidas nesses dois espaços escolares? E responde: tem-se constatado que nas escolas comuns que passaram a adotar a Língua de Sinais no cotidiano de suas salas de aula, sem quaisquer outras mudanças nas suas práticas pedagógicas, os alunos com surdez estão enfrentando dificuldade no aprendizado da Língua Portuguesa. A partir de pesquisa realizada em duas unidades de ensino fundamental da rede municipal com programa sistematizado de atendimento para alunos com surdez na escola comum, Damázio (2005) conclui que oito pontos podem ser considerados como principais barreiras: sistema de comunicação; ensino da Língua portuguesa; estrutura da escola; sistema de avaliação; organização dos conteúdos curriculares; metodologias de ensino; recursos pedagógicos e o apoio da família. Dessas oito barreiras, seis são consideradas problemas para qualquer aluno na escola e apenas duas são específicas dos alunos com surdez: o sistema de comunicação e o ensino da Língua Portuguesa. Conclui também que para haver inserção de alunos com surdez em escola comum, na visão inclusiva, é preciso ir além da superação da estrutura educacional atual das escolas e enfrentar a questão da formação de professores comuns e especializados (DAMÁZIO, 2005). Pereira (2008) acredita que quanto mais a criança interage com diferentes situações, mais ela adquire conhecimento. Esta autora apresenta um estudo das vantagens da inclusão dos surdos nas escolas regulares para os surdos e para os ouvintes. Os estudantes com surdez apresentam as seguintes vantagens: a) Aprendem a gostar da diversidade; b) Adquirem experiência direta com a variedade das capacidades humanas; c) Demonstram crescente responsabilidade e melhor aprendizagem através do trabalho em grupo, com outros deficientes ou não; e) Ficam mais bem preparados para a vida adulta em uma sociedade 116

117 diversificada: entendem que são diferentes, mas não inferiores (PEREIRA, 2008). E os estudantes ouvintes também são beneficiados: a) Têm acesso a uma gama bem mais ampla de papéis sociais; b) Perdem o medo e o preconceito com relação ao diferente, desenvolvem a cooperação e a tolerância; c) Adquirem grande senso de responsabilidade e melhoram o rendimento escolar; d) São melhores preparados para a vida adulta porque desde cedo assimilam que as pessoas, as famílias e os espaços sociais não são homogêneos e que as diferenças são enriquecedoras para o ser humano (PEREIRA, 2008). Assim, esta discussão é finalizada apresentando-se as duas correntes, onde cada uma defende sua postura teórica. Como não foi intenção, neste estudo, defender nenhuma corrente, cabe a cada leitor buscar mais bibliografias, bem como pensar nas práticas que conhece ou vivencia para posicionar-se em uma das correntes teóricas. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Não há dúvidas que a Língua Brasileira de Sinais LIBRAS é o principal meio de comunicação entre surdos e ouvintes e que na escolarização dos surdos faz-se fundamental. Os surdos, por não ouvirem, desenvolveram além da língua de sinais uma cultura específica, a cultura surda, que se caracteriza por experiências visuais. Desta forma, aprendem sua língua naturalmente na convivência com outros surdos, onde passam também sua cultura e assim formam sua identidade. A história da escolarização dos surdos é marcada por um longo período de negação de sua língua materna. Assim, os surdos foram marginalizados por longa data, o que os deixou em desvantagem quanto ao aprendizado. A partir da última década do século XX, surge a proposta do bilinguismo que, além de aceitar a língua de sinais como fundamental no processo de ensino, reconhece e aceita sua diferença cultural. O bilinguismo na educação dos surdos representa um grande avanço para sua escolarização, porém, esses estudantes se depararam com mais um dilema na sua vida escolar. Há dois anos o 117

118 movimento da inclusão vem tentando fechar as escolas especiais para que estes alunos passem a frequentar a escola inclusiva. Diversos movimentos em todo o País, bem como alguns autores vêm defendendo a continuidade do trabalho desenvolvido nas escolas especiais para surdos. A partir do exposto neste artigo, foram apresentadas as duas vertentes teóricas que atualmente estão discutindo essa questão. Pensa-se que há muito por fazer e por aprender no que diz respeito ao ensino para surdos. Desta forma, independente de onde os surdos estejam matriculados, faz-se necessário que se busque uma adaptação geral na escola. Que sua língua e cultura sejam realmente respeitadas e valorizadas. Além disso, os professores e profissionais da escola devem buscar capacitação para que saibam quem realmente é o sujeito surdo, para assim dar a ele o atendimento adequado. Nota Explicativa: 1 Pode-se incluir no elenco das Necessidades Educacionais Especiais, pessoas com condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais e sensoriais diferenciadas; com deficiência e bem dotadas; trabalhadoras ou que vivem na rua; de populações distantes ou nômades; componentes de minorias linguísticas, étnicas ou culturais; de grupos desfavorecidos ou marginalizados. REFERÊNCIAS BRITO, L. F. Integração Social & Educação de Surdos. Rio de Janeiro: Babel Editora, 1993, p.116. BUENO, J. G. S.. Educação inclusiva e escolarização dos surdos. Revista integração. Brasília: MEC. n. 23, Ano 13, 2001, p DAMÁZIO, M. F. M. Atendimento educacional especializado: pessoa com surdez. Brasília: SEESP/SEED/MEC, 2007, p Educação Escolar inclusiva para pessoas com surdez na escola comum questões polêmicas e avanços contemporâneos. Ensaios Pedagógicos: Construindo Escolas Inclusivas. Brasília: Ministério da Educação / Secretaria de Educação Especial, 2005, p KATZ, J. Tratado da Audiologia Clínica. Editora Manole, Rio de Janeiro: 2004, p MIRANDA, W. Comunidade dos surdos: olhares sobre os contatos culturais. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: UFRGS, 2001, p

119 MANTOAN, M. T. E. A Integração de pessoas com deficiência: contribuições para uma reflexão sobre o tema. São Paulo: Memnon: Editora SENAC, 1997, p PEREIRA, R. de C. Surdez: Aquisição de Linguagem e Inclusão Social. Editora Revinter, Rio de Janeiro: 2008 p PERLIN, G. T. T.; QUADROS, R. M. Educação de surdos em escola inclusiva? Revista Espaço, vol. 7. Rio de Janeiro: Ines, 1997, p SASSAKI, R. K. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. 2 ed., Rio de Janeiro: WVA, 1997, p SKLIAR, K. Atualidades da educação bilíngüe para surdos. 2. ed., volume 1, Porto Alegre: Mediação, 1999, p Uma perspectiva sócio-histórica sobre a psicologia e a educação dos surdos. Educação & Exclusão: Abordagens sócioantropológicas em educação especial. 3 ed., Porto Alegre: Mediação, 2001, p QUADROS, R. M. de; KARNOPP, L. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004, p STAINBACK, S; STANBACK W. Inclusão: um guia para educadores. Porto Alegre: Artmed, 1999, p QUADROS, R. M. de. Alfabetização e ensino da língua de sinais. Revista Textura, n.3, Canoas: 2000, p UNESCO. Declaração de Salamanca. São Paulo: Biblioteca Virtual de Direitos Humanos/USP, São Paulo, 2003, p Educação de Surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre. Artmed, 1997, p SÁ, N. R. L.. Discurso surdo: a escuta dos sinais. A Surdez: Um olhar sobre as diferenças. 3. ed. Porto Alegre: Mediação, 2005, p

120 EDUCAÇÃO AMBIENTAL: discurso e prática na sociedade do FAHRENHEIT 451 : conhecimentoversus poder ARAUJO, Andréia Silva (Universidade Federal de Sergipe); 30 BARRETO, Eccia Alécia (Universidade Federal de Sergipe); 31 BARROS, Maria Emília de R. de A. Barreto (Profa. Orientadora Núcleo de Letras/ UFS); ABSTRACT Our objective in this work consists of an analysis of the speech of the power before the society. For this, we use as main instrument of work clippings of the film Fahrenheit 451, of François Truffaut, always relating with the theories of the Analysis of Speech (AD henceforth) e, mainly, to the foucaultianos theoretical postulates. Keywords: knowledge; to power; analysis of the speech. RESUMO 1 INTRODUÇÃO 32 O nosso objetivo neste trabalho consiste em uma análise do discurso do poder perante a sociedade. Para isto, utilizamos como principal instrumento de trabalho recortes do filme Fahrenheit 451, de François Truffaut, sempre o relacionando com as teorias da Análise do Discurso (doravante AD) e, principalmente, aos postulados teóricos foucaultianos. Palavras-chave: conhecimento; poder; análise do discurso. 30 Aluna de graduação em Letras-Português, pela Universidade Federal de Sergipe/Prof. Alberto Carvalho Aluna de graduação em Letras-Português, pela Universidade Federal de Sergipe/Prof. Alberto Carvalho. Este trabalho tem como embasamento teórico os pressupostos da Análise do Discurso (doravante AD), em especial os postulados teóricos de Michel Foucault (1996). Sabe-se que este, por sua vez, não é considerado um teórico da AD, entretanto, concordamos com Gregolin (2008), para quem Foucault constitui um dos pilares da AD. Através de tais postulados, procuramos identificar o comportamento do estado perante a sociedade, mais especificamente em relação às questões ideológicas e sociopolíticas com o conhecimento. Para isso, utilizamos recortes do filme Fahrenheit 451 de François Truffaut 32 Este trabalho foi desenvolvido durante o segundo semestre de 2008, na disciplina Introdução às Teorias do Discurso, sob a orientação da professora Maria Emília Barreto Barros (UFS- Campus Prof. Alberto Carvalho). 120

121 como corpus para a pesquisa. Esse filme apresenta aspectos importantes para o desenvolvimento deste trabalho, na medida em que é um filme que acontece nos anos 60, contexto histórico marcado pelo regime totalitário. Este por sua vez é um regime que obriga uma sociedade a viver e conviver em um sistema no qual não escolheu. Desse modo, é comum tratar o comunismo como sendo o único sistema totalitário. No entanto, podemos citar como exemplo o caso dos vietnamitas que foram obrigados, por meio de bombardeios pesados, advindos das frotas dos Estados Unidos, a se aglomerarem em centros urbanos, com o objetivo único de se desenvolverem. Nesse sentido, o urbanismo seria nessa perspectiva a única forma de desenvolvimento. Dessa maneira, teríamos mais dois sistemas totalitários: urbanização e desenvolvimento que foram acarretados pela globalização. No caso do filme, podemos perceber aspectos desse regime em relação à leitura nesta sociedade, pelo fato de o governo proibir o conhecimento através da queima de livros. Aspecto este visto no filme a partir do chefe de bombeiros, representante de detenção de poder e do conhecimento. Sendo assim, não seria do interesse dele que a população tivesse o conhecimento, pois quem conhece questiona. Dessa forma, a sabedoria reflexiva e aprofundada, representada pela posse do livro, é tachada de crime e por isso punida. Então, podemos afirmar que a função do chefe de bombeiros era também redefinir o papel do bombeiro na sociedade, visto que todos os estabelecimentos eram construídos com materiais que não eram absorvidos pelo fogo. Assim, a partir dos postulados teóricos de Foucault acionados, desenvolvemos a seção seguinte relacionando-os à questão da verdade versus mentira, do poder da mídia, da transformação do sujeito (através das políticas de fechamento de Foucault), das sociedades do discurso, entre outros aspectos com o filme em análise. Por fim, apresentamos as nossas considerações finais. 2 - TEORIA E PRÁTICA: UMA ANÁLISE DISCURSIVA Como mencionado anteriormente, o corpus em análise é o filme Fahrenheit 451, filmado em 1966, do diretor François Truffaut, baseado no romance de Ray Bradbury. O filme tem como personagem principal o bombeiro Guy Montag que vive em sociedade futurista regida pelo regime totalitário, o qual impõe a queima de todos os livros, fato este que pode ser analisado como 121

122 sendo a destruição do conhecimento. No universo do filme, o conhecimento não é apreciado, uma vez que, segundo o estado, os livros perturbam os sujeitos e os deixam antissociais. Dessa forma, o sujeito que lê passa de acomodado para investigador, ou melhor, passa a buscar respostas. Ao analisar o filme Fahrenheit 451, logo é possível perceber que o próprio nome já nos dá indícios do que será abordado, pois 451 na escala de fahrenheit é a temperatura necessária para que o fogo queime o papel, no caso do filme, os livros. Este aspecto pode ser visto em um trecho do filme quando Montag explica para Clarice o porquê de 451 no fardamento dos bombeiros. Neste contexto, o fogo significa o desprendimento, a salvação e a destruição, visto que, de todas as formas de destruição de livros, o fogo é o mais significativo por ser mais eficaz. Ou seja, quando o papel é queimado, ele é consumido totalmente, transformando-se em cinzas que desaparecem pelo ar, tornando mais rápida a destruição sem deixar vestígios. Em Fahrenheit, as fogueiras queimando os livros são as imagens mais frequentes e significativas. Talvez a cena mais importante do filme seja justamente quando há uma enorme fogueira que consome os livros e a mulher que os possuía, como pode ser visto na figura a seguir: Figura 1: Mulher sendo queimada junto aos seus livros. Disponível em: stevenhartsite.wordpress.com/.../07/hot-type-2/. Além do mais, é exatamente nessa cena que fica claro que o chefe dos bombeiros era um detentor do conhecimento, na medida em que a grande quantidade de livros a serem queimados provoca o espírito destruidor dele, como podemos notar no seguinte 122

123 trecho: É mesmo de encher os olhos. Eu sabia! Eu sabia! É claro que isto... a existência de uma biblioteca secreta, era conhecida nos altos escalões. Mas, não havia meios de chegar até ela... (FAHRENHEIT, 1966). Enquanto fala, percebe-se que seus olhos brilham cada vez mais. Posteriormente, o chefe fala para Montag: É tudo nosso Montag! Ouça-me, Montag! Uma vez, cada bombeiro, pelo menos uma vez em sua carreira, ele anseia saber o que há nesses livros. Ele precisa saber, não é? Acredite no que digo, Montag. Não há nada neles! Os livros não têm nada a dizer (FAHRENHEIT, 1966). A partir dessas palavras, podemos presumir (como já mencionamos) que o chefe de bombeiros conhece os livros, sabe o que eles dizem, e aos poucos vai mencionando alguns dos livros presentes na biblioteca. Nesse sentido, caso não os conhecesse, não poderia assumir o discurso de que não há nada neles, pois é necessário conhecer para poder questionar. Dessa maneira, o chefe de bombeiros representa a instituição que detém o poder sobre determinados discursos (neste caso o discurso do saber), possibilitando que aquele que o exerce o faça de modo restrito e segundo uma determinação adequada. Em relação ao discurso institucional, Foucault ironiza tais mecanismos, segundo ele estas seriam as palavras das instituições: Você não tem porque temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis que há muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra, mas o desarma; e que se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que lhe advém (FOUCAULT, 1996, p.7). Então, no contexto do filme, os livros (elementos catalisadores de ideias) são vistos como destruidores da igualdade social, fato que pode ser comprovado na cena em que o chefe de bombeiros relata que os livros suscitam os espíritos agitadores. Assim, pode-se perceber que não é do interesse do detentor do poder que a sociedade se torne questionadora. Portanto, para que esses espíritos não despertem é que eles perseguem as pessoas ativistas e ainda queimam quaisquer livros, nesse momento podemos ver o discurso da verdade (daquele que detém o poder). Nas palavras de Foucault (1996, p.35): É sempre possível dizer o verdadeiro no espaço de uma exterioridade selvagem; mas não nos encontramos no verdadeiro senão obedecendo às regras de uma polícia discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos. 123

124 É importante ainda mencionar que o filme Fahrenheit também mostra um jogo ou uma disputa entre texto e a imagem, entre os livros - a palavra escrita - e a imagem, ou seja, é uma sociedade oral. Dessa forma, as palavras designam as coisas, mas não existem signos gráficos para representá-las. Então, na falta da escrita, outros dispositivos funcionam para nomear e qualificar as coisas, tais como os números, uma vez que estes não aceitam metáforas e nem fantasia. Os números apenas aceitam o que representam: quantidade. Podemos ver este aspecto na cena em que o chefe de bombeiros mostra as pastas dos bombeiros, as quais são identificadas por enormes números. O próprio Montag não é Montag, mas sim o número E ainda, não há nada escrito dentro das pastas, resumindo-se a sucessões de fotos em vários formatos e ângulos. Este fato, por sua vez, também é visto na escola, onde as crianças só aprendem operações com números. Além disso, como mencionado, observa-se que o momento histórico presente no filme é o dos regimes totalitários, o qual demanda a censura de tudo aquilo que possa perturbar sua ordem ou que coloque em risco sua continuidade. Em outras palavras, um regime político em que o poder absoluto do Estado é organizado sobre a vida pública e privada dos cidadãos. Estes, por seu turno, têm a obrigação de participar das manifestações políticas, sem o direito de divergir de certos princípios básicos. É justamente por ser uma sociedade marcada pela censura e pelo autoritarismo que os livros são queimados. Isso se deve ao fato de os livros serem veículos de projetos emancipadores, numa forma de resistência à superdesvalorização da cultura e da vida. Ou melhor, o livro representa o passado, o conhecimento da história e a possibilidade de uso da fantasia, dessa forma, eles colocam em risco o projeto autoritário da instituição do poder. Portanto, queimá-los é um ato que se resume em apagar, incinerar o conhecimento, a ilusão, a magia e a memória. Em outras palavras, a queima do livro é uma metáfora, pois, queimá-lo significa matar as ideias e o passado. Nesse sentido, pode-se deduzir que a questão principal do filme não é a proibição e a queima de livros, mas a falta de memória da sociedade. Desse modo, pode-se dizer que se trata de uma sociedade alienada, ou seja, uma sociedade que segue todas as regras instituídas pelo Estado sem fazer nenhum tipo de questionamento ou crítica. Um bom exemplo dessa alienação é a personagem Linda (esposa de Montag) já que esta nunca se lembra de nada do passado. Este fato pode ser visto no momento em que ela toma pílulas em excesso, pressupõe-se que o motivo é o fato de 124

125 não se lembrar de tê-las tomado anteriormente. Essa questão das pílulas é uma marca da sociedade em contexto, que além de ser viciada nessas drogas, é também alienada à televisão interativa, que não só a influencia como toda a sociedade. Nesse sentido, observase o papel e o poder que a mídia tem sobre a sociedade que, por sua vez, é manipulada em função dos interesses daquela. Inicialmente, acredita-se que a mídia tem o papel primordial de informar, trazer a público o que ocorre no espaço social. No entanto, ela exerce um papel automanipulador e deformador, na medida em que mostra o lado da realidade que lhe convém. A qualquer preço, torna visível o invisível, seleciona o que é mais surpreendente, afastando-se assim do que é fiel, do que verdadeiro. Segundo Charaudeau (2007), o sistema midiático funciona por duas lógicas: a lógica econômica, agindo como uma empresa, e a lógica simbólica, responsável pela construção da opinião pública. Assim, a construção de sentido dependerá da intencionalidade que se instaura entre a produção e a recepção, levando em conta as instâncias de produção o produtor de informação; de recepção o público; e do texto como produto que é o meio pelo qual se transmite o discurso. Charaudeau (2007) discute também o papel de quem informa. A princípio, o informador terá credibilidade a depender de sua posição social e de sua representatividade, ou seja, de como ele representa o grupo ao qual pertence. Em se tratando deste filme, o informador é o próprio Estado Totalitário. Em tal caso, pode-se notar que a vida dessa sociedade corre pela superfície, sem qualquer possibilidade de adensamento dos afetos e das emoções. Outro ponto de relevância presente no filme diz respeito às operações da memória e do esquecimento que estão em franco desequilíbrio. Se para uma sociedade normal é fundamental selecionar a memória, esquecer para lembrar, em Fahrenheit tudo deve ser esquecido e é a partir disto que é possível constatar a instalação de desequilíbrio. Além da proibição dos livros, tem-se a ausência de comunicação, de interação entre os membros da sociedade, sendo que o que domina é a máquina televisiva. Segundo as teses foucaultianas, o poder está fundamentalmente ligado ao corpo, em todas as sociedades modernas, uma vez que é sobre ele que se impõem as obrigações, as limitações e as proibições. Então, a sociedade do filme é operada para fazer não o que se quer, mas como se quer, havendo assim, um silenciamento de vozes. Assim, o governo como instituição tem como propósito produzir um sujeito obediente. Nas palavras de Foucault 125

126 (FOUCAULT 1997 apud GREGOLIN, 2003, p.101): um sujeito individual obediente aos hábitos, regras, ordens; uma autoridade que é exercida continuamente em volta e acima dele e que deve internalizar para funcionar automaticamente. Além do mais, nota-se que a televisão (o poder midiático) em Fahrenheit é tão significativa, que Truffaut inicia o filme com uma sequência de imagens de antenas de TV sobre os telhados (figura 2). Esse enfoque pode ser associado a câmeras de vigilância, uma vez que, ao ter a ausência da antena, é um indício da existência de livros. Vale ressaltar que na sociedade de Fahrenheit a TV é permitida, porém não é democrática na medida em que suas programações são manipuladas e, até mesmo inventadas, como por exemplo, ao final do filme quando Montag, após fugir da cidade, chega à sociedade dos homens-livros, no entanto a mídia por mando do Estado projeta uma captura falsa. Ou seja, se criou um espetáculo em que o final favorecesse ao autoritarismo. Figura 2: Sequência de imagens de antenas de TV sobre os telhados. Disponível em: polegartorto.blogspot.com/2009_01_01_archive.html No livro A ordem do discurso, Foucault (1996) menciona a questão da sociedade do discurso, que tem por função conservar ou produzir discursos. Entretanto, o discurso é circulado em um espaço fechado. Em relação a esse fato, tal autor cita o exemplo de modelos arcaicos, como os grupos de rapsodos que possuíam o conhecimento dos poemas a recitar, mas, apesar de possuir um 126

127 caráter ritual, eram protegidos e conservados por um grupo determinado. Podemos associar este fato ao contexto do filme, pois assim como os rapsodos, na sociedade dos homens-livros (figura 3) cada pessoa era responsável por memorizar um livro, e assim tornarem-se livros-vivos. Dessa maneira, cada indivíduo transformase num instrumento de preservação da memória, na intenção de deixá-lo para a posteridade. No caso do personagem principal, Montag, ao fugir para essa sociedade, igualmente aos outros, incorpora um livro, qual seja: Contos de mistério e imaginação de Edgar Alan Põe (único livro que pode salvar). E a partir de então, este irá esperar (assim como os demais livros-vivos) ser chamado para recitar livremente e, quem sabe, voltar a ser impresso. Ligando esses fatos ao contexto atual, Foucault (1996, p.40) dirá que: mesmo na ordem do discurso publicado e livre de qualquer ritual, se exercem ainda formas de apropriação de segredo e de nãopermutabilidade. Figura 3: Sociedade dos homens-livros. Disponível em: bartolote.wordpress.com/page/2/ Sobre isso, é importante mencionar que para a sociedade do filme essas pessoas eram consideradas loucas por fugirem da cultura da alienação, existindo assim, na sociedade, um princípio de exclusão, neste caso, de separação e rejeição. Desse modo, as pessoas que faziam parte da sociedade dos livros possuíam o discurso da loucura pelo fato de serem contra as normas estabelecidas pelo estado. A esse respeito Foucault (1996, p.10) diz: o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: 127

128 pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo nem importância. Além disso, esse fato pode ser relacionado ao momento em que os bombeiros prendem o tio de Clarice, por fazer parte da sociedade dos livros. É interessante ainda ressaltar que o roteiro do filme se vale da paradoxalidade, sempre usando metáforas, pois no contexto deste filme os bombeiros prendem e queimam livros, diferentemente do nosso contexto que os bombeiros somente apagam o fogo e salvam pessoas. Mas percebe-se que o tipo de bombeiro que apaga, em vez de incendiar, já havia existido. Isso fica claro quando Clarice, em um trecho do filme, pergunta a Montag se antigamente os bombeiros apagavam o fogo. E Montag ri, pois este de início fazia parte da sociedade alienada e diz que isso nunca existiu, visto que ele, como a maioria da população, não têm lembranças do passado. Sendo assim, Montag era submisso e se mostrava como o verdadeiro modelo de cidadão alienado pelo sistema. É tanto que, nesse primeiro momento, o bombeiro afirma que os livros são lixos que tornam as pessoas antissociais e infelizes. Outra paradoxalidade é a questão do carro de bombeiros, que em vez de trazer água lança um líquido combustor. Em tal caso pode-se dizer que o incendiar dos livros servia para combater a chama interna que é capaz de acender em um determinado sujeito. Ainda é possível analisar o processo de transformação de Montag no desenvolvimento do filme, relacionando-o com os postulados teóricos da AD. Acionando tais postulados, é possível perceber que Montag, no primeiro momento, é assujeitado (1 fase da AD) à ideologia do estado, a qual era detentora do poder e somente sua verdade era aceita. Um trecho do filme que nos deixa claro esse assujeitamento é quando o chefe de bombeiros pergunta a Montag o que ele faz em suas folgas e ele responde que corta a grama. Então, o chefe diz: e se o governo proibir que se corte a grama? Montag responde que fica vendo a relva crescer. Ou seja, Montag encontra-se assujeitado à maquinaria do sistema. Dessa forma, o controle do discurso significa o controle do próprio poder, segundo Foucault o discurso está relacionado a uma reverberação de uma verdade, ou melhor, mantém-se essa verdade socialmente instituída. Como bem argumenta Foucault (1996, p. 20): [...] é que se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que responde ao desejo ou aquele que exerce o poder, na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso 128

129 verdadeiro, o que está em jogo, senão o desejo e o poder? [...] a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdade que ela quer não pode deixar de mascará-la. Com o desenrolar do filme, Montag vai tomando consciência do vazio de sua vida e um trecho do filme que remete este fato é quando ele conhece Clarice (faz parte da sociedade ativista), pois ela faz com que Montag vá aos poucos acordando da sonolência intelectual. A partir desse momento, Guy passa a representar a discussão filosófica em um duelo entre a vida simples, triste, sistemática e a busca pelo desejo da compreensão, do desvio do consumismo, que indaga as ações de uma sociedade que vê na queima dos livros a estabilidade do sistema. Nesse momento, podemos dizer que ele é um sujeito mais ou menos assujeitado (2º fase da AD). A esse fato podemos relacionar ao que Foucault chama de interdição, na medida em que não se pode dizer tudo, em qualquer circunstância, simbolizando a proibição da palavra. Além disso, Foucault afirma que as interdições que atingem os discursos revelam sua ligação com o desejo e o poder. Até então, Montag só falava a partir do lugar que estava, ou seja, do lugar de um bombeiro. Mas quando ele passa a conhecer os livros e presencia uma mulher preferir morrer com seus livros a viver sem eles é que Guy Montag sai de sua posição de assujeitado e passa a ser um questionador (conhecedor do saber). Desse modo, ele passa a ser um sujeito clivado (3º fase da AD), na medida em que passa pelo consciente e o inconsciente. Um trecho do filme que demonstra essa passagem é quando Montag queima seu chefe (figura 4) no momento em que ele vai incendiar os livros que estavam escondidos em sua casa e, posteriormente, foge para a sociedade dos homens-livros. Figura 4: Montag no momento que vai incendiar os livros de sua própria casa e por conseguinte seu chefe. Disponível em: mikecane2008.wordpress.com/.../ 129

130 Dessa forma, Fahrenheit 451 finaliza com a seguinte ideia: corpos podem ser mortos e livros podem ser destruídos, mas a verdadeira devoção a um propósito não pode ser apagada da mente humana. Essa queima de livros também pode figuratizar o que presenciamos hoje, nas escolas: a morte das múltiplas possibilidades de interpretar um livro. Para Orlandi (2003), a interpretação é definida como o fato simbólico mais característico da historicidade e deve ser entendida a partir da história do leitor em relação aos textos que o constituem. O texto, por sua vez, é compreendido como um conjunto de relações significativas que mudam de leitor para leitor, a partir de sua historicidade. Sendo assim, o leitor extrai de textos, relacionados uns aos outros, as propriedades dos discursos que lhe interessam para compreender os processos de significação. A interpretação, nesse sentido, é o resultado de um trabalho histórico-social com regras de funcionamento que desfazem a noção de leitura institucionalmente imposta. 3 - CONSIDERAÇÕES FINAIS No cotejo entre as concepções foucaultianas e o filme Fahrenheit 451, observamos que o fogo é o conhecimento que forma novas imagens através das chamas. Sendo assim, o livro (conhecimento) é sacrificado em toda a trama representando a materialização do coração humano, visto que, para o poder, o livro era o verdadeiro estopim da infelicidade humana e, devido a isto, deveriam permanecer fechados através da queima. Nesse sentido, a vontade não é a expressão do desejo do homem, pois nossa vontade de verdade camufla nossos desejos. Então, o que está em jogo é o desejo e o poder, dessa forma, o discurso (poder) mascara a verdade, e o desejo do homem é escamoteado e surrupiado, prevalecendo o discurso do indivíduo que detém o poder, ou seja, o saber. Assim, como diz Foucault, cada sociedade tem sua política geral da verdade. Fahrenheit 451 ironiza as conquistas humanas, por isso, as destrói a cada cena, ou seja, os caminhos vão se desenhando a cada cena, e o fogo que queima é o mesmo que instaura a redenção. Nesse contexto, o objetivo de Truffaut foi transmitir uma forma de luta 130

131 contra a autoridade arbitrária, podendo perceber que o próprio filme é contra o poder geral, na medida em que esse poder subestima a cultura ou lhe dá importância exagerada. Para demonstrar tal aspecto, o autor inverte os valores por intermédio dos paradoxos, como explicado na seção anterior. Cabe aqui mencionar que a censura aos livros é um tema atual e não somente de ficção científica: todos os dias são queimados livros pelo mundo. Um exemplo dessa prática em tempos menos recentes são as fogueiras dos nazistas após a ascensão de Hitler ao poder. Além deste, outros filmes abordam essa temática de manter a sociedade distante do conhecimento e das reflexões, tais como Giordano Bruno e Joana D Arc, que foram queimados por quererem disseminar o conhecimento. Analisar as relações de poder-saber veiculadas na sociedade nos permite começar a identificar as características e práticas particulares que têm efeitos perigosos, dominadores ou negativos para nossa vida o que irá colaborar, de certa forma, para sermos cidadãos conscientes de nossos direitos. Isso significaria termos um novo olhar para as instituições educacionais e governamentais de nosso país, o que poderia abrir novas possibilidades de mudanças em nossa prática de vida. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Editora Contexto, FAHRENHEIT 451. François Truffaut, produção de Lewia M. Allen. Inglaterra: Universal Pictures, DVD (112 min): son., color. Legendado: Português. FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso aula inaugural no Collége de France, pronunciada em 2 de dezembro de São Paulo, SP: Edições Loyola, GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise. O Acontecimento Discursivo na Mídia: Metáfora de uma Breve História do Tempo. In: GREGOLIN, M. do R. V. (org). Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz, p GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise. No diagrama da AD brasileira: heterotopias de Michel Foucault. In: Pedro Navarro. (Org.). O discurso. Nos domínios da linguagem e da história. 01 ed. São Carlos: Claraluz, 2008, p

132 ORLANDI, Eni Pucinelli. A leitura e os leitores. Campinas-SP: Pontes, 2ª edição, SILVA, Terezinha Elisabeth da. Montag e a memória perdida: notas sobre Fahrenheit 451 de François Truffaut. Belo Horizonte, v. 8, n. 1, p.78-87, jan./jun Disponível em: Acesso em: 05 de dezembro de 2008, às 09h30min. 132

133 O QUASÍMODO DA SOCIEDADE: a prostituta como monstro no conto Ana Frágua, de Antonio Carlos Viana. RESUMO Marconi de Almeida Nascimento O presente trabalho apresenta uma análise do conto Ana Frágua, de Antonio Carlos Viana, centrado na idéia de aproximação do ofício da prostituta com a noção de monstro. À luz dos recentes estudos a despeito da cultura do monstro na literatura, pensamos nas várias possibilidades de relacioná-los ao conto em questão. Palavras-chave: Ana Frágua Antonio Carlos Viana prostituta monstro. ABSTRACT The present work presents an analysis of the story Ana Frágua, by Antonio Carlos Viana, centered in the idea of approach of the prostitute's occupation with the monster notion. To the light of the recent studies in spite of the culture of the monster in the literature, we thought about the several possibilities of relating them to the story in subject. Keywords: Ana Frágua - Antonio Carlos Viana prostitute - monster. Os homens precisam de monstros para se tornarem humanos. (Gil, 1994, p. 88) O monstro não passa de uma barreira, impensável e sempre pensada, nos limbos da razão, como as raças monstruosas que habitavam na periferia do mundo humano. São os nossos guardiões e é necessário produzi-los apenas em número suficiente para nos ajudar a pensar e a manter a nossa humanidade em nós. Sob pena de já não sabermos muito bem o que faz de nós seres humanos. (Gil, 1994, p. 132) O conto intitulado Ana Frágua está inserido no livro de contos Aberto está o inferno, do escritor sergipano Antonio Carlos Viana, publicado em 2004, pela Companhia das Letras. A leitura do mesmo possibilita várias inferências e suscita surpreendentes reações, sobretudo em contato com o cenário simplório, povoado de personagens também simplórias, contextualizadas em torno do grotesco. E foi justamente o grotesco que serviu de mote para a construção desse trabalho. Não o grotesco como objeto de análise, mas a aproximação dele, o grotesco, com a figura do monstro. É nesse ambiente de monstruosidades grotescas que o trabalho se propõe a analisar a figura da prostituta - profissional do sexo como monstro da sociedade. Desde já é relevante fazer uma ressalva: não é a personagem prostituta Ana Frágua em si que é o monstro, mas o ofício desta que é objeto de aproximação com a ideia de monstro. 133

134 Ana Frágua é uma daquelas rameiras das antigas, que quase não existem mais por aí, responsável por iniciar na prática sexual quase todos os jovens espinhentos de sua cidade. O menino, personagem do conto de Antonio Carlos Viana, é um desses contemplados com a perícia e profissionalismo da prostituta Ana. Ao conseguir angariar uma pequena soma, depois de um sábado bom de feira, o menino enche-se de coragem e parte para ter com ela. A experiência é única tanto para o menino que sente orgulho de si mesmo ao ver-se realizado enquanto homem quanto para Ana Frágua que se dá de forma tão envolvente que finda por esquecer de cobrar pelo serviço. Ao dizermos que a personagem prostituta Ana Frágua, em Aberto está o inferno, é um monstro, esperamos trazer à mente do nosso interlocutor uma ideia de excesso e transgressão que caracteriza o comportamento moral daquela personagem no exercício do seu ofício. É sabido que as prostitutas são marginalizadas, tidas como transgressoras da ordem e da moral, e por assim dizer mal vistas pela sociedade dominante. A mulher que ultrapassa as fronteiras de seu papel de gênero arrisca tornar-se um monstro. A identidade sexual desviante está igualmente sujeita ao processo de monstrificação, ou seja, de transformação em monstro, segundo Jeffrey Jerome Cohen (2000). O próprio Cohen (2000) em seu estudo sobre a cultura dos monstros lança mão de sete teses a despeito da figura do monstro, e logo em sua primeira tese - o corpo do monstro é um corpo cultural - ele averba o seguinte sobre o corpo monstruoso: O corpo do monstro incorpora de modo bastante literal medo, desejo, ansiedade e fantasia, dandolhes uma vida e uma estranha independência. O corpo do monstro é pura cultura. (COHEN, 2000: p ). Dessa forma, o corpo da prostituta se aproxima do corpo do monstro sugerido por Cohen (2000), pois também ele, o corpo, suscita, de modo bastante literal, medo, desejo, ansiedade e fantasia. No conto de Viana, a prostituta Ana Frágua possibilita essa perspectiva e faz o menino imaginar fantasiosas aventuras, libidinosas experiências. O corpo dela é tomado de uma incrível sensualidade, que provoca reações adversas e ambíguas, como medo e desejo. Ao mesmo tempo em que desejamos o corpo de uma 134

135 meretriz, tememos os seus mistérios. Sejam eles de ordem moral, ou fisiológica. Percebamos então como essa seqüência de sensações se traduz nas passagens do conto em análise. O primeiro excerto extraído do texto dá conta dessa lista de sensações em questão. É a partir e através deste que podemos perceber como o menino, personagem do conto, imagina uma prostituta a partir do que seus irmãos lhe falavam. A imagem de uma lourinha sobressai como ideal de projeção imagética. O desejo e a ansiedade estão incutidos nessa fantasia, já o medo está contido na expectativa da iniciação, na prática propriamente dita, e no terreno movediço e incerto da novidade. Todos os seus irmãos já tinham ido, menos ele. Quando falavam, contavam maravilhas. Que tinha uma lourinha, já imaginou?, uma lourinha ali onde só havia gente de pele encardida, queimada do sol que ardia forte desde as primeiras horas do dia. (VIANA, 2004: pg. 11) Quando pensamos em monstros, associamos logo a ideia do que é aterrador, maléfico e, sobretudo, do que é feio, aos olhos. Quase nunca, remetemos à imagem de monstros, ditos belos, ou que se disfarçavam de bons moços, de boa aparência física, mas de interior extremamente nocivo. É muito mais fácil pensarmos em King Kong como monstro, do que no conde Drácula como tal. Associamos a aparência bestial e aberrante do monstro com a sua anima sem fazer a devida distinção. Não pensamos, assim, na possibilidade de monstros serem dóceis, e até bondosos. Basta lembrarmos de monstros que foram criados pelo cinema e pela literatura para nos livrarmos desse pensamento um tanto quanto preconceituoso. Quem não se lembra do Quasímodo, o famigerado corcunda de Notre Dame, personagem de Victor Hugo, tido como monstro pela população, mas de alma dócil e natureza inofensiva. E do E.T. de Spielberg, o alienígena hollywoodiano, feio, mas querido e adorado. A personagem Ana Frágua é um desses monstros de bom coração. A extrema perícia na condução do ofício de meretriz, faz dela uma profissional atenta e zelosa para com os seus clientes. E ela é descrita dessa forma. Não é clarificado no texto que ela é feia, mas supõe-se....ali onde só havia gente de pele encardida, queimada do sol... (VIANA, 2004: p. 11). Certo é que ela já tem uma idade avançada, mais de quarenta anos....mas quando pensava em 135

136 Ana Frágua, aquela mulher envelhecendo, mais de quarenta anos... (VIANA, 2004: p. 11). Ao entrar no quarto, só de japonesa, o lenço sempre na boca, disse: Só não pode se balançar muito que hoje arranquei três dentes. Aí o menino sentiu uma pena muito grande de Ana Frágua, viu como ela estava sofrendo e assim mesmo se dispunha a fazer dele um homem. Foi tanta bondade que viu nos olhos dela que teve coragem de dizer: É a minha primeira vez. Ana Frágua deu um riso de boca fechada e olhos murchos. (VIANA, 2004: p. 13) A imagem grotesca da prática sexual registrada nesse excerto ilustra perfeitamente outra noção de monstro trabalhada por Cohen (2000) em seu estudo. Quem, em mens sana, imaginaria fazer sexo depois de ter extraído três dentes senão um monstro? O monstro corporifica aquelas práticas sexuais que não devem ser exercidas ou que devem ser exercidas apenas por meio do corpo do monstro. O monstro impõe os códigos culturais que regulam o desejo sexual. (COHEN, 2000: p. 44) O monstro tem mesmo essa natureza transgressiva, e é demasiadamente sexual, e erótico. Os mortos-vivos são dotados de um erotismo alucinado e alucinante, seus ataques assemelham-se a assaltos sexuais, durante os quais eles sugam sangue, devoram membros ou comem cérebros com prazer orgástico (NAZÁRIO, 1998, pg. 17). Pensemos novamente na figura do conde Drácula perseguindo virgens em camisolas, e supostamente nos lembraremos de o quanto erótico ele é. O quão sedutor e atraente ele precisa ser para capturar suas presas. Para Cohen (2000), o monstro está continuamente ligado às práticas proibidas. E é essa ligação com o proibido que torna o monstro muito mais atraente e sedutor; desejado. O monstro nos desperta para os prazeres do corpo, para os deleites da carne. O monstro também atrai. As mesmas criaturas que aterrorizam e interditam podem evocar fortes fantasias escapistas; a ligação da monstruosidade com o perigo, o proibido, torna o monstro ainda mais atraente como uma fuga temporária da imposição. (COHEN, 2000: p. 48). 136

137 Se concebermos a meretriz como uma figura que desperta as imaginações mais férteis no campo do erótico e como a imagem corporificada da proibição, nos aproximamos ainda mais da noção de monstro, ou melhor, da prostituta Ana Frágua como monstro. Se ao mesmo passo, somarmos a essa concepção, o lado visivelmente atraente e sedutor da prostituta, considerando o fato de que ela assim como o Drácula precisa ser assim, sedutora; fatal, ou se portar dessa maneira para agradar ou cativar, ou melhor, capturar a sua clientela. É certo que a personagem Ana Frágua não se utiliza desse artifício da sedução e caça, pelo menos do que se sabe no conto, pois ela é procurada pelo menino. Mas é a concepção que se tem dela, mediante a fala dos irmãos do menino, e da noção de sua profissão que realçam a ideia dessa perspectiva monstruosa de atração. Consideremos o fato de a personagem Ana Frágua ser descrita como alguém que já tem certa experiência de vida, ratificada perícia em seu ofício, ligeira inteligência e extrema libido - Miro ficava dizendo que ele tinha de perder a donzelice com Ana Frágua, uma amazonense sabida que nem o cão, de olhar de mãe e cu de puta, uma fornalha entre as pernas. (VIANA, 2004: p. 11) como sendo todos esses atributos passíveis de deslumbre. Dessa maneira, corroborariam a ideia da sedução monstruosa levantada por Cohen (2000). O espaço trabalhado no conto é outro ponto de aproximação com a ideia de monstro. Sobretudo o espaço onde moram as prostitutas. Descrito de forma paupérrima e grotesca, a casa das perdidas é um lugar obscuro, sombrio e até pútrido. Onde não só o espaço é infame, mas também e, sobretudo, o que se pratica nele. E onde a miséria e a luxúria, num trocadilho proposital, convivem. Onde a desgraça e a felicidade se misturam e dão o tom enigmático e exótico da casa monstruosa. O sol batia a pino quando ele entrou pelos fundos da casa acabada. Fácil, muito fácil. Foi só arrepanhar um fio de arame e entrou. Entre uma nuvem de moscas, três criancinhas sujas de terra e um porco fuçando uma lata de lavagem bem pertinho delas. Deviam ser filhos das putas. Olharam para ele tristes e remelentos, algumas costelas de fora. Ele foi entrando pelos fundos, vendo que a casa tão famosa era mais pobre que a dele, nem sentina tinha. Na dele pelo menos tinha aquele cercadinho onde se podia cagar à vontade sem medo de ser visto. Ali era tudo no monturo mesmo. Um merdeiro sem fim que contribuía 137

138 para aquele futum que cobria o lugar quando o sol ardia feio. (VIANA, 2004: p. 12). Para Cohen (2000), a habitação do monstro é a gruta; a caverna, no sentido metafórico, ou seja, para ele o monstro mora nas regiões obscuras, onde o perigo é patente, mas também é incerto. Daí vem a ideia do mistério, do lado enigmático. Em que nunca temos certeza do que vai acontecer. É mais uma vez o inesperado sendo revisitado como possibilidade de adentrarmos no medo. O medo do desconhecido, relatado ainda há pouco, quando discutimos a ansiedade da personagem o menino. Ainda para Cohen (2000), a casa do monstro é o lugar das fantasias felizes, dos horizontes de libertação. Nela o monstro serve como corpo secundário através do qual as possibilidades de outros gêneros, outras práticas sexuais, outros costumes sociais, podem ser explorados. Na casa das perdidas também há essas possibilidades. Não esqueçamos que é neste espaço onde as mais exóticas fantasias são praticadas. É o lugar, legitimado, para a realização destas. É também o local das transgressões morais e sociais onde tudo é permitido dentro, é claro, deste contexto. Um puteiro é também um lugar enigmático e misterioso, pois nunca se tem controle absoluto de suas fronteiras; de seus limites. O sujeito que se encontra dentro dele, sente-se apreensivo, com medo de ser descoberto pela sociedade, dado o caráter infame que possui um prostíbulo. REFERÊNCIAS COHEN, Jeffrey Jerome. A cultura dos monstros: sete teses. In.: SILVA, Tomaz Tadeu da. Pedagogia dos Monstros os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Belo Horizonte: Autêntica, p Depois de um sábado bom de feira, o menino tomou coragem e foi. Fez um arrodeio medonho pra ninguém ver ele entrando direto na casa das perdidas, como diziam. Tinha sempre alguém de olho. (VIANA, 2004: p. 12). GIL, José. Monstros. Lisboa: Quetzal Editores, NAZÁRIO, Luiz. Da natureza dos monstros. Belo Horizonte: Arte & Ciência, VIANA, Antonio Carlos. Ana Frágua. In.: Aberto está o inferno. São Paulo: Companhia das Letras,

139 RESUMO SITUAÇÕES FORMAIS DE COMUNICAÇÃO: desvios do português-padrão José Everton S. Morais 33 Jefferson de Menezes Santos 34 O presente trabalho que tem como tema: Situações formais de comunicação: desvios do português-padrão, investiga se em situações formais de comunicação, onde o uso da variante culta é predominante, se os usuários da língua dominam a norma oral culta. O interesse por esse tema surgiu da observação crítica e atenta de falantes em discursos formais, tais como palestras, aulas universitárias, congressos acadêmicos, solenidade de formatura e notícias jornalísticas, onde é perceptível em maior ou menor proporção alguns desvios linguísticos nos textos orais em relação à norma culta. Foram analisados especificamente três tipos de desvios, são os desvios que ocorrem com mais frequência na oralidade formal, que são os desvios fonéticos, morfológicos e sintáticos, e essas análises se deram em sete situações de fala na qual o uso da norma culta é predominante. Palavras-chave: Desvio linguístico. Discurso. Gramática. Oralidade. Português-padrão 33 Graduado em Letras português-inglês pela Faculdade José Augusto Vieira- Fjav. Pós-graduando em Língua Portuguesa pela Faculdade Pio Décimo. 34 Graduando em Letras português-inglês pela Faculdade José Augusto Vieira- Fjav ABSTRACT This work has the theme: Formal communication situations: Deviations from standard Portuguese, investigates whether in formal communication, where the use of cultured variant is predominant, if people have mastered the language norm oral educated. Interest in this subject arose from critical observation and careful speakers in formal speeches, such as lectures, classes, college, academic meetings, graduation ceremony and news stories, where it is noticeable to a greater or lesser extent some differences in linguistic texts for oral to cultural norms. Were specifically analyzed three types of deviations are the deviations that occur more often in oral form, which are phonetic, morphological and syntactic, and such analysis is given in seven speaking situations in which the use of standard form is predominant. Keywords: Distance language. Speech. Grammar. Orality. Portuguese standard 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho analisa alguns desvios linguísticos ocorridos em situações formais de comunicação. O interesse por essa temática de uso linguístico em situações formais de interação verbal surgiu durante a metade do curso de letras, depois do contato com a linguística e as discussões em torno da língua, com a 139

140 desmitificação do verdadeiro conceito de língua, da supervalorização que a sociedade, por meio da escola e do livro didático fazem da gramática normativa. Já que geralmente o conceito que se tem de língua é de gramática normativa, o que está nas gramáticas normativas deve ser seguidos, porque se assim não for o falante cometeu erros. Ai surgiu uma grande dúvida, será que os usuários da língua em situações de uso seguem realmente todas as regras que são explicadas a luz da gramática normativa. Como já sabemos a gramática tradicional é conservadora, muitas de suas regras estão vivas apenas dentro da gramática, porque na realidade viva da língua essas regras geralmente não funcionam. Deve-se estar conscientes de que não existe apenas a gramática normativa, junto com a gramática tradicional está presente a gramática internalizada e a gramática descritiva, mas ao longo da história a gramática normativa recebeu um grande prestígio que tudo que foge ao seu uso é considerado erro, de mau uso. Segundo a professora Irandé Antunes (2007, p.27) gramática abarca todas as regras de uso de uma língua. Nada na língua, em nenhuma língua, escapa a essa gramática. Por isso é que se diz que não existe língua sem gramática. Nem existe gramática fora da língua. Ou, ninguém aprende uma língua para depois aprender a sua gramática.qualquer pessoa que fala uma língua fala essa língua porque sabe a sua gramática, mesmo que não tenha consciência disso. Segundo Antunes a gramática internalizada é classificada como o conjunto de regas que definem o funcionamento de uma língua, ou seja, o individuo aprende naturalmente a língua, aprende essa gramática vivendo e interagindo de forma natural no meio social. Já a gramática descritiva é classificada sob uma perspectiva de estudos dos fatos da linguagem, sem atribuir critérios de certo ou errado. E a gramática normativa é classificada como o conjunto de normas que regulam o uso da norma culta. A partir desses conceitos de gramática fica claro que é uma falsa ideia pensar que apenas a norma culta segue uma gramática. Já está provado pela Linguística que esses desvios em relação ao português padrão, mesmo praticados em situações formais, não constituem erros e sim desvios, pois em se tratando de língua não existe certo ou errado, todas as variedades são igualmente eficazes em termos comunicativos, nas situações em que são de uso apropriado e esperado. Mas em nossa sociedade a norma padrão seja ela em sua modalidade oral ou escrita é que constitui o português correto, e tudo que foge a norma culta é considerado errado, feio, originando dessa maneira o preconceito linguístico. 140

141 Devemos reconhecer a língua como uma unidade em uma variedade linguística. A língua é tão variável que até os modos de falar dos brasileiros cultos vão se diferenciar entre si. Um brasileiro culto que vive no Maranhão evidentemente não vai falar igual a um brasileiro culto que mora no Paraná. Analisando as falas de usuários em situações reais e formais de comunicação, percebe-se que as regras da gramática tradicional não são seguidas em interações verbais formais, situações essas onde o domínio da língua padrão é de uso esperado. Veja como é classificada uma situação formal de comunicação. Situação formal de comunicação é a situação de produção linguística que segue os modelos da escrita, segue um determinado modelo, normas pré-estabelecidas. Como nessa situação a fala está sendo analisada, e é uma situação que a norma padrão prevalece, cabe ao falante dominar o bom uso da língua para que seu discurso seja respeitado. Como o assunto segue modelos pré-determinados, o falante tem que ter conhecimento daquilo que se fala, a falta de clareza e de conhecimento do assunto implicará em criticas e descredenciamento do falante. Como afirma Câmara Jr ( 1978, p. 50 ) na maioria dos casos, o expositor conhece, satisfatoriamente, a matéria de que vai tratar, e não raro é até a sua condição de especialista que o indicou naturalmente para a tarefa. Para que seu discurso seja recebido com louvor é preciso que o falante domine a norma culta, o bom uso da língua, que garantem a ele um status linguístico e social, já que a norma padrão é imposta pela classe dominante, nesse tipo de interação verbal é imprescindível que o falante domine a norma oral culta. Desde os sofistas a eficácia linguística era vista como essencial na arte de persuasão, e essa eficiência dependia do bom uso da linguagem, utilizar termos incoerentes e inadequados no discurso implicaria descompromisso linguístico por parte do falante. Já que por tradição gramatical a escrita está mais voltada para a gramática, tudo que é gramatical é considerado mais correto, de bom uso, sendo assim no texto escrito os possíveis desvios com relação a norma culta da língua podem ser vistos a tempo e corrigidos, porque o texto escrito não deixa explicita suas marcas de elaboração. Já essa mesma correção, perfeição no uso da língua não pode ser totalmente atribuída na língua oral, a linguagem oral no momento do discurso deixa explicita suas marcas de elaboração já que a produção de comunicação oral se dá face a face e 141

142 inevitavelmente alguns desvios linguísticos são cometidos e passa desapercebido pelo falante. Por mais que haja um planejamento prévio do que vai ser dito, o texto oral ganha vida no momento da interação verbal. A fala não é uma mera reprodução perfeita da escrita, não há como reproduzir a fala com fidelidade, não tem como na oralidade ditar completamente o bom uso da língua, mesmo em uma situação formal de comunicação, o desvio linguístico irá aparecer em maior ou menor proporção. Para Bagno ( 2006, p. 54 ) a escrita alfabética em sua regulamentação oficial. Ela não é a fala, é uma tentativa de representação gráfica, pictórica e convencional da língua falada. Na escrita há a imposição da norma culta gramatical, como os dicionários e as gramáticas normativas que regulam e prescrevem o bom uso da língua escrita, tornando dessa maneira a escrita conservadora e artificial. Diante dessas diferenças entre o que é oral e o que escrito é possível perceber que o usuário da língua mesmo em situações formais de interação verbal desprenda-se da norma culta e cometa alguns desvios linguísticos. De acordo com Leite (1999, p. 85 ) não é difícil observarmos no léxico e na gramática da variante culta da língua a presença de estruturas não autorizadas pela norma prescritiva. A fala e a escrita apresentam aspectos diferenciais que derivam da natureza de ambas as modalidades. Desde a Antiguidade Clássica, passando pelo período medieval até os dias atuais, que a linguagem oral é desprestigiada, considerada em sua essência mais informal do que a linguagem escrita, considerada mais formal. Naquela época havia apenas duas modalidades de língua: a escrita formal, modalidade da classe culta da sociedade que seguia as regras gramaticais e a fala informal das classes menos favorecidas, que pouco tinha acesso à modalidade escrita formal e eram discriminados pela sociedade, as manifestações linguísticas orais eram marginalizadas. Durante muito tempo a escrita teve primazia sobre a fala, a escrita é considerada mais formal, ligada ao bom uso da linguagem, já que ela está a serviço da gramática normativa que prescreve seu uso e a fala é considerada mais informal, porque na fala não há nada que institucionalize seu uso como acontece com a língua escrita. Segundo Câmara Jr. (1978) A civilização deu uma importância extraordinária à escrita e, muitas vezes, quando nos referimos à linguagem, só pensamos nesse seu aspecto. É preciso não perder de vista, porém, que ao lado, 142

143 mais antiga, mais básica, uma expressão oral. (MATTOSO, 1978, p.16). A fala tem um caráter mais dinâmico do que a escrita, pois dado a importância do estudo da língua falada, sendo que ela que faz evoluir a língua e torna a língua muito mais variável, ou seja, é na fala, nos falantes que a língua evolui com mais facilidade, ao contrário da escrita que é conservadora devido a ligação que a escrita tem com a gramática normativa. Para Saussure (2003, p.27) enfim, é a fala que faz evoluir a língua. Foi a partir dos estudos linguísticos que se deu uma maior ênfase nos estudos da oralidade e alguns mitos em ralação a língua oral foram desmitificados. Para Bagno (2006) essa supervalorização do escrito em relação ao oral acaba gerando mais um preconceito, pois se tem a falsa ideia de quando pensamos em língua, vemos só a língua escrita como única manifestação de língua e a mais correta, sabemos que língua falada é apenas uma das modalidades dentro do todo que é a língua, não podemos pegar a língua escrita como único modelo de verdadeira língua, de língua mais correta, o que é falado ou escrito são apenas modalidades de língua. Sabe-se que a realidade primeira da língua é a fala, aprendese a língua falada em contato com a sociedade, o indivíduo aprende a língua falada exposto ao meio social de uma forma natural, aprende-se primeiro a falar e depois é que vamos aprender a escrever, a escrita se aprende dentro de um processo institucionalizado, enquanto a fala não, porque até com relação a quantidade as línguas sempre foram muito mais faladas do que escrita, quantos milhões de pessoas não sabem escrever mas falar todos sabem, porque é um processo que se aprende de maneira natural, é a chamada gramática internalizada que cada falante carrega consigo, é a regra que ele domina. Principais características da língua falada e da língua escrita segundo Francis Vanoye (2003) Na língua falada são muitas as frases inacabadas. Na língua falada há a presença maior do emissor e receptor, ou seja, o diálogo está em presença. Na língua falada a frase desvia-se de sua trajetória, o complemento esperado não aparece, a frase parte em outra direção. 143

144 Na língua falada há um grande grau de recursos expressivos, como entonação, pausas, fluências etc. Devido a essa presença dos interlocutores na língua falada Francis Yanoye (2003, p. 39) acentua ainda também significações não-verbais suplementares: mímica, gestos e outros comportamentos. Já a língua escrita há um distanciamento entre emissor e receptor. A língua escrita é mais econômica, mais enxuta, a pontuação na língua escrita substitui certas características da língua falada, como as pausas, a entonação, a melodia das frases etc. Freitag e Silva ( 2008) afirmam que Concebamos a fala e a escrita como duas práticas discursivas cujas diferenças e semelhanças se dão ao longo de um continuo tipológico, em cujas extremidades se situam, de um lado o grau máximo de informalidade e, de outro, o grau máximo de formalismo. Estratégias da oralidade podem ser encontradas num texto escrito, bem como estratégias da escrita num texto oral. (FREITAG e SILVA 2008, p. 68) Ou seja, há diferença entre essa duas modalidades da língua, mas elas também são complementares, há recursos que na língua escrita substitui a língua falada e recursos que na oralidade representa o escrito. Para Koch (2003) a produção de texto, seja ele falado ou escrito se dá dentro de um contínuo tipológico, ambas as modalidades são diferentes, mas não devem ser vistas de maneira dictômica, elas apenas possuem características próprias, existem textos escritos que se aproximam do pólo da fala, como bilhetes, recados, assim como também existem textos falados que se aproximam do pólo da escrita, como as conferências, entrevistas de emprego. Segundo Koch (2003) as principais características quando se fala na diferença entre fala e escrita são as seguintes de acordo com a tabela 01. TABELA 01 - Diferenças entre a fala e escrita Fala Escrita Contextualizada Descontextualizada Implicita Explicita Redundante Condensada Não-planejada Planejada Fragmentada Não-fragmentada Incompleta Completa Pouco elaborada Elaborada Pouca densidade informacional Densidade informacional 144

145 Predominância de frases curtas, simples ou coordenadas Pequena frequência de passivas Poucas nominalizações Menor densidade lexical Fonte: Koch (2003, p. 78) Predominância de frases complexas, com subordinação abundante Emprego frequente de passivas Abundância de nominalizações Maior densidade lexical Nem todas essas características são inteiramente exclusivas de cada modalidade da língua, há predominância desses caracteres em cada uma dessas modalidades (falada ou escrita). Sabe-se que essas características foram baseadas tendo como espelho a língua escrita, o que leva a desvalorização e o preconceito contra a língua falada, considerada mais informal e de menos prestigio. Mas cada uma é adequada a situação de produção comunicativa, sendo numa situação formal ou informal, a mensagem que se queira passar sempre vai atingir o interlocutor, porque erro em língua não existe, como sabemos existe adequação para cada situação de fala, evidentemente só irá ser considerado erro se o ouvinte não compreender o que está sendo falado ou escrito. Mesmo em uma situação linguística oral formal onde o uso da norma culta é adequado a situação de produção comunicativa, o desvio é frequente, sendo esse desvio proferido na fala de um cidadão que percorreu todo o caminho da educação formal ou um indivíduo que nunca teve acesso e educação o desvio é perceptível em maior ou menor grau. Analisar a língua oral culta foi um dos objetivos do projeto NURC ( Norma Linguística Urbana Culta ). Esse projeto que teve início na década de 70 com a análise de falantes cultos das cinco maiores capitais brasileiras, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Conforme Cunha ( 1985, p. 25 ) escolheramse essas cinco cidades, por que apenas elas preenchiam, em 1969, os requisitos exigidos: possuir um milhão de habitantes e ter cem anos de vida, com a consolidação de quatro gerações. E o principal objetivo desse projeto era de caracterizar a modalidade culta da língua falada nessas capitais. Esse projeto é originário do México e teve uma dimensão hispano-americana. Foi o professor Nelson Rossi da Universidade Federal da Bahia que incluiu o Brasil nesse projeto de origem internacional, então os pesquisadores da Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul fizeram entrevistas de pessoas com formação universitária, das três faixas etárias, nascidas nas capitais sob estudo e que tiveram cursado o nível superior no 145

146 local de origem. Foram feitas gravações desses falantes entrevistados entre 1970 a 1978 e as transcrições das falas começaram a serem feitas na década de 80, essas entrevistas bem elaboradas ficaram conhecidas como inquérito. Foram criados três tipos de inquérito: Diálogo do informante com o documentador (DID) Diálogo entre dois informantes (D2) Elocução Formal (EF) No DID o informante fica a vontade para falar de um tema proposto. No D2 é um diálogo de duas pessoas entre si sobre algum tema proposto pelo entrevistador. Na (E F) a interação se dá numa situação mais formal de fala. Mas deve-se estar conscientes, do que já foi afirmado nesse trabalho a substancial diferença entre o que é escrito e o que é falado. O texto escrito não mostra sua marca de elaboração, ele pode ser visto, revisto e os possíveis erros que apareçam serão corrigidos, no texto falado isso não acontece, por mais que se tenha um planejamento prévio do que se vai falar, ele é construído, posto em cena no momento da interação verbal, então algumas construções podem ser mal vistas pelo ouvinte, já que essas marcas de elaboração do texto falado ficam explicitas. Existem ainda outros traços característicos da exposição oral, que estão ausentes na escrita, impõe o dever de bem utilizá-los, para que a linguagem seja boa. Para Câmara Jr ( 1978 ) Quem fala em público tem de atentar para o timbre de voz, para a altura da emissão vocal, para o complexo fenômeno que se chama entoação das frases, bem como saber jogar, adequadamente, com gestos do corpo, dos braços, das mãos e da fisionomia (MATTOSO, 1978, p. 16) Saindo do campo meramente gramatical, podemos perceber outros recursos que tornam uma exposição oral boa. Há uma enorme riqueza de recursos que facilitam a comunicação linguística, basta saber empregá-las adequadamente. Rezende (2007, p. 54) classifica as marcas de planejamento local. Segundo a autora (hesitação, truncamento, paráfrase e repetição ), no texto falado, não estão ligados ao bom uso da língua, mas a clareza e adequação pragmática. Alguns desvios no uso da língua portuguesa em situações formais de comunicação, seja esses desvios fonético, sintático ou 146

147 morfológico são encontrados com certa frequência em situações formais de uso da língua portuguesa, a gramática normativa dita ser bom uso da língua a maneira escrita, de língua escrita, a linguagem oral não segue essa mesma prescrição gramatical e na oralidade formal esses desvios já estão se tornando comum, se incorporando a língua oral culta com bastante naturalidade, saindo do campo gramatical e adequando seu discurso a realidade linguística brasileira, alguns usos ditos formais pela gramática normativa estão sendo substituídos por usos mais comuns e menos tensos. Conforme afirma Couto (1988) a norma estabelecida pelos gramáticos se distancia cada vez mais da realidade concreta do país. Os casos mais encontrados são. Uso do pronome proclítico em inicio de frase; O pronome está proclítico quando vem antes do verbo Ex: Quero que todos me acompanhem. Nunca se fala nestas coisas aqui. Segundo a gramática normativa em inicio de frases deve-se usar a ênclise, como nos exemplos a seguir. Ex: Faltam-me os dados técnicos desejáveis. Pedi-lhe um favor. Mas esse uso da colocação pronominal em situações de fala dificilmente ou quase nula é encontrado na fala dos falantes em reais situações de uso, essa regra só existe na gramática normativa aprendida pelos indivíduos que tiveram acesso a educação formal, mais especificamente nas aulas de gramática e não posta em prática na vida desses indivíduos. O quase abandono da mesóclise; A gramática normativa prescreve o uso da mesóclise, mas esse uso fica só no escrito, nas gramáticas, porque numa situação de oralidade formal, esse uso praticamente não se faz presente, em pesquisas de campo analisando a produção oral em situações onde é requerido o uso da variante formal, nenhum dos falantes fez o uso da mesóclise. Disso resulta uma grande questão, a gramática normativa por seu caráter conservador, não evolui com tanta facilidade em relação a língua oral, devido a seu caráter dinâmico a língua oral está sempre mudando e evoluindo já que essa evolução se dá com os falantes, ou seja, a fala faz evoluir a língua, então o uso da mesóclise só existe na gramática normativa, que ainda não acompanhou as mudanças lingüísticas e dita uma regra que não é 147

148 posta em prática na realidade de uma situação de comunicação verbal. 2 RESULTADOS Esse tópico será dedicado as pesquisas de campo onde foi analisada a fala de usuários da língua em situações formais de comunicação, situações essas onde o uso da norma culta é predominante. Lembrando que nessas situações formais de interação verbal as falas que foram analisadas e que serão transcritas nesse trabalho, foram as falas de pessoas que tiveram todo acesso a educação formal, ou seja, indivíduos com um bom nível de escolaridade, indivíduos graduados, pós-graduados, mestres e doutores, que em seus discursos incorporam alguns desvios linguísticos em relação ao nível padrão da língua portuguesa do Brasil. As análises dos discursos formais de comunicação oral revelam que os falantes cultos da língua apresentam desvios em relação ao padrão linguístico em situações formais de produção comunicativa, em maior ou menor proporção, o desvio numa situação formal de fala sempre irá aparecer. A coleta das falas em situações formais de uso linguístico se deu por meio de um gravador portátil, também foram analisadas as falas de jornalistas nos telejornais de duas grandes emissoras de televisão do país, a Rede Globo e a Rede Record e uma entrevista de uma emissora de rádio em Sergipe. Essas coletas começaram a serem feitas a partir de junho de 2008 até o inicio de maio de Foram analisadas as mais diversas situações comunicativas: aulas universitárias, solenidade de formatura, congressos acadêmicos, palestras etc. Foram analisados três tipos de desvios linguísticos: o desvio morfológico, o desvio fonético e por último o desvio sintático, ao todo foram sete situações de fala. ( 1ª ) A primeira situação de fala foi um evento regional para estudantes de Letras (EREL), que ocorreu no campus da Universidade Estadual de Feira de Santana na Bahia no período de 9 a 12 de abril de 2009 e os palestrantes eram professores mestres e doutores da área de letras da referida universidade (UEFS). Situação

149 ( 2ª ) A segunda situação de fala foi um evento para estudantes de Letras promovida por uma instituição de ensino superior no sul de Sergipe que ocorreu no período de 2 a 4 de abril de 2009, os palestrantes eram professores especialistas, mestres e doutores das áreas de Linguística, Literatura, Inglês e Língua Portuguesa e uma professora convidada da UFRJ ( Universidade Federal do Rio de Janeiro), Phd em Literatura. Situação 2. ( 3ª ) A terceira situação de fala é uma solenidade de formatura realizada por uma faculdade da região norte da Bahia, onde as falas analisadas foram do professor homenageado e de um dos diretores da instituição. Situação 3. ( 4ª ) A quarta situação de fala é uma entrevista do atual governador do estado de Sergipe Marcelo Déda no programa de rádio Central de Noticias da Jovem Pan AM Aracaju, no dia 30 de junho de Situação 4. ( 5ª ) A quinta situação de fala é uma aula universitária no curso de Letras ministrada por uma professora mestre em língua inglesa. Situação 5. ( 6ª ) A sexta situação de fala é uma aula universitária no curso de Ciências Contábeis ministrada por uma professora especialista em língua portuguesa. Situação 6. ( 7ª ) A sétima situação são noticias jornalísticas veiculadas pela Rede Globo e Record. Situação 7. O primeiro desvio analisado é o desvio morfológico, as falas transcritas a seguir é da primeira situação. Situação ( 1 ) Estamos precisano de mais professores comprometidos com uma verdadeira educação linguística O mais importante é que aos poucos as mudanças estão ocorreno na educação brasileira Mas pesquisano algumas metodologias de ensino da língua portuguesa muita coisa tem que melhorar Outra situação que ocorre esse desvio é a segunda situação. Situação ( 2 ) Raquel não pôde viajar com o pai, permaneceno nessa família Não se contentano em decifrar o nível superficial do texto Acho que nós estamos precisano reformular nossos estudos literários Ai eu fico imaginano as cenas que ela viu ouvino o conto de Cecilia Eu não tou dizeno que agente tem que pegar o livro na biblioteca e rabiscar

150 Você tá conversano com amigos sobre o que aconteceu na festa Eu achava que a brincadêra dava certo, mais tava faltano algo que estimulasse mais Hoje nós estamos precisano investigar mais esse problema Mais dois exemplos do desvio morfológico na terceira situação de fala. Situação (3) Me dirijino a vocês fico muito feliz nesse momento Estou comemorano essa vitória junto com vocês meus queridos alunos Na quarta situação de fala também encontramos o desvio morfológico na fala do governador Marcelo Déda. Situação ( 4 ) Eu sei separar com muita clareza as minhas responsabilidades de governador das minhas responsabilidades de líder pulitico. Estarei trabalhando, acompanhano os projetos do estado, conduzino a administração pública Na quinta situação de fala temos dois exemplos desse desvio em uma aula de inglês no oitavo período de uma turma do curso de letras. Situação ( 5 ) Que de tanto repetir vão acabar assimilano aquilo sem sabê o porque Uma boa manêra de se aprender a língua inglesa, é estudano e pesquisano Já na sexta situação de fala encontramos um exemplo de desvio morfológico em uma aula ministrada por uma professora especialista em língua portuguesa. Situação ( 6 ) É contano histórias que a criança vai se sentir estimulada a ler Na sétima situação de fala temos um fragmento de uma noticia jornalística vinculada pelo Hoje em Dia, apresentada pelo jornalista Celso Zucateli da Rede Record de Televisão. Situação ( 7 ) Tá trabalhano de frente pro espelho e o relógio lá atrás Segundo ( LEMLE, 1978 apud MATTOS e SILVA 2005 ) esse tipo de desvio morfológico é conhecido como redução da marca morfêmica do gerúndio ND para N. Será analisado outro desvio que ocorre na fala dos brasileiros cultos que é o desvio fonológico. Para a análise desse desvio serão usadas as primeira, segunda, terceira, sexta e sétima situações de fala. Voltemos a primeira situação do evento que ocorreu no campus da UEFS para mostrar o desvio fonológico. Situação ( 1 ) Hoje fala muito em abordagi comunicativa, mais será que os professores de inglês sabem o que é isso O que está na linha de montagi da literatura

151 A personagi tem um papel muito importante dentro do texto literário A bagagi cultural que um escritor carrega é muito grande Na segunda situação de fala, do evento promovido para estudantes de letras também foi encontrado o desvio fonológico. Situação ( 2 ) Literatura é a arte da linguagi O narrador é um homi bandido e marginal A obra indica o melhor tipo de abordagi A personagi da obra é Raquel Dessa manêra a aprendizagi de inglês se torna mais fácil Estuda também a linguagi usada para a dinâmica Quais os efeitos dessa abordagi em sala de aula Em que medida a imagi constrói a mídia Na terceira situação a da solenidade de formatura, um dos diretores da IES assim se pronunciou. Situação ( 3 ) Aquele homi nada fez por seus irmãos Vamos mostrar agora uma fala da sexta situação. Situação (6 ) A homenagi precisa ser bem feita A sétima situação de fala são duas noticias jornalísticas, uma do Jornal Hoje da Rede Globo de Televisão e outra do Programa Hoje em Dia da Rede Record. Situação (7) Na maioria tem o peso, mais a embalagi do produto é outra Detalhe Zucateli para essa imagi da comunidade do pavãopavaozinho Esses desvios fonéticos que acabamos de mostrar segundo (LEMLE 1978 apud MATTOS e SILVA 2005) é conhecido como desnasalização de nasais finais. O terceiro e último desvio analisado é o desvio sintático, nesse tipo de desvio vamos mostrar somente a confusão que se faz entre a conjunção adversativa mas e o advérbio de intensidade mais. Já que o desvio sintático ainda abrange o desvio conhecido como solecismo que compreende a regência e a concordância. Mas o nosso enfoque nessa última análise dos desvios é com a conjunção mas e o advérbio mais, entre essa confusão que se faz na oralidade formal, o advérbio mais sendo usado no lugar da conjunção mas. Segundo o que consta nas gramáticas normativas as conjunções adversativas elas estabelecem uma relação de oposição entre dois termos ou duas orações, mas o que acontece no momento 151

152 da produção oral é a troca da conjunção adversativa mas pelo advérbio de intensidade mais. As situações de fala que serão usadas para mostrar esse desvio são a primeira, a segunda e a terceira situação de fala. Situação de fala ( 1 ) Situação de fala ( 3 ) Fico muito feliz pelo convite, bonito não sou, mais não sou de se jogar fora Foram muitas as dificuldades durante esses quatros anos pra chegarmos aqui na faculdade, dificuldade amorosa, financêra e etc, mais chegamos e estamos aqui Hoje fala muito em abordagi comunicativa, mais será que os professores de inglês sabem o que é isso Sua tese pode até ser boa, mais se você não provar nada adianta Estudei muita coisa, mais ali não se tinha muita informação As obras machadianas são possíveis várias interpretações, mais isso não significa dizer que todas as temáticas sejam encontradas em suas obras Ninguém fica rico de literatura, mais ela te dar um tipo de prazer, de ver a realidade de outra manêra Hoje tem mais uma noite cultural, mais vocês não vieram só para as festas, vieram também atrás de conhecimento Situação de fala ( 2 ) Nós não estamos aqui simplismente porque é um evento, mais também pela busca de conhecimento Um livro não deve ser cultuado, mais sim consumido Eu achava que a brincadêra dava certo, mais tava faltano algo que estimulasse mais REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO ANTUNES, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola, BAGNO, Marcos. Português ou brasileiro: um convite a pesquisa. 4 ed. São Paulo: Parábola, Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 47 ed. Loyola, CÂMARA JR, Joaquim Mattoso. Manual de expressão oral e escrita. 5 ed. Petrópolis: Vozes, CUNHA, Celso. A questão da norma culta brasileira. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,

153 LEITE, M. Purismo no discurso oral culto. In: PRETI, Dino. (Org.). O discurso oral culto. 2 ed. São Paulo: FFLCH/USP, FREITAG, Raquel Meister Ko; SILVA, Leilane Ramos da. Linguagem e representação discursiva. João Pessoa: Editora universitária da UFPB, KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. O texto e a construção dos sentidos. 7 ed. São Paulo: Contexto, 2003 REZENDE, Mariana Vidotti de. O uso da língua portuguesa em situações formais de comunicação. Paraná: Universidade Estadual de Londrina, Dissertação de Mestrado. Disponível em Acesso em 19 de março de SILVA, Rosa Virginia Mattos e. Contradições no ensino de português. 7 ed. São Paulo: Contexto,

154 SERVIÇO SOCIAL VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES RESUMO Gabriela Gois Costa 35 Paula Augusta Prata Aguiar Silva 36 Este artigo aborda sobre um dos problemas que mais se debatem nos meios sociais, políticos, científicos, populares, acadêmicos, o da violência. A história da violência contra crianças e adolescentes, acompanha a trajetória da evolução humana desde os tempos primitivos. São inúmeras as formas com que se apresentam, dentro das diferentes culturas. A eliminação de crianças e adolescentes é relatada em diversos fatos da história humana, entre elas o infanticídio, onde crianças pequenas são mortas pelos pais, o que configura homicídios. Para o desenvolvimento deste artigo utilizou-se da pesquisa de natureza bibliográfica e internet, que versam sobre o assunto. PALAVRAS-CHAVE: Abuso sexual, adolescentes, crianças, violência. 35 Graduanda do VIII período do Curso de Bacharelado em Serviço Social pela Faculdade José Augusto Vieira (FJAV). Contato: 36 Graduanda do VIII período do Curso de Bacharelado em Serviço Social pela Faculdade José Augusto Vieira (FJAV). Contato: ABSTRACT This article focuses on one of the most serious problems faced in the social, political, scientific, popular, scholarly, of violence. The history of violence against children and adolescents, follows the path of human evolution since the earliest we have. There are numerous ways in which present themselves within different cultures. The removal of children of adolescents is reported in various facts of human history, including infanticide, where children are killed by parents, which configures homicides. For the development of this article was used to search bibliographic and internet which deal with the subject. KEY WORDS: Sexual abuse, adolescents, children, violence. 1 INTRODUÇÃO Desde o período colonial, o Brasil registra histórias de violências praticadas contra as crianças, que não eram consideradas sujeitos de direitos. Isso decorre do abuso do poder parental, bem como do descaso e tolerância da sociedade com a extrema miséria e as mais diversas formas de violências a que são submetidas milhões de crianças. 154

155 O abuso sexual é uma das formas mais cruéis de maus-tratos infantis, porque, além de afetar fisicamente a criança, destrói todo o sentimento de pureza e dignidade que ela possui, sendo analisado como espécie de mau-trato físico ou emocional. Esta violência pode ser definida como todo ato ou jogo sexual entre um familiar (seja ele responsável legal ou não da vitima) e uma criança/adolescente. Pode ou não haver contato físico e uso de força física. O estupro é analisado historicamente como um comportamento decorrente da adaptação, utilizado por machos com habilidades precárias de competição na atração da fêmea com a qual pretendem copular, decorrente do papel dominador do homem na cultura humana e da necessidade que o fraco tem de se destacar socialmente de alguma forma. A Organização Mundial de Saúde define os maus-tratos sexuais como atividades de caráter sexual exercidas: por uma pessoa mais velha contra a criança, com fins de prazer sexual, e as classifica como: a) abusos sensoriais: a pornografia, o exibicionismo e a linguagem sexual; b) estimulação sexual: carícias inapropriadas em partes consideradas íntimas, e a masturbação; c) ato sexual propriamente dito: realização ou tentativa de violação ou penetração oral, anal ou genital. Os aspectos que demonstram a ocorrência desse ato são: a existência de um pai alcoólatra ou violento que foi abusado por sua família de origem fisicamente; pai autoritário ou extremamente puritano e de uma mãe passiva, ausente; padrasto na família; o fato de os pais terem sido abusados ou negligenciados em sua infância, situações estas bem características no Brasil. Para o desenvolvimento deste artigo utilizou-se da pesquisa de natureza bibliográfica e internet, que versam sobre o assunto. Quanto ao objetivo é estudar a violência sexual praticada contra a criança e o adolescente. 2 CONCEITO DE VIOLÊNCIA Um dos problemas que mais se debatem nos meios sociais, políticos, científicos, populares, acadêmicos, é o da violência. O Ministério da Saúde define violência como um "fenômeno representado por ações humanas, realizadas por indivíduos, grupos, classes, nação, numa dinâmica de relações, ocasionando danos 155

156 físicos, emocionais, morais e espirituais a outrem" (Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências, 2001). Pode-se dizer então, que a violência, em sentido amplo, é qualquer comportamento que vise causar dano à outra pessoa, ser vivo ou objeto. O conceito de violência pode ser abordado de diferentes formas devido à sua complexidade. No Dicionário de Política, Bobbio (1993) coloca: Por violência entende-se a intervenção física de um indivíduo ou grupo contra outro indivíduo ou grupo (ou também contra si mesmo). Para que haja violência é preciso que a intervenção física seja voluntária (...). Exerce violência quem tortura, fere ou mata; quem, não obstante a resistência, imobiliza ou manipula o corpo de outro; quem impede materialmente outro de cumprir determinada ação. (...) a violência pode ser direta ou indireta. É direta quando atinge de maneira imediata o corpo de quem sofre. É indireta quando opera através de uma alteração do ambiente físico no qual a vítima se encontra (...), ou através da destruição, da danificação ou da subtração de recursos materiais. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: uma modificação prejudicial do estado físico do indivíduo ou do grupo que é alvo da ação violenta. O conceito de violência permite as mais diversas abordagens que o definam no tempo e no espaço, eticamente e em relação a seus agentes e vítimas. Existe uma longa série de violências no nosso cotidiano humano, como: miséria, exclusão, corrupção, desemprego, concentração de renda e poder, autoritarismo desigualdade, a falta de serviços públicos adequados, os impostos extorsivos, entre outras existentes na sociedade. De acordo com Minayo (1999, p. 14), Não há um fato denominado violência, e sim violências, como expressões de manifestação da exacerbação de conflitos sociais cujas especificidades necessitam ser conhecidas. A violência enraiza-se nas estruturas sociais, econômicas e políticas, bem como nas consciências individuais, ocorrendo numa relação dinâmica entre condições dadas e subjetividade. A violência é vista como uma ocorrência multicausal que atinge indistintamente, todos os grupos sociais, instituições e faixas etárias, na qual os indivíduos ora se aparecem como vítimas, ora como agressores. Possui várias configurações de manifestação originada pela cultura, conceitos e valores utilizados por um povo. Consubstancializa-se em atos com intenção de prejudicar, subtrair, subestimar e subjugar, envolvendo sempre um conteúdo de poder, quer seja intelectual, quer seja físico, econômico, político ou social. 156

157 Abranger de forma mais hostil os seres mais indefesos da sociedade, como as crianças e adolescentes. Neste contexto, cabe abrir um espaço especial no que se refere à violência contra crianças e adolescentes enquanto forma de violação de direitos, que é um fato bastante discutido na sociedade contemporânea. 2.1 Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes A história da violência contra crianças e adolescentes, acompanha a trajetória da evolução humana desde os temos primitivos. São inúmeras as formas com que se apresentam, dentro das diferentes culturas. A eliminação de crianças de adolescentes é relatada em diversos fatos da história humana, entre elas o infanticídio, onde crianças pequenas são mortas pelos pais, o que configura homicídios. A prática da violência na infância e adolescência ao longo da história mundial, além do citado fato de serem aceitos ou não por seus pais, também sempre esteve ligada ao processo educativo e de socialização, funcionando como uma "resposta imediata às desobediências e rebeldias". (MINAYO 2001). Na contemporaneidade, a violência contra crianças e adolescentes é constatada diariamente nos noticiários e estudos científicos, devido a seu alto índice, estando diretamente relacionada às questões estruturais e interpessoais, em diferentes aspectos: social, econômico, cultural e psicológico. A violência sexual contra crianças e adolescentes é um fato de grande complexidade e de difícil enfrentamento, arraigado num contexto histórico-social de violência endêmica e com profundas raízes culturais. De acordo com o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-juvenil (2002), "foi apenas na década de 90, com a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, que esses passaram no Brasil a ser juridicamente considerados sujeitos de direitos, e não mais menores incapazes, objetos de tutela, de obediência e de submissão". Tal rompimento com o antigo modelo societário vigente significa um importantíssimo avanço civilizatório: o dos direitos humanos. As novas afinidades entre adultos e jovens, fundamentadas em relações afetivas, de proteção e de socialização, 157

158 implica em denúncia e responsabilização dos violadores desses direitos. A vitimização sexual é uma forma de negligência, exploração, violência, crueldade e opressão contra a criança e o adolescente, porque viola o seu direito à liberdade, ao desenvolvimento sadio e ao respeito. Em relação à violência contra crianças e adolescentes Minayo (2001, p. 36) afirma: Violência contra crianças e adolescentes é todo ato ou omissão cometidos pelos pais, parentes, outras pessoas e instituições capazes de causar dano físico, sexual e/ ou psicológico à vítima. Implica de um lado, numa transgressão ao poder / dever de proteção do adulto e da sociedade em geral; e de outro, numa coisificação da infância. Isto é, numa negação do direito que criança e adolescente tem de serem tratados como sujeitos e pessoas em condições especiais de crescimento e desenvolvimento. O Estatuto da Criança e do Adolescente imprime um novo conceito a essa violência, considerando a um conjunto de ações ou situações que ameaçam ou violam direitos fundamentais das crianças e adolescentes, quais sejam: o direito à vida, à dignidade, à liberdade. Em relação a isso, dados estatísticos, embora não sejam precisos, apontam que é elevado o número de crianças e adolescentes vítimas das diferentes formas de violência, originadas sócio-historicamente em meio à sociedade e em meio à família. Dessa forma, a Doutrina de Proteção Integral, estabelecida juridicamente, não alcança concretude efetiva diante das constantes violações ocorridas e que ferem marcadamente aos direitos fundamentais, inerentes às crianças e aos adolescentes. Por outro lado, esse fato tem provocado generalizadas discussões, no meio social e profissional, associadas à iniciativa de práticas "alternativas" para enfrentar tal problema. A violência sexual contra crianças e adolescente é um fenômeno complexo que ganha relevância a partir dos anos 1990, fruto de uma imensa mobilização e articulação dos Movimentos Sociais e tornam-se prioritários no debate de Organismos Nacionais e Internacionais. É uma realidade que começa a ficar cada vez, mas evidente à medida que os dados estatísticos aumentam, pois os casos passam a serem denunciados e com elas se tem uma difícil constatação da realidade: a criança é a principal vítima e os agressores geralmente são pessoas que ela conhece, já que muitas vezes a violência está em casa. 158

159 Os meios de comunicação revelam isso a cada dia através dos noticiários, o aumento da prostituição infantil, de técnicos envolvidos em caso de pedofilia, crianças assassinadas após serem abusadas sexualmente. Sabe-se que a violência sexual é um fenômeno mundial e não tem cor, religião e perpassa por todas as classes sociais independentes de condições econômicas, apesar dos casos serem, em sua maioria, de pessoas pobres, pois as famílias de classe média alta preferem não denunciar temendo escândalos e assim contribuem para a impunidade dos agressores, fazendo uma espécie de redoma de silêncio em torno do caso. A violência é uma forma de relação social que está inexoravelmente atada ao modo pelo qual os homens reproduzem suas condições sociais de existência. Sob esta ótica, a violência expressa padrões de sociabilidade, modos de vida, modelos atualizados de comportamentos vigentes em uma sociedade em um momento determinado do seu processo histórico. Sua compreensão não pode prescindir, por conseguinte, da referência ás estruturas sociais; igualmente não pode prescindir da referência aos sujeitos que a fomentam enquanto experiência social. É no mundo da família, do cotidiano, que se instala a representação do poder doméstico, dos papeis familiares e da relação de dependência. (GUERRA, 1998, p. 38). Pode-se compreender a violência sexual infantil como uma coação exercida por um adulto na maioria das vezes ligado por laços de parentesco, afinidade ou responsabilidade, com o intuito de levála a participar de práticas eróticas ou a socialização de materiais de conteúdos eróticos, tais como: revistas, vídeos, etc., que são alguns dos possíveis protagonistas, ou por laço de afinidade ou responsabilidade (moral ou legal), quando se refere o padrasto, madrasta, padrinho, tutor, etc. Entende-se também, que o agressor pode ser qualquer pessoa que estabeleça algum vínculo com a criança, sendo até mesmo profissionais que lidam diretamente com as mesmas. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (arts. 13 e 56), passa a ser obrigatória a notificação ao Conselho Tutelar, pelos profissionais da saúde e da educação (arts. 13 e 56 do ECA), sempre que verificarem uma suspeita ou confirmação de maus-tratos praticados contra seus pacientes ou alunos. A nova exigência legal tem contribuído enomermente para a identificação precoce de múltiplas formas de violência doméstica praticadas contra crianças, mas, de forma especial, aos de idade mais reduzida. Sabe-se, entretanto que os dispositivos legais, por si só, não são capazes de reverter à dura realidade que nos cerca. 159

160 A temática envolvendo a violência sexual é considerada de extrema complexidade, pois é uma das categorias de violação aos direitos que mais se confronta com o conteúdo do Estatuto da Criança e do Adolescente, onde em seu artigo 5º preconiza que: Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligencia, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais. (ECA, 1990) Esta afirmativa expressa, portanto, a defasagem entre a teoria de uma legislação modelo e os resultados acumulados ao longo desses 16 (dezesseis) anos de vida, uma vez que as Políticas Sociais implantadas neste âmbito não tem correspondido para alcançar os objetivos propostos pelo referido Estatuto. O fenômeno violência apresenta-se em qualquer classe social, enquanto violência de natureza interpessoal ou intra-subjetiva e consiste segundo Guerra (1998) numa transgressão do poder disciplinador do adulto contra a criança/adolescente; numa ligação de liberdade, porque exige pacto de silêncio e cumplicidade da criança/adolescente com o adulto; num processo de vitimização que se prolonga por meses e anos; tem na sua família sua ecologia privilegiada, pertence à esfera do privado, as violências acabam se revestindo da tradicional característica do sigilo. Entende-se a violência sexual infanto-juvenil como uso do poder de um adulto contra criança e/ou adolescente para fins sexuais lucrativos. Pode-se expressar em abuso sexual e exploração sexual. O abuso sexual pode acontecer nas relações familiares (intrafamiliar) ou fora delas (extrafamiliar). Vale destacar que a terminologia de abuso sexual intrafamiliar não deve ser confundida com abuso sexual doméstico. [...] o abuso sexual intrafamiliar é definido em função das relações (consangüíneas, de afetividade, de proteção do abusador com o vitimizado), da natureza incestuosa da relação. O abuso sexual doméstico refere-se ao "lócus", ao espaço físico onde ocorre o abuso, podendo ser incestuoso ou não. (LEAL & CÉSAR, 1998, p. 123) Deste modo, o abuso sexual intrafamiliar é todo ato ou relação envolvendo uma criança e/ou adolescente e um membro de sua família (podendo ser o abusador um dos pais, um parente ou 160

161 responsável) e este tipo de abuso pode ou não acontecer na casa da vítima. O abuso sexual também pode ocorrer com ou sem contato físico. Pode-se citar como exemplo de abuso sexual sem contato físico, o abuso sexual verbal (estímulo sexual de crianças e/ou adolescentes através de conversas eróticas), o exibicionismo (exibição frente à criança e/ou adolescente com o objetivo de estimulo erótico) e o voyeurismo (observação do corpo da criança e/ou adolescente visando próprio prazer). O abuso sexual com contato físico pode se dar através do estupro e do atentado violento ao pudor. A exploração sexual também é uma forma de violência sexual, diferenciando-se, no entanto, pela sua natureza comercial. A exploração sexual contra crianças e/ou adolescentes pode ser definida: [...] como uma violência contra criança e o adolescente que se contextualiza em função da cultura (do uso do corpo), do padrão ético e legal, do trabalho e do mercado. Operacionalmente a exploração sexual se traduz de múltiplas e variadas situações que permitem visualizar as relações nelas imbricadas e as dimensões que a contextualiza. A exploração sexual de criança e adolescente é uma relação de poder e de sexualidade, mercantilizada, que visa a obtenção de proveitos por adultos, que causam danos biopsicossociais aos explorados que são pessoas em processo de desenvolvimento. Implica o desenvolvimento de crianças e adolescentes em práticas sexuais, através do comercio de seus corpos, por meios coercitivos ou persuasivos, o que configura uma transgressão legal e a violação de direitos e liberdades individuais da população infanto-juvenil. (LEAL & CÉSAR, 1998, p. 116). O problema da violência sexual infanto-juvenil diz respeito à sociedade como um todo e passa por uma discussão, não só das Políticas Públicas, mas também da relação da família com a sociedade, uma vez que se percebe a importância de uma mudança nos valores. Isso implica a superação do paradigma machista e adultocêntrico sobre o qual estão estruturadas as relações de gênero e sexualidade no Brasil. Assim, a Doutrina de Proteção Integral implica um processo de reconstrução de valores, uma outra cultura, uma nova postura, enfim, a construção de novas práticas sociais e de proteção. 2.2 Tipos de Violência Contra Crianças e Adolescentes No que se refere à violência contra crianças e adolescentes, vale salientar algumas formas expressas de violência 161

162 que são: violência física, violência sexual, violência psicológica, violência doméstica e violência intrafamiliar. a) Violência física: Pode-se conceituar violência física, como o uso da força ou atos de omissão praticados pelos pais ou responsáveis, com o objetivo claro ou não de ferir, deixando ou não marcas evidentes. São comuns murros e tapas, agressões com diversos objetos e queimaduras causadas por objetos ou líquidos quentes. Os adultos com descontroles emocionais covardemente violentam a integridade física da criança fragilidade da física da mesma. Às vezes podem não ter a reta intenção de ferir, mas assim mesmo, pelo uso da força praticam atos de violência que culminam em graves ferimentos e terríveis seqüelas quando não na morte. Muitas crianças portam consigo seqüelas físicas que não chegam ao conhecimento das autoridades porque são encobertos pelos próprios adultos no caso os pais ou tutores. b) Violência sexual Abrapia (1997) define a violência sexual na infância e adolescência como a situação em que a criança, ou o adolescente, é usada para satisfação sexual de um adulto ou adolescente mais velho, (responsável por ela ou que possua algum vínculo familiar ou de relacionamento, atual ou anterior), incluindo desde a prática de carícias, manipulação de genitália, mama ou ânus, exploração sexual, voyeurismo, pornografia, exibicionismo, até o ato sexual, com ou sem penetração, sendo a violência sempre presumida em menores de 14 anos. Os casos de violência sexual na infância e na adolescência é de difícil suspeita e de complicada confirmação, logo, na maioria das vezes são praticados, por pessoas ligadas diretamente às vítimas e sobre as quais exercem alguma forma de poder ou de dependência. Guerra (1998) enfatizam que "a violência sexual contra crianças e adolescentes praticada no lar reflete de um lado a evolução das concepções que as sociedades construíram acerca da sexualidade humana; de outro, a posição da criança e do adolescente nessas mesmas sociedades ao longo do tempo e do espaço". (p. 246) A violência sexual causa seqüelas físicas e psicológicas. As pessoas atingidas ficam mais sujeitas os outros tipos de violência, à prostituição, ao uso de drogas, às doenças sexualmente 162

163 transmissíveis, às doenças ginecológicas, aos distúrbios sexuais, à depressão e ao suicídio. Efeitos psicológicos da violência sexual podem ser devastadores, e os problemas decorrentes da violência persistem na vida adulta dessas crianças. Pode-se dizer que a violência sexual é um fenômeno históricosocial lançada nas relações cotidianas, revelando a existência das relações de poder, da desigualdade de gênero e de meios de coerção. Observa-se que por trás de agressores do sexo masculino que exercem o domínio e posse sobre mulheres e crianças, existem características e experiências pessoais de vida que os levam a cometer vitimizações sexuais. O Manual de Segurança da Criança e do Adolescente (2002) aponta alguns sinais específicos, que proporciona que seja levantado o diagnóstico de violência sexual: Edema, hematomas ou lacerações em região próxima ou em área genital, como partes internas de coxas, grandes lábios, vulva, vagina, região escrotal ou anal, tanto em meninas como em meninos; Dilatação anal ou uretral, ou rompimento de hímen dão o diagnóstico de abuso sexual, mas esses nem sempre são sinais evidentes dentro das variações da normalidade, necessitando muitas vezes de uma avaliação minuciosa por profissionais especializados da área de perícia médica; Lesões como equimoses, hematomas, mordidas ou lacerações em mamas, pescoço, parte interna e/ou superior de coxas, baixo abdome e/ou região de períneo; Sangramento vaginal ou anal em crianças pré-púberes, acompanhado de dor, afastados os problemas orgânicos que possam determiná-los; Encontro de doenças sexualmente transmissíveis como gonorréia, sífilis, HPV, clamídia, entre outras; Gravidez; Aborto: a perda de embrião ou feto, de forma natural ou provocada. È interessante que seja salientado, que existem instrumentos para proteção legal das vítimas de violência sexual. A Constituição Federal Brasileira de 1988 dispõe, no seu artigo 227 que: 163

164 É dever da família, da sociedade e do Estado, assegurar, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. A expressão "violência sexual" consta nos livros de Medicina Legal e no Estatuto da Criança e do Adolescente no artigo 130 que reza: c) Violência psicológica Verificada a hipótese de maus-tratos, opressão ou abuso sexual imposto pelos pais ou responsáveis, a autoridade judiciária poderá determinar, como medida cautelar o afastamento do agressor da moradia comum. (ECA, 1993, art. 130) A violência psicológica é a ação ou omissão destinada a degradar ou controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões de outras pessoas, por meio de intimidação, manipulação, ameaça, direta ou indireta, humilhação, isolamento ou qualquer outra conduta que implique prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação ou ao desenvolvimento pessoal. (Disponível em Acesso em março de 2010). d) Violência doméstica Segundo Guerra (1998), "a violência doméstica contra criança, é uma coação exercida por um adulto a ela ligado por laços de parentesco, afinidade ou responsabilidade, com o intuito de levá-la a participar de práticas eróticas". (p. 196) A violência doméstica define-se como o tipo de violência (física, sexual ou psicológica) que ocorre em ambiente familiar, seja entre os membros de uma mesma família, seja entre aqueles que partilham o mesmo espaço de habitação. No que respeita a questão da vitimização doméstica de crianças e adolescentes, a leitura do Estatuto fornece princípios capazes de orientar uma Política Social de prevenção e contenção do fenômeno em nosso país, conforma salienta Guerra (1998) apontam alguns princípios: 1º Princípio: A vitimização doméstica (física, sexual, psicológica) é uma forma de "negligência (...) exploração, violência, crueldade e opressão" contra criança e adolescente porque viola seu direito a 164

165 liberdade e ao respeito. Enquanto tal, um crime praticado por "ação ou omissão" de seus pais ou responsáveis "devendo ser punido na forma da lei" (arts. 5, 16,17). 2º Princípio: A vitimização doméstica de crianças e adolescentes é tão grave que a mera suspeita deve ser imediatamente notifica às autoridades competentes da respectiva localidade (art. 13). 3º Princípio: A proteção de crianças e adolescentes contra vitimização doméstica é dever de todos os cidadãos e não apenas de profissionais (art. 18, 70). 4º Princípio: A vitimização doméstica de crianças e adolescentes é endêmica na sociedade brasileira graças, entre outros fatores, à lei do silêncio que vigora entre profissionais a esse respeito. Daí a necessidade de punir o silêncio conivente (art. 56, 245). 5º Princípio: A vitimização doméstica de crianças e adolescentes é um fenômeno contagioso que não se extingue com a mera perda ou suspensão de guarda, tutela ou pátrio poder. O agressor poderá continuar agredindo, a monos que receba "auxilio, orientação e tratamento" (art. 129). 6º Princípio: A criança ou adolescente vítima de violência doméstica necessita não apenas de proteção contra o agressor mas também de "orientação e atendimento médico e psico-social" para sobreviver ao abuso e não vir a (re) produzí-lo em sua vida futura (arts. 87, 98, 101, 130). 7º Princípio: Na família abusiva todos são vítimas, só que em diferentes graus. Toda família necessitará de "orientação e tratamento" (arts. 98, 101, 129). 8º Princípio: A criminalização da violência doméstica deve envolver penas severas, como forma de conter a prática do fenômeno (art. 263 modificado pela lei dos Crimes Hediondos de 1990 que impõe a mesma pena aos crimes de estupro e atentado violento ao pudor: reclusão de 6 a 10 anos, limites esses alterados para 8-12 e anos se resultar, respectivamente, em lesão corporal grave e morte, sempre é claro, que a vítima esteia em condições de violência presumida, isto é, menor de 14, alienada ou débil mental). 9º Princípio: Enquanto cidadão, a criança ou adolescente terá direito a assistência judiciária integral, gratuita sempre que houver necessidade (arts ). 165

166 10º Princípio: A proteção à criança ou adolescente contra violência doméstica deverá dar-se no nível local e ser acompanhada pelo Conselho Tutelar, enquanto órgão permanente e autônomo encarregado de zelar pela salvaguarda dos direitos da infância e juventude (art. 13). De acordo com análises de Guerra (1998), todos esses princípios apontam em direção de uma política social responsável de atenção ao fenômeno da vitimização doméstica de crianças e adolescentes. e) Violência sexual intrafamiliar Por tratar-se de uma transgressão, legalmente configura o ato delituoso, tipificando-o como crime. De acordo com análises de Arrieta (2000, p. 113), A violência intrafamiliar é um fenômeno presente no cotidiano das grandes cidades e pode ser compreendida como um problema de saúde pública, a ser investigado cientificamente. Um dos fatos que se evidencia é que a violência intrafamiliar pode ocasionar comportamento de fuga de casa, nas crianças vitimadas. Ocorre em todas as classes. Na maioria das vezes é praticado por alguém que a criança conhece, confia e ama, ou seja, o pai, padrasto, tio, avô, ou alguém íntimo da família, contra uma criança do sexo feminino e masculino. A violência sexual intrafamiliar é de difícil diagnóstico, não deixa marcas físicas, na maioria das vezes, mas marca a criança para toda a vida. O abusador, um pedófilo assumido ou não, age geralmente sem violência, seduzindo e ameaçando veladamente. Busca a parceira da criança. O abuso pode durar anos, só cessando quando a criança já uma adulta, se liberta daquela relação patológica. De acordo com o exposto, a perspectiva de prevenção da violência contra crianças e adolescentes está sendo um grande desafio para todos os segmentos da sociedade. A atuação frente à violência deixa de estar nas mãos apenas dos serviços de segurança pública e justiça, para se fragmentar entre os diversos segmentos da sociedade civil e demais setores governamentais. 166

167 3 A ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL DE SERVIÇO SOCIAL FRENTE À VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTO-JUVENIL A profissionalização do Serviço Social foi regulamentada no Brasil em 1957, no entanto, desde 1936 já existiam as escolas de formação. Atualmente a lei que regulamenta a profissão é a Lei nº 8.662/93. É importante salientar que o exercício da profissão de Serviço Social requer formação universitária com duração de 04 anos e inscrição nos Conselhos Regionais constituídos em todos os Estados da Federação. O Serviço Social regulariza-se como profissão em um contexto onde o Estado brasileiro exercia um papel regulador, passando para os Conselhos Profissionais a função de controle. Desta forma, o Serviço Social abrangeu a regulamentação em uma representação, de referenciais teórico-metodológicos que proporcionaram a criação de um processo crítico como instrumento de proposição de um Projeto Profissional Ético-Político. Segundo Iamamoto (2004), "o Assistente Social dispõe de um Código de Ética Profissional, e embora o Serviço Social seja regulamentado como uma profissão liberal, não tem essa tradição na sociedade brasileira" (p. 23). No entanto, o Serviço Social, é uma profissão inserida na divisão sócio-técnica do trabalho, desenvolve um processo de trabalho que implica a delimitação de um objeto especifico: as múltiplas expressões da questão social. Sobre esse objeto incide sua ação, que exige adoção de meios e instrumentos de trabalho para efetivar a atividade profissional que se direciona a um fim: o produto desse trabalho. Assim, o Serviço Social como um trabalho especializado se expressa através de serviços que geram produtos, isto é, interfere na produção e reprodução da vida material, social, política e cultura. O Código de Ética Profissional representa um instrumento que determina parâmetros para o exercício profissional, por meio de sanções e normas consolidando a identidade profissional frente à sociedade. No entanto, assume importância fundamental, pois ele pode ser um instrumento legítimo para o estabelecimento de normas que busquem garantir um respaldo à prática profissional. 167

168 A compreensão teórica do significado da profissão tem seu marco no inicio da década de 90. O Serviço Social como profissão é norteado pelo seu Projeto Ético-Político profissional, orientador da mediação, restaurador e fomentador de posturas propositivas para a sua intervenção. De acordo com análises de Iamamoto (2004) o Projeto Ético- Político da Profissão de Serviço Social, "trata-se de um conjunto profissional indissociável da democracia, da equidade, da liberdade, da defesa, do trabalho, dos direitos sociais e humanos contestando discriminações de todas as ordens". No entanto, pode-se afirmar que ele se coloca na contramão do projeto societário ora hegemônico em nossa sociedade. Há um conjunto de lutas que já foram enfrentadas e outras que se tecem no tempo presente. Frente elas, o protagonismo das entidades representativas da categoria, com sua organização política, sinaliza um horizonte de crítica e resistência ao projeto neoliberal. Desta forma, faz-se necessário considerar que, esse confronto de projetos profissionais como o projeto societário hegemônico tem limites numa sociedade capitalista. Exceto se quiser esterilizar no messianismo, cuja antítese é o fatalismo, mesmo um projeto profissional questionador e avançado deve levar em conta tais limites, cujas balizas mais evidentes se expressão nas condições de mercado de trabalho. (NETTO, 1999, p. 97) O Projeto Ético-Político Profissional do Assistente Social voltase a execução da prática social e política de enfrentamento à questão social e suas expressões, tendo em vista o processo de pobreza crescente e a concentração de riquezas. sendo o Serviço Social uma profissão interventiva, atribuindo-se ao Assistente Social também a postura propositiva, verifica-se que a apropriação e a transformação de conhecimentos subjacentes ao agir profissional podem exteriorizar e sistematizar conhecimentos já elaborados e, ao mesmo tempo, a prática neles fundamentada propicia a elaboração de outros, contribuindo para a construção coletiva nas ciências sociais. Desta forma, pode-se afirmar que a formação profissional do Assistente social deve alcançar e estimular a constante busca de conhecimentos, tendo como objetivo de aperfeiçoar-se intelectualmente, como também distinguir-se pela qualidade e pelo alto padrão de competência, compreendendo a eficiência, eficácia e efetividade. 168

169 O Projeto Ético-Político do Serviço Social orienta a prática profissional, propõe uma nova concepção para o Assistente Social, proporcionando a dimensão coletiva da pluralidade, da instrumentalidade como processo de mediação, questionar a formação profissional e dar impulso ao processo organizacional da categoria, no intuito de planejar e consolidar um perfil profissional capaz de atender com eficiência e eficácia às demandas societárias de forma comprometida com as classes subalternas. O Código de Ética Profissional de 1993 prioriza a defesa de princípios que desfazem uma visão corporativista, na medida em que se introduz em uma dimensão societária e não apenas profissional. Os princípios de atuação profissional do (a) Assistente social têm na sua essência a aliança com a classe trabalhadora e a luta pela efetivação de direitos. Reconhecimento da liberdade com valor ético central; Defesa dos Direitos Humanos; Ampliação e Consolidação da Cidadania; Defesa do Aprofundamento da Democracia; Defesa da Eqüidade e Justiça Social; Articulação com o movimento de outras categorias profissionais que partilhem dos princípios deste código; Projeto Profissional vinculado à construção de uma nova ordem social sem dominação-exploração de classe; Garantia de Pluralismo; Combate a todas as formas de preconceitos; Compromisso com a qualidade de serviços prestados à população. (República Federativa do Brasil. (LEI 8.662, de 07 de junho de 1993). De acordo com análises de Iamamoto (1998, p. 53), os rumos ético-político do Assistente Social têm como desafio, [...] redescobrir alternativas e possibilidades para o trabalho profissional no cenário atual; traçar horizontes para a formulação de propostas que façam frente à questão social e que sejam solidárias com o modo de vida daqueles que a vivenciam, não só como vitimas, mas como sujeitos que lutam pela preservação e conquista da sua vida, da sua humanidade. De acordo com o Projeto Ético Político e com o Código de Ética da Profissão, o (a) Assistente Social é um profissional liberal que atual na elaboração, implementação, assessoria, coordenação e execução de políticas públicas privadas e filantrópicas no âmbito da seguridade social, no meio ambiente, educação, assistência social, habitação, previdência social e outras voltadas para a inserção da população excluída dos direitos de cidadania. Cabe salientar, que o Assistente Social também atua na elaboração, coordenação, execução e avaliação de planos, programas e projetos de Políticas de atendimento à Criança e ao Adolescente, em especial no 169

170 Programa Sentinela. De acordo com análises de Iamamoto (2004, p. 20), Um dos maiores desafios que o Assistente Social vive no presente é desenvolver sua capacidade de decifrar a realidade e construir propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e efetivar direitos, a partir de demandas emergentes no cotidiano. Enfim, ser um profissional propositivo e não só executivo. Desta forma, o profissional de Serviço Social tem que se impor as regras institucionais, principalmente, quando os interesses profissionais coincide com os interesses dos usuários. No entanto, o Assistente Social deve adotar como princípio à defesa dos direitos universais, sendo necessário, o uso de instrumentos do poder de argumentação e persuasão. Pode-se dizer, no entanto, que na trajetória da formação profissional reafirma-se um projeto profissional comprometido com as classes trabalhadoras e dando um outro tratamento às dimensões ético políticas da profissão. Sendo assim, os princípios fundamentais do assistente social na pratica profissional são expressos na defesa da qualidade dos serviços prestados, na competência profissional e na viabilização dos direitos sociais e da cidadania. A atuação do Serviço Social nas Políticas de atendimento à Criança e ao Adolescente, em especial no Programa Sentinela, é de suma importância, logo o Assistente Social é qualificado e capacitado para atuar nessa área de defesa dos direitos sociais. De acordo com análises de Iamamoto (2004), "o Serviço Social tem na questão social a base de sua fundação como especialização do trabalho" (38). A atuação do Serviço Social em programas e projetos comunitários, tem o reconhecimento e conta com o seu aparato institucional, o que fortalece o trabalho extramuros desenvolvidos em parceria com as associações e os pais coordenadores em centenas cidades do Brasil. Buscam solidariedade, empenhando-se em construir uma ponte entre vivencia do problema e a efetivação da reabilitação. A tarefa de implementar políticas publicas como um direito de cidadania, pressupõe colocarmos no centro da questão a participação cidadã e o controle social num momento difícil do Estado e de aprofundamento da pobreza, da exclusão e de acesso aos bens e serviços da sociedade. 170

171 De acordo com a contextualização do Programa Sentinela, o Serviço Social, após o acolhimento da vítima e seus familiares, oferece atendimento de apoio frente à violência sofrida; acompanhamentos sistemáticos através de discussões reflexivas sobre a situação e relacionamentos sócio-familiares, concessão de benefícios, orientação sobre os direitos e deveres, bem como condutas para prevenção de ocorrência ou reincidência de situações de violência, encaminhamento para programas e recursos institucionais comunitários para solicitar assistência e acompanhamento às crianças e / ou adolescente. É de suma importância ressaltar que o Serviço Social não desenvolve uma prática estática, logo, há interrelação entre os profissionais nos diferentes setores e instituições parceiras. No entanto, isto possibilita que os profissionais possam ter uma atuação dinâmica, sendo necessário um conhecimento global da realidade em que se insere. Desta forma, fica claro mais uma vez que a formação profissional deve alcançar e incentivar a constante busca de conhecimentos, com o objetivo de aprimoramento intelectual, em um processo dinâmico e permanente. Cabe salientar, que ao trazer a discussão para o âmbito da abordagem crítica, aplica-se ao procedimento de algumas críticas sobre a prática interventiva junto ao Programa Sentinela. Logo, em muitos locais que são implementados o Programa Sentinela, nota-se que a estrutura do poder é clara entre a gerencia e os usuários; a articulação disciplinar é deficitária; é precária a articulação com outras políticas setoriais; o atendimento familiar de multiprofissionais é precário, dentre outros fatores que ao ser observados necessitam de análises mais profunda por parte da equipe técnica. A critica contextualizada exige postura de argumentação permanente, desta forma, Faleiros (2001) afirma que "a crítica por si não muda as instituições, daí a necessidade de uma nova correlação de forças. É preciso assumir uma postura de implementar a mudança, rompendo, pois, com a paralisia a que muitos se encontram limitados. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Falar sobre este tema consiste em adentrar num momento de grande preocupação, reflexão e intimidade, pois ao comentar este assunto acaba atingindo a estrutura psicológica e moral dos 171

172 componentes familiares. Afinal neste tema, como em outros que dizem respeito à área infanto-juvenil, é imperioso dizer em prevenção, sobretudo através de uma política social que tenha como foco de abordagem uma nova visão e construção social que contemple a criança e o adolescente como sujeitos de direitos, o que importa em não mais visualizá-los como seres simplesmente receptores de garantias, antes como seres humanos em processo de edificação de suas autonomias. A violência sexual contra crianças e adolescente é um fenômeno complexo que ganha relevância a partir dos anos 1990, fruto de uma imensa mobilização e articulação dos Movimentos Sociais e tornam-se prioritários no debate de Organismos Nacionais e Internacionais. É uma realidade chocante, ainda mais quando observa-se que atos cruéis como estes também estão inseridos no contexto familiar. Por isso, as situações de violência, muitas vezes, só são apresentadas a partir de seu ângulo traumático de dano ou prejuízo à vítima ou como de denúncia, sem que se considerem seu desmonte, sua reparação ou sua preservação. O direito da criança e do adolescente deve ser compreendido como sujeitos, cujas autonomias estejam sendo desenvolvidas, e que implicam em elevá-los a autores da própria história, portanto, atores sociais, seres que marcam com suas vidas o atual processo histórico. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA MULTI-PROFISSIONAL DE PROTEÇÃO À INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA (ABRAPIA). Abuso sexual contra crianças e adolescentes : proteção e prevenção - guia de orientação para educadores. Petrópolis, RJ: Autores & Agentes & Associados, ARRIETA, Gricelda Azevedo. A violência na Escola: a violência na contemporaneidade e seus reflexos na escola. Canoas: Ed. Ulbra, IAMAMOTO, Marilda Villela. O serviço social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 7. ed. São Paulo, Cortez, 2004 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde. Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violências: 172

173 Portaria MS/GM nº737 de 16/5/01 publicada no DOU nº96 Seção 1E - de BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. 11 ed. UNB, BRASIL, Constituição Federal de ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE FALEIROS, Vicente de Paula. Estratégias em serviço social. São Paulo, Cortez, 2001 GUERRA, V. N. A. Violência de pais contra filhos: a tragédia revisitada. 3 ed. São Paulo: Cortez, LEAL, Maria Lúcia P. e LEAL, Maria Fátima P. et al. Anais do Seminário Contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Américas. Brasília: Edição MJ/OIT/CECRIA, Manual de Segurança da Criança e do Adolescente (2002) MINAYO, M. C. S. SOUZA, E. R. O impacto da violência social na saúde pública do Brasil: década de ed. São Paulo: HUCITEC, Rio de Janeiro: ABRASCO,

174 O SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL: trajetória histórica e significado das dimensões profissionais RESUMO Anne Marie C. L. S. Almeida Sandra Gomes da Silva Garcia Orientador: Prof M. Sc. Adalberto de Oliveira Brandão domination mechanism, considering the development of the current model of production of the country. However, after some time and new historical events, the professional category needed to give new directions to the professional performance in order to build the real social meaning of the profession. Key-words: History; Perspectives; Social Service. INTRODUÇÃO Conforme pesquisa bibliográfica realizada, o Serviço Social no Brasil surge acompanhando o movimento das transformações societárias ocorridas a partir do fim da escravidão no Brasil, configurando-se, como um mecanismo de dominação, tendo em vista o desenvolvimento do atual modelo de produção neste país. No entanto, com o passar do tempo e de novos acontecimentos históricos a categoria profissional sentiu a necessidade de dar novos rumos à atuação profissional de modo a delinear o real significado social da profissão. Palavras-Chave: História. Dimensões. Serviço Social. ABSTRACT Regarding to the bibliographical research, the Social Service in Brazil arose following the movement of the social transformations that happened from the end of the slavery in Brazil, become itself a Para a apreensão e sistematização das reflexões expressas nesse artigo utilizou-se como delineamento a pesquisa bibliográfica a qual é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos (GIL, 2008, p. 50). A pesquisa bibliográfica não é mera repetição do que já foi dito ou escrito sobre certo assunto, mas propicia o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem, chegando a conclusões inovadoras (MARCONI; LAKATOS, 2006, p. 185). Com base nisso, o presente trabalho possui como foco de análise os processos que circunscreveram a história do Serviço Social no Brasil, fazendo um resgate histórico acerca dos acontecimentos ocorridos na profissão dentro do período que vai 174

175 desde a década de trinta até a contemporaneidade, apontando os principais acontecimentos que contribuíram para o desenvolvimento do Serviço Social no Brasil. Aborda ainda, o significado das dimensões teóricometodológica, ético-política e técnico-operativa do Serviço Social, apontando a importância da aplicabilidade destas dimensões de forma articulada, de modo a se constituírem em subsídios ao trabalho profissional. Este artigo está direcionado a toda comunidade acadêmica, tendo como objetivo contribuir com a construção do conhecimento científico por intermédio da compreensão e visualização do processo histórico do Serviço Social brasileiro e das dimensões desta profissão. 1 O PROCESSO HISTÓRICO DO SERVIÇO SOCIAL NO BRASIL De acordo com Estevão (1985) o surgimento do Serviço Social tem em sua gênese uma concepção de filantropia, benemerência que se fazia por intermédio de ações assistencialistas, prestadas aos pobres, oferecidos por mulheres abastadas economicamente, e que possuíam estreita relação com a igreja católica. Sua criação e desenvolvimento encontram-se vinculados ao surgimento da sociedade capitalista, que no decorrer de seu desenvolvimento, enquanto modelo econômico, fez emergir o alargamento do processo de pauperização da classe trabalhadora, alastrando consequências em torno da velocidade de crescimento do acúmulo de capital, constituindo dessa forma, uma gigantesca população de necessitados. Dentro desse cenário de inquietudes sociais inerentes ao capitalismo, Estado e sociedade dividem a tarefa de zelar pelo bem comum. Na realidade, tratava-se, de uma necessidade de defesa da burguesia recém-chegada ao poder. Nesse sentido, coube ao Estado a imposição da paz social, e à igreja, a responsabilidade de trabalhar o aspecto social, em outras palavras, fazer caridade (ESTEVÃO, 1985, p ). A parte do trabalho designado à igreja era realizada através de ações assistemáticas, sem qualquer espécie de teorização, desenvolvidas pelas senhoras religiosas destinadas a promover ajuda à parcela da população que não teve a sorte de 175

176 se estabelecer economicamente. Assim sendo, necessitava da caridade cristã daqueles que possuíam uma condição econômica privilegiada. É dentro dessa concepção que se encontra a origem do Serviço Social. Seu surgimento se deu em virtude de uma necessidade social que demandava por uma ação de apaziguamento e manutenção de convivência entre diferentes classes que, no passado se realizava através de ações assistencialistas. A primeira escola de Serviço Social foi fundada na cidade de Amsterdã, na Holanda no ano de Neste período histórico começa a se desenvolver o processo de secularização 37 do Serviço Social. Passou-se então a buscar respostas científicas e o nascimento da Sociologia veio a contribuir neste processo. No século XX, Mary Richmond, uma assistente social norte-americana, começou a refletir e a escrever como deveria atuar o Serviço Social. Conforme Estevão (1985, p.18), 37 A respeito desse processo, este se refere às mudanças na busca de respostas às situações de conflitos de ordem econômica, política, social e moral, por quais passavam as classes subalternas. Nesse sentido, Estevão sinaliza que [...] para o Serviço Social, as explicações religiosas do mundo são substituídas por explicações científicas (Estevão, 1985, p. 16). Ela é a primeira a escrever sobre a diferença entre fazer assistência social ou caridade e o Serviço Social propriamente dito. É através de seu livro Caso Social Individual que surgem as primeiras luzes sobre uma prática profissional não ainda institucionalizada, e é ela quem vai dar as medidas da prática profissional competente. De acordo com Estevão esta assistente social comungava da idéia que a personalidade das pessoas poderia sofrer atrofia não conseguindo estabelecer seu desenvolvimento como os demais, em decorrência de motivos alheios à vontade do indivíduo. Dessa forma, para Richmond, o processo de investigação tornava-se essencial, tendo em vista criar possibilidades que contribuíssem para o desenvolvimento da personalidade buscando auxílio no meio social. A este procedimento ela chamou de compreensões do meio social e compreensão da personalidade, o qual se configurou como Serviço Social de Casos Individuais. A contribuição desta assistente social no processo de desenvolvimento do Serviço Social enquanto processo histórico consiste na configuração de seriedade que ela atribui à profissão, desenvolvendo um suporte técnico de modo a subsidiar as ações de 176

177 forma sistemática, mostrando que o Serviço Social poderia atuar em outro nível, para além da caridade cristã. Passada a fase do desenvolvimento do Serviço Social de caso, surge, décadas depois, o Serviço Social de Grupo. O desenvolvimento deste tipo de atuação ocorre em virtude da insuficiência de se trabalhar casos isolados, haja vista o aprofundamento da crise do capitalismo. Este trazia consequências nefastas à vida social de forma generalizada, passando os indivíduos a compartilharem de problemáticas em comum e dessa forma, estimulando o desenvolvimento da prática do assistente social a desempenhar trabalhos de forma coletiva. Com este entendimento em mente, os assistentes sociais passaram a trabalhar com grupos e, em 1934, se inicia dentro do Serviço Social um movimento que tem por finalidade definir a técnica e os objetivos deste método de trabalho (IDEM, p. 24). A teorização a respeito deste tipo de metodologia de atuação teve a contribuição da assistente social Gisella Konopka, que em 1935 escreveu sobre o Serviço Social de Grupo. O Serviço Social de grupo contribuiu no desenvolvimento de Serviço Social de Comunidade 38. Este último surgiu a partir da percepção de grupos com problemáticas em comum se fazendo pertinente o trabalho em conjunto. 39 De início tratava-se de um trabalho de organização de comunidade entendido como a arte e o processo de desenvolver os recursos potenciais e os talentos de grupos. Depois, o Serviço Social de Comunidade vai ser concebido como um processo de adaptação e ajuste de tipo interativo e associativo e mais uma técnica para conseguir o equilíbrio entre recursos e necessidades (IBIDEM, p ). 38 Esse assunto é trabalhado por Aguiar de forma crítica ao apontar divergências de posturas profissionais quanto ao desenvolvimento do Serviço Social de Comunidade, tendo em vista, o trabalho de Desenvolvimento de Comunidade se constituir numa estratégia do sistema capitalista, em oposição à ideologia contrahegemônica que ameaçava a ordem social, sob a perspectiva de preservar o mundo livre de ideologias não democráticas, partindo do pressuposto de que as populações pobres têm maior receptividade ao comunismo. Então é preciso melhorar e desenvolver o sistema capitalista. Daí a busca de estratégias, uma das quais será a implantação de programas de Desenvolvimento de Comunidade (1985, p. 70). 39 O desenvolvimento deste tipo de trabalho ocorreu sob uma percepção acrítica e aclassista da categoria profissional que não levava em conta as contradições e desigualdades da sociedade. [...] Os assistentes sociais não puderam perceber as contradições, uma vez que sua formação nessa época enfatizava que a sociedade é harmônica e que existem apenas alguns desajustes (Aguiar, 1985, p. 75). 177

178 Em se tratando do caso brasileiro, o surgimento desta profissão não foge aos moldes de sua origem. O Serviço Social também surgiu de certa forma, como uma estratégia de dominação por parte de uma classe hegemônica e detentora dos meios de produção, utilizando-se do trabalho do Serviço Social como participante da reprodução das classes sociais, diretamente permeada pelo relacionamento contraditório e antagônico entre elas (SILVA & SILVA, 2007, p. 23). É nesse tipo de relação social conflitante entre os interesses do capital e do trabalho que se encontra a origem da chamada questão social, que conforme explicita Iamamoto (2007, p. 27) deve ser entendida como o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura 40. Nessa perspectiva, o processo produtivo é realizado por uma parcela considerável de trabalhadores que não usufruem dos frutos de seu trabalho, em virtude deste se manter monopolizado nas mãos de uma parte da sociedade (IAMAMOTO, 2007). 40 O moderno sistema mundial, [...] teve os seus começos durante o longo século XVI, em algumas partes da Europa e nas Américas. Desde então, expandiu-se, até incluir todo o Globo (Wallertein, 1930, p. 85). No Brasil, esse fenômeno se deu a partir do processo de generalização do trabalho livre (IAMAMOTO, 2006, p. 125), que ocorre através do fim da escravidão no final do século XX. Através deste acontecimento, o escravo que antes vivia sobre o domínio do senhor feudal, agora se encontrava livre e deveria prover, por intermédio da venda de sua força de trabalho, meios para garantir sua sobrevivência. Juntamente com a população liberta, somou-se um contingente de trabalhadores vindos da Europa, que constituíram a força de trabalho necessária ao desenvolvimento do atual modelo de produção neste país, e contribuíram para o desenvolvimento da participação política dos trabalhadores brasileiros. A economia do Brasil nesta época baseava-se no modelo agrário-exportador. Com a crise de 1929 e a conjuntura econômica e política que primava pela expansão do capitalismo, fez com que este tipo de economia fosse substituído pelo incremento da indústria no país, fato que contou com o apoio do então Presidente da República, Getúlio Vargas. Através de uma política populista este presidente situa as bases de consenso para a instalação e expansão desta economia no Brasil. Dessa forma, a passagem de um sistema para 178

179 outro gerou, inevitavelmente, tensão social, e o governo ditatorial de Vargas tenta consolidar sua posição, através de uma relação personalista com o povo (SILVA & SILVA, 1995, p. 37). Dentro deste cenário situa-se o trabalho do Serviço Social, que acompanhando a conjuntura histórica passa a desempenhar trabalhos junto à classe trabalhadora, tendo em vista a manutenção do sistema. Mas para o desenvolvimento de seu trabalho, que mais tarde será desenvolvido através de instituições de natureza privada e estatais, visualiza-se a necessidade do aprimoramento de um procedimento técnico que subsidiasse a prática profissional. Dessa forma, surge em 1932 o Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo (CEAS). O CEAS passa a buscar uma formação técnica especializada para o desempenho da ação social e da difusão da Doutrina Social da igreja (IDEM, p. 39). Com base nisso, o desenvolvimento técnico profissional constituiu-se de uma necessidade não apenas da igreja católica, mas também, por parte do Estado e do empresariado (IAMAMOTO, 2006). Esta necessidade se atribui aos novos campos de atuação do Serviço Social que ocasionará na institucionalização da profissão que está ligado à criação das grandes instituições na década de 40 quando o Estado passa a incorporar juridicamente a questão social (BRASIL, 1994). Em 1936 surge a primeira escola de Serviço Social em São Paulo, constituindo uma aliança entre Igreja e Estado. A formação dos assistentes sociais obteve como diretriz a influência da Inglaterra com o modelo Franco-Belga, que primava por uma formação pessoal e moral. A partir de 1945 este modelo é substituído pela influência norte-americana. Dessa forma, o Serviço Social passa a dar ênfase à instrumentalização técnica. Sendo assim, passam a prevalecer os pressupostos funcionalistas da sociologia em detrimento da influência do Neotonismo 41 (SILVA & SILVA, 1995). Com a instauração da Ditadura Militar, o Serviço Social passa a desempenhar de forma mais intensificada, seu trabalho voltado à operacionalização de políticas públicas bem como junto aos programas de Desenvolvimento de Comunidade. Com isso, o governo busca legitimação política e concomitantemente o desenvolvimento do capitalismo, colocando a política social como fundamento para minorar as sequelas da sociedade em função do 41 Corrente filosófica que resgata a filosofia tomista, orientada por um conjunto de princípios de ordem espiritual e pela centralidade ontológica dada à pessoa humana (Barroco, 2007, p. 136). 179

180 desenvolvimento do sistema econômico onde a concentração de renda e a superexploração configuram-se como fenômenos marcantes (SILVA & SILVA, 2007). Vale ressaltar que nesse momento histórico se configurou a tendência modernizadora do Serviço Social que buscou o avanço técnico da profissão com vistas a assumir, com eficiência, uma ação profissional moderna (IDEM, p. 34). Além desse processo de modernização, o interior da profissão exprimia a emergência de uma vertente crítica, que em decorrência da conjuntura política da época, teve que de certa forma recuar, para retomar o processo de desenvolvimento de uma nova legitimidade anos mais tarde, configurando-se como uma primeira aproximação do Serviço Social com o Movimento de Reconceituação. Contribuiu para o amadurecimento desta nova fase teórico-prática do Serviço Social dois encontros: o primeiro foi realizado na cidade de Araxá, em 1967, estado de Minas Gerais; e o segundo realizado em Teresópolis, no Rio de Janeiro, no ano de De acordo com Silva & Silva (2007), ainda dentro desse processo, na década de 70 a profissão passa a ter a influência da teoria marxista, através das interpretações de Althusser, passando a atribuir às instituições a figura de aparelhos ideológicos do Estado 42. Além dessa contribuição, a formulação do método BH também merece destaque, haja vista que este último constituiu na mais significativa proposta crítica do Serviço Social elaborado nesta época, no Brasil, influenciando o setor mais crítico da profissão, sobretudo aqueles que se encontravam nas universidades (IDEM, p. 35). Esse método se refere à experiência da Escola de Serviço Social da universidade Católica de Belo Horizonte, ocorrida entre 1972 a Esta experiência pretendia romper com o Serviço Social tradicional, apontando para o enfoque teórico metodológico. O método BH indicava um perfil profissional assentado nas dimensões política, teórica e interventiva. Configura-se em um dos mais significativos marcos da trajetória do Serviço Social, principalmente pela aproximação com a tradição marxista (Ortiz, 2005). 42 É com a dominação dos aparelhos ideológicos de Estado (AIE) que a elite burguesa reproduz sua lógica de dominação excludente e desigual. E o faz principalmente através da escola, sem deixar de lado, evidentemente, a igreja, a família, sindicatos, o direito e outros. Age, portanto, de forma ideológica, reproduzindo um sistema excludente e desigual, através das próprias pessoas que por ele são exploradas e utilizadas como meio. Não há como esquecer dos aparelhos repressivos de Estado (polícia, presídios, direito, entre outros) que agem através da violência (física ou não) e que dão guarida à parte ideológica (AIE), para que essa possa agir de forma segura e sem percalços dentro das famílias, escolas, igrejas, sindicatos (Althusser, 1985) 180

181 Esse momento que perpassa a postura profissional é atribuído ao processo de ruptura com a herança conservadora que passa a se inserir nas reflexões da categoria dos assistentes sociais. Sobretudo, este processo veio a se desenvolver com maior rigor a partir da década de 70 e principalmente na década de 80, em virtude do momento histórico brasileiro voltado para abertura política, decorrente do enfraquecimento dos traços da ditadura Militar, propiciando a entrada no cenário político, de movimentos populares tendo como objetivo a luta pela democracia e pela cidadania que resultou na redemocratização do país. Com base nesse contexto, surge com maior força a possibilidade histórica de uma mudança no significado social da profissão, que a partir da década de 80 passa por uma reforma curricular centrada na crítica ao sistema capitalista, nas políticas sociais e nos movimentos sociais com visão de integração social e contraponto da visão de participação social, de cidadania e de luta de classes. (SANTOS, 2007, p. 72). A partir da década de 90 a reforma curricular passa a ter como centro de análise o debate em torno da questão social caracterizando para o Serviço Social uma década voltada para a maturação das reflexões sobre a proposta curricular de As críticas explicitadas sobre esta organização curricular serviram de base para a reformulação de uma nova proposta de currículo aprovada em 1996 que se configurou como subsídio para a formulação das Diretrizes Gerais para o curso de Serviço Social. Os anos 90 expressam profundas transformações nos processos de produção e reprodução da vida social, determinados pela reestruturação produtiva, pela reforma do Estado e pelas novas formas de enfrentamento da questão social, apontando, inclusive, para a alteração das relações entre o público e o privado, alterando as demandas profissionais. O trabalho do Assistente Social é, também, afetado por tais transformações, produto das mudanças na esfera da divisão sociotécnica do trabalho, no cenário mundial. (ABESS/CEDEPSS, 1996). Além das novas diretrizes, o código de ética profissional também se configurou em um importante acontecimento desta década para a categoria profissional. É este código que direcionará a atuação profissional, compreendendo, inclusive, tais transformações que afloram na sociedade e as novas demandas apresentadas ao Serviço Social. 181

182 Sendo assim, uma das exigências que perpassa a reconstrução do projeto profissional preconiza o estímulo em se promover uma aproximação entre condições de vida das classes subalternas e os assistentes sociais, de modo a captar os fenômenos de ordem social, cultural e política bem como os interesses e necessidades da população usuária, contribuindo para o processo de constituição de sujeitos sociais coletivos, na e a partir da historicidade da vida cotidiana (IAMAMOTO, 2007, p. 197). É a partir da análise do cotidiano, através do método dialético, que a relação entre o Serviço Social e os usuários pode criar as condições para uma aproximação comprometida e coerente com a leitura da realidade, devendo o assistente social dispor de uma formação profissional que subsidie sua atuação. É nesse sentido que a formação profissional deve viabilizar condições para que os novos assistentes sociais sejam sensíveis e solidários ao processo de criação de uma nova cidadania, como estratégia política de gestão de uma cultura pública democrática, contrapondo-se ao culto do individualismo, à linguagem do mercado ao ethos da pós-modernidade. Cidadania voltada para a incorporação política progressiva dos setores excluídos de direitos na prática social, ainda que tidos como necessários e válidos para a produção da riqueza social, como riqueza para outros. (IDEM, p. 199). Nesse processo de construção de novas perspectivas para a profissão não pode deixar de ser levada em consideração a história que permeia todos os fenômenos, e que se configura inerente ao Serviço Social. Não se permitindo dessa maneira, uma formação pronta e acabada na contemporaneidade. Nesse sentido, a abordagem a respeito dos processos que perpassam a profissão bem como a formação profissional são construções que tendo por parâmetro o movimento dialético das implicações na sociedade, deixa uma incógnita quanto à história do Serviço Social, deixando espaço para novos acontecimentos no processo histórico desta profissão. 2 AS DIMENSÕES DO SERVIÇO SOCIAL O Serviço Social é uma profissão regulamentada pela lei nº de 7 de junho de 1993 que dentre outros aspectos aborda acerca da habilitação profissional e as atribuições desta categoria. 182

183 Constituem-se como atribuições do Serviço Social conforme o artigo 4º da lei de regulamentação (8662) da profissão: I- Elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organizações populares; II- Elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da sociedade civil; III- encaminhar providências e prestar orientação social junto a indivíduos, grupos e à população; IV- (Vetado); V- orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos; VI- Planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais; VII- Planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; VIII- Prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo; IX- Prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade; X- Planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social; Para que o assistente social exerça o seu papel profissional com compromisso e respeito para com os usuários, deve se manter em uma constante busca de atualização, sintonizado com as transformações de ordem econômica, política e social. Significa o acompanhamento das transformações da sociedade em seu sentido macro, tendo em vista que no cotidiano do exercício profissional as demandas apresentadas devem ser relacionadas com a totalidade. Isso se faz necessário para que o profissional de Serviço Social possa penetrar na raiz do problema, desmistificando a realidade aparente das demandas apresentadas a pratica profissional, de forma que se estabeleça uma conexão com os fenômenos de ordem macro da sociedade capitalista. É através da apropriação da realidade que o assistente social poderá responder às demandas com maior efetividade. Sobre este aspecto Iamamoto, (2007, p. 49) destaca: Exige-se um profissional qualificado, que reforce e amplie sua competência crítica; não só executivo, mas que pensa, analisa, pesquisa e decifra a realidade. Alimentado por uma atitude investigativa, o exercício profissional cotidiano tem ampliadas as possibilidades de vislumbrar novas alternativas de trabalho nesse momento de profundas alterações na 183

184 vida da sociedade. O novo perfil que se busca construir é de um profissional afinado com a análise dos processos sociais, tanto em suas dimensões macroscópicas quanto em suas manifestações quotidianas; um profissional criativo e interventivo, capaz de entender o tempo presente, os homens presentes, a vida presente e nela atuar, contribuindo, também, para moldar os rumos da história. Nesse sentido, o processo de ruptura desencadeado na década de 80, por intermédio do movimento de reconceituação do Serviço Social, trouxe uma nova roupagem a nível acadêmico, profissional e social. Atribuindo aos assistentes sociais novos papéis, novas posturas, que devem perpassar as dimensões teóricometodológica, ético-política e técnico- operativa em defesa da garantia de direitos de cidadania construídos historicamente, e de valores democráticos e emancipatórios dos sujeitos sociais. As dimensões apresentadas são de fundamental importância, e complementares entre si, e não devem ser trabalhadas de forma isolada. A falta de interlocução entre tais dimensões pode ocasionar em limites que podem dar origem a algumas dificuldades que são percebidas pelos assistentes sociais e precisam ser ultrapassadas. Essas dificuldades podem se expressar no teoricismo, no militantismo e no tecnicismo (IAMAMOTO, 2007). A competência teórico-metodológica, técnicooperativa e ético-política são requisitos fundamentais que permite ao profissional colocar-se diante das situações com as quais se defronta, vislumbrando com clareza os projetos societários, seus vínculos de classe, e seu próprio processo de trabalho (ABESS/CEDEPSS, 1996, p ). A fundamentação teórico-metodológica configura-se como um viés fundamental na construção de novas formas de atuação profissional, que deve contemplar a historicidade dos fenômenos, deve permear a história, de modo a possibilitar a apreensão dos fatos em sua particularidade. Para isso, a atitude investigativa acerca das condições e das relações sociais, constitui-se em um componente de sustentação no desenvolvimento do trato teórico metodológico possibilitando a apreensão das problemáticas cotidianas. Além da investigação, a compreensão, a análise sobre as questões econômicas, políticas, sociais, as contradições inerentes a elas, a capacidade de se fazer uma análise conjuntural configura-se como outro elemento capaz de subsidiar a dimensão teóricometodológica. 184

185 Compreende elementos para a análise da emergência e desenvolvimento da sociedade brasileira a sociedade burguesa o papel do trabalho no desenvolvimento da sociabilidade e da consciência humanas, a compreensão teóricosistemática do Estado e da política, das classes e grupos sociais, das formas de consciência e representação da vida social, ideologias etc. Enfim um acervo de fundamentos temáticos que possa fornecer bases para a compreensão da dinâmica da vida social na sociedade burguesa (IAMAMOTO, 2007, p. 72). No que se refere à dimensão ético-política do Serviço Social no Brasil, pode-se dizer que esta teve sua consolidação na transição da década de 80 para 90, com o processo de ruptura do Serviço Social. Isso fez emergir o desmonte dos pressupostos da ética tradicional, ou seja, do pensamento conservador. Em 1979, com a realização do III CBAS, o posicionamento ético-político torna-se uma referência no compromisso político e coletivo da categoria com os setores populares (ABRAMIDES, 1989, apud BARROCO, 2007, p. 167). Partindo de uma análise histórica, entende-se que tal ruptura teve como pano de fundo as transformações gestadas no marco da sociedade capitalista. O processo de redemocratização do país contribuiu para este processo, que ocasionou novas implicações e perspectivas tanto para a sociedade quanto para a categoria profissional, oportunizando um olhar para dentro do Serviço Social em relação ao posicionamento frente às mudanças e as demandas sociais. Buscou-se uma formação profissional renovada, coerente com os aspectos políticos referendados. Com isso, a formação recebe novos direcionamentos, passando a contar com um currículo explicitamente orientado para uma formação crítica e comprometida com as classes subalternas (BARROCO, 2007, p. 168). Nessa configuração, entende-se, a partir de Netto (2005), o projeto profissional como uma estrutura dinâmica que se transforma a partir de modificações referentes ao quadro de necessidades sociais com as quais a profissão opera; de transformações sociais, econômicas e culturais que ocorrem nos diferentes momentos históricos; e de alterações decorrentes do próprio processo de desenvolvimento da profissão. Significa dizer que a dimensão política é inerente ao projeto profissional e está diretamente relacionada aos projetos societários presentes, e em disputa em um determinado momento histórico (NETTO, 2005, apud MIOTO; LIMA, 2009, p. 23). 185

186 A materialização dos fundamentos ético-políticos ocorre em 1993 com a aprovação do novo Código de Ética do Serviço Social. Este traz como alguns de seus princípios: o reconhecimento da liberdade como valor ético central; defesa intransigente dos direitos humanos e recusa do arbítrio e do autoritarismo; ampliação e consolidação da cidadania; defesa do aprofundamento da democracia; posicionamento em favor da equidade e justiça social; empenho na eliminação de todas as formas de preconceito; garantia do pluralismo. Conforme Bonetti (2001, p. 162) nas sociedades contemporâneas, modeladas de alguma forma pelo ideário da modernidade, a questão central da liberdade inscreveu-se no coração mesmo da reflexão ética. Nesse sentido, o trabalho do assistente social deve primar por este aspecto. No entanto, pode se configurar como um entrave, pois como afirma Iamamoto, (2007, p. 77) o desafio é a materialização dos princípios éticos na cotidianidade do trabalho, tendo em vista as contradições que perpassam o fazer profissional, próprias da sociedade burguesa. Sabe-se como a ordem burguesa limita o exercício da liberdade, que, sem esgotar-se na formalidade, frequentemente é reduzida a seus aspectos jurídicos. Umas das contradições mais visíveis da ordem burguesa é esta: ela fornece o quadro ideal para o desenvolvimento das demandas ligadas à liberdade, que, historicamente, se apresentam de modo concreto (direitos e garantias sociais e individuais, autonomia, autogestão social), mas, simultaneamente, bloqueia e impede a sua implementação (BONETTI, 2001, p. 162). Contudo, o assistente social não deve perder de vista o compromisso ético-político que respalda a profissão, a fim de não se render ao fatalismo, tornando os fenômenos sociais abstratos, contribuindo para a naturalização dos processos que circundam a sociedade capitalista. Portanto, a dimensão ético-política exige um profissional competente, crítico, propositivo, calçado de uma base teórico-metodológica e técnico-operativa que possa dar sustentação ao compromisso ético-político de modo a se complementarem entre si. Dessa forma, o assistente social pode atuar contribuindo com a qualidade dos serviços oferecidos à população usuária, atribuindo respeito aos mesmos, melhorando os programas institucionais bem como a área de cobertura dos serviços de natureza pública, reagindo contra a característica de seletividade dos atendimentos, formulando 186

187 propostas de políticas criativas capazes de responder às demandas sociais. Assumindo os assistentes sociais uma nova natureza do seu trabalho, não se desviando das tarefas que lhe são atribuídas dando a estas um trato teórico-metodológico e ético-político distinto (IAMAMOTO, 2007). Por fim, a dimensão técnico-operativa do Serviço Social a qual possui em seu significado tanta importância no cotidiano profissional como as anteriores. Esta não deve ser trabalhada sem o respaldo das dimensões teórico-metodológica e ético-polítca. Caso ocorra, o trabalho executado se configurará num fazer por fazer, caindo, o assistente social, no tecnicismo profissional. A prática profissional deve estar apoiada à teoria, à realidade e nas possibilidades de intervir, compreendendo, dessa forma, o significado social da profissão. Contudo, a compreensão configura-se no âmbito da teoria e não leva, necessariamente, a materialização da prática. Para esta requer ainda outra espécie de conhecimento: o procedimental (SANTOS, 2007). O Serviço Social possui como matéria-prima de sua prática a questão social, a qual se apresenta ao profissional de múltiplas formas. Nesse sentido, dimensionar o novo trabalho profissional significa captar as inéditas mediações históricas que moldam os processos sociais e suas expressões nos vários campos em que opera o Serviço Social (IAMAMOTO, 2007, p. 80), compreendendo os processos em sua singularidade, exigindo deste profissional a cada intervenção, um olhar, uma proximidade, um envolvimento, e uma prática profissional diferenciada. Nesse sentido, responder às expressões da questão social requer do profissional de Serviço Social, além de bagagem teórica, do caráter investigativo e crítico e o compromisso ético-político respaldado no código de ética de 1993, um instrumental técnico, ou seja, é a prática da profissão propriamente dita, que juntamente com os demais aspectos, resultarão em uma intervenção qualitativa tendo como objetivo a efetividade da ação profissional. Este instrumental técnico, calçado de uma leitura prévia da realidade social, pode se constituir de: relatório social, parecer técnico, visita domiciliar, observação, entrevista, visita institucional, articulação com outras instituições, encaminhamentos, linguagem, escuta, dinâmicas de grupo, palestras, seminários, parecer social, pesquisa, dentre outros. Vale destacar que destes procedimentos 187

188 técnicos encontramos uns que não são de uso privado do assistente social. As estratégias e técnicas de operacionalização devem estar articuladas aos referenciais teóricocríticos, buscando trabalhar situações da realidade como fundamento da intervenção. As situações são dinâmicas e dizem respeito à relação entre assistente social e usuário frente às questões sociais. As estratégias são, pois, mediações complexas que implicam articulações entre as trajetórias pessoais, os ciclos de vida, as condições sociais dos sujeitos envolvidos para fortalecê-los e contribuir para a solução de seus problemas/questões. (ABESS/CEDEPSS, 1996, p ). A habilitação técnico operativa do profissional tem sido um dos muitos reclamos feitos à formação profissional. É necessário atribuir maior importância às estratégias, táticas e técnicas instrumentalizadoras da ação em estreita articulação com os avanços obtidos no campo teóricometodológico e da pesquisa. Isto porque a justificativa da escolha do instrumental, das metas visadas, assim como o do conteúdo por eles veiculados, tanto depende dos resultados da análise da realidade como da intencionalidade e direção social imprimidas pelos sujeitos profissionais (ABESS/CEDEPSS, 1966, p. 153 apud SANTOS, 2007, p. 77). Dentro desse contexto, cabe aos assistentes sociais refletirem permanentemente sobre os requisitos norteadores da prática profissional, tendo em vista a efetivação de suas ações centradas na melhoria da qualidade de vida de seus usuários resgatando sua prática profissional através da teorização em relação ao seu trabalho cotidiano. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A historicidade que contempla o desenvolvimento do Serviço Social demonstra que se trata de uma profissão com estreita relação com os processos inerentes à sociedade, acompanhando a conjuntura política, econômica e social. Nesse sentido, ao se analisar a atual configuração profissional não se pode deixar de levar em consideração estes aspectos históricos que incidiram sobre a profissão e que continuarão, na contemporaneidade, trazendo implicações à atuação profissional. Assim, os novos rumos do Serviço Social continuam em aberto, prontos para serem delineados a partir da atuação dos diversos atores sociais, dando continuidade a esse processo de criação/recriação profissional. 188

189 Com base nisso, o que se vê é a necessidade profissional de acompanhar esse movimento de modo que seu trabalho possa contemplar os atuais requisitos profissionais, principalmente no que se refere às dimensões profissionais, as quais se constituem em pilares frente às demandas postas pela sociedade. Mas, para isso, não basta apenas acompanhar este movimento, é necessário avançar, através da compreensão e reflexão da dialética dos fenômenos que se inscrevem na sociedade. REFERÊNCIAS BARROCO, Maria Lúcia. Ética e Serviço Social. Fundamentos ontológicos. 5. ed. São Paulo: Cortez, BRASIL, Matriz Teórico-Metodológica do Serviço Social na Previdência. Brasília: MPAS, BRASIL, Regulamentação da Profissão. Lei Nº Brasília, CFESS, Código de Ética Profissional dos Assistentes Sociais. Brasília, ABESS, CEDEPSS. Currículo Mínimo para o curso de Serviço Social. Rio de Janeiro, Disponível em: <http://www.ssrede.pro.br/curr%20minimo% doc>. Acesso em: 11 de dez AGUIAR, Antônio Geraldo de. Serviço Social e Filosofia: das origens a Araxá. 3. ed. São Paulo: Cortez, ALTHUSSER, Louis. Aparelhos Ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE); tradução de Walter André Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro: introdução crítica de José Augusto Guilhon Albuquerque. 2.ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, BONETTI, Dilséa Adeodata; SILVA, Marlise Vinagre; SALES, Mione Apolinario; GONELLI, Valéria M. M. Serviço Social e Ética: convite a uma nova práxis. 4. ed. São Paulo: Cortez, ESTEVÃO, Ana Maria Ramos. O que é Serviço Social. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, GIL, Antônio Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 6. ed. São Paulo: Atlas, IAMAMOTO, Marilda Vilela. Relações sociais e serviço social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. Raul de Carvalho. 19. ed. São Paulo: Cortez; [Lima Peru] : CELATS,

190 IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 11. ed. São Paulo, Cortez, SILVA & SILVA, Maria Ozanira da O Serviço Social e o Popular: resgate teórico-metodológico do projeto profissional de ruptura. 4. ed. São Paulo: Cortez, LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Fundamentos da Metodologia Científica. 6. ed. 3. Reimpr. São Paulo: Atlas, WALLERTEIN, Immanuel. O Capitalismo Histórico; seguido de A civilização Capitalista. Estratégias Criativas MIOTO; LIMA. A dimensão técnico-operativa em foco: sistematização de um processo investigativo. Revista Textos e Contextos, Porto Alegre, n.1, p , Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/viewfile/ 5673/4126>. Acesso em: 17 de nov ORTIZ, Fátima da Silva Grave. Serviço Social e Método. Cascavel: Unioeste, Disponível em: <http://cacphp.unioeste.br/projetos/gpps/midia/seminario2/trabalhos/servico_soc ial/mss35.pdf.> Acesso em: 13 de mai SANTOS, Cláudia Mônica dos. Instrumentos e Técnicas: intenções e tensão na formação profissional dos assistentes sociais. Libertas, Juiz de Fora, n. 2, p , Disponível em: <http://www.revistalibertas.ufjf.br/artigos/volume1n2/04_claudia.pdf>. Acesso em: 18 de nov SILVA & SILVA, Maria Ozanira da. Formação Profissional do Assistente Social. 2. ed. São Paulo: Cortez,

191 SEGURIDADE SOCIAL NO BRASIL: desafios e Perspectivas para o Serviço Social RESUMO Maciela Rocha Souza 43 A política de Seguridade Social no Brasil completa 22 anos em Ela é fruto de uma trajetória histórica da classe trabalhadora iniciada ainda no século XIX contra as sequelas do capitalismo na Europa. As crises do capital impuseram redefinições no papel do Estado que, em resposta às pressões do próprio capital e dos trabalhadores, estabelece modelos de proteção social e cria as primeiras políticas sociais. A década de 1980 inaugura um intenso processo de lutas pela redemocratização brasileira e isso resulta da aprovação da Constituição Federal de 1988 que define a Seguridade Social como dever do Estado e direito social. Entretanto, essas conquistas acontecem num contexto político no qual o Estado começa a adotar práticas neoliberais, como redução do orçamento público, privatizações e outras que são contraditórias aos direitos conquistados na Carta Magna de O serviço social sofre com redefinições do Estado, pois tem seu campo de atuação afetado as políticas sociais - e ainda sofre com as contradições de implementação do seu projeto ético-político-profissional na conjuntura do neoliberalismo. 43 Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Pós- Graduada em Política Social e Serviço Social - UFS, Assistente Social da Prefeitura Municipal de Aracaju e professora do Curso de Serviço Social da Faculdade José Augusto Vieira (FJAV). Palavras-chave: Seguridade Social. Neoliberalismo e Serviço Social ABSTRACT The politics of Social Security in Brazil completes 22 years in It is the result of a historical trajectory of the working class begun in the nineteenth century against the consequences of capitalism in Europe. The crises of capital imposed readjustments to the role of the state, in response to pressure from its own capital and workers, provides models of social protection and creates the first social policies. The 1980s inaugurated an intense struggle for the democratization process in Brazil and this makes the adoption of the Constitution of 1988 which defines Social Security as the State's duty and social law. However, these achievements happen in a political context in which the state began to adopt neoliberal practices, such as reduction of public spending, privatization and others that are contradictory to the rights won in the 1988 Constitution. The social service suffers from redefinitions of the state, it has affected her field - social policies - and still suffers from the contradictions of implementation of its ethicalpolitical project-professional at the juncture of neoliberalism. Keywords: Social Security, Neoliberalism and Social Services INTRODUÇÃO O desenvolvimento das políticas de proteção social brasileiras apresentou, historicamente, uma evolução diferenciada dos demais países europeus e norte-americanos. Enquanto esses países 191

192 vivenciavam na década de 1980 fortes sinais dos ideários e da política econômica neoliberal, o Brasil vivia um intenso processo de redemocratização política com o fim da ditadura militar e com a forte organização e mobilização da classe operária brasileira e dos movimentos sociais. Esses movimentos se constituíram enquanto forças políticas que desencadearam as Constituintes e a aprovação pelo Congresso em 05 de outubro de 1988 da nova Constituição Federal Brasileira. A Carta Magna de 1988 se tornou conhecida mundialmente pelo processo democrático em que se deu sua elaboração e, mais que isso, por aprovar uma política de proteção social tendo por princípio a obrigação do Estado na sua garantia e o direito do cidadão/ã na sua efetivação. Quase 22 anos depois é preciso refletir os avanços e desafios da Seguridade Social enquanto modelo de proteção social assumido pelo Estado brasileiro, percebendo a nova conjuntura política e econômica, o trabalho e o papel do Serviço Social diante das novas demandas impostas na atualidade. Trajetória da Política de Proteção Social Para entender o surgimento das políticas de proteção social é necessário localizar historicamente a evolução do capitalismo enquanto modo de produção e forma de relações sociais entre os homens. Não existiu nenhum modelo de política de proteção social no mundo que antecedesse ao capitalismo. O que existiam eram práticas isoladas pontuais realizadas através de doações a mendigos e carentes, ações de caridade executadas na maioria das vezes pela igreja, portanto, de cunho religioso. O sistema capitalista é pautado na extração excessiva do lucro através da exploração da força de trabalho. É nessa relação de produção que estão as Classes Sociais. Elas podem ser simplificadamente definidas pela contradição estabelecida entre os exploradores e os explorados, ou seja, os que possuem os meios de produção, terra, ocupam as estruturas estatais e outros; e aqueles que possuem apenas a força de trabalho para ser vendida. Com exceção da comunidade primitiva, em todos os outros modos de produção já existiam as classes sociais e lutas de classes, mas é no capitalismo que surgem novas formas de relação e exploração. 192

193 Essas classes são antes de tudo antagônicas, possuem interesses diferentes, por tanto, contraditórios 44. É nesta relação que se gesta a questão social, enquanto manifestação cotidiana da contradição de classes. A questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e do deu ingresso no cenário da sociedade, exigindo seu reconhecimento enquanto classe por parte do empresariado e do Estado (IAMAMOTO E CARVALHO, 2001:77). É no contexto do surgimento da questão social que a classe trabalhadora começa a questionar o capitalismo, já que o mesmo impõe aos trabalhadores/as, entre eles mulheres e crianças, excessivas horas de trabalho, baixa rentabilidade e propagação da pobreza e da miséria. Consequentemente essa classe começa a se organizar em meados do século XIX e a partir daí têm início as várias formas de revolta contra a exploração, começam a aparecer também estratégias políticas, tanto individuais como coletivas, para superação do capital e da desigualdade social no cenário mundial; como exemplos podem ser citados: o surgimento dos sindicatos, a 44 Ver Karl Marx. O Capital, fundação do partido comunista, a revolução francesa, a revolução russa, entre outras. Esses episódios foram fundamentais para a consolidação de uma classe trabalhadora conscientizada e que passou a cobrar cada vez mais direitos e cidadania. É nesse contexto mundial que os trabalhadores(as) começam a conquistar alguns direitos como o sufrágio universal (a participação política e o direito ao voto), muito importante para as conquistas da cidadania civil, política e social. Com isso surgem as primeiras protoformas de políticas de proteção social, principalmente na área de seguros sociais, inaugurada por Bismark na Alemanha. Paralelo à organização da classe trabalhadora, o capital, nesse período denominado concorrencial, entra em crise exatamente por não conseguir proporcionar o consumo suficiente m relação ao grau de produção acelerado. O Estado, que esteve a todo tempo a serviço do capital, mesmo que de maneira camuflada, entra em cena, orientado pela teoria de Jonh Keynes ( ) que defendia que tanto o capital como o Estado precisavam se redefinir e assumir novas funções, tendo em vista a reprodução do capital. É neste cenário que surgem as Políticas Sociais enquanto alternativas estatais de superação das 193

194 desigualdades sociais impostas pelo capital, mas também, e contraditoriamente, enquanto alternativas de manutenção do próprio capital. Na discussão do surgimento e função social das políticas sociais é necessário abrir um parêntese quanto às duas perspectivas em torno da caracterização das políticas sociais. Segundo Pastorini (1997), essas duas perspectivas denominadas de tradicional e marxista analisam e caracterizam as políticas sociais enquanto concessão ou conquista. A perspectiva tradicional concebe a política social como redistributiva, ou seja, como um conjunto de ações estatais que pretendem diminuir as desigualdades sociais e agir como efeito corretor das sequelas provocadas pelo capital. Nessa concepção as políticas sociais são entendidas como concessões por parte do Estado, que procura, através da redistribuição de renda, promover o equilíbrio social e terão, portanto, um caráter compensatório, paliativo e corretivo das desigualdades sociais produzidas no mercado (PASTORINI, 1997, p. 83). A perspectiva marxista caracteriza uma relação conflitiva que envolve o Estado, a burguesia e os trabalhadores (as). Ela compreende o surgimento das políticas sociais como fruto de uma relação antagônica que visa ao consenso social, à aceitação e legitimação da ordem, favorece a ampliação e reprodução do capital, mas ao mesmo tempo, e contraditoriamente, as políticas sociais são também frutos da correlação de força dos trabalhadores (as) na luta de classes. Nesse sentido, para Pastorini (1997), as políticas sociais são muito mais uma relação de conquista mediante as lutas de classes do que meramente concessão do Estado. Partindo desta última concepção pode-se observar a evolução das políticas sociais e suas redefinições ao longo do século XX e início do século XXI tendo em vista três elementos: o modelo de Estado, as relações sociais estabelecidas entre as classes antagônicas e a natureza do capital. Sendo assim, as políticas sociais foram elaboradas e implementadas em três momentos históricos distintos: Estado Liberal (final do séc. XIX e início do séc. XX) - Nesse período não se têm políticas sociais garantidas, mas, algumas iniciativas do Estado (principalmente em países europeus) decorrentes da pressão da classe trabalhadora que foi decisiva para o segundo momento 194

195 histórico das políticas sociais; Estado Keynesiano (meados de 1930 a 1960) o Estado passa a intervir na economia e começa a gerir um modelo de Proteção Social através da ampliação e consolidação das políticas sociais; o Estado Neoliberal (pós anos 70 até os dias atuais) - o Estado se desresponsabiliza das políticas sociais e o mercado passa por grande processo de reestruturação que impõe o enfraquecimento da classe trabalhadora. Esses três contextos históricos demarcaram a trajetória das políticas de proteção social no mundo e no Brasil, mesmo que tardiamente e de forma diferenciada. As políticas sociais foram e são até hoje responsáveis por garantir o acesso da classe trabalhadora aos mínimos necessários para sobrevivência, assim compreender sua trajetória enquanto instrumentos de cidadania dos trabalhadores (as) é perceber a influência delas mesmas nos processos históricos e nas correlações de força da sociedade capitalista. A Política de Seguridade Social no Brasil e o Desmonte Neoliberal A Seguridade Social é um sistema de proteção social originado na Inglaterra por William Beveridge após a segunda guerra mundial e que tem por fundamento a teoria intervencionista de Jonh Keynes. Segundo Cabral (2000), a Seguridade Social foi fundada nos princípios da universalidade de atendimento, uniformidade quanto ao montante e modalidade do amparo institucional, unificação do aparato institucional e combinação da lógica contributiva e nãocontributiva no financiamento do sistema de proteção social. Nesse sentido, a Seguridade Social consolidou-se como padrão hegemônico de proteção social na Europa e ainda estruturouse como serviço público, ganhando status de direito social com a existência do Estado de Bem-Estar Social, mas este começou a ser questionado a partir da segunda crise do capital, na década de O Brasil tem suas primeiras protoformas de proteção social a partir da década de 1930, como reflexos da conjuntura política e econômica mundial. Vê-se, nesse período, uma transição do modelo político-econômico no país com a decadência da economia agroexportadora e consequentemente das oligarquias rurais. Paralelamente a isso o Brasil vai tomando novos rumos com o 195

196 crescente processo de industrialização impulsionado pela revolução burguesa nessa mesma década. As primeiras iniciativas de políticas sociais brasileiras corresponderam a benefícios diretamente vinculados ao mundo do trabalho formal, a exemplo da criação dos Ministérios do Trabalho, da Saúde Pública e da Educação, da criação da carteira de trabalho e Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), da criação das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAP s) e em seguida dos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAP s), da regulação dos acidentes do trabalho e auxílios (doença, maternidade, família e segurodesemprego) e ainda da regulamentação da Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS). (BEHRING e BOSCHETTI, 2007). A regulamentação das leis trabalhistas no Brasil e a adoção de um modelo de proteção social é resultado das fortes pressões da classe trabalhadora agora politizada e organizada graças à influência dos trabalhadores imigrantes, principalmente dos europeus, dada a experiência acumulada na luta de classe em decorrência da revolução industrial. O Brasil, com essas iniciativas, acompanha as tendências internacionais de intervenção estatal, mas com características bastante particulares, principalmente por implantar um modelo de proteção social com caráter corporativo e fragmentado e sobretudo lento e seletivo, denominado por Behring e Boschetti (2007) de cidadania regulada. E Silva (2007) confirma: [...] à luz do paradigma social-democrático e keynesiano, não se pode afirmar, pelo menos no caso do Brasil, que há um Estado de Bem-Estar Social, não obstante os avanços consolidados no capítulo da seguridade social, na Constituição de (SILVA, 2007, p. 115). O Brasil assume, portanto, um modelo de seguridade social pautado na lógica do seguro social, modelo foi organizado pelo Estado Alemão sob a inspiração do Chanceler Otto Von Bismarck, em 1883, que condicionava o acesso a benefícios, - principalmente aos previdenciários a uma prévia contribuição dos trabalhadores, ou seja, tinha caráter contributivo e de serviço privado, com vistas apenas à proteção do mundo do trabalho. Exatamente por isso, as políticas sociais brasileiras em boa parte do século XX limitaram-se a atender apenas a uma parcela da população: aquela que tinha sua profissão regulamentada e estava inserida no mercado de trabalho formal. 196

197 Segundo Boschetti (2006) apud Malloy, 1986 apud IBGE , em 1960, ano em que foi instituída a primeira Lei Orgânica da Previdência Social (LOPS), apenas 23,1% da população economicamente ativa era segurada, o que correspondia a apenas 7,4% da população brasileira que tinham acesso a benefícios previdenciários e consequentemente à assistência e aos serviços de saúde. Vale um destaque na obra de Boschetti (2006) para o trato que ela dá à imprecisão conceitual do modelo de proteção social brasileiro ao longo do século XX. Segundo a autora foi essa imprecisão e a nebulosidade conceitual (pg. 38) que possibilitou inclusive a ampliação dos direitos. É importante frisar que nesse período histórico as ações de saúde e assistência eram complementares aos benefícios previdenciários, ou seja, eram também contributivos, uma vez que apenas os trabalhadores que contribuíam para a previdência social tinham acesso aos serviços de saúde e a prestações de benefícios assistenciais. Mesmo com a influência do modelo de proteção social defendido por William Beveridge, é apenas em 1988 que o Brasil avançará para um modelo de proteção social amplo, por meio da inclusão da Seguridade Social na Constituição Federal, que proporcionou um dos maiores saltos das políticas sociais neste país. A Constituição Federal de 1988 segue a concepção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e define a seguridade social como Um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinado a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. (Constituição Federativa do Brasil artigo 194). A Seguridade Social é instituída como dever do Estado e direito social, com os seguintes objetivos: (Parágrafo Único do artigo Constituição Federativa do Brasil). I - universalidade da cobertura e do atendimento; II - uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais; III - seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços; IV - irredutibilidade do valor dos benefícios; 197

198 V - eqüidade na forma de participação no custeio; VI - diversidade da base de financiamento; VII - caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados. A Seguridade Social brasileira foi elaborada observando o tripé Saúde Previdência Assistência, assim fundamentadas segundo Cabral, 2000: Saúde fundada nos princípios da universalidade, gratuidade, não contributividade, redistributividade, descentralização. O direito é universal segue modelo beveridgiano; Previdência Social contributiva, seletiva, focalizada e centralizada no Governo Federal, seu financiamento é assegurado pelos próprios trabalhadores(as) segue modelo bismarkiano; Assistência Social seletiva (a quem dela necessitar), gratuita, não contributiva, redistributiva, descentralizada e preconiza a participação da sociedade civil. Percebe-se dessa forma que no próprio texto constitucional de 1988 o Brasil adotou as duas concepções de modelo de proteção social; a seguridade social com seus princípios de universalidade e uniformidade políticas de saúde e assistência social e o seguro social com seu princípio contributivo política de previdência social. Essas três políticas sociais foram, portanto, definidas pela Constituição Federal de 05 de outubro de 1988 como fundamentais para o modelo de proteção social brasileiro numa lógica da responsabilização estatal para sua garantia. Além disso, a Carta magna trazia, na sua concepção, diretrizes e princípios que a tornaram conhecida como a Constituição Cidadã : A Constituição brasileira de 1988 foi o coroamento de um longo processo de maturação em que todas as forças da sociedade se congregaram para traçar o perfil de um novo País a ser construído na afirmação plena da cidadania responsável [...] (Inocêncio Oliveira Presidente da Câmara dos Deputados em 1993 apud Boschetti, 2006, p. 142) 198

199 Ao longo desses 22 anos as três políticas passaram por grandes desafios perante sua formulação, aprimoramento e financiamento segundo os princípios constitucionais. No entanto, é também nesse período que as mesmas políticas, contraditoriamente, esbarram num conjunto de ajustes e reformas preconizadas pelos organismos financeiros internacionais. As políticas públicas que compõem a Seguridade Social Previdência, Assistência Social e Saúde sempre mereceram destaque social, político e econômico dado o grau de importância para o mundo do trabalho e para a reprodução das relações sociais e humanas. Algumas especificidades dessas políticas na atualidade são: A Previdência Social é a política que mais vem sofrendo influência do ponto de vista da negação de direitos, isso porque passou por duas reformas aprovadas pelo Congresso Nacional as Emendas Constitucionais nº 20/1998 e nº 41/2003. Essas reformas, longe de ampliarem seu campo de proteção social para a classe trabalhadora, provocaram sérios problemas para o servidor público, dificultando o acesso de outras categorias de trabalhadores ao sistema de proteção social previdenciário, extinguindo a aposentadoria por tempo de serviço, criando o fator previdenciário; e estimulando ainda o crescimento da previdência privada ao impor um teto de contribuição ao Regime Geral da Previdência Social (RGPS). A Política de Saúde é a mais abrangente no tripé da seguridade social. Os princípios da universalidade, integralidade, equidade, participação social e descentralização garantidos pelo Sistema Único de Saúde SUS são modelos para outros países, no entanto a Saúde passa por um grande desafio: seu financiamento. A disputa política do setor privado pelo recurso público é cada vez maior e, por outro lado, a Saúde pública transfere cada vez mais responsabilidade para a Saúde privada com a defesa de fugir da burocracia do Estado. Essa disputa ganhou há dois anos o cenário do Congresso Nacional que aprovou a extinção do imposto que financiava a saúde a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e Direitos de Natureza Financeira). No entanto, um outro imposto já foi criado para financiar a Saúde o CSS Contribuição Social para a Saúde que já foi aprovado pela Câmara e aguarda posicionamento do Senado. O que se vê nesse cenário é que a universalidade está garantida, mas a política de Saúde não consegue manter a facilidade, a agilidade e a qualidade de acesso ao sistema. 199

200 A Assistência Social foi sem dúvida a política da Seguridade Social que mais passou por (re)formulação do ponto de vista político, teórico e metodológico nos últimos anos. Exemplo disso foi a elaboração da Lei Orgânica da Assistência Social LOAS (1993), as Normas Operacionais Básicas NOB (1997, 1998, 2005 e Recursos Humanos), a Política Nacional de Assistência Social PNAS (2004) e o Sistema Único da Assistência Social SUAS (2005). Além disso, a Assistência foi a política, comparativamente à Saúde e à Previdência, que mais sofreu impactos na ampliação do acesso e no orçamento utilizado, tudo isso reflexo dos programas de transferência de renda do governo federal. Entretanto, não se pode deixar de considerar que ao mesmo tempo em que a Assistência cresceu na garantia de direitos e acesso a Previdência se retraiu, como afirma a autora: [...] o fato é que a Previdência e a Assistência passaram a construir uma unidade contraditória (a negação de um sistema único de previdência social pública é, ao mesmo tempo, a base de afirmação de um sistema único de assistência social) no processo de constituição da Seguridade Social Brasileira. (MOTA, 2004:7) Nesse contexto observa-se que, apesar da Seguridade Social Brasileira ser fruto de um amplo processo de mobilização da classe trabalhadora, tendo em vista a defesa de seus projetos políticos, econômicos e sociais que permearam o processo de redemocratização do país na década de 1980, sua verdadeira concretização infelizmente não está sendo efetivada, isso porque a sua aprovação aconteceu num contexto econômico e político que se verificava totalmente adverso à lógica da proteção social estatal. Sendo assim, o Estado brasileiro, que recentemente passara por um processo de redemocratização o qual resultou na Constituição de 1988, vai enfrentar uma nova ordem internacional marcada por uma concepção político-ideológica que combate ferozmente o Estado intervencionista e de bem estar social, e que se materializa em novas regras de regulação do mercado, do papel do Estado e de novas relações de trabalho. Esta ordem é denominada de neoliberalismo. O neoliberalismo se caracteriza inicialmente pelo afastamento do Estado enquanto regulador do mercado, pelas políticas de ajustes fiscais e monetárias, privatizações, desemprego estrutural, 200

201 perseguição aos sindicatos, criação do exército de mão-de-obra, pela lógica mercadológica das políticas públicas, entre outros. Tais orientações de ordem política e econômica provocaram profundas mudanças no mundo do trabalho, mediante a inserção de novas tecnologias, da precarização das relações de trabalho, do desemprego e subemprego, observadas por Behring e Boschetti (2007): A hegemonia neoliberal na década de 1980 nos países capitalistas centrais não foi capaz de resolver a crise do capitalismo nem alterou os índices de recessão e baixo crescimento econômico, conforme defendia. As medidas implementadas, contudo, tiveram efeitos destrutivos para as condições de vida da classe trabalhadora, pois provocaram aumento do desemprego, destruição dos postos de trabalho não-qualificados, redução dos salários devido à oferta da mão-deobra de reserva e redução de gastos com políticas sociais (BEHRING e BOSCHETTI, 2007:127). Ainda que a Constituição Federal de 1988 tenha sido o mais significativo avanço na política de proteção social brasileira, com destaque da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a cobertura previdenciária para os(as) trabalhadores(as) rurais, a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), que entre outras institui o Beneficio de Prestação Continuada (BPC) para idosos e portadores de necessidades especiais, a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o que se tem hoje é um modelo de proteção social incompatível com o modelo de Estado e de economia adotado no país no início da década de Esses modelos têm trazido sérias consequências para as políticas sociais, que vão desde a redução do orçamento público, até a privatização/incentivo do serviço privado nas políticas sociais, principalmente nas áreas de educação, saúde e previdência social, assumindo assim um caráter contraditório em relação aos direitos assegurados pela Constituição Federal de 1988: O século XXI se inicia com transformações profundas nas políticas sociais nos países capitalistas centrais. Se não se pode falar em desmantelamento, é inegável que as reestruturações em curso seguem na direção de sua restrição, seletividade e focalização (BEHRING e BOSCHETTI, 2007, p. 134). A conjuntura atual não é das mais favoráveis, apesar de o governo Lula ter sido eleito numa perspectiva política de esquerda, 201

202 de acumular índices de aceitabilidade de um governo popular e de assumir um orçamento maior para a política de assistência, tendo em vista programas de transferência de renda, isso não basta se o modelo de Estado é neoliberal. Tal modelo favorece de forma ampliada os grandes capitais, defendendo uma série de reformas na sua estrutura, assumindo compromisso com o capital estrangeiro, transferindo responsabilidades para outros setores, tornando-se um Estado mínimo e ainda propagando a solidariedade enquanto estratégia de enfretamento da pobreza e da desigualdade social, o que compromete seriamente a efetivação de um modelo de proteção social estatal. Para tornar esse cenário ainda mais comprometedor verificase uma desarticulação e inércia da classe trabalhadora enquanto propulsora de demandas e de lutas que imponham uma redefinição do modelo político e econômico que se vivencia no Brasil. E essa nova aparência da classe trabalhadora brasileira também é fruto das novas condições e relações de trabalho impostas pelo neoliberalismo na esfera da produção que propicia aos trabalhadores uma instabilidade no mercado de trabalho formal, dada as condições da reestruturação produtiva. Não haverá mudança se a classe trabalhadora não se organizar e pressionar as forças políticas tradicionais para realizar as reformas de base verdadeiramente necessárias à promoção da igualdade, equidade e justiça social. Desafios e Perspectivas do Serviço Social na Implementação de um Modelo de Proteção Social Refletir o Serviço Social na contemporaneidade é antes de tudo perceber a realidade política, econômica, social e cultural da sociedade analisada. É reconhecer que ela é mutável e, portanto, histórica. Pois o Serviço Social, enquanto profissão, intervém na realidade, nos processos de reprodução das relações sociais estabelecidas e determinadas historicamente. Assim, O Serviço Social não atua apenas sobre a realidade, mas atua na realidade (...) a conjuntura não é pano de fundo que emoldura o exercício profissional; ao contrário é parte constitutiva da configuração do trabalho do Serviço Social devendo ser apreendida como tal (IAMAMOTO, 2001:55). Nesse sentido, compreender a realidade em toda a sua complexidade é um desafio que se apresenta para o Assistente 202

203 Social, que tem sido convocado a dar novas respostas no âmbito do exercício profissional, não mais apenas na execução, mas também na formulação e gestão das políticas públicas, assim como na formulação de novas elaborações teóricas, compreendendo que a pesquisa e o espírito indagativo são fundamentais ao exercício profissional (IAMAMOTO, 2001, p ). A evolução capitalista e o consequente aprofundamento da desigualdade social e da questão social se configuram como a atual realidade que precisa ser apreendida pelo Serviço Social. Nesse sentido, o Assistente Social ao apreender a realidade, percebe novas possibilidades de demanda e atuação, podendo transformá-las segundo sua intencionalidade e instrumentalidade em novos espaços e perspectivas para o exercício profissional (GUERRA, 2000). A Constituição de 1988 através da Política de Seguridade Social proporcionou novos espaços sócio-ocupacionais para o Serviço Social, isso porque criou políticas e ampliou serviços e direitos na esfera da proteção social. Esses espaços são resultados da municipalização, descentralização e controle social das políticas públicas e pela própria complexificação da questão social que impõe a ampliação da rede de atendimento e consequentemente a contratação do Assistente Social pelo Estado, que até hoje é o maior órgão empregador da categoria. Entretanto, são muitos os desafios enfrentados pelo Serviço Social na configuração do Estado Neoliberal, tendo em vista a retração do Estado e de suas responsabilidades com as políticas públicas, visíveis com a redução dos orçamentos públicos, a redução de direitos e a transferência dessas responsabilidades para a sociedade civil. Enquanto isso, as políticas sociais tornam-se cada vez mais seletivas, focalizadas, restritas e fragmentadas, provocando a sua conseqüente deteriorização (BRAZ, 2004). Essa realidade se reflete sensivelmente nos espaços de atuação do Assistente Social, pois, [...]se persistirem as políticas neoliberais postas na direção da (contra-) reforma do Estado, teremos uma redução/degradação dos serviços públicos que podem indicar, mais uma vez, um aviltamento das condições de trabalho dos assistentes sociais nestes espaços e, articuladamente, progressivas dificuldades para a efetivação de princípios históricos que partilhamos e defendemos, circunscritos na defesa das políticas públicas de responsabilidade estatal, tanto na saúde, na previdência, na assistência social e nas demais políticas sociais (BRAZ, 2004, p ). 203

204 Quais seriam então as perspectivas para os Assistentes Sociais neste cenário? Primeiro é nos percebermos também enquanto classe trabalhadora assalariada e co-responsável pela organização e fortalecimento das lutas de classe no enfrentamento do Estado neoliberal e das suas consequências drásticas na implementação do modelo de proteção social universal a todo cidadão/ã brasileiro/a. A atuação do assistente social deve obedecer aos princípios éticos e políticos da profissão. Devendo este profissional preconizar a liberdade como valor ético central, a autonomia, a democracia, a cidadania, a justiça, a igualdade social e a defesa dos direitos humanos. Agindo sob os princípios ético-políticos da profissão, o assistente social estará em defesa de políticas públicas eficazes e eficientes preconizadas na Constituição de 1988 e nas suas leis de regulamentação; contribuindo ainda para a ampliação e efetivação dos direitos conquistados pelo povo e garantidos pelo Estado Brasileiro. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os 22 anos da Seguridade Social no Brasil nos remetem a muitas reflexões, tanto do ponto de vista do modelo de desenvolvimento adotado pelo país como do ponto de vista das repercussões do mesmo para o projeto político do Serviço Social. O modelo de desenvolvimento vigente é perverso, preocupase apenas com o crescimento econômico e com o lucro, apropriados pela minoria da população. Como resultado desse modelo vê-se cada vez mais a concentração de terra, o esgotamento dos recursos naturais, a exploração da classe trabalhadora, o estímulo ao consumo exacerbado e a crescente desigualdade social mascarada pelos índices de crescimento econômico e ainda sustentada por uma ideologia neoliberal. E é esse modelo econômico que tem marcado decisivamente as condições de vida e trabalho da classe trabalhadora, o papel do Estado no enfrentamento das desigualdades sociais e consequentemente tem refletido na atuação do Assistente Social frente às novas expressões da questão social. 204

205 O cenário não é favorável, por isso, a preocupação da categoria é de como fazer valer um projeto ético-político-profissional cuja centralidade é a emancipação dos sujeitos numa conjuntura neoliberal. Onde as políticas de proteção social, maior campo de atuação profissional, estão na mira do sucateamento e das privatizações. É nesse contexto que também se encontra a Política de Seguridade Social, a qual assume uma importante função de proteção social da classe trabalhadora e que deve ser veementemente apoiada e defendida como garantia constitucional que pretenda ser universal, pública e de qualidade. Por isso, é preciso construir novas bases para o modelo de desenvolvimento brasileiro. Pois entendemos que não há desenvolvimento integral de uma sociedade sem o acesso amplo e garantido ao trabalho e a salários dignos, à educação, à saúde, a garantias previdenciárias, à erradicação do trabalho infantil e escravo, à preservação do meio ambiente, entre outros. Este desenvolvimento deve privilegiar o ser humano na sua integralidade, possibilitando a construção da cidadania. Neste caso, as questões econômicas devem estar articuladas às questões sociais, culturais, políticas, ambientais e às relações sociais de gênero, raça e etnia. Sem dúvida são questões profundas que nos levam a refletir cotidianamente a nossa prática e principalmente a questioná-la, não nos responsabilizando pela ineficiência ou limitação dessas políticas, mas, sobre os nossos papéis e funções, enquanto assistentes sociais nos espaços de reprodução social da classe trabalhadora. E esse é um trabalho cotidiano do Assistente Social em que pese definir o projeto político de sociedade que defendemos. O Serviço Social precisa se apropriar dessas reflexões na tentativa de traçar estratégias para a categoria, tendo em vista a colaboração na construção de uma sociedade justa, democrática e igualitária entre todos os povos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOSCHETTI, Ivanete. Seguridade Social e Trabalho: paradoxos na construção das políticas de previdência e assistência social no Brasil. Brasília: Letras Livres: Editora UnB, (Coleção Política Social 1) 205

206 BRASIL. Constituição Federativa do Brasil de 05 de dezembro de Lei nº de 07 de junho de Lei de Regulamentação da Profissão. BRAZ, M. O Governo Lula e o projeto ético-político do Serviço Social. IN: Revista Serviço Social e Sociedade nº 78. São Paulo: Cortez, BEHRING, E. R. e BOSCHETTI, I. Política Social: fundamentos e história. São Paulo: Editora Cortez, CABRAL, M. do S. R. As políticas brasileiras de seguridade social. IN: Capacitação em Serviço Social e Política Social. Módulo 03. Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. CFESS-ABEPSS-CEAD/NED- UnB, 2000 COSTA, L. C. Os Impasses do Estado Capitalista: uma reforma sobre a reforma do Estado no Brasil. São Paulo: Editora Cortez, GRANEMANN, S. Políticas Sociais e Serviço Social. In: REZENDE, I. (org.) e CAVALCANTI, L. F. Serviço Social e Políticas Sociais. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, GUERRA, I. Instrumentalidade e Serviço Social. IN: O Trabalho do Assistente Social e as Políticas Públicas Módulo 04. Programa de Capacitação Continuada para Assistentes Sociais. CFESS- ABEPSS-CEAD/NED- UnB, IAMAMOTO, M. V. O Serviço Social na Contemporaneidade: trabalho e formação profissional. 5ª edição, São Paulo: Cortez, MARX, K. O Capital. São Paulo, 1865 MOTA, A. E. Seguridade Social no Cenário Brasileiro. In: Revista Agora: Políticas Públicas e Serviço Social. Ano 1, nº 1, outubro de PASTORINI, A. Quem mexe os fios das políticas sociais? avanços e limites da categoria "concessão-conquista". In: Revista Serviço Social & Sociedade, São Paulo, Cortez, Nº 53, Ano XVII, Março SILVA, A. A. da. A gestão da seguridade brasileira entre a política pública e o mercado. 2ª edição, São Paulo: Cortez, TAVARES, M. A. S. O debate contemporâneo acerca da questão social. Revista Serviço Social e Sociedade nº 92. São Paulo: Editora Cortez:

207 TRABALHO INFANTIL ABSTRACT RESUMO Cristiane Alves da Costa Fábia Tatiane Araujo Almeida Faculdade Jose Augusto Vieira- FJAV Bacharelado em serviço social Orientadora: Maciela Rocha Souza Especialista Child labor is a cruel reality that still performs for thousands of children and adolescents in Brazil. It is an issue that involves a series of social, economic and cultural showing the various realities faced by these children and adolescents. This article aims to stimulate a theoretical reflection on the main economic sectors responsible for the entry and residence of children and adolescents in work activities, identifying the risks and consequences of child labor leads to health and physical and psychological development. Keywords - Key: child labor, culture, economic sectors, health. O trabalho infantil é uma realidade cruel que ainda se apresenta para milhares de crianças e adolescentes em todo o Brasil. É uma problemática que engloba uma série de fatores sociais, econômicos e culturais mostrando as diversas realidades enfrentadas por essas crianças e adolescentes. Este artigo tem como objetivo estimular uma reflexão teórica sobre os principais setores econômicos responsáveis pelo ingresso e permanência das crianças/adolescentes nas atividades laborais, identificando os riscos e conseqüências que o trabalho infantil ocasiona na saúde e no desenvolvimento físico e psicológico. Palavras Chave: trabalho infantil, cultura, setores econômicos, saúde. 1 HISTORIA DO TRABALHO INFANTIL O trabalho 45 teve início desde o surgimento do ser humano, o qual necessitava trabalhar para poder sobreviver, uma vez que dependia da agricultura e da colheita para sua subsistência. 45 O tema trabalho é bastante complexo, considerando que a palavra trabalho significa: 1. Aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim. 2. Atividade coordenada, de caráter físico e/ou intelectual, necessária à realização de qualquer tarefa, serviço ou empreendimento. 3. Trabalho (2) remunerado ou assalariado; serviço, emprego. 4. Local onde se exerce essa atividade. 5. Qualquer obra realizada. 6. Lida, labuta. (Minidicionário da língua portuguesa Aurélio). 207

208 O trabalho infantil origina-se, a partir do surgimento do ser humano, uma vez que independentemente da idade, o trabalho vinha sendo exercido, já que o simples fato de retirar uma fruta da árvore é considerado trabalho, obviamente não sendo considerada como exploração. Existem referências bíblicas quanto à exploração de crianças e adolescentes escravas e já naquela época causava aversão a utilização dos mesmos. Após o exílio na Babilônia, no século VI a.c., os judeus de volta à Jerusalém estavam indignados com o destino de seus filhos, os quais eram escravizados em troca de alimentos Na Antiguidade, o trabalho humano tinha maior ênfase no âmbito doméstico e tinha fins artesanais, sendo que a aprendizagem era a característica básica para garantir o sustento de sua própria vida, prática esta inicial para o desenvolvimento do trabalho infantil. No século XIX e no início do século XX foram surgindo diversas transformações no papel das crianças como trabalhadores, haja vista que o aperfeiçoamento das máquinas ocasionou a inutilidade.da força bruta do homem, já que mulheres e crianças poderiam manusear as máquinas. Essa mão-de-obra foi largamente utilizada, uma vez que a remuneração de tal força de trabalho chegava a um terço da remuneração dos homens adultos; o que acabou gerando uma situação de total desproteção à criança e ao adolescente. Porém, é na revolução industrial que ocorre o agravamento da utilização da mão-de-obra infantil. Marx, em 1867, já descrevia algumas das causas do trabalho infantil. Segundo ele, com o advento das máquinas, reduz-se a necessidade da força muscular, permitindo agora o emprego de trabalhadores fracos ou com desenvolvimento físico incompleto, mas com membros mais flexíveis. Assim, emprega-se o trabalho das mulheres e das crianças. Marx observa que o fato de a máquina reduzir o tempo necessário de trabalho, faz com que o empregador, detendo os meios de produção, acabe reduzindo o salário dos trabalhadores e, conseqüentemente, o meio de sobrevivência das famílias. A redução dos salários acaba, muitas vezes, forçando o trabalhador homem adulto a inserir toda a família no mercado de trabalho para compensar a perda de renda. (KASSOUF, 2005). Na Revolução Industrial, devido à crise econômica, principalmente na Inglesa, crianças e adolescentes chegaram ao patamar de competir diretamente com o trabalho adulto, o que 208

209 ocasionou propostas concretas de proteção ao trabalho da criança e do adolescente. Na Europa, como garantia de proteger as crianças e adolescentes e assegurar a educação, sendo estes fatores obrigatórios, foi desenvolvida uma legislação específica para que os pais assumissem essa responsabilidade. Alguns historiadores concentram seus estudos com base na aprovação da legislação de fábricas, factory Acts 46 (século XIX), oriundas da Inglaterra e Estados Unidos, na qual a exploração indevida do trabalho infantil tinha a intervenção direta do Estado. No Brasil, a história do trabalho infantil tem seu marco histórico no século XVI, através das caravelas vindas de Portugal que traziam crianças trabalhando conjuntamente com os marinheiros. Ao mesmo tempo, as crianças indígenas seguiam os passos dos pais no trabalho coletivo, no intuito de iniciar sua vida como membro da aldeia. No entanto, os colonizadores foram acabando, aos poucos, com essa organização social. 46 factory Acts- Atos de fábrica Os primeiros relatos do trabalho infantil no Brasil ocorreram na época da escravidão, o que durou por quatro séculos no país. Os filhos de escravos acompanhavam seus pais nas mais diversas atividades em que se empregava mão de obra escrava e exercia tarefas que exigiam esforços muito superiores às suas possibilidades físicas. Já no início do século XIX, os portugueses iniciaram a busca por mão-de-obra para trabalhar na produção de cana-de-açúcar. Assim do total vinda da África, 4% eram crianças, as quais em sua maioria serviam de carregadores, mensageiros e de saco de pancadas das crianças brancas. Infelizmente, estas crianças tinham uma vida muito curta, já que apenas 30% chegavam aos 10 anos de idade. É importante destacar que após o fim da escravidão em 13 de maio de 1888, os imigrantes foram substituindo os africanos nas lavouras, passando a utilizar a mão-de-obra das famílias dos fazendeiros, inclusive as crianças. Ocorre que, devido às péssimas condições de vida muitas famílias foram embora das fazendas com destino as cidades, formando a base do mercado de trabalho da indústria brasileira. 209

210 Em meados do século XX, era bastante acentuada a presença de crianças e adolescentes nas indústrias (fábricas e oficinas), as quais enfrentavam longas jornadas de trabalho. A atividade produtiva para muitos menores transformava-se em sofrimento, várias crianças e adolescentes foram vitimados por acidentes de trabalho em decorrência do exercício de funções impróprias para a idade, das instalações precárias dos estabelecimentos industriais, ou seja, de condições de trabalho deploráveis. O cotidiano dos menores nas fábricas e oficinas, nos períodos de labuta, não continha apenas (se restringia somente aos) acidentes de trabalho, mas também (infelizmente) existiam agressões físicas e violência em vários níveis, isso devido a exploração do trabalho nos primórdios da industrialização, que utilizava de tais estratégias para forçar o trabalho das crianças e adolescentes. Obviamente, todas essas problemáticas acabaram despertando na sociedade a necessidade de mudanças eficazes no intuito de amenizar o sofrimento da coletividade, o que acarretou na criação de leis para assegurar que medidas fossem adotadas para preservar e atribuir direitos e deveres aos trabalhadores, inclusive às crianças e adolescentes. Apesar do desenvolvimento da legislação trabalhista, mesmo com a implantação do salário mínimo, o trabalho infantil continua a ser explorado, já que o serviço rural atende a uma logística diferenciada de produção, existindo lacunas nessas normas de regulamentação das relações trabalhistas, uma vez que toda a família é envolvida no processo de produção. Já na era Vargas, devido às fortes pressões populares, foi criada a Justiça do Trabalho, instituindo o salário mínimo e a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), que estabeleceu, dentre outros avanços, a idade mínima para o trabalho,a doze anos de idade. Alguns anos mais tarde, com a outorga da Constituição Federal de 1988, mais precisamente no seu art. 7, XXXIII, foi estabelecido que a idade mínima para o trabalho fosse 14 anos, abrindo exceção para os aprendizes, com doze anos de idade. No entanto, o trabalho insalubre, perigoso e noturno foi proibido para os menores de 14 anos de idade. Dando continuidade a estes avanços a Emenda Constitucional nº 20, alterou o inciso XXXIII, onde a idade mínima para o trabalho aumentou para dezesseis anos e a condição de aprendiz para 14 anos, o que vigora até hoje. 210

211 Em 1990, foi promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente ECA, o qual revogou as disposições contrárias a ele, inclusive os dispositivos da CLT; e regulamentado, mais especificamente, os direitos e garantias asseguradas através da Constituição de No Brasil, o trabalho remunerado ou não, é proibido para menores de 14 anos, sendo que entre 14 e 16 anos somente na condição de aprendiz. Já entre a faixa etária de 16 a 18 anos incompletos o trabalho é permitido, desde que não seja exercido no horário compreendido entre 22h e 5h. É importante ressaltar que o trabalho não pode ser executado em locais insalubres e/ou perigosos. Com fundamentação trazida no art. 227 da Constituição Federal, que assegura à criança e ao adolescente o direito à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, o ECA no intuito de resguardar esses direitos, assegura que o tempo disponibilizado para o trabalho dos adolescentes não pode, em hipótese alguma, interferir nas demais atividades que também são se suma importância, bem como não deve influenciar diretamente nas atividades escolares. Dentre os direitos assegurados aos adolescentes é garantido pela Constituição ao trabalhador o salário mínimo e as férias, sendo que tanto o salário quanto as férias regem-se pelas normas regulamentadoras do trabalho. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2007, no Estado de Sergipe, no Brasil cerca de 58 mil jovens com idades entre 10 e 17 anos exercem algum tipo de trabalho, remunerado ou não, e fazem parte das estatísticas do trabalho infantil. Ainda no ano de 2007 a UNICEF realizou alguns estudos onde foram constatados números expressivos no que pertence às crianças inseridas no mercado de trabalho, uma vez que 3% das crianças na faixa etária compreendida entre 5 e 9 anos trabalham, sendo que o percentual de 78,9% trabalham em atividades agrícolas. Números estes bastante elevados já que aproximadamente 12 mil crianças trabalham nos pomares do Estado de Sergipe, o que representa 11% 211

212 do número de trabalhadores da citricultura, avaliado em 100 mil pessoas. Em decorrência da atividade extenuante, crianças e adolescentes têm o seu rendimento escolar prejudicado, perdendo aulas ou não conseguindo prestar atenção às aulas e atividades, o que acarreta no baixo índice de aprendizagem e, consequentemente, na reprovação. É importante frisar que além dessas problemáticas, há um fato mais grave. Infelizmente ainda existem crianças que sequer freqüentaram uma sala de aula, sem oportunidade de estudar, apenas trabalhando para ajudar no sustento familiar. Considerando dados coletados através da Delegacia Regional do Ministério do Trabalho em Sergipe, entre os anos de 2007 e 2008, apenas 206 (duzentos e seis) crianças foram afastadas do trabalho pelo órgão, número relativamente pequeno de crianças que tiveram a oportunidade de ter seus direitos e garantias verdadeiramente assegurados. É importante salientar que desse total 181 (cento e oitenta e uma) crianças trabalhavam na informalidade, como nas casas de farinha, feiras livres, pomares, vendendo balas no semáforo entre outras atividades. Infelizmente, é comum ver crianças e adolescentes trabalhando em feiras livres, lixões, portas de supermercados, na citricultura, enfim, no mercado informal, no intuito de contribuir na renda familiar. E o pior, em vários casos os mesmos trabalham sob a supervisão dos pais, que cobram dos filhos a responsabilidade de manter o sustento da família, ou seja, há neste caso uma inversão de papéis. Além disso, a própria sociedade utiliza a mão-de-obra infantil para a prestação de diversos serviços, achando, ainda, que está ajudando os mesmos e contribuindo para o seu desenvolvimento, quando na verdade está mantendo essas crianças numa realidade totalmente diferente da que socialmente deveria estar. Considerando o avanço com relação às políticas públicas, todos os dados revelam que a incidência do trabalho infantil tem diminuído no Brasil, como também no Estado de Sergipe, no entanto, de forma pouco significativa. A exploração do trabalho de crianças e adolescentes é uma questão muito mais ampla e grave que a questão meramente normativa. O simples fato de existirem leis que assegurem direitos e garantias, mesmo se estas fossem leis perfeitas para regular a 212

213 relação de trabalho dos menores no Brasil, ainda assim teríamos um país onde existem os mais absurdos tipos de exploração do trabalho e até mesmo da escravidão. O objetivo desta pesquisa é mostrar claramente quais os principais responsáveis pela exploração da mão de obra infantil e pelo ingresso e permanência das crianças e adolescentes. O trabalho infantil é uma problemática muito complexa que está intrinsecamente interligada com as conseqüências da pobreza, que são desigualdades e exclusão social. A cultura dos pais é também determinante fundamental para a inserção da criança e do adolescente no mercado de trabalho. O trabalho infantil é uma prática que vai passando de geração para geração, onde pais colocam seus filhos para trabalhar, adquirindo uma cultura onde se pensava que seria uma forma de educar. De acordo com a Constituição Federal de 1988, no seu artigo 7 inciso XXXIII, o qual proíbe trabalho noturno, perigoso e insalubre ao menor de 18 anos e de qualquer trabalho a menor de 16 anos, salvo na condição de aprendiz a partir de 14 anos. Apesar de a legislação brasileira restringir o trabalho de crianças e adolescentes, a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicilio (PNAD), realizada anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estimava a existência de cerca de milhões de crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos de idades ocupadas em atividades econômicas ao longo do ano de Além destas, havia 280 mil crianças entre 5 e 9 anos de idade também trabalhando de alguma forma. O Departamento de Estatística da Organização Internacional do Trabalho (OIT) estimou em 2000 que, mundialmente, existiam em torno de 211milhões de crianças de 5 a 14 anos trabalhando. De acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2005 divulgado pelo Institudo Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE revelam que o avanço da ocupação infantil foi influenciado pelo aumento do trabalho para o próprio consumo e pelo trabalho não remunerado na atividade agrícola. Dados do PNAD de 2005 mostram que existem quase três milhões de crianças e jovens de 5 a 15 anos trabalhando ou 7,8% do total nessa faixa etária, apesar de ter havido um declínio acentuado, principalmente, a partir da metade da década de

214 Ainda segundo esta pesquisa, na faixa dos 5 a 17 anos de idade, o contingente dos que trabalham passou de 11,8% em 2004 para 12,2% em 2005, muito embora esses dados não alteram tendência de declínio que vem sendo registrada de 1995 a Apesar da prática do trabalho infantil ser proibida por lei, aproximadamente 58 mil crianças e adolescentes Sergipanas com idade entre 5 e 17 anos de idade exercem algum tipo de trabalho, sendo este, remunerado ou não. Segundo dados do IBGE e Ministério do Trabalho e Emprego, no Brasil existem cerca de 90 mil crianças e adolescentes entre a faixa etária de 5 a 17 anos de idade exercendo atividades profissionais. Os principais setores que exploram a mão de obra infanto-juvenil são agropecuária (68,63%), comércio (17,65%) e indústria de transformação 47 (5,88%) A amplitude do trabalho infantil engloba uma série de fatores sócio-econômicos, políticos e culturais, que mostram as mais diversas realidades enfrentadas por crianças e adolescentes em todo o globo terrestre. 47 Indústria de transformação é o tipo de indústria que faz a matéria em algum tipo de produto comercial já a ponto de ser consumido ou usado. A exploração do trabalho infantil a cada dia que passa se torna um problema impossível de se resolver, pois é prática comum em vários lugares do país, crianças deixando de estudar para trabalhar. Na maioria das vezes isso acontecesse devido às desigualdades sociais evidentes, onde as crianças serviam de reforço para ajudar financeiramente a família, uma vez que a maioria dessas famílias é pobre e possuem o número significativo de filhos. A infância é um tempo em que a criança deve brincar, crescer, aprender, descansar e se desenvolver de forma contínua, gradativa, onde ela viva essa fase separada da vida adulta, haja vista que existem direitos especiais das crianças diferenciados dos direitos adultos. A UNICEF define o indicador de trabalho infantil como o percentual de crianças de 5 a 15 anos envolvidas com o trabalho infantil. A definição da UNICEF, para fins de pesquisa, encontra-se sob a seguinte classificação. Trabalho de criança de 5 a 11 anos; trabalho executado durante a semana anterior à pesquisa por pelo menos uma hora de atividade econômica ou 28 horas de trabalho domestico naquela semana; trabalho de jovens de 12 a 14 anos por pelo menos 14 horas de atividades econômicas ou 42 horas de atividade econômica e trabalho doméstico combinados naquela semana. (WIKIPEDIA) 214

215 2 SETORES ECONÔMICOS QUE SE ENCONTRAM O TRABALHO INFANTIL A mão-de-obra infantil abrange diversos setores que aceitam crianças trabalhando com o intuito de obter lucros altíssimos, considerando que aquela força de trabalho é mais barata e compensatória, pois não exige remuneração muito alta e os direitos assegurados em lei não são disponibilizados como deveriam. O motivo que torna o trabalho infantil tão comum é a necessidade da complementação da renda familiar por parte da criança e jovens que se empregam nestas atividades. O trabalho da criança e adolescente no Brasil está associado, inevitavelmente, aos problemas sócioeconômicos. As crianças que trabalham nas ruas, nos lugares mais visíveis, estão em toda parte. Assim a rua é um lugar onde as crianças exercem mão-de-obra para ganhar o pão de cada dia, mas é nessa mesma rua que se torna cruel, insegura, perigosa, violenta, pondo a vida dessas crianças em risco. Na rua lavam e cuidam de carros, engraxam sapatos, carregam bagagens, recolhem material reciclável, e outras infinidades de atividades. A rua inevitavelmente torna a criança propensa à marginalidade, onde passa a praticar roubos e pedir esmolas constantemente. Muitas delas são absorvidas para o mundo do crime, das drogas e da prostituição, onde muitos desses casos não têm volta. No setor citrícola de Sergipe 48, estimula-se que existem trabalhando crianças e adolescentes com idade compreendida na faixa etária de 6 a 18 anos, pois nessas atividades não existe organização de trabalho, muito menos são exigidos documentos como carteira de identidade. (Governo do Estado de Sergipe, p.50 e 51, 1997) Em Sergipe, segundo dados da UNICEF, 3% das crianças e adolescentes entre 5 e 9 anos trabalham, e que destas 78,9% trabalham em atividades agrícolas. O Estado de Sergipe, sendo o segundo produtor brasileiro exportador de laranja tem em media 1% do SLCC (Suprimento de suco de laranja concentrado congelado) brasileiro, dados apontam que nessa área são empregados cerca de 11 mil crianças nos pomares. 48 Segundo o Ministério do Trabalho, em alguns estados brasileiros (Amapá, São Paulo, Sergipe e Paraná), os pomares de laranja são cultivados e colhidos por trabalhadores com menos de 14 anos de idade. 215

216 No setor da cerâmica e olaria, as atividades são artesanais, sendo que as produções se estendem por todo o ano, e a principal característica do trabalho é carregar e descarregar argila de caminhões, e transportar telhas e tijolos para secagem em bocas de forno. Nas atividades desenvolvidas nas pedreiras se usa a mão-deobra infantil na extração e no maquinário de pedras, o que gera perigo eminente, já que a forma de trabalho é altamente perigosa. Já no cultivo da cana-de-açúcar, a atividade principal é a de corte sendo utilizadas ferramentas de trabalho manual, sendo realizado o empilhamento de feixes, amarração, trituração e transporte da canade-açúcar, expondo a criança e o adolescente ao trabalho pesado e insalubre. Na construção civil, o trabalho infantil é empregado no papel de servente de pedreiro e ajudante geral em limpezas, utilizando produtos químicos para remover o resíduo do material de construção colocando em risco a saúde dessas crianças sem nenhuma precaução. Na cultura do fumo, o trabalho infantil inclui o plantio, a colheita e os diversos processos do feitio do fumo. Já nos serviços realizados em madeira, as crianças manuseiam máquinas perigosas com serra pendular, expondo a mesma à situação de risco. Crianças também labutam no curtume ou no beneficiamento do couro, tendo como atividades traçar o couro, colar e limpar a sola, manipular os produtos químicos, pintar, lixar e polir as peças. Dentre as ocupações laborais das crianças e adolescentes o trabalho para a família, é o mais comum. Portanto no mundo todo, as famílias colocam seus filhos para ajudar em tarefas domésticas sejam elas fazendo a comida, pegando água, alimentando os animais, cuidando dos irmãos menores ou exercendo tarefas mais desgastantes no campo. É permitida a participação nestas atividades desde que seja razoavelmente em pequenas tarefas como forma de aprendizagem e consciência da ajuda na sua própria família. Trabalho de meninas refere-se ao trabalho doméstico para a família, de todos os trabalhos esse é o mais comum, portanto no mundo todo, as famílias colocam seus filhos para ajudar em tarefas domésticas seja elas fazendo a comida, pegar água, alimentar os animais, cuidar dos irmãos menores ou exercer tarefas mais pesada no campo. É permitida a participação destas atividades desde que seja razoavelmente em pequenas tarefas como forma de 216

217 aprendizagem. e consciência da ajuda na sua própria família. Existe o preconceito de gênero, onde está enraizada em muitas instituições da sociedade. A discriminação rapidamente se transforma-se em preconceito. A pobreza, a falta de educação, casamentos arranjados ainda quando são muito jovens, tornam as meninas mais vulneráveis. A diferença de gênero é um ciclo vicioso para as meninas em todos os países em desenvolvimento, excluindo e impossibilitando de frequentar a escola, pela sua condição social ou pelos seus afazeres domésticos, ocultando as oportunidades que a educação poderia garantir. Segundo a UNICEF, essa situação causa dano não só para os indivíduos, mas para a sociedade em geral Está claro que quão maior for o grau de escolaridade de uma menina, menos filho terá. E quanto maior for o número de crianças em famílias pobres, mais crianças exploradas ao trabalho infantil existirá. (BELLAMY, UNICEF) 3 SAÚDE DAS CRIANÇAS QUE EXERCE O TRABALHO INFANTIL Os riscos que a inserção de crianças no trabalho infantil ocasiona à saúde da criança são capazes de comprometer todo seu desenvolvimento físico, psicológico e social, privando-a de viver plenamente sua cidadania e corrompendo todas as suas perspectivas de vida. O Estatuto da Criança e do Adolescente, pela Lei n.º 8.069, de 13/07/90, estabelece nos artigos 4º e 5º que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, a cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e ao convívio familiar e comunitário, além de colocá-lo salvo de toda forma de negligência, exploração, discriminação, violência, crueldade e opressão. (ECA,1990). Portanto, toda criança precisa de carinho e atenção, período livre para brincar e se desenvolver, crescer com saúde e ter todas as oportunidades para estudar. O trabalho infantil, por sua vez, nos moldes aqui expresso priva a criança em seu total direito à educação, ao convívio familiar, à saúde e ao lazer. Qualquer tarefa prejudicial, como carregamento de peso exagerado e postura inadequada, ocasiona uma grande deformação corporal debilitando-o fisicamente, onde a mesma irá interferir em sua altura e estrutura óssea, uma vez que as crianças são inseridas 217

218 no mundo do trabalho precocemente e estão sujeitas a ficar expostas a situações perigosas e insalubres e a riscos de acidentes e doenças. A criança que trabalha sofre as mesmas exigências de disciplina de um adulto, com regras a serem cumpridas com responsabilidade e produtividade, ocasionando a ruptura da maturidade, tornando-se um adulto antes do tempo, o que altera no seu desenvolvimento físico e psíquico. As crianças tornam-se mais vulneráveis aos acidentes de trabalho e as doenças, devido à imaturidade, à coordenação motora que os mesmos ainda não possuem, à falta de atenção (distração), a tarefas que não são adequadas para sua capacidade física. Pois os equipamentos, as máquinas e os postos de trabalho são projetados para pessoas adultas e não para força física de uma criança. CONSIDERAÇÕES FINAIS A exploração do trabalho de crianças e adolescentes é uma questão muito mais ampla e grave do que se imagina. O simples fato de existirem leis que assegurem direitos e garantias, mesmo se estas fossem leis perfeitas para regular a relação de trabalho das crianças/adolescentes no Brasil, ainda assim teríamos um país onde existem os mais absurdos tipos de exploração do trabalho e até mesmo da escravidão. Além de todos esses fatores, pode se observar que a mão de obra infantil causa danos irreparáveis a saúde das crianças e adolescentes, impedindo-as de ter futuramente uma vida dentro do aceitável como saudável para todas as crianças. Apesar das iniciativas governamentais para acabar com o trabalho infantil, a exemplo do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil PETI, esse se apresenta ainda como um grande desafio para toda a sociedade, dado o grau de complexidade econômico, social, político e cultural que envolve a prática do trabalho na população infanto-juvenil. Entretanto não podemos assumir uma posição fatalista de que essa situação não pode ser mudada. Mas, para tanto é urgente e necessário que sejam criadas estratégias eficientes para superação dessa problemática; a começar pelo combate a pobreza e a desigualdade social que impõem o trabalho precoce a milhares de crianças e adolescentes no mundo inteiro. 218

219 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICA BELLAMY Carol. Situação Mundial da Infância UNICEF Brasília, Estatuto da Criança e do Adolescente/ Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Ministério da Educação, Assessoria de Comunicação Social. Brasília: MEC, ACS, GOVERNO DO ESTADO DE SERGIPE. Plano Estratégicos de combate a Exploração do Trabalho Infantil. Aracaju, HEYWOOD, Colin. Uma história: da Idade Média à época contemporânea no Ocidente/ Colin Heywood; TRD. Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, OLÍMPIA,Vera Gonçalves. Trabalho Precoce Saúde em Disponível em Acesso em 07 de dez de PORTO, Cristina. Trabalho Infantil: O difícil sonho de ser criança 1ª ed São Paulo, 2003 PRIORE, Mary Del. História das crianças no Brasil 6. Ed. São Paulo, ROCHA, E. G. ; FERITAS, V. P. A proteção legal do jovem trabalhador Revista da UFG. Vol. 6, N. 1, jun Disponível em Acesso em 02 de out. de :12. SCHWARTZMAN,Simon. Trabalho Infantil no Brasil Universidade Federal do Rio de Janeiro, Kassouf, Ana Lucia. O que conhecemos sobre o trabalho infantil Ciclo Brasil Português, SILVA, Célia. Jornal da Cidade, Sergipe, 14 de jun Disponível em http//www.jornaldacidade.net/2008/noticia_print.php?id= Acesso 02 de dez de 2009, 9:00. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Investigação dos Comprometimentos do Trabalho precoce na saúde de Crianças e Adolescentes: um estudo de caso em 3 estados do nordeste brasileiro

220 ABUSO SEXUAL EM CRIANÇAS NO BRASIL VERSUS POLÍTICAS PUBLICAS RESUMO Diego Fraga Loiola 49 Jeamerson Nascimento Monteiro de carvalho 50 Lindiane de Jesus Santana 51 Orientadora: Roberta Viana Menezes Salgado O abuso sexual com crianças é um problema social que vem crescendo de forma alarmante em nosso país, a complexidade deste crime o torna um desafio maior para o estado, a sociedade civil e a família na luta pelos direitos já garantidos da criança. Este artigo define o abuso e suas particularidades, e como a política publica tem respondido a esse problema social crescente em nosso país. O trabalho expõe uma definição com embasamento dos teóricos neles citado, sobre, o ato abuso sexual, os inúmeros tipos de violência, o comportamento das vitimas, o perfil dos agressores, a difícil tarefa da denúncia, por em grande parte o agressor ser alguém próximo da vitima ou até mesmo da família, as políticas publicas e os direitos conquistados pela criança, e qual o papel do estado, família e sociedade civil na luta pela proteção dos direitos das crianças, seres em formação e ainda totalmente indefesos. Palavras-chaves: abuso sexual. Criança. Agressor. políticas públicas. 49 Graduando do VIII período de Serviço social da Faculdade José Augusto Vieira. 50 Graduando do VIII período de Serviço social da Faculdade José Augusto Vieira. 51 Graduanda do II período de Serviço social da Faculdade José Augusto Vieira ABSTRACT Sexual abuse of children is a social problem that is growing at an alarming rate in our country, the complexity of this crime makes it more challenging for the state, civil society and the family in the struggle for rights already guaranteed the child. This article defines the abuse and its peculiarities, and how public policy has responded to this growing social problem in our country. The work presents a definition of theoretical grounding them quoted on the act of sexual abuse, the numerous types of violence, the behavior of the victims, the profile of the perpetrators, the challenging task of termination, for largely the aggressor be someone close the victim or even the family, public policy and the rights gained by the child, and what role the state, family and society in the struggle for civil rights protection for children, beings in training and still totally defenseless. Keywords: sexual abuse. the child. offender. public policies. INTRODUÇÃO Os primeiros anos de vida da criança são fundamentais para a formação de suas habilidades sociais. As experiências de convivência com as pessoas a qual os rodeiam influenciam, por toda vida a criança e suas relações sociais. As crianças vivem em constante evolução e formação psicológica, a infância é a fase em que a criança assimila de forma mais rápida a realidade em que vive. Em nosso país, o abuso contra crianças é notificado diariamente em noticiários, jornais e revista, devido ao aumento constante de casos, 220

221 estando diretamente relacionada às questões estruturais e interpessoais, em diferentes aspectos: social, econômico, cultural e psicológico. A criança vitima do abuso sexual acaba levando para o resto de sua vida o trauma vivenciado e com isso poderá afetar de forma psicológica toda sua personalidade e forma de viver socialmente. O presente trabalho tem como objetivo mostrar através de levantamento de literatura específica, pesquisas na internet e com base na opinião dos teóricos, como as crianças e adolescentes vitimas de abuso sexual desenvolvem traumas as quais podem perdurar por toda uma vida, mostrando com isso como o país precisa de políticas sociais mais eficientes, sendo o estado responsável por assegurar o acolhimento às vitimas através de políticas sociais e sendo responsabilidade de todos principalmente da família a proteção às crianças por não terem o poder de defesa pessoal. Entender o perfil, os tipos de agressão, a estrutura socioeconômica e as medidas adotadas são fundamentais para avaliar a eficiência das políticas públicas enquanto responsáveis pela garantia de direitos da criança. O crescimento da desigualdade social, provenientes do sistema capitalista acelera ainda mais os problemas sociais sendo o abuso sexual com crianças um seqüela crescente deste sistema, o qual desafia a toda sociedade civil que de forma organizada, protetora e participante luta pelos direitos da criança contribuindo para prevenção e repressão deste crime. O ABUSO SEXUAL O abuso sexual é definido por Ballone (2003) como qualquer tipo de procedimento sexual a qual a criança é submetida por um adulto a efetuar quaisquer tipos de movimentos sensuais até atos sexuais..portanto o abuso sexual se dá além da penetração vaginal ou anal na criança, também tocar seus genitais ou fazer com que a criança toque os genitais do adulto ou de outra criança mais velha, ou o contacto oral-genital ou, ainda, roçar os genitais do adulto com a criança.. Inúmeros tipos de violências sexuais são cometidos diariamente no mundo. Esse tipo de violência abrange todas as faixas etárias, porém o número de criança vitima da violência sexual vem crescendo em grande proporção. De acordo com Matriz (S/A) do Correio Braziliense em 2008 as denúncias efetuadas pelo Disque 100, central nacional de registros de abuso e exploração sexual 221

222 infantil e juvenil, mostrou um acréscimo de 30% nas denúncias, em comparação com Com o aumento no numero de denuncia observamos que as vitimas de abuso sexual estão de alguma forma se protegendo deste crime, porém o numero de denuncia ainda e considerado pequeno, para o numero de crinas e adolescentes que são abusados e preferem conviver com essa violência. Há muitos séculos esse tipo de violência vem ocorrendo em todo mundo, diversos autores tratam a historia do abuso sexual como sendo desde o inicio da humanidade com as grandes burguesias, mas foi somente depois da criação em 1990 do ECA - Estatuto da Criança e Adolescente, amparado pela LOAS - Lei Orgânica da Assistência Social e pela Constituição Federal Brasileira, tem impulsionado as atenções para o cuidado dessa parcela de cidadãos. A violência sexual expõe o individuo a traumas psicológicos e muitas vezes físicos as quais dificilmente conseguirá superar. As crianças vitimas desse tipo de violência poderá ter um prejuízo ainda maior, visto que se trata de um ser humano que está constituindo o seu psicológico e sua personalidade, ainda que um individuo indefeso. (silvia et al, 2005) O abuso sexual realizado nas crianças geralmente é praticado por pessoas próximas das vitimas, e onde a mesma têm confiança e afinidade com o agressor. Com isso se torna mais difícil à criança denunciar e até mesmo a família perceber a violência. (Silvia et al, 2005) No Brasil as estatísticas vem crescendo cada vez mais, em relação ao abuso sexual, sendo que esses números podem ser ainda maiores visto que inúmeras vitimas não denunciam seus agressores, por medo, chantagem, ou até mesmo descrença dentro da família. Segundo dados do UNICEF (2008) pelo menos dois milhões de crianças sofrem abuso sexual a cada ano na América Latina e no Caribe, o que significa 228 casos a cada hora na região. A família da vitimas ou até mesmo quaisquer família que tenha em seu seio crianças e adolescente têm que ficar atenta a comportamentos do menor. Segundo Ballone (2003) o comportamento das crianças abusadas sexualmente pode incluir: 222

223 1.Interesse excessivo ou evitação de natureza sexual; 2.Problemas com o sono ou pesadelos; 3.Depressão ou isolamento de seus amigos e da família; 4.Achar que têm o corpo sujo ou contaminado; 5.Ter medo de que haja algo de mal com seus genitais; 6.Negar-se a ir à escola, 7.Rebeldia e Delinqüência; 8.Agressividade excessiva; 9.Comportamento suicida; 10. Terror e medo de algumas pessoas ou alguns lugares; 11. Retirar-se ou não querer participar de esportes; 12. Respostas ilógicas (para-respostas) quando perguntamos sobre alguma ferida em seus genitais; 13. Temor irracional diante do exame físico; 14. Mudanças súbitas de conduta. Quando uma criança sofre um choque emocional doloroso, ao qual não tem condições de agüentar, ela pode reagir reprimindo em nível psíquico, jogando para o porão de sua memória, escondendo a dor. É um mecanismo de defesa efetivo, que protege a criança para que possa sobreviver a experiência. A dor e as lembranças, portanto, não desaparecem. Ainda estão lá, guardadas no inconsciente da vítima. As vezes, como citamos anteriormente, há uma amnésia total. No entanto, o abuso ainda vive no plano inconsciente. Mesmo inconscientemente, o peso esmagador dessa dor atrapalha a vida, gerando depressão, desejo de suicídio, reações desproporcionais à situações normais da vida, e muitas vezes uma inabilidade de participar integralmente da vida. As crianças que sofrem desse tipo de violência carrega por toda vida traumas as quais são difíceis de ser superados, pois os ataques acontecem com pessoas a que elas confiam e até mesmo amam. O ser humano ao nascer começa a desenvolver o psicológico, e elas vêem nos adultos um espelho a ser seguido. A seqüela para este tipo de violência pode perdurar por toda uma vida. Segundo Cunha (2005, apud kornfield, 2000): O abuso sexual pode acontecer com qualquer família em qualquer situação, porém a informação poderá ser fator primordial para a não consumação do ato. A família dos dias atuais precisa deixar as crianças informadas e manter com elas muito dialogo para com isso poder evitar qualquer tipo de violência, seja ela física psicológica e através da sedução. De acordo com Ballone (2003) 223

224 O tratamento adequado pode reduzir o risco da criança desenvolver sérios problemas no futuro, mas a prevenção ainda continua sendo a melhor atitude. Algumas medidas preventivas que os pais podem tomar, fazendo com que essas regras de conduta soem tão naturais quanto às orientações para atravessar uma rua, afastar-se de animais ferozes, evitarem acidentes, etc. E muito importante que a família explique simplificando as questões sexuais, pois mesmo que ela não tenha idade suficiente para compreender o assunto, ela poderá entender que ninguém poderá tocá-la, por exemplo. Essa conversa não precisaria ser direta, mais indiretamente. Um dos assuntos que pode ser abordado durante a infância é segundo Ballone (2003) 1.Dizer às crianças que "se alguém tentar tocar-lhes o corpo e fazer coisas que a façam sentir desconfortável, afaste-se da pessoa e conte em seguida o que aconteceu." 2.Ensinar às crianças que o respeito aos maiores não quer dizer que têm que obedecer cegamente aos adultos e às figuras de autoridade. Por exemplo, dizer que não têm que fazer tudo o que os professores, médicos ou outros cuidadores mandarem fazer, enfatizando a rejeição daquilo que não as façam sentir-se bem. 3.Ensinar a criança a não aceitar dinheiro ou favores de estranhos. 4.Advertir as crianças para nunca aceitarem convites de quem não conhecem. 5.A atenta supervisão da criança é a melhor proteção contra o abuso sexual pois, muito possivelmente, ela não separa as situações de perigo à sua segurança sexual. 6.Na grande maioria dos casos os agressores são pessoas conhecem bem a criança e a família, podem ser pessoas às quais as crianças foram confiadas. 7.Embora seja difícil proteger as crianças do abuso sexual de membros da família ou amigos íntimos, a vigilância das muitas situações potencialmente perigosas é uma atitude fundamental. 8.Estar sempre ciente de onde está a criança e o que está fazendo. 9.Pedir a outros adultos responsáveis que ajudem a vigiar as crianças quando os pais não puderem cuidar disso intensivamente. 10.Se não for possível uma supervisão intensiva de adultos, pedir às crianças que fiquem o maior tempo possível junto de outras crianças, explicando as vantagens do companheirismo. 11.Conhecer os amigos das crianças, especialmente aqueles que são mais velhos que a criança. 12.Ensinar a criança a zelar de sua própria segurança. 13.Orientar sempre as crianças sobre opções do que fazer caso percebam más intenções de pessoas pouco conhecidas ou mesmo íntimas. 14.Orientar sempre as crianças para buscarem ajuda com outro adulto quando se sentirem incomodadas. 15.Explicar as opções de chamar atenção sem se envergonhar, gritar e correr em situações de perigo. 224

225 TIPOS DE ABUSO 16.Orientar as crianças que elas não devem estar sempre de acordo com iniciativas para manter contacto físico estreito e desconfortável, mesmo que sejam por parte de parentes próximos e amigos. 17.Valorizar positivamente as partes íntimas do corpo da criança, de forma que o contacto nessas partes chame sua atenção para o fato de algo incomum e estranho estar acontecendo. Segundo Queiroz (2003) a formas e tipos de abuso sexual cometido diferem apenas na forma como é realizado na maneira como é praticado pelo agressor podendo agrupá-los da seguinte maneira: 1. Atos que agridem sensorialmente a criança ou o adolescente, entre outros destacamos: Conversas ou telefonemas obscenos. Apresentação forçada de imagens pornográficas. Exibição de órgãos sexuais do adulto. Voyeurismo, que é a excitação sexual conseguida mediante a visualização dos órgãos genitais da criança ou do adolescente. De acordo com Silvia et al(2005, p. 79) o abuso sensorial se caracteriza como como: O abusador apresenta a criança à pornografia através de filmes, revistas, fotografias, musicas com letras pornográficas, faz exibicionismo de seu corpo e de seus órgãos sexuais, faz uso de uma linguagem sexualizada, com o uso ou não de palavrões... o abusador tenta estimular os sentidos e a percepção da criança, tentando induzi-la a se interessar sexualmente pela atividade sexual que interessa a ele. 2. Atos que utilizam o corpo como forma de agressão, tais Contatos sexuais ou masturbação forçada. Participação em cenas pornográficas Relações sexuais impostas (vaginais, anais ou orais) Silva et al(2005) descreve esse ato como abuso por realização que é onde o agressor se utiliza fisicamente da vitima efetuando penetração no corpo do menor, através de seus dedos, sua língua, ou se u órgão genital. Em alguns casos esse tipo de abuso pode até ocorrer outros tipos de penetração como a de objetos, esse abuso pode também ser chamado de abuso completo, pois é onde o 225

226 abusador se utiliza de todos os meios sexuais para abusar sua vitima, agredindo-a não só fisicamente como psicologicamente. Outro tipo de abuso descrito por Silvia (2005) é o abuso por estimulação onde o abusador estimula a vitima ou pede que ela mesma faça em seu próprio corpo movimentos sensuais ou masturbação. Vale à pena considerar que o incesto (relação sexual entre o pai e a filha, ou entre pessoas que tem algum grau de parentesco) é também o que tem conseqüências mais graves sobre o equilíbrio psíquico, do presente e do futuro, da criança e do adolescente. PERFIL DO AGRESSOR Silvia et al(2005, p. 79) Como a estimulação no corpo do abusador lhe traz prazer e aumenta seu desejo sexual, ele intui que isso também ocorre com a criança e toca em seu corpo, estimulando-se sexualmente, o que por vezes pode acabar acontecendo, principalmente se estimulado pela sedução. Quaisquer que seja o tipo de agressão sofrida pela menor, seus sentimentos e ações serão diferentes de uma criança que não foi abusada. Silvia et al (2005 p. 80) ela tende a repetir desejos de fuga, ficar invisível, pairar no ar, ter poder de decisão sobre pessoas.. É muito difícil levantar suspeitas sobre a agressão e o agressor, pois em sua maioria os casos são praticados, por pessoas ligadas diretamente às vitimas e sobre as quais exercem alguma forma de poder ou de dependência. (Silvia et al, 2005) De acordo com Salvagni (2005) O agressor usa da relação de confiança que tem com a criança ou adolescente e de poder como responsável para se aproximar cada vez mais, praticando atos que a vítima considera inicialmente como de demonstrações afetivas e de interesse. Essa aproximação é recebida, a princípio, com satisfação pela criança, que se sente privilegiada pela atenção do responsável. Este lhe passa a idéia de proteção e que seus atos seriam normais em um relacionamento de pais e filhas, ou filhos, ou mesmo entre a posição de parentesco ou de relacionamento que tem com a vítima. 226

227 Muitas são as literaturas sobre o tipo de agressor, porém o que percebemos é que em geral o mesmo quando abusa mais de uma vez a vitima ele têm algum grau de liberdade dentro do contexto da criança, seja na escola, ou em casa. Mas nem sempre o agressor repete sua vitima e quando isso acontece somente uma vez, o agressor poderá ser qualquer pessoa. Segundo Silva et al (2005) não existe um perfil especifico para o agressor, qualquer pessoa poderá ser o violentador. Segundo pesquisa elaborada pela Universidade Federal de Minas Gerais o agressor poderá ser, pai, mãe, padrasto, irmão, tios, primos, vizinho, atletas, professores, prefeitos, deputados, juízes, empresários, funcionários..., podendo também ser ele da classe alta, ou menos favorecidas, existem no país inúmeras casos com inúmeros tipos de pessoas, das mais diversas profissões de classes. Ainda segundo Silva et al (2005) o abusador não tem sentimento nenhum por sua vitima e tão pouco prazer ao abusá-la. Seria algo como estar num estado de abstinência, com suas tensões típicas, como se fosse um usuário de drogas. POLÍTICAS PÚBLICAS VERSUS A CRIANÇA VITIMA DE ABUSO. Historicamente o processo de atendimento a população em situação de vulnerabilidade é marcado pelo modelo assistencialista, paternalista e clientelista, caracterizado pelo estado mínimo que reduz significamente os gastos com políticas publicas voltadas para o social, isentando-se de seus deveres, sobrecarregando a sociedade e a família. Simões (2009) relata que o Brasil colonial e imperial, a assistência a crianças era atribuída a entidades da igreja e as irmandades de misericórdia com caráter assistencialista ou benemérito, de sentido caridoso. O Brasil segundo Rizzini (2006) é um país marcado pela desigualdade de renda e falta de oportunidade, condições precárias que atingem particularmente as crianças nos seus primeiros anos de vida, considerados fundamentais para seu desenvolvimento humano, ressaltando as famílias competências para com os seus filhos, mesmo que faltem políticas publicas que assegurem condições mínimas de vida digna. 227

228 Desde a constituição de 1998 sobre os direitos da criança e adolescentes políticas publicas são colocadas em discussão sobre suas praticas vigentes que efetivariam o art. 27: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Sendo uma das características principais da constituição a universalização das políticas publicas, a proteção a criança e ao adolescente não estaria mais restrita apenas aqueles que estavam em situação de risco social ou pessoal e sim a todas as crianças e adolescentes como e colocado por Simões (2009) compondo um conjunto de diretrizes que proporcionou a instituição do ECA estatuto da criança e do adolescente,seguido da criação do CONANDA conselho nacional dos direitos da criança e do adolescente e seus consentâneos estaduais (CONDECAs) e municipais (CMDCAs). O Eca institui direitos e medidas fundamentais, preventivas sócioeducativa e protetivas. Estabeleceu linhas de ação da política de atendimento como políticas e programas sociais, priorizou a reinserção familiar, como medida de ressocializaçao, definiu atos inflacionais,estabeleceu direitos e as garantias processuais as medidas sócio educativas, institui o conselho tutelar e a justiça de infância e da juventude,a participação do ministério publico por meio de seus advogados ou defensores nomeados pelo juiz. O ECA institui um conjunto articulado de ações como entes federados união, estados, Distrito federal e municípios para um melhor atendimentos das crianças que são os art. 87, 88: São linhas de ação da política de atendimento: I - políticas sociais básicas; II - políticas e programas de assistência social, em caráter supletivo, para aqueles que deles necessitem; III - serviços especiais de prevenção e atendimento médico e psicossocial às vítimas de negligência, maus-tratos, exploração, abuso, crueldade e opressão; IV - serviço de identificação e localização de pais, responsável, crianças e adolescentes desaparecidos; V - proteção jurídico-social por entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente. VI - políticas e programas destinados a prevenir ou abreviar o período de afastamento do convívio 228

229 familiar e a garantir o efetivo exercício do direito à convivência familiar de crianças e adolescentes; (Acrescentado pelo L ) VII - campanhas de estímulo ao acolhimento sob forma de guarda de crianças e adolescentes afastados do convívio familiar e à adoção, especificamente inter-racial, de crianças maiores ou de adolescentes, com necessidades específicas de saúde ou com deficiências e de grupos de irmãos. Art. 88. São diretrizes da política de atendimento: I - municipalização do atendimento; II - criação de conselhos municipais, estaduais e nacional dos direitos da criança e do adolescente, órgãos deliberativos e controladores das ações em todos os níveis, assegurada a participação popular paritária por meio de organizações representativas, segundo leis federal, estaduais e municipais; III - criação e manutenção de programas específicos, observada a descentralização políticoadministrativa; IV - manutenção de fundos nacional, estaduais e municipais vinculados aos respectivos conselhos dos direitos da criança e do adolescente; V - integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Segurança Pública e Assistência Social, preferencialmente em um mesmo local, para efeito de agilização do atendimento inicial a adolescente a quem se atribua autoria de ato infracional; VI - mobilização da opinião pública no sentido da indispensável participação dos diversos segmentos da sociedade. VI - integração operacional de órgãos do Judiciário, Ministério Público, Defensoria, Conselho Tutelar e encarregados da execução das políticas sociais básicas e de assistência social, para efeito de agilização do atendimento de crianças e de adolescentes inseridos em programas de acolhimento familiar ou institucional, com vista na sua rápida reintegração à família de origem ou, se tal solução se mostrar comprovadamente inviável, sua colocação em família substituta, em quaisquer das modalidades previstas no art. 28 desta Lei; (Alterado pelo L ) VII - mobilização da opinião pública para a indispensável participação dos diversos segmentos da sociedade. (Acrescentado pelo L Segundo Faleiros políticas publicas brasileiras caracterizam-se por sua fragmentação e desarticulação, visa-se construir um plano estratégico, com ações em nível federal, articulado com estados e municípios, e lembrou que a operacionalização dessas estratégias construi conceitualmente paradigmas com as medidas adotadas predominantes de denuncia/repressão, sendo a ação e focalizada e voltada a atacar algumas situações flagrantes de abuso ou exploração sexual,atraindo a atenção da mídia e da sociedade na maioria das vezes um marketing político para responder os valores autoritários e repressivos vigentes. 229

230 Faleiros (apud CECRIA, 1997, p.5) ainda apresenta que este sistema estratégico tem se mostrado inoperante por diversos fatores, entre outros; cultura da impunidade prevalecente no país; dificuldade das famílias em sustentar uma acusação contra abusadores que na família exercem o papel de "protetores" na figura de pai, padrasto, avô, tio o que afeta o sentido de honra da família e, muitas vezes, sua sustentação econômica; falta de aparelhagem e de capacitação do sistema policial - judiciário para enfrentamento do problema tanto para levar a sério as denúncias como para levá-las adiante, apurando-as. Os oprimidos e vitimizados mais frágeis socialmente têm menos condições e espaço para defender e fazer valer seus direitos. Nos casos de exploração sexual estão envolvidas pessoas poderosas social, econômica e politicamente numa trama mafiosa que implica traficantes, hotéis, motéis, policiais, comerciantes, turistas e usuários. A tendência atual na esfera das políticas sociais e econômicas nacionais e internacionais e a de ressaltar a centralidade do papel da família no cuidado, formação e educação da criança,rizzini(2006) No Brasil a política nacional de assistência social esta pautada na matricialidade sociofamiliar, ou seja, rede socioassistencial deve estar voltada para atender as necessidades da família, seus membros e indivíduos, segundo o pressuposto de que para a família prevenir, proteger, promover e incluir seus membros e necessário, em primeiro lugar, garantir condições de sustentabilade para tal (MDS/CNAS,2004;34-36). O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) unidade integrante do sstema único de assistência social, constitui-se numa unidade pública e estatal onde se ofertam serviços especializados e continuados a famílias e indivíduos nas diversas situações de violação de direitos.o CREAS deve articular os serviços de média complexidade e operar a referência e a contra-referência com a rede de serviços socioassistenciais da proteção social básica e especial, com as demais políticas públicas setoriais e demais órgãos do Sistema de Garantia de Direitos. O CREAS poderá ser implantado com abrangência local/municipal ou regional, de acordo com o porte, nível de gestão e demanda dos municípios, além do grau de incidência e complexidade das situações de violação de direitos. Assegurar proteção social imediata e atendimento interdisciplinar às pessoas em situação de violência visando sua integridade física, mental e social. Fortalecer os vínculos familiares e a capacidade protetiva da família. Fortalecer as redes sociais de 230

231 apoio da família; Processar a inclusão das famílias no sistema de proteção social e nos serviços públicos, conforme necessidades. Reparar de danos e da incidência de violação de direitos. Prevenir a reincidência de violações de direitos. tendo como publico alvo,além de crianças e adolescentes, famílias e indivíduos que vivenciam violações de direito por ocorrência de: violência física, psicológica e negligência; violência sexual: abuso e/ou exploração sexual; afastamento do convívio familiar devido à aplicação de medida socioeducativa ou medida de proteção; tráfico de pessoas; situação de rua e mendicância; abandono; vivência de trabalho infantil; discriminação em decorrência da orientação sexual e/ou raça/etnia.(site do MDS) Toda a política publica visam a família como o centro das atenções, Rizzini (2006) alerta sobre o risco de se responsabilizar a família pela proteção da criança, mostrando que apesar da família ser indica por diversos estudos nacionais e internacionais como um lugar privilegiado de proteção para a criança, revela-se também que a família e um espaço possível de conflitos e contradições e que de forma mais acentuada nos últimos anos a questão da violência intrafamiliar em particular o abuso sexual vem aumentando gradativamente. O (CECRIA) Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes, caracterizou algumas dimensões de pouca visibilidade em áreas criticas de violência sexual,a intrafamiliar,exploração sexual praticada em prostíbulos, a violência sexual,são elas ;praticada contra crianças e adolescentes em situação de rua,turismo sexual,pornografia nos mais diversos setores inclusive na internet.estudos realizados mostram que essas violências estão intimamente ligadas a problemas decorrentes de condições de situação de pobreza, famílias em situação de vulnerabilidade e péssimas condições de vida que contribuem para o alcoolismo o uso de drogas e como conseqüência a todas essas violências apresentadas contra criança. Faleiros conclui que o problema da violência sexual contra crianças diz respeito à sociedade inteira e passa por uma discussão não só das políticas publicas, mas também da família com a sociedade, trata-se de um problema extremamente complexo e ainda com pouca visibilidade; e combatê-lo implica ações de ordem econômica,cultural,político,legal,policial,terapêutico a curto,médio e 231

232 longo prazo,tanto de prevenção como de denuncia e defesa,atendimento e responsabilização dos agressores,enfatizando um novo plano de estratégia baseado em um novo paradigma civilizatório onde sociedade e governo se engajem na luta e implementação dos direitos humanos respeitando a dignidade,a vida,ao corpo, e ao desenvolvimento da integral da pessoa e a garantia de seus direitos. CONSIDERAÇÕES FINAIS inoperância das políticas publicas existentes, são motivos suficientes para entendermos que, apesar dos direitos conquistados constitucionalmente pelas crianças,as políticas publicas (estado) sociedade civil,família precisam trabalhar juntos para que de fato este crime seja enfrentado de forma completa,respeitando os direitos humanos de dignidade,respeito a vida,ao corpo,e ao desenvolvimento integral da criança os permitindo torna no futuro cidadãos críticos, respeitosos e sadios prontos para viver em sociedade. Diante do exposto, sobre as mais diversas opiniões dos teóricos apresentados, o abuso sexual e uma realidade crescente em nosso país,e que apesar de uma evolução ainda se mostra um assunto de pouco visibilidade e de grande complexidade por motivos como:a falta de denuncia, pois o agressor e uma pessoa na maioria dos casos alguém próximo ou ate mesmo da família,o aumenta das condições precárias de desigualdade social e econômica em que vive a maioria das famílias, tornado-se vulneráveis a este crime,a cultura de impunidade que existe em nosso país,a falta de aparelhagem e capacitação dos que operam o sistema de denuncia,o perigo de responsabilizar apenas a família como órgão de proteção a criança,a REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA BALLONE GJ. Abuso Sexual Infantil, (2003) site: BRASIL. Lei 8.069/90, ECA- Estatuto da Criança e adolescente CRECRIA - Centro de Referência, Estudos e Ações Sobre Crianças e adolescentes. Brasília-DF, 1997 CUNHA, Maria Leolina Couto. Violencia sexual. Cecovi (2009), QUEIROZ, K. - Abuso Sexual. Conversando com esta realidade. 232

233 CEDECA-BA, RIZZINI, Irene, RIZZINI Irma, Nailf, Luciene, BAPTISTA, Rachel. Acolhendo crianças e adolescentes: experiências de promoção do direito à convivência familiar e comunitária no Brasil. São Paulo: Cortez, Brasilia, DF, 2006 SALVAGNI, Edila Pizzato. Visão atual do abuso sexual na infância e adolescência. Siote SILVA, Anamara Santana, SENNA, Ester, KASSAR, Mônica de Carvalho Magalhães. Exploração sexual comercial de crianças adolescentes e trafico para os mesmos fins: contribuição apara o enfrentamento a partir de experiências em Corumbá-MS. Brasília: OIT, 2005 SIMÕES, Carlos. Curso de direito do serviço Social. 3.ed. ver. E atual- São Paulo: Cortez,

234 CRIANÇAS E ADOLESCENTES USUÁRIOS DE DROGAS RESUMO Ana Carla da Silva Santos 52 Ana Paula Oliveira da Silva 53 Laise Monteiro Nascimento 54 Os jovens são motivados a fazerem uso de entorpecentes, levados pelo sentimento de profunda frustração em face dos problemas que vêem na sua vida e cujas soluções consideram intangíveis. A idéia de nada poder fazer para estabelecer mudança em sua realidade, que os atemoriza, instala-se como inferno particular. E o uso do entorpecente gera parênteses, hiato de bem-estar e leveza, pois, afasta, momentaneamente, aquela angústia, que é substituída pelo ilusório nirvana. Diante dessas considerações, este artigo se propõe a uma abordagem do uso de drogas por crianças e adolescentes, a partir de uma revisão bibliográfica sobre o tema, em livros, artigos e sites da internet. PALAVRAS-CHAVE: Criança; Adolescente; Drogas 52 Aluna do VIII período do curso de Serviço Social da Faculdade José Augusto Vieira (FJAV), 53 Aluna do VIII período do curso de Serviço Social da Faculdade José Augusto Vieira (FJAV ), 54 Aluna do VIII período do curso de Serviço Social da Faculdade José Augusto Vieira (FJAV), ABSTRACT Young people are encouraged to make use of drugs, driven by a sense of deep frustration in the face of problems they see in your life, and the solutions considered intangible. The idea to do anything to make change in their reality, that frightens, installs itself as private hell. And the use of the drug generates parentheses hiatus of wellbeing and lightness, then, away, momentarily, that anguish, which is replaced by the illusory nirvana. Given these considerations, this article proposes an approach to drug use by children and adolescents from a literature review on the subject, in books, articles and websites. KEY WORDS: Child, Adolescent, Drug 1 INTRODUÇÃO Cientificamente, droga pode ser entendida como todo e qualquer medicamento. No entanto, no sentido popular, pouco a pouco passou a ser designada como substância tóxica que produz no sistema nervoso central uma sensação de prazer como sedação, excitação, alucinações e volúpia. Essas sensações podem alterar a percepção, a inteligência, a memória, o raciocínio e o autocontrole. 234

235 Através dos tempos o uso de drogas foi usado com as mais diversas finalidades, tanto em cerimônias religiosas, culturais, medicinais ou, simplesmente por prazer, em festas, porém, o seu uso não representava um perigo para o usuário, visto que, este uso era sempre controlado. Porém, no contexto atual acredita-se que as pessoas são motivadas a fazerem uso de entorpecentes, levados pelo sentimento de profunda frustração em face dos problemas que vêem na sua vida e cujas soluções consideram intangíveis. A idéia de nada poder fazer para estabelecer mudança em sua realidade, que os atemoriza, instala-se como inferno particular. E o uso das drogas gera parênteses, hiato de bem-estar e leveza, pois, afasta, momentaneamente, aquela angústia, que é substituída pelo ilusório nirvana. Diante dessas considerações, este artigo se propõe a uma abordagem do uso de drogas por crianças e adolescentes, a partir de uma revisão bibliográfica sobre o tema, em livros, artigos e sites da internet. 2 DROGAS: CONCEITO E TIPOS Droga é considerada qualquer composto químico de uso médico, diagnóstico, terapêutico ou preventivo; 2. Substância cujo uso pode levar à dependência; 3. Substância entorpecente, alucinógena, excitante, etc.; 4. Coisa de pouco valor ou desagradável. É toda e qualquer substância, natural ou sintética que, introduzida no organismo modifica suas funções. As drogas naturais são obtidas através de determinadas plantas, de animais e de alguns minerais, por exemplo, a cafeína (do café), a nicotina (presente no tabaco), o ópio (na papoula) e o THC tetrahidrocanabiol (da maconha). O termo droga envolve também os analgésicos, estimulantes, alucinógenos, tranqüilizantes e barbitúricos, além do álcool e substâncias voláteis. As psicotrópicas são as drogas que tem tropismo e afetam o Sistema Nervoso Central, modificando as atividades psíquicas e o comportamento. Essas drogas podem ser absorvidas de várias formas: por injeção, por inalação, via oral, injeções intravenosas ou aplicadas via retal (supositório). São consideradas drogas lícitas: o álcool e o cigarro. 235

236 O álcool é o tóxico mais disseminado no mundo, devido a sua fácil obtenção e ao seu uso ser aceito socialmente. É também de fácil obtenção, fabricação, ao contrário da maioria dos outros tóxicos, o álcool pode ser encontrado na natureza, podendo ser obtido de plantas comuns, como a cana-de-açúcar, o milho, o arroz, entre outros. O tabaco é de origem de plantas herbáceas, da família das Solonáceas, sendo as espécies mais cultivadas a Nicotina Tabacum e a Nicotina Rústica. As folhas do tabaco contêm 3,6% de protídeos, 4,5% de lipídeos e cerca de 20% de cinzas. No que se refere à nicotina, alcalóide complexo, situa-se na média de 2%. Na combustão, uma parte desse agente tóxico queima-se e a outra parte é destilada e absorvida pelo fumante.são consideradas ilícitas: a maconha, a cola de sapateiro, crack, cocaína, heroína e inalantes em geral. De todas elencadas iremos nos deter na análise da maconha e cola de sapateiro por serem a de mais fácil aquisição e as mais consumidas por crianças e adolescentes. 2.1 As drogas lícitas O usuário do álcool que é dependente é chamado popularmente de alcoolista. O alcoolismo é considerado uma doença que tem grande vulto mundial, preocupando enormemente os governos em geral. No mundo, a doença causada pelo álcool preocupa enormemente os sistemas de saúde, estimando-se o número de dependentes entre 10% e 15% da população mundial. Como exemplo, no Estado de São Paulo pelo menos 1 (um) milhão de pessoas sofrem desse mal. O uso dessa substância entre jovens é cada dia maior, haja vista que, com a licitude da droga fica difícil o controle de sua comercialização. Normalmente, a criança e/ou adolescente é iniciado a consumi-la no seio da própria família, em confraternizações onde é comum a ingestão de bebidas alcoólicas. Para maioria das pessoas, o álcool é um componente agradável em atividades sociais. O uso moderado até dois drinques por dia para homens e um drinque por dia para mulheres e idosos (um drinque padrão é uma lata de cerveja, uma taça de 120 ml de vinho, ou 36ml de uísque) não é prejudicial para a maioria 236

237 dos adultos. No entanto, um número considerável de pessoas têm problemas sérios por beber. Um dos piores maus que o seu consumo pode causar é o acidente de trânsito, onde, normalmente, quem dá origem ao sinistro é um jovem alcoolizado, sem condições de dirigir. Contudo, existem muitos outros malefícios, pois, como qualquer outra substância entorpecente, pode levar à dependência, causando graves problemas de saúdo a longo prazo, como, por exemplo: hepatites, cardiopatias, câncer, pancreatite, entre outras doenças. O consumo exagerado leva a sérios problemas de relacionamentos, causando discussões ou brigas com membros da família, perda de emprego, cometer ou ser vítima de atos violentos e outros. Contudo, apesar de todos os malefícios citados, a licitude dessa substância, de certa forma, o torna mais aceitável pela sociedade, pois sua imagem não está vinculada ao submundo de drogas e dos crimes. Vínculo que, outras fórmulas de entorpecentes de menor potencial ofensivo à integridade física de seu usuário possuem, por exemplo, a cola de sapateiro, vinculada aos meninos de rua ( trombadinhas ), que praticam pequenos atos ilícitos para sustentarem seus vícios; e a maconha, vinculada ao submundo do tráfico de drogas e do crime organizado. Resta a nós pensarmos se a proibição de certas drogas, ou seja, a ilicitude é, de certa forma, uma maneira para, cada vez mais, existir um mercado paralelo, onde crianças e adolescentes são usados, iludidos por pessoas (meliantes) que lhe oferecem oportunidades de melhorarem de vida por um meio fácil e rápido, contaminando os pensamentos desses jovens marginalizados pela sociedade. Cabe aos governantes colocar em prática as políticas públicas existentes para acabar com o abuso desses meliantes que são penalmente responsáveis. 2.2 As drogas ilícitas Uma das drogas mais antigas que o homem conhece é a maconha, do cânhamo indiano e vem da planta "Cannabis Sativa", cresce com facilidade na maioria dos climas brandos, parece arbusto, sendo totalmente aproveitada como droga. Da resina (secreção) da maconha é derivada o HAXIXE, tendo forma de bolinha de gude (burica), apresentando uma cor escura próxima ao marrom, mais ou 237

238 menos brilhante. Depois do álcool, a maconha é a droga mais difundida no mundo todo, principalmente pelos adolescentes e jovens. O ópioé produzido por meio do esmagamento de sementes de papoula; contém uma grande variedade de substâncias químicas, das quais a mais importante é a morfina. Esta age poderosamente sobre o cérebro, promovendo uma sensação de grande tranqüilidade e relaxamento, além de reduzir, drasticamente, a dor. A Cocaína, é um pó branco, químico, derivado das folhas secas da planta conhecida por Erytroxyloncoca, originária da América do Sul e Central ; consumida sob a forma de pó, pode ser aspirada, injetada na veia ou fumada como "crack". O Crack chegou ao mercado brasileiro pelos anos 80, e duas teorias informam que: o mercado norte-americano ficou saturado de cocaína. Outra teoria diz que a criação deve-se à forma de fabrico de uma qualidade de cocaína sem o devido refino, visto que, para tal, precisa-se de éter, acetona, glicerina, permanganato de potássio, cujo refino, além de caro, exigiu severa vigilância quanto às substâncias a ele necessárias. Heroína, produzida a partir da morfina por meio de um complicado processo técnico. Seus efeitos são parecidos com os da morfina, se bem que, ainda mais intensos. Codeína, opiáceo mais moderado, usado como analgésico suave, quase sempre sob prescrição médica, podendo estar presente, também, na composição de remédios para tosse. LSD, alucinógeno sintético. Em muitos de seus consumidores parece estimular os estados de esquizofrenia, são provocados pela ingestão de quantidade micro, extremamente diluída e ingerida na forma de uma simples gota num cubinho de açúcar. Uma dose grande de LSD certamente acarretaria completa insanidade e a morte. 3 PRINCIPAIS DROGAS CONSUMIDAS POR CRIANÇAS E ADOLESCENTES 3.1 A cola de sapateiro As substâncias inalantes são lícitas, e são uma das maneiras mais freqüentes de crianças e adolescentes se drogarem. 238

239 Apesar de, muitas vezes, não ser reconhecida pela população como uso de drogas, a inalação de solventes voláteis, conhecidos como inalantes (geralmente hidrocarbonetos) é uma forma freqüente de consumo de substâncias psicoativas. A exposição a inalantes é reconhecida como uso de drogas quando ocorre a aspiração intencionalmente de um solvente com o objetivo de obter um estado de euforia ou excitação (intoxicação). (SILVA, 2001). Existem inúmeros tipos de inalantes, como a benzina, a acetona e o esmalte usado para pintar unhas. Contudo, ao falarmos em inalantes, imediatamente, nos vêm à lembrança a imagem de crianças de rua cheirando um recipiente qualquer que contém cola de sapateiro, são os chamados cheira-cola. Porém, apesar de as crianças que vivem a realidade das ruas apresentarem uma probabilidade maior de vir a consumir esse tipo de droga, existem pesquisas que afirmam que, o consumo de inalantes, como a cola de sapateiro, é cada vez maior em meio a crianças e adolescente de 1º e 2º graus, ou seja, estudantes que possuem um nível social melhor: Crianças e adolescentes em situação de rua realmente apresentam maior chance de usar essas drogas. Porém, apesar de se constituir em um grande problema social brasileiro, esse grupo não tem características homogêneas e, principalmente, outros grupos de jovens também apresentam taxas elevadas de consumo. Estima-se que 14% dos estudantes de 1º e 2º graus experimentaram inalantes alguma vez na vida, sendo que o uso de inalantes só é menor do que aquele do álcool e tabaco. (SILVA, 2001, p.05). É importante ressaltar que, a cola de sapateiro, como qualquer outra substância entorpecente, pode causar dependência e, se não tratada, pode levar ao óbito do consumidor. 3.2 A maconha (cannabis sativa lineu) A cannabis sativa lineu, vulgarmente conhecida como maconha, é um tipo de substância entorpecente ilícita. Derivada de uma planta, o seu uso altera a função mental do consumidor devido ao seu princípio ativo, o THC (delta-9-tetrahidrocanabiol): A maconha é uma combinação de flores e folhas da planta conhecida como cannabis sativa, e pode ser verde, marrom ou cinza. O termo cannabisdescreve a maconha e outras drogas derivadas da mesma planta. As formas mais potentes incluem a semente, o haxixe e o óleo de haxixe. Em todas as suas formas, a cannabisé uma droga que altera a função mental (psicoativa) porque contém THC (delta-9- tetrahidrocanabiol), princípio ativo da planta da 239

240 maconha. O THC é o elemento que mais afeta a função mental. (SILVA, 2001, p. 05). dificuldade para dormir, perda de peso e mãos trêmulas. (SILVA, 2001, p. 15). Muito popular entre os jovens, a maconha é a chamada droga iniciadora. Segundo o estudo de Silva (2001, p. 06) a maconha é a segunda droga mais utilizada entre estudantes (sem considerar álcool e tabaco) [...]. É através dela que seus usuários têm, normalmente, o primeiro contato com substâncias psicoativas de efeito mais prolongado, abrindo caminho para o contato com traficantes de drogas, não só da maconha, mas também de outras drogas ilícitas. O uso da maconha é prejudicial tanto por seus efeitos entorpecentes quanto por futuros danos à saúde. O indivíduo que faz uso da maconha por período prolongado, têm seus reflexos e suas percepções sobre as coisas afetados, causando, também, perda de memória de curto prazo, ou seja, a memória de acontecimentos recentes. Alguns consumidores crônicos também evidenciam sua dependência ao apresentar sintomas de abstinência ao deixar de usá-las. Em um estudo, os sujeitos apresentaram ansiedade, perda de apetite, Além de seus efeitos prejudiciais à saúde, a maconha pode causar dependência, que para ser suprida leva seu usuário a praticar certas condutas ilícitas para poder sustentar seu vício, por exemplo, há relatos em que usuários viciados praticaram desde pequenos furtos até assaltos à mão armada. 4 DESCUMPRIMENTOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS EXISTENTES Conforme ressalta Liberati (1993) a preocupação da sociedade em relação à criança e ao adolescente vem de longa data. Referência ao menor já se fazia nas Ordenações Filipinas, em período compreendido entre 1603 a Verificava-se, já naquela época, a proteção a um ser em especial condição de desenvolvimento. Na legislação pátria, consta, segundo alguns autores, que a tutela menorista brasileira tem seu início em 1693, com a Carta Régia, que ordenou ao Governo da Capitania do Rio de Janeiro ficassem as crianças enjeitadas ou abandonadas sob cuidados da Câmara e do Conselho. 240

241 Em relação à tutela de menores em nosso país, o Código Criminal do Império, de 1830, foi inspirado no Código Penal Francês, o Código Napoleônico que previu mendicância e a vadiagem entre os delitos contra a paz pública salientando, como exceção, os menores de dezesseis anos que agissem com falta de discernimento. O Código Napoleônico abriu caminho para os demais códigos de menores. (SILVA, 2001). O nosso Código Penal do Império foi o primeiro da América Latina e adotou o sistema do discernimento, previsto em seu art. 13. Consistia o sistema do discernimento em um processo pelo qual o menor de quatorze anos não era considerado criminoso quando praticasse um ato ilícito, exceto se agisse com discernimento, situação em que seria recolhido às casas de correção e por tempo determinado pelo juiz, desde que o menor não excedesse idade de dezessete anos. (SILVA, 2001). A Lei 4.242, de , em seu art. 3, previu a organização do serviço de assistência e proteção à família abandonada e delinqüente, estabelecendo nos 16 e 20, respectivamente, que o menor de quatorze anos, indicado autor ou cúmplice de crime ou contravenção, não seria submetido a processo de nenhuma espécie, e que o menor de dezoito anos, indigitado autor ou cúmplice de crime ou contravenção, ficaria submetido a processo especial. (MASSA, 1993). Menção deve ser feita ao Decreto , de visto voltar-se unicamente para a infância e a juventude e que, em seu art. 1º, previa que o menor, de qualquer sexo, abandonado ou delinqüente, seria submetido pela autoridade competente às medidas de assistência e proteção instituídas naquele regulamento. Em 1927, o Decreto A, de 12 de outubro, constituiu o Código de Menores que, na visão de Fernandez concretizou, dignamente, dispositivos legais voltados à "menoridade-pátriainfratora. (MASSA, 1993). Este Código previu a proteção e assistência aos menores de dezoito anos. Quanto ao menor infrator, preocupou-se o legislador em estabelecer ao inimputável o tratamento apropriado à suas condições de saúde, à reinserção em seu âmbito familiar e, em se tratando de menor pervertido ou abandonado, determinou o decreto a internação em uma escola de reforma, pelo prazo estipulado entre três e sete anos. 241

242 Para o menor delinqüente considerado perigoso, o código ordenou o remetimento do mesmo a estabelecimento especial ou prisão comum, por tempo suficiente para o alcance de sua regeneração, ressaltando, contudo, que os menores deveriam ser mantidos separados dos delinqüentes adultos. Nota-se, na averiguação do decreto, que, além da proteção ampla ao menor infrator, existe a tendência em priorizar a sua ressocialização, por meio de medidas procedimentais e educativas, tais como: instituições para abrigo de menores; de institutos disciplinares, em que se privilegia a educação; do Conselho de Assistência e Proteção aos Menores que tem por finalidade agilizar o processo referente aos mesmos, desde a listagem de pessoal até às instituições privadas ou particulares interessadas em colaborar. Passo importantíssimo na direção do progresso e evolução da tutela protetiva da criança e do adolescente foi dado com a promulgação da atual Constituição brasileira. A Carta Magna destina especial atenção ao público infanto-juvenil em seu Capítulo VII. Consagra o art. 227, com absoluta prioridade, os direitos à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, prevendo, também, a proteção contra qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. No art. 228, da Constituição Federal de 1988, prevê a inimputabilidade penal para os menores de dezoito anos, e no art. 229, determina o mútuo dever de assistência, em sentido amplo, entre pais e filhos. Breves comentários sobre alguns aspectos dos artigos supramencionados: Direito à vida - entendemos este direito em um duplo sentido. No sentido de permanência, ou seja, continuação de vida, que inclui dever do Estado em garantir à criança e ao adolescente uma política através de seguridade pública efetiva. No sentido de subsistência, ou seja, da própria alimentação, através de emprego de trabalho digno, seja para o próprio adolescente, respeitando sua condição de aprendiz, ou para seus familiares, incumbência que compete ao Estado possibilitar ao cidadão. Direito à saúde - direito essencial já previsto pela Norma Constitucional, no art. 196, onde se verifica ser a saúde direito de todos e dever do Estado, garantido, mediante políticas sociais e econômicas adequadas. Desnecessário comentar a quase indigência 242

243 do nosso Sistema Único de Saúde. Neste aspecto, a Constituição Federal não saiu do papel. Saúde no Brasil existe somente para quem possui condições econômicas para se valer das entidades privadas ou possui resistência e sorte suficiente para suportar longas filas e árdua espera. Saúde preventiva? É procedimento que, infelizmente, nosso povo não conhece. Nestas condições, nossos jovens teriam prioridade de atendimento. Direito à educação - a Constituição, em seu art. 208, prevê o dever do Estado de efetivar o direito à educação através de ensino fundamental obrigatório e gratuito. Este direito é pertencente a todos os cidadãos (art. 205), é público e subjetivo, sendo a sua não efetivação, por meio de oferta insuficiente ou irregular, causa de responsabilização da autoridade competente. E como que consciente da impossibilidade do Estado em cumprir as obrigações estipuladas, o legislador ressaltou no art. 209: o ensino é livre à iniciativa privada. A qualidade do ensino, no Brasil, deixa bastante a desejar. As escolas públicas não oferecem vagas suficientes, e as particulares não permitem acesso à maioria da população infanto-juvenil de nosso país. Direito à profissionalização - vige em nossa Constituição a preocupação nítida com o desenvolvimento profissional de nossos adolescentes, proporcionando-lhes a possibilidade de alcançarem um futuro próspero, exercendo uma boa condição de trabalho. Tal desenvolvimento passa, necessariamente, pelo ensino especializado voltado à profissionalização, podendo o adolescente aprimorar suas habilidades naturais, adquirir técnicas de conhecimento e descobrir suas vocações. Ocorre, porém que, a efetivação deste plano educacional, visando à profissionalização, se vê praticamente inexistente. São poucas as escolas que possuem condições de oferecer, adequadamente, esse serviço, o que toma insignificante o número de estudantes aptos a ingressarem no mercado de trabalho. Além do mais, vivemos o paradoxo existente entre a teoria apregoada pela Norma Constitucional, em que se procura atingir o pleno emprego, e a realidade de nossos dias com índices progressivos e alarmantes de desemprego estrutural. Direito à liberdade - como não poderia deixar de ser, a liberdade, direito fundamental e inerente ao ser humano, é elencada na Constituição Federal como princípio básico a ser exercido por todo cidadão. Liberdade é o direito de a pessoa poder dispor de si, é 243

244 o livre-arbítrio, é o exercício pleno dos direitos do homem livre, é a faculdade de fazer ou deixar de fazer o que melhor lhe aprouver, excetuando-se, por óbvio, eticamente o detrimento do direito alheio e, juridicamente, o que for contrário à lei. 5 MEDIDAS PREVENTIVAS DE APOIO À CRIANÇAS E ADOLESCENTES VICIADOS Muito se discute sobre as medidas preventivas que devem ser dispensadas ao menor que se droga e por isso mesmo chamados de infratores. Considerar estes menores como delinqüentes ou portadores de patologias biológicas, ou seja, entender que a causa do seu comportamento é devida a sua natureza biológica ou psicológica, certamente deverá influenciar o tipo de atendimento proposto. Por outro lado, considerar que estes adolescentes se expressam através de comportamentos anti-sociais, gerados pela condição familiar e social a que foram submetidos na infância, poderá determinar um outro tipo de atitude diante do problema. As medidas de proteção são um amparo à criança e adolescente que tiveram seus direitos primordiais ameaçados por muitos fatores. Considera-se criança, para efeito legal, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquele entre doze e dezoito anos de idade. As medidas de proteção à criança e ao adolescente são genéricas e específicas. As genéricas surgem em decorrência da ação ou omissão da sociedade ou do Estado, da omissão ou abuso dos pais ou responsáveis, e da conduta do menor, mas antes de tudo, visam protegê-lo. As medidas específicas são as elencadas no art. 101, incisos I a VIII, do Estatuto do Menor, e só deverão ser determinadas pela autoridade judiciária competente. As medidas de proteção podem ser aplicadas isoladas ou cumulativamente, e também são substituídas a qualquer tempo, sempre visando o interesse primordial do menor. É importante, sem dúvida que, na aplicação das medidas tenha como objetivo o fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. 244

245 A primeira medida específica é o encaminhamento aos pais ou responsáveis, mediante termo de responsabilidade, uma vez que, a filosofia menorista procura exaltar o papel da família, que é fundamental para a formação e aprendizado da criança e do adolescente. O menor deve, sempre, ser mantido na própria família, ou na falta desta, em família substituta, pois o convívio familiar é mais profícuo para sua formação e integração comunitária. A sociedade precisa ser conscientizada para a gravidez do problema e a distinguir que entre estes jovens não só existem marginais perigosos, como querem alguns, mas também pequenos infratores que, sem apoio, tendem a se transformar em infratores periculosos e uma maioria esmagadora que apenas pede esmolas e faz biscates para sobreviver e às vezes sustentar toda a família. (GOMIDE, 1999, p. 146). Somente com essa consciência, e com ações concretas e específicas para cada uma dessas categorias, será possível se dominar o medo, pavor e insensibilidade de alguns e se assegurar a participação da sociedade, como um todo, no processo de mudança. 5.1 Nas Instituições As instituições têm ocupado um espaço tradicional no atendimento do menor infrator. O sistema institucional, seja ele carcerário ou não, não permite que se alcance os objetivos que justificam a sua existência, ou seja, educar, reeducar e preparar o indivíduo para o convívio social. O menor desenvolve comportamentos anti-sociais devido às peculiaridades da estrutura familiar e social em que foi gerado, comportamentos estes que são expressos direta ou indiretamente em seus contatos com os grupos sociais, de tal forma que seria inviável que ele aprendesse novas habilidades de contato social ao ser confinado em um ambiente institucional. A instituição faz parte do sistema que segrega e mantém o menor infrator em um grupo social desprivilegiado e perseguido. O ambiente institucional é altamente marginalizador, onde o modelo criminoso é a regra e não a exceção. Além disso, a sociedade, com o objetivo de se livrar destas crianças e adolescentes permite e, até mesmo avaliza, a "limpeza temporária" que o sistema policial e judiciário promovem em relação a estes indivíduos. De tal forma que o papel da 245

246 instituição tem sido, tão-somente, guardar, por um certo tempo, estes menores longe do convívio social. (EDMUNDO, 1997, p. 102). A sociedade justifica sua ação de permitir o encarceramento baseada no pressuposto da "periculosidade". Tecnicamente, periculosidade significa a probabilidade do indivíduo vir a delinqüir. O indivíduo perigoso ou violento não deve ter condições de conviver junto ao cidadão comum. Porém, sabe-se muito pouco sobre predição de comportamento violento. Estudos nesta área mostram que, em 95% das vezes as predições sobre comportamento perigoso estão erradas. A ciência psicológica ainda não está habilitada a prever violência. (GOMIDE, 1999). De tal forma que, as sentenças, no que se referem ao tempo de encarceramento, segundo Monahan, citado por Gomide, deveriam levar em consideração dois fatores somente: a seriedade do crime cometido e o grau de culpabilidade moral do infrator. Previsão sobre o que o infrator fará quando sair da prisão não deveria, absolutamente ser, relevante para a tomada de decisão sobre o tempo que o indivíduo ficará encarcerado. (GOMIDE, 1999). Muitos argumentam que, vítimas da pobreza e da discriminação tem menos escolha livre para cometer, ou não, um crime e, portanto, deveriam receber sentenças mais curtas do que seus privilegiados companheiros de criminalidade. É preciso que se evite que o direito se perpetue como instrumento de dominação, onde o forte oprime o fraco, o rico oprime o pobre e o burguês explora o proletário. A grande maioria dos praticantes do direito deveria deixar de aluar como meros aplicadores das leis, cegos no tocante à legitimidade das mesmas e indiferentes aos fins a que estas se propõem. (GRUNSPUN, 1985). Há de se ressaltar que, mais importante do que reconhecer que todos são iguais perante a lei vem a ser a utilização da legislação como um instrumento a serviço do direito para promover a Justiça social, diminuindo as desigualdades geradas pelo sistema econômico injusto. Tanto nas escolas correcionais como nas prisões convencionais as normas estabelecidas para o desligamento ou redução da pena privativa de liberdade estão vinculadas ao bom comportamento na unidade. Bom comportamento, acato às regras institucionais, inclusive com ausência de tentativa de fuga, família 246

247 comprometida com o acolhimento do menor e emprego formam, via de regra, o elenco tradicional dos critérios envolvidos no desinternamento. É preciso reconhecer que este modelo institucional está falido. Como é possível educar, reeducar, reintegrar, sem que sejam oferecidas condições mínimas para que esses processos educativos ocorram? Qual é a relação interpessoal necessária neste processo? Como é possível que um projeto de vida seja construído nestas condições? 30 Pesquisas desenvolvidas mostraram que, a aquisição e internalização de valores morais e a socialização necessitam da mediação do afeto para serem instaladas no indivíduo, ou seja, sem afetividade mediando as relações entre as pessoas, o processo de aprendizagem fica, seriamente, comprometido. Estas análises apontam para um outro caminho - bem distante das instituições. As reflexões sobre os atos anti-sociais, a aprendizagem de novas habilidades, a interiorização de novos valores morais, a aquisição de um repertório de trabalho e o desenvolvimento de relacionamentos interpessoais alternativos somente poderão ocorrer ao proporcionarmos o convívio destes menores com um novo grupo social. Grupo este, composto de indivíduos que sejam representantes das várias camadas sociais, associadas ou não às forças dominantes da sociedade. Não está em questão aqui, uma avaliação da legitimidade dos valores que permeiam as ações dos grupos dominantes. O que se coloca é a desigualdade de posições. De um lado estão os integrantes do grupo dominante, aqueles que fazem as normas e/ou que se beneficiam delas. Do outro, estão as minorias, entre elas os menores do grupo de infratores, lutando por melhores condições de vida e pelo fim da discriminação e, ao mesmo tempo, sendo punidos diferencialmente pelo sistema judiciário A punição é diferencial no sentido em que deixa de considerar que estes indivíduos não tiveram oportunidades anteriores ao delito. Oportunidades estas que permitiriam uma opção real entre infringir ou não as leis estabelecidas pela elite privilegiada. A Justiça deverá, nas suas ações, neutralizar ou atuar no sentido de minorar as injustiças sociais que a estrutura estabeleceu e não apenas cumprir leis que ajudam a manter as desigualdades sociais. Em especial, a Justiça de Menores deverá ser um espaço de 247

248 transformação e não de manutenção do statusquo. (NOGUEIRA, 1996). A proposta de promover e, até mesmo, provocar a inserção destes jovens infratores em um novo meio social deverá, sem dúvida, propiciar condições para que eles possam se expressar, fazendo-se respeitar e ouvir. À margem do grupo serão sempre considerados frutos patológicos da sociedade e, tristemente, sem recuperação. Fazer parte do novo grupo torna a luta menos injusta pois, o menor deixaria de ser apenas um receptáculo das decisões do grupo dominante e poderia vir a ter alguma influência sobre elas. A crença na natureza perversa, deformada ou simplesmente indolente do menor infrator leva a maioria das pessoas a se afastar destes jovens e, conseqüentemente, não oportunizar condições de progresso ao meio social e, por conseguinte, aos benefícios que a sociedade para si estabeleceu, tais como, freqüentar uma escola, ter atendimento à saúde, ter moradia, utilizar o espaço público das praias e das ruas e, finalmente, ter um emprego. Ao longo da trajetória de sua vida o menor vai assumindo o estereótipo que a sociedade lhe impõe. Ele aceita os valores negativos que lhes são atribuídos porque não consegue estabelecer relações entre seus comportamentos e as sanções sociais a que é submetido. Estas sanções atuam no SER e não no ESTAR, ou seja, o menor é punido por ser um marginal, por ser um vagabundo e não por estar cometendo algum delito. Esta desassociação entre comportamento e atribuição de sanções leva-os a desenvolver uma auto-imagem de infrator, passando, então, a assumir a responsabilidade pelo seu próprio destino. Assim, desenvolve comportamentos anti-sociais como forma de minorar os efeitos negativos que o rebaixamento da auto-estima gera. Toma-se hedonista, determinista e imediatista. Busca o prazer imediato como forma de vida. Algumas experiências, fora do modelo tradicional de instituição, estão sendo feitas no Brasil e é preciso que sejam analisadas cuidadosamente. Modalidades como casas lares, que contém de 7 a 8 menores vivendo sob a responsabilidade de um casal; alternativas como a das repúblicas para 7 ou 8 adolescentes vinculados a programas de trabalho e/ou profissionalizantes; ou ainda outras formas, desde que se aproximem mais da estrutura de uma família, favorecendo a relação individual, a criação do vínculo, o desenvolvimento do afeto e a possibilidade de orientação. (GOMIDE, 1999, p. 150). 248

249 O jovem em transformação precisa fazer parte de um grupo, onde os outros membros também estejam passando pelo mesmo processo ou, pelo menos, estejam preparados para compreender as diferentes etapas peculiares do processo - caso contrário, sentir-se-á isolado. Este isolamento social o levará, certamente, de volta à marginalidade. Quanto aos recursos financeiros necessários para estes novos investimentos, certamente poderiam ser encontrados junto aos organismos financiadores do governo, pois o que se gasta para manter mal as gigantescas instituições existentes, poderia servir para darmos início a vários projetos alternativos. O mais importante, no entanto, nesta fase crítica em que se encontra a política social de atendimento da criança e do adolescente carente e/ou infrator, é o desenvolvimento de projetos, a realização de pesquisas, dentro da realidade brasileira, que possam romper com este imobilismo técnico instalado no interior das instituições. Diariamente, sente-se a dificuldade existente em se trabalhar e pesquisar o assunto, pois, além de não haver tradição de pesquisa na área do menor infrator, as questões teóricas, metodológicas e políticas formam uma tríplice aliança que tem caráter complicador, dificultando bastante o entendimento do problema. As tentativas de tratamento dos delinqüentes, através da psicoterapia, das mais variadas correntes terapêuticas, infelizmente, têm falhado. Inadvertidamente, porém, foi difundida a idéia de que, delinqüentes não têm cura, quando, possivelmente, a falha estaria na utilização do tratamento inadequado, visto que, as mudanças no indivíduo ocorrem como conseqüência de muitos outros fatores que não a psicoterapia. Além disso, os discursos político-eleitoreiros sobre a questão do menor encobertam a ineficiência e ineficácia do atendimento, pois produzem um entendimento de que é somente através de mudanças políticas mais amplas que as necessidades destas crianças serão atendidas. É preciso que, além da vontade política, o desenvolvimento técnico da área seja efetivado. Há evidências de que as contribuições teórica e metodológica advindas dos países desenvolvidos aliadas à formação política peculiar ao nosso estágio de desenvolvimento, poderão produzir resultados satisfatórios e eficazes, no sentido de apontarem a saída operacional para o atendimento justo e competente da criança abandonada brasileira. 249

250 5.2 No trabalho Melhorar a auto-estima destes jovens e modificar o estereótipo que lhe é atribuído pela população deve ser o principal objetivo de programas ligados à integração do infrator à sociedade. É necessário possibilitar o convívio entre dois grupos sociais distintos, - o de menores infratores e o de operários, considerados como um grupo, socialmente, aceito -, tomando por base uma situação de trabalho. Paralelamente, é preciso atuar junto aos funcionários da empresa no sentido de se alterar o estereótipo, altamente negativo e dificultador do estabelecimento de relacionamento pessoal. Palestras, atendimentos individuais e grupais e, até mesmo, o assessoramento quanto a literatura referente à questão dos determinantes da marginalidade poderão ter um efeito positivo na alteração deste estereótipo. Tudo deve ser feito com o objetivo de subsidiar as ações dos funcionários no contato com estes jovens pois, em última análise, a convivência agradável, sem muitos traumas, poderá ser um dos fatores fundamentais para a mudança do estereótipo. Por outro lado, junto ao menor, deve-se atuar no sentido de instalar um repertório básico de convívio social e de profissionalização. Noções básicas de higiene, regras sociais tais como, maneira de cumprimentar, de pedir uma informação, de agradecer a uma gentileza devem fazer parte deste treinamento. Além disso, faz-se necessário mostrar aos menores, também, o efeito causado no ambiente por suas características físicas peculiares, por exemplo, o tipo de cabelo, a forma de usar a camisa aberta no peito, a maneira de falar (gírias), o modo de andar e de olhar. Esse critério do discernimento sempre trouxe diversos problemas, uma vez que se tomava muito difícil para o magistrado verificar a existência ou não de lucidez do agente ao cometer o delito, o que repercutia, quase que invariavelmente na decisão favorável ao menor, a quem se atribuía, judicialmente, falta de discernimento e conseqüente irresponsabilidade penal. 250

251 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS O tráfico de entorpecentes é um grande problema de segurança pública, tanto em nosso país, como a nível internacional. Os cartéis do tóxico, através do crime organizado, atingem todo o tipo de público; a oferta de drogas ilícitas se apresenta diariamente maior, e o manancial econômico que representa se torna cada vez mais atrativo, tanto para os grandes grupos que lidam com a distribuição internacional do tóxico quanto para aqueles que exercem papéis secundários na hierarquia do tráfico. Nessa perspectiva, os países subdesenvolvidos têm importante função no ciclo da droga, pois os altos índices de desemprego e a situação de miserabilidade em que se encontram, facilita a atuação dos traficantes. A mão-de-obra barata pode ser conseguida por um valor irrisório aos parâmetros do tráfico e, apesar disso, representa para aqueles que fazem a distribuição de pequenas parcelas da droga, os denominados aviões, um meio de subsistência que lhes proporcione uma condição material mais digna do que lhe pode oferecer o Estado falido ou o restrito mercado de trabalho. Assim, o Brasil cumpre um papel de destaque no contexto internacional do tráfico. Diante disso, o público adolescente é o alvo preferido na rota do tráfico, assim, por conseguinte, se verifica, constantemente como pontos estratégicos de distribuição de entorpecentes, as escolas, shoppings, danceterias, saídas de shows, academias de ginásticas, ou seja, locais freqüentados, preferencialmente, por jovens, visto que, além de consumidores podem passar, também, a ser atravessadores na distribuição das drogas. O jovem, por sua impetuosidade, curiosidade, rebeldia e necessidade de romper com padrões e regras preestabelecidos, é uma presa fácil diante do poder de persuasão de traficantes experientes que possuem diversas formas de abordagem, prevalecendo-se da inexperiência e da instabilidade emocional dos adolescentes, oferecem a droga como sendo uma fonte inesgotável de satisfação e prazer, que torna o jovem vigoroso, atraente e diferente dos demais, característica, somente, acessível àqueles que possuem personalidade forte e não se deixam seduzir por pequenas coisas. 251

252 Existem autores que explicam que a utilização eventual de uma droga não torna a pessoa dependente e que o adolescente possui a tendência de procurar novas sensações. Cita, como exemplo, a maconha, um alucinógeno considerado menos tóxico que não costuma criar dependência física e pode ser retirado sem risco de crise de supressão. Outros afirmam que, a maconha possui toxidade bem menor que outros entorpecentes, não ocasionando tolerância, razão pela qual, não causa a necessidade do aumento progressivo da quantidade de droga a ser ingerida. Já no concernente ao álcool, alertam que seu uso em grande quantidade e em uma única vez pode atingir diversas fases que vão da excitação, passando pela fase de confusão e de sono, podendo chegar a causar a morte em virtude de resfriamento excessivo do corpo ou pela intoxicação alcoólica e que, em caso de uso seguido e prolongado, pode causar dependência física e ocasionar, dentre outros males consideráveis, a cirrose hepática. (ALMEIDA JÚNIOR, 1986). Observa-se, assim, que o perigo maior para o adolescente é representado pelo uso em larga escala e/ou continuado de qualquer substância prejudicial, seja ela lícita ou não, e na correlação direta entre maconha e álcool, a segunda pode vir a ser mais prejudicial à pessoa. Diante de uma política de repressão ineficaz e da oferta em abundância de drogas a nossos jovens, se torna óbvio que, a maioria dos adolescentes terá a oportunidade de experimentar alucinógenos, e que caberá a eles a decisão de faze-lo ou não. Nessa decisão, vários fatores têm influência, a opinião de grupos de iguais, o conhecimento ou não a respeito dos perigos da utilização, a curiosidade, a quebra de um tabu, a ilusão errada de que a droga liberta e fortifica ou o discernimento de que ela escraviza, a consciência de seus efeitos em detrimento da saúde ou a possibilidade de ter alucinações são apenas hipóteses do que pode passar na cabeça de um adolescente na hora de optar ou não pelo uso da substância entorpecente. Por isso, se faz necessária a conscientização dos pais sobre o conhecimento de drogas para poderem, diante de seus filhos, desmistificar o seu uso, quebrar o tabu do desconhecimento, dialogar claramente sobre o assunto e não acreditar que a omissão é a solução mais adequada. 252

253 É de fundamental importância a influência qualificada e positiva dos adultos para que o jovem tenha condições de optar por não experimentar drogas, ou, em caso contrário, tenha a possibilidade de não permanecer usando-as, ou, até mesmo, que possa utilizá-las sabedor de seus efeitos. O legislador ao elaborar as leis que tratam da questão das drogas, buscou ser o mais amplo e rígido possível, procurando reprimir qualquer ação que envolvesse substâncias entorpecentes. Não precisamos de mais leis, o que precisamos é que o legislador acorde para o problema, ou melhor, dê prioridades na implantação de programas preventivos com profissionais treinados e instituições aptas a receberem pessoas dependentes. A simples prevenção e instrução da sociedade, levaria as pessoas a terem um conhecimento maior dos malefícios que as drogas podem causar. De que adianta o Estado punir o viciado se não existe uma divulgação, uma campanha informativa de prevenção ao uso de tóxicos. Primeiro, punir o viciado de nada resolve, pelo contrário, com o nosso sistema prisional e de recuperação, constituído de forma desorganizada, constituindo-se verdadeira escola de crime, com certeza servirá somente de estágio para que o menor aprenda outros crimes maiores, pois, estará convivendo com mestres dos delitos. A política da prevenção pela conscientização, tanto dos pais quanto dos adolescentes, é uma das formas mais eficazes de evitar a convivência com a droga, seja as ilícitas e ofertadas clandestinamente ou as lícitas, como anfetaminas, álcool, cola, benzina ou anabolizante, facilmente encontrados em locais públicos onde são vendidas para o consumo e, infelizmente, isso já faz parte de nossa realidade. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO ABEAD. Proposta para uma política nacional de prevenção do consumo do álcool, tabaco e outras substâncias psicoativas. Brasília, ALMEIDA JÚNIOR, A. Lições de Medicina Legal. 23ª ed. São Paulo: Nacional, BRASIL. Constituição Federal de LOPES, Maurício Ribeiro. (Coord.). 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais,

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256 VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER: dura realidade ABSTRACT RESUMO Marielle Oliveira Santos Mariza Souza Almeida Faculdade Jose Augusto Vieira Bacharelado em Serviço Social Orientadora: Especialista Maciela Souza Rocha Violence against women is growing every day in our country and concerned with the high indices of refraction associated with this social issue scholars from around the country begin to discuss and try to disseminate information on the subject, taking into consideration the cultural issue of gender and the historical inequality between men and women, which has been reflected to the scene of domestic violence, which in recent years this has been potentiated by alcohol, drugs, jealousy among others aspects that stimulate domestic violence. Key - words: Violence. Gender. Maria da Penha Law and Inequality A violência contra mulher cresce a cada dia em nosso país e preocupados com os altos índices ligados a esta refração da questão social estudiosos de todo o país começam a discutir e a tentar disseminar informações sobre o assunto, levando em consideração a questão cultural de gênero e a histórica desigualdade entre homens e a mulheres, que tem refletido para o cenário da violência doméstica, este que nos últimos anos tem sido potencializado pelo álcool, drogas, ciúme dentre outros aspectos que estimulam a violência doméstica. Palavras chaves: Violência. Gênero. Lei Maria da Penha e Desigualdade. A palavra violência devido a sua vasta abrangência torna-se difícil formular um conceito, porém, podemos buscar o entendimento dos vários tipos ou possibilidades. Segundo Ramos (2003) o termo violência tem uma correlação com os verbos violentar, violar, forçar e que decorrem do uso de força para produzir dano. Para Chauí (1985) o conceito de violência abrange dois ângulos, a dominação e a privação: 256

257 Em primeiro lugar, como conversão de uma diferença e de uma assimetria numa relação hierárquica de desigualdade, com fins de dominação, de exploração e opressão. Em segundo lugar, como a ação que trataria um ser humano não como sujeito, mas como coisa. Esta se caracteriza pela passividade e pelo silêncio de modo que, quando a atividade e a fala de outrem são impedidas ou anuladas, há violência. (CHAUÍ, 1985, p ). Outra vertente muito trabalhada no estudo sobre violência é a sua relação com a desigualdade social. Porém, não se pode afirmar que a pobreza é causa única para acontecer à violência, visto que os casos mais comuns da violência podem chamar de violência de gênero, fruto de uma ação psicológica e cultural difícil de ser modificada. Devemos ainda entender o conceito de violência segundo o dicionário da língua portuguesa de Celso Pedro Luft (1999, p. 675). Violência: substantivo feminino. 1. Qualidade ou ação de violento. 2. Constrangimento físico ou moral. Violento: que age com ímpeto, força, energia. 2. Tumultuoso. 3. Intenso. 4. Irascível 5. Brutal 6. Contrário ao direito ou à justiça. Então, o ato de constranger física e moralmente é violência. No caso de violência doméstica que ocorre entre homens e mulheres, o homem se diz detentor de (ter) um poder sobre as mulheres de forma que cometem atos sem pensar nas conseqüências. Com o advento da Lei Maria da Penha, Lei nº /06, em seu art. 5º define-se a violência doméstica, demonstrando que a mulher é quem sofre a ação ou omissão e as condutas que se configuram Violência Doméstica. Art. 5.º Para os efeitos desta Lei configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial: I no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas; II no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; 257

258 Violência de Gênero III em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação. Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual. A violência de gênero se apresenta como uma situação que não se mostra muito, porém, existem com freqüência muito alta no dia-a-dia das mulheres, de forma que se torna comum este tipo de violência. Assim, se é comum, então, não se dá muita atenção, por isso, que quase sempre não consideram esta ação como uma transgressão de direitos e violação de dignidade, mas como uma violência particular, com as mesmas características das violências ocorridas nas ruas, cometidas por pessoas estranhas. Quando se diz que essa violência não se mostra muito, quer assim demonstrar que por causa da ideologia de tratar o problema como individual e não como um problema social é que chegamos a tantas ocorrências desagradáveis, as mesmas podem ser evitadas se levadas a ações públicas e políticas sociais apropriadas. Estas por sua vez já existem desde 2003, porém, ainda com deficiências. Camargo e Aquino afirmam dentro do programa de prevenção, assistência e combate à violência contra a mulher, que: A violência doméstica e de gênero é um problema complexo, que possui profundas raízes na organização social, nas estruturas econômicas e de poder na sociedade. Enfrentá-la exige o desenvolvimento de políticas públicas em diversas áreas e a mobilização e conscientização da sociedade. O engajamento dos governos e dos mais amplos setores sociais é fundamental para que se ergam bases para a construção de um profundo compromisso de respeito e igualdade nas relações de gênero. (CAMARGO & AQUINO, 2003, p. 48). Quaisquer atos que venham a causar morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico, podem ser considerados como violência. Se dirigidos à mulher então teremos a violência contra a mulher caracterizada. Enquanto a violência com homens ocorrem, mas vê-se que o agressor geralmente são outros homens e desconhecidos, com as mulheres percebe-se que o principal agressor são pessoas próximas, como os parceiros íntimos ou outros familiares do sexo masculino. 258

259 Dessa forma, no contexto de violência de gênero, percebendo que na sua maioria o agressor é o homem, vê-se que se trata de um comportamento social e cultural que valoriza a violência para que se exerça a masculinidade. Isso fica comprovado quando observamos pesquisas trazidas à tona dentro do material de prevenção da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do governo federal onde mostra que dos homens entrevistados, com idade entre 15 e 60 anos, 25,4% afirmou ter usado violência física contra a parceira, 17,2% informaram ter usado de violência sexual e 38,8% afirmaram ter insultado, humilhado ou ameaçado ao menos uma vez sua parceira. Entre recrutas das forças armadas de Recife, perguntou-se: Há momentos em que mulher merece apanhar?, 25% disseram que sim, 18% disseram que depende e 18% afirmou já ter agredido fisicamente a mulher. Para a SOF (Sempreviva Organização Feminista) a violência é de caráter sexista e esta pode tomar diversas formas, que veremos a seguir: Violência Doméstica É caracterizada por qualquer tipo de violência praticada contra a mulher no âmbito doméstico e pautada na desigualdade de gênero. Diz-se doméstica por acontecer dentro de casa e os agressores são pessoas muito próximas das vítimas (marido, namorado, irmão, exmarido). Por ser o ambiente que representa o local de aconchego, muitas vezes o silêncio dos agredidos oculta os casos. Violência Física Ocorre com atitudes que venham de fato atingir o corpo da parceira, sem levar em consideração que para chegar a esse ponto já houve a violência psicológica. Para a SOF, violência física é: Espancamento com a mão ou objetos, tentativas de estrangulamento, arremesso de objetos contra a mulher, pontapés... Podendo chegar a assassinato. Muitas vezes, ocorre paralelamente à violência psicológica. (SOF, p. 9). 259

260 Violência psicológica Vai desde o uso de uma linguagem ofensiva até a humilhação ou ameaça. Neste caso o homem desqualifica a mulher, usando contra ela ameaças palavras obscenas, gritos, impõem medo, principalmente se isso ocorrer diante dos filhos e filhas. Impedir o trabalho fora, privando-a de ter uma liberdade financeira e obrigando a cuidar dos filhos sozinha, ameaças de morte, menosprezar o corpo da mulher e afirmar que tem amantes, criticar permanentemente suas atitudes de mãe e de mulher, chegando até o ponto de interferir na sua vestimenta e impedi-la que saia de casa. Violência sexual Outro tipo de violência contra a mulher é a violência sexual. Esta, segundo a SOF é qualquer atividade sexual praticada por um homem contra a vontade da mulher, através da força, da ameaça, da intimidação, mesmo quando ocorre dentro do casamento ou relações de namoro. O fato de o homem forçar a mulher a algum ato já é violência, como por exemplo, o sexo oral, o sexo anal, o ato de passar a mão no corpo da mulher ou da menina e o mais grave que é o estupro, ato que é caracterizado pela penetração vaginal, considerado crime hediondo. Explica ainda a SOF que estes homens encontram prazer não no ato sexual, mas sim no fato de impor a relação, é uma forma de demonstrarem que podem, de submeterem a mulher à condição de objeto. Assédio Sexual Acontece quando existe uma relação de poder entre as partes e um impõe a outra a relação, demonstrando o seu poder. Esse tipo de situação acontece muito no trabalho, em escolas, em sindicatos, etc. Abuso sexual Trata-se de outra forma de violência sexual, pois nestes casos acontecem as mesmas coisas que na violência sexual, porém, as vítimas são crianças ou adolescentes. Afirma a SOF que este tipo de 260

261 violência é praticado pelo pai, padrasto, irmãos, tios, avô e vizinhos. São casos de difícil descoberta por se tratar de crianças que muitas vezes ainda não entendem o que está acontecendo. A violência de gênero é uma realidade e por isso, deve-se buscar a promoção das políticas públicas de combate a violência, pois não basta entender o grave problema, deve-se motivar a participação de todos neste combate à violência contra as mulheres, inclusive e principalmente a participação de homens, pois Boaventura (apud Medrado e Lyra, 2003, p.21) diz que: É bom que realmente se torne claro a opinião pública que nem todos os homens são agressores e que muitos desses homens lutam contra essa agressão e essa violência. Eu penso que as lutas importantes no mundo dos Direitos Humanos, Contra a violência, contra a tortura, são lutas que não podem ser deixadas a um grupo social. É semelhante à luta do Movimento Negro, que não pode ser deixada somente aos negros. As lutas feministas não podem ser deixadas somente às mulheres. É preciso que os homens se solidarizem, porque são a prova viva de que repudiam essa forma de agressão e que tudo farão para que esse número de pessoas que infelizmente é muito grande e atravessa todas as classes e todos os continentes se vá reduzindo através da oposição democrática de homens e mulheres. Dessa forma fica clara a necessidade do envolvimento de todas as pessoas independente do gênero masculino ou feminino. Uma medida de grande relevância foi à instituição da Lei de Violência Contra a Mulher, chamada de Lei Maria da Penha (Lei nº 11340, de 07/08/2006). Esta ajuda a combater a violência de gênero. Discorreremos mais sobre esta em outro momento. Desigualdade de gênero e a Violência Doméstica Sabe-se que é muito antiga a situação de violência doméstica, pois as mulheres, principalmente na Idade Média e Moderna não tinham direitos nenhum, simplesmente eram tratadas como objetos, que pertenciam a homens. Estes homens eram seus pais e quando casavam passavam à posse do seu marido. Assim, Leda Maria Hermann (2007, p. 54) estabelece: Desde a antigüidade a ao longo da Idade Média e da Idade Moderna, filhas mulheres eram indesejáveis, pois não serviam à perpetuação da Linhagem paterna e ao serviço pesado da lavoura e do pastoreio; só para os trabalhos domésticos, pouco lucrativos e, portanto, inferiores. Os 261

262 casamentos eram decididos pelo pai, que tinha o dever de ofertar um dote, como compensação pelo encargo de manter e sustentar, a partir dali, a mulher que tomava por esposa. Da subserviência à figura paterna a mulher passava diretamente à submissão e obediência ao marido. Com a evolução da sociedade contemporânea, deixa de existir essa forma de tratamento para com a mulher, porém, ainda há várias limitações. Vale aqui discorrer brevemente sobre a instituição família, esta vem passando por profundas mudanças o que provoca crises em torno da mesma. A estrutura tradicional formada por um casamento entre homem e mulher e que tenham filhos, no século XXI, já não é predominante, pois se encontram várias famílias formadas sem o casamento ou que o núcleo familiar é formado por avós, tios, amigos ou ainda aquelas que já são constituídas por casais do mesmo sexo. Com o grande número de separações de casais tem-se então como conseqüência um elevado número de violência cometida pelo ex, por exemplo, vê-se que acontecem muitos casos onde o agressor permanece na convivência familiar por não aceitarem o fim do relacionamento e com isso faz do ambiente doméstico um palco de violência doméstica. Este tipo de violência estava vinculado a um tipo de punição muito branda, este era tratado no art. 129, 9º e 10º do código penal e tinha uma pena que chegava ao máximo de dois anos e por tratarse de Juizado Especial Criminal, decorria-se em conversão de prestações pecuniárias, cestas básicas ou até mesmo em serviços prestados à comunidade. A conseqüência destas penas tão amenas era o fato de o agressor continuar no convívio familiar e por vingança cometiam piores agressões. Em 2006 então, surge uma lei para trazer inovações no tocante à Violência Doméstica e Familiar contra a mulher. A Lei Maria da Penha trata as agressões como crime e tem a determinação de punições mais severas com penas de reclusão para o agressor. Por tratar-se de um tema abrangente não temos como fixar um conceito para a Violência doméstica, digo abrangente porque qualquer ação ou omissão que cause sofrimento, morte ou lesão à mulher caracteriza-se como Violência Doméstica, como traz a Lei 11340/06 no seu art. 5º. Porém, ela também é estrita de forma que quando a única vítima é a mulher. 262

263 Sobre essa Lei comenta Hermann (2007, p ): Em termos de ordenamento jurídico, a Lei Maria da Penha constitui avanço e retrocesso. É avanço na medida em que traça diretrizes importantes para incremento do sistema protetivo integrado e coordenado de atenção e valorização da vítima e de prevenção às práticas violentas no âmbito das relações domésticas e familiares. É retrocesso na proporção em que sobrevaloriza a repressão penal, retomando o sistema penal duro como arena privilegiada para enfrentamento da violência doméstica, numa ótica que vigorou até a criação dos Juizados Especiais Criminais pela Lei 9099/95, ou seja, por mais de cinqüenta anos, sem resultados efetivos em termos de prevenção e proteção às vítimas. Mais que avanço e retrocesso, a Lei Maria da Penha pode também ser definida como misto de realidade e promessa: realidade repressiva, com foco na vítima mulher. A promessa de proteção não pode ser tomada como realidade, sob pena de gerar mais desencantamento que estímulo. Para que isso não aconteça, alguns aspectos devem ser bem compreendidos. O primeiro deles é que a lei não cria os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; apenas dispõe sobre sua criação. A efetiva criação dessas varas especializadas deve ser impulsionada pelos Tribunais de Justiça dos Estados, a quem incumbe a iniciativa legislativa, e regulado pelas respectivas Assembléias Legislativas através de lei, respeitadas as normas orçamentárias aplicáveis. O segundo é que a lei tampouco, cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, como proclama seu enunciado e artigo 1º; apenas estabelece diretrizes neste sentido, com repercussão nos programas e sistemas já existentes, entre eles o Sistema Único de Saúde (SUS), Sistema Único de Segurança Pública e Sistema Único de Assistência Social (SUAS), que deverão adaptar suas ações e serviços a estas diretrizes. A criação de organismo e serviços igualmente depende de regulação legislativa em nível estadual e/ou municipal, mediante iniciativa da administração pública em cada esfera de governo. (Hermann 2007, p ). Deve-se entender também que não basta ser que se tenha uma vítima mulher e em seguida já está configurado o crime, mas sim, que o agressor dessa vítima seja integrante da família, ou da intimidade dela. Segundo definição dada por Souza (2007, p. 35), Violência Doméstica se define da seguinte forma: O termo violência doméstica se apresenta com o mesmo significado de violência familiar ou ainda de violência intrafamiliar, circunscrevendo-se aos atos de maltrato desenvolvidos no âmbito domiciliar, residencial ou em relação a um lugar onde habite um grupo familiar, enfatizando prioritariamente, portanto, o aspecto espacial no qual se desenvolve a violência, não deixando expressa uma referencia subjetiva, ou seja, é um conceito que não se ocupa 263

264 do sujeito submetido à violência, entrando no seu âmbito não só a mulher, mas também qualquer outra pessoa integrante do núcleo familiar (principalmente mulheres, crianças, idosos, deficientes físicos ou deficientes mentais)_ que venha a sofrer agressões físicas ou psíquicas praticadas por outro membro do mesmo grupo. Trata-se de acepção que não prioriza o fenômeno da discriminação a que a mulher é submetida, dispensando a ela tratamento igualitário em relação aos demais membros do grupo familiar privado. percebe-se que os mesmos não mudam em nada, pois repetem o ato. Formas de Violência Doméstica O art. 7º da Lei 11340/06 discorre sobre as formas de violência, vejamos: É válido sempre lembrar que toda violência doméstica está baseada no gênero, então acontece à agressão (ação ou omissão) partindo sempre do ambiente doméstico (família ou pessoas de grande intimidade) contra a mulher. Estas agressões são situações que lhes cause lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e danos moral ou patrimonial e até morte. Na maioria dos casos as pessoas agredidas permanecem nessas relações por causa de uma dependência que pode ser emocional ou material, então há uma baixa auto-estima. Os agressores conseguem reverter a situação de forma que façam as agredidas ainda se sentirem culpadas e envergonhadas. Muitas dessas mulheres sentem-se violadas e traídas, diante das promessas de mudanças de comportamento dos seus agressores e em seguida Art. 7º. São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: I a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal; II a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação; III a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força que a induza a comercializar ou utilizar de 264

265 qualquer modo a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimonio, a gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos; IV a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades; V a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Percebe-se que a Lei fala de cinco formas de violência, porém muitas delas estão intrinsecamente ligadas de forma que ocorrendo uma violência física, por exemplo, sempre ocorrerá a violência psicológica simultaneamente, pois vemos que a vítima fica amedrontada, depressiva. Discorreremos sobre essas cinco formas a seguir: Violência Física no âmbito da violência doméstica Trata-se de um tipo de violência com o contato de corpos entre o agressor e a vítima havendo, por exemplo, socos, pontapés e empurrões. Esta situação já era prevista pelo código penal, porém, como mencionado anteriormente com penas muito brandas. Mas, esse tipo de violência pode ser considerado a mais grave, por causar danos que podem ser irreparáveis como chegar à morte da agredida. Assim, Hermann (2007, p.108) diz que: O artigo 7º define, em rol exemplificativo, as formas ou manifestações da violência doméstica e familiar contra a mulher, reafirmando e conceituando as esferas de proteção delineadas no artigo 5º, caput: integridade física, integridade psicológica, integridade sexual, integridade patrimonial e integridade moral. As definições não possuem escopo criminalizador, ou seja, não pretendem definir tipos penais. Sua função, no contexto misto da lei, é delinear situações que implicam em violência doméstica e familiar contra a mulher, para todos os fins da Lei Maria da Penha, inclusive para agilização de ações protetivas e preventivas. Quanto à integridade física, o conceito transcrito no inciso I do dispositivo é expresso em considerar violentas condutas que ofendam, também, a saúde corporal da mulher, incluindo, por conseqüência, ações ou omissões que resultem em prejuízo à condição saudável do corpo. Conduta omissiva possível é a negligência, no sentido de privação de alimentos, cuidados indispensáveis e tratamento médico/medicamentoso à mulher doente ou 265

266 qualquer forma fragilizada em sua saúde, por parte de marido, companheiro, filho (as), familiares e afins. Violência Psicológica no âmbito da violência doméstica A mesma autora ainda complementa, falando estritamente das condutas que podem causar violências físicas dizendo: Já as condutas de ofensa à integridade física podem ser compreendidas como aquelas que causem ferimentos ou lesões podendo levar inclusive à morte: surras, queimaduras, facadas e outras agressões ativas. Receberam tratamento criminalizador, com agravamento das conseqüências penais respectivas, nos artigos 41 a 43. (HERMANN, 2007, p. 109). E de fato é muito grave, pois ela além de deixar seqüelas muitas vezes irreparáveis ainda atinge o psicológico da vítima deixando-a gravemente debilitada. De acordo com a SOF, violência física é um fator que acaba responsabilizando a mulher e invertendo os papéis onde a mesma passará de vítima a culpada, apontando supostos atos errôneos das mulheres e até que prove o contrário à mulher permanece na impunidade. O inciso II do Art. 7º da Lei Maria da Penha, trata da violência psicológica. Essa acontece quando o agente utiliza-se de ameaças, rejeições, humilhações ou discriminações e ainda sente prazer em perceber que a vítima está amedrontada. Esta é terrível, pois não é perceptível, afinal aparentemente a vítima pode estar bem, mas as conseqüências psicológicas e a baixa auto-estima são grandes. Diz Leda Maria Hermann (2007, p. 109): A violência psicológica, enfocada no inciso II do artigo 7º, consiste basicamente em condutas omissivas ou comissivas - que provoquem danos ao equilíbrio psicoemocional da mulher vítima, privando-a de auto-estima e autodeterminação. È nitidamente ofensiva ao direito fundamental à liberdade, solapada através de ameaças, insultos, ironias, chantagens, vigilância contínua, perseguição, depreciação, isolamento social forçado, entre outros meios. Implica em lenta e contínua destruição da identidade e da capacidade de reação e resistência da vítima, sendo comum que progrida para prejuízo importante à saúde mental e física. As palavras-chave do conceito são: autoestima, saúde psicológica e autodeterminação, porque representam privações básicas derivadas da violência psicológica. A destruição da auto-estima 266

267 mina a capacidade de resistência da vítima e seu desejo de buscar auxílio, fazendo que se identifique e se reconheça na imagem retorcida que o agressor lhe impinge. Implica, portanto, na introjeção do desvalor que lhe é atribuído. Privação de auto estima é condição psicologicamente patológica, imobilizante e configura, portanto, em subtração de liberdade. Como são violências que ficam de forma oculta, então podem demorar a aparecer os danos, pois só será percebido quando a vítima apresentar um quadro de depressão e como conseqüência desta a vontade de morrer, baixa auto-estima, entre outros. O agressor se fortalece mais quando percebe que a mulher está com a auto-estima baixa e sem forças pra reagir. Coagidas as mulheres permanecem na situação de agredidas por muito tempo, até que procurem ajuda especializada. Violência Sexual no âmbito da violência doméstica estupro e também o atentado violento ao pudor estes são tipificados pelo Código Penal nos arts. 213 e 214. Hermann (2007, p. 111) esclarece que: É considerada conduta violenta não apenas aquela que obriga a prática ou a participação ativa em relação sexual não desejada, mas ainda a que constrange a vítima a presenciar, contra seu desejo, relação sexual entre terceiros. Da mesma forma, também é considerado como violência sexual o induzimento mediante qualquer meio que vicie sua vontade ao sexo comercial ou a práticas que contrariem a livre expressão de seus autênticos desejos sexuais, assim entendidas aquelas que não lhe tragam prazer sexual. O livre arbítrio sobre o uso de sua função e capacidade reprodutivas está igualmente protegido, sendo como atos violentos de caráter sexual aqueles que impedem acesso e uso de contraceptivos e que forçam, por tal impedimento, gravidez indesejada. No outro estremo, o aborto coagido por intervenção de terceiro é também considerado conduta violenta, assim como o constrangimento, por qualquer meio, ao casamento ou à prostituição. Como a própria Lei expõe, a violência sexual é qualquer conduta que constranja a mulher a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada. Dentro desta forma está o Inserido nessa realidade está o estupro que como citado anteriormente é considerado crime hediondo e, portanto passível de punição rigorosa. 267

268 Há ainda uma necessidade de conscientização das mulheres para que as mesmas ao vivenciarem uma situação como essas, tenham a coragem de denunciar o caso, já que por causa do grande constrangimento de expor a situação para alguém, muitas preferem não denunciar deixando seus agressores impunes. Violência Patrimonial no âmbito da violência doméstica disponibilidade da vítima, conduta próxima quando não tipicamente enquadrável à figura típica do artigo 155 do Código Penal. Destruir parcial ou totalmente compreende condutas variadas: rasgar, queimar, amassar, danificar, estragar. Como citado o art. 155 do código penal, verifica-se que o mesmo trata de furto e, portanto cometer as aberrações citadas acima é cometer furto pela Lei Penal Brasileira. Este tipo de Violência consiste no comportamento que configure atos de reter, subtrair, destruir parcial ou totalmente os seus objetos. Geralmente acontece em conjunto com outras formas de violência porque muitas vezes utilizam-se desse patrimônio para agredir de forma física ou psicológica a vítima. Assim, Hermann (2007, p. 113) explicita que: Quanto à violência patrimonial, definida no inciso IV, configura-se por qualquer ato que implique retenção, subtração, destruição parcial ou total de bens, documento, valores, direitos e recursos econômicos sobre os quais a vítima possua titularidade. Reter, no contexto, significa segurar, esconder, sonegar a entrega, conservar ilicitamente fora do alcance da vítima. Subtrair significa retirar da esfera de Violência Moral no âmbito da violência doméstica A quinta forma é a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Esta acontece acompanhada da violência psicológica devido às seqüelas deixadas. Além disso, podem-se enquadrar estas condutas pelo Código Penal, em seus arts. 138 a 140, como segue: Art Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime: Pena detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa. Art Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação: 268

269 Pena detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. Art Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou decoro: Pena detenção, de 1 (um) a 6 (seis) meses, ou multa. (VADE MECUM, 2006, p.554) Então, vê-se que existe punição para esses casos e que se deve buscar ao máximo fazer cumpri-los. A Origem da Lei Maria da Penha (Lei nº 11340/2006) Esta lei tem esse nome em homenagem a uma mulher que lutou por anos a fio com o objetivo de ver o seu agressor punido. Fala-se então de Maria da Penha Maia Fernandes, que passou 6 (seis) anos sendo agredida pelo seu então marido Marco Antonio Heredia Viveros, este tentou matá-la por duas vezes, tudo isso aconteceu por volta do ano de 1983 assim, pode-se dizer que a luta foi muito grande pois a Lei aqui comentada só surge em Qual foi o papel de Maria da Penha nessa história? Ela era casada com o Viveros, tinha três filhas, a mais nova aos dois anos e a mais velha com seis. Certa feita pelos idos de 1983, enquanto a vítima Maria da Penha dormia o seu agressor Viveros a atingiu com um tiro nas costas, depois o mesmo simulou gritos de socorro, para poder dizer que havia sido um assalto e que o assaltante teria atingido sua esposa. Por causa desse disparo, Maria da Penha foi hospitalizada e a partir daí estava tetraplégica, o que lhe faria ter uma vida inteiramente isolada. Entende-se o sofrimento de uma mulher que tinha três filhas ainda pequena para criar e a mesma já não podia mais tomar conta das mesmas, por estar em uma cadeira de rodas. Porém, não pararam as agressões por aí. Veio a segunda tentativa de assassinato. O agressor empurra a cadeira de rodas da vítima embaixo do chuveiro e tenta eletrocutá-la e afogá-la. A partir daí é que a polícia entende que o Viveros era o agressor de Maria da Penha. Sobre isso Hermann (2007, p. 17) explica: A partir de agosto de 2006, uma dessas tantas Marias entrou para a história: Maria da Penha Maia, 60 anos, mãe de três filhas, vítima emblemática da violência doméstica, fez da dor inspiração para o ativismo. Em 1983, seu ex-marido, professor universitário, tentou matá-la duas vezes. Na primeira vez a tiros; na segunda, tentando eletrocutá-la. As 269

270 marcas e seqüelas das agressões não atingiram apenas seu espírito. Marcaram-na irreversivelmente na integridade de suas funções vitais: Penha ficou tetraplégica. Nove longos anos de processo criminal resultaram na condenação de seu algoz a oito anos de prisão. Por força das normas de execução da pena, permaneceu segregado dois anos; foi libertado em A história de dor e vitimação de Maria da Penha chegou a conhecimento da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e as agressões contra sua vida foram reconhecidas oficialmente, em nível internacional, pela primeira vez na história, crimes de violência doméstica. Assim, o papel principal de Maria da Penha foi em parceria com o Centro de Justiça, o Direito Internacional e o Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa do Direito da Mulher, denunciar o caso à Comissão Interamericana dos Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) como explicita acima Hermann. Foi justamente o sentimento de impunidade que a leva a essa atitude, já que a liberdade do agressor a deixava vulnerável a novas agressões até porque o mesmo a ameaçava. A denúncia de Violência doméstica então foi acatada e em seguida o órgão recomendou ao Brasil que tomasse providências para coibir a Violência Doméstica. A partir daí somente em 2002, depois de muita pressão foi que Viveros foi preso e cumpriu dois anos de reclusão. em 1998: Segundo Freitas esse envio de denúncia a OEA só aconteceu Em 1998, o centro para a Justiça e o Direito Internacional e o Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, ao lado de Maria da Penha, enviaram o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (OEA), pela demora injustificada em não se dar uma decisão definitiva no processo. ( FREITAS, 2007, p.432). A luta a nível internacional contra a Violência Doméstica vem desde quando a Conferência das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos reconheceu se tratar de uma forma de violação desses direitos, isso ocorreu em Hoje se pode afirmar que Maria da Penha é um exemplo de luta e coragem em busca de justiça, ela serve de referencial para outras mulheres e porque não dizer que serve de referência para outras categorias que estejam necessitando travar uma luta para conseguir assegurar algum direito. A perseverança, no caso de Maria da Penha, foi o segredo para que ela chegasse até o fim e mostrasse a vitória. 270

271 Contudo, a Lei 11340/06 só foi sancionada em 7 de agosto de 2006 depois de aproximadamente seis anos de tramitação do projeto de lei que a originou. (deu origem a esta). A referida Lei tem como fundamento constitucional o art. 226, 8º, da Constituição Federal de 1988, este defende o seguinte: Art. 226: A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. 8º O Estado assegurará assistência à família na pessoa de cada um dos que integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações. (Vade Mecum, 2006, p.67). Com a aprovação desta lei as mulheres passam a sentir-se mais seguras e é claro, começou-se um caminho para a erradicação deste tipo de violência. Essa segurança parte do pressuposto de que elas agora podem fazer as denúncias contra seus agressores sem ter medo de que eles não sejam punidos. O Silêncio e os Efeitos Emocionais da Violência Doméstica Estresse, baixa auto-estima, depressão, ansiedades, disfunções sexuais, distúrbios alimentares são exemplos de doenças emocionais provocadas pela convivência com a violência doméstica. Na sua maioria ocorre porque as vítimas não têm forças para lutar contra e acabam adaptando-se à situação e como conseqüência vivenciam (têm) a falta de crença no seu próprio potencial para buscarem ajuda. O silêncio das mulheres faz persistir a violência de gênero, e mesmo assim com toda a luta em favor dos direitos humanos das mulheres ainda sobrevive esta violência por décadas e décadas, baseada numa cultura machista. CONSIDERAÇÕES FINAIS A violência doméstica é uma realidade na vida de centenas de mulheres em todo o mundo. E exatamente por ter uma origem social e cultural não se vislumbra o seu fim em um período curto. Para superar a violência doméstica vivida pelas mulheres é necessário repensar e extinguir com a cultura machista e patriarcal que existe na sociedade e que dá plenos poderes aos homens de agir sobre o corpo da mulher. 271

272 Não há dúvidas que não será uma tarefa fácil, afinal é acabar com uma tradição e cultura que tem início nas primeiras sociedades. Mas as iniciativas de combate as desigualdades e violência de gênero já existem e a Lei Maria da Penha, no caso do Brasil, é um exemplo claro disso ao tipificar como crime com todas as violências contra as mulheres, mesmo aquelas que não deixam marcas, como é o caso da violência psicológica. A aprovação dessa Lei tem provocado uma maior visibilidade dos casos de violência, pois tem estimulado a denuncia, mas também tem proporcionado o debate sobre a violência doméstica pelo conjunto de toda a sociedade que pode com isso assumir novas atitudes, práticas e julgamento a respeito da violência sofrida pelas mulheres. Portanto, para acabar com a violência contra as mulheres é preciso uma somação de esforços para que se possa (re) construir uma sociedade onde as mulheres sejam tratadas com igualdade e respeito e com plenos poderes sobre suas próprias vidas. políticas incentivadoras a denuncia surta um efeito redutor dessa grande expressão da questão social que é a violência doméstica. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA AGUIAR, Neuma. Cidadania, Concubinato e Patriarcado: Relações de gênero e direitos civis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. in: PANDOLFI, Dulce Chaves et al (org).cidadania, justiça e violência. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, BANDEIRA, Lourdes. Et. al. Violência Contra a Mulher: a experiência de capacitação das DEAMS da região centrooeste.cadernos Agende. Brasília: BARBOSA, Aline et. al. Violência Contra mulher. Revista Eletrônica. FIJAV. Ed. Especial. Lagarto, Disponível em: Acesso em: 09 de setembro 2009, 17h30minh. Brasil, Constituição (1988) 2. Emenda Constitucional, Brasil. 3. Revisão Constitucional, Brasil.I.Titulo. DIEHL, Astor Antônio; PAIM, Denise Carvalho Tatim. Metodologia e técnica de pesquisa em ciências sociais aplicadas: uma proposta de estudos. Passo Fundo: Clio, De acordo com o que foi abordado é perceptível a expansão da violência doméstica e quão é importante discutirmos e tentar reduzir esses índices devastadores. Acreditamos que através de 272

273 FILHO, Marcondes. C.O discurso sufocado. São Paulo: Loyola, GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, Ipope/Instituto Patrícia Galvao 2006.Disponivel em Acessado em: 15 de setembro de MARTINS, Gilberto de Andrade. Manual para a elaboração de monografias e dissertações. 3ª ed. São Paulo: Atlas, MACHADO, L.Z. Eficacia e Desafios das Delegacias Especializadas no atendimento às mulheres: o futuro dos direitos à não-violência. Brasília: Lei Maria da Penha. Lei nº ,de 7 de agosto de 2006 Coíbe a violência doméstica e familiar contra a mulher. Brasília,

274 A GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS SOCIAS E PSICOSSOCIAIS FRENTE À QUESTÃO FAMILIAR NO BRASIL RESUMO Aline Rezende Melo Geiziane Oliveira Amorim Fonseca Geiziellen Oliveira Amorim Ricardo Jesus dos Santos 55 Roberta dos Santos Góis Nos dias atuais nos deparamos com o constante crescimento de casos de gravidez na adolescência. Apesar de já haver programas e políticas educacionais de orientação dos jovens, o problema tende a cada vez mais abrangente e critico. O presente artigo visa discutir aspectos do relacionamento familiar no que diz respeito a problemática da gravidez na adolescência, analisando a estrutura psicossocial do adolescente, identificando as conseqüências sociais e verificando a situação socioeconômica. Palavras- chave: Gravidez na Adolescência. Família. Sociedade. ABSTRACT Nowadays we are faced with the ever-increasing cases of teenage pregnancy. Although there are already programs and educational policies guiding young people, the problem tends to increasingly comprehensive and critical. This article aims to discuss aspects of family relations as regards the problem of teenage pregnancy, analyzing the structure of adolescent psychosocial, identifying the social and checking the socioeconomic situation. Keywords: Adolescent pregnancy. Family. Society. O ser humano, no decorrer da vida, passa por transformações, independente da idade: a criança, o jovem, o adulto e o idoso, cada um a seu modo, experimentam mudanças. No entanto, existem certas épocas nas quais as modificações que ocorrem em nossos corpos e mentes, nos nossos relacionamentos e compromissos, são particularmente importantes e rápidas. Nestas, certamente situam-se a gravidez e a adolescência. 55 Os Atores deste artigo são acadêmicos do Curso de Bacharelado em Serviço Social da Faculdade José Augusto Vieira (FJAV) - Lagarto/SE. A experiência da gravidez, por exemplo, afeta de modo profundo e completo a vida das mulheres que a vivenciam, modificando-a definitivamente. A fase da adolescência, entre os 10 e 19 anos, é também um momento especial de mudanças em suas 274

275 vidas, tanto de ordem orgânica (mudanças na estrutura física) e psíquica (mudanças no pensamento e forma de ver e interpretar o mundo que o rodeia). No contexto atual, os meninos e meninas entram na adolescência cada vez mais cedo. Quando se iniciam os processos da ejaculação e da menstruação indicam que eles estão começando a sua vida fértil, isto é, que chegaram àquela fase da vida em que são capazes de procriar. As mudanças tanto físicas como psíquicas evoluem de forma que nem sempre nos damos conta. Entretanto, essa é uma fase de dubiedades: num momento, o jovem pode tornar-se mais sonhador ou independente e arrojado, passando a querer experimentar novas possibilidades e vivências; noutro, fica encabulado e retraído, sensível ou agressivo Ao mesmo tempo em que se sente frágil e inseguro, pode achar que não precisa de ninguém; ao mesmo tempo em que se vê retraído, acha-se capaz de tudo; apesar de temer o mundo, acredita que nada pode lhe acontecer. Muitos começam a trabalhar e a experimentar, cedo, um início de independência material. Outros, trabalhando ou não, procuram, através dos estudos, um encaminhamento para a vida profissional, assim construído um projeto de futuro e de vida, como também, traços de personalidade. Ao construir personalidade própria, o jovem geralmente se distancia da família, procurando maior autonomia. Com isso, sua vida social se modifica: passa a preferir a companhia de outros adolescentes, recusando a dos pais e irmãos. Os amigos de mesma idade passam a ser as pessoas mais importantes. Começa a vestirse de acordo com o figurino do grupo, a falar a sua linguagem, a freqüentar lugares diferentes, a chegar mais tarde em casa, ou seja, modifica sua rotina, tornando-se autônomo e crítico com relação a modelos e conselhos de outrem. A adolescência quase nunca é vivenciada com simplicidade e tranqüilidade. Freqüentemente, é um momento instável. Os sentimentos do jovem não são mais como os da criança, tampouco como os do adulto, o que muitos denominam de irreverência. A maior parte dos adolescentes não conversa com os adultos porque acham que todos sabem o que estão pensando; outros, falam muito e reclamam que ninguém lhes escuta. Por tudo isso, a adolescência é um dos momentos mais especiais na evolução de cada pessoa e, portanto, exige atenção muito especial. 275

276 No entanto, podemos facilmente imaginar como deve ser difícil enfrentar a adolescência e a gravidez, quando ocorrem ao mesmo tempo: como se complica a vida de uma jovem que descobre estar grávida justamente quando passa por todas as transformações dessa fase; as preocupações de um jovem adolescente ao descobrir que vai se tornar pai. Essas situações estão, hoje em dia, ocorrendo cada vez mais freqüente tanto no Brasil como no mundo. Pesquisas divulgadas pelo Ministério da Saúde e pela Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional USAID mostram dados alarmantes sobre o comportamento dos adolescentes: no tocante à precocidade das relações sexuais, entre 1986 e 1996 dobrou o número de jovens que teve sua primeira relação sexual entre os 15 e os 19 anos; enquanto o número médio de filhos de mulheres adultas vem caindo há décadas, a taxa de fecundidade entre adolescentes está em crescimento constante; anualmente, 14 milhões de adolescentes no mundo tornam-se mães e 10% dos abortos realizados são praticados por mulheres entre 15 e 19 anos. Diante desta realidade já tem se estruturado vários estudos sobre a temática, embora estes não sejam estanques, necessitando que a cada dia novos estudos surjam discutindo a temática. Neste sentido, torna-se se relevante abrir algumas reflexões acerca do tema para que se possa cada vez mais ter a compreensão e clareza do problema, para poder intervir de forma consciente e equilibrada no âmbito social. Nesta perspectiva, o presente trabalho tem por objetivo discutir os aspectos do relacionamento familiar no que diz respeito à problemática da gravidez na adolescência, analisando a estrutura psicossocial do adolescente, identificando as conseqüências sociais e verificando a situação socioeconômica. O estudo têm como metodologia a pesquisa bibliográfica exploratória qualitativa que segundo Marconi e LaKatos (2003),... a pesquisa bibliográfica não é mera repetição do que já foi dito ou escrito sobre certo assunto, mas propicia o exame de um tema sob novo enfoque ou abordagem, chegando a conclusões inovadoras (2003 P. 183). Para Gil (2006), a pesquisa bibliográfica: é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. No que se refere à pesquisa exploratória ressalta 276

277 que:... objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. A GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA atitudes de rebeldia, buscar grupos menores ou até marginalizados que a compreendam tentar soluções mágicas para seus problemas, criar juízos de valor e desprezar o que os adultos lhe impuseram e por isso desenvolver atitudes agressivas com aqueles à sua volta. A gravidez na adolescência provoca mudanças em vários níveis: individual, familiar e social. Sabe-se que as adolescentes engravidam mais e mais a cada dia e em idades cada vez mais precoces, segundo dados do Ministério da Saúde em Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), demonstra que: no Brasil, a gravidez entre os 15 e 19 anos cresceu, em 1996 demonstrou que 14% das mulheres nesta faixa etária tinham pelo menos um filho e que as jovens mais pobres tinham mais filhos do que as de melhor nível sócio-econômico. Observou-se um aumento no percentual de partos de adolescentes de anos atendidas pela rede do SUS e, também, de curetagem pós-aborto. Segundo Duarte (2002, p.8), A gravidez na adolescência não é um episódio, é parte do processo de busca de identidade, procura na qual a adolescente pode ter dificuldades em relação ao espaço e ao tempo, e que a faz assumir A Gravidez na adolescência não é um fato isolado. Faz parte de um processo sócio cultural. Nesta situação, a adolescente grávida quase sempre se depara com dificuldades de adaptação no meio em que vive, dificuldades estas relativas ao seu comportamento, rebeldia e relacionamento com grupos que não pertencem no seu ciclo de amizades. Uma forma de se contrapor aos seus familiares e a outras pessoas. De acordo com estudos do Ministério da Saúde, a gravidez deixou de ser uma ocorrência causal, para ser um fato preocupante, exigindo que os mesmos criem novas formas de intervenção e prevenção a essa população jovem. As adolescentes quando grávidas comprometem etapas de seu desenvolvimento, da passagem da infância para a idade adulta. São acometidas de transições abruptas, de menina mulher para mulher mãe. 277

278 Criando, às vezes, uma situação conflitiva, que quase sempre deixa marcas profundas em suas vidas. A gravidez na adolescência tem sérias implicações biológicas, familiares, emocionais e econômicas, além das jurídico-sociais, que atingem o indivíduo isoladamente e a sociedade como um todo, limitando ou mesmo adiando as possibilidades de desenvolvimento e engajamento dessas jovens na sociedade. A adolescência é um período de vida que merece atenção, pois esta transição entre a infância e a idade adulta pode resultar ou não em problemas futuros para o desenvolvimento de um determinado indivíduo. O desabrochar sexual é definido como um processo formado de inúmeras experiências durante a adolescência, por meio do qual uma pessoa torna-se consciente de si própria como um ser sexual, um homem/uma mulher, que se relaciona consigo próprio ou com outros sexualmente, de algumas formas características. (OLIVEIRA,1992) O Estatuto da criança e do adolescente, também conhecido como ECA (1988), indica que adolescência constitui a faixa etária que vai de 12 a 18 anos. Esta importante legislação brasileira é lei 8.069, de 13 de julho de 1990 e um dos vários desdobramentos dos direitos sociais que a população brasileira conquistou a partir da constituição de A organização Mundial de Saúde define esta fase do desenvolvimento humano com aquela relativa ao segundo decênio da vida, ou seja, dos 10 aos 19 anos de idade. Este conceito é definido tendo como base a passagem das características sexuais secundárias para a maturidade sexual, a evolução dos padrões psicológicos, juntamente com a identificação do individuo que evolui da fase infantil para a adulta e a passagem do estado de total dependência para o de relativa independência (OMS, 1975) No entanto essa fase da vida humana nunca foi bem clara durante a história, pois no período da Idade Média, diferente do tempo atual, não se sabia concretamente a sua idade, era como algo impreciso e ao mesmo tempo místico como se pode perceber na citação de ARIÈS (1981 P.30): Na idade média, o primeiro nome já fora considerado uma designação muito imprecisa, e foi necessário completá-lo por um sobrenome da família, muitas vezes um nome de um lugar. Agora, 278

279 tornou-se conveniente acrescentar uma nova precisão, de caráter numérico a idade. O nome pertence ao mundo da fantasia, enquanto o sobrenome pertence ao mundo da tradição. A idade, quantidade legalmente mensurado com uma precisão quase de horas, é um produto de um outro número, o da exatidão do número. Como se pode perceber no período medieval não se tinha certeza da precisão do próprio nome, isso dificulta cada vez mais saber como essa categoria de adolescente fora construído durante o tempo. Primeiro no período medieval não se sabia com exatidão o dia do nascimento, isso dificultava saber qual a idade que cada pessoa tinha diferente do que ocorre atualmente. Hoje as crianças e os adolescentes sabem qual a data do seu nascimento, qual a sua idade, algo que não acontecia no período medieval, por não ter certo controle exato da natalidade, e isso dificultava um pouco saber a data de nascimento. A gravidez é uma fase da vida que não depende da idade da mulher (Sarmento, 1990), pode ocorrer a qualquer momento desde que haja as condições fisiológicas e ambientais apropriadas para propiciá-la. Durante anos, em todo o mundo, atribuiu-se demasiada importância à fertilidade, evitando-se a esterilidade, pois ter filhos era a maneira do casal prevenir-se da velhice e transmitir o seu nome (Ramos & Cecílio, 1998). Biologicamente a gravidez pode ser definida como o período que vai da concepção ao nascimento de um indivíduo. Entre os animais irracionais trata-se de um processo puro e simples de reprodução da espécie. Entre os seres humanos essa experiência adquire um caráter social, ou seja, pode possuir significados diferenciados para cada povo, cada cultura, cada faixa etária. A atividade sexual na adolescência vem se iniciando cada vez mais precocemente, quando a atividade sexual tem como resultante a gravidez, gera conseqüências tardias e em longo prazo, tanto para a adolescente quanto para o recém-nascido. A adolescente poderá apresentar problemas de crescimento e desenvolvimento, emocionais e comportamentais, educacionais e de aprendizado, além de complicações da gravidez e problemas de parto. A família como expressão máxima da vida privada é lugar da intimidade, construção de sentidos e expressão de sentimentos, onde se exterioriza o sofrimento psíquico que a vida de todos põe e repõe. É percebida como nicho afetivo e de relações necessárias à socialização dos indivíduos, que assim desenvolvem o sentido de 279

280 pertença a um campo relacional iniciador de relações includentes na própria vida em sociedade. É um campo de mediação imprescindível. (ACOSTA & VITALLE, 2008). No geral, o conceito de família é polissêmico. Restritamente, refere-se ao núcleo familiar básico e, amplamente, ao grupo de indivíduos vinculados entre si por laços consangüíneos, consensuais, jurídicos ou afetivos, que constituem complexas redes de parentesco e de apoio atualizadas de forma episódica, por meio de intercâmbios, cooperação e solidariedade, com limites que variam no que se refere à cultura, região e classe social (Falcão et al.[/sertitle], 2006). Portanto, verifica-se que o conceito de família é uma elaboração ideológica e social, e que fracassará qualquer tentativa de defini-la como uma instituição delimitada, com características universais (Carbonari, 2001). Guimarães (2001) aborda algumas conseqüências psicossociais da gravidez na adolescência. São elas: limitação de oportunidades vocacionais, estudo interrompido, persistência na pobreza, separação dos pais do bebê e repetição da gravidez. Afirma também que a gravidez na adolescência deve ser compreendida através de uma visão multidisciplinar, considerando os aspectos antropológicos, biológicos e psicossociais. A gravidez é uma fase do desenvolvimento da mulher que envolve uma série de mudanças que implicam uma vivência tanto individual como grupal e familiar; o mesmo processo ocorre com a adolescência, que redimensiona não só o indivíduo, como todo o meio ao seu redor. REPERCUSSÕES DA GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA A adolescência caracteriza-se por ser um período de descoberta do mundo, dos grupos de amigos, de uma vida social mais ampla. Assim, a gravidez pode vir a interromper, na adolescente, esse processo de desenvolvimento próprio da idade, fazendo-a assumir responsabilidades e papéis de adulta antes da hora, já que dentro em pouco se verá obrigada a dedicar-se aos cuidados maternos. O prejuízo é duplo: nem adolescente plena, nem adulta inteiramente capaz. A adolescência é também uma fase em que a personalidade da jovem está se formando e, por isso mesmo, é naturalmente instável. Se for fundamental que a mãe seja uma 280

281 referência para a formação da personalidade de seu bebê, os transtornos psíquicos da mãe poderão vir a afetar a criança. Ao engravidar, a jovem tem de enfrentar, paralelamente, tanto os processos de transformação da adolescência como os da gestação. Isto, nesta fase, representa uma sobrecarga de esforços físicos e psicológicos tão grande que para ser bem suportada necessitaria apoiar-se num claro desejo de tornar-se mãe. Porém, geralmente não é o que acontece: as jovens se assustam e angustiam-se ao constatar que lhes aconteceu algo imprevisto e indesejado. Só este fato torna necessário que seja alvo de cuidados materiais e médicos apropriados, de solidariedade humana e amparo afetivo especiais. A questão é que, na maioria dos casos, essas condições também não existem. Na maioria das vezes, a dificuldade de contar o fato para a família ou até mesmo constatar a gravidez faz com que as adolescentes iniciem tardiamente o pré-natal o que possibilita a ocorrência de complicações e aumento do risco de terem bebês prematuros e de baixo peso. Além disso, não é raro acontecer, em seqüência, uma segunda gravidez indesejada na jovem mãe. Daí a importância adicional do pré-natal como fonte segura de orientação. A experiência de concomitamente viver a própria adolescência, cuidar da gestação e, mais tarde, do bebê, não é tarefa fácil. E a vida torna-se ainda mais difícil para a adolescente grávida que estuda e trabalha. Igualmente, essa situação não difere com relação ao jovem adolescente que se torna pai: ele se vê envolvido na dupla tarefa de lidar com as transformações próprias da adolescência e as da paternidade, que requerem trabalho, estudo, educação do filho e cuidados com a esposa ou companheira. A TRAJETÓRIA CRESCENTE DE GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA Contrair uma gravidez precoce antigamente, podia-se pensar que era por falta de informação. Mas hoje todos sabem que existem muitos métodos para evitar a gravidez. Eles são acessíveis, baratos e podem ser ampla e facilmente utilizados pelos jovens. De fato, os adolescentes têm o acesso facilitado às pílulas anticoncepcionais, ao diafragma, à camisinha... Os meios de comunicação e as escolas fazem freqüentes campanhas de esclarecimento. Os serviços de saúde estão à disposição para 281

282 prestar informações. No entanto, as estatísticas brasileiras demonstram que apenas 14% das jovens de 15 a 19 anos utilizam métodos contraceptivos; e somente 7,9% delas, a pílula. O problema é que, muitas vezes, os jovens pensam ou dizem saber tudo sobre sexo, e não sabem. Pode ser que não tenham informações corretas ou que não saibam como aplicá-las às suas vidas, ou que seus pais achem que eles já estão suficientemente esclarecidos e não mais precisam de informação ou conversa sobre um assunto que ainda traz certo constrangimento. E, principalmente, pode ser que os jovens, embora saibam das coisas, acreditem que com eles nada acontecerá. Por outro lado, fica evidente que os jovens são muito imediatistas. Ante a possibilidade de fazer sexo, sobretudo quando esperaram muito por isso, não pensam nas conseqüências: valem-se do desejo imediato, ignorando os resultados. Nem toda gravidez precoce e não planejada é uma história sem final feliz. Mas, infelizmente, tudo acabar bem é uma exceção à regra. Há muitos casos em que a menina, para atrair sobre si a atenção ou o afeto da família e dos amigos, ou para segurar o namorado, engravida. Ora, as carências afetivas devem ser consideradas seriamente, e com certeza uma gravidez prematura não é a melhor solução. Além disso, filho não tem o poder de segurar namorado, nem de produzir casamentos felizes e duradouros. Se o relacionamento do casal estiver ruim, dificilmente um bebê facilitará as coisas, pelo contrário. Considera-se, ainda outro aspecto: que muitas vezes uma jovem desamparada, que não desfrute de uma condição de vida digna, pode pensar que se tornando mãe se libertará da miséria e obterá o respeito das pessoas. Esta idéia baseia-se na crença de que a sociedade tende a valorizar a figura da mãe e a ter maior consideração pelas gestantes. Mesmo que exista um pouco de verdade nisto, logo a jovem se verá em situação ainda pior: terá de trabalhar e cuidar do filho em condições adversas, e a maternidade, ao invés de premiá-la com os benefícios esperados, só lhe trará mais dificuldades e responsabilidades. Finalmente, é preciso dizer que significativo número da gravidez de adolescentes decorre do uso da violência, força ou constrangimento. Em geral, resulta de estupro - a realização de ato sexual à força - ou de incesto, isto é, a relação com familiar próximo, como o pai, tio ou irmão. Nas situações de violência, o trauma 282

283 psicológico geralmente é intenso. Mais do que ninguém, elas precisam de amparo e proteção especiais. Para essas situações de risco, amparadas explicitamente pela lei, é permitida a realização do aborto legal, com atendimento pela rede do Sistema Único de Saúde. ESTRUTURA FAMILIAR O termo família é derivado do latim famulus, que significa escravo doméstico. Este termo foi criado na Roma Antiga para designar um novo grupo social que surgiu entre as tribos latinas, ao serem introduzidas à agricultura e também escravidão legalizada. No direito romano clássico a "família natural" cresce de importância - esta fámília é baseada no casamento e no vínculo de sangue. A família natural é o agrupamento constituído apenas dos cônjuges e de seus filhos. A família natural tem por base o casamento e as relações jurídicas dele resultantes, entre os cônjuges, e pais e filhos. Se nesta época predominava uma estrutura familiar patriarcal em que um vasto leque de pessoas se encontrava sob a autoridade do mesmo chefe, nos tempos medievais (Idade Média), as pessoas começaram a estar ligadas por vínculos matrimoniais, formando novas famílias. Dessas novas famílias fazia também parte a descendência gerada que, assim, tinha duas famílias, a paterna e a materna. Com a Revolução Francesa surgiram os casamentos laicos no Ocidente e, com a Revolução Industrial, tornaram-se frequentes os movimentos migratórios para cidades maiores, construídas em redor dos complexos industriais. Estas mudanças demográficas originaram o estreitamento dos laços familiares e as pequenas famílias, num cenário similar ao que existe hoje em dia. As mulheres saem de casa, integrando a população activa, e a educação dos filhos é partilhada com as escolas. Na cultura ocidental, uma família é definida especificamente como um grupo de pessoas de mesmo sangue, ou unidas legalmente (como no casamento e na adoção). A família vem-se transformando através dos tempos, acompanhando as mudanças religiosas, económicas e sócioculturais do contexto em que se encontram inseridas. Esta é um espaço sócio-cultural que deve ser continuamente renovado e reconstruído; o conceito de próximo encontra-se realizado mais que 283

284 em outro espaço social qualquer, e deve ser visto como um espaço político de natureza criativa e inspiradora. Engels em seu livro Origem da família da propriedade privada e do estado, faz uma ligação da família com a produção material, utilizando do materialismo-hitórico-dialético, relacionou a monogamia como "propriedade privada da mulher". Deste modo, (...) a família constitui o primeiro, o mais fundante e o mais importante grupo social de toda a pessoa, bem como o seu quadro de referência, estabelecido através das relações e identificações que a criança criou durante o desenvolvimento (VARA, 1996; p. 8), tornando-a na matriz da identidade. Pode-se perceber que a gravidez na adolescência traz consigo marcas as quais carregaram para o resto de sua vida. O problema é tanto psicológico, emocional, estrutural e principalmente familiar. Vê que na nossa realidade hoje isso acontece naturalmente, pois adolescentes começa sua vida sexual muito cedo, deixando seus estudos para viverem em um mundo de fantasias, onde passam de menina adolescente para mãe adolescente. Segundo Donas, a gravidez, na adolescência, traz vários efeitos sociais negativos, como perda de oportunidades educacionais, de trabalho e de redução de chances de um casamento feliz, e ainda com limitações de oportunidade. Também ocorrem efeitos psicológicos associados ao conflito emocional, educacional e familiar frente à situação da maternidade. COMO LIDAR COM O PROBLEMA NOS DIAS ATUAIS Em plena era da informação não vale a pena engravidar por distração ou ignorância. As informações técnicas são importantes e devem continuar a ser oferecidas às crianças que estão entrando na adolescência, e aos jovens. Os programas de educação sexual transmitidos pelas escolas vêm cumprindo papel fundamental, já que permitem o diálogo e a circulação de informações sobre a sexualidade. Os meios de comunicação e as campanhas publicitárias também têm abordado com freqüência esse assunto, particularmente visando à prevenção das doenças sexualmente transmissíveis. 284

285 O sistema público de saúde deverá desenvolver políticas e programas especiais e colocá-los à disposição dos jovens, para informá-los e cuidar deles, se necessário. Os adolescentes não precisam sentir vergonha. Além de ser um direito, os profissionais de saúde têm prazer em recebê-los e, através dos serviços oferecidos, possibilitarem-lhes informação a respeito dos vários métodos anticoncepcionais existentes. No entanto, dar apenas informações técnicas aos jovens não basta. É muito importante que também sejam orientados em casa, na família. É essencial que possam fazer perguntas, conversar com amigos e parentes mais velhos e se aconselhar quanto à escolha do melhor método anticonceptivo. O importante é que falem e sejam ouvidos. Esse canal de comunicação precisa ser criado e mantido, tanto com a filha, desde sua primeira menstruação, quanto com o filho. Por isso, há também necessidade de discussões com as famílias a respeito da temática, nos núcleos de saúde da família, sempre promovendo encontros, palestras e conversando para que estes se comuniquem com seus filhos de forma mais sabia e tranqüila. A superação das dificuldades de comunicação e diálogo entre os pais e os filhos pode ajudar em muito a diminuir a ocorrência da gravidez indesejada entre adolescentes. Os pais precisam esforçarse para deixar de lado o medo de ser taxados como caretas, autoritários, ou de serem acusados de estar invadindo a vida pessoal de seus filhos. Conversando e orientando-os não apenas sobre reprodução e sexualidade humana, mas também sobre valores como afeto, amizade, amor, intimidade e respeito ao corpo e à vida, permitirão que se sintam mais preparados para assumir as alegrias e responsabilidades inerentes à vida sexual. Portanto, deve se implementar um conjunto de ações envolvendo os órgãos públicos de saúde e educação e as famílias visando deixar cada vez mais claro para os jovens e adolescentes os riscos e conseqüências de uma gravidez indesejada nesta fase da vida humana. 285

286 CONCLUSÃO A adolescência é uma fase do ser humano em que se passa por algumas mudanças tanto de natureza física e orgânica como de natureza psicológica. O adolescente se vê diante de novos desafios e assim começa a estruturar a sua personalidade. Devido estar vivenciando esta dinâmica em seu cotidiano, não seria interessante acrescer um problema, a gravidez precoce, conturbando mais ainda a sua vida, tanto na situação de mãe ou de pai, que terão de assumir novos papéis sociais, sem se quer estar com a maturação necessária para sua própria vida social. Diante da situação se faz necessário que os entes público de serviço social, saúde e educação desenvolvam estratégias elucidativas e explicativas sobre a questão da gravidez na adolescência, objetivando esclarecer e instrumentalizar o jovem para uma vida mais tranqüila e saudável nas relações que estabelecem com seus parceiros no âmbito social. No entanto, dar apenas informações técnicas aos jovens não basta. É muito importante que também sejam orientados em casa, na família. O diálogo entre os pais e os filhos pode ajudar em muito a diminuir a ocorrência da gravidez indesejada entre adolescentes. Portanto, é necessário que se conjuguem, esforços da sociedade e família procurando possibilitar esclarecimentos e qualidade de vida para esse segmento de indivíduos que estão procurando se firmar enquanto cidadãos ativos e participantes da vida social. REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO ARIÈS, Philippe. História da Vida Privada 3 Da Renascença ao Século das luzes. São Paulo: Editora Companhia de Letras, História Social da Criança e da Família. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara,1981. BOCARDI, Maria Inês Brandão. Gravidez na Adolescência: O Parto Enquanto Espaço do Medo. 1. ed. Marília: UNIMAR, GIL, Antonio Carlos. Como elaborar Projetos de Pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas,

287 GALVÃO L, DÍAZ J. Saúde Sexual e Reprodutiva no Brasil. Editora Hucitec Population Concil, 1999, 389p. GROSAMAN E. Adolescência através dos tempos. Adolesc Latinoam LAKATOS. Eva Maria. Fundamentos de metodologia cientifica. Ed. Atlas, 6 ed. São Paulo, MAIA Filho NL, NEDER M. Gravidez na adolescência três décadas de um problema social crescente. Revista GO Atual, MONTEIRO D. M. Cunha A, Bastos A C. Gravidez na Adolescência. São Paulo, Revinter, SCHOR N, Mota MSFT, Branco VC (ONGs.). Cadernos Juventude Saúde e Desenvolvimento. Ministério da Saúde - Secretaria de Políticas de Saúde, Brasília,

288 HISTÓRIA O MUNICÍPIO DE RIACHÃO DO DANTAS - SE: nas visões histórica, geográfica e econômica Jeferson Augusto da Cruz 56 Elenaldo Fonseca de Oliva Júnior 57 Marcel de Jesus Oliveira 58 Orientador: Prof.Doutorando Fernando José Ferreira Aguiar ABSTRACT The intention of this article show a characterization of the municipality of Riachão do Dantas, located in the southern state of Sergipe and the valley of the Piauí river s, through three perspectives: namely, a historical, guiding the events that happened in that city from its founding until the present day, another situation, with emphasis on human and natural frames and economic order, reporting on the economy and sustainability of the municipality. KEY-WORDS: Riachão do Dantas. Territory. Economy. RESUMO Pretende-se com este artigo mostrar uma caracterização do município de Riachão do Dantas, localizado no centro sul do estado de Sergipe e sobre o vale do Rio Piauí, através de três visões: a saber: uma histórica, norteando os fatos que aconteceram no referido município desde sua fundação até os dias atuais, outra geográfica, com ênfase nos quadros humano e natural e por fim a econômica, relatando a base da economia e sustentabilidade desse município. PALAVRAS-CHAVE: Riachão do Dantas. Território. Economia. 56 Acadêmico do 6º período do Curso de Licenciatura em História da Faculdade José Augusto Vieira FJAV Acadêmico do 5º período do Curso de Licenciatura em Geografia da Faculdade José Augusto Vieira FJAV Acadêmico do 4º período do Curso de Bacharelado em Ciências Contábeis da Faculdade José Augusto Vieira FJAV. 1 INTRODUÇÃO Muito são os trabalhos relacionados com a História Regional ou Local (José D Assunção Barros, Ana Maria Leal Almeida, Miridan Britto Falci, Felisbelo Freire, Arivaldo Fontes), porém esses estudos são voltados apenas para a parte histórica, deixando de lado outras searas como a economia, geografia, demografia entre outras. Para conhecer todo processo histórico de um determinado local, é necessário primeiro conhecer a sua constituição geográfica, 288

289 pois através da mesma, saberemos os fatores que contribuem para a formação econômica, social e quiçá até cultural. O papel da geografia consiste em focalizar a região trabalhada analisando seu contexto histórico local e fatores geográficos que incidem sobre o mesmo. O presente trabalho pretende mostrar o município de Riachão do Dantas em três visões primordiais: histórica, geográfica e econômica, pois as três constituem um processo de caracterização que se equacionam e resultam em uma História Regional. Por fim, esse artigo elucida o papel da Religião Católica Romana na edificação da antiga freguesia de Nossa Senhora do Amparo de Riachão, as atuações políticas e a situação atual. Também está contido a composição geográfica do município, sua bacia hidrográfica, seu quadro natural juntamente com o humano. Encerrando com a economia, que desde o século de XIX é agrícola e seu comércio não é uma forte sustentação econômica e orçamentária, pois o município está ligado ao comércio de outras cidades vizinhas e depende do FPM (Fundo de Participação dos Municípios). 2 VISÃO HISTÓRICA Com a colonização de Sergipe em 1590, através da expedição militar liderada por Cristovão de Barros, as terras onde hoje se encontra o município de Riachão do Dantas começaram a serem exploradas. O povoamento da Capitania de Sergipe se iniciou nas bacias dos rios Real e Piauí, esse último nasce na Serra das Aguilhadas, na região de Palmares (Antiga Fazenda pertencente aos frades carmelitas que hoje faz parte do território do município de Riachão do Dantas) devido a essa estratégia colonizadora, as terras riachãoenses já possuem seus primeiros sesmeiros em 1596, que de acordo com Felisbelo Freire 59 foram Domingos Fernandes Nobre, Antônio Gonçalves de Santana e Gaspar Menezes, todos eles receberam terras no vale do rio Piauí. Apesar da colonização do território riachãoense ter sido preconizada seis anos após a conquista e colonização do território sergipano, o povoamento inicial das terras onde se encontram hoje o município não deu origem a conglomerados urbanos. Segundo ALVES (1959): 59 Ver em FREIRE, Felisbelo. História Territorial de Sergipe. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe/SEC/FUNDEPAH, P

290 A região (...) permaneceu até o início do século XIX, como zona de propriedades de criação de gado ou de engenhos de açúcar, sem aparecimento de aglomerados humanos com formas de vida em comum. (ALVES, P. 422) Através desse fragmento, percebemos que as sesmarias, quando passavam pelo processo de doação, se tornavam fazendas para criação de gado e engenhos de açúcar. Entre as grandes fazendas podemos elencar a de Palmares, que pertencia aos frades da Ordem Carmelita 60, e a de Maria Samba 61. Entre os engenhos destacamos o do Riachão (mais tarde Salgado) e o São José da Fortaleza 62. O modelo colonizador implantado em Sergipe explica a ausência de centros urbanos que segundo PASSOS SUBRINHO (1987): Era uma área parcamente povoada, tendo como principais atividades econômicas a lavoura de subsistência e a pecuária extensiva, que abasteciam a próspera região dos engenhos. (PASSOS SUBRINHO, P. 17) 60 Ver em BESEN, José Artulino. Brasil: 500 anos de evangelização. São Paulo: Mundo e Missão, Maria Samba é o nome de uma fazenda localizada na região serrana do município de Riachão do Dantas, onde hoje está o Povoado Bomfim e servia de ponto de parada para os funcionários LIMA JÚNIOR, Francisco A. de Carvalho. História dos Limites entre Sergipe e Bahia. Aracaju: Imprensa Oficial, O Antigo Engenho São João do Fortaleza, diferentemente do Engenho Riachão, ficava situado a 8 Km da sede do município, após a decadência canavieira, o Fortaleza foi convertido em uma Fazenda para criação de gado. diz: Corroborando com Passos Subrinho, FIGUEIREDO (1977) nos Por mais de um século, Sergipe significou currais de gado, meios de subsistência e campos de criação complementares para a lavoura canavieira da Bahia. (FIGUEIREDO, p.21) Outro fator que pode contribuir para o retardamento da povoação nas terras riachãoenses são as vias de comunicação, que naquela época havia uma grande deficiência em sua estrutura, ALVES (1959) complementa: Com escassas e poucos freqüentadas vias de comunicação, os terrenos daquela zona permaneceram isolados por mais de um século do contato com centros civilizados, não permitindo o aparecimento do comércio na sua forma de ação coletiva, que é o verdadeiro e autêntico criador e fomentador de cidades. (ALVES, p. 423) Portanto, após anos de colonização baseado na estrutura fundiária, algumas áreas de criação de gado vão se transformar em núcleos populacionais, inclusive a Fazenda Riachão, pertencente a 290

291 João Martins Fontes 63 que é a origem da cidade de Riachão do Dantas. O início da povoação que deu origem a sede do atual município de Riachão do Dantas, foi originária do começo do século XIX. As terras pertenciam a João Martins Fontes margens do riacho Limeira. Nas terras da Fazenda Riachão, João Martins Fontes ergueu uma capela dedicada a Nossa Senhora do Amparo, porém o mesmo ainda habitava no engenho Campo da Barra, em Itabaianinha; todavia antes do ano de 1836, mudou-se para o Riachão. De acordo com REIS (1949): Ao redor da capela, foram construídas as primeiras moradas, foi aumentando o povoado com a situação e plantação de sítios e edifícios dos primeiros engenhos da circunvizinhança. (REIS, p. 6) Para entendermos melhor sobre o surgimento de uma povoação ao redor de uma igreja católica, CRUZ (2009) nos apresenta uma das características que dá início à formação de núcleo populacional no período do Brasil Colônia, algo que vigorou também nos primeiros anos do Brasil Império com o surgimento e formação das vilas nesse período: No centro da praça da cidade, estava erguida a Igreja Católica Colonial, símbolo do fervor religioso dos portugueses. O templo inicialmente era rústico, mas depois ganhava detalhes ricos que demonstravam o poder e a opulência do Estado Colonial juntamente com a religião Católica Apostólica Romana. (CRUZ, p. 03) 63 Fazendeiro e político da Vila do Lagarto, João Martins Fontes nasceu em Era filho do Capitão-mor das Ordenanças Antônio Martins Fontes e D. Mariana Brandão de Barros. Logo cedo se iniciara nos cargos de governança do município. Ocupou por diversas vezes a função de Juiz Ordinário Presidente da Câmara. Também foi vereador da cidade de São Cristóvão, capital da Província. Possuía diversas propriedades: o engenho Barra e as fazendas Pé de Serra, Riachão e Maria Preta. Na fazenda Riachão mandou construir a casa de oração dedicada a Nossa Senhora do Amparo. Com a idade avançada veio residir nesta fazenda. Aí faleceu a 7 de julho de A grande maioria dos núcleos de povoação no Brasil desde a Colônia até o Império surgiu ao redor de um templo católico, não poderia ser diferente na província de Sergipe e nem tão pouco na Vila do Riachão. Com o início da povoação ao redor da Capela dedicada a Virgem do Amparo, começam também a surgir os primeiros sítios e 291

292 engenhos vizinhos, com isso o povoado foi aumentando e em 1848 foi criada uma cadeira de primeiras letras para as meninas, embasada na Resolução Provincial nº 221, de 22 de maio. Em 1854, foi criado o distrito de subdelegacia 64. Devido à morte de João Martins Fontes, os seus herdeiros doaram a Nossa Senhora do Amparo, a capela e as terras onde a mesma estava situada, porém a singela igreja deveria ser elevada a matriz. A doação das terras ocorreu na Vila do Lagarto, cuja jurisdição pertencia às terras do Riachão, foi datada em 28 de abril de Além das terras: Os herdeiros comprometiam-se, caso a renda do terreno não fosse suficiente, a doar a quantia anual de 24$000 até a dita capela passar à categoria de matriz. (SANTOS, p. 35) Depois da doação das terras ao patrimônio paroquial, a Riachão do Dantas foi elevada a Freguesia de Nossa Senhora do 64 Ver em FONTES, Arivaldo Silveira. Riachão do Dantas: os primeiros tempos. As origens. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, Nº 27. P. 77. Amparo do Riachão, isso ocorreu através da Resolução nº 419, de 27 de Abril de A referida resolução foi sancionada pelo então presidente da Província de Sergipe, Inácio Joaquim Barbosa. De acordo com ANDRADE JÚNIOR (2000), a freguesia de Nossa Senhora do Amparo, surge em um contexto em que: Visando um melhor atendimento [da] crescente população, a Igreja expandiu suas unidades eclesiásticas, desmembrando gradativamente as extensas freguesias dos primeiros séculos de colonização que não atendiam satisfatoriamente a crescente clientela. [Isto significa que] a criação de freguesias [vincula-se] com o surgimento e desenvolvimento das povoações sergipanas. (ANDRADE JÚNIOR, p. 32) Em 20 de agosto de 1856, foi dada aprovação canônica da nova freguesia que pertencia à Arquidiocese de São Salvador da Bahia. O primeiro pároco da nova freguesia, foi designado o Pe. João Batista de Carvalho Daltro, que assumiu suas funções eclesiásticas em Ver em SANTOS, José Renilton Nascimento. Riachão do Dantas: nossa terra, nossa gente, nossa história. Riachão do Dantas: (Obra não publicada), P

293 O seu paroquiato foi bastante proveitoso, porém no início enfrentou muitas dificuldades, por conta da epidemia de cólera morbus que vitimou milhares de pessoas em Sergipe nos anos de 1855 a Padre Daltro permaneceu em Riachão até , ano da emancipação política da cidade, foi transferido para a Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto e devido aos seus trabalhos nessa comunidade, ele foi elevado ao título de Monsenhor. Faleceu em 1910 Pode-se se dizer que os trabalhos prestados do então Pe. Daltro na Freguesia de Nossa Senhora do Amparo do Riachão resultou na emancipação da mesma em 09 de maio de 1870, portanto, ele foi precursor da autonomia política daquela localidade 66. Somente em 1939, sobe a liderança de Frei Ildefonso, houve a construção da nova igreja matriz, a antiga estava localizada no centro da atual Praça Nossa Senhora do Amparo e foi demolida, uma grande perda para o Patrimônio Cultural e Arquitetônico da cidade, que infelizmente quase não possui. 66 Os trabalhos prestados por Padre Daltro estão relacionados com a epidemia de cólera morbus, ele acolheu e cuidou de vários doentes e com a as secas daquele período realizando a construção de tanques para o armazenamento de água. Desde 1856, ano da elevação da capela a Igreja Matriz até os dias atuais, assumiram oficialmente quatorze padres na paróquia de Nossa Senhora do Amparo. Atualmente a paróquia é conduzida pelo Padre Álvaro Braz Alves Fernandes, que assumiu suas funções eclesiásticas em 05 de abril de PADRES DE RIACHÃO DO DANTAS-SE (PERÍODO: 1856 a 2009) Ordem Nome Período 1º Pe. João Batista de Carvalho Daltro º Pe. José Antônio de Vasconcelos º Pe. Feliciano Francisco dos Santos Andrade 4º Pe. Antônio Alves da Fonseca º Pe. Manuel Felício de Miranda Lima º Pe. Manoel Luís da Fonseca º Frei Ildefonso Raffauf º Pe. José Alves de Castro º Pe. Ezaú Barboza de Souza º Pe. Pedro Vidal de Sousa (Adm Paroquial) 11º Pe. Humberto da Silva (Adm Paroquial) 12º Pe. Vicente Vidal de Sousa Pe. Vicente Vidal assumiu inicialmente as funções de Administrador Paroquial, um ano depois foi elevado a pároco de Nossa Senhora do Amparo substituindo Pe. Ezaú Barboza de Souza. Fonte: (SANTOS, 2009, p. 36) 293

294 13º Pe. José Ediberto Lima º Pe. Álvaro Braz Alves Fernandes 2009 presente partido do Coronel, finalmente a Freguesia foi elevada a categoria de vila em A emancipação política de Riachão do Dantas aconteceu no dia 09 de maio de 1870, através da Resolução de número 888, com isso, a Freguesia de Nossa Senhora do Amparo foi elevada à categoria de vila com a denominação de Riachão. Como consequência, o município de Riachão foi desmembrado do município de Lagarto. Antes da resolução de 09 de maio, outra havia emancipado esse município, foi a Resolução de número 666, de 23 de maio de 1864, porém por motivos políticos, outra resolução (nº 730, de 15 de maio de 1865) revogou a lei anterior, por isso, a Freguesia de Nossa Senhora do Amparo voltou pertencer ao município de Lagarto. O motivo político citado no parágrafo anterior foi a subida do Partido Liberal ao poder. Eles eram adversários políticos do Coronel João Dantas Martins dos Reis (futuro Comendador Dantas) que teve grande influência no processo de emancipação de Riachão e era um dos líderes do partido conservador em Sergipe. Com a subida do Resolução Nº 888 de 09 de maio de 1870 Eleva à categoria de Vila a Freguesia de N. Srª do Amparo do Riachão com a mesma denominação de Vila do Riachão. Francisco José Cardoso Júnior, Tenente-Coronel do Estado Maior da primeira classe do Exército, Bacharel em Matemática, Cavalheiro da Ordem de São Bento d Aviz e Presidente da Província de Sergipe, 8º Provincial. Faço saber que a Assembléia decretou e eu sancionei a Resolução seguinte: Art. 1º - Fica elevada à categoria de Vila a Freguesia de N. Srª do Amparo do Riachão com a mesma denominação de Vila do Riachão. Art. 2º - Os limites da referida Vila serão os mesmos que os da Freguesia. Art. 3º - Revogam-se as disposições em contrário. Mando, portanto, a todas as Autoridades a quem o conhecimento e execução da referida Resolução pertencer que cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nela se contêm. 294

295 O Secretário da Província a faça imprimir, publicar e correr. Palácio do Governo de Sergipe, em 09 de maio de 1870, 49º da independência e do Império. Francisco José Cardoso Júnior Selada e publicada na secretaria do governo de Sergipe, em 09 de maio A vila do Riachão não era diferente das outras vilas da província que de acordo com FONTES (1974): Funcionava como centros religiosos e administrativos de uma sociedade rural, diversificadamente estruturada em áreas geoeconômicas, ricas e prósperas, tendo por fundamento açúcar e o gado. (FONTES, 1974, p. 565) No período Imperial ( ) a administração das vilas provinciais era de responsabilidade da Câmara Municipal, ainda não havia a figura de um prefeito, por isso ela possuía funções administrativas amplas. As obrigações concebidas à Câmara eram: Cuidar do centro urbano, estradas, pontes, prisões, matadouros, abastecimento, iluminação, água, esgoto, saneamento, proteção contra loucos, ébrios e animais ferozes, defesa sanitária animal e vegetal, inspeção de escolas primárias, assistência a menores, hospital, cemitérios, sossego público, polícia de costumes etc. (LEAL, 1997, p. 94) Com o intuito de realizar suas funções administrativas, a câmara Municipal possuía um dispositivo legal, que era chamado de Código de Posturas em que eram elencadas leis para os aspectos de higiene, de trânsito público, de economia e de polícia. O Código de Posturas da Câmara Municipal de Riachão foi aprovado pela Lei nº 934, de 24 de abril de Os infratores do Código de Posturas sofriam multas ou prisões. As Câmaras Municipais viviam sob a tutela das Assembléias Provinciais, muitas decisões aprovadas pela Câmara deveriam ter uma aprovação posterior da Assembléia Provincial, por isso, os municípios não possuíam autonomia administrativa. Não somente as leis referendadas pela Câmara deveriam passar pela Assembléia, como também as receitas e despesas que por sinal eram orçadas por lei aprovada pela Assembléia Provincial e os recursos a serem despedidos com a administração deveriam ser obtidos através da arrecadação de suas próprias rendas estabelecidas em lei. 295

296 Por conta dessa centralização política, característica do Império, que subordinava os municípios ao governo provincial do qual dependiam para realizar as obras de que necessitava, o desenvolvimento das Vilas foi lento. Em 15 de novembro de 1889 é proclamada a República no Brasil, no dia 24 de novembro do mesmo ano, Riachão faz sua adesão ao novo governo em uma Sessão extraordinária: Aos vinte quatro do mês de novembro do ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e oitenta e nove, nesta Vila do Riachão, província de Sergipe, às doze horas do dia, reunidos no Paço da Câmara Municipal da mesma vila, os vereadores (...) e também um crescido número de habitantes deste município (...). O Senhor Presidente levantando-se de sua cadeira, e em uma alocução fluente (...) disse que o fim especial [da sessão] era fazer adesão ao Governo que se acaba de iniciar no país sob a forma Republicana, ampliando essa adesão não só ao provisório fundado na Corte como fundado nesta província de Sergipe. Acrescentou que assim procedeu porque a forma de Governo inaugurada conforme vê-se em sua proclamação de 17 de novembro do corrente ano e que foi geralmente aceita e com agrado por todo o município faz promessas solenes de sob os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade, garantir, garantir a todos os habitantes do Brasil nacionais e estrangeiros, a segurança, a vida, garantir a propriedade de cada um, respeitar os direitos individuais e políticos, mantendo as funções da Justiça Ordinária, bem como as funções de administração civil e militar os quais continuarão a ser exercidos pelos órgãos até aqui a República brasileira, prometedora de uma vida de paz e de harmonia aos povos, protestando-lhes o seu acatamento e recolhimento diante das bases estabelecidas e proclamadas no País. (Ata da Sessão extraordinária da Câmara Municipal de Riachão, de 24 de novembro de APES) Com o surgimento do novo molde político no Brasil, os municípios ganharam autonomia política e as funções administrativas foram divididas. No agora Estado de Sergipe, surgem os Conselhos de Intendência, que é representado no poder executivo municipal por um Intendente. O primeiro Conselho de Intendência em Riachão foi nomeado pelo Governador Felisbelo Freire, através do Decreto nº 27, de 25 de janeiro de 1890 e tinha como seu primeiro intendente o Pe. Manoel Luiz da Fonseca Ver em LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, P E em SANTOS, José Renilton Nascimento. Riachão do Dantas: nossa terra, nossa gente, nossa história. Riachão do Dantas: (Obra não publicada), P

297 No ano de 1935, o chefe do poder executivo municipal passou a usar o título de Prefeito, conforme estava prescrito na Constituição de i Manoel Machado de Aragão, que fazia parte do Partido da União Republicana de Sergipe, tornou-se o primeiro administrador do município a receber o título de prefeito, governou de 08 de abril de 1935 até 20 de junho de 1941, quando é substituído por Horácio Dantas de Góes. Ainda no seu governo em 1938, a Vila de Riachão foi elevada a categoria de Cidade. Horácio Goes foi nomeado prefeito pelo então interventor do Estado Coronel Milton Azevedo, o Brasil já se encontrava no chamado Estado Novo, ditadura implantada por Getúlio Vargas. No ano de 1943 o nome do município foi mudado para Riachão do Dantas, devido à lei federal que determinava a alteração dos nomes dos municípios em que houvesse duplicidade. Através do Decreto Estadual nº 377, de 31 de dezembro de 1943 o nome de Riachão do Dantas foi dado ao nosso município. Na escolha do designativo (do Dantas) introduzido para alterar o topônimo, influiu, ao mesmo tempo, o propósito de homenagear um dos maiores benfeitores da terra [o comendador João Dantas Martins dos Reis] e o próprio costume de grande parte da população, principalmente da classe do povo, que já vinha chamando o lugar pela forma Riachão Dantas. (ALVES, 1959, p. 422) Em 1945 ocorre o fim do Estado Novo. O país está passando por um processo de redemocratização e os partidos políticos são organizados. Em Riachão do Dantas foram estruturados o Partido Social Democrático (PSD) e União Democrática Nacional (UDN). O PSD era liderado por Horácio Dantas de Góes, enquanto a UDN por José Almeida Fontes. Em 19 de outubro de 1947, ocorrem às eleições municipais e José Hora de Oliveira do PSD é eleito. As disputas entre PSD e UDN eram acirradas e a violência era uma constante juntamente com as perseguições políticas. As práticas do tempo dos coronéis como o assistencialismo, paternalismo e clientelismo faziam parte de política junto com as frequentes fraudes. No pleito de 03 de outubro de 1954, mais uma vez o PSD sai vitorioso elegendo José Costa Fontes como prefeito e derrotando Abílio Fontes da UDN. 297

298 O período estudado reflete o predomínio do poder político exercido por Horácio Góes líder do PSD. A oposição só chega ao poder em dois momentos com as eleições de Abdias Evaristo de Carvalho e Abílio de Carvalho Fontes que mais tarde, em 1961 para ser exato, solicitou uma licença de seis meses, assume então o presidente da Câmara Municipal o pecuarista David Dantas de Britto Fontes que se empenhou no plano de eletrificação da sede do município através de um convênio com a Companhia Sul Sergipana de Eletricidade (SULGIPE). Nos anos de Riachão do Dantas contava com dois representantes na Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe: Horácio Dantas de Góes (PSD) e José Almeida Fontes (UDN). Em 1964, instalou-se a ditadura militar no Brasil, com promulgação do Ato Instrucional nº 2 (AI-2), os partidos então conhecidos foram extintos, sendo criados a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). A ARENA era formada por políticos que apoiavam o governo militar e o MDB era formado pela oposição ao governo. Horácio Goes e José Almeida, as lideranças políticas do município, inicialmente enquadraram-se na ARENA, porém em 1969 ele José Almeida Fontes desliga-se da ARENA e funda o MDB em Riachão do Dantas. O deputado Horácio Góes reelege-se por várias vezes, ocupando uma cadeira na Assembléia Legislativa no período de 1959 a Esteve sempre filiado a partidos que davam sustentação ao governo. O grupo político liderado por Seu Horácio, como ele era conhecido, dominou o cenário político do município por muitos anos, elegendo uma grande parte dos prefeitos. Horácio Goes faleceu em Aracaju no dia 27 de outubro 1998 aos 84 anos. A oposição de Riachão do Dantas não possuía uma vivacidade perante aos eleitores, por isso que o MDB liderado por Nelson Araújo, não consegue diminuir ou retirar o poder e influência política da família Góes. Nelson Araújo consegue se eleger deputado e sai do cenário político municipal. Nas eleições de 1972, Roberto Fontes de Góes, filho de Horácio Góes é eleito prefeito dos riachãoenses, como na época ele contava com 20 anos e de acordo com lei somente com 21 anos é que pode assumir o cargo. Então, após completar a idade prevista no 298

299 dia 28 de fevereiro, Roberto Goes assume a prefeitura como o governante mais jovem do município de Riachão do Dantas. No pleito de 1976 é eleito Antônio Guimarães Sobrinho, que nesse período era filiado a ARENA e venceu com votos. Roberto Goes volta ao Executivo Municipal nas eleições de 1982, ele vence com votos e elege-se pelo PDS. José Lopes de Almeida vice-prefeito de Roberto Goes disputa as eleições de 1988 filiado ao PDS contra Silvana França, esposa do deputado federal Bosco França, que estava filiada ao PMDB/PL. Também estava na disputa José Raimundo de Farias pelo PFL/PSB. José Lopes de Almeida vence o pleito com votos. Em 1992 a disputa foi entre José Agnaldo de Almeida (PDS) e Antônio da Silva Guimarães Sobrinho (PMDB/PFL/PSB). José Agnaldo de Almeida tinha como candidata a vice-prefeita Dona Creuza Fontes de Góes, intitulada a Mãe dos pobres e esposa de Horácio Góes, representava o grupo político do mesmo. Enquanto Antônio da Silva Guimarães Sobrinho era candidato da oposição e era apoiado pelo ex-deputado Bosco França. Antônio obteve votos, enquanto José Agnaldo teve A oposição sobe ao poder depois de vinte e nove anos de sucessivas derrotas. Porém nas eleições de 1996, José Lopes de Almeida (PPB) disputa com William Araújo Fontes (PSB), Gilton Santos Freire (PMDB) e Ariosvaldo Boaventura (PSC) o cargo de prefeito do município. José Lopes de Almeida é eleito pela segunda vez com votos. A opisição não consegue ficar muito tempo no poder, tornando-se um grupo efêmero que no pleito do ano 2000 se unem com o empresário Laelson Meneses da Silva (PTB) para disputar as eleições contra o então prefeito José Lopes de Almeida (PSDB) que tenta um terceiro mandato. Laelson teve como vice-prefeito Gilton Santos Freire e foi apoiado por William Fontes e outras lideranças políticas, porém José Lopes de Almeida vence as eleições com votos contra de Laelson Meneses e foi o primeiro prefeito assumir três vezes o Executivo Municipal. No ano de 2004, a eleição municipal foi disputada por Roberto Fontes de Góes (PPB) e Laelson Meneses da Silva (PT do B). Laelson ganha as eleições com votos, enquanto Roberto Góes teve votos. A oposição volta mais uma vez ao Poder. Em 2008, a disputa eleitoral dá-se entre o prefeito Laelson Meneses da Silva, candidato a reeleição (PT do B) contra o ex- 299

300 prefeito José Lopes de Almeida (PDT) que volta ao cenário político apoiado por toda a oposição de Riachão do Dantas, inclusive por Gilton Freire Candidato derrotado pelo mesmo no pleito de 1996 e que agora era candidato a vice de José Lopes de Almeida e William Fontes que era o então vice-prefeito do município e ajudou Laelson a se eleger em 2004, mas devido às desavenças com a esposa do prefeito e secretária da Saúde Gerana Gomes Costa, William rompeu com o prefeito e se aliou com Zé Lopes e Gilton Freire. Esse pleito teve também como candidato o ex-deputado estadual Nelson Araújo (PMDB). Porém Laelson Meneses sai mais uma vez vitorioso, conseguindo se reeleger com votos, contra de José Lopes de Almeida e 49 votos de Nelson Araújo. No dia 22 de Março de 2010, a Corte do TRE-SE aprova por seis votos a zero, a cassação do prefeito Laelson Meneses da Silva e de seu vice José Almeida Fontes (neto do ex-prefeito homônimo) por abuso do poder econômico do município nas eleições de Nunca na história de Riachão um prefeito foi cassado, nem mesmo aqueles que passaram meses para pagar os servidores, isso é uma prova concreta que a justiça do Brasil está sendo favorável a democracia, desmascarando as fraudes e punindo os infratores. Quem assume o Executivo Municipal é o então presidente da Câmara Municipal de Vereadores Pedro Santos Oliveira. GOVERNANTES DE RIACHÃO DO DANTAS - SE DE INTENDENTES A PREFEITOS (Período: ) Ordem Nome Período 1º Pe. Manoel Luiz da Fonseca º Cap. Paulo Cardoso de Menezes Góes º Filadelfo de Carvalho Fontes º Pe. Manoel Luiz da Fonseca º Leopoldo de Carvalho Braque º Major Próspero Ferreira Farias Oliveira º José Esteves da Silva º Abdias Evaristo de Carvalho º Antônio Cardoso de Oliveira Menezes º José Silveira Costa º Coronel Leopoldo de Carvalho Braque º Tenente Coronel Francisco Dantas M Fontes 13º Cônego Manoel Luiz da Fonseca º Major Próspero Ferreira Farias Oliveira º Alfredo Lopes de Almeida º Major Próspero Ferreira Farias Oliveira º Epifânio Francisco de Góes º Cônego Manoel Luiz da Fonseca º Manoel Machado de Aragão º Coronel Leopoldo de Carvalho Braque º Manoel Machado de Aragão

301 22º Horácio Dantas de Góes º Abdias Evaristo de Carvalho º Horácio Dantas de Góes º José Hora de Oliveira º João Simões Freire º José Costa Fontes Abílio de Carvalho Fontes David Dantas de Britto Fontes º 29º José Costa Fontes º Deusdete Ferreira dos Santos º Daniel Fabrício da Costa º Roberto Fontes de Góes º Antônio da Silva Guimarães Sobrinho º Roberto Fontes de Góes º José Lopes de Almeida º Antônio da Silva Guimarães Sobrinho º José Lopes de Almeida º José Lopes de Almeida º Laelson Meneses da Silva º Laelson Meneses da Silva º Pedro Santos Oliveira (interino) 2010 *David Dantas de Britto Fontes, assume a prefeitura por seis meses. Fonte: (SANTOS, 2009, p. 36) 3 VISÃO GEOGRÁFICA O município de Riachão do Dantas localiza-se na região centro-sul do estado de Sergipe, inserindo-se na microrregião do Agreste de lagarto. A microrregião do Agreste de Lagarto Integra a mesorregião do Agreste sergipano, localizada Entre o litoral e o sertão, numa área de transição climática. Destaca-se por apresentar melhor distribuição da terra, com forte presença da pequena propriedade e da população rural. Ainda é grande a diversidade de atividades: no sul destacam-se a laranja, o limão, o maracujá, o abacaxi e o fumo. No centro, outros produtos alimentícios (feijão, milho, laranja, mandioca) e a olericultura (batata-doce, inhame, hortaliças); ao norte, o gado de corte e o gado leiteiro. Nessa mesorregião concentra-se a maior parte da população rural do estado. (FRANÇA, Cruz, P.147) 69 David Dantas de Britto Fontes, assume a prefeitura por seis meses. Fonte: (SANTOS, 2009, p. 36) O município de Riachão do Dantas possui uma área de 528,26 km² e limita-se com os municípios de Itabaianinha, Tobias Barreto, Simão Dias, Lagarto e Boquim. 301

302 Tendo a sede municipal situada a 200 m de altitude sendo a 4ª cidade com maior altitude no estado sergipano, apresentando as seguintes coordenadas geográficas. 11º S e 37º W. afastada da capital sergipana em 99 km e em linha reta a 76 km. O relevo consiste nas formas da superfície do planeta, podendo ser influenciado por agentes internos e externos. Ou seja, é o conjunto das formas da crosta terrestre, manifestando-se desde o fundo dos oceanos até as terras emersas. Entre as principais formas apresentadas pelo relevo terrestre, os quatro tipos principais são: Montanhas, Planaltos, planícies e Depressões. O relevo riachãoense apresenta elevações suaves e faz parte da região dos Planaltos, onde se encontram as maiores elevações do estado de Sergipe. As maiores elevações do município estão incluídas no grupo altimetrico de m. Correspondem à unidade geomorfológica do planalto Sudoeste, que também aparece nos municípios de Tobias Barreto, poço Verde e Simão Dias. O planalto Sudoeste representa o conjunto de Serras de topos aplainados, bordas desniveladas com degraus planos embutidos e encostas de formas convexas. (UFS/SEEC, P.26) É formado por serras residuais esculpida em estruturas précambrianas e cambrianas, (UFS/SEPLAN, P.5) constituindose em dispersores hidrográficos para as bacias dos rios Real e Piauí. Os pontos mais elevados do município são; Serra dos Palmares (550m), Serra do Curral Novo (550m), Serra do Boqueirão (500 m) e Serra da Carnaíba (500m). O clima da cidade de Riachão do Dantas é definido como Clima Quente. A temperatura media anual é de 22,8ºC. O regime de chuvas é semelhante ao clima mediterrâneo, predominando as chuvas de outono e inverno. O índice pluviométrico (de chuvas) é considerado moderado, pois fica entre 500 e mm por ano tendo a média anual de 907,0mm. As chuvas ocorrem de forma intensa e em maior quantidade nos meses de março e Julho. Situado no agreste, a região de transição entre o litoral e o sertão, o município sofre efeito das secas e grandes estiagens. Uma 302

303 área de 160 Km² do município está inserida no chamado Polígono das secas. São 27,6% da área territorial do município. formação florestal com plantas do litoral e do sertão. Apresenta arvores de até 20 m de altura de onde descem muitos cipós, porem é menos exuberante que a floresta atlântica. À medida que se aproxima do sertão, as arvores vão diminuindo de tamanho e quantidade, dando lugar às plantas caducifólias. (...) cedro, aroeira, sucupira, mulungu, pau d arco, peroba, baraúna são algumas das arvores de Mata do Agreste. (SANTOS; ANDRADE, P. 45) A Mata Branca conhecida como caatinga encontrada no município e do tipo hipoxerófila ou arbustiva, Localizada na região conhecida como boca do sertão, adaptada a períodos de seca Fonte: FRANÇA, Vera Lúcia Alves & CRUZ, Maria Tereza Souza (Coord.). Atlas Escolar Sergipe: espaço geo- histórico e cultural. João Pessoa: Grafset, p. 149 inferior a sete meses (FRANÇA; CRUZ, P ), sendo a jurema, juazeiro, umbu algumas de suas espécies. A cobertura Vegetal de Riachão do Dantas é formada pela vegetação característica do agreste, zona de transição entre a Zona de Mata e o Sertão. Aqui são encontrados a capoeira, a caatinga, os Os cursos fluviais do município de Riachão do Dantas pertencem às bacias dos rios Piauí e Real. campos limpos e sujos e as matas. O rio Piauí, cuja bacia ocupa uma área geográfica de As matas são manchas restantes da antiga Mata do Agreste, km², nasce na serra dos palmares servindo de limite natural entre Riachão do Dantas e os municípios de Simão Dias e Lagarto. Formação Florestal. Limita-se ao norte com a bacia do rio Vaza Barris; a oeste com o constituída por associações vegetais com arvores de folhas perenes ou caducas, sendo, pois, uma estado da Bahia e com a bacia do rio Real; ao sul com a bacia do rio 303

304 Real; e, a leste, com o Oceano Atlântico, onde tem a sua desembocadura em terras do município de Estância, no complexo Os nossos rios são de regime estritamente pluvial, dependendo das chuvas para a manutenção de seus cursos. hídrico denominado Barra da Estância percorre cerca de 150 km A população absoluta corresponde ao número total de antes de desaguar no oceano Atlântico, encontra-se com o rio real, no estuário conhecido como mangue seco. habitantes de um lugar (país, estado, município). A população absoluta de Riachão do Dantas é de habitantes, segundo estimativa da população em 2009 realizada pelo IBGE. A densidade demográfica ou população relativa segundo IBGE é de 36,28 hab/km². A população relativa é o resultado da divisão do numero de habitantes pela área do município. Pela contagem da população em 2007, onde a mesma era de Nascente do rio Piauí Serra dos Palmares Os riachos boqueirão, caldeirão, fundo, limeira, Areias, Crioulo e Grota Funda são os principais afluentes do Rio Piauí em Terras riachãoenses. Esses cursos fluviais, em sua maioria, são temporários. Desaparecem durante o período de estiagem habitantes foi apresentado um pequeno aumento em populacional segundo estimativas do IBGE A população riachãoense é predominantemente rural. Do total da população, 22,24% vivem na zona urbana, enquanto 77,76% vivem na zona rural. Há um predomínio de homens. Segundo IBGE em 2000 os homens eram 50,6% e as mulheres era 49,4%. 304

305 O predomínio dos homens ocorre desde o censo de VISÃO ECONÔMICA A economia de Riachão do Dantas é essencialmente agrária. Tento o setor primário como fonte de subsistência e a pecuária é a principal atividade econômica. A pecuária tornou-se a principal atividade econômica com o processo de pecuarização ocorrido em todo estado de Sergipe. Esse processo de pecuarização se inicia nos anos 1930, acentua-se na década de 1960 e se cristaliza a partir dos anos (VILAR, P.44) O gado passa a ser a força econômica. A paisagem agrária transforma-se com o avanço da área de pastagem. município. Vejamos, na tabela abaixo, o avanço das pastagens no RIACHÃO DO DANTAS AVANÇO DAS PASTAGENS ( ) Ano Área ocupada pelas Pastagens (hectares) FONTE: IBGE Censos agropecuários Além de modificar a paisagem agrária, a pecuarização é uma das atividades mais impactante para as mudanças no clima, é também uma das mais afetadas pelas conseqüências do fenômeno. Além de contribuir para o aumento do êxodo rural, antes da pecuarização as propriedades rurais concentravam um grande número de trabalhadores, os agregados. Famílias inteiras moravam nas propriedades que contavam com casas para abrigá-las. À medida que avançava a criação de gado, essa mão-de-obra era expulsa do campo. O manejo do gado necessita de pequena mão-deobra. Daí o vazio demográfico das áreas onde predomina a criação de gado. A exploração da pecuária em nosso município: Caracteriza-se pela existência de grandes áreas de pastagens artificiais, ou seja, pastagens produzidas pelo homem fruto do processo de produção e modificação da paisagem, constituídas em sua maior parte pelos capins colonião, pangola, angolinha e bracearia. Recentemente, vem se 305

306 explorando o cultivo do capim elefante e suas variedades. (FONTES, s.d. p. 59) O gado bovino constitui o nosso principal rebanho, um dos maiores do estado de Sergipe. A criação de gado bovino destina-se ao abate e à produção de leite. A produção de leite é bastante considerável, todavia, em função de deficiências na área de alimentação e manejo, está longe de atingir uma satisfatória racionalização no seu processo produtivo. (SEEC/CEAG-SE, P. 39) Conheçamos alguns dados sobre a produção de leite. VACAS ORDENHADAS E PRODUÇAÕ DE LEITE Ano Vacas Ordenhadas Quantidade (mil litros) FONTE: IBGE Produção pecuária municipal Além de bovinos são criados suínos, ovinos, caprinos, muares, eqüinos, asinino. rebanhos: Conheçamos, na tabela abaixo, o efetivo dos principais EFETIVO DOS PRINCIPAIS REBANHOS (N º de cabeças) Rebanh o Bovinos Suínos Eqüinos Asinino s Muares Ovinos Caprino s Galinha s Ovos 112.OO O A agricultura é outra atividade econômica importante. Destacam-se os cultivos industriais e os de subsistência. 306

307 Os cultivos industriais são aqueles utilizados pela indústria para serem transformados em outros produtos. (SANTOS; ANDRADE, P.77). Entre os cultivos industriais do município estão a laranja, o fumo e a mandioca. O município de Riachão do Dantas está entre os maiores produtores do estado de Sergipe. A produção de laranja está em crise. o envelhecimento dos laranjais, as doenças, as pragas e a ausência de políticas públicas de apoio ao produtor, a partir da década de noventa, resultaram na queda da produção e nos preços, na diminuição da área colhida e do pessoal ocupado. (FRANÇA; CRUZ, P. 162). A área produtora de laranja concentra-se na região limítrofe com Boquim: Lage Grande, Volta, Vivaldo, Cipozinho, Campestre e Limoeiro. O cultivo do fumo é explorado por pequenos agricultores. O beneficiamento é tradicionalmente feito em corda por métodos caseiros. A mandioca é cultivada em pequenas propriedades. Destinase principalmente a produção de farinha e tapioca. A seguinte tabela apresenta a produção dos cultivos industriais em nosso município. PRODUÇÃO DOS CULTIVOS INDUSTRIAIS Ano Laranja (kg/ha) Mandioca (toneladas) Fumo (toneladas) FONTE: IBGE Produção Agrícola municipal Destinados a comercialização há também o cultivo de milho, a banana, maracujá e feijão. A seguinte tabela apresenta produtos dos cultivos comerciais PRODUTOS DOS CULTIVOS COMERCIAIS Ano Milho Banana Maracujá Feijão (toneladas) (toneladas) (toneladas) (toneladas) FONTE: IBGE

308 A agricultura de subsistência é praticada em pequenas propriedades com a utilização de técnicas rudimentares e, conseqüente, baixa produtividade. Corresponde a roça tropical: Feita por pequenos proprietários ou por trabalhadores sem terra, em propriedades de terceiros. (...) Quando em terra virem, o agricultor e utiliza geralmente o processo da coivara para destruir a mata, e quando em terras anteriormente cultivadas, ele queima a capoeira. (ANDRADE, P. 219) A atividade industrial é impaciente, utilizando processos de produção rudimentares. São as seguintes as atividades industriais desenvolvidas no município: farinha de mandioca, polvilho, fumo em corda, bebidas e panificação. A farinha e o polvilho são processados de forma artesanal nas denominadas casas de se farinhas com equipamentos movidos por eletricidade. A atividade comercial é pouco desenvolvida. Praticamente se resume ao comércio varejista. Em sua maior parte, os estabelecimentos comerciais são pequenas casas para a venda de produtos de primeira necessidade como alimentos e bebidas. Supermercados, armazéns, farmácias, padarias e armarinhos são os estabelecimentos comerciais existentes no município. Semanalmente é realizada a feira na sede municipal e nos povoados taque Novo, Bomfim, Forras e Palmares. As feiras abastecem a população. Nelas são comercializadas carne, frutas, legumes, verduras, comidas, doces, peças artesanais, roupas, confecções, etc. O desenvolvimento comercial nas cidades circunvizinhas, como Lagarto e Tobias Barreto, e as facilidades de locomoção tem contribuído para o fraco desempenho do comércio local. Lagarto e Tobias Barreto representam uma atração para as pessoas dos municípios vizinhos, concentrando algumas funções comerciais diversificadas. (FRANÇA; CRUZ, P. 70) Assim grande parte da população desloca-se para as cidades supracitadas onde as opções comerciais são melhores. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Estudar a história de Riachão do Dantas nessas três visões emergiu alguns pontos que são abordados também pela camada 308

309 intelectual responsável pelas pesquisas nesse município, a saber: o município de Riachão tem origem não no século XIX como muitos acreditavam, mas sim no final do século XVI com a expansão dos colonizadores em solo sergipano, não há alternância de políticos no poder desde o império até os dias atuais A historiografia riachãoense, como toda História Regional, é muito ampla e necessita de um estudo mais detalhado e de um meio de pesquisa acadêmica que propicie uma quantidade maior de questões a serem publicadas, visando não somente o conhecimento acadêmico, mais quiçá até da própria população desse município. A geografia de Riachão do Dantas está relacionada de forma umbilical com a de Sergipe, pois a contribuição hidráulica fornecida pelo Rio Piauí, que nasce no município estudado, contribui para o desenvolvimento da região centro sul do Estado de Sergipe e finalizando, a economia de Riachão do Dantas é em sua grande maioria uma economia agrária e depende de plantios, da criação de gado, ovinos, muares, eqüinos entre outros. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, João Oliva. Riachão do Dantas. In: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Rio de Janeiro: IBGE, Pág ANDRADE JÚNIOR, Péricles Morais de. Sob o olhar vigilante do pastor: a Igreja Católica em Sergipe ( ). São Cristovão, Dissertação de Mestrado apresentada ao Núcleo de Pós-Graduação e Pesquisas em Ciências Sociais da UFS. Pág. 32. ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia Econômica. 7. Ed. São Paulo: Atlas, Pág CRUZ, Jeferson Augusto da. A Construção das primeiras Vilas e Cidades no Brasil Colonial. Lagarto: (Artigo não Publicado), Pág. 03. FIGUEIREDO, Ariosvaldo. O negro e a violência do branco o negro em Sergipe. Rio de Janeiro: J. Álvares Editor, Pág FONTES, Arivaldo Silveira. Riachão do Dantas: os primeiros tempos. As origens. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, Nº 27. FONTES, José Silvério Leite. Cidades e Vilas de Sergipe no Século XIX. In: Anais do VII Simpósio Nacional de Professores Universitários de História. São Paulo, Pág FRANÇA, Vera Lúcia Alves; CRUZ, Maria Tereza Souza (Coord.). Atlas Escolar de Sergipe: espaço geográfico e cultural. João Pessoa: Editora Grafset, Pág

310 LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, Pág. 94. PASSOS SUBRINHO, Josué Modesto dos. História Econômica de Sergipe. ( ). Aracaju: Editora UFS, Pág. 17 REIS, João Dantas Martins dos. A Cidade do Riachão do Dantas, como começou. Aracaju: Livraria Regina, Pág. 06. SANTOS, Aldeci Figueiredo; ANDRADE, José Augusto. Nova Geografia de Sergipe. Aracaju: SEED/UFS, Pág. 45. SANTOS, José Renilton Nascimento. Riachão do Dantas: nossa terra, nossa gente, nossa história. Riachão do Dantas: (Obra não publicada), Pág. 35. UFS/SEEC. Sergipe Nossa Terra, Nossa Gente: Atlas Escolar. Aracaju: Editora UFS, Pág

311 NAS PAREDES DA MEMÓRIA: A disseminação dos grupos escolares em Sergipe ( ) ii RESUMO Magno Francisco de Jesus Santos (FJAV-História) crumbling isolated schools. In Sergipe this process occurred in the midst of controversies and disputes about the legitimacy of the images of the republican regime. This paper has the purpose of understanding the process of implementation of school groups in Sergipe, and the battles over memory representations and that these new institutions would have in the state. Keywords: elementary school, primary school, places of memory. Nas primeiras décadas do século XX ocorreu o processo de implantação da escola graduada, conhecida como grupos escolares, em substituição às decadentes escolas isoladas. Em Sergipe esse processo ocorreu em meio a polêmicas e disputas em torno da legitimação das imagens do regime republicano. Nesse artigo tem-se o propósito de compreender o processo de implantação dos grupos escolares em Sergipe e as disputas em torno da memória e das representações que essas novas instituições teriam no estado. Palavras chave: grupo escolar, ensino primário, lugares de memória. ON THE WALLS OF MEMORY: The spread of school groups in Sergipe ( ) ABSTRACT In the first decades of the twentieth century was the deployment process of graduate school, known as school groups, to replace the O século XX iniciou-se em Sergipe com a preocupação dos republicanos em construir uma nova memória política, visando entre outras coisas a legitimação do regime e das lideranças envoltas no sistema. Gradativamente a memória que remontava ao império era apagada, sufocada por um novo enfoque mnemônico que emergiu no cenário nacional. Ruas, praças e até mesmo cidades tiveram suas nomenclaturas alteradas, com a substituição dos antigos nomes, quase sempre oriundos dos períodos colonial e imperial e atrelados à mentalidade católica, por nomes que remetiam aos heróis e valores republicanos. Assim emergiram os novos heróis da nação, como Tiradentes, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, forjando-se uma identidade nacional aos moldes republicanos. 311

312 Em relação aos grupos escolares, a trama mnemônica do novo regime também ocorreu de modo aguçado. Os líderes republicanos desejavam perpetuar a sua memória por meio de monumentos e obras que tivessem as mesmas características. Assim, as disputas no campo educacional passaram a refletir também os anseios de políticos em busca de legitimação. Era o momento de aparecer, de tornar pública a imagem de governantes benevolentes e defensores da democratização do ensino e do próprio regime. Entretanto, nem tudo que ocorria nos bastidores educacionais da República deveria ser visto. Nesse artigo tem-se o propósito de compreender a trama mnemônica inerente ao processo de disseminação dos primeiros grupos escolares em Sergipe, entre 1911 e AULAS PARA EXIBIR, AULAS PARA CAMUFLAR Durante todo o período imperial o modelo educacional primário predominante no Brasil foi o das escolas isoladas ou de primeiras letras. Tradicionalmente, este modelo é apresentado pela historiografia educacional como sendo um representante do atraso educacional. É provável que essa conclusão seja originária dos discursos republicanos nas primeiras décadas do século XX, que buscou confrontar o suposto atraso do ensino das escolas isoladas com os avanços propiciados pelos grupos escolares. Mais do que uma discussão a respeito do modelo de escola mais adequado, os debates nas primeiras décadas do século XX refletem a busca dos republicanos em legitimar o regime político recém-implantado. Ao condenar o ensino das escolas isoladas, apresentado como desorganizado e precário, criticava o regime monárquico, levando-se em consideração que esta foi a forma preponderante no referido período. A tese defendida pelos republicanos e adotada pela historiografia educacional deve ser revista. É oportuno rever a relevância das inúmeras escolas isoladas que foram difundidas por todo o país, tanto na Monarquia como na República. Se os grupos escolares eram apresentados como o modelo ideal para o Brasil Republicano, eram as escolas isoladas que fortaleciam a democracia iii. Com isso, um dos principais pressupostos do novo regime estava atrelado às escolas isoladas, ao passo que a maior parte do alunado estava neste tipo de escola. 312

313 Durante todo o período colonial a educação brasileira estava a cargo majoritariamente, dos jesuítas. Com expulsão dos inacianos a educação fica à mercê, pois não havia a princípio como substituí-los. Entre 1759 e 1808 houve hiatos de desorganização e decadência do ensino colonial (AZEVEDO, 1980, p. 61). Foi somente com a chegada da família real que o ensino primário voltou a se estruturar gradualmente, com a implantação das cadeiras de primeiras letras. Estas cadeiras foram difundidas por todo o país. O ensino nas escolas isoladas era multisseriado, na qual uma professora ficava responsável pelo ensino de alunos de séries distintas. Além disso, as escolas funcionavam em instalações improvisadas, como casas das professoras, salões paroquiais ou casas alugadas pelo poder público. Tais aspectos fizeram com que este modelo de ensino fosse visto como decadente, precário e desorganizado. Com a implantação do regime republicano as críticas referentes às escolas isoladas tornaram-se assíduas. Os intelectuais da educação, através de relatórios e mensagens, passaram a confrontar sistematicamente os dois modelos de ensino primário em vigor: escola isolada e grupo escolar. Este foi adotado pelos republicanos como escola-símbolo do novo regime. Com a emergência do entusiasmo pela educação, a escola passou a ser vista como uma das principais soluções dos problemas que afligiam a sociedade brasileira. E educação era o mecanismo para fortalecer a democracia, levando-se em consideração que nas eleições da República Velha só votavam os brasileiros considerados alfabetizados. Neste sentido, ensinar era sinônimo de inclusão da sociedade no regime recém-implantado, representava a legitimação da democracia republicana, contrapondo-se à Monarquia. Mesmo tendo sido eleito pelos republicanos como prioridade, as deficiências do ensino primário tiveram dificuldades em serem sanadas. Os constantes problemas financeiros que atingiam os cofres públicos emperraram os avanços sonhados para o ensino primário, como já foi exposto. Assim como no Império, a educação continuava a ser um dos grandes problemas enfrentados pela nação brasileira na República. Esta constatação está explícita em mensagens de presidentes dos estados, como o do general Oliveira Valadão em 1916, alegando ser como um dos graves problemas nacionais, cuja solução deve ser promovida sem vacilações, tem sido o ensino público objecto de especial solicitude da minha administração (SERGIPE, 1916, p. 19). 313

314 Apesar das constantes inovações no campo educacional, com a chegada de novas metodologias de ensino, a prática docente permanecia deficitária com a faltas dos recursos didáticos e funcionando em instalações inapropriadas. A precariedade das instituições escolares foi apresentada como o maior empecilho à difusão das novas propostas pedagógicas, pois a notória pobreza das nossas escolas foi sempre obstáculo que annullava as melhores energias dos dirigentes de ensino (SERGIPE, 1916, p. 19). Neste ponto, podemos perceber uma contradição entre o discurso oficial que enaltecia os supostos avanços contínuos do setor educacional e a realidade vivenciada na maioria das escolas, que eram marcadas pelos parcos recursos e precariedade das instalações. A preocupação no tocante ao setor educacional era em relação ao ensino primário. Como vimos esta preocupação não era desproposital, por camuflar os anseios de legitimação do regime. A relevância do ensino primário era assim justificada pelas autoridades: Com particular carinho, olho para o ensino primário que, no sentenciar de um illustre pedagogo, é o recomeço de todo o saber. Por elle diz o grande sábio tiveram de passar os espíritos mais cultos, os sábios mais iminentes, antes de penetrar no santuário da Sciencia. Muito embora elle pese consideravelmente no orçamento da despesa publica, não devemosmedir sacrifícios quando tratados de dissipar as trevas da ignorância e ampliar o horizonte intellectual de nossos patrícios (SERGIPE, 1921, p. 13). Enquanto que no estado de São Paulo os grupos escolares começaram a ser implantados ainda na década de 1890, em Sergipe o mesmo ocorreu de forma relativamente tardia, duas décadas após. É importante salientarmos que a implantação dos grupos escolares não significou o desmonte da estrutura das escolas isoladas, pelo contrário, estas escolas continuaram sendo criadas na maioria das cidades, vilas, povoados e até na capital do Estado. Os faustosos grupos localizados geralmente nos entornos do centro contrastavam com as centenas de escolas isoladas espalhadas por toda o estado. É impressionante o número de alunos matriculados nas escolas isoladas durante as primeiras décadas do século XX. Mesmo os discursos oficiais enaltecendo a relevância dos grupos escolares, a maioria do alunado estava matriculada nas tidas defasadas escolas isoladas. Este dado pode ser evidenciado no Quadro I, que demonstra a distribuição de instituições escolares de Sergipe em 1922: 314

315 Instituição Escolar Número de Estabelecimentos Atheneu Sergipense, 01 equiparado ao Dom Pedro I Escola Normal 01 Escola Complementar 01 Grupos Escolares 05 Escolas Isoladas na Capital 15 Escolas Isoladas nas Cidades 58 Escolas Isoladas nas Vilas 43 Escolas Isoladas nos 138 Povoados Escolas Noturnas 07 QUADRO 1: Distribuição das Instituições Escolares de Sergipe em 1922 Fonte: Mensagem do Presidente do Estado de Sergipe de 1922, apresentada por Pereira Lobo. Os dados do Quadro 1 são reveladores, por expressarem a incongruência discursiva das autoridades educacionais republicanas. Ao todo eram 254 escolas isoladas, 07 escolas noturnas contra apenas 05 grupos escolares. Tais dados demonstram que, mesmo não consistindo o modelo de ensino almejado, as escolas isoladas desempenhavam a relevante função de difundir as primeiras letras entre a população sergipana. Deste modo, propagava-se o fortalecimento do regime democrático. O contraponto entre os dois modelos de ensino primário permaneceu por toda a primeira metade do século XX, criando divergências e polêmicas a esse respeito entre a intelectualidade sergipana (diretores de educação, governantes, professores, etc.). Uma das propostas apresentadas pelas lideranças do setor educacional era reunir as escolas isoladas formando grupos escolares mais modestos do que as imponentes construções das décadas de 1910 e As escolas seriam substituídas gradativamente pelos grupos. No entanto, esta proposta em termos reais não foi acatada, visto que as escolas isoladas continuavam sendo criadas nas mais variadas localidades. Apesar do suposto antagonismo entre os dois modelos educacionais, em termos práticos, escola isolada e grupo escolar se completavam na consolidação do regime em vigor. A dualidade entre os modelos educacionais no setor primário revela aspectos que vão além das aparências. Trata-se da rivalidade, das intensas disputas entre as professoras por um melhor posicionamento no interior do campo educacional. Diferentes estratégias foram usadas pelo professorado visando assumir a vaga em um dos grupos escolares iv, vistos como o ápice da carreira docente feminina. Atuar em um dos poucos grupos edificados no Estado de Sergipe significava está em sintonia com os pressupostos 315

316 estabelecidos pela pedagogia moderna, devido ao fato deles serem equipados com os mais modernos recursos pedagógicos de Sergipe na época. Nas escolas isoladas, apesar das professoras serem capacitadas para aplicarem os novos pressupostos metodológicos, a prática docente tornava-se prejudicada, devido à escassez do material pedagógico. Outra questão que pode ser discutida a respeito da dualidade entre os grupos e as escolas isoladas refere-se aos custos dos cofres públicos. Devido ao seu caráter monumental, os grupos escolares demandavam um custo elevado para a arrecadação deficitária de Sergipe. Talvez esta seja uma das motivações que tenha propiciado a continuidade na difusão das escolas isoladas. O número de escolas desta categoria que foram criadas em Sergipe no decorrer do século XX é surpreendente. Prova disso é a distribuição de escolas primárias em 1925, no governo de Maurício Graccho Cardoso, como pode ser observado no Quadro II com dados da Inspetoria da Instrução Pública: Classificação da localidade Número de escolas Grupos Escolares 12 (74 classes) Reuniões de Escolas 2 (5 classes) Escolas isoladas 201 Total 215 QUADRO 2: Número de estabelecimentos de ensino público primário em Sergipe em 1925 Fonte: Mensagem apresentada por Maurício Graccho Cardoso à Assembléia Legislativa (CARDOSO, 1925, p. 20). Quadro elaborado pelo autor. Os dados do Quadro 2 são reveladores da disposição do Estado de Sergipe em expandir a educação pública, doravante a permanência da necessidade da erradicação ou redução do analfabetismo. Isso explica o grande número de escolas isoladas desproporcional aos grupos e reuniões de escolas, ou seja, o ensino primário não se restringia apenas às cidades e vilas, mas sim a uma grande variedade de localidades distintas. Neste ensejo, mais uma vez constatamos que a ação republicana no campo educacional não deve ser vista de modo exclusivamente como ruptura da tradição monárquica, mas pelo contrário, demonstrou algumas características de continuidade da política educacional vigente no Império Brasileiro. Trata-se de uma permanência com uma nova abordagem. Os anseios educacionais não se limitavam à instalação de novas escolas. Um dos grandes impasses da educação sergipana na primeira metade do século XX consistia em reduzir a taxa de evasão escolar, que ainda permanecia elevada. Podemos suscitar uma série de questões que possam explicar o elevado número de alunos 316

317 faltosos no ensino público sergipano, dos quais se destacam a distância entre a escola e a residência do aluno e a inserção das crianças no mercado de trabalho, seja este doméstico ou no cultivo. Apesar da criação de um maior número de estabelecimentos escolares por todo o Estado a evasão escolar continuava emperrando o desenvolvimento educacional sergipano. Observe os dados do Quadro III: Instituição escolar Alunos matriculados Frequência dos alunos Escola Normal Grupos Escolares e Escolas Reunidas Escolas isoladas diurnas Escolas isoladas noctunas Subvencionadas pelo Estado Mantidas pelos municípios Quadro 3: O ensino primário sergipano em 1925 Fonte: Mensagem apresentada por Maurício Graccho Cardoso. Os dados constantes no Quadro 3 além demonstrarem o problema da evasão escolar, traz implicitamente a questão das disputas do interior do campo educacional. As mensagens e os relatórios dos presidentes de estado revelam uma disputa pelo alunado entre as escolas mantidas pelo estado e as mantidas pelos governos municipais. Era a corrida pela busca de uma mesma clientela. Os impasses não ficavam restritos a discussão sobre o condicionamento das instalações das escolas. As disputas discursivas pairavam também entre os poderes públicos estadual, municipal e as escolas particulares em constante avanço no decorrer do século XX. No entanto, a maior deflagração ocorria entre as escolas do estado e dos municípios, pois estas disputavam o mesmo alunado. Assim, podemos dizer que no alvorecer do novo século em Sergipe ocorreu uma dualidade de modelos educacionais voltados para o ensino primário. Um primava pela exibição, pela publicidade de suas aulas e rigor metodológico, ícone da modernidade pedagógica que aflorava no país. O outro era importante para aumentar o número de alunos alfabetizados e atender o público das periferias e zona rural, mas deveria ser difundido no silêncio, pois nas falas dos governantes os mesmos eram associados ao velho regime deposto, ao arcaico, ao atraso. Nas escolas isoladas, as aulas deveriam transcorrer de modo pacato, sem o furor efervescente dos 317

318 grupos, quase que no esquecimento. Era a trama mnemônica republicana, apta a criar imagens de si, em proporcionar lembranças e esquecimentos. Mesmo nos grupos escolares podiam ser percebidas as tentativas de exibir e obscurecer a memória. A República se fazia mostrar evidenciando suas proezas e escondendo suas mazelas. A visibilidade dos grupos no descerrar dos anos republicanos era notória. Aulas públicas, professoras na imprensa e nos saraus, desfiles imponentes, exames finais com autoridades convidadas faziam parte do enredo que visava promover o espetáculo da educação. Os grupos foram metamorfoseados em palcos em que desfilariam os atores dos espetaculosos enredos republicanos. Certamente as aulas de ginástica v estavam na proa da embarcação educacional cenográfica. Os grupos apresentavam como novidade os amplos espaços abertos para serem realizadas as aulas de ginástica. Para tornar os corpos dóceis era necessário manipulá-los, adestrá-los, submetê-los ao rígido controle. Tudo sob o olhar atento das professoras e do corpo administrativo nos pátios dos grupos. Paulatinamente os grupos escolares foram transformados em palco de exibição das proezas do novo regime político e da proposta civilizadora. Os exercícios físicos constituíam um dos artifícios de preparar o futuro cidadão do país, apto para as atividades físicas, para o trabalho, ou até mesmo para a batalha. O imaginário republicano também passava pelo controle e moldagem dos corpos. Meninos e meninas que estudavam nos grupos participavam, separadamente, das aulas de ginástica, que buscavam valorizar o corpo e constituir os movimentos bem articulados e harmoniosos. O espetáculo da civilização deveria se tornar público e por esse motivo muitas aulas de ginástica eram realizadas nos pátios dos grupos, reunindo alunos em exercícios ávidos. Observe a harmonia dos movimentos das meninas do Grupo Escolar General Siqueira por meio da Figura I. 318

319 centralizado para a realização das atividades físicas exigidas pelos regulamentos da Instrução Pública. Além dessa centralização do pátio, percebemos a existência dos corredores acompanhando os pavilhões, o que poderia tornar a vigilância mais assídua. Vigiar e punir eram atribuições inseridas no cotidiano dos grupos escolares. Alunos professores eram observados e controlados em muitas de suas ações e a arquitetura dos prédios escolares contribuíam para facilitar o processo de vigília. Do alto do pavilhão o corpo administrativo poderia observar o desenrolar da condução das aulas de ginástica. A visibilidade estava intrínseca na Figura 1: Aula de ginástica da sessão feminina do Grupo Escolar General Valladão. FONTE: Acervo Iconográfico Rosa Faria. Memorial de Sergipe. RFI preparação de corpos dóceis, dotando de condições de defender a pátria. As aulas de ginásticas sintetizavam os princípios do higienismo (físico e moral), do civismo e da vigilância republicana. Na trama da memória republicana na esfera educacional dos Meninas bem vestidas e igualadas por meio do fardamento em primeiros decênios do século XX os olhares perscrutadores não se seus movimentos harmoniosos e sincronizados na aula de ginástica, debruçavam somente nas aulas de ginástica e a dicotomia de construindo a nação brasileira, preparando a futura população. A modelos de ensino primário esmorecia diante do grande momento disposição espacial das alunas no pátio do grupo é reveladora sobre republicano, na celebração do novo regime. Havia um momento em a discussão da arquitetura escolar, pois evidencia suas múltiplas que as duas realidades de ensino se encontravam, ficavam expostas funcionalidades. O antigo prédio do Grupo General Siqueira foi ao grande público: eram os desfiles cívicos. projetado em formato de U, propiciando um amplo espaço 319

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