PL 3.299/2008: FATOR PREVIDENCIÁRIO Câmara dos Deputados

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1 PL 3.299/2008: FATOR PREVIDENCIÁRIO Câmara dos Deputados Ministro da Previdência O Ministro da Previdência Social (MPS), José Pimentel, compareceu dia 07/04, terça-feira, à Câmara dos Deputados para debater o Projeto de Lei que prevê o fim do Fator Previdenciário. O deputado licenciado do PT/CE utilizou dados estatísticos e prospecções para demonstrar a inviabilidade do projeto, em especial, sob o aspecto de seu impacto nos cofres públicos. De acordo com as projeções do Ministério da Previdência Social, o projeto, tal como se apresenta atualmente (com a extinção do fator e com a mudança da base de cálculo), representará, em 2050, uma fatia de 11,09% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro frente a 5,75% do PIB, se mantida a legislação atual [com o Fator]. O Ministro sustentou, também, que o Fator Previdenciário é aplicado em uma minoria dos benefícios. Assim, observou que para aqueles que se aposentam somente por idade, o Fator incide positivamente na realidade, até aumentando o valor da aposentadoria. De acordo com ele, em 2008, a Previdência concedeu 4,46 milhões de benefícios, dos quais: - 377,83 (8,5%) são assistenciais; - 3,26 milhões (73,1%) são por invalidez, pensões, auxílios, salário-família e outros benefícios sob os quais o Fator não incide; e - 820,80 mil (18,4%) por idade e tempo de contribuição, sendo que 551,88 (12,4%) são aposentadorias que foram aumentadas ou alcançaram o Fator 1 e 268,92 mil (6%) são aposentadorias por tempo de contribuição (em que houve incidência obrigatória do Fator). Em referência à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a extinção do vínculo empregatício, quando da concessão da aposentadoria espontânea, Pimentel afirmou que os brasileiros aposentam e continuam em seus empregos, pois faz parte da política de Recursos Humanos das principais empresas a não demissão desses funcionários. Além disso, sustentou que a maioria dessas pessoas possui previdência complementar, ou seja, não depende unicamente da aposentadoria pública básica (apesar de ter contribuído com a mesma igualmente àqueles que dela dependem). Pimentel salientou a injustiça contida na base de cálculo que utiliza os últimos 36 meses de contribuição, proposta pelo Senado. A média curta prejudica os 1

2 trabalhadores de menor renda, já que estes apresentam queda em seus rendimentos ao final da vida laboral. Por fim, o Projeto de Lei do Senado (PLS) não é recomendado pelo MPS como alternativa viável ao atual sistema previdenciário, pois além de elevar a proporção de gastos da previdência, apresenta injustiças. Opinião do relator O relator do PL 3299/08 na CFT, deputado Pepe Vargas (PT/RS), declarou que a política previdenciária do país deve se situar "no meio" dos dois cenários identificados nos ciclos de debates. Resumidamente, há aqueles que cobram restrição nos benefícios previdenciários, por causa da mudança do perfil populacional brasileiro (aumento da quantidade de idosos e redução do número de crianças), e há aqueles que preveem a compensação do aumento da população idosa com o crescimento da população economicamente ativa. Apesar das pressões, o parlamentar não cedeu e disse que - diante da posição do Governo de vetar a extinção pura e simples - pretende adotar o Fator 85/95, que dá direito à aposentadoria com valor integral, desde que a soma do tempo de contribuição com a idade seja 85 (para mulheres) e 95 (para os homens), observado o mínimo de tempo de contribuição de 30 anos (para mulheres) e 35 (para homens). Seu parecer deve contar com um substitutivo, já que o deputado é contra a média curta [que usa como base para o cálculo os últimos 36 meses de contribuição] aprovada no Senado. Segundo ele, este critério é injusto, visto que o trabalhador autônomo pode escolher quanto contribuir enquanto para o assalariado a contribuição é descontada em folha. O relator também vai propor o congelamento da chamada "tábua de mortalidade" no momento em que o trabalhador completar o tempo de contribuição. Atualmente, como a expectativa de vida no país vem aumentando, o brasileiro precisa contribuir durante um tempo cada vez maior para alcançar a aposentadoria integral. A intenção do parlamentar é entregar seu parecer até o dia 15 de abril. Entidades patronais No dia 26 de março, foi realizada a primeira audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação para debater o PL 3.299/2008. Os representantes de entidades empresariais participaram do encontro e salientaram as perdas financeiras e a 2

3 ameaça à capacidade de gastos sociais e investimentos que o fim do Fator Previdenciário representa. O consultor da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Raul Velloso, argumentou que a matéria, tal como aprovada pelo Senado, resultará em um enxugamento dos cofres públicos, já que o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) economizou com esse mecanismo R$ 10 bilhões. De acordo com a perspectiva do segmento, a manutenção do Fator Previdenciário é justificável se considerar o papel fundamental que esta ferramenta adquiriu: a manutenção do equilíbrio das contas públicas. Para o diretor de Relações Institucionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Marco Antônio Guarita, mesmo com a melhoria nas receitas, o sistema ainda continua deficitário. O consultor da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (CNF), Thomas Tosta de Sá, lembrou que o Projeto de Lei representa um retrocesso no processo de redução das despesas com benefícios previdenciários. Esta preocupação é compartilhada com outros segmentos, principalmente, porque os gastos com previdência social no Brasil não são compatíveis com a realidade demográfica do país, que é classificado como jovem ainda. Também participaram da audiência pública, o presidente da Confederação Nacional de Serviços (CNS), Luigi Nesse, o vice-presidente da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e Capitalização (FENASEG), Nilton Molina, e o consultor jurídico da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Cid Heráclito de Queiroz. Entidades sindicais No dia 31 de março, aconteceu mais um turno do ciclo de debates sobre o PL 3.299/2008 na CFT. Desta vez, foram ouvidas as centrais sindicais que destacaram a inviabilidade da continuidade do fator, considerado ineficaz em atingir o equilíbrio das contas previdenciárias. Contudo, os discursos divergiram quanto à flexibilidade frente à proposta do relator. O secretário geral da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Francisco Canindé Pegado, afirmou que o Fator teve impacto irrisório na economia brasileira. Ainda salientou que a eliminação deste mecanismo implica na declaração de nulidade do mesmo, ou seja, obriga a revisão [e restituição] dos benefícios de todos os brasileiros que se aposentaram no período em que o mecanismo esteve vigente. 3

4 Outra crítica questionava a confiabilidade dos dados do IBGE que definem a expectativa de vida e a tábua de mortalidade e, portanto, afetam diretamente o cálculo das aposentadorias. As apresentações também tiveram em comum o destaque à necessidade de manutenção da média longa, com pelo menos os 60 maiores salários. Esta parcial reforma da previdência deve estimular a continuidade no emprego e frear a constatação estatística que demonstra relevante e crescente instabilidade laboral. Para o presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Antônio Neto, o arrocho produzido pelo Fator Previdenciário vai de encontro à política anunciada por Lula em sua campanha e nega sua história de luta sindical. Tal acusação foi levantada também por outros representantes. O presidente da CGTB alegou que a economia do Ministério da Previdência [R$ 10 bilhões, que engordaram o superávit primário ] ocorreu às custas da subtração do dinheiro dos aposentados. Em um momento de crise, a estratégia adotada deve priorizar o estímulo ao mercado interno. Apesar do discurso inicialmente agressivo, Neto admitiu que a CGTB concorda com a proposta do Fator 80/90, que prevê redução de cinco anos na soma da idade com o tempo de contribuição exigida pelo relator. De acordo com essa fórmula, sobre as somas menores que 90 incidiriam descontos de 2% no valor da aposentadoria e sobre as somas maiores que 90 haveria um acréscimo de 2%. O presidente da Central observou, ainda, que o setor de previdência privada tem crescido no Brasil e que as seguradoras privadas têm, em sua maioria, gestões feitas por bancos. O representante destacou a perda de espaço do projeto de previdência pública complementar constitucionalmente instituído. O presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT/SP), também mostrou inclinação da entidade em discutir a proposta do Fator 85/95, desde que seja mantido como critério para aposentadoria apenas o tempo de contribuição e que a porcentagem do benefício se aproxime mais do valor integral. Além disso, outra preocupação é a incerteza do Fator em determinar o tempo de trabalho necessário para se atingir o Fator 1. O parlamentar deu notoriedade à necessidade e ao direito do trabalhador de saber quanto tempo ele deve trabalhar para alcançar os 100% (ou 110% ou 120%, se for o caso) do benefício. Com uma postura menos centrista, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Arthur Henrique da Silva Santos, defendeu a completa eliminação do Fator e reiterou que as alternativas apresentadas apenas aliviam, mas mantém o mecanismo. As outras opções carregam o mesmo problema, pois 4

5 pressupõem que o funcionalismo (público e privado) tem as mesmas características, sendo que o setor privado tem alta rotatividade de postos de trabalho. Arthur Henrique se opôs à proposta que tem como critérios para aposentadoria o tempo de contribuição e a idade mínima, pois os trabalhadores que iniciam a vida laboral mais cedo são os mais prejudicados neste caso, além de já pertencerem, geralmente, às faixas de menores remunerações. O membro da Secretaria Executiva da Coordenação Nacional de Lutas (CONLUTAS), Luis Carlos Prates, se aliou às críticas mais duras ao Fator, à proposta do relator Pepe Vargas e ao Governo Lula, que já sinalizou explicitamente sua intenção de vetar o Projeto de Lei. As críticas se estenderam à incoerência dos atuais e generosos incentivos aprovados pelo Congresso Nacional no que concerne aos bancos (referente às medidas provisórias anticrise), ao setor automobilístico e da construção civil (que tiveram isenção do imposto sobre produtos industrializados IPI) e às liberações de recursos ao BNDES. Prates disse não fazer sentido discutir concessões como as apresentadas no relatório de Pepe Vargas diante de tal cenário. Quanto a isso, ainda, acusou o relator de embutir em seu voto [com o Fator 85/95] o critério da idade mínima. A ideia foi defendida também pelo dirigente da Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST), Celso Amaral Pimenta. O diretor acrescentou que a proposta [da idade mínima] já foi derrotada quando discutida a Reforma da Previdência em Também estiveram presentes o representante da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (COBAP), Moacir Meirelles, o secretário de Relações Institucionais da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Joilson Cardoso, a presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP), Assunta Di Dea Bergamasco, e a representante da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (CONTAG), Alessandra Lunas. Debate técnico O debate entre especialistas, no dia 02 de abril, foi marcado pela divergência, em especial, quanto às consequências do fim do Fator ao equilíbrio atuarial do setor previdenciário. O técnico de planejamento e pesquisa do IPEA, Leonardo Rangel, elogiou a proposta do relator Pepe Vargas de mesclar a variável anos de contribuição com o 5

6 Fator 85/95. O especialista constatou que o Fator Previdenciário é um mal necessário e, diante de tal fato, a proposta alternativa elaborada é coerente, porque elimina o aspecto da incerteza e incentiva a permanência no emprego - já que deixa mais transparentes tais incentivos para postergar a aposentadoria. Já o advogado Matusalém dos Santos afirmou que a eliminação do Fator não representa a falência do sistema, assim como não representou sua salvação. De acordo com o especialista, a economia real gerada para a Previdência foi de 0,69% nos dez anos [R$ 10 bilhões menos os gastos com pagamento de benefícios no mesmo período, R$ 1,456 trilhão]. Matusalém alertou que a seguridade social deve ser pensada e articulada conforme o princípio constitucional da solidariedade. O chefe do Departamento de Risco de Mercado do BNDES, Fábio Giambiagi, discursou a favor do Fator Previdenciário e o afirmou enquanto instrumento justo, por possuir o ideal de que quem contribui por mais tempo deve ganhar mais. Também classificou o sistema previdenciário brasileiro como excessivamente generoso. De acordo com ele, o problema da seguridade social do país tem respaldo nessa generosidade. Giambiagi diminuiu a importância das incertezas criadas pelo fator, utilizando o mesmo argumento das entidades patronais: a importância do Fator ao sistema. Por fim, o representante defendeu a confiabilidade nos dados do IBGE, destacando que estes somente traduzem uma incorporação estatística da realidade brasileira e corrigem adequadamente o fator. Em oposição a tal exposição, o professor de economia da Universidade Federal de Uberlândia, Guilherme Costa Delgado, finalizou a rodada de discussões destacando três perspectivas do Projeto de Lei: 1) a fiscal financeira; 2) a demográfica; e 3) a do direito social. O professor atentou que o Projeto não é satisfatório. A matéria trata o direito à aposentadoria exclusivamente sob a ótica dos segurados do INSS, ou seja, visa melhorar as condições de quem já está inserido no sistema. Contudo, Delgado lembrou que o direto à aposentadoria e a garantia de acesso ao sistema previdenciário são direitos de todos os brasileiros. Assim, a intenção verdadeira (de universalização e inclusão) do Projeto de Lei foi questionada. O acadêmico sustentou que o direito social em uma sociedade tão desigual como a brasileira corresponde, inevitavelmente, à pena fiscal. Neste sentido, se o objetivo é a universalização, parcela dos que já pertence ao sistema terá que pagar pela inclusão daqueles que estão marginalizados. 6

7 Por fim, Delgado considerou o Fator injusto, uma vez que tem como base apenas o direito atuarial e desconsidera o direito social. No que concerne a isto, se juntou as outras exposições e fixou a não sustentabilidade da média curta, aprovada pelo Senado Federal. Parlamentares Entre os parlamentares que mais se manifestaram sobre o Projeto de Lei, destaca-se Virgílio Guimarães (PT/MG), autor do PL 4.447/2008 [apensado], que defende que a aprovação do Projeto de Lei do Senado, ou do relatório de Pepe Vargas, significa um retrocesso à precariedade do sistema anteriormente vigente [aposentadoria por tempo de serviço]. Guimarães se opõe ao fim do Fator e propõe a utilização do Fundo de Garantia do Tempo Serviço (FGTS) para arrumar o sistema. Os deputados Zonta (PP/SC), Acélio Casagrande (PMDB/MG) e Luiz Carlos Hauly (PSDB/PR) se colocaram contra o Fator Previdenciário e a favor da aprovação do Projeto de Lei do Senado. De acordo com Hauly, o Fator 85/95 é uma saída política que apenas tangencia o problema, não o resolve. A deputada Luciana Genro (PSOL/RS), em um tom mais imperativo, disse estranhar o discurso favorável à manutenção do Fator defendido pelo ministro José Pimentel - deputado da oposição na Câmara quando o projeto de criação do Fator tramitava no Governo Fernando Henrique Cardoso. Ela sustentou, ainda, que a tão citada economia de R$ 10 bilhões, poderia ter movimentado o mercado interno, dinamizando a economia brasileira e gerando riquezas. Além disso, a parlamentar fez referência ao montante pago em juros e amortização da dívida [R$ 56 bilhões] para defender que o problema das contas públicas não está nos aposentados ou no sistema previdenciário do país. Já o deputado Félix Mendonça (DEM/BA) se colocou a favor do relatório de Pepe Vargas [Fator 85/95] e argumentou que trabalhar é uma terapia, não é um castigo. Fonte: DIPAR, por Gabriela Amaral. Elaine Michel Diretora de Relações Externas e Parlamentares DIPAR. Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil ANABB. 7

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