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1 À Agência Nacional de Energia Elétrica - Aneel Ref.: Audiência Pública nº 047/12 - Proposta de resolução que estabelece os procedimentos e as condições para a prestação de atividades acessórias pelas concessionárias e permissionárias de serviço público de distribuição de energia elétrica. Sugestões. ACE SEGURADORA S/A, empresa com sede na Av. Paulista, nº º/18º andares, São Paulo - SP, inscrita no CNPJ sob o nº / , a seguir denominada simplesmente "ACE", vem, apresentar no prazo regulamentar, suas contribuições em relação à Audiência Pública nº 047/12, a qual visa a obtenção de subsídios para a regulamentação dos procedimentos e das condições para a prestação de atividades acessórias pelas distribuidoras e permissionárias de distribuição de energia elétrica, assim como para a cobrança de produtos e serviços de terceiros por meio da fatura de energia elétrica. O assunto em epígrafe merece a total atenção e consideração da ACE na medida em que implica em alterações na legislação da ANEEL, a qual interferirá diretamente na real possibilidade de comercialização de seguros e outros serviços por meio de contas de eletricidade. E esta comercialização tem sido importante fator de disponibilização da proteção securitária a setores da população que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a tal benefício, conforme fatos e motivos que a seguir expõe, para ao final requerer. I - Dos Fatos A ACE é uma seguradora regularmente estabelecida no Brasil e registrada perante a Superintendência de Seguros Privados - SUSEP - para atuar em todos os ramos de seguro. A ACE é pioneira no desenvolvimento de parcerias com empresas concessionárias e permissionárias de distribuição de energia elétrica, através das quais oferece seus seguros aos clientes e consumidores destas empresas. Por meio das empresas concessionárias e permissionárias a ACE disponibiliza a contratação de seguros de forma massificada. Isso, juntamente com a estruturação de seguros destinados à prover coberturas a famílias de todas as faixas de renda e de todas as regiões do país, o que permite uma significativa redução dos respectivos prêmios a serem pagos pelos clientes que desejam contratá-los. Deste modo, viabiliza-se a oferta de seguros com coberturas de morte, incapacidade decorrente de acidente, incêndio, danos elétricos, desemprego, dentre

2 outras modalidades, com custos mensais a partir de R$2,00, conforme exemplos a seguir indicados. CPFL PIRATININGA - Seguro em Conta Incêndio Raio Explosão Até R$ ,00 Desemprego Involuntário Incapacidade Física Temporária Morte qualquer causa Invalidez Permanente Total por Acidente Até 3 contas Até 3 contas 12 contas quitadas 12 contas quitadas Acidentes Pessoais R$ 1.000,00 Sorteio R$ 5.000,00 Assistência Emergenciais 24 horas SIM Prêmio R$ 2,90 RGE - Seguro Vida Tranquila Incêndio Raio Explosão Até R$ ,00 Desemprego Involuntário Até 4 parcelas de R$ 228,00 Incapacidade Física Temporária Até 4 parcelas de R$ 228,00 Morte qualquer causa 12 parcelas de até R$ 228,00 Invalidez Permanente Total por Acidente 12 parcelas de até R$ 228,00 Supermercado 12 x R$ 114,00 Sorteio R$ 5.750,00 Assistência 24 horas SIM Prêmio R$ 3,99

3 Esta forma de comercialização massificada do seguro, com custos reduzidos e estrutura apropriada somente é possível porque o respectivo prêmio é recolhido dos clientes através da fatura de energia elétrica mensal, enviada aos consumidores pelas concessionárias e permissionárias de distribuição de energia elétrica, as quais repassam o valor do prêmio arrecadado à ACE. Ocorre que o aproveitamento da fatura de energia elétrica mensal para a cobrança do prêmio é parte vital da operacionalização da venda do seguro nesta modalidade massificada, sendo inviável nesse contexto a cobrança do prêmio em dois códigos de barras diferenciados, como demonstraremos ao longo deste trabalho. Isso porque, além das inúmeras dificuldades operacionais no caso do seguro, a utilização de duas barras de código diferenciadas demanda na prática a necessidade de dois convênios de cobrança, e o tal custo adicional resultaria em prêmio de mais que o dobro do valor acima indicado. Não se trata de argumento catastrofista e sim de fato evidente, já que o custo da cobrança em questão, no mínimo, dobraria. Por outro lado, o consumidor poderia entender, baseado no que sempre realizou, que ao pagar um dos códigos de barras estaria quitando todas as suas obrigações, podendo resultar na inadimplência equivocada do serviço de distribuição de energia ou do seguro. Ademais, a seguir será (i) demonstrada a evidente desnecessidade de mudança da sistemática atual de cobrança de serviços por meio da conta de energia e (ii) apontados outros reflexos danosos decorrentes da eventual nova regra da ANEEL obrigando a cobrança através de códigos de barras distinto para a energia e para serviços (inclusive seguros). II - Da Proposta de Resolução Normativa da ANEEL e do Objeto dessa Manifestação A proposta de Resolução Normativa que trata dos procedimentos e condições para a prestação de atividades acessórias pelas concessionárias e permissionárias do serviço de distribuição de energia elétrica, elaborada pela Aneel e ora em debate, disponível para consulta através do site da ANEEL, _-_atividades_acessorias.pdf, caracteriza como acessória a atividade de natureza econômica exercida pela distribuidora por sua conta e risco, de forma acessória ao objeto do contato de concessão ou permissão. Tais atividades acessórias são classificadas na referida proposta de Resolução como próprias, complementares ou atípicas, estas últimas exercidas exclusivamente por terceiros que tenham interesse em incluir a sua cobrança pela prestação de seus serviços e/ou fornecimento de produtos na fatura de energia. Portanto, a oferta de seguros seria considerada atividade atípica e a prestação e a cobrança de atividades acessórias e atípicas estariam condicionadas à

4 prévia solicitação ou concordância do titular da unidade consumidora, por escrito ou por outro meio em que possa ser comprovada. A proposta de resolução estabelece ainda que os valores relativos às atividades acessórias atípicas deverão ser cobrados de forma identificada e discriminada na fatura de energia elétrica, e que o inadimplemento destas cobranças não enseja a suspensão do fornecimento de energia elétrica. Outro ponto que integra a referida proposta é que em caso de cobrança indevida, ou mesmo ante a ausência de comprovação da prévia solicitação ou concordância da contratação, deverá o valor cobrado, e já pago, ser devolvido em dobro, acrescido de atualização monetária e juros de mora. Além disso, pode o consumidor, a qualquer tempo, solicitar diretamente à distribuidora o cancelamento de qualquer cobrança de terceiro, sem a necessidade de contrato prévio ou anuência do prestador do serviço ou fornecedor do produto a que se refere a cobrança. Existe também vedação para que a distribuidora utilize ou compartilhe seus recursos humanos, materiais, postos de atendimento e demais canais de atendimento ao consumidor para a prestação de serviços ou venda de produtos caracterizados como atividades acessórias atípicas, exceto para o atendimento dos pedidos de cancelamento da prestação de serviços e/ou fornecimento de produtos. Como se vê, existe na norma proposta um amplo rol de regras protegendo os consumidores de abusos e falhas por parte dos prestadores de serviços. Isso, note-se, sem que sequer se possa apontar tal espécie de negócio como especialmente geradora de problemas para os consumidores. Já não caberia do ponto de vista econômico uma operação desajustada e que desrespeitasse o direito dos consumidores, e tais proteções tornam essa uma hipótese quase uma impossibilidade prática. O ponto que causa a irresignação da ACE, e demanda reavaliação por parte da ANEEL é a necessidade da cobrança das atividades acessórias por meio de código de barra específico para esta finalidade, de forma separada e exclusiva do serviço de distribuição de energia elétrica. Como restará demonstrado abaixo, tal forma de cobrança, se fosse implementada (para o que hoje sequer existe a tecnologia adequada) apresenta uma série de problemas logísticos e riscos que aumentariam de forma significativa o custo e provavelmente inviabilizariam a operação, que se caracteriza justamente pelo baixo custo e pela simplicidade. De fato, a proposta de Resolução está redigida em bons termos, e confere a necessária proteção dos interesses dos consumidores de forma geral, considerando os princípios gerais de defesa do consumidor à luz da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, como a seguir comentaremos. Contudo, a exigência da efetivação da cobrança através de código de barras exclusivo - duplo código de barras como vem sendo chamado, de forma

5 apartada a cobrança do fornecimento de energia elétrica configura-se demasiada, e se mantida pela ANEEL acabará por impossibilitar a operacionalização da oferta do seguro de forma massificada, implicando a majoração substancial dos valores dos prêmios e, na prática a impossibilidade da oferta destes produtos aos consumidores, como restará demonstrado. III - Breve histórico do contexto legal no qual se insere a prestação das atividades acessórias Nos termos da Lei nº 8.987/95, que trata do regime de concessão e permissão da prestação de serviços públicos, existe previsão para a prestação de outros serviços pelas empresas concessionárias e permissionárias de distribuição de energia elétrica, além daqueles estritamente relacionados com o objeto de suas atividades. O art. 11 da Lei assim dispõe: "Art. 11. No atendimento às peculiaridades de cada serviço público, poderá o poder concedente prever, em favor da concessionária, no edital de licitação, a possibilidade de outras fontes provenientes de receitas alternativas, complementares, acessórias ou de projetos associados, com ou sem exclusividade, com vistas a favorecer a modicidade das tarifas, observado o disposto no art. 17 desta Lei". (grifos nossos) É, portanto, legalmente possível a criação de outras fontes de receitas alternativas, e de fato tem havido a cobrança de atividades acessórias aos serviços de distribuição de energia elétrica. Aliás, a Portaria do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica, DNAEE nº 222/87 já possibilitava a inclusão de mensagens publicitárias nas faturas de energia elétrica, dispondo ainda que os recursos arrecadados seriam aplicados no sistema do concessionário. posteriormente, a Portaria nº 466/97, estabeleceu a possibilidade de efetivação da cobrança de outros serviços na fatura de energia elétrica. Na mesma linha, a Resolução ANEEL nº 456/00 também previu a prestação de outros serviços, desde que contratados livremente pelo consumidor, mediante sua autorização, facultando a cobrança dos mesmos na fatura de energia elétrica, de forma discriminada. Nota-se que a cobrança das atividades acessórias já vem sendo praticada no setor elétrico desde 1987, e portanto, é usual para seus consumidores a possibilidade de contratar o fornecimento de outros serviços acessórios, além de contar com a comodidade de suas cobranças através da fatura de energia elétrica. Não é demais salientar que, nesse período, a universalização do consumo de energia foi fator importante de inclusão social, inclusão esta que pressupõe, entre outros elementos, a capacidade de consumir. E, para isso, a

6 existência de um canal simples e funcional como a conta de energia, esta se transforma em um forte catalizador desta inclusão social. IV - Do Seguro A comercialização de seguros é atividade privativa das seguradoras regularmente registradas no país, e é detalhadamente normatizada pelas regras emitidas pelo Conselho Nacional de Seguros Privados - CNSP, e controlada e fiscalizada pela Superintendência de Seguros Privados - SUSEP. Somente através das concessionárias e permissionárias de energia elétrica a ACE garante a proteção de aproximadamente 2 milhões de consumidores, por meio de contratos de seguros de diversos ramos e coberturas. Grande parte destes seguros são comprados por populações de baixa renda, às quais o acesso somente é possível, a custos reduzidos, pela arrecadação dos prêmios através da fatura de energia elétrica, nos moldes atualmente praticados. Um tema muito em voga atualmente na indústria de seguros é o microsseguro, o qual, após amplo e longo debate, foi recentemente normatizado com a publicação da Circular SUSEP nº 439 em junho de Como se sabe, tal modalidade de seguro visa proteger exatamente as classes sociais menos favorecidas, possibilitando o ingresso das mesmas no setor, e o seu incentivo pelo Governo não é uma medida isolada. Diferentemente, insere-se no contexto maior do esforço para inclusão social e distribuição da renda, que em última instância é a disponibilização, para as classes menos favorecidas, dos benefícios do desenvolvimento econômico. Infelizmente, o Brasil, mesmo quando comparado com outros países da América Latina, ainda está bastante atrasado quanto a popularização do instituto do seguro, que alcança apenas pequena parcela da sociedade. A contratação do seguro não é um luxo, mas sim uma necessidade. E neste contexto, o microsseguro oferece proteção aos segmentos mais pobres da população. Aliás, pela maior dificuldade em acumular poupança, as classes de menor renda são justamente aquelas que mais precisam de proteção pessoal e patrimonial. São elas que, por exemplo, correm o risco de, diante do desemprego ou invalidez do pai ou da mãe de família, não terem a capacidade de pagar a sua conta de energia e perder o fornecimento da energia elétrica, sobre cuja necessidade não é necessário tecer qualquer comentário (em anexo, seguem fotografias de exemplo de sinistros cobertos pelo seguro). Nesse contexto, difícil vislumbrar exemplo melhor de distribuição de renda, já em vigor, do que a comercialização de seguros de forma massificada aos consumidores do setor elétrico, com reduzidos valores de prêmio, permitindo assim o acesso de camadas menos favorecidas da população à proteção securitária.

7 Segundo dados obtidos da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNSeg), o mercado-alvo para o microsseguro é constituído principalmente por pessoas com renda de até 3 salários mínimos, ou seja, os 128 milhões de indivíduos das classes C e D. Uma legislação que não onere o mercado (custo regulatório), vários canais de distribuição e produtos adequados às necessidades efetivas dos consumidores de baixa renda estão entre os pré-requisitos listados pelos especialistas do Banco Mundial para o avanço do microsseguro. Assim, a distribuição de seguros, e a cobrança dos prêmios através da fatura de energia elétrica, configura uma das mais importantes ferramentas de popularização do seguro nas camadas menos favorecidas, cumprindo com maestria a missão pretendida pelo microsseguro. V - Dos Aspectos Sociais - Acesso das Classes Menos Favorecidas ao Fornecimento das Atividades Acessórias A oferta da prestação das atividades acessórias representa real benefício aos consumidores de energia elétrica, mormente àqueles de classes sociais menos favorecidas. Isto porque, a comercialização de forma massificada possibilita a redução dos custos de tais serviços e produtos, que são também mais uma opção de contratação dos mesmos. Todavia, por vezes, considerando as dimensões continentais do Brasil e a existência de diversas áreas de difícil acesso, distantes dos grandes centros comerciais, a oferta dos serviços acessórios e produtos pelas concessionárias de energia elétrica representa o principal, senão único, meio de acesso destas populações a tais serviços e produtos. E como política de geração do bem-estar social dos consumidores de energia elétrica, a ANEEL pode ter papel fundamental possibilitando e regulando a forma de acesso e prestação das atividades acessórias. Nota-se que somente através deste tipo de comercialização massificada, e do pagamento através da fatura de energia elétrica, um consumidor de uma região longínqua do país teria acesso a contratação de um seguro, por exemplo, de vida ou de incêndio, com o pagamento de indenização aos seus beneficiários em caso de sua morte ou a reparação dos danos causados por um incêndio ou dano elétrico, pagando para tanto quantias em torno de R$ 5,00. Sabemos que as classes sociais A e B tem à sua disposição grande oferta de serviços e produtos, sejam estes cobrados através de débito automático na conta corrente bancária, cartão de crédito, internet ou outras formas de pagamento.

8 E também deve ser levado em conta que muitas vezes o consumidor elege, dentre outros meios, a fatura de energia elétrica para o pagamento de outros serviços que contrata, já que demanda única providência e esforço para o pagamento de todos. No entanto, as classes econômicas menos favorecidas não contam com o mesmo nível de oferta, muitas vezes em função da dificuldade de acesso a tais populações e principalmente, por falta de um meio eficiente de arrecadação dos seus pagamentos. Note-se, a proteção aos consumidores não pode ir ao ponto de considerá-los incapazes de tomares decisões. Fosse dessa forma, estar-se-ia condenando aquele que se considera hipossuficiente a ficar permanentemente alijado do consumo e dos benefícios do desenvolvimento econômico. O consumidor brasileiro não é incapaz, desprovido de inteligência ou desamparado. Ao contrário, é consciente dos seus direitos e exercendo os mesmos, utilizando, sempre que necessário, todos os instrumentos que tem à sua disposição, como os Procons. Durante as audiências públicas promovidas pela ANEEL, inclusive, foram extremamente reveladores alguns depoimentos. Dentre estes, destacamos dois. O primeiro foi a manifestação de um representante dos consumidores. Diante da insistência de determinados representantes de entidades de proteção ao consumidor, ele indignou-se com a forma como se referiam a integrantes das classes C e D - tratando-os como materialmente incapazes de tomar a decisão de contratar um seguro. Disse ele: "sou membro da classe C e minha família é da classe D. Estão nos julgando incapazes de contratar um plano de afinidade ou um seguro? Pois saibam que nós vemos a possibilidade de tais decisões como uma evolução. E mais, se há alguém que pode deixar de notar que por engano contratou algo, hipótese aliás muito rara, são as classes de maior poder econômico. Nós, da classe C, sabemos exatamente o que pagamos e porque pagamos, até em face do valor relativo de pequenas quantias". Um segundo, e ainda mais marcante, depoimento foi dado por um representante de uma ONG que se manifestou mesmo após ter sido informado pelo representante da ANEEL que a proposta de exigir códigos de barra diferenciados não se aplicaria a entidades sem fins lucrativos e ONGs. Sua manifestação deveu-se, segundo ele, ao fato de "não ter suportado a forma ofensiva como se referiam às classes C e D". Disse em suma que "nenhuma proposta de defesa de consumidor pode deixar de ter como premissa a sua autonomia para tomar decisões. Eu mesmo, como representante da classe C, tenho hoje o problema do smartphone de minha filha adolescente, que está ficando defasado. E o mais interessante é que o celular é uma porta de entrada para uma série de integrações dela, à internet, redes sociais e a informações em geral. Ora, posso decidir ter um celular, posso ter acesso a sites de compras, mas não posso decidir contratar um serviço a ser pago por meio de minha conta de energia? Sinto-me ofendido, como deve se sentir um índio cujo acesso à internet é impedido para evitar que ele perca a sua cultura e sua qualidade de objeto de estudo".

9 Se os consumidores brasileiros podem consumir telefones celulares, ter amplo acesso a computadores e à internet, e pagar por tais serviços através de débito automático, por exemplo, por que não podem contratar seguro e pagar os prêmios através da fatura de energia elétrica? Ademais, vale lembrar que grande parcela da população, infelizmente, não dispõe de conta corrente ou mesmo de um cartão de débito ou de crédito, sendo portanto, a fatura de energia elétrica nestes casos o único meio disponível para possibilitar o pagamento de serviços. Neste cenário, a cobrança através da fatura de energia elétrica possibilita a inserção de todos os consumidores de energia elétrica em segmentos sofisticados, como é o caso do seguro, que confere proteção financeira aos consumidores, em última análise, e este argumento, por si só, deve levar a ANEEL a reflexão, para ao final concluir pela manutenção da cobrança das atividades acessórias de forma conjunta com a fatura de energia elétrica VI - Da Inviabilidade de Efetivação da Cobrança das Atividades Acessórias através de Código de Barras Independentes A minuta de Resolução Normativa ANEEL ora em debate inova, prejudicialmente, no âmbito da sistemática das operações atuais. Isso na medida em que determina que a cobrança das atividades acessórias deve se dar através de um código de barras específico para este fim, de forma separada daquele relativo a cobrança do serviços de distribuição de energia elétrica. Todavia, a exigência do chamado duplo código de barras demonstra-se inviável e se implementada pela ANEEL prejudica e na prática inviabiliza a oferta dos serviços e produtos através da fatura de energia elétrica. A proposta em debate determina que todos as atividades acessórias sejam cobradas através de um único código de barras, o qual poderá conjugar, por exemplo, 3 atividades, sendo 2 prestações de serviços e 1 fornecimento de produtos para um determinado consumidor. Imaginemos os reflexos operacionais danosos que surgirão se este consumidor desejar cancelar 1 prestação de serviço, mantendo o pagamento das 2 atividades acessórias remanescentes. Qual dos fornecedores controlará a recepção deste pedido de cancelamento e será responsável pela geração de nova cobrança, contendo somente as 2 contratações que o consumidor deseja manter? Como seria a conciliação bancária da arrecadação de tais valores pelas empresas concessionárias de energia? Como seria feita a reeducação dos milhares de caixas de bancos e correspondentes bancários relativamente à existência dos dois códigos de barras?

10 Com que frequência o mesmo código seria pago duas vezes, e como se trataria essa situação? Quem assumiria a responsabilidade no caso de o consumidor e o Poder Judiciário entenderem que o pagamento do serviço foi feito, mesmo quando isso não tiver ocorrido? Faz-se perguntas porque, nada obstante o nosso profundo conhecimento da prática de se utilizar contas de energia para cobrar prêmios de seguros, não temos as respostas. Por certo, se todos os obstáculos operacionais criados por um duplo código de barras fossem superados, os custos relativos ao novo processo de cobrança e seus riscos seriam significativamente majorados, o que geraria em última análise, se ainda assim existisse seguro, o repasse dos mesmos aos consumidores das atividades acessórias A necessidade de existência de um código de barras específico e independente gera custos adicionais com a sua emissão, envio aos consumidores, taxa de cobrança pelas instituições bancárias que processam a cobrança, pessoal que compõe a estrutura necessária para possibilitar esta cobrança e a sua posterior conciliação. Outra questão que surge como complicadora, e resta prejudicial ao consumidor, é que a cobrança através de duplo código de barras é uma novidade, e que por certo gerará confusão com esta forma de apresentação. Neste sentido, o consumidor em geral realmente simpatiza com a possibilidade de pagamento através da fatura de fornecimento de serviços públicos, da mesma forma que tem o costume de concentrar diversas compras por vezes em única fatura de cartão de crédito, o que facilita o pagamento pela praticidade que representa. Ao receber a cobrança de 2 códigos de barras pode o consumidor ficar confuso qual deles deverá pagar, podendo acreditar que pode escolher o de custo mais baixo (que pode ser o relativo às atividades acessórias), imaginando assim ter pago a fatura de consumo de energia elétrica. Por certo, a cobrança através de duplo código de barras gerará inúmeros casos de inadimplência do pagamento do próprio consumo de energia elétrica, ocasionando reflexamente o corte do seu fornecimento. Em relação ao seguro existe ainda questão ainda mais sensível relativa a vigência da apólice, que em geral, é de 1 a 5 anos. Ocorre que, nada obstante o prazo da vigência do contrato de seguro, e até para viabilizar que o segurado suporte o custo do seguro, o pagamento do prêmio é mensal, sendo certo que em caso de não pagamento em determinado mês há a suspensão das coberturas securitárias, as quais em certos casos podem ser retomadas mediante o pagamento dos meses que deixaram de ser pagos.

11 Não se trata aqui de regra imposta pelas seguradoras a seus clientes e sim de mandamento legal que protege a coletividade dos segurados na inadimplência de alguns, já que art. 763 do Código Civil determina que "Não terá direito a indenização o segurado que estiver em mora no pagamento do prêmio, se ocorrer o sinistro antes de sua purgação". Além disso, após certo período sem que haja o restabelecimento dos pagamentos mensais, o contrato de seguro é definitivamente cancelado, deixando de existir mesmo a possibilidade de reativação do direito ao recebimento de indenização securitária em caso de sinistro. Em qualquer caso, o reinício ou manutenção da cobrança de prêmio deveria ser precedido de uma nova venda, e se e quando isso acontecesse (lembramos que se trata em alguns casos de uma base de milhões de famílias), o período em que os prêmios não foram pagos não estaria coberto. E tudo isso, note-se, com o segurado possivelmente acreditando que estava coberto, dada sua experiência anterior e com outros instrumentos, como o cartão de crédito e o débito em conta corrente. Note-se, todo esse transtorno estaria sendo causado tão somente para que o segurado tivesse a possibilidade de, na boca do caixa, decidir não pagar o prêmio, ainda que haja a expressa possibilidade de cancelar a cobrança por meio de telefone e solicitar a emissão de uma nova conta. Desta forma, não há argumento capaz de justificar todos os riscos, problemas e custos que serão gerados se obrigatória a cobrança através do duplo código de barras. Se a questão é o amparo ao consumidor, já existem na própria norma da ANEEL vários mecanismos que conferem sua total proteção. Com efeito, a possibilidade de solicitação do imediato cancelamento da cobrança dos serviços acessórios através de atendimento telefônico gratuito, que funcione 24 horas por dia, todos os dias da semana, e possa ser acessado e efetivado diretamente com a concessionária de energia elétrica, confere ampla proteção ao consumidor. E a proteção vai além, quando estabelece a regra de imediato envio de nova fatura de energia elétrica, contendo somente os serviços que quer o consumidor pagar além do fornecimento de energia, isto sem qualquer custo para o consumidor. Se no entanto estes mecanismos falharem, e o consumidor efetivar o pagamento do serviço que não contratou previamente ou, para o qual solicitou o cancelamento, a penalidade automaticamente aplicada para desestimular eventual ineficiência do sistema, é a obrigação de devolução ao consumidor do valor em dobro. Desta forma, repita-se a exaustão, o consumidor está amplamente protegido para qualquer eventual prática que lhe seja prejudicial. Aqueles que se filiam favoráveis ao duplo código de barras defendem que somente desta forma o consumidor pode manifestar, e renovar mensalmente, sua

12 vontade de contratar as atividades acessórias, o que é na verdade um entendimento equivocado. Entretanto, ninguém permanece pagando mensalmente por um serviço ou produto que de fato não utiliza ou não deseja mais usufruir. Temos exemplo disso no débito automático nas contas correntes. É óbvia a comodidade deste sistema tanto para os prestadores de serviço como para os consumidores. Além disso, a redução do custo representada pelo débito automático beneficia a todos os clientes do serviço. Faria sentido proibir o débito automático em razão de problemas ocorridos em casos totalmente isolados? É difícil estabelecer uma estatística, mas pode-se dizer que a intensidade dos problemas com consumidores que perderam seus benefícios por uma mudança no número ou dígito da conta sem a portabilidade dos débitos automáticos é semelhante ou até maior do que a dos casos que um débito automático inicia-se por uma falha do prestador do serviço ou do consumidor. Por isso é que o art. 6º da minuta de Resolução ANEEL deve ser ajustado nos seguintes termos: "Art. 6º A cobrança de atividades acessórias ou atípicas pode ser viabilizada por meio da fatura de energia elétrica, sendo seus valores e identificação devidamente discriminados no referido documento". VII - Do Princípio da Modicidade Tarifária A Lei nº 8.987/95 faculta a criação de fontes provenientes de receitas alternativas, complementares, acessórias ou de projetos associados, visando favorecer a modicidade das tarifas. Sobre o princípio da modicidade de tarifas, o art. 6º da citada Lei de Concessões assim estabelece: Art. 6º Toda concessão ou permissão pressupõe a prestação de serviço adequado ao pleno atendimento dos usuários, conforme estabelecido nesta Lei, nas normas pertinentes e no respectivo contrato. 1 o Serviço adequado é o que satisfaz as condições de regularidade, continuidade, eficiência, segurança, atualidade, generalidade, cortesia na sua prestação e modicidade das tarifas. A tarifa cobrada dos usuários deve ser modesta, de tal forma que o acesso ao serviço público seja amplo. Neste contexto, leciona Arnoldo Wald 1, acerca da modicidade tarifária: Wald, Arnoldo, O Direito de Parceria e a Lei de Concessões: Análise das Leis 8987/95 e 9074/95. 2ª Edição. São Paulo, Editora Saraiva, 2004.

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