MODERNISMO. Vício na fala

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1 MODERNISMO Vício na fala Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mio Para pior pio Para telha dizem teia Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhado. (Oswald de Andrade) Descobrimento Abancado a escrivaninha em São Paulo Na minha casa da Rua Lopes Chaves De repente senti um friúme por dentro. Fiquei trêmulo, muito comovido Com o livro palerma olhando pra mim. Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim Na escuridão ativa da noite que caiu Um homem pálido, magro, de cabelo escorrendo nos olhos, Depois de fazer uma pele com a borracha do dia, Faz pouco se deitou, está dormindo. Esse homem é brasileiro que nem eu. (Mário de Andrade)

2 Irene no Céu Irene preta Irene boa Irene sempre de bom humor. Imagine Irene entrando no céu: _ Fiança, meu branco! E São Pedro bonachão: _ Entra Irene. Você não precisa pedir licença. (Manuel Bandeira) Poema tirado de uma notícia de jornal João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia Num barracão sem número Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. (Manuel Bandeira) Brasil-Menino Meu pai era gigante, domador de léguas. Quando um dia partiu, a cavalo No seu dragão de pêlo azul que era o Tietê dos Bandeirantes, Lembro-me muito bem de que me disse: olhe, meu filho, Eu vou sururucar por esta porta e um dia voltarei [Trazendo umas duzentas léguas de caminho [E umas dezenas de onças arrastadas pelo [rabo a pingar sangue do focinho!

3 E dito e feito! Lá se foi dando impurrôes no mato dos barrancos Por entre alas de jacarés e de pássaros brancos. Quando veio o Natal meu pai estava longe, Em luta com os bichos peludos, com os gatos grandões [de cabeça listada e com as mulas-de-sete-cabeças [que moram no fundo das árvores espessas. No planalto batia um sino perguntando: ele não vem? Ele não vem? Um outro sino de voz grossa respondia: não...e [não, dizendo nããõ e não. II E eu me lembrei de procurar um par de botas Das que meu pai usava e pôr o par de botas Atrás da porta do sertão que resmungava entocaiado no arvoredo. Como fazia frio aquela noite! Fiquei com tanto medo...um gato corrumiau Passeava pelos vãos de telha-vã... Mas chegou a manhã, linda como um tesouro! E eu fui achar, com o coração aos pulos de alegria, As duas botas de couro Abarrotadas de ouro!

4 III Passou mais um ano e meu pai não voltou. Boteis meus sapatões atrás da porta novamente E no outro dia Fui encontrar meus sapatões abarrotados de esmeraldas! Minha vovó, uma velhinha portuguesa com cabelo de [garoa e xale azul-xadrez me garantia: _ Foi o papa Noel que trouxe. Até que um dia fiz que não mais vi; acordei da ilusão. Meu pai era um gigante, caçador de léguas, Um feroz domador de onças pretas, Terror do mato, assombração das borboletas Mas tinha um grande coração Por fim cresci. Hoje sou gente grande. Sou comissário de café. Tenho viadutos encantados. Minha cidade é esse túmulo colorido que ao passa Levando as fábricas pelas rédeas pretas de fumaça! (Cassiano Ricardo) Mário de Andrade Moça linda bem tratada Moça linda bem tratada, Três século de família, Burra como porta:

5 Um amor. Grã-fino de despudor, Esporte, ignorância e sexo, Burro como uma porta Um coió. Mulher gordaça, filó De ouro por todos os poros Burra como uma porta: Paciência... Plutocrata *sem consciência, Nada porta, terremoto Que a porta do pobre arromba Uma bomba (Mário de Andrade) O Capoeira _ qué apanha sordado? _ O que? _Qué apanha? Pernas e cabeças na calçada. (Oswald de Andrade) Estrela da Manhã Eu quero a estrela da manhã Onde está a estrela da manhã? Meus amigos meus inimigos Procurem a estrela da manhã Ela desapareceu ia nua Desapareceu com quem? Procurem por toda parte Digam que sou um homem sem orgulho Um homem que aceita tudo Que me importa? Eu quero a estrela da manhã Três dias e três noites Fui assassino e suicida Ladrão, pulha e falsário Virgem mal-sexuada Atribulada dos aflitos

6 Girafas de duas cabeças Pecai por todos pecai por todos Pecai com os malandros Pecai com os sargentos Pecai com os fuzileiros navais Pecai de todas as maneiras Com os gregos e os troianos Com o padre e o sacristão Com o leproso de Pouso Alto Depois comigo Te esperei com maluás novenas cavalhadas comerei terra e direi Coisas de uma ternura tão simples Que tu desfalecerás Procurem por toda parte Pura ou degredada até a última baixeza Eu quero a estrela da manhã (Manuel Bandeira)

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