Cuidar do presente com os jovens

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1 y(7hb5g3*qltkks( +:!#!z!&!z! Preço 1,00. Número atrasado 2,00 L O S S E RVATOR E ROMANO EDIÇÃO SEMANAL Unicuique suum EM PORTUGUÊS Non praevalebunt Ano XLIX, número 40 (2.535) Cidade do Vaticano quinta-feira 4 de outubro de 2018 INAUGURAD O O SÍNOD O Cuidar do presente com os jovens

2 página 2 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 Uma teologia a caminho O Santo Padre recebeu os participantes num congresso sobre a ternura Hoje é necessária uma «teologia a caminho» capaz de dar vida a uma verdadeira «revolução da ternura»: disse o Pontífice aos participantes no congresso organizado pelo centro Casa da ternura de Perugia, que recebeu em audiência no dia 13 de setembro na Sala Clementina. Amados irmãos e irmãs! Saúdo-vos cordialmente e agradeço ao Cardeal Bassetti a gentil saudação que me dirigiu em vosso nome, e também as vossas palavras, que me informaram acerca do trabalho que fazeis. Nos dias passados refletistes sobre a teologia da ternura, e eu gostaria simplesmente de vos dizer algo, pois quando vi que o título era este, comecei a estudar. Quisestes que eu lesse este livro para compreender o que era a questão. Um bom livro, conhecei-lo, o de Rocchetta. É ótimo... É ele? [aplausos] Gostaria de vos propor simplesmente três aspetos. O primeiro refere-se à expressão teologia da ternura. Teologia e ternura parecem duas palavras distantes: a primeira aparenta evocar o âmbito académico, a segunda as relações interpessoais. Na realidade a nossa fé une-as indissoluvelmente. Com efeito, a teologia não pode ser abstrata se fosse abstrata seria ideologia porque nasce de um conhecimento existencial, nasce do encontro com o Verbo feito carne! Por isso, a teologia está chamada a comunicar que Deus amor é concreto. E ternura é um bom existencial concreto, para traduzir para os nossos tempos o afeto que o Senhor sente por nós. Com efeito, hoje concentramonos menos, em relação ao passado, no conceito ou na praxe e mais no sentir. Pode não agradar, mas é um dado de facto: parte-se daquilo que se sente. Certamente a teologia não se pode limitar a sentimento, mas também não pode ignorar que em muitas partes do mundo a abordagem às questões vitais já não começa pelas perguntas últimas nem pelas exigências sociais, mas por aquilo que a pessoa sente emotivamente. A teologia é interpelada a acompanhar esta busca existencial, contribuindo com a luz que vem da Palavra de Audiência à vice-presidente da República do Azerbaijão A 26 de setembro, o Papa recebeu num ambiente adjacente da Sala Paulo VI Sua Excelência a senhora Mehriban Aliyeva, primeira vice-presidente da República do Azerbaijão Deus. E uma boa teologia da ternura pode declinar a caridade divina neste sentido. É possível, pois o amor de Deus não é um princípio geral abstrato, mas pessoal e concreto, que o Espírito Santo comunica no íntimo. Com efeito, ele alcança e transforma os sentimentos e os pensamentos do homem. Quais conteúdos poderia ter então uma teologia da ternura? Dois parecem-me importantes, e são os outros aspetos que gostaria de vos propor: a beleza se nos sentirmos amados por Deus e a beleza de sentir que amamos em nome de Deus. Sentir-nos amados. É uma mensagem que nos últimos tempos chega até nós mais forte: do Sagrado Coração, de Jesus misericordioso, da misericórdia como propriedade essencial da Trindade e da vida cristã. Hoje a liturgia recordou-nos a palavra de Jesus: «Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36). A ternura pode indicar precisamente o nosso modo de acolher hoje a misericórdia divina. A ternura revela-nos, ao lado do rosto paterno, o materno, o materno de Deus, de um Deus apaixonado pelo homem, que nos ama com um amor infinitamente maior do que o de uma mãe pelo próprio filho (cf. Is 49, 15). Independentemente do que acontece, do que fazemos, temos a certeza que Deus está próximo, compassivo, pronto para se comover por nós. Ternura é uma palavra benéfica, é o antídoto ao medo em relação a Deus, porque «no amor não há temor» (1 Jo 4, 18), porque a confiança vence o medo. Portanto, sentir-nos amados significa aprender a confiar em Deus, a dizer-lhe, como Ele quer: Jesus, confio em ti. A pesquisa pode aprofundar estas e outras considerações: para dar à Igreja uma teologia sab orosa ; para nos ajudar a viver uma fé consciente, fervorosa de amor e de esperança; para nos exortar a dobrar os joelhos, tocados e feridos pelo amor divino. Neste sentido a ternura remete para a Paixão. Com efeito, a Cruz é o selo da ternura divina, que se obtém das chagas do Senhor. As suas feridas visíveis são as janelas que escancaram o seu amor invisível. A sua Paixão nos convida a transformar o nosso coração de pedra em coração de carne, a apaixonarmo-nos por Deus. E pelo homem, por amor de Deus. Eis então o último aspeto: sentir que amamos. Quando o homem se sente deveras amado, sente-se estimulado a amar. Por outro lado, se Deus é ternura infinita, também o homem, criado à sua imagem, é capaz de ternura. Então a ternura, longe de ser apenas sentimentalismo, é o primeiro passo para superar o fechamento em si mesmo, para sair do egocentrismo que deturpa a liberdade humana. A ternura de Deus leva-nos a compreender que o amor é o sentido da vida. Compreendemos assim que a raiz da nossa liberdade nunca é autorreferencial. E sentimo-nos chamados a verter no mundo o amor recebido do Senhor, a decliná-lo na Igreja, na família, na sociedade, a conjugá-lo no servir e no doar-nos. Tudo isto não por dever, mas por amor, por amor daquele pelo qual somos ternamente amados. Estes breves aspetos conduzem a uma teologia a caminho: uma teologia que saia das estreitezas nas quais por vezes se fechou e se dirija a Deus com dinamismo, guiando o homem pela mão; uma teologia não narcisista, mas propensa ao serviço da comunidade; uma teologia que não se contente com repetir os paradigmas do passado, mas seja Palavra encarnada. Certamente a Palavra de Deus não muda (cf. Hb 1, 1-2; 13, 8), mas a carne que ela é chamada a assumir, esta sim, muda de época em época. Por conseguinte, há tanto trabalho para a teologia e para a sua missão hoje: encarnar a Palavra de Deus para a Igreja e para o homem do terceiro milénio. Hoje como nunca é necessária uma revolução da ternura. Isto nos salvará. Confiemos o aprofundamento dos vossos trabalhos a Nossa Senhora, Mãe de ternura. Abençoovos e, juntamente convosco, abençoo as comunidades das quais provindes, pedindo-vos que rezeis e façais rezar por mim. Obrigado. L OSSERVATORE ROMANO EDIÇÃO SEMANAL Unicuique suum EM PORTUGUÊS Non praevalebunt Cidade do Vaticano ed.p w w w. o s s e r v a t o re ro m a n o.v a GI O VA N N I MARIA VIAN d i re t o r Giuseppe Fiorentino v i c e - d i re t o r Redação via del Pellegrino, Cidade do Vaticano telefone fax TIPO GRAFIA VAT I C A N A EDITRICE L OS S E R VAT O R E ROMANO Serviço fotográfico telefone fax p h o t o s s ro m.v a Assinaturas: Itália - Vaticano: 58.00; Europa: U.S. $ ; América Latina, África, Ásia: U.S. $ ; América do Norte, Oceânia: U.S. $ Administração: telefone ; fax ; assin a t u r a o s s ro m.v a Para o Brasil: Impressão, Distribuição e Administração: Editora santuário, televendas: , fax: , Publicidade Il Sole 24 Ore S.p.A, System Comunicazione Pubblicitaria, Via Monte Rosa, 91, Milano,

3 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 3 Formação permanente para os esposos O acompanhamento pastoral não termina com as núpcias Publicamos em seguida o discurso preparado pelo Pontífice para o encontro com os participantes no Curso de formação sobre matrimónio e família, que teve lugar na Basílica de São João de Latrão, na tarde de 27 de setembro. Estimados irmãos e irmãs! É com alegria que me encontro convosco, no encerramento do curso de formação sobre matrimónio e família, promovido pela Diocese de Roma e pelo Tribunal da Rota Romana. Dirijo a minha cordial saudação a cada um de vós e agradeço ao Cardeal Vigário, ao Decano da Rota e a quantos colaboraram para estes dias de estudo e de reflexão. Eles ofereceram-vos a oportunidade de examinar os desafios e os projetos pastorais relativos à família, considerada como igreja doméstica e santuário da vida. Trata-se de um campo apostólico vasto, complexo e delicado, ao qual é necessário dedicar energia e entusiasmo, com a intenção de promover o Evangelho da família e da vida. Como deixar de recordar, a este propósito, a visão ampla e clarividente dos meus Predecessores, em particular de São João Paulo II, que promoveram corajosamente a causa da famíque geralmente são deixados os recém-casados, após a celebração das bodas. Somente quando são postos diante da vida quotidiana juntos, a qual chama os esposos a crescer num caminho de doação e de sacrifício, alguns se dão conta de que não entenderam plenamente aquilo que iam encetar. E descobrem-se inadequados, especialmente quando se confrontam com o alcance e o valor do matrimónio cristão, no que se refere às consequências concretas, ligadas à indissolubilidade do vínculo, à abertura à transmissão do dom da vida e à fidelidade. Por isso, confirmo a necessidade de um catecumenato permanente para o Sacramento do matrimónio que diz respeito à sua preparação, celebração e aos primeiros momentos sucessivos. Trata-se de um caminho compartilhado entre sacerdotes, agentes pastorais e esposos cristãos. Os sacerdotes, sobretudo os párocos, são os primeiros interlocutores dos jovens que desejam formar uma nova família e casar-se no Sacramento do matrimónio. O acompanhamento do ministro ordenado ajudará os futuros esposos a compreender que o casamento entre um homem e uma mulher é sinal da união esponsal entre Cristo e a Igreja, tornando-os conscientes do profundo significado do passo que menos os primeiros anos de vida conjugal. Mediante diálogos com cada casal e momentos comunitários, trata-se de ajudar os jovens esposos a adquirir os instrumentos e os apoios para viver a sua vocação. E isto não pode acontecer a não ser através de um percurso de crescimento na fé dos próprios casais. A fragilidade que, sob este aspeto, se encontra muitas vezes nos jovens que se aproximam do matrimónio torna necessário acompanhar o seu caminho além da celebração das bodas. E isto diz-nos ainda a experiência é uma alegria para eles e para quantos os acompanham. Trata-se de uma experiência de maternidade jubilosa, quando os recém-casados são objeto dos cuidados solícitos da Igreja que, nas pegadas do seu Mestre, é Mãe esmerada que não abandona, não descarta, mas aproxima-se com ternura, abraça e encoraja. No que se refere àqueles cônjuges que experimentam problemas sérios no seu relacionamento e estão em crise, é preciso ajudálos a reanimar a fé e a redescobrir a graça do Sacramento; e, em certos casos que devem ser avaliados com retidão e liberdade interior oferecer indicações apropriadas para empreender um processo de nulidade. Quantos se deram conta de que a sua união lia, decisiva e insubstituível para o bem comum dos povos? No seu sulco desenvolvi este tema, especialmente na Exortação Apostólica Am o r i s laetitia, colocando no centro a urgência de um sério caminho de preparação para o matrimónio cristão, que não se reduza a poucos encontros. O matrimónio não é apenas um evento so cial, mas um verdadeiro Sacramento que exige uma adequada preparação e uma consciente celebração. Com efeito, o vínculo matrimonial requer da parte dos noivos uma escolha consciente, que destaque a vontade de construir juntos algo que nunca deverá ser atraiçoado nem abandonado. Em várias dioceses do mundo estão a desenvolver-se iniciativas para tornar a pastoral familiar mais adequada à situação real, entendendo com esta expressão em primeiro lugar o acompanhamento dos noivos para o matrimónio. É importante oferecer aos noivos a possibilidade de participar em seminários e retiros de oração, que tenham como animadores não só os sacerdotes mas também casais de consolidada experiência familiar e peritos nas disciplinas psicológicas. Muitas vezes a raiz última das problemáticas, que sobressaem depois da celebração do Sacramento nupcial, deve ser procurada não apenas numa imaturidade escondida e remota, que eclodiu repentinamente, mas sobretudo na debilidade da fé cristã e na falta de acompanhamento eclesial, na solidão em estão prestes a dar. Quanto mais o caminho de preparação for aprofundado e prolongado no tempo, tanto mais os jovens casais aprenderão a corresponder à graça e à força de Deus, desenvolvendo também os anticorp os para enfrentar os inevitáveis momentos de dificuldade e de cansaço da vida conjugal e familiar. Nos cursos de preparação para o matrimónio é indispensável retomar a catequese da iniciação cristão na fé, cujos conteúdos não devem ser considerados óbvios, ou já adquiridos pelos noivos. Na maioria das vezes, ao contrário, a mensagem cristã deve ser totalmente redescoberta por quantos permaneceram ancorados nalgumas noções elementares do Catecismo, da primeira Comunhão e, se tudo corre bem, da Crisma. A experiência ensina que o período da preparação para o matrimónio é um tempo de graça, em que o casal se demonstra particularmente disposto a ouvir o Evangelho, a acolher Jesus como Mestre de vida. Mediante uma sincera atitude de acolhimento dos casais, de uma linguagem adequada e de uma apresentação clara dos conteúdos, é possível ativar dinâmicas que superem as lacunas hoje tão difundidas: quer a falta de formação catequética, quer a carência de um sentido filial da Igreja, que também faz parte dos fundamentos do matrimónio cristão. A maior eficácia do cuidado pastoral realiza-se onde o acompanhamento não acaba com a celebração das bodas, mas guia pelo não é um verdadeiro matrimónio sacramental e querem sair dessa situação, possam encontrar nos bispos, nos sacerdotes e nos agentes pastorais o apoio necessário, que se exprime não somente na comunicação de normas jurídicas, mas antes de tudo numa atitude de escuta e de compreensão. A tal propósito, as normas sobre o novo processo matrimonial constitui um instrumento válido, que deve ser aplicado concreta e indistintamente por todos, a cada nível eclesial, porque a sua derradeira razão é a salus animarum! Alegrou-me tomar conhecimento de que muitos Bispos e Vigários judiciais acolheram e atuaram prontamente o novo processo matrimonial, para o alívio da paz das consciências, sobretudo dos mais pobres e distantes das nossas comunidades eclesiais. Caros irmãos e irmãs, agradeço-vos o vosso compromisso a favor do anúncio do Evangelho da família. Faço votos a fim de que o horizonte da pastoral familiar diocesana seja cada vez mais vasto, assumindo o estilo próprio do Evangelho, encontrando e acolhendo também os jovens que escolhem conviver sem se casar. É necessário dar-lhes o testemunho da beleza do casamento! Que o Espírito Santo vos ajude a ser construtores de paz e de consolação, de maneira especial para as pessoas mais frágeis e necessitadas de ajuda e de solicitude pastoral. Concedovos de coração a minha Bênção e peço-vos, por favor, que rezeis por mim!

4 página 4 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 Nunca se deve cortar a solidariedade Discurso à Associação de mutilados e inválidos do trabalho «Sem dúvida, a escassez de recursos que justamente preocupa os governos não pode atingir âmbitos delicados como este, porque os cortes devem concernir os desperdícios, mas nunca se deve cortar a solidariedade», ressaltou o Papa Francisco no seu discurso à Associação italiana de trabalhadores mutilados e inválidos do trabalho (Anmil), recebidos em audiência no final da manhã de 20 de setembro, na sala Clementina. A seguir, o discurso pronunciado pelo Sumo Pontífice. Bom dia, queridos irmãos e irmãs! Dirijo a minha afetuosa saudação a todos vós, ao Presidente, a quem agradeço as palavras que me dirigiu, e a todos os membros da vossa Associação. Reunindo e apoiando quantos sofreram mutilações ou invalidez no trabalho, e esforçando-se por promover uma cultura e uma praxe atentas à saúde e à segurança, a ANMIL desempenha uma função social muito importante, pela qual, em nome do povo de Deus, vos manifesto estima e gratidão. Quantos foram vítimas de acidentes de trabalho, com consequências permanentes e debilitantes, vivem uma situação de particular sofrimento, principalmente quando a deficiência causada impede que continuem a trabalhar e a sustentar a si mesmos e aos seus entes queridos, como antes faziam. A todos eles exprimo a minha proximidade. Deus consola quem sofre, dado que Ele mesmo padeceu, e faz-se próximo de todas as situações de indigência e de humildade. Com a própria força, todos são chamados a assumir um compromisso concreto de solidariedade e de apoio em relação a quantos são vítimas de acidentes de trabalho; apoio que deve incluir as famílias, igualmente atingidas e necessitadas de alívio. Agindo assim, a ANMIL desempenha uma tarefa nobre e essencial, exortando a sociedade inteira ao dever de O embaixador da República Checa apresentou as credenciais Sua Excelência o senhor Václav Kolaja, novo embaixador da República Checa junto da Santa Sé, nasceu a 14 de junho de 1971 em Uherské Hradištĕ. É casado e tem dois filhos. Licenciou-se em história (Charles University, Praga, 1996) e desempenhou os seguintes cargos: funcionário no departamento do protocolo diplomático no ministério dos Negócios estrangeiros ( ); funcionário no departamento para as relações políticas com a União europeia junto do mesmo ministério ( ); secretário de embaixada em Londres ( ); responsável da seção legal e institucional da representação permanente checa junto da União europeia, Bruxelas ( ); responsável para a América do Norte junto do ministério dos Negócios estrangeiros ( ); chefe da secção política da embaixada em Washington D.C. ( ); coordenador da segurança informática no ministério dos Negócios estrangeiros ( ); vice-ministro dos Negócios estrangeiros (a partir de 1 de junho de 2016). A Sua Excelência o senhor Václav Kolaja, novo embaixador da República Checa junto da Santa Sé, transmitimos no momento em que se prepara para assumir o seu alto cargo, as felicitações do nosso jornal. reconhecimento e ajuda concreta em relação a quantos tiveram acidentes no desempenho da atividade de trabalho. Sem dúvida, a escassez de recursos, que justamente preocupa os governos não pode atingir âmbitos delicados como este, porque os cortes devem ser feitos nos desperdícios, mas nunca deve ser cortada a solidariedade! A indispensável dimensão assistencial não esgota as tarefas da sociedade e da própria Associação, a qual no Estatuto (cf. art. 3) prevê que se vise a inserção ou reinserção profissional e social, prestando atenção a fim de que a solidariedade se conjugue sempre com a subsidiariedade, que representa o seu completamento, de forma que a cada um seja permitido oferecer a própria contribuição para o bem comum. O ensinamento social da Igreja, no qual vos exorto a inspirar-vos sempre, evoca constantemente este equilíbrio entre solidariedade e subsidiariedade. Ele deve ser procurado e construído em todas as circunstâncias e âmbitos sociais, de modo que, por um lado, nunca venha a faltar a solidariedade e, por outro, não nos limitemos a ela, tornando passivos quantos ainda podem oferecer uma importante contribuição ao mundo do trabalho, mas que eles sejam envolvidos ativamente, fazendo frutificar as suas capacidades. O estilo subsidiário, que acabei de recordar, ajuda toda a comunidade civil a superar a falaz e prejudicial equivalência entre trabalho e produtividade, que leva a medir o valor das pessoas com base na quantidade de bens ou de riqueza que elas produzem, reduzindo-as a engrenagem de um sistema, e aviltando a sua peculiaridade e valor pessoal. Este olhar doentio encerra em si o germe da exploração e do servilismo, radicando-se numa noção utilitarista da pessoa humana. Na manhã de 6 de setembro, o Pontífice recebeu em audiência sua excelência o senhor Václav Kolaja, novo embaixador da República Checa, por ocasião da apresentação das cartas com as quais foi acreditado junto da Santa Sé Exatamente por isso, é preciosa a atividade incansável da ANMIL a favor dos direitos dos trabalhadores, a partir dos mais frágeis e menos tutelados, como são com frequência as mulheres, os mais idosos e os imigrantes. Em relação a isto, o nosso mundo precisa de um ímpeto de humanidade, o qual leve a abrir os olhos e ver que quem está diante de nós não é mercadoria, mas uma pessoa, um irmão em humanidade. A este propósito, não posso deixar de me alegrar pelo compromisso que vós assumis, em colaboração com as instituições civis e, em particular, com os Ministérios do Trabalho e da Educação, da Universidade e da Pesquisa. Destes vida a numerosos projetos de formação, destinados aos estudantes escolares e aos trabalhadores, aos dirigentes e aos responsáveis de empresas, de maneira que que se tome maior consciência das exigências da segurança e da salvaguarda da saúde dos trabalhadores. Tal sinergia produziu também, já há dez anos, o importante Texto único sobre a segurança, cuja plena atuação sois chamados a vigiar. Esta atenção constante ao âmbito legislativo, assim como ao compromisso solidário, revela da vossa parte a consciência de que a criação de uma nova cultura do trabalho não pode renunciar a um quadro legislativo mais adequado, que atenda às exigências reais dos trabalhadores, e também a uma consciência social mais profunda sobre o problema da salvaguarda da saúde e da segurança, sem a qual as leis permaneceriam letra morta. O detalhado e precioso Relatório sobre a saúde e a segurança nos locais de trabalho, que apresentastes há poucos dias, tem em vista o aperfeiçoamento do plano legislativo, assim como a formação de uma cultura mais atenta à segurança do trabalho. Ele dá testemunho da vossa dedicação e concretute revelando, a quem quer que o leia, que as batalhas que levais em frente há 75 anos, com esforço e determinação, não dizem respeito unicamente a quem foi vítima do trabalho ou desempenha atividades perigosas e desgastantes, mas a cada cidadão, porque juntamente com a cultura do trabalho e da segurança, está em jogo a própria essência da democracia, que se fundamenta no respeito e na tutela da vida de cada um. Prezados amigos, exorto-vos a levar em frente esta nobre missão, que contrasta a indiferença e a tristeza, incrementando a fraternidade e a alegria. Acompanho-vos com a minha oração e a minha Bênção. E também vós, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. O brigado!

5 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 5 Ser catequista é uma vocação Numa mensagem vídeo o Pontífice reafirmou a importância do primeiro anúncio Publicamos o texto da mensagem vídeo que o Papa enviou aos participantes no congresso internacional sobre «O catequista, testemunha do mistério» que, organizado pelo Pontifício Conselho para a promoção da nova evangelização, teve lugar na sala Paulo VI de 20 a 23 de setembro. Caríssimos e caríssimas catequistas, bom dia! Teria gostado muito de partilhar pessoalmente convosco este momento importante do vosso reunir-vos para refletir sobre a segunda parte do Catecismo da Igreja Católica, que trata conteúdos importantes e basilares para a Igreja e para cada cristão, como a vida sacramental, a ação litúrgica e o seu impacto sobre a catequese. D. Fisichella informoume que sois muitos, cerca de 1500 catequistas, e que provindes de 48 países, em muitos casos acompanhados pelos vossos bispos, que saúdo cordialmente. Obrigado pela vossa presença. Obrigado pelo entusiasmo com o qual viveis o vosso ser catequistas na Igreja e para a Igreja. Recordo com prazer o primeiro encontro que tive convosco no Ano da Fé, em 2013, e como vos pedi para «ser catequistas! Não t ra b a l h a r como catequistas: isso não adianta! Tra b a l h o como catequista, porque gosto de ensinar. Se porém tu não és catequista, não adianta! Não serás fecundo, não serás fecunda! Catequista é uma vocação... Ser catequista, esta é a vocação, não t ra b a l h a r como catequista. Atenção que eu não disse fazer o catequista, mas sêlo, porque compromete a vida: guiase para o encontro com Cristo, através das palavras e da vida, através do testemunho». Hoje estou em Vilnius para a viagem apostólica nos países bálticos que foi programada há bastante tempo. Aproveito estes instrumentos eficazes da tecnologia para estar convosco e vos dirigir alguns pensamentos que considero importantes, a fim de que a vossa vocação de ser catequistas assuma cada vez mais uma forma de serviço desempenhado na comunidade cristã e que exige ser reconhecido como um verdadeiro e genuíno ministério da Igreja, do qual temos particularmente necessidade. Penso muitas vezes no catequista como naquele que se pôs ao serviço da Palavra de Deus, que frequenta diariamente esta Palavra para a fazer tornar-se seu alimento e assim a poder comunicar aos demais com eficácia e credibilidade. O catequista sabe que esta Palavra é «viva» (Hb 4, 12) pois constitui a regra da fé da Igreja (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Dei Ve r b u m, 21; Lumen gentium, 15). Por conseguinte, o catequista não pode esquecer, sobretudo hoje num contexto de indiferença religiosa, que a sua palavra é sempre um primeiro anúncio. Pensai bem nisto: neste mundo, nesta área de tanta indiferença, a vossa palavra será sempre um primeiro anúncio, que chega a tocar o coração e a mente de tantas pessoas que estão à espera de encontrar Cristo. Até sem o saberem, mas estão à espera. E quando digo primeiro anúncio não digo só no sentido temporal. Sem dúvida, isto é importante, mas nem sempre é assim. Primeiro anúncio equivale a frisar que Jesus Cristo morto e ressuscitado por amor ao Pai, concede o seu perdão a todos sem distinção de pessoas, se elas abrirem o seu coração e se deixarem converter! Muitas vezes não sentimos a força da graça que, também através das nossas palavras, toca em profundidade os nossos interlocutores e os plasma a fim de permitir que eles descubram o amor de Deus. O catequista não é um mestre nem um professor que pensa que está a ministrar uma lição. A catequese não é uma lição; a catequese é a comunicação de uma experiência e o testemunho de uma fé que acende os corações, porque introduz o desejo de encontrar Cristo. Este anúncio, de várias maneiras e com diferentes linguagens, é sempre o p r i m e i ro que o catequista é chamado a realizar! Por favor, na comunicação da fé não vos deixeis cair na tentação de alterar a ordem com a qual a Igreja desde sempre anunciou e apresentou o querigma, e que se reflete na estrutura do próprio Catecismo. Não se pode, por exemplo, antepor a lei, mesmo que seja a moral, ao anúncio tangível do amor e da misericórdia de Deus. Não podemos esquecer as palavras de Jesus: «Não vim para condenar, mas para perdoar...» (cf. Jo 3, 17; 12, 47). De igual modo, não se pode presumir de impor uma verdade da fé prescindindo da chamada à liberdade que ela requer. Quem tem experiência do encontro com o Senhor está sempre na situação da samaritana que sente o desejo de beber uma água que não se esgota, mas ao mesmo tempo vai ter imediatamente com os habitantes da aldeia para os levar ao encontro de Jesus He Qi, «Jesus e a samaritana» (cf. Jo 4, 1-30). Por conseguinte, é necessário que o catequista compreenda o grande desafio que tem diante de si sobre a maneira como educar na fé, em primeiro lugar, quantos têm uma identidade cristã débil e, por isso, precisam de proximidade, de acolhimento, de paciência, de amizade. Só assim a catequese se torna promoção da vida cristã, apoio na formação global dos crentes e incentivo a ser discípulos missionários. Uma catequese que pretenda ser fecunda e estar em harmonia com o conjunto da vida cristã encontra na liturgia e nos sacramentos a sua linfa vital. A iniciação cristã requer que nas nossas comunidades se realize cada vez mais um percurso catequético que ajude a experimentar o encontro com o Senhor, o crescimento no seu conhecimento e o amor pelo seguimento. A mistagogia oferece oportunidades muito significativas para realizar este percurso com coragem e decisão, favorecendo a saída de uma fase estéril da catequese, que muitas vezes afasta sobretudo os nossos jovens, pois não encontram a novidade da proposta cristã nem a incidência na sua vida. O mistério que a Igreja celebra encontra a sua expressão mais bela e coerente na liturgia. Não esqueçamos de fazer compreender com a nossa catequese a contemporaneidade de Cristo. Com efeito, na vida sacramental, que tem o seu ápice na Sagrada Eucaristia, Cristo faz-se contemporâneo com a sua Igreja: acompanha-a nas vicissitudes da sua história e nunca se afasta da sua Esposa. É Ele que se faz próximo de quantos o recebem no seu Corpo e no seu Sangue, e faz deles instrumentos de perdão, testemunhas da caridade com quantos sofrem, e participantes ativos ao criar solidariedade entre os homens e os povos. Como seria útil para a Igreja se as nossas catequeses se caracterizassem por fazer compreender e viver a presença de Cristo que age e realiza a nossa salvação, permitindo que experimentemos desde agora a beleza da vida de comunhão com o mistério de Deus Pai, Filho e Espírito Santo! Faço votos de que vivais estes dias com intensidade, a fim de levardes em seguida às vossas comunidades a riqueza de quanto vivestes neste encontro internacional. Acompanhovos com a minha bênção e, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado. Audiência ao presidente da República da Albânia Na manhã de 17 de setembro, o Papa recebeu em audiência, no Palácio apostólico do Vaticano, o presidente da República da Albânia, Sua Excelência o senhor Ilir Meta, o qual se encontrou sucessivamente com o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, acompanhado por monsenhor Antoine Camilleri, subsecretário para as relações com os Estados. Durante os colóquios cordiais foram evidenciadas as relações positivas entre a Albânia e a Santa Sé, e também o contributo da Igreja católica local em benefício da inteira sociedade albanesa, em particular dos jovens. Em tal contexto foram tratados temas de interesse comum, entre os quais a importância da promoção da liberdade religiosa e da coexistência pacífica eacontinuação no compromisso em prol do diálogo inter-religioso e intercultural. Refletiuse também sobre o percurso da Albânia no processo de integração na União europeia e examinaram-se algumas questões em âmbito internacional, em particular a situação nos Balcãs ocidentais.

6 página 6 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 ESTÓNIA Última etapa da viagem papal aos países bálticos O Papa encerrou a manhã de terça-feira 25 de setembro em Tallinn, participando num encontro ecuménico reservado aos jovens, que teve lugar na Kaarli Lutheran Church. Depois de ter proferido o discurso, que publicamos nesta página, Francisco almoçou no convento das irmãs brigidinas de Pirita, às quais ofereceu um baixo-relevo em madeira, com a representação da última Ceia. Eis as palavras do Pontífice nessa circunstância. O amor não morreu Indignação dos jovens Queridos jovens! Obrigado pela vossa calorosa receção, os vossos cânticos e os testemunhos de Lisbel, Tauri e Mirko. Agradeço as palavras amáveis e fraternas do Arcebispo da Igreja evangélica luterana da Estónia, Urmas Viilma, bem como a presença do Presidente do Conselho das Igrejas da Estónia, o Arcebispo Andres Põder, a do Bispo D. Philippe Jourdan, Administrador Apostólico da Estónia, e dos outros representantes das diversas confissões cristãs presentes no país. Agradeço também a presença da Senhora Presidente da República. É sempre bom reunir-nos, partilhar testemunhos da vida, expressar o que pensamos e queremos; e é muito bom estarmos juntos, nós que cremos em Jesus Cristo. Estes encontros tornam realidade o sonho de Jesus na Última Ceia: «Que todos sejam um só (...) para que o mundo creia» (Jo 17, 21). Se fizermos esforço por nos vermos como peregrinos que fazem o caminho juntos, aprenderemos a abrir com confiança o coração ao companheiro de estrada, sem cultivar suspeitas nem difidências, olhando apenas para aquilo que realmente procuramos: a paz diante do rosto do único Deus. E, uma vez que a paz é artesanal, ter confiança nos outros é também algo de artesanal, constitui uma fonte de felicidade: «Felizes os pacificadores!» (Mt 5, 9). E esta estrada, este caminho, não o fazemos só com os crentes, mas com todos. Todos têm qualquer coisa a dizer-nos; e nós, a todos, temos algo a dizer. O grande quadro que se encontra na abside desta igreja contém uma frase do Evangelho de São Mateus: «Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28). Vós, jovens cristãos, podeis identificar-vos com alguns elementos deste texto do Evangelho. Nas narrações anteriores, o evangelista mostra-nos que Jesus tem vindo a acumular deceções. Primeiro, lamenta-se porque parece que, para aqueles a quem se dirige, nada está bem (cf. Mt 11, 16-19). A vós, jovens, acontece muitas vezes que os adultos ao vosso redor não sabem o que querem ou esperam de vós; ou, quando vos veem muito felizes, ficam desconfiados; e, se vos veem angustiados, relativizam o sucedido. Na consultação preliminar do Sínodo, que está para se realizar e vai refletir sobre os jovens, muitos de vós pedem que alguém vos acompanhe e compreenda sem julgar e saiba escutar-vos bem como dar resposta às vossas questões (cf. Sínodo dedicado aos jovens, Instrumentum laboris, 132). Às vezes, as nossas Igrejas cristãs e ousaria dizer todo o processo religioso estruturado institucionalmente c a r re - gam consigo atitudes nas quais nos é mais fácil falar, aconselhar, propor a partir da nossa experiência, do que escutar, do que se deixar interpelar e iluminar por aquilo que vós viveis. Muitas vezes, sem dar por isso, as comunidades cristãs fecham-se e não escutam as vossas inquietações. Sabemos que vós quereis e esperais «ser acompanhados, não por um juiz inflexível nem por um pai receoso e superprotetor que gera dependência, mas por alguém que não tem medo da sua própria fraqueza e sabe fazer resplandecer o tesouro que guarda dentro de si, como num vaso de barro (cf. 2 Cor 4, 7)» (ibid., n. 142). Aqui, hoje, quero-vos dizer que desejamos chorar convosco se estais a chorar, acompanhar com os nossos aplausos e nossos sorri- sos as vossas alegrias, ajudarvos a viver o seguimento do Senhor. Vós jovens, rapazes e moças, fixai isto: quando uma comunidade cristã é verdadeiramente cristã não faz proselitismo. Apenas escuta, acolhe, acompanha e caminha; mas não impõe nada. Jesus queixa-se também das cidades que visitou, nelas realizando mais milagres e reservando-lhes maiores gestos de ternura e proximidade, e lamenta a sua falta de perspicácia para perceber que a mudança que lhes viera propor era urgente, não podia esperar. Chega mesmo a dizer que são mais relutantes e cegos do que Sodoma (cf. Mt 11, 20-24). E quando nós, adultos, nos fechamos a uma realidade que é já um facto, dizeis-nos com ousadia: «Não o vedes?». E alguns mais decididos têm a coragem de dizer: «Não vos dais conta de que já ninguém vos escuta, nem crê em vós?». Verdadeiramente precisa- mos de nos converter, de descobrir que, para estar ao vosso lado, devemos derrubar muitas situações que, em última análise, são aquelas que vos afastam. Sabemos assim no-lo dissestes vós que muitos jovens não nos pedem nada, porque não nos consideram interlocutores significativos na sua existência. É triste, quando uma Igreja, uma comunidade se comporta de tal maneira que os jovens pensem: «Estes não me dirão nada que sirva para a minha vida». Antes, alguns pedem expressamente para serem deixados em paz, sentem a presença da Igreja como algo molesto e até irritante. Isto é verdade! Indignam-vos os escândalos económicos e sexuais contra os quais não veem uma clara condenação, o não saber interpretar adequadamente a vida e a sensibilidade dos jovens por falta de preparação, ou o papel simplesmente passivo que lhes atribuímos (cf. Sínodo para os jovens, Instrumentum laboris, 66). Estes são alguns dos vossos pedidos. Queremos dar-lhes resposta, queremos ser como vós mesmos dizeis uma «comunidade transparente, acolhedora, honesta, atraente, comunicativa, acessível, alegre e interativa» (ibid., n. 67), isto é, uma comunidade sem medo. Os medos fecham-nos. Os medos impelam-nos a ser proselitistas. Mas a fraternidade é coisa diferente: o coração aberto e o abraço fraterno. Antes de chegar ao texto evangélico gravado no cimo deste templo, Jesus começa por elevar um hino de louvor ao Pai. Fá-lo porque se dá conta de que aqueles que compreenderam, aqueles que captam o centro da sua mensagem e da sua pessoa, são os pequeninos, aqueles que têm a alma simples, aberta. E ao ver-vos assim reunidos a cantar, maravilhado, uno-me à voz de Jesus, porque vós, apesar da nossa falta de testemunho, continuais a descobrir Jesus dentro das nossas comunidades. Pois sabemos que, onde está Jesus, há sempre renovação, existe sempre a oportunidade de conversão, de deixar para trás tudo o que nos separa d Ele e dos nossos irmãos. Onde está Jesus, a vida tem sempre sabor de Espírito Santo. Aqui, hoje, vós sois a atualização daquela maravilha de Jesus. Então digamos de novo «vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28), mas digamo-lo convencidos de que, para além dos nossos limites, das nossas divisões, Jesus continua a ser o motivo para estarmos aqui. Sabemos que não há alívio maior do que deixar Jesus carregar as nossas opressões. E sabemos também que há muitos que ainda não o conhecem e vivem na tristeza e sem rumo. Há cerca de dez anos, uma vossa cantora famosa dizia numa de suas canções: «O amor está morto, o amor foi-se embora, o amor já não mora aqui» (Kerli Kõiv, O amor está morto). Isso não, por favor! Façamos com que o amor permaneça vivo, e to- CO N T I N UA NA PÁGINA 17

7 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 7 Um pequeno rebanho com um grande coração Francisco celebrou em Tallinn a missa conclusiva da viagem Na tarde de 25 de setembro, o Papa Francisco celebrou a santa missa na praça da Liberdade, em Tallinn, último encontro da viagem à Estónia. Publicamos a seguir a homilia proferida pelo Pontífice depois da aclamação ao Evangelho. Ao escutar, na primeira leitura, a chegada ao Monte Sinai do povo judeu, já livre da escravidão do Egito (cf. Êx 19, 1), é impossível não pensar em vós como povo; é impossível não pensar na nação inteira da Estónia e em todos os países bálticos. Como não vos recordar naquela «revolução cantada» ou naquela corrente de dois milhões de pessoas daqui até Vilna? Vós conheceis as lutas pela liberdade, podeis identificar-vos com aquele povo. Por conseguinte, far-nos-á bem escutar aquilo que Deus diz a Moisés, para compreendermos o que nos diz a nós como povo. Deus conhece as nossas necessidades, as mesmas que muitas vezes escondemos por detrás do desejo de possuir; e também as nossas inseguranças, superadas por meio do poder. A sede que habita em todo o coração humano, Jesus encoraja-nos no Evangelho que escutamos a superá-la no encontro com Ele. É Ele que nos pode saciar, cumular-nos com a plenitude própria da fecundidade da sua água, da sua pureza, da sua força arrebatadora. A fé é também dar-se conta de que Ele está vivo e nos ama; que não nos abandona e, por isso, é capaz de intervir misteriosamente na nossa história; tira o bem do mal com o seu poder e a sua infinita criatividade (cf. ibid., n. 278). No deserto, o povo de Israel cairá na tentação de buscar outros deuses, adorar o bezerro de ouro, confiar nas suas próprias forças. Mas é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra» (Exort. Ap. Gaudete et exsultate, 14). Entretanto, como a água no deserto não era um bem privado, mas comunitário, como o maná não podia ser armazenado porque se estragava, assim a santidade vivida expande-se, comunica-se, fecunda tudo o que lhe está próximo. Hoje, escolhamos ser santos, sarando as margens e as periferias da nossa sociedade, onde o nosso irmão jaz e sofre a sua exclusão. Não deixemos, para aquele que vier depois de mim, a iniciativa de o socorrer, nem que seja uma questão a ser resolvida pelas instituições; mas nós próprios detenhamos o nosso olhar naquele irmão e estendamos-lhe O povo, que chega ao Sinai, é um povo que já viu o amor do seu Deus manifestar-se em milagres e prodígios; é um povo que decide estabelecer um pacto de amor, porque Deus já o amou primeiro e manifestou-lhe este amor. Não é obrigado, Deus quere-lo livre. Quando dizemos que somos cristãos, quando abraçamos um estilo de vida, fazemo-lo sem pressões, sem que isso seja uma troca na qual nós fazemos algo se Deus nos fizer qualquer coisa. Mas sobretudo sabemos que a proposta de Deus não nos tira nada; pelo contrário, leva à plenitude, potencializa todas as aspirações do homem. Alguns consideram-se livres, quando vivem sem Deus ou separados d Ele. Não se dão conta de que, assim, percorrem esta vida como órfãos, sem um lar para onde voltar. «Deixam de ser peregrinos para se transformarem em errantes, que giram indefinidamente ao redor de si mesmos, sem chegar a lado nenhum» (Exort. Ap. Evangelii gaudium, 170). Cabe a nós, como ao povo que saiu do Egito, ouvir e b u s c a r. Às vezes, alguns pensam que hoje a força de um povo se mede por outros parâmetros. Há quem fale com um tom mais alto e, quando fala, parece mais seguro, sem cedências nem hesitações; há quem junte, aos gritos, ameaças de armas, envio de tropas, estratégias... Esta é a pessoa que parece mais «firme». Mas isto não é «buscar» a vontade de Deus, mas um acumular para se impor com base no ter. Esta atitude esconde em si uma rejeição da ética e, com ela, de Deus; porque a ética coloca-nos em relação com Deus que espera de nós uma resposta livre e comprometida com os outros e com o nosso meio ambiente; uma resposta que está fora das categorias do mercado (cf. ibid., n. 57). Vós não conquistastes a vossa liberdade para acabar escravos do consumo, do individualismo ou da sede de poder e domínio. Deus não cessa de o atrair sempre de novo; e eles lembrar-se-ão do que escutaram e viram na montanha. Como aquele povo, também nós sabemos que somos um povo eleito, sacerdotal e santo (cf. Êx 19, 6; 1 Pd 2, 9). É o Espírito que nos recorda todas estas coisas (cf. Jo 14, 26). Eleitos não significa exclusivos nem sectários; somos a pequena porção de fermento que deve levedar toda a massa, que não se esconde nem se separa, que não se considera melhor nem mais pura. A águia põe a seguro os seus filhotes, leva-os para lugares escarpados enquanto não conseguem sobreviver sozinhos, mas depois deve forçá-los a sair daquele lugar tranquilo. Sacode a sua ninhada, deixa os pequeninos suspensos no vazio para testarem as suas asas; mas permanece debaixo deles para os proteger, impedindo que se magoem. De igual modo procede Deus com o seu povo eleito, quere-lo «em saída», ousado no seu voo e sempre protegido apenas por Ele. Temos de vencer o medo e deixar os espaços blindados, porque hoje a maioria dos estonianos não se reconhece como crentes. Sair como sacerdotes: somo-lo pelo Batismo. Sair para promover a relação com Deus, facilitá-la, favorecer um encontro amoroso com Aquele que não cessa de bradar: «Vinde a mim!» (Mt 11, 28). Precisamos de crescer num olhar de proximidade para contemplar, comover-nos e deter-nos à vista do outro, sempre que for necessário. Esta é a «arte do acompanhamento», que se realiza com o ritmo salutar da «proximidade», com um olhar respeitoso e cheio de compaixão que é capaz de curar, desatar nós e fazer crescer na vida cristã (cf. Exort. Ap. Evangelii gaudium, 169). E dar testemunho de ser um povo santo. Podemos cair na tentação de pensar que a santidade seja apenas para alguns. Mas «não a mão para o levantar, porque nele está a imagem de Deus, é um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto significa ser cristão e a santidade vivida dia a dia (cf. ibid., n. 98). Na vossa história, deixais transparecer o orgulho de ser estonianos; cantai-lo dizendo: «Sou estoniano, permanecerei estoniano, estoniano é uma realidade bela, somos estonianos!». Como é bom sentir-se parte de um povo! Como é bom ser independentes e livres! Subamos à montanha sagrada (a de Moisés, a de Jesus) e peçamos ao Senhor como reza o lema desta visita que desperte os nossos corações e nos conceda o dom do Espírito para discernirmos, em cada momento da história, o modo como ser livres, como abraçar o bem e sentir-se eleitos, como deixar que Deus faça crescer, aqui na Estónia e no mundo inteiro, a sua nação santa, o seu povo sacerdotal. No encerramento da celebração eucarística, antes de conceder a Bênção conclusiva, o Pontífice saudou os fiéis presentes na praça, pronunciando as seguintes palavras. Queridos irmãos e irmãs! Antes da Bênção final, e de concluir esta Viagem Apostólica à Lituânia, Letónia e Estónia, quero expressar a minha gratidão a todos vós, a começar pelo Administrador Apostólico da Estónia. Obrigado pela vossa receção, expressão de um pequeno rebanho com um grande coração! Renovo a minha gratidão à Senhora Presidente da República e restantes Autoridades do país. Um pensamento particular, reservo a todos os irmãos cristãos, de modo especial aos Luteranos que, tanto aqui na Estónia como na Letónia, hospedaram os encontros ecuménicos. Que o Senhor nos continue a guiar no caminho da comunhão. Obrigado a todos!

8 página 8 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 No voo de regresso dos países bálticos o Papa falou também do acordo com a China Um caminho de diálogo Durante o voo de Tallinn para Roma, a 25 de setembro, no final da viagem aos países bálticos, o Papa encontrou-se com os jornalistas a bordo do avião. Publicamos a transcrição das respostas do Pontífice e uma síntese das perguntas. Depois da introdução do diretor da Sala de imprensa da Santa Sé, Greg Burke, o Pontífice, antes de tudo, quis agradecer aos jornalistas: «Pelo trabalho que fizestes, porque, também para vós, três países em quatro dias não é fácil. Sobretudo deslocar-se de uma parte para a outra é cansativo. Agradeço-vos imenso pelo serviço que oferecestes às pessoas sobre esta viagem, que é o mais importante da vossa comunicação: o que sucedeu nela. Houve coisas muito interessantes nesta viagem; e espero as perguntas nesse sentido». [Saulena Žiugždaite, Bernardinai.lt, Lituânia] Obrigado por este momento e por toda esta viagem. Ao falar em Vilnius da alma lituana, disse que devemos ser ponte entre o Oriente e o Ocidente. Que pretendia dizer? É verdade! É evidente que hoje fazeis parte, politicamente, do Ocidente, da União Europeia, e fizestes um grande esforço para entrar na União Europeia. Depois da independência, imediatamente cumpristes todas as formalidades não são fáceis e conseguistes entrar na União Europeia, o que significa pertença ao Ocidente. Tendes também relações com a Nato: pertenceis à Nato e isto diz Ocidente. Se olhardes para o Oriente, tendes a vossa história: uma história dura. Bem, parte da história trágica veio do Ocidente, dos alemães, dos polacos, mas sobretudo do nazismo. Esta parte veio do Ocidente; e a parte referente ao Oriente, do Império Russo. Fazer pontes supõe, exige fortaleza. Fortaleza não só para a pertença ao Ocidente, que vos dá fortaleza, mas para a própria identidade. Dou-me conta de que a situação dos três países bálticos está sempre em perigo, sempre. O medo da invasão... Porque a própria história vos lembra isto. E a senhora tem razão quando diz que não é fácil, mas esta é uma partida que se joga todos os dias, um passo depois do outro: com a cultura, com o diálogo... Mas não é fácil. Creio que é dever de todos nós ajudarvos nisto. Mais do que ajudar-vos, estar-vos próximos com o coração. [Gints Amolins, Latvijas Rádio, Letónia] Nos países bálticos, falou frequentemente sobre a importância das raízes e da identidade. Da Letónia, mas também da Lituânia e da Estónia, há muitas pessoas que partiram para países mais prósperos, e muitos já estão a criar raízes noutro lugar. E depois há também como na Europa em geral problemas demográficos devido à baixa taxa de natalidade. Como se deveria avaliar este problema? Na minha Pátria, não conhecia pessoas da Estónia nem da Letónia, ao passo que é muito forte, relativamente, a imigração lituana. Na Argentina, há muitos lituanos. Elevam para lá a cultura, a história e sentem-se orgulhosos neste duplo esforço de se inserir no novo país e ao mesmo tempo conservara sua identidade. Nas suas festas, há os trajes tradicionais, os cânticos tradicionais e sempre as vezes que lhes é possível voltam para visitar a Pátria... Penso que a luta para manter a identidade torna-os muito fortes, e vós possuís isto: tendes uma identidade forte. Uma identidade que se formou na tribulação, na defesa e no trabalho, na cultura. E, para defender a identidade, que se pode fazer? O recurso às raízes: isto é importante. A identidade é uma realidade antiga, mas que deve ser transmitida. A identidade insere-se na pertença a um povo, e a pertença a um povo deve ser transmitida. As raízes devem ser transmitidas às novas gerações com a educação e o diálogo sobretudo entre idosos e jovens. E deveis fazê-lo, porque a vossa identidade é um tesouro. Toda a identidade é um tesouro, mas concebida como pertença a um povo. Isto é o que me vem à mente, não sei se responde à tua p ergunta... [Evelyn Kaldoja, Postimees, Estónia] Vossa Santidade, está preocupado com as tensões naquela área e com os católicos que vivem nas fronteiras da Europa? A ameaça das armas. Hoje, as despesas mundiais para armas são escandalosas. Diziam-me que se poderia, com aquilo que se gasta em armas num mês, dar de comer a todas as pessoas famintas do mundo durante um ano. Não sei se é verdade; mas é terrível. A indústria, o comércio das armas, o próprio contrabando de armas é uma das maiores corrupções. E, antes disso, temos a lógica da defesa. David foi capaz de vencer com uma funda e cinco pedras, mas hoje não há «davides». Creio que, para defender um país, seja preciso um razoável e não agressivo exército de defesa. Razoável e não agressivo. Deste modo, é lícita a defesa; e defender assim a Pátria é também uma honra. O problema surge quando se torna agressivo, não razoável e fazem-se as guerras de fronteira. De guerras de fronteira, temos muitos exemplos, não só na Europa, a Leste, mas também noutros continentes: litiga-se pelo poder, para colonizar um país. A meu ver, a resposta à sua pergunta é esta: hoje, à vista dr um mundo faminto, é escandalosa a indústria das armas; segundo, é lícito, razoável ter um exército para defender as fronteiras: isso é honroso; como é lícito ter a chave da porta de casa. Para defesa. [Stefanie Stahlhofen, da Agência Católica Alemã CIC (Alemanha) No encontro ecuménico em Tallinn, disse que os jovens não veem uma condenação clara dos escândalos sexuais por parte da Igreja católica. Na Alemanha, saiu precisamente hoje um novo inquérito sobre os abusos sexuais e sobre a forma como a Igreja tratou tantos casos. Sobre isto, falarei depois. Antes, responderei às perguntas sobre a Viagem. Obrigado! Esta é a regra... Mas, depois das relativas à Viagem, a sua será a primeira pergunta. [Edvardas Spokas, rádio-televisão lituana] Nos três países, o Santo Padre declarou-se a favor da abertura: para com os migrantes e para com o outro. Mas as pessoas ouvem esta mensagem? A mensagem sobre a abertura aos migrantes conta com bastante adesão no vosso povo; não existem grandes focos populistas. Também a Estónia e a Letónia são povos abertos, que querem integrar os migrantes, mas não massivamente, porque isto não é possível; o governo quer integrá-los com prudência. Falamos sobre isto com dois dos três Chefes de Estado; e foram eles que puxaram o assunto, não eu. E, nos discursos dos Presidentes, o senhor verá que as palavras «receção», «abertura» são frequentes. Isto indica vontade de universalidade, na medida em que se pode, atendendo ao espaço, ao emprego, etc; na medida em que seja possível integrá-los isto é muito importante e na medida em que não haja uma ameaça contra a própria identidade. São três coisas que eu compreendi sobre as migrações das pessoas. E isto, a mim, tocou-me muito: abertura prudente e bem pensada. Não sei se o senhor pensa diferente. [Edvardas Spokas] A minha pergunta era se e como fora recebida a sua mensagem. Eu creio que sim. Neste sentido que disse. Porque hoje, o problema dos migrantes em todo o mundo e não apenas a migração externa, mas também a interna nos continentes é um problema grave; não é fácil estudá-lo. Em cada país, em cada sítio, em cada lugar, reveste-se de várias conotações. [Greg Burke] Obrigado, Santo Padre! Terminamos as perguntas sobre a viagem. Muito bem. Gostaria eu de vos dizer qualquer coisa sobre alguns pontos da viagem que vivi com uma intensidade especial. O facto da vossa história, da história dos países bálticos: uma história de invasões, ditaduras, crimes, deportações... Quando visitei o Museu, em Vilna a palavra «museu» faz-nos pensar no Louvre, mas aquele não; aquele Museu é uma prisão, é uma prisão para onde eram levados os prisioneiros por razões políticas ou religiosas vi celas do tamanho deste assento, onde se conseguia apenas estar de pé, celas de tortura. Vi lugares de tortura, para onde levavam os prisioneiros nus, com o frio que há na Lituânia, e derramavam água sobre eles, deixando-os lá horas seguidas para os dobrar na sua resistência. Depois entrei no salão, na sala grande das execuções. Os prisioneiros eram forçados a entrar lá e assassinados com um golpe disparado na nuca; depois eram tirados de lá numa esteira rolante e transportados num

9 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 9 faz-nos pensar, e seria bom algum artigo, algum serviço televisivo sobre a transmissão da cultura, da língua, da arte, da fé em períodos de ditadura e de perseguição. Não se podia pensar diferente, porque todos os meios de comunicação então eram poucos: o rádio foram tomados pelo Estado. Quando um governo se torna ou quer tornar-se ditador, a primeira coisa que faz é controlar os meios de comunicação. Estas coisas, queria assinalá-las. E agora falo do encontro de hoje com os jovens. Os jovens escandalizam-se com isto, entro na primeira pergunta que estava fora do tema da Viagem os jovens escandalizam-se com a hipocrisia dos grandes. Escandalizam-se com as guerras, escandalizam-se com a incoerência, escandalizam-se com a corrupção. E, neste ponto da corrupção, entra aquilo que a senhora destacava sobre os abusos sexuais. É verdade que há uma acusação à Igreja; e todos nós sabemos, conhecemos as estatísticas (eu não as direi aqui...). Mas, ainda que houvesse um único padre que tivesse abusado de um menino, de uma menina, isso já seria monstruoso, porque aquele homem foi escolhido por Deus para levar a criança ao céu. Eu compreendo que os jovens se escandalizem desta corrupção tão grande. Sabem que existe por todo o lado, mas na Igreja é mais escandaloso, porque se deve levar as crianças a Deus, e não destruí-las. Os jovens procuram crescer, valendo-se da experiência. Hoje, o encontro com os jovens foi muito claro: eles pedem escuta, pedem escuta. Não querem fórmulas fixas. Não querem um acompanhamento diretivo. E a segunda parte daquela pergunta a primeira fora do âmbito da viagem dizia que, «nisto, a Igreja não faz as coisas como deveria, limpando esta corrupção». Tomando, por exemplo, o Relatório da Pensilvânia, vejo que, até aos primeiros anos da década de 70, houve tantos padres que caíram nesta corrupção. Depois, em tempos mais recentes, diminuíram porque a Igreja se deu conta de que devia lutar doutra maneira. No passado, estas coisas encobriamse. Encobria-se também em casa, quando o tio violentava a sobrinha, quando o pai violentava os filhos: encobria-se, porque era uma vergonha muito grande. Tal era o modo de pensar dos séculos passados e do último século. Nisto, há um princípio que me ajuda muito a interpretar a história: um facto histórico deve ser interpretado com a hermenêutica da época em que o mesmo aconteceu, não com a hermenêutica de hoje. Por exemplo, o indigenismo: houve tantas injustiças, tantas brutalidades; mas isso não pode ser interpretado com a hermenêutica de hoje, em que temos outra consciência. Um último exemplo: a pena de morte. O próprio Vaticano como Estado quando era Estado Pontifício tinha a pena de morte; o último decapitado foi um criminoso, um jovem, por volta de Mas, depois, a consciência moral cresce, a consciência moral cresce. É verdade que não faltam as escapatórias, há sempre condenações à morte sub-reptícias: tu estás velho, dás trabalho Não te dou os remédios. E depois exclama-se: «Foi-se»! É uma condenação à morte social de hoje. Mas, dito isto, creio ter respondido. A Igreja: tomo o exemplo da Pensilvânia, olhai as proporções e vede que a Igreja, quando começou a tomar consciência disso, empenhou-se com todas as suas forças. E, nos últimos tempos, recebi tantas, tantas condenações emitidas pela Congregação para a Doutrina da Fé e disse: «Avante, avante!». E, depois de uma condenação, nunca, nunca assinei um pedido de graça. Sobre isto, não se negocia, não há negociação. camião que os descarregava na floresta. Matavam mais ou menos quarenta por dia. Enfim, foram cerca de quinze mil as pessoas que lá foram mortas. Isto faz parte da história da Lituânia, mas também dos outros países. Aquilo que vi era na Lituânia. Depois fui ao lugar do Grande Gueto, onde foram mortos milhares de judeus. Em seguida, na mesma tarde, fui ao Monumento em memória dos condenados, assassinados, torturados, deportados. Naquele dia digo-vos a verdade senti-me destroçado: fez-me refletir sobre a crueldade. Mas, com base nas informações que temos hoje, digo-vos que a crueldade não acabou. Hoje encontra-se a mesma crueldade em tantos lugares de reclusão, encontra-se hoje em tantas prisões; a própria superpopulação de uma prisão é um sistema de tortura, um modo de vida sem dignidade. Hoje uma prisão, que não preveja oferecer ao preso uma perspetiva de esperança, já é uma tortura. Depois vimos, na televisão, as crueldades dos terroristas do Is: aquele piloto jordano queimado vivo, aqueles cristãos coptas decapitados na praia da Líbia, e muitos outros. Hoje a crueldade não acabou. Existe em todo o mundo. E gostaria de vo-la dar a vós, jornalistas, esta mensagem: isto é um escândalo, um grave escândalo da nossa cultura e da nossa so ciedade. Outra coisa que vi nestes três países foi o ódio [do passado regime] contra a religião, seja ela qual for. O ódio. Vi um Bispo jesuíta, na Lituânia ou na Letónia (não me lembro bem), que esteve deportado dez anos na Sibéria, depois noutro campo de concentração... Agora é idoso, sorridente... Muitos homens e mulheres, por ter defendido a sua fé que era a própria identidade, foram torturados e deportados para a Sibéria, e não voltaram; ou foram mortos. A fé destes três países é grande, é uma fé que nasce precisamente do martírio. Trata-se de algo que talvez tenhais visto ao falar com as pessoas, como fazeis vós, jornalistas, para obter notícias do país. Além disso, esta experiência tão importante de fé produziu um fenómeno singular nestes países: uma vida ecuménica como não existe noutros, assim tão generalizada. Há um verdadeiro ecumenismo: ecumenismo entre luteranos, batistas, anglicanos e também ortodoxos. Ontem na catedral, durante o encontro ecuménico em Riga, na Letónia, vimos uma coisa grande: irmãos, próximos, juntos numa única igreja... próximos. Lá o ecumenismo criou raízes Depois, há outro fenómeno nestes países que é importante estudar; e vós talvez possais fazer muitas coisas boas na vossa profissão, estudando isto: o fenómeno da transmissão da cultura, da identidade e da fé. Habitualmente a transmissão foi feita pelos avós. Porquê? Porque os pais trabalhavam, pai e mãe tinham que trabalhar, e deviam estar integrados no Partido tanto no regime soviético como no nazista e eram também educados no ateísmo. Mas os avós foram capazes de transmitir a fé e a cultura. No tempo em que, na Lituânia, era proibido o uso da língua lituana, foi tirada das escolas; quando iam ao serviço religioso quer protestante quer católico levavam os livros de oração para ver se eram em língua lituana ou então em língua russa ou alemã. E muitos uma geração, naquela época aprenderam a língua-mãe com os avós: eram os avós que ensinavam a escrever e a ler a língua-mãe. Isto [Antonio Pelayo, de «Vida Nueva» Antena 3, Espanha] Há três dias foi assinado um Acordo entre a Santa Sé e o Governo da República Popular Chinesa. Pode dar-nos qualquer informação a mais sobre isto, sobre o seu conteúdo? O que responde à acusação de ter vendido a Igreja ao governo comunista de Pequim? Trata-se de um processo de anos, um diálogo entre a Comissão do Vaticano e a Comissão Chinesa, para regularizar a nomeação dos Bispos. A equipe do Vaticano trabalhou tanto. Gostaria de referir alguns nomes: Mons. Celli, que pacientemente foi, dialogou, voltou... durante anos e anos! Depois Mons. Rota Graziosi, um humilde oficial de Cúria de 72 anos que queria servir como padre numa paróquia, mas ficou na Cúria para ajudar neste processo. E depois, o Secretário de Estado, Cardeal Parolin, que é um homem muito devoto, mas tem uma devoção especial pela lente: todos os documentos, estuda-os mesmo nos pontos, vírgulas, acentos... E isto dá-me uma segurança muito grande. E esta equipe, com tais qualidades, continuou a trabalhar. Como sabeis, quando se faz um acordo de paz ou uma negociação, ambas as partes perdem algo. Esta é a regra: ambas as partes... E continua-se para diante. Este processo avançou assim: dois passos em frente um para trás, dois em frente um para trás. Depois passaram meses sem se falar, e eis senão quando... São os tempos de Deus, que se assemelham ao tempo chinês: lentamente... Isto é sabedoria, a sabedoria dos chineses. As situações dos Bispos, que criavam dificuldade, foram estudadas caso a caso e, no fim, os dossiês chegaram à minha escrivaninha. E fui eu o responsável pela assinatura, no caso dos Bispos. Quanto ao Acordo, os rascunhos passaram pela minha escrivaninha, dialogava-se, dava as minhas ideias, os outros discutiram e seguíamos em frente. Penso na resistência, nos católicos que sofreram: é verdade, eles sofrerão. Num acordo, há sempre sofrimento. Mas eles têm uma fé grande! Escrevem, enviam mensagens afirmando que o que a Santa Sé, o que Pedro diz, é aquilo que diz Jesus: ou seja, a fé «martirial» daquelas pessoas continua viva hoje. São grandes. E para a assinatura daquele Acordo, fui eu quem assinou as Cartas Plenipotenciárias de quem o fez. Eu sou o responsável. Os outros, que citei por nome, trabalharam durante mais de dez anos. Não é uma improvisação: é um caminho, um verdadeiro caminho. E, antes de terminar, mais duas coisas: um caso simples e um dado histórico. Quando aconteceu aquele famoso comunicado de um ex-núncio Apostólico, os Episcopados do mundo escreveram-me afirmando que me estavam próximos, que rezavam por mim; e os fiéis chineses também escreveram, mas a assinatura que trazia aquele escrito era dupla: a do Bispo por assim dizer da Igreja Católica tradicional e a do Bispo da Igreja Patriótica; juntos, os dois, e os fiéis de ambas as Igrejas. Isto, para mim, foi um sinal de Deus. E a segunda coisa: esquecemos que, na América Latina graças a Deus, isso está superado esquecemos que durante 350 anos eram os reis de Portugal e da Espanha que nomeavam os Bispos; e o Papa apenas concedia a jurisdição. Esquecemos o caso do Império Austro-Húngaro: Maria Teresa cansou-se de assinar nomeações de Bispos, e deixava a jurisdição ao Vaticano. Outros tempos, graças a Deus! Esperemos que não se repitam... Mas, o caso atual não diz respeito à nomeação: é um diálogo sobre possíveis candidatos. A escolha faz-se em diálogo; mas a nomeação é de Roma; a nomeação é do Papa. Isto é claro. E rezamos pelos sofrimentos de alguns que não entendem ou que carregam às costas muitos anos de clandestinidade.

10 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 10/11 SÍNOD O Concelebração eucarística de abertura na praça de São Pedro Cuidar do tempo presente com os jovens Boas-vindas do Papa aos dois bispos da China continental O convite a «despertar e renovar em nós a capacidade de sonhar e esperar» foi dirigido pelo Papa Francisco aos padres sinodais que, na manhã de 3 de outubro na praça de São Pedro, concelebraram a santa missa de abertura da décima quinta assembleia geral ordinária do Sínodo dos bispos, dedicada ao tema: «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional». «O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, Esse é que vos ensinará tudo, e há de recordar-vos tudo o que Eu vos disse» (Jo 14, 26). Desta maneira tão simples, Jesus oferece aos seus discípulos a garantia de que acompanhará todo o trabalho missionário que lhes será confiado: o Espírito Santo será o primeiro a guardar e manter sempre viva e atual no coração dos discípulos a memória do Mestre. Ele faz com que a riqueza e beleza do Evangelho seja fonte de constante alegria e novidade. No início deste momento de graça para toda a Igreja, em sintonia com a Palavra de Deus, peçamos insistentemente ao Paráclito que nos ajude a trazer à memória e a reavivar as palavras do Senhor que faziam arder o nosso coração (cf. Lc 24, 32). Ardor e paixão evangélica que geram o ardor e a paixão por Jesus. Memória que possa despertar e renovar em nós a capacidade de sonhar e esperar. Porque sabemos que os nossos jovens serão capazes de profecia e visão, na medida em que nós, adultos ou já idosos, formos capazes de sonhar e assim contagiar e partilhar os sonhos e as esperanças que trazemos no coração (cf. Jl 3, 1). Que o Espírito nos dê a graça de ser Padres sinodais ungidos com o dom dos sonhos e da esperança, para podermos, por nossa vez, ungir os nossos jovens com o dom da profecia e da visão; que nos dê a graça de ser memória operosa, viva e eficaz, que, de geração em geração, não se deixa sufocar e esmagar pelos profetas de calamidades e desgraças, nem pelos nossos limites, erros e pecados, mas é capaz de encontrar espaços para inflamar o coração e discernir os caminhos do Espírito. É com esta disposição de dócil escuta da voz do Espírito que nos congregamos aqui de todas as partes do mundo. Hoje, pela primeira vez, estão connosco também dois irmãos Bispos da China continental, a quem damos as nossas calorosas boas-vindas: graças à sua presença, é ainda mais visível a comunhão de todo o Episcopado com o Sucessor de Pedro. Ungidos na esperança, começamos um novo encontro eclesial capaz de ampliar horizontes, dilatar o coração e transformar as estruturas que hoje nos paralisam, separam e afastam dos jovens, deixando-os expostos às intempéries e órfãos de uma comunidade de fé que os apoie, de um horizonte de sentido e de vida (cf. Exort. Ap. Evangelii gaudium, 49). Yana Sorenko, «Esperanças e sonhos» A esperança interpela-nos, movenos e destroça o conformismo ditado pelo «sempre se fez assim» e pede que nos ergamos para fixar olhos nos olhos o rosto dos jovens e ver as situações em que se encontram. A mesma esperança pede que trabalhemos por derrubar as situações de precariedade, exclusão e violência, a que está exposta a nossa juventude. Fruto de muitas das decisões tomadas no passado, os jovens chamamnos a cuidar, com maior empenho e juntamente com eles, do presente e a lutar contra aquilo que de algum modo impede a sua vida de crescer com dignidade. Pedem-nos e exigem-nos uma dedicação criativa, uma dinâmica inteligente, entusiasta e cheia de esperança, e que não os deixemos sozinhos nas mãos de tantos traficantes de morte que oprimem a sua vida e obscurecem a sua visão. Esta capacidade de sonhar juntos, que hoje o Senhor nos dá de presente a nós como Igreja, exige conforme nos dizia São Paulo, na primeira Leitura que desenvolvamos entre nós uma atitude muito concreta: «Cada um não tenha em vista os próprios interesses, mas todos e cada um exatamente os interesses dos outros» (Fl 2, 4). E, ao mesmo tempo, aponta para mais alto pedindo que, humildemente, consideremos os outros superiores a nós mesmos (cf. 2, 3). Com este espírito, procuraremos colocar-nos à escuta uns dos outros para discernirmos, juntos, aquilo que o Senhor está a pedir à sua Igreja. Isto exige de nós que estejamos atentos e nos precavamos bem para não prevalecer a lógica da autopreservação e da autorreferência, que acaba por tornar importante o que é secundário, e secundário o que é importante. O amor ao Evangelho e ao povo que nos foi confiado pede-nos que alarguemos o olhar e não percamos de vista a missão a que nos chama a fim de apostar num bem maior que será de proveito para todos nós. Sem esta atitude, serão vãos todos os nossos esforços. O dom da escuta sincera, orante e, o mais possível, livre de preconceitos e condições permitir-nos-á entrar em comunhão com as diferentes situações que vive o povo de Deus. Ouvir a Deus, para escutar com Ele o clamor do povo; ouvir o povo, para respirar com ele a vontade a que Deus nos chama (cf. Discurso na Vigília de Oração preparatória para o Sínodo sobre a família, 4 de outubro de 2014). Esta atitude defende-nos da tentação de cair em posições moralistas ou elitistas, bem como da atração por ideologias abstratas que nunca correspondem à realidade do nosso povo (cf. J. M. BERGO GLIO, Me d i t a ç õ e s para religiosos, 45-46). Irmãos e irmãs, coloquemos este tempo sob a proteção materna da Virgem Maria. Que Ela, mulher da escuta e da memória, nos acompanhe no reconhecimento dos vestígios do Espírito a fim de que, solicitamente (cf. Lc 1, 39), entre os sonhos e as esperanças, acompanhemos e estimulemos os nossos jovens para que não cessem de profetizar. Padres sinodais, muitos de nós éramos jovens ou dávamos os primeiros passos na vida religiosa, quando terminou o Concílio Vaticano II. Aos jovens de então, foi dirigida a última mensagem dos Padres conciliares. O que ouvimos quando éramos jovens far-nos-á bem repassá-lo com o coração, lembrados das palavras do poeta: «O homem mantenha o que, em criança, prometeu» (F. HÖLDERLIN). Assim nos falaram os Padres conciliares: «A Igreja, durante quatro anos, tem estado a trabalhar para um rejuvenescimento do seu rosto, para melhor responder à intenção do seu fundador, o grande vivente, o Cristo eternamente jovem. E no termo desta importante revisão de vida, volta-se para vós. É para vós, jovens, especialmente para vós, que ela acaba de acender, pelo seu Concílio, uma luz: luz que iluminará o futuro, o vosso futuro. A Igreja deseja que esta sociedade que vós ides construir respeite a dignidade, a liberdade, o direito das pessoas: e estas pessoas, sois vós. [...] Tem confiança que [...] vós sabereis afirmar a vossa fé na vida e no que dá um sentido à vida: a certeza da existência de um Deus justo e bom. É em nome deste Deus e de seu Filho Jesus que vos exortamos a alargar os vossos corações a todo o mundo, a escutar o apelo dos vossos irmãos e a pôr corajosamente ao seu serviço as vossas energias juvenis. Lutai contra todo o egoísmo. Recusai dar livre curso aos instintos da violência e do ódio, que geram as guerras e o seu cortejo de misérias. Sede generosos, puros, respeitadores, sinceros. E construí com entusiasmo um mundo melhor que o dos vossos antepassados» (CONC. ECUM. VA T. II, Mensagem aos jovens, 8 de dezembro de 1965). Padres sinodais, a Igreja olha-vos com confiança e amor! Discurso do Pontífice na primeira congregação geral Falar com coragem ouvir com humildade Na tarde de quarta-feira, 3 de outubro, na Sala do Sínodo, teve lugar a primeira congregação geral da assembleia ordinária do sínodo dos bispos. A seguir, o discurso de abertura do Pontífice. Prezadas Beatitudes Eminências, Excelências Amados irmãos e irmãs Queridos jovens! Ao entrar neste Auditório para falar dos jovens, já se sente a força da sua presença, que exala positividade e entusiasmo capazes de invadir e alegrar não só este Auditório, mas toda a Igreja e o mundo inteiro. Por isso mesmo, não posso começar sem vos dizer obrigado! Obrigado a vós que estais presentes; obrigado a tantas pessoas, que ao longo de um caminho de preparação de dois anos _ aqui na Igreja de Roma e em todas as Igrejas do mundo trabalharam com dedicação e paixão para nos fazer chegar a este momento. De coração, obrigado ao Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário-Geral do Sínodo, aos Presidentes Delegados, ao Cardeal Sérgio da Rocha, Relator- Geral; ao Bispo D. Fabio Fabene, Subsecretário, aos Oficiais da Secretaria Geral e aos Assistentes; obrigado a todos vós, Padres sinodais, Auditores, Auditoras, peritos e consultores; aos Delegados Fraternos; aos tradutores, aos cantores, aos jornalistas. De coração, obrigado a todos pela vossa participação ativa e fecunda. Um sentido obrigado merecem os dois Secretários Especiais, o padre jesuíta Giacomo Costa, e o padre salesiano Rossano Sala, que trabalharam com generoso empenho e abnegação. Jogaram a pele, na preparação! Desejo também agradecer vivamente aos jovens que neste momento estão conectados connosco e a todos os jovens que fizeram ouvir, de muitos modos, a sua voz. Agradeço-lhes por terem querido apostar que vale a pena sentir-se parte da Igreja ou entrar em diálogo com ela; vale a pena ter a Igreja como mãe, como mestra, como casa, como família, capaz não obstante as fraquezas humanas e as dificuldades de fazer resplandecer e transmitir a mensagem sem ocaso de Cristo; vale a pena agarrar-se à barca da Igreja que, mesmo através das tempestades implacáveis do mundo, continua a oferecer a todos refúgio e hospitalidade; vale a pena colocar-se à escuta uns dos outros; vale a pena nadar contracorrente e aderir a valores altos, como a família, a fidelidade, o amor, a fé, o sacrifício, o serviço, a vida eterna. A nossa responsabilidade aqui, no Sínodo, é não os desmentir; antes, é demonstrar que têm razão em apostar: verdadeiramente vale a pena, verdadeiramente não é tempo perdido! E, de modo particular, agradeço a vós, queridos jovens presentes! O caminho de preparação para o Sínodo ensinou-nos que o universo juvenil é tão variado que não pode estar aqui totalmente representado, mas vós sois seguramente um sinal importante daquele. A vossa participação enche-nos de alegria e esperança. O Sínodo que estamos a viver é um momento de partilha. Assim, no início do percurso da Assembleia sinodal, a todos desejo convidar a falarem com coragem e p a r ré s i a, isto é, aliando liberdade, verdade e caridade. Só o diálogo nos pode fazer crescer. Uma crítica honesta e transparente é construtiva e ajuda, ao contrário das bisbilhotices inúteis, das murmurações, das ilações ou dos preconceitos. E à coragem de falar deve corresponder a humildade de escutar. Como dizia aos jovens na Reunião pré-sinodal, «se [alguém] falar de algo que não gosto, ainda o devo ouvir melhor; pois cada um tem o direito de ser ouvido, como cada um tem o direito de falar». Esta escuta aberta requer coragem para tomar a palavra e fazer-se voz de tantos jovens no mundo que não estão presentes. É esta escuta que abre espaço ao diálogo. O Sínodo deve ser um exercício de diálogo, antes de mais nada entre os que participam nele. E o primeiro fruto deste diálogo é cada um abrir-se à novidade, estar pronto a mudar a sua opinião face àquilo que ouviu dos outros. Isto é importante para o Sínodo. Muitos de vós já prepararam, antes de vir, a sua intervenção e agradeço-vos por este trabalho mas convido a sentir-vos livres para considerar aquilo que preparastes como um projeto provisório aberto a eventuais acréscimos e alterações que o caminho sinodal possa sugerir a cada um. Sintamo-nos livres para aceitar e compreender os outros e, consequentemente, para mudar as nossas convicções e posições: é sinal de grande maturidade humana e espiritual. O Sínodo é um exercício eclesial de discernimento. Franqueza no falar e abertura na escuta são fundamentais para que o Sínodo seja um processo de discernimento. O discernimento não é um slogan publicitário, não é uma técnica organizativa, nem uma moda deste pontificado, mas um p ro - cedimento interior que se enraíza num ato de fé. O discernimento é o método e, simultaneamente, o objetivo que nos propomos: baseia-se na convicção de que Deus atua na história do mundo, nos acontecimentos da vida, nas pessoas que encontro e me falam. Por isso, somos chamados a colocar-nos à escuta daquilo que nos sugere o Espírito, segundo modalidades e direções muitas vezes imprevisíveis. O discernimento precisa de espaços e tempos próprios. Por isso estabeleço que, durante os trabalhos tanto na assembleia plenária como nos grupos, depois de cada cinco intervenções se observe um tempo de silêncio cerca de três minutos para permitir que cada um preste atenção às ressonâncias que as coisas ouvidas suscitam no seu coração, para aprofundar e apreender o que mais o impressiona. Esta atenção à interioridade é a chave para se efetuar o percurso reconhecer, interpretar e esc o l h e r. Sejamos sinal de uma Igreja à escuta e em caminho. A atitude de escuta não se pode limitar às palavras que trocaremos entre nós nos trabalhos sinodais. O caminho de preparação para este momento destacou uma Igreja «com deficit de escuta» inclusive para com os jovens, que muitas vezes se sentem não-compreendidos pela Igreja na sua originalidade e, por conseguinte, não aceites pelo que são verdadeiramente e, às vezes, até rejeitados. Este Sínodo possui a ocasião, a tarefa e o dever de ser sinal da Igreja que se coloca verdadeiramente à escuta, que se deixa interpelar pelas solicitações daqueles que encontra, que não tem uma resposta pré-confecionada sempre pronta. Uma Igreja que não escuta mostra-se fechada à novidade, fechada às surpresas de Deus, e não poderá ser credível, especialmente para os jovens, os quais, em vez de se aproximar, afastar-se-ão inevitavelmente. Deixemos para trás preconceitos e est e re ó t i p o s. Um primeiro passo rumo à escuta é libertar as nossas mentes e os nossos corações de preconceitos e estereótipos: quando pensamos já saber quem é o outro e o que quer, então teremos verdadeiramente dificuldade em escutá-lo seriamente. As relações entre as gerações são um terreno onde preconceitos e estereótipos pegam com facilidade proverbial, a ponto de muitas vezes nem nos darmos conta disso. Os jovens são tentados a considerar ultrapassados os adultos; os adultos são tentados a julgar os jovens inexperientes, a saber como são e sobretudo como deveriam ser e comportar-se. Tudo isto pode constituir um forte obstáculo ao diálogo e ao encontro entre as gerações. A maioria dos presentes não pertence à geração dos jovens, pelo que devemos claramente ter cuidado sobretudo com o risco de falar dos jovens a partir de categorias e esquemas mentais já superados. Se soubermos evitar este risco, então contribuiremos para tornar possível uma aliança entre gerações. Os adultos deveriam superar a tentação de subestimar as capacidades dos jovens e de os julgar negativamente. Uma vez li que a primeira menção deste facto remonta a 3000 a.c., tendo sido encontrada num vaso de barro da antiga Babilónia, onde está escrito que a juventude é imoral e que os jovens não são capazes de salvar a cultura do povo. É velha tradição nossa, dos idosos! Por sua vez, os jovens deveriam superar a tentação de não prestar ouvidos aos adultos e considerar os idosos «coisa antiga, passada e chata», esquecendo-se que é insensato querer partir sempre do zero, como se a vida começasse apenas com cada um deles. Na realidade, apesar da sua fragilidade física, os idosos permanecem sempre a memória da nossa humanidade, as raízes da nossa sociedade, o «pulso» da nossa civilização. Desprezá-los, abandoná-los, fechá-los em reservas isoladas ou então ignorá-los é índice de cedência à mentalidade do mundo que está a devorar as nossas casas a partir de dentro. Negligenciar o tesouro de experiências que cada geração herda e transmite à outra é um ato de autod e s t ru i ç ã o. Por conseguinte, é preciso, por um lado, superar decididamente o flagelo do clericalismo. De facto, a escuta e o abandono dos estereótipos são também um forte antídoto contra o risco do clericalismo, ao qual uma assembleia como esta, independentemente das boas intenções de cada um de nós, está inevitavelmente exposta. O clericalismo nasce de uma visão elitista e excludente da vocação, que interpreta o ministério recebido mais como um poder a ser exercido do que como um serviço gratuito e generoso a oferecer; e isto leva a julgar que se pertence a um grupo que possui todas as respostas e já não precisa de escutar e aprender mais nada, ou então finge escutar. O clericalismo é uma perversão e é raiz de muitos males na I g re j a : destes devemos pedir humildemente perdão e sobretudo criar as condições para que não se repitam. Mas, por outro lado, é preciso curar o vírus da autossuficiência e das conclusões precipitadas de muitos jovens. Diz um provérbio egípcio: «Se não houver um idoso na tua casa, compra-o, porque ser-te-á de proveito». Repudiar e rejeitar tudo o que foi transmitido ao longo dos séculos leva apenas àquele perigoso extravio que está, infelizmente, a ameaçar a nossa humanidade; leva ao estado de desilusão que invadiu os corações de gerações inteiras. A acumulação das experiências humanas ao longo da história é o tesouro mais precioso e fiável que as gerações herdam uma da outra; sem nunca esquecer a revelação divina, que ilumina e dá senti- CO N T I N UA NA PÁGINA 17

11 página 12 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 O desafio dos jovens LORENZO BALDISSERI Esta assembleia sinodal é um evento de fundamental importância para o povo de Deus, pastores e grei, e para toda a sociedade, em razão da temática, os jovens, todos os jovens da terra, na perspetiva da sempre sonhada civilização do amor. A Igreja, como o Santo Padre afirmou, desde o início do caminho sinodal, «quer pôr-se à escuta da voz, da sensibilidade, da fé e também das dúvidas e das críticas dos jovens» a fim de oferecer às gerações que terão as responsabilidades no futuro, a sua esperança, a proposta de fé em Jesus Cristo, centro da história de todos. Certamente hoje o tema dos jovens é um desafio, como de resto o foi também o da família. E a Igreja não tem medo de enfrentar os desafios, que são sempre difíceis e insidiosos. Não os teme porque tem certeza de que as forças espiri- A presença de prelados chineses Estão presentes também dois prelados chineses entre os 266 padres que participam de 3 a 28 de outubro na xv assembleia geral ordinária do Sínodo dos bispos. Eis uma das notícias que, na manhã de 1 de outubro, foram referidas durante a conferência de apresentação da assembleia, na Sala de Imprensa da Santa Sé. Publicamos excertos da intervenção do cardeal secretário-geral e na íntegra o texto do relator-geral. tual e humana chegam até ela através do Espírito Santo, que inspira e ampara os seus pastores e o seu rebanho, com a guia daquele que tem como ministério confirmar os irmãos. Segundo as normas sinodais, participam na Assembleia geral ordinária os chefes das Igrejas orientais católicas sui iuris, os prelados eleitos pelos sínodos dos bispos e pelos conselhos dos hierarcas das Igrejas orientais católicas, os bispos eleitos pelas conferências episcopais, dez religiosos eleitos pela União dos superiores-gerais, alguns chefes de dicastérios da Cúria romana e um número apropriado de membros nomeados pelo Santo Padre. Deste modo, no total, participam nesta assembleia 266 padres sinodais. Entre outros participantes, contam-se 23 peritos, 49 auditores e auditoras, também eles provenientes do mundo inteiro, entre os quais figuram não só muitos especialistas e agentes da pastoral juvenil mas também 34 jovens de 18 a 29 anos. Depois, será significativa a presença de 8 delegados fraternos, representantes de outras Igrejas e comunidades eclesiais. Por conseguinte, trata-se de uma assembleia ampla e compósita, uma assembleia sinodal de alcance mundial, correspondente à dimensão universal da Igreja, que age cum Petro et sub Pet ro. A XV Assembleia geral ordinária realiza-se no final de um longo caminho de preparação que teve início com o anúncio da convocação por parte do Pontífice, através de um comunicado de imprensa a 6 de outubro de O Instrumentum laboris, publicado na conferência de imprensa de 19 de junho passado, representa a síntese de todo o material recolhido durante a consulta. Com a solene celebração eucarística presidida pelo Santo Padre na basílica de São Pedro a 3 de outubro, terá início a assembleia comemorativa do percurso sinodal, que se prolongará por 25 dias. Período no qual os padres sinodais trabalharão juntos com os participantes, segundo as próprias tarefas, seguindo o Instrumentum laboris que será o texto-base para a elaboração do Documento final. O precioso património de ideias e reflexões que emergiu até agora permitirá alcançar os objetivos desta assembleia sinodal, entre os quais os seguintes: tornar toda a Igreja SÉRGIO DA RO CHA Não há uma receita pronta Gostaria de focalizar melhor o papel do Instrumentum laboris como ponto de referência dos trabalhos e apresentar mais pormenorizadamente o objetivo da primeira unidade de trabalho, que começa depois de amanhã e que ocupará quase toda a primeira semana. O percurso de escuta que precedeu o Sínodo recolheu milhares de páginas de testemunhos, reflexões e pedidos provenientes de todo o mundo; o Instrumentum laboris re ú - ne todos estes contributos, ajudando-nos a ter um olhar integral e integrado das questões que deveremos abordar: trata-se, por conseguinte, do quadro de referência dos trabalhos sinodais que nos acompa- do Instrumentum laboris, cuja sequência repropõe os passos de um processo de discernimento: re c o - nhecer, i n t e r p re t a r, escolher (cf. Evangelii gaudium, 51). Isto oferecerá uma orientação dinâmica ao desenvolvimento da sessão. A primeira passagem caracterizase pelo verbo re c o n h e c e r : significa começar a partir, à luz da fé, da concretização da realidade dos jovens para evidenciar quais são os apelos e as perguntas que Deus dirige à Igreja hoje. A segunda passagem põe no centro o verbo i n t e r p re t a r : é importante que a realidade seja iluminada por um quadro de referência bíblico e antropológico, teológico e eclesiológico, pedagógico e espiritual. Por fim, a terceira passagem pede que a assembleia sinodal escolha : a Igreja é chamada a tomar posição, a fazer opções corajosas e talvez até arriscadas a fim de criar as condições para uma autêntica renovação pastoral, espiritual e missionária da I g re j a. Concentro-me agora na primeira parte, deixando para momentos sucessivos a apresentação dos trabalhos sobre a segunda e terceira partes. Nos próximos dias e durante toda a primeira semana de trabalho, trataremos a primeira parte do Instrumentum laboris, que está caracterizada pelo verbo re c o n h e c e r ; pôr-nos-emos diante da realidade não para uma análise sociológica, mas com o olhar do discípulo, perscrutando as pegadas e os vestígios da passagem do Senhor com uma atitude aberta e acolhedora. É imprescindível que todos os que se preocupam pelos jovens e desejam acompanhá-los rumo à vida em plenitude, conheçam as realidades que eles vivem, a partir das mais dolorosas como o mal-estar, a guerra, a prisão, as migrações e todos os outros tipos de marginalização e de p obreza. Será igualmente necessário que nos deixemos interpelar pelas preocupações dos jovens, também quando põem em questão as práticas da Igreja ou dizem respeito a questões complexas como a afetividade e a sexualidade. Nos nossos contextos eclesiais é muito fácil falar dos jovens por ter ouvido dizer, fazen- nhará diariamente, oferecendo-nos quer um método quer os conteúdos sobre os quais debater. A sua estrutura funda-se no estilo escolhido para caminhar juntos: o sua tarefa discernimento. Não há uma re c e i t a p ro n t a para acompanhar os jovens rumo à fé e plenitude de vida, nem uma solução pré-fabricada para as muitas questões que a escuta pré-sinodal suscitou. Portanto, é oportuno que, como assembleia sinodal, nos encaminhemos numa dinâmica de discernimento. Fazer isto significa assumir algumas atitudes bem determinadas. A primeira é manter olhos e ouvidos, mas também mente e coração abertos, como uma sentinela à qual nenhum sinal das mudanças em curso passa despercebido; a segunda exigência para um bom percurso de discernimento é saber avaliar à luz da fé aquilo que se move na vida do mundo e da Igreja, e na interioridade de cada um de nós; por fim, é necessária a disponibilidade para se pôr nas feridas da história com um coração cheio de misericórdia, mantendo as portas escancaradas de ao Deus da ternura que age CO N T I N UA NA PÁGINA 18 continuamente no seu povo e se faz vivo através da voz dos pequeninos e dos pobres. Entrar com humildade nesta maneira de proceder, neste estilo eclesial, é já a primeira resposta pastoral de uma Igreja que deseja ser credível para as jovens gerações. Cada uma das três unidades de trabalho, de cerca de uma semana, que ritmarão o percurso sinodal está relacionada com uma das partes CO N T I N UA NA PÁGINA 18 consciente da missionária de acompanhar cada jovem, sem excluir nenhum, rumo à alegria do amor, que Jesus Cristo oferece às novas gerações; tomar consciência do alcance universal do conceito de vocação e, consequentemente, da ligação entre pastoral juvenil e pastoral vocacional; a renovação eclesial desejada pelo Papa Francisco na Evangelii gaudium, segundo o qual a «conversão pastoral» tem a finalidade de «fazer de modo que [todas as estruturas eclesiais] se tornem mais missionárias [...] em atitude constante de saída» (n. 27). Os trabalhos sinodais serão articulados em três unidades de trabalho, correlativas às três partes do Documento de trabalho: «Reconhecer: a Igreja à escuta da realidade», «I n t e rp re t a r : fé e discernimento vocacional», «Escolher: caminhos conversão pastoral e missionária». Durante a Sessão inaugural da tarde de 3 de outubro, além do relatório do secretário-geral do Sínodo, será ilustrado o Instrumentum laboris pelo relator-geral nas suas linhas principais e depois, de maneira introdutiva, terá lugar a apresentação da primeira parte. Em seguida, terão início os pronunciamentos dos

12 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 13 Acolhimento e integração dos migrantes Diante do alastrar-se de novas formas de xenofobia, racismo e populismo «Queridos amigos, bom dia! Escrevi um discurso que deveria ser lido, mas é um pouco longo... Por esta razão, prefiro dirigir-vos duas ou três palavras de coração e depois saudarvos um por um: para mim isso é muito importante. Peço-vos que não vos ofendais», disse o Papa, improvisando uma breve saudação aos participantes na Conferência mundial sobre o tema «Xenofobia, racismo e nacionalismo populista no contexto das migrações mundiais», recebidos em audiência na Sala Clementina na manhã de quinta-feira, 20 de setembro. Publicamos a seguir o discurso entregue pelo Pontífice aos presentes. Dia das comunicações sociais Da comunidade em rede às comunidades humanas Senhor Cardeal Venerados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio Caros irmãos e irmãs! Apraz-me receber-vos por ocasião da Conferência mundial sobre o tema Xenofobia, racismo e nacionalismo populista no contexto das migrações mundiais (Roma, de setembro de 2018). Saúdo cordialmente os representantes das instituições das Nações Unidas, do Conselho da Europa, das Igrejas cristãs, em particular do Conselho Ecuménico das Igrejas e das outras religiões. Agradeço ao Cardeal Peter Turkson, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, as gentis expressões que me dirigiu em nome de todos os participantes. Vivemos tempos em que parecem retomar vida e difundir-se sentimentos que muitos supunham superados. Sentimentos de suspeita, de temor, de desprezo e até de ódio em relação a indivíduos ou grupos julgados diversos devido à sua pertença étnica, nacional ou religiosa e, enquanto tal, considerados não suficientemente dignos de participar de modo pleno na vida da sociedade. Além disso, estes sentimentos, muitas vezes inspiram verdadeiros atos de intolerância, discriminação ou exclusão, gravemente lesivos da dignidade das pessoas envolvidas e dos seus direitos fundamentais, inclusive do próprio direito à vida e à integridade física e moral. Infelizmente, acontece também que no mundo da política se ceda à tentação de instrumentalizar os medos ou as dificuldades objetivas de alguns grupos e de se servir de promessas ilusórias para interesses eleitorais míopes. A gravidade destes fenómenos não pode deixar-nos indiferentes. Somos todos chamados, nos nossos respetivos papéis, a cultivar e promover o respeito da dignidade intrínseca de cada pessoa humana, começando pela família lugar onde se aprendem desde a terna infância os valores da partilha, do acolhimento, da fraternidade e da solidariedade mas também nos vários contextos sociais em que trabalhamos. Penso, em primeiro lugar, nos formadores e educadores, dos quais se exige um renovado compromisso a fim de que na escola, na universidade e nos outros locais de formação seja ensinado o respeito por cada pessoa humana, independentemente das diversidades físicas e culturais que a carateriza, superando os preconceitos. Num mundo em que o acesso a instrumentos de informação e de comunicação está cada vez mais generalizado, incumbe uma responsabilidade especial a quantos trabalham no mundo das comunicações sociais, os quais têm o dever de se pôr ao serviço da verdade e de divulgar as informações, tendo o cuidado de favorecer a cultura do encontro e da abertura ao próximo, no respeito recíproco das diversidades. Além disso, quantos beneficiam economicamente do clima de desconfiança em relação ao estrangeiro, em que a irregularidade ou a ilegalidade da residência favorece e alimenta um sistema de trabalho precário e de exploração às vezes a tal nível que leva a dar origem a verdadeiras formas de escravidão deveriam fazer um profundo exame de consciência, cientes de que um dia deverão prestar contas diante de Deus das escolhas que fizeram. Perante o alastrar-se de novas formas de xenofobia e de racismo, também os l í d e re s de todas as religiões têm uma importante missão: difundir entre os seus fiéis os princípios e valores éticos inscritos por Deus no coração do homem, conhecidos como lei moral natural. Trata-se de cumprir e inspirar gestos que possam contribuir para construir sociedades fundadas no princípio da sacralidade da vida humana e no respeito pela dignidade de cada pessoa, na caridade, na fraternidade que vai muito além da tolerância e na solidariedade. Em particular, possam as Igrejas cristãs tornar-se testemunhas humildes e laboriosas do amor de Cristo. Com efeito, para os cristãos as responsabilidades morais acima mencionadas adquirem um significado ainda mais profundo à luz da fé. A origem comum e o vínculo singular com o Criador tornam todas as pessoas «Somos membros uns dos outros (E f, 4, 25). Da comunidade em rede às comunidades humanas»: eis o tema que o Papa escolheu para o quinquagésimo terceiro dia mundial das comunicações sociais, que se celebrará em A mensagem é publicada tradicionalmente a 24 de janeiro, memória litúrgica de São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas. Este ano o foco de atenção é o papel das chamadas redes sociais e a dinâmica das relações humanas na rede digital. Com o objetivo de restituir à comunicação uma perspetiva ampla, fundada na pessoa, para valorizar o diálogo e o encontro. «As redes sociais comentou Paolo Ruffini, prefeito do Dicastério para a camunicação são o lugar onde se formam as nossas identidades, especialmente as dos mais jovens. A conversa pode construir relações verdadeiras, bonitas, sólidas. Ou alimentar-se de ódio, do mecanismo amigo-inimigo, e quando isto acontece não existe um relacionamento verdadeiro; corre-se o risco de retroceder convicto de que se está a seguir em frente. A presença do Papa nas redes sociais oferece uma alternativa, um ponto de vista diferente». O tema confirma a atenção do Pontífice pelos novos ambientes comunicativos e pelas redes onde está presente com o no Twitter e com o no Instagram. membros de uma única família, irmãos e irmãs, criados à imagem e semelhança de Deus, como ensina a Revelação bíblica. A dignidade de todos os homens, a unidade fundamental do género humano e a chamada a viver como irmãos, encontram confirmação e fortalecem-se ulteriormente na medida em que se acolhe a Boa Nova de que todos são igualmente salvos e reunidos por Cristo, a ponto que como diz São Paulo «já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois [...somos] um em Cristo Jesus» (Gl 3, 28). Nesta perspetiva, o outro não só é um ser que devemos respeitar em virtude da sua dignidade intrínseca, mas sobretudo um irmão ou uma irmã que devemos amar. Em Cristo, a tolerância transforma-se em amor fraterno, em ternura e solidariedade ativa. Isso é válido principalmente em relação aos mais pequeninos dos nossos irmãos, entre os quais podemos reconhecer o forasteiro, o estrangeiro, com o qual o próprio Jesus se identificou. No dia do juízo universal, o Senhor lembrar-nos-á: «Eu era peregrino e não me acolhestes» (Mt 25, 43). Mas já hoje nos interpela: Sou estrangeiro, não me reconheceis?. E quando Jesus dizia aos Doze: «Não seja assim entre vós» (Mt 20, 26), não se referia somente ao domínio dos chefes das nações em relação ao poder político, mas a todo o ser cristão. De facto, ser cristão é uma chamada a ir contracorrente, a reconhecer, acolher e servir o próprio Cristo descartado nos irmãos. Ciente das múltiplas expressões já existentes de proximidade, de acolhimento e de integração para com os estrangeiros, faço votos para que do encontro há pouco encerrado nasçam muitas outras iniciativas de colaboração, a fim de que possamos construir juntos sociedades mais justas e solidárias. Confio cada um de vós e as vossas famílias à intercessão de Maria Santíssima, Mãe da ternura, e de coração concedo a Bênção apostólica a vós e a todos os vossos entes queridos.

13 página 14 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 Quinta-feira, 13 de setembro O estilo do cristão Segundo a lógica do mundo, «amar os inimigos» é uma «loucura». Mas é precisamente a «loucura da Cruz» que deve orientar o comportamento de cada cristão, porque se quisermos viver «como filhos» temos que ser «misericordiosos como o Pai» e não nos deixar guiar pela «lógica de Satanás», o grande acusador que procura sempre «fazer o mal ao próximo». Foi o «estilo do cristão» que esteve no centro da meditação do Papa. Um tema, recordou na homilia, que aparece «várias vezes no Evangelho», em muitos trechos nos quais o Senhor «nos diz como deve ser a vida do discípulo, do cristão. Dá-nos sinais para progredir no caminho». Acontece, por exemplo, no sermão das bem-aventuranças, do qual sobressai «algo revolucionário, porque parece a lógica do contrário»: é «a lógica do contrário em relação ao espírito do mundo». Nessa ocasião, «o Senhor ensina-nos como deve ser o cristão». E no capítulo 25 de Mateus, onde se fala das obras de misericórdia, «o Senhor ensina-nos o que uma pessoa deve fazer para ser cristã». Descreve-se um «estilo», diante do qual, frisou Francisco, «dizemos: Não é fácil ser cristão. Não! Mas torna-nos felizes. É o caminho da felicidade, da paz interior». Também a liturgia do dia se inspirou num trecho evangélico (Lc 6, 27-38) dedicado a este tema. Trata-se de um trecho no qual «o Senhor entra em detalhes, propondo-nos quatro deles para levar uma vida cristã». As palavras de Jesus são claras: «Digo-vos, a vós que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam». São, disse o Pontífice, «quatro mandamentos» diante dos quais o homem normalmente fica perplexo: «Como posso amar quem me faz mal? Não me vingar, pelo menos defendendo-me». A resposta é: «Amai os vossos inimigos». Poderíamos contestar: «Mas não os posso odiar? Tenho o direito de os odiar, porque eles me odeiam, e eu devo odiá-los...». E a resposta é sempre clara: «Não. Amai os inimigos, aqueles que vos querem destruir: amai. Fazei o bem aos que vos o deiam». Há um contraste entre o que parece «normal» «Se eu souber que alguém me odeia, digo a todos os amigos: Ele odeia-me. Ele quer dest ru i r - m e. Entro na bisbilhotice...» e o que é pedido ao cristão: «Não. Fazei o bem. Se souberes que alguém te odeia e está em necessidade ou passa por uma situação difícil, pratica o bem». A terceira indicação de Jesus é: «Abençoai os que vos maldizem». Aqui entramos na «lógica da resposta. Alguém te amaldiçoa e tu reages a alto nível; o outro faz aumentar o grau da maldição e o ódio cresce e acaba em guerra. É a lógica dos insultos. Insultando-se, acaba-se em guerra. Ao contrário, o Senhor diz: «Não! Espera, ab ençoa. Amaldiçoou-te? Abençoa-o». MISSAS EM SA N TA MA R TA Depois, «a mais difícil é a que vem agora: Orai pelos que vos injuriam». A tal propósito, Francisco pediu: «Quanto tempo de oração dedico a pedir ao Senhor pelas pessoas molestas, por quantos me incomodam ou até me tratam mal?». É bom fazer «um exame de consciência». Tudo isto, resumiu o Papa, «é o estilo cristão, o modo de viver cristão». Poder-se-ia perguntar: «Mas se eu não praticar estas quatro ações amar os inimigos, fazer o bem aos que me odeiam, abençoar os que me maldizem e rezar por quantos me injuriam não sou cristão?». Até neste caso a resposta é clara: «Sim, és cristão porque recebeste o Batismo, mas não vives como cristão. Vives como pagão, com o espírito da mundanidade». E, acrescentou, «não se trata de imagens poéticas: é isto que o Senhor quer que façamos. Assim, direto». São indicações concretas, pois «é muito fácil reunir-nos para falar mal dos inimigos ou dos que pertencem a um partido diferente, ou ainda daqueles que não gozam da nossa simpatia. Mas a lógica cristã é o contrário». E não há exceções: «Mas padre, é preciso seguir sempre isto?. Sim. Mas é uma loucura Sim. Paulo dilo claramente: A loucura da Cruz. Se, como cristão, não te apaixonares por esta loucura da Cruz, não entendeste o que significa ser cristão». Para confirmar o que disse, o Papa retomou o texto evangélico para frisar a diferença que o próprio Jesus faz entre cristãos e pagãos: «Usa a palavra p ecadores. pagãos, p e- c a d o re s, mundanos». A síntese deste raciocínio é oferecida pela própria Escritura, onde o Senhor, como que num «resumo», explica o motivo de certas indicações: «Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem nada esperar, e sereis filhos do Altíssimo, porque ele é benévolo para com os ingratos e os malvados. Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso». Portanto, o fim de tudo, explicou Francisco, é «chegar a comportarnos como filhos, filhos do nosso Pai, que sempre pratica o bem, que é m i s e r i c o rd i o s o : esta é a palavrachave». Por isso, «lendo, ouvindo estas indicações de Jesus, podemos perguntar-nos: sou misericordioso?». Podemos «entrar no mistério da misericórdia» e questionar-nos: «O Senhor foi misericordioso para comigo? Senti a misericórdia do Senhor? Se sou misericordioso, sou filho do Pai». E assim como às vezes se diz de uma criança: «Como se parece com o pai!», de igual modo «somente os misericordiosos se assemelham a Deus Pai», porque este «é o estilo do Pai». Mas este caminho, avisou o Papa, é contracorrente, «não acusa o próximo» e «vai contra o espírito do mundo». Com efeito, «no meio de nós está o grande acusador, que sempre nos acusa diante de Deus para nos destruir. Satanás: ele é o grande acusador. E quando entro nesta lógica de acusar, amaldiçoar, procurar fazer o mal ao outro, entro na lógica do grande acusador, que é destruidor, que não conhece a palavra m i s e r i c ó rd i a, não a conhece porque nunca a viveu». Portanto, disse Francisco, o caminho do cristão está sempre perante uma encruzilhada: por um lado «o convite do Senhor» a «ser misericordioso, um convite que é uma graça, uma graça de filiação, para se assemelhar ao Pai». Por outro, «o grande acusador, Satanás, que nos impele a acusar os outros para os destruir». Não se pode, concluiu o Pontífice, «entrar na lógica do acusador»; aliás, «a única acusação que, a nós cristãos, é lícito fazer é acusarnos a nós mesmos. Para os outros, unicamente a misericórdia, porque somos filhos do Pai, que é misericordioso». Sexta-feira, 14 de setembro Como foi derrotado o diabo «Hoje seria bom se em casa, tranquilos, dedicássemos cinco, dez, quinze minutos a estar diante do crucifixo, ou daquilo que temos em casa ou do rosário», a fim de «olhar para ele e recordar que «é o nosso sinal de derrota que causa as perseguições, que nos destroem», mas «é também o nosso sinal de vitória, porque Deus venceu assim». Eis a proposta espiritual concreta que o Papa Francisco quis sugerir durante a missa na festa da exaltação da santa cruz. E mais uma vez admoestou contra o aproximar-se do grande Acusador que, como «um cão enraivecido», está pronto para morder. «Hoje a Igreja convida-nos a contemplar a cruz do Senhor, a santa cruz, que é o sinal do cristão» recordou imediatamente o Pontífice. A cruz «é aquele sinal que quando éramos crianças, talvez tenha sido o primeiro que aprendemos a fazer no peito e nos ombros, a santa cruz de Deus». E «contemplar a cruz, para nós cristãos, significa contemplar um sinal de derrota e um sinal de vitória, ambos». «A pregação de Jesus, o milagre de Jesus, tudo o que Jesus fez na vida, acabou numa falência, faliu na cruz» explicou o Papa. «Todas as esperanças que os discípulos depunham nele acrescentou foram desatendidas: nós esperávamos que ele fosse o Messias, mas foi crucificado». E «a cruz é aquele patíbulo, aquele instrumento cruel de tortura. Ali acabou toda a esperança das pessoas que seguiam Jesus. Uma verdadeira derrota». «Não tenhamos medo de contemplar a cruz como um momento de derrota, de falência», prosseguiu Francisco, referindo-se à carta de São Paulo aos Filipenses (2, 6-11) proposta como segunda leitura. «Paulo quando faz a reflexão sobre o mistério de Jesus Cristo afirmou diz-nos coisas fortes, diz-nos que Jesus se esvaziou, se aniquilou, assumiu todos os nossos pecados, todos os pecados do mundo: era um trap o, um condenado». Por conseguinte, afirmou o Papa, «Paulo não tinha medo de mostrar esta derrota e também isto pode iluminar um pouco os nossos momentos maus, os nossos momentos de derrota». Mas a cruz é também «um sinal de vitória para nós cristãos». A ponto que «na tradição havia aquela aparição: com este sinal tu vencerás, sinal de vitória para nós». E «a leitura de hoje disse Francisco citando o excerto do livro dos Números (21, 4-9) reproposto também pelo trecho evangélico de João (3, 13-17) fala do momento em que o povo devido aos murmúrios foi punido pelas serpentes; fala das serpentes como instrumento de morte». E «por detrás está a memória de Israel, a serpente antiga, a do paraíso terrestre. Satanás, o grande Acusador. Era profético pois o Senhor disse a Moisés para erguer uma serpente, erguer. Mas o que te dava a morte, o que era pecado, tudo será elevado e isto dará a saúde. Esta é uma p ro f e c i a». «Jesus feito pecado venceu o autor do pecado, venceu a serpente» reafirmou o Pontífice. Com efeito, Satanás «era feliz na sexta-feira santa, sentia-se feliz; sentia-se tão feliz que não se apercebeu que havia a grande cilada da história na qual teria caído. Viu Jesus tão arrasado, rebaixado e, como o peixe faminto que cai na isca amarrada ao anzol, ele foi lá e engoliu Jesus. Dizem isto os padres da Igreja». «A sua vitória afirmou ainda o Papa cegou-o, engoliu este trap o, este Jesus destruído. Sentia-se feliz mas naquele momento engoliu também a divindade, porque era a isca amarrada ao anzol com o peixe. Naquele momento satanás foi destruído para sempre. Não teve força. A cruz, naquele momento, tornou-se sinal de vitória». «A nossa vitória a c re s c e n t o u Francisco é a cruz de Jesus, a derrota daquele que tinha carregado sobre si todos os nossos pecados, esta-

14 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 15 «Jesus ressuscita o filho da viúva de Naim» (catedral de Monreale) va quase destruído, todas as nossas culpas; e a vitória diante do nosso inimigo, da grande serpente antiga, do grande Acusador». Por isso «a cruz é sinal de vitória para nós, na cruz fomos salvos, naquele percurso que Jesus quis fazer até ao mais baixo, ao mais baixo, mas com a força da divindade». A este propósito, o Pontífice recordou as palavras de Jesus: «Quando for elevado, atrairei todos a mim. Jesus elevado e satanás destruído. A cruz de Jesus deve ser para nós a atração: olhar para ela, porque é a força para ir em frente». E «a serpente antiga destruída ainda late, ainda ameaça, mas, como diziam os padres da Igreja, é um cão acorrentado: se não te aproximares não te morderá; mas se a fores acariciar, porque o fascínio te atrai como se fosse um cãozinho, prepara-te, destruir-te-á». E «assim, com esta vitória da cruz, com Cristo ressuscitado, que nos envia o Espírito Santo, vamos em frente, em frente, sempre; e aquele cão acorrentado, ali, ao qual não me devo aproximar senão ele mordeme, a nossa vida vai em frente». «A cruz ensina-nos isto, que na vida há a falência e a vitória» insistiu Francisco na conclusão. «Devemos exortou ser capazes de tolerar as derrotas, de as carregar com paciência; as derrotas, também dos nossos pecados porque ele pagou por nós. Tolerá-las nele, pedir perdão nele mas nunca se deixar seduzir por este cão acorrentado». Terça-feira, 18 de setembro Com mansidão e ternura A capacidade de Jesus de estar «próximo do povo», de sentir «compaixão» dele com «ternura», de fundar a sua «autoridade» na «mansidão», é a mesma que cada pastor na Igreja deveria ter. O Papa voltou a refletir sobre o papel e a identidade do bispo graças a uma meditação sobre o Evangelho do dia (Lucas 7, 11-17) que lhe permitiu «contemplar» Jesus, o seu estilo, para o apresentar como modelo. De facto, o Senhor, evidenciou imediatamente o Pontífice, «Tinha autoridade, era competente». Uma caraterística que emerge das narrações evangélicas nas quais se lê que «o povo o seguia porque falava com autoridade, mas não com a autoridade com a qual falam os doutores da lei: eles não tinham autoridade diante do povo. Jesus, ao con- trário, sim». Eis então a pergunta que orientou toda a meditação: «O que conferia autoridade a Jesus?». O que o punha sob uma luz diversa aos olhos do povo, dado que, no fundo, «a doutrina que pregava era quase a mesma dos outros»? A resposta encontra-se noutro trecho do Evangelho no qual o próprio Jesus diz: «Aprendei comigo que sou humilde e manso de coração». Segundo o Papa, esta é a chave para compreender: «naquela humildade de Jesus encerra-se a explicação da sua autoridade». Com efeito, qual era o estilo de Jesus? «Ele não gritava, não dizia sou o messias nem sou o profeta ; não tocava a trombeta quando curava alguém ou pregava ao povo, quando realizava um milagre como a multiplicação dos pães. Não. Ele era humilde. Agia». Esta humildade, acrescentou o Pontífice, «via-se num comportamento muito especial: Jesus estava próximo das pessoas». Distinguia-se nisto: «os doutores da lei afastavamse do povo, ensinavam da cátedra: Vós deveis fazer isto e aquilo.... A eles as pessoas não interessavam. Ao contrário, a eles interessava impor às pessoas mandamentos que se multiplicavam, se multiplicavam até mais de Mas não estavam próximos do povo». Jesus, contudo, «vivia no meio do povo, próximo das pessoas». E, lê-se no Evangelho, quando não estava no meio do povo «estava com o Pai, a orar». Jesus obteve a «autoridade» que todos reconheciam deste comportamento, dedicando a maior parte do tempo da sua vida pública «nas ruas, com o povo»; foram a sua «proximidade», a sua «humildade». O Senhor, continuou o Papa, «tocava as pessoas, abraçava-as, fitava-as nos olhos, ouvia-as. Estes traços emergem claramente no excerto evangélico proposto pela liturgia de hoje, no qual se narra o episódio da viúva de Nain. Francisco repercorreu-o: «Aparece uma palavra aqui, neste trecho, quando vê o féretro, a mãe viúva, sozinha, o jovem morto... Vendo-a a mãe o Senhor foi tomado por grande compaixão». A nota do evangelista é fundamental para compreender: «Jesus teve compaixão», «a capacidade de sentir com. Não era teórico, não. Pode-se dizer exagerando um pouco, mas pode-se dizer p ensava com o coração, não separava a cabeça do coração, não, estava tudo unido». Humilde, próximo das pessoas, com compaixão: tudo isto «lhe conferia autoridade, autoridade de pastor». Refletindo sobre este aspeto, o Pontífice quis evidenciar «duas caraterísticas desta compaixão»: a «mansidão» e a «ternura». De resto, o próprio Jesus diz: «Aprendei comigo que sou humilde e manso de coração». O Senhor, explicou Francisco, «era manso, não bradava. Não punia as pessoas. Era manso. Sempre com mansidão». Não significa que não se zangasse: pensemos, acrescentou Francisco, em quando viu o templo, a casa do seu Pai que se tinha tornado lugar de «shopping, para vender mercadorias», com quantos trocavam moedas e tudo o mais: «lá zangou-se, pegou o chicote e mandou todos embora. Mas porque amava o Pai, porque era humilde diante do Pai, teve aquela força. E as pessoas aplaudiram». Mas, fundamentalmente, Jesus caraterizava-se pela «mansidão: aquela humildade que não é agressiva, mas mansa». Depois, há outra caraterística, a ternura. Emerge claramente da narração evangélica. Quando Jesus viu a viúva, aproximou-se dela e disse: «Não chores». O Papa tentou imaginar a cena supondo que o Senhor não tenha tido um simples comportamento de circunstância: «Não. Ele aproximou-se, talvez tenha-lhe tocado os ombros, ou feito uma carícia. Não chores. Este é Jesus». E ele, acrescentou, «faz o mesmo connosco, porque está próximo, está no meio do povo, é pastor». Também a cena sucessiva é significativa: «Depois, aproximou-se e tocou o féretro. Os portadores pararam. Em seguida disse: Jovem, digo a ti: levanta-te!. O morto sentou-se e começou a falar. Realizou o milagre». Também aqui sobressai a proximidade: Jesus não diz simplesmente «Festejai, adeus». Não, acompanhou o jovem «restituindo-o à sua mãe. Um gesto de ternura». A mesma ternura que se encontra no episódio de Jairo: depois de ter ressuscitado a jovem, Jesus preocupou-se «Dai-lhe de comer, tem fome». Sobressai claramente «a ternura de saber as coisas da vida». Credenciais do embaixador da República Eslovaca Sua Excelência o Senhor Marek Lisánsky, novo embaixador da República Eslovaca junto da Santa Sé, nasceu a 1 de outubro de É casado e tem três filhos. Doutorou-se em direito (faculdade de direito de Pavol Jozef Šafárik, Košice, 2000) e em seguida obteve um diploma especial em estudos europeus (Diplomatische Akademie, Vienna, 2001). Desempenhou, entre outros, os seguintes cargos: secretário junto do departamento para os direitos humanos do ministério dos Negócios estrangeiros (Mne) da comissão intergovernamental mista húngaro-eslovaca para as minorias ( ); secretário-geral no consulado-geral na Polónia ( ); vice-diretor do departamento para os direitos humanos do Mne e vice-chefe do comité interministerial de coordenação da presidência no Comité dos ministros do Conselho da Europa e do comité organizativo do Mne para a presidência da República Eslovaca no Comité dos ministros do Conselho CO N T I N UA NA PÁGINA 16 Na manhã de quinta-feira 13 de setembro, o Papa recebeu em audiência Sua Excelência o senhor Marek Lisánsky, novo embaixador da República Eslovaca, por ocasião da apresentação das cartas com as quais é acreditado junto da Santa Sé da Europa ( ); diretor-geral da secção para os direitos humanos e das minorias junto do governo e secretário do conselho do governo para as minorias populares e grupos étnicos e para as organizações não-governamentais sem fins lucrativos, conselheiro junto do Comité para os Negócios estrangeiros do Conselho nacional e representante do governo no Conselho para a reabilitação das vítimas do holocausto ( ); representante da República Eslovaca no comité de gestão do Monumento no campo de extermínio nazista de Sobibór ( ); consul-geral na Polónia ( ); secretário-geral no ministério dos Negócios estrangeiros e europeus, departamento das análises e planeamentos (2014); diretor-geral da secção para a política da defesa no ministério da defesa ( ); e conselheiro do presidente do Conselho nacional nos VI e VII períodos eleitorais para a política estrangeira (desde 2015 até agora).

15 página 16 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 Missas em Santa Marta CO N T I N UA Ç Ã O DA PÁGINA 15 Este era Jesus: «humilde e manso de coração, próximo do povo, com capacidade de sentir pena, com compaixão e com estas duas caraterísticas: mansidão e ternura». E sobretudo, frisou Francisco, o que Jesus «fez com aquele jovem, com a mãe viúva, faz também com todos nós, com cada um de nós quando se a p ro x i m a». Assim, na vida diária de Jesus, está desenhado o verdadeiro «ícone do pastor». Disse o Pontífice: «Nós, pastores devemos aprender isto: próximos do povo, abaixo os grupinhos dos poderosos, dos ideólogos... Estes envenenam-nos a alma de pastor, não nos fazem bem! O pastor deve ter o poder e a autoridade que Jesus tinha, a da humildade, da mansidão, da proximidade, da capacidade de compaixão, da ternura». Atitudes que são válidas até nos momentos de dificuldade. De facto, questionou-se Francisco, «quando nem tudo corria bem com Jesus o que ele fazia? O mesmo. Quando as pessoas insultavam-no, naquela Sexta-Feira Santa, e gritavam c ru c i f i c a i - o, permanecia calado porque sentia compaixão daquelas pessoas enganadas pelos poderosos do dinheiro, da força... Permanecia calado. Rezava». Do mesmo modo, explicou o Papa, «o pastor, nos momentos difíceis, nos quais o diabo se desencadeia, quando o pastor é acusado, mas acusado pelo Grande acusador através de muitas pessoas, muitos poderosos, sofre, oferece a vida e reza». Com efeito, Jesus rezou: «A oração levou-o até à cruz, com fortaleza; e também lá teve a capacidade de se aproximar e curar a alma do ladrão arrep endido». Na conclusão da homilia, Francisco exortou a rezar pelos bispos depois de ter relido o trecho de Lucas: «Pregar o Evangelho e ler, e ver Jesus, onde está a autoridade de Jesus. E pedir a graça para que todos os pastores tenham esta autoridade: uma autoridade que é uma graça do Espírito Santo». Quinta-feira, 20 de setembro O escândalo dos hipócritas «Quando caminha na história, a Igreja é perseguida pelos hipócritas: hipócritas dentro e fora» e «o diabo que é impotente com os pecadores arrependidos», é forte precisamente com os hipócritas: «Usa-os para destruir as pessoas, a sociedade, a Igreja». O Santo Padre convidou a confiar cada vez mais na misericórdia e no perdão de Deus, permanecendo à distância do «escândalo dos hipócritas». «Nas leituras de hoje há três grupos de pessoas: Jesus e os seus discípulos; a mulher e Paulo; e os doutores da lei». Referindo-se ao trecho evangélico de Lucas (7, 36-50), «Jesus é convidado mas recebido sem muita amabilidade a cortesia habitual da sua época mas ele finge que não vê e vai em frente. E aparece uma mulher. O Evangelho fala de uma p ecadora assim a qualificavam uma daquelas cujo destino era ser visitada às escondidas, até pelos fariseus, ou ser lapidada». Mas «esta mulher disse o Pontífice mostra-se com amor, com muito amor a Jesus, e não esconde que é pecadora, porque todos a conheciam, até muitos ali à mesa a tinham visitado». Depois, referindo-se ao trecho da primeira carta aos Coríntios (15, 1-11), o Papa observou que «Paulo primeiro fala de muitas coisas, até dos carismas, da Igreja, e em seguida vai ao cerne da salvação: Com efeito, a vós transmiti antes de tudo o que também eu recebi, ou seja, que Cristo morreu pelos nossos pecados [...] Eu sou o menor dos apóstolos, e não sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de D eus». Portanto, insistiu Francisco, «ambos procuravam Deus com amor, mas amor pela metade». Paulo, «porque pensava que o amor era uma lei e tinha o coração fechado à revelação de Jesus Cristo: perseguia os cristãos, mas pelo zelo da lei, por este amor imaturo». E «esta mulher procurava o amor, como a samaritana: pobrezinha, tinha muitos maridos mas não encontrava o amor que procurava. O pequeno amor. E Jesus diz: Foi-lhe perdoado muito, porque amou muito». «Mas como amar? Elas não sabem amar. Procuram o amor», afirmou o Papa. E «Jesus, falando delas, diz certa vez que estarão à nossa frente no reino dos céus. Mas que escândalo... os fariseus mas esta gente!». Contudo, «Jesus observa o pequeno gesto de amor, de boa vontade; depois, toma-o e leva-oemfrente. Estaéamisericórdia de Jesus: Ele perdoa sempre, recebe s e m p re». «Outro grupo», explicou Francisco referindo-se ao trecho hodierno do Evangelho, é formado por «doutores da lei que observavam Jesus para ver se o podiam apanhar em flagrante, armando-lhe uma cilada». Estas pessoas «têm uma atitude que muitas vezes é própria dos hipócritas: escandalizam-se. Mas olha, que escândalo! Não se pode viver assim! Perdemos os valores... Agora todos têm o direito de entrar na igreja, até os divorciados. Onde estamos?». Eis «o escândalo dos hipócritas». «Este é o diálogo entre o grande amor de Jesus que tudo perdoa, o amor pela metade, de Paulo, desta senhora e também nosso, um amor incompleto porque nenhum de nós é santo canonizado. Digamos a verdade». E «a hipocrisia: a hipocrisia dos justos, dos p u ro s, dos que se julgam salvos pelos próprios méritos externos». Mas «Jesus diz aos hipócritas sepulcros caiados. Cemitérios lindos mas dentro putrefação e podridão». «A alma dos hipócritas» é mesmo assim. «A Igreja, quando caminha na história, é perseguida pelos hipócritas: hipócritas dentro e fora», afirmou o Papa. «O diabo nada pode fazer com os pecadores arrependidos, porque olham para Deus e dizem: Senhor, sou pecador, ajudaime!». E se «o diabo é impotente» com os pecadores arrependidos, «é forte com os hipócritas. É forte e usa-os para destruir, destruir as pessoas, a sociedade, a Igreja». E «o Com a sua misericórdia Jesus escolhe os apóstolos também «entre os piores», entre os pecadores e os corruptos. Mas compete a eles conservar «a memória desta misericórdia», recordando «de onde foram escolhidos», sem se envaidecer ou pensar em fazer carreira como funcionários, organizadores de planos pastorais e negociantes. O Papa propôs o testemunho concreto da conversão de Mateus, celebrando a missa no dia da festa do apóstolo e evangelista. «Na oração da coleta rezámos ao Senhor e lemos que no seu desígnio de misericórdia escolheu Mateus, o publicano, para o constituir apóstolo» recordou imediatamente o Pontífice, indicando como chave de leitura «três palavras: desígnio de misericavalo de batalha do diabo é a hipocrisia, porque ele é um mentiroso: mostra-se como príncipe poderoso, muito bonito, mas por trás é um assassino». Portanto, a liturgia de hoje propõe estes «três grupos de pessoas», afirmou Francisco: «Jesus que perdoa, recebe, é misericordioso, palavra muitas vezes esquecida quando falamos mal dos outros. Pensai nisto: devemos ser misericordiosos, como Jesus, e não condenar os outros. Jesus no centro». Depois, «Paulo, pecador, perseguidor, mas com um amor pela metade» e «esta senhora pecadora, também ela com um amor incompleto». Mas «Jesus perdoa ambos. E eles encontram o amor verdadeiro: Jesus». Por fim, «os hipócritas, incapazes de encontrar o amor porque têm o coração fechado nas próprias ideias e doutrinas, na própria legalidade». «Peçamos a Jesus convidou Francisco concluindo a homilia que proteja sempre a nossa Igreja que, como mãe, é santa mas cheia de filhos pecadores como nós. E que proteja cada um de nós com a sua misericórdia e o seu perdão». Sexta-feira, 21 de setembro Escolhidos entre os piores córdia, escolhido escolher, constituir». Quando se foi embora explicou Francisco referindo-se precisamente ao excerto evangélico de Mateus (9, 9-13) Jesus viu um homem chamado Mateus sentado no banco dos impostos, e disse-lhe: Segue-me. E ele levantou-se e seguiu-o. Era um publicano, ou seja, um corrupto, porque pelo dinheiro atraiçoava a pátria. Um traidor do seu povo: o pior». Na realidade, frisou o Papa, alguém poderia objetar que «Jesus não tem bom senso ao escolher as pessoas»: «por que escolheu entre tantos outros» esta pessoa «de entre os piores, precisamente do nada, do lugar mais desprezado»? De resto, explicou o Pontífice, do mesmo modo o Senhor «escolheu a samaritana para ir anunciar que ele era o Messias: uma mulher descartada pelo povo pois não era exatamente uma santa; e escolheu muitos outros pecadores e constituiu-os apóstolos». E depois, acrescentou, «na vida da Igreja, muitos cristãos, há tantos santos que foram escolhidos do submundo». Francisco recordou que «esta consciência que nós cristãos deveríamos ter de onde fui escolhido, de onde fui escolhida para ser cristão deve permanecer por toda a vida, permanecer ali e ter a memória dos nossos pecados, a memória que o Senhor teve misericórdia dos meus pecados e me escolheu para ser cristão, para ser apóstolo». Por conseguinte, «o Senhor escolhe». A oração da coleta é clara: «Senhor, que escolheste o publicano Mateus e o constituíste apóstolo»: ou seja, insistiu, «do pior para o lugar mais alto». Em resposta a esta chamada, observou o Papa, «o que fez Mateus?» Vestiu-se de luxo? Começou a dizer sou porventura o príncipe dos apóstolos, convosco, com os apóstolos? Aqui mando eu? Não! Trabalhou a vida inteira pelo Evangelho, com muita paciência escreveu o Evangelho em aramaico». Mateus, explicou o Pontífice, «teve sempre presente de onde tinha sido escolhido: do submundo». Visita «ad limina» dos bispos da Escócia CO N T I N UA NA PÁGINA 17 Na manhã de quinta-feira, 27 de setembro, o Papa Francisco recebeu os bispos da Conferência episcopal da Escócia em visita «ad limina»

16 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 17 CO N T I N UA Ç Ã O DA PÁGINA 16 Acontece que, insistiu o Papa, «quando o apóstolo esquece as suas origens e começa a fazer carreira, afasta-se do Senhor e torna-se um funcionário; que pratica tanto bem, talvez, mas não é apóstolo». E deste modo «será incapaz de transmitir Jesus; será um organizador de planos pastorais, de muitas coisas; mas no final, um homem de negócios, um empresário do reino de Deus, porque se esqueceu de onde foi escolhido». Por isso, afirmou Francisco, é importante manter «a memória, sempre, das nossas origens, do lugar no qual o Senhor olhou para mim; aquele fascínio do olhar do Senhor que me chamou para ser cristão, apóstolo. Esta memória deve acompanhar a vida do apóstolo e de cada cristão». CO N T I N UA Ç Ã O DA PÁGINA 6 «Com efeito, nós estamos habituados a reparar sempre nos pecados dos outros: olha este, aquele, aqueloutro», prosseguiu o Papa. Ao contrário, «Jesus disse-nos: por favor, não olhes para o cisco que está no olho do teu irmão; repara no que tens tu no coração». Mas, insistiu o Pontífice, «é mais divertido falar mal dos outros: é uma coisa lindíssima, parece. A ponto que «falar mal dos outros» quase se parece «com os rebuçados de mel, que são deliciosos: tu comes um, é bom; comes dois, é bom; três... pegas em meio quilo e faz-te mal ao estômago e sentes-te mal». Ao contrário, sugeriu Francisco, «fala mal de ti mesmo, acusa-te a ti mesmo, recordando os teus pecados, de onde o Senhor te escolheu. Foste escolhido, escolhida. Ele pegou-te pela mão e trouxe-te aqui. Quando o Senhor te escolheu não deixou as coisas pela metade: escolhe-te para algo grande, sempre». «Ser cristão afirmou é algo grande, bonito. Somos nós que nos afastamos e queremos parar no meio do caminho, porque é muito difícil; negociando com o Senhor», dizendo «Senhor, não, só até aqui». Mas «o Senhor é paciente, Ele sabe tolerar tudo: é paciente, espera-nos. Mas a nós falta generosidade: a ele não. Ele sempre te leva do mais baixo para o mais alto. Assim fez com Mateus e também com todos nós e continuará a fazer o mesmo». Referindo-se ao apóstolo, o Pontífice explicou que ele «sentiu algo de forte, tão vigoroso, a ponto de deixar sobre a mesa o amor da sua vida: o dinheiro». Mateus «deixou a corrupção do seu coração para seguir Jesus. O olhar de Jesus, forte: Discurso aos jovens em Tallinn dos nós devemos trabalhar por isso! E muitos são os que fazem esta experiência: veem que acaba o amor dos seus pais, que se dissolve o amor de casais recém-casados; sentem uma íntima tristeza, quando a ninguém importa que tenham de emigrar à procura de trabalho ou quando se olha para eles com desconfiança porque são estrangeiros. Dá a impressão que o amor esteja morto como dizia Kerli Kõiv mas sabemos que não é assim; e temos uma palavra a dizer, algo para anunciar, com poucas palavras e muitos gestos: é que vós sois a geração mais da imagem, a geração mais da ação que da especulação, da teoria. E isto é do agrado de Jesus, porque Ele passou fazendo o bem e, na sua morte, preferiu o gesto forte da cruz às palavras. Estamos unidos pela fé em Jesus, e Ele espera que o levemos a todos os jovens que perderam o sentido da sua vida. E existe também para nós, crentes, o risco de perder o sentido da vida. Isto acontece quando nós, crentes, somos incoerentes. Acolhamos juntos a novidade de que o próprio Deus traz Deus à nossa vida; uma novidade que incessantemente nos impele a partir, para ir aonde se encontra a humanidade mais ferida; aonde os homens, para além da aparência de superficialidade e conformismo, continuam a buscar uma resposta para a questão do sentido da sua vida. Mas nunca iremos sozinhos: Deus vem connosco; Ele não tem medo, não tem medo das periferias; antes, Ele mesmo Se tornou periferia (cf. Fl 2, 6-8, Jo 1, 14). Se tivermos a coragem de sair de nós mesmos, dos nossos egoísmos, das nossas ideias fechadas, e ir às periferias, encontrá-lo-emos lá, porque Jesus nos precede na vida do irmão que sofre e é descartado. Ele já está lá (cf. Exort. Ap. Gaudete et exsultate, 135). Rapazes e moças, o amor não está morto; chama-nos e envia-nos. Pede apenas para abrirmos o coração. Peçamos a força apostólica de levar o Evangelho aos outros mas oferecendo-o, não o impondo e renunciar a fazer da nossa vida cristã um museu de recordações. A existência cristã é vida, é futuro, é esperança! Não é um museu. Deixemos que o Espírito Santo nos faça contemplar a história na perspetiva de Jesus ressuscitado; assim a Igreja, assim as nossas Igrejas serão capazes de continuar a acolher em si mesma as surpresas do Senhor (cf. ibid., n. 139), recuperando a sua própria juventude, a alegria e a beleza de que falava Mirko, da noiva que vai ao encontro do Senhor. As surpresas do Senhor. O Senhor surpreende-nos, porque a vida sempre nos surpreende. Continuemos para diante, ao encontro destas surpresas. Obrigado! Segue-me!. E ele deixou tudo», não obstante fosse «muito apegado» ao dinheiro. «E certamente não existia telefone naquele tempo terá enviado alguém para dizer aos seus amigos, àqueles do g ru p i n h o, dos publicanos: vinde almoçar comigo, porque farei festa para o mest re». Portanto, como narra o trecho do Evangelho, «todos estavam à mesa: o pior da sociedade da época. E Jesus com eles. Jesus não foi almoçar com os justos, com os que se sentiam justos, com os doutores da lei, naquele momento. Uma vez, duas vezes foi ter também com estes últimos, mas naquele momento foi ter com eles, com aquele sindicato de publicanos». E eis que, prosseguiu Francisco, «os doutores da lei se escandalizaram. Chamaram os discípulos e disseram: como é que o teu mestre faz isto, com estas pessoas? Torna-se imp u ro! : comer com um impuro contagia-te, já não és puro». Ao ouvir isto, é o próprio Jesus quem pronuncia «esta terceira palavra: Ide aprender o que significa: quero misericórdia e não sacrifícios». Porque «a misericórdia de Deus abrange todos, perdoa todos. Só pede que digas: sim, ajuda-me. Somente isto». «Quando os apóstolos iam ter com os pecadores, pensemos em Paulo, na comunidade de Corinto, CO N T I N UA Ç Ã O DA PÁGINA 10 alguns se escandalizavam» explicou o Papa. Questionavam-se: «mas por que ele vai ter com aqueles pagãos, são pecadores, porque há de ir?». A resposta de Jesus é clara: «porque não são os sadios que precisam do médico, mas os doentes: Quero misericórdia e não sacrifícios». «Mateus escolhido! Escolhe sempre Jesus» repetiu o Pontífice. O Senhor escolhe «através de pessoas, de situações ou diretamente». Mateus foi «constituído apóstolo: quem constitui na Igreja e atribui a missão é Jesus. O apóstolo Mateus e muitos outros recordavam as suas origens: pecadores, corruptos. E isto porquê? Pela misericórdia. Pelo desígnio de m i s e r i c ó rd i a». Francisco reconheceu que «entender a misericórdia do Senhor é um mistério; mas o maior mistério, o mais bonito, é o coração de Deus. Se quiseres chegar precisamente ao coração de Deus, empreende o caminho da misericórdia e deixa-te tratar com misericórdia». É exatamente a história de «Mateus, escolhido do banco dos que trocavam moedas onde se pagavam os impostos. Escolhido do submundo. Constituído no ponto mais elevado. Porquê? Por misericórdia». Nesta perspetiva, concluiu o Papa, «aprendamos o que significa quero misericórdia e não sacrifícios». Primeira congregação geral do à história e à nossa existência. Irmãos e irmãs, que o Sínodo desperte os nossos corações! O momento presente, mesmo da Igreja, aparece carregado de canseiras, problemas, pesos. Mas a fé diz-nos que é também o k a i ro s no qual o Senhor vem ao nosso encontro para nos amar e chamar à plenitude da vida. O futuro não constitui uma ameaça que devemos temer, mas é o tempo que o Senhor nos promete para podermos experimentar a comunhão com Ele, com os irmãos e com toda a criação. Precisamos de reencontrar as razões da nossa esperança e sobretudo de as transmitir aos jovens, que estão sedentos de esperança. Como justamente afirmava o Concílio Vaticano II, «podemos legitimamente pensar que o destino futuro da humanidade está nas mãos daqueles que souberem dar às gerações vindouras razões de viver e de esperar» (Const. past. Gaudium et spes, 31). O encontro entre as gerações pode ser extremamente fecundo para gerar esperança. Assim no-lo ensina o profeta Joel naquela que considero lembrei-o também aos jovens da Reunião Pré-sinodal ser a profecia dos nossos tempos: «Os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões» (3, 1), profetizarão! Não há necessidade de sofisticados raciocínios teológicos para demonstrar o nosso dever de ajudar o mundo atual a caminhar para o reino de Deus, sem falsas esperanças e sem ver apenas ruínas e problemas. De facto São João XXIII, referindose a pessoas que avaliam os factos sem objetividade suficiente nem prudente discernimento, afirmava: «Nos tempos atuais, não veem senão prevaricações e ruínas; vão repetindo que a nossa época, em comparação com as passadas, tem piorado; e comportam-se como quem nada aprendeu da história, que é também mestra da vida» (Discurso na abertura solene do Concílio Vaticano II, 11 de outubro de 1962). Assim, não nos deixemos tentar pelas «profecias de desgraças», não gastemos energias a «contabilizar falências e recordar amarguras», mantenhamos o olhar fixo no bem que «muitas vezes não faz barulho, não é tema dos blogues nem chega às primeiras páginas» dos jornais, nem nos assustemos «diante das feridas da carne de Cristo, sempre infligidas pelo pecado e, não raramente, pelos filhos da Igreja» (cf. Discurso aos Bispos recentemente nomeados que participaram no curso promovido pelas Congregações para os Bispos e para as Igrejas Orientais, 13 de setembro de 2018). Esforcemo-nos, pois, por procurar «frequentar o futuro» e por fazer sair deste Sínodo não só um documento que geralmente é lido por poucos e criticado por muitos mas sobretudo propósitos pastorais concretos, capazes de realizar a tarefa do próprio Sínodo, que é fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florescer a esperança, estimular confiança, faixar feridas, entrançar relações, ressuscitar uma aurora de esperança, aprender um do outro, e criar um imaginário positivo que ilumine as mentes, aqueça os corações, restitua força às mãos e inspire aos jovens a todos os jovens, sem excluir nenhum a visão de um futuro repleto da alegria do Evangelho. Obrigado!

17 página 18 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 Discurso aos Patrons of the Arts dos Museus do Vaticano A arte é mestra de fé Herdeiros de «uma tradição que atravessa os séculos», os Patrons of the Arts dos Museus do Vaticano renovam «as gestas de quantos entraram na história da Igreja mediante a porta da arte», disse o Papa recebendo em audiência na manhã de sextafeira, 28 de setembro, na Sala do Consistório os membros da associação fundada há trinta e cinco anos nos Estados Unidos da América. Queridos amigos! Apraz-me acolher-vos por ocasião do vosso encontro em Roma, que coincide com o 35 aniversário da Associação. Ao longo de todos estes anos a vossa generosidade contribuiu de forma notável para o restauro de numerosos tesouros de arte conservados nos Museus do Vaticano. Assim destes continuidade a uma tradição que atravessa os séculos, imitando as gestas de quantos entraram na história da Igreja mediante a porta da arte, subvencionando por exemplo os afrescos e sarcófagos nas catacumbas, as grandes Catedrais românicas e góticas, as obras de Miguel Ângelo, Rafael, Bernini e Canova. Na história, a arte só ficou atrás da vida ao testemunhar o Senhor. Com efeito, foi, e é, uma viamestra que permite aceder à fé mais do que tantas palavras e ideias, pois com a fé partilha a mesma senda, a da beleza. A beleza da arte faz bem à vida e cria comunhão: porque une Deus, o homem e a criação numa única sinfonia; porque conecta o passado, o presente e o porvir; porque atrai para um único lugar e envolve no mesmo olhar diferentes pessoas e povos distantes. Portanto, celebrar o vosso aniversário significa fazer memória agradecida de tudo isto, mas também renovar a consciência de uma missão importante, a de preservar a beleza tão benéfica para o homem. Contemplar a grande arte, expressão da fé, ajuda-nos em particular a reencontrar o que conta na vida. A arte cristã, de facto, conduz-nos para dentro de nós mesmos e eleva-nos acima de nós mesmos: leva-nos para o Amor que nos criou, para a Misericórdia que nos salva, para a Esperança que nos aguarda. Assim, no nosso mundo inquieto, hoje infelizmente tão dilacerado e empedernido devido a egoísmos e a lógicas de poder, a arte representa, talvez ainda mais do que no passado, uma necessidade universal, pois é fonte de harmonia e paz, e exprime a dimensão da gratuitidade. Portanto, agradeço-vos de coração o bem que fazeis, e concedo a vós e aos vossos familiares a minha Bênção, com os melhores votos de paz, pedindo que não vos esqueçais de mim nas vossas orações. O Senhor abençoe todos vós! O desafio dos jovens CO N T I N UA Ç Ã O DA PÁGINA 12 CO N T I N UA Ç Ã O DA PÁGINA 12 padres sinodais sobre a primeira parte do Documento. Na conclusão dos pronunciamentos passar-se-á para os 14 círculos menores divididos em línguas (português, francês, italiano, inglês, espanhol e alemão) nos quais se procederá à elaboração dos modos coletivos do texto-base, ou seja o Instrumentum laboris, que depois serão entregues à secretaria geral. As intervenções dos padres sinodais, os modos coletivos dos círculos menores e os relatórios dos círculos serão reunidos e sintetizados num texto suplementar provisório do Instrumentum laboris no final de cada unidade de trabalho. Segundo a praxe já experimentada nas últimas assembleias gerais sobre a família, será instituída uma Comissão para a elaboração do Documento final, que coordenará e supervisionará os trabalhos dos textos sinodais. De facto, no final de cada unidade de trabalho, ao receber os modos dos Círculos menores, o relatorgeral e os secretários especiais, reunir-se-ão com os demais membros da Comissão para proceder à revisão do texto da relativa secção do Documento final. A Comissão reunir-se-á também para elaborar o projeto do Documento final. Tal projeto será apresentado na manhã de 24 de outubro na sala. Os padres sinodais na congregação geral da parte da tarde poderão intervir ulteriormente no projeto, quer de forma oral que por escrito. Sucessivamente, a mesma Comissão cuidará da elaboração do texto definitivo do Documento final, que a 27 de outubro será apresentado na sala e na parte da tarde submetido ao sufrágio dos padres sinodais e finalmente uma vez votado será entregue ao Pontífice, ao qual compete todas as decisões de mérito. Desejo relatar ainda que, tratando-se de uma assembleia geral ordinária, a Instrução que hoje entra em vigor prevê que se proceda à eleição do novo Conselho ordinário da secretaria geral, o X V, o qual permanecerá no cargo até à próxima assembleia geral ordinária. O serviço de difusão das notícias relativas aos trabalhos sinodais será cuidado pelo Dicastério para a comunicação, presidido pelo seu prefeito Paolo Ruffini, que por sua vez será o presidente da Comissão sinodal para a informação. A principal fonte de informação será representada pelos briefings diários e pelas conferências de imprensa previstas, coordenadas pelo prefeito do Dicastério para a comunicação: nestes encontros tomarão parte padres sinodais e outros participantes no Sínodo indicados, dependendo do caso, pela Comissão para a informação. Além disso, através das redes sociais (Twitter, Facebook e Instagram), de Vatican News e da Secretaria geral do Sínodo dos bispos, serão difundidas e partilhadas informações sobre o andamento dos trabalhos sinodais. Não há uma receita pronta do referência a estereótipos ou modelos juvenis que talvez já não existam. Deste modo, em vez de ouvir e aprender da realidade, idealizamos e ideologizamos os jovens. Por vezes fazemos referência à nossa juventude e pensamos que os jovens de hoje vivem as nossas mesmas experiências. Mas desta forma inevitavelmente perdemos de vista os traços característicos da juventude de hoje, que vivem e crescem num contexto muito diferente até em relação há poucos anos. No respeitante ao mundo juvenil somos convidados a reconhecer desde já que a realidade é mais importante que a ideia (cf. Instrumentum laboris, n. 4): as nossas palavras sobre os jovens e para os jovens devem partir da realidade concreta. De igual modo é importante tomar consciência dos pontos de força da presença da Igreja no mundo juvenil, e das suas debilidades, a partir da escassa familiaridade com a cultura digital. Nesta primeira semana os Padres sinodais são chamados, em particular, a tornar presente a situação que os jovens vivem no país do qual cada um provém e a maneira como a Igreja local a compreende: o percurso de preparação para o Sínodo fez emergir diferenças profundas entre as diversas partes do mundo. É fundamental que através dos Padres sinodais o vigor e a originalidade de cada contexto e de cada terra possa dar a própria contribuição. A comunhão na Igreja não se faz por conformação, mas através da partilha das diferenças, graças ao respeito, à escuta e ao diálogo. Com frequência ouvem-se vozes que culpabilizam os jovens por se terem afastado da Igreja. Mas muitos deles viveram situações que os levam a afirmar que foi a Igreja que se afastou dos jovens. E eles dizem isto abertamente. Em muitos casos não a sentiram nem a sentem próxima nem acolhedora, sobretudo nos momentos mais difíceis do seu percurso de crescimento humano. Portanto, deveríamos questionar-nos: somos comunidade significativa para os jovens de hoje? De que maneira eles podem ser protagonistas na vida da Igreja? Quais conversões e gestos proféticos são necessários Sugere-se ainda a utilização do hashtag #Synod2018 para todas as línguas de modo a poder ter um panorama global das notícias sobre o síno do. Os padres sinodais estarão livres para conceder entrevistas fora da sala sinodal e para se comunicar em geral com os mass media à sua discrição e responsabilidade, e obviamente a título pessoal, mantendo a necessária prudência acerca dos debates na sala e nos círculos menores. para reconquistar a confiança e a estima das jovens gerações? Esta é a tarefa que nos espera. O estilo do discernimento com o qual pretendemos enfrentá-la concretizará as nossas reflexões e preces e abrir-nos-á à escuta da voz do Espírito. Só assim este tempo sinodal poderá dar um fruto de conversão do coração e da mente, e de renovação das práticas pastorais. Seguindo as indicações evangélicas, trata-se de predispor odres novos para o vinho novo, pois «ninguém põe vinho novo em odres velhos; senão o vinho romperá os odres; e tanto se perderá o vinho como os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos!» (Mc 2, 22). Por conseguinte, a tarefa dos Padres sinodais será sobretudo estar disponíveis à ação de Deus neles, certos da promessa de Jesus: «Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt 18, 20). O Senhor Jesus estará de modo misterioso, mas também diária e concretamente presente no meio de nós através do Espírito, que continua a guiar a sua I g re j a.

18 número 40, quinta-feira 4 de outubro de 2018 L OSSERVATORE ROMANO página 19 INFORMAÇÕES No dia 28 de setembro D. Celso José Pinto da Silva, Arcebispo Emérito de Teresina (Brasil). O saudoso Prelado nasceu no Rio de Janeiro (Brasil), no dia 29 de outubro de Foi ordenado Sacerdote a 14 de março de Recebeu a Ordenação episcopal em 1 de maio de Renunciou ao governo pastoral da Arquidiocese no dia 3 de setembro de Audiências O Papa Francisco recebeu em audiências particulares: A 27 de setembro O Senhor Cardeal Luis Francisco Ladaria Ferrer, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé; D. Vito Rallo, Núncio Apostólico em Marrocos; e os seguintes Prelados da Conferência Episcopal da Escócia, em visita «ad limina Apostolorum»: D. Philip Tartaglia, Arcebispo de Glasgow; D. Joseph Anthony Toal, Bispo de Motherwell; D. John Keenan, Bispo de Paisley; D. Leo William Cushley, Arcebispo de Saint Andrews and Edimburgh; D. Hugh Gilbert, Bispo de Aberdeen; D. Brian McGee, Bispo de Argyll and The Isles; D. Stephen Robson, Bispo de Dunkeld; e D. William Nolan, Bispo de Galloway. A 28 de setembro Os seguintes Prelados da Conferência Episcopal da Inglaterra e País de Gales, em visita «ad limina Apostolorum»: D. Bernard Longley, Arcebispo de Birmingham (Inglaterra), com os Auxiliares D. David Christopher McGough, D. William Kenney e D. Robert Byrne; D. Declan Ronan Lang, Bispo de Clifton (Inglaterra); D. Mark Davies, Bispo de Shrewsbury (Inglaterra); D. George Stack, Arcebispo de Cardiff (País de Gales); D. Thomas Matthew Burns, Bispo de Menevia (País de Gales): D. Peter Brignall, Bispo de Wrexham (País de Gales); D. Malcolm Patrick Mc- Mahon, Arcebispo de Liverpool (Inglaterra), com o Auxiliar D. Thomas Anthony Williams; D. Ralph Heskett, Bispo de Hallam (Inglaterra); D. Séamus Cunningham, Bispo de Hexham and Newcastle (Inglaterra); D. Paul Swarbrick, Bispo de Lancaster (Inglaterra); D. Marcus Stock, Bispo de Leeds (Inglaterra); D. Terence Patrick Drainey, Bispo de Middlesbrough (Inglaterra); D. John Stanley Kenneth Arnold, Bispo de Salford (Inglaterra); D. Peter David Gregory Smith, Arcebispo de Southwark (Inglaterra), com os Auxiliares D. Patrick Kieran Lynch e D. Paul Hendricks; D. Francisco Alan Williams, Bispo de Brentwood (Inglaterra); D. Alan Stephen Hopes, Bispo de East Anglia (Inglaterra); D. Peter John Haworth Doyle, Bispo de Northampton (Inglaterra); D. Patrick Joseph McKinney, Bispo de Nottingham (Inglaterra); D. Charles Phillip Richard Moth, Bispo de Arundel and Brighton (Inglaterra); D. Mark O Toole, Bispo de Plymouth (Inglaterra); D. Philip Anthony Egan, Bispo de Portsmouth (Inglaterra); Cardeal Vincent Gerard Nichols, Arcebispo de Westminster (Inglaterra), com os Auxiliares D. John Sherrington, D. Nicholas Gilbert Hudson, D. Paul McAleenan e D. John Wilson; o Rev. mo Mons. Keith Newton, Ordinário do Ordinariado Pessoal Our Lady of Walsingham (Inglaterra); D. Paul James Mason, Bispo Ordinário Militar para a Grã- Bretanha; o Rev. do Pe. Hugh David Renwich Turnbull Allan, Administrador Apostólico da Prefeitura Apostólica de Falkland Islands ou Malvinas; D. Hlib Borys Sviatoslav Lonchyna, Bispo da Holy Family of London dos Ucranianos Bizantinos; e D. Joseph Srampickal, Bispo da Grã-Bretanha dos Sírio-Malabares. A 29 de setembro O Senhor Cardeal Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos; D. George Kocherry, Núncio Apostólico em Bangladesh; e D. Héctor Miguel Cabrejos Vidarte, Arcebispo de Trujillo (Peru). A 30 de setembro D. Dagoberto Campos Salas, Núncio Apostólico na Libéria e na Gâmbia, com os Familiares. A 1 de outubro D. Christopher M. Cardone, Arcebispo de Honiara (Ilhas Salomão), com os Familiares. Renúncias O Santo Padre aceitou a renúncia: No dia 1 de outubro De D. José de Queirós Alves, C.S S.R., ao governo pastoral da Arquidiocese de Huambo (Angola). Nomeações O Sumo Pontífice nomeou: A 27 de setembro Núncio Apostólico na Colômbia, D. Luis Mariano Montemayor, Arcebispo Titular de Illici. A 28 de setembro Secretário-Geral da Conferência Episcopal Italiana, D. Stefano Russo, Bispo de Fabriano-Matelica. A 1 de outubro Arcebispo da Sede Metropolitana de Huambo (Angola), D. Zeferino Zeca Martins, S.V.D., até hoje Auxiliar de Luanda. Prelados falecidos Adormeceram no Senhor: No dia 20 de setembro D. Conrado Walter, Bispo Emérito de Jacarezinho (Brasil). O venerando Prelado nasceu em Bichishausen (Alemanha), no dia 19 de junho de Foi ordenado Sacerdote na Sociedade do apostolado católico a 2 de dezembro de Recebeu a Ordenação episcopal em 2 de fevereiro de A 5 de julho de 2000 renunciou ao governo pastoral da Diocese. No dia 22 de setembro D. Johannes Kapp, ex-auxiliar de Fulda (Alemanha). O venerando Prelado nasceu em Burguffeln (Alemanha), no dia 14 de maio de 1929 e recebeu a Ordenação sacerdotal a 3 de abril de Foi ordenado Bispo em 12 de setembro de No dia 25 de setembro D. Wenceslao Selga Padilla, Prefeito Apostólico de Ulaanbaatar (Mongólia). O ilustre Prelado nasceu em Tubao (Filipinas), a 29 de setembro de 1949 e foi ordenado Sacerdote no dia 17 de março de Recebeu a Ordenação episcopal em 29 de agosto de No dia 26 de setembro D. Antonio Santucci, Bispo Emérito de Trivento (Itália). O venerando Prelado nasceu em Magliano dei Marsi (Itália), no dia 30 de outubro de Recebeu a Ordenação sacerdotal a 1 de julho de Foi ordenado Bispo em 22 de junho de No dia 29 de setembro D. Dirceu Vegini, Bispo de Foz do Iguaçu (Brasil). O ilustre Prelado nasceu em Massaranduba (Brasil), no dia 14 de abril de Foi ordenado Sacerdote a 21 de janeiro de Recebeu a Ordenação episcopal em 2 de junho de Início de Missão de Núncios Apostólicos D. Alfred Xuereb, na Coreia (8 de junho) D. Joseph Spiteri, no Líbano (25 de junho). Disposições especiais O Papa Francisco dispôs: No dia 27 de setembro A exoneração do estado clerical de Fernando Karadima Fariña, da arquidiocese de Santiago do Chile. Como se lê num comunicado da Sala de imprensa da Santa Sé, difundido na tarde de 28 de setembro, o Pontífice tomou esta decisão excecional com consciência e para o bem da Igreja. Assim, o Papa exerceu o seu «poder ordinário supremo, pleno, imediato e universal» sobre a Igreja, como recita o cânone 331 do Codex iuris canonici, ciente do seu serviço ao povo de Deus como sucessor de São Pedro. O decreto, assinado pelo Pontífice a 27 de setembro, entrou automaticamente em vigor a partir daquele momento e implica também a dispensa de todas as obrigações clericais. Fernando Karadima Fariña foi notificado a 28 de setemb ro. C re d e n c i a i s do embaixador do Chile Na manhã de 17 de setembro, o Papa recebeu em audiência Sua Excelência o senhor Octávio Errázuriz Guilisasti novo embaixador do Chile por ocasião da apresentação das cartas com as quais foi acreditado junto da Santa Sé Sua Excelência o senhor Octávio Errázuriz Guilisasti, novo embaixador so Chile junto da Santa Sé, nasceu em É casado e tem duas filhas. Formou-se em direito (Universidade de Santiago, 1959) e sucessivamente concluiu um master (Universidade da Virgínia, School of Government, 1966); é advogado (1968). Desempenhou os seguintes cargos: funcionário diplomático junto do ministério dos Negócios estrangeiros ( ); funcionário de embaixada nos Estados Unidos da América ( ); funcionário na missão permanente junto das Nações Unidas em Nova Iorque e no ministério dos Negócios estrangeiros ( ); funcionário de embaixada nos Estados Unidos da América ( ); embaixador no Equador ( ), nos Estados Unidos da América ( ), na Malásia ( ) e na China ( ); diretor das relações bilaterais e diretorgeral da política estrangeira ( ), e embaixador da missão permanente junto das Nações Unidas em Nova Iorque ( ).

19 página 20 L OSSERVATORE ROMANO quinta-feira 4 de outubro de 2018, número 40 ANGELUS Proximidade às populações atingidas pelo maremoto No Angelus de 30 de setembro, na praça de São Pedro, o Papa comentou o Evangelho dominical (Mc 9, ), ressaltando que «em vez de julgar os outros, devemos examinar-nos a nós mesmos e cortar sem comprometimentos tudo aquilo que pode escandalizar as pessoas mais débeis na fé». Sobrevivente entre os escombros depois do sismo e do tsunami na ilha de Sulawesi (Ap) Oração e solidariedade pela Indonésia Prezados irmãos e irmãs, bom dia! O Evangelho deste domingo (cf. Mc 9, ) apresenta-nos um daqueles pormenores muito instrutivos sobre a vida de Jesus com os seus discípulos. Eles tinham visto que um homem, que não fazia parte do grupo dos seguidores de Jesus, expulsava demónios em nome de Jesus, e por isso queriam impedi-lo. João, com o entusiasmo zeloso típico dos jovens, refere o acontecimento ao Mestre, procurando o seu apoio; mas Jesus, ao contrário, responde: «Não lho proibais, porque não há ninguém que faça um prodígio em meu nome e em seguida possa falar mal de mim. Pois quem não é contra nós, é por nós» (vv ). João e os outros discípulos manifestam uma atitude de fechamento, diante de um acontecimento que não faz parte dos seus esquemas, neste caso a ação até boa de uma pessoa externa ao círculo dos seguidores. Ao contrário, Jesus parece muito livre, plenamente aberto à liberdade do Espírito de Deus, que na sua ação não é limitado por confim nem espaço algum. Jesus quer educar os seus discípulos, e hoje também nós, para esta liberdade interior. É bom refletir sobre este episódio, e fazer um pouco de exame de consciência. A atitude dos discípulos de Jesus é muito humana, deveras comum, e podemos encontrá-la nas comunidades cristãs de todos os tempos, provavelmente até em nós mesmos. Em boa-fé, aliás com zelo, gostaríamos de proteger a autenticidade de uma certa experiência, tutelando o fundador ou o líder contra os falsos imitadores. Mas, ao mesmo tempo, há como que o medo da concorrência e é feio ter medo da concorrência que alguém possa subtrair novos seguidores, e então não conseguimos apreciar o bem que os outros praticam: não está bem, porque não é dos nossos, diz-se. É uma forma de autorreferencialidade. Aliás, aqui está a raiz do proselitismo. E a Igreja dizia o Papa Bento não cresce por proselitismo, mas por atração, isto é, cresce pelo testemunho dado aos outros, mediante a força do Espírito Santo. A grande liberdade de Deus ao doar-se a nós constitui um desafio e uma exortação a modificar as nossas atitudes e os nossos relacionamentos. É o convite que nos dirige Jesus hoje. Ele exorta-nos a não pensar segundo as categorias de amigo/inimigo, nós/eles, quem está dentro/quem está fora, meu/teu, mas a ir além, a abrir o coração para poder reconhecer a sua presença e a ação de Deus inclusive em âmbitos incomuns e imprevisíveis, e em pessoas que não fazem parte do nosso círculo. Trata-se de estar atento à genuinidade do bem, da beleza e da verdade que se faz, e não tanto ao nome e à proveniência de quem o pratica. E como nos sugere a parte restante do Evangelho de hoje em vez de julgar os outros, devemos examinar-nos a nós mesmos e cortar sem comprometimentos tudo aquilo que pode escandalizar as pessoas mais débeis na fé. A Virgem Maria, modelo de dócil acolhimento das surpresas de Deus, nos ajude a reconhecer os sinais da presença do Senhor no meio de nós, descobrindo-o onde quer que Ele se manifeste, inclusive nas situações mais impensáveis e incomuns. Que Ela nos ensine a amar a nossa comunidade sem ciúmes nem fechamentos, sempre abertos ao vasto horizonte da ação do Espírito Santo. No final da prece mariana, Francisco pediu uma ave-maria pelas «populações de Sulawesi, na Indonésia, atingidas por um forte maremoto». Amados irmãos e irmãs! Exprimo a minha proximidade às populações da ilha de Sulawesi, na Indonésia, atingidas por um forte maremoto. Rezo pelos defuntos infelizmente numerosos pelos feridos e por quantos perderam a casa e o trabalho. Que o Senhor os ampare e sustente os esforços dos que se comprometem para levar socorros. Oremos juntos pelos nossos irmãos da ilha de Sulawesi: Ave Maria... Hoje, em Marselha, é proclamado Beato Jean- Baptiste Fouque, sacerdote diocesano, que foi vice-pároco durante a vida inteira. Um bonito exemplo para os arrivistas! Viveu entre os séculos XIX e XX, promoveu muitas obras assistenciais e sociais a favor de jovens, idosos, pobres e doentes. O exemplo e a intercessão deste Apóstolo da caridade nos sustentem no esforço de hospitalidade e partilha a favor das pessoas mais frágeis e desfavorecidas. Um aplauso ao novo Beato Jean-Baptiste! Saúdo com afeto todos vós, romanos e peregrinos provenientes de vários países. Saúdo de modo particular os fiéis de Calpe (Espanha), o grupo de presidentes de câmaras municipais e administradores da região de Salisburgo, e a delegação internacional de pessoas surdas, por ocasião do Dia Mundial do Surdo. Desejo bom domingo a todos. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Bom almoço e até à vista! Francisco convidou a recitar o rosário durante o mês de outubro Proteger a Igreja contra o diabo O Papa Francisco decidiu convidar os fiéis de todo o mundo a recitar o rosário todos os dias, durante o inteiro mês mariano de outubro, e a unir-se assim em comunhão e em penitência, como povo de Deus, para pedir à Santa Mãe de Deus e a São Miguel Arcanjo que proteja a Igreja contra o diabo, que procura sempre separar-nos de Deus e entre nós. Nos dias passados, antes de partir para os países bálticos, Francisco encontrou-se com o jesuíta Fréderic Fornos, diretor internacional da Rede mundial de oração do Papa, e pediu-lhe para difundir em todo o mundo este seu apelo aos fiéis, convidando-os a concluir a recitação do rosário com a antiga invocação Sub tuum praesidium, e com a oração a São Miguel Arcanjo que nos protege e ajuda na luta contra o mal (cf. Ap 12, 7-12). A oração afirmou o Pontífice a 11 de setembro, numa homilia em Santa Marta, citando o primeiro capítulo de Job é a arma contra o grande acusador que «anda pelo mundo procurando a maneira de acusar». Só a oração o pode derrotar. Os místicos russos e os grandes santos de todas as tradições aconselhavam, nos momentos de turbulência espiritual, a proteger-se sob o manto da Santa Mãe de Deus pronunciando a invocação Sub tuum praesidium, que reza assim: «Sub tuum praesidium confugimus sancta Dei genitrix. Nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus, sed a periculis cunctis libera nos semper, virgo gloriosa et benedicta» ( Sob a tua proteção procuramos refúgio, Santa Mãe de Deus. Não desprezes as nossas súplicas, nós que estamos nas provações, mas liberta-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita ). Com este pedido de intercessão o Papa convida os fiéis de todo o mundo a rezar para que a Santa Mãe de Deus ponha a Igreja sob o seu manto protetor, a fim de a preservar contra os ataques do maligno, o grande acusador, e para a tornar ao mesmo tempo cada vez mais consciente das culpas, dos erros, dos abusos cometidos no presente e no passado e comprometida a combater sem hesitação alguma, para que o mal não p re v a l e ç a. O Pontífice pediu também que a recitação do rosário durante o mês de outubro se conclua com a oração escrita por Leão XIII: «Sancte Michael archangele, defende nos in proelio; contra nequitiam et insidias diaboli esto praesidium. Imperet illi Deus, supplices deprecamur: tuque, princeps militiae caelestis, Satanam aliosque spiritus malignos, qui ad perditionem animarum pervagantur in mundo, divina virtute, in infernum detrude» ( São Miguel Arcanjo, defende-nos na luta: sê a nossa ajuda contra a malvadez e as insídias do demónio. Imploremos suplicantes que Deus o domine e que tu, príncipe da milícia celeste, com o poder que te vem de Deus, acorrentes no inferno satanás e os espíritos malignos, que rondam o mundo para fazer com que as almas se percam ).