Impactos da Crise Financeira sobre a Produção da Indústria

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1 Impactos da Crise Financeira sobre a Produção da Indústria A evolução dos principais indicadores econômicos conjunturais sugere a paulatina dissipação dos efeitos da intensificação da crise financeira mundial sobre a economia brasileira. Nesse cenário, o objetivo deste boxe consiste em examinar a sensibilidade da indústria das distintas regiões às alterações experimentadas pelo ambiente macroeconômico nos últimos meses, procurando, ainda, identificar os impactos associados ao menor dinamismo dos mercados interno e externo, às restrições no mercado de crédito e às medidas anticíclicas adotadas pelo governo. Gráfico 1 Produção industrial Brasil 2002 = Máquinas e equipamentos Veículos automotores 50 A indústria brasileira 1, revertendo a trajetória de expansão delineada ao longo de, registrou retração acentuada a partir de outubro, considerados dados dessazonalizados das Contas Nacionais Trimestrais, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), recuando 3,1% no trimestre encerrado em março, em relação ao finalizado em dezembro, enquanto a agropecuária registrou retração de 0,5%, e o setor de serviços, expansão de 0,8%. O exame do produto sob a ótica da demanda revela, no mesmo período, elevações respectivas de 0,7% e 0,6% no consumo das famílias e do governo, trajetória consistente com o desempenho relativamente mais favorável dos segmentos produtores de bens de consumo duráveis e, em especial, de semi e não duráveis, com ênfase na atividade alimentos e bebidas. Vale mencionar que o desempenho negativo da indústria nos últimos meses de, resultante de retrações generalizadas no setor em todas as regiões do país, é ratificado pelo recuo, de 6,4%, 1/ Inclui as indústrias extrativa, de transformação, da construção e serviços industriais de utilidade pública. 92 Boletim Regional do Banco Central do Brasil Julho

2 Tabela 1 Transferências assistenciais do governo federal e massa de rendimentos real habitual Discriminação Bolsa Família Benefício de Prestação Continuada Massa de rendimentos 3/ Var. % 1/ Part.% 2/ Var. % 1/ Part.% 2/ Var. % Brasil 5,0,0 17,1,0 5,5 Norte 8,0 11,2 16,0 10,0 - Nordeste 5,4 52,9 16,6 35,6 3,5 Sudeste 3,8 23,5 18,1 34,8 6,1 Sul 2,1 7,5 17,7 10,7 1,7 Centro-Oeste 4,3 4,8 15,3 9,0 - Fonte: Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome e IBGE 1/ Refere-se ao acumulado no ano, até maio, com valores a preços deste mês corrigidos pelo INPC. 2/ Distribuição dos benefícios pagos por região com base em maio de. 3/ Dados divulgados pelo IBGE a preços de maio. Para o Nordeste foram consideradas as Regiões Metropolitanas de Recife e Salvador; para o Sudeste, as Regiões Metropolitanas de São Paulo, Belo Horizonte e Rio de eiro; e para o Sul, a Região Metropolitana de Porto Alegre. Não existem dados para as demais regiões. Gráfico 2 Produção industrial Norte 2002 = Material eletrônico 1 50 e bebidas Outros eq. de transporte em setembro, para 3,1%, em dezembro, da taxa de crescimento do setor acumulada no ano. A indústria passou a registrar recuperação em todas as regiões a partir do início de, ressaltando-se que a intensidade distinta entre os movimentos de retomada refletiu, em grande parte, as especificidades das respectivas estruturas industriais. Nesse sentido, as regiões nas quais o dinamismo da indústria é menos dependente do mercado externo e das condições do mercado de crédito interno, e mais associado ao fortalecimento da demanda interna, experimentaram resultados mais favoráveis nos cinco primeiros meses do ano, em relação a igual período de, trajetória evidenciada pela menor intensidade observada no recuo da produção de bens de consumo, 7,4%, em relação aos registrados nas indústrias de bens de capital, 22,7%, e de bens intermediários, 16,7%. Ressalte-se que, por atividade 2, destacaram-se os crescimentos nas indústrias de alimentos, 1,2%; bebidas, 2,8%; e perfumaria, sabões, detergentes e produtos de limpeza, 4%, resultados compatíveis com a manutenção do poder de compra, decorrente do crescimento da massa de rendimentos, das transferências assistenciais do governo federal e, fundamentalmente, da redução da inflação, conforme assinalado na Tabela 1. A comparação regional, de acordo com a Tabela 2, evidencia a importância da atividade alimentos, que, excetuando-se no Sudeste e no Norte, detém a participação mais expressiva na composição da produção, enquanto a indústria extrativa possui maior representatividade no Centro- -Oeste e no Sudeste. A produção da região Norte se caracteriza pela importância do segmento material eletrônico, com peso de 21,2 p.p na indústria da região, nos primeiros cinco meses do ano, cuja produção recuou 31,2% em relação a igual período de 2/ A participação e a evolução das principais atividades da indústria, segmentadas por regiões encontram-se na Tabela 2. As participações das regiões Sudeste e Sul são construídas a partir da ponderação das atividades relativas a cada estado, divulgadas com periodicidade mensal, pelo IBGE. Para a região Norte, são consideradas estatísticas relativas ao Amazonas e ao Pará, e para o Centro-Oeste, as relacionadas a Goiás. O indicador do Nordeste é divulgado de forma agregada pelo IBGE. 3/ As vendas das lojas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos em São Paulo, que podem ser interpretadas como uma proxy para a demanda interna de eletrônicos no país, recuaram 13,2% no período, de acordo com a Fecomercio de SP, ante redução de 1,1% do comércio geral. Julho Boletim Regional do Banco Central do Brasil 93

3 Tabela 2 Participação e evolução das principais atividades industriais País e regiões Discriminação Brasil Sudeste Sul Nordeste Norte Centro-Oeste Part.% 1/ Var. 2/ Part.% Var.% Part.% Var.% Part.% Var.% Part.% Var.% Part.% Var.%,0-13,9,0-14,6,0-10,2,0-10,9,0-14,8,0-5,9 Indústria extrativa mineral 5,7-14,6 5,8-12, ,7-4,7 15,4-7,8 8,2 0,2 Indústria de transformação 94,3-13,9 94,2-15,5,0-10,3 93,4-11,3 84,7-12,7 91,8-6,5 Refino de petróleo e álcool 6,7-2,4 6,9 1,2 7,8 3,1 13,9-24,7 3,4 3,2 - - Outros produtos químicos 6,7-17,1 7,1-18,4 5,0-1, Máquinas e equipamentos 7,4-29,2 7,6-34,5 12,0-27, ,7 3, / 10,6-2,4 8,4 2,5 20,7-4,8 25,9-3,2 15,2 6,7 66,0-3,2 Metalurgia básica 6,0-28,9 8,2-37,9 2,1-38,1 7,1-19,8 7,3 19,8 7,3-9,5 Veículos automotores 10,7-24,7 12,8-22,8 13,5-32, Celulose 4,2-5,2 4,0-0,1 4,9-5, ,5-8,1 - - Têxtil 2,7-10,8 2,1-12,5 1,4-8,4 7,4-5, Produtos químicos ,4-14,5 1,2-37,4 11,9-24,7 Outros equipamentos de transporte 2,2 16,7 1,9 45, ,9-42,1 - - Mat. eletrônico, ap. e equip. de comunic. 3,1-41,2 3,7-59, ,2-31,2 - - Minerais não metálicos 3,7-7,0 4,2-9,6 2,8 4,4 5,6-2,5 1,3-27,5 5,9-4,0 Participação % das cinco principais atividades na indústria de transformação 42,1 44,1 59,0 74,8 61,2,0 1/ Participação conforme PIM-PF de maio de. 2/ Variação acumulada no ano até maio. 3/ No Norte, Nordeste e Centro-Oeste refere-se a alimentos e bebidas. Tabela 3 Exportações de produtos industrializados Variação % Discriminação Particip. das Exportações/ regiões 1/ Ac. no ano 12 meses valor da produção 2/ Brasil,0-30,6-4,6 13,2 Norte 3,0-39,4-10,7 12,9 Nordeste 8,1-34,6-9,6 14,4 Sudeste 66,7-27,0 0,1 14,1 Sul 20,9-34,6-5,1 13,5 Centro-Oeste 2,3-12,5 9,3 4,5 Fonte: MDIC 1/ Posição de maio de. 2/ Refere-se a. Gráfico 3 Produção industrial Nordeste 2002 = Produtos químicos e bebidas Têxtil 50. Essa retração mostrou-se compatível com as reduções assinaladas no período, nas vendas de eletrodomésticos e eletroeletrônicos 3 no país e nas exportações de produtos industrializados da região, a mais intensa, de acordo com a Tabela 3, em termos regionais. A indústria do Nordeste, concentrada em cinco principais atividades da transformação, responsáveis por cerca de % da produção da região nos cinco primeiros meses do ano (Tabela 2), assinalou recuperação nesse período (Gráfico 3), embora apresentasse recuo em abril. A evolução das três principais atividades, refino de petróleo e álcool, produtos químicos e alimentos e bebidas, determinou a tendência da indústria na região, com ênfase na estabilidade da atividade alimentos e bebidas, mesmo nos meses que sucederam o agravamento da crise internacional. Essa trajetória reflete, em especial, a absorção da produção desse segmento pelo mercado interno da região, sustentada, fundamentalmente, pelos efeitos dos programas assistenciais do governo federal. 94 Boletim Regional do Banco Central do Brasil Julho

4 Gráfico 4 Produção industrial Sudeste 2002 = 1 1 Gráfico 5 Produção industrial Sul 2002 = Máquinas e equipamentos Veículos automotores Metalurgia básica Veículos automotores Grafico 6 Produção industrial Centro-Oeste 2002 = Produtos químicos Extrativa mineral A produção do Sudeste (Gráfico 4) se constitui na mais desconcentrada entre as regiões do país, com as cinco principais atividades respondendo por 44,1% do total. Ressalte-se que a participação da indústria de alimentos na região, embora represente 45,7% da produção nacional do setor, respondeu por, apenas, 8,4% da produção total regional no período, exercendo efeito anticíclico menos intenso do que em outras regiões. Adicionalmente, deve ser considerada a importância da recuperação recente da produção de veículos como condicionante para a retomada da indústria da região. A retração de 10,2% observada na indústria da região Sul, nos cinco primeiros meses do ano, em relação a igual período de, esteve associada, em grande parte, ao desempenho negativo das atividades metalurgia básica, veículos automotores e máquinas e equipamentos, ressaltando-se que a produção de veículos, respondendo às medidas de desoneração fiscal, apresentou recuperação, na margem, conforme assinalado no Gráfico 5. A evolução da indústria sulina refletiu, em parte, o recuo de 34,6% observado nas exportações de manufaturados da região, com ênfase nas retrações relativas a automóveis, 47%; calçados, 34%; e carnes, 21,3%, atividades que, em conjunto, representaram 20,8% do valor da produção da indústria regional em, segundo a Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE. A trajetória recente da indústria no Centro- -Oeste 4 esteve condicionada pelo impacto favorável da representatividade de 66% do segmento alimentos e bebidas na estrutura industrial da região. A estabilidade registrada nessa atividade, expressa no Gráfico 6, proporcionou que a indústria da região recuasse 5,9% nos cinco primeiros meses do ano, em relação a igual período de, resultado mais favorável em relação ao assinalado nas demais regiões (Tabela 2). A evolução do emprego industrial evidencia a trajetória do setor nos últimos meses. Nesse sentido, a análise das estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério 4/ Representada pela produção industrial de Goiás. Julho Boletim Regional do Banco Central do Brasil 95

5 do Trabalho e Emprego (MTE) (Tabela 4) revela que foram eliminados 146,5 mil empregos formais na indústria, nos cinco primeiros meses de, ante 345,3 mil no último trimestre do ano anterior, quando os efeitos do acirramento da crise mundial eram mais acentuados. O resultado acumulado em retrata a importância do segmento alimentos para a relativa recuperação do mercado de trabalho, registrando-se em todas as regiões excetuando no Nordeste, por razões sazonais contratações líquidas nessa atividade. Vale mencionar, ainda, a recuperação expressiva registrada nas contratações relativas ao Centro-Oeste, movimento associado, em grande parte, à representatividade da produção de alimentos na região. Tabela 4 Emprego industrial Novos postos de trabalho Em mil Discriminação Peso na indústria Out-Dez/ -/ Out/-/ Sudeste -214,7-54,8-269,5 Veículos automotores 12,7-21,4-24,8-46,2 Metalurgia básica 8,3-19,2-37,7-56,9 8,3-84,5 65,3-19,2 Sul -72,1-8,1 -,2 20,7-10,8 7,2-3,6 Veículos automotores 13,6-4,6-5,9-10,5 Máquinas e equipamentos 12,0-6,3-6,7-12,9 Nordeste -11,5-88,6 -,1 26,3 1,1-79,4-78,3 Produtos químicos 20,2-1,5-0,5-2,0 Refino de petróleo e álcool 7,8-1,5-0,5-2,0 Norte -17,4-15,8-33,2 Material eletrônico, aparelhos e equipamentos de comunicações 20,2-4,8-3,5-8,4 16,0-2,9 0,7-2,2 Outros equipamentos de transporte 13,7-1,4-2,1-3,5 Centro-Oeste -29,5 20,8-8,8 64,5-20,5 23,5 2,9 Produtos químicos 13,6-1,4-0,2-1,6 Metalurgia básica 7,3-0,4-1,0-1,4 Fonte: Caged/MTE O exame do processo de recuperação da indústria brasileira sob a ótica regional ratifica o movimento observado em análises anteriores relativas à indústria do país, realizadas nas últimas edições do Relatório de Inflação do Banco Central. Em síntese, a divergência entre a intensidade da retomada da indústria nas distintas regiões traduziu as características das respectivas estruturas produtivas, sendo beneficiadas, nos 96 Boletim Regional do Banco Central do Brasil Julho

6 meses recentes, as direcionadas à produção de bens com menor valor agregado e destinados, em especial, ao mercado interno, menos impactadas, portanto, pelo ambiente recessivo nas principais economias mundiais. Nesse cenário, a recuperação da atividade industrial tem sido sustentada, fundamentalmente, pelos segmentos de bens de consumo duráveis, semi e não duráveis com ênfase no desempenho das atividades alimentos, evidenciando a relevância do mercado interno, e veículos, traduzindo o estímulo às vendas nesse segmento decorrente da redução temporária do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), bem como da restauração da oferta de crédito para pessoas físicas. Em oposição, ressalte-se o recuo observado na produção de bens de capital, comportamento típico em períodos de maior instabilidade e acentuado pelo processo de crescimento constante da capacidade instalada registrado em anos recentes. Evidenciando os argumentos mencionados, a indústria da região Centro-Oeste, na qual o setor de alimentos detém participação preponderante, apresentou maior resistência aos efeitos da crise mundial, contrastando com o desempenho negativo da indústria de transformação da região Sudeste, que concentra parcela representativa das exportações de produtos industrializados do país. Julho Boletim Regional do Banco Central do Brasil 97

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