ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM LETRAS E LINGUÍSTICA - ANPOLL - XXV ENCONTRO NACIONAL DA ANPOLL GT - SOCIOLINGUÍSTICA

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1 ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM LETRAS E LINGUÍSTICA - ANPOLL - XXV ENCONTRO NACIONAL DA ANPOLL GT - SOCIOLINGUÍSTICA

2 A PESQUISA ETNOGRÁFICA - Iveuta de Abreu Lopes -

3 A pesquisa etnográfica: origem: tradição antropológica de pesquisa de campo, com Bronislaw Malinowski perspectiva de investigação interpretativista - compromete-se em interpretar as ações e os significados que os agentes sociais conferem às suas ações na vida real (Erickson, 1990); segue orientações metodológicas de natureza qualitativa voltase para a compreensão e interpretação dos fenômenos sociais observados em contextos específicos de ocorrência; ênfase no escopo descritivo e na especificidade; preocupação com a amplitude da visão com ênfase no holismo e na comparação.

4 Objetivo da pesquisa etnográfica: oferecer uma descrição da forma como se constitui uma determinada sociedade e estabelecer distinções entre o que pode ser considerado regra enquanto traço da cultura, e o que não está incluído entre os fenômenos assim considerados.

5 A pesquisa etnográfica sociolinguisticamente orientada: Objetivo: documentar e analisar aspectos específicos nas práticas da fala, da maneira que estas práticas estão situadas na sociedade em que elas ocorrem. O foco, então, está nas situações sociais de uso, nos hábitos comuns e persistentes de uso, e na organização lingüística e comportamental específicas do uso em si. (Erickson, 1988). segue a orientação de Geertz ao considerar que aquilo que se vê depende do lugar em que foi visto, e das outras coisas que foram vistas ao mesmo tempo. (...) as formas do saber são sempre e inevitavelmente locais, inseparáveis de seus instrumentos e de seus invólucros. (Geertz, 1997, p. 11). forte adesão nos estudos desenvolvidos por Dell Hymes, no contexto da Etnografia da Comunicação, especialmente, na interpretação do conceito de competência comunicativa.

6 O pesquisador: observa as ações sociais no contexto das práticas sociais reais, extraindo o significado que as pessoas envolvidas nessas práticas conferem a essas ações; Leva em conta que as atitudes dos sujeitos só farão sentido se vistas como traços compartilhados de hábitos, de forma de interagir e de interpretar as ações sociais, pois são esses traços que definem um conjunto de pessoas enquanto grupo social; interage com o pesquisado de forma bastante próxima e isso proporciona reciprocidade de influências e confere à pesquisa um caráter dinâmico.

7 A construção de uma pesquisa etnográfica em comunidade: A comunidade: Vila Irmã Dulce comunidade rurbana, situada na periferia de Teresina-Pi, formada a partir da ocupação de uma propriedade particular, para assentamento de famílias sem-teto. À época do início da pesquisa a população da Vila girava em torno de vinte mil habitantes). Extensão da comunidade como atender ao holístico e ao específico, particular? Seleção de ambientes representativos da comunidade: igreja, escola, delegacia de polícia, unidade de saúde, associações de moradores para um olhar mais amplo; vinte famílias, para um olhar mais particular.

8 As perguntas que constituíram o eixo central da pesquisa de campo: 1. Que escrita circula na comunidade? 2. Que escrita circula no ambiente familiar? 3. Com que finalidade a escrita é ali utilizada? 4. Que funções têm a escrita naquela comunidade? 5. Quais os significados da escrita para a população da comunidade? 6. A quais práticas sociais intermediadas pela escrita estão expostos os agentes que fazem parte daquele contexto? 7. Que eventos de letramento são mais recorrentes no contexto familiar e fora dele? 8. De que maneira a escrita é concebida naquele contexto? 9. Qual o nível de segurança demonstrado por esses atores uma vez envolvidos em práticas sociais intermediadas pela escrita e como se comportam ao participar de eventos de letramento?

9 A coleta de dados: Realizada em visitas sistemáticas às instâncias selecionadas, por meio da combinação de diferentes métodos: observação participante entrevistas, gravações em áudio notas de campo coleta de documentos fotografias Foco de observação: eventos comunicativos (eventos de letramento)

10 Evento 1: O folheto da dengue Creusa.: Desde ontem que esse menino tá tão mole. Ele tá com febre e bota a mãozinha nos olho dizendo que dói. Graça: Tá dando mesmo essas febre. Tão dizendo que é dengue, do mosquito da água, mas aqui num tem nem essas água. Filha: Ah. Deixa eu mostrar o que entregaram pra nós na escola, ontem (...). Vamos ver. Diz aqui, olha aqui, mamãe, dor de cabeça, febre, (...) tá vendo? Creusa: Ah, então é disso mesmo. Eu tô vendo. Mas esse mosquitinho de nada. Diz aqui que ele nasce na água que tá parada. Só pode ser. Filha: Vamos ver, que aqui tá dizendo que não pode tomar todo remédio, não. P.: Não é bom a senhora levar ele logo no hospital? Graça: Sabe, mulher, é bom mesmo, depois dá um remédio que num pode e lá o doutor já diz logo o que é. Creusa: É, hoje eu dou o remédio pra febre, lá na farmácia eles sabe. Tu vai lá, minha filha, compra pra ele tomar agora de noite. Mas amanhã cedo eu vou no hospital com ele.

11 Evento 2: As promessas Teresinha: Eles (os políticos) tão todo dia na televisão só dizendo que vão fazer benfeitoria na Vila, agora eu quero só ver. Leda: Eu num acredito muito, não. Mas vamo esperar. Se num fizerem, aí a gente vai atrás. Eles num disseram, pra pegar o voto! Teresinha: É, eu que num caio mais na conversa deles. Nem o asfalto que disseram que iam botar já, já, lá na avenida. Mandaram pregar aquelas faixas pra gente acreditar, tava ali escrito e, nada! Iraci: Vocês ainda vão nessa? Nem que eles botassem o papel na minha mão eu num acreditava. Eu num sou besta! Teresinha: Vocês se lembra dos papel que eles soltavam dizendo que iam fazer tanta coisa aqui. Eu ainda até tenho uns ali guardado (levantou-se e logo retornou com um panfleto nas mãos e, em seguida, leu o texto em voz alta). Leda: Mas isso aí vai ficar só no papel. Ele só vai pisar aqui daqui a três anos, vocês vão ver. Devia era nem dizer, se num pode cumprir. Eles caçam todo jeito de enganar o povo.

12 Algumas respostas às questões de pesquisa: Categorização dos usos da escrita na comunidade: i) sociointeracionais Estabelecer e/ou manter relações de natureza afetiva ou social. ii) Instrumentais: substitutivos ou complementares à oralidade Obter e divulgar informações sobre questões que viabilizem a execução de tarefas práticas. Registrar e manter dados escritos. Auxiliar a memória. iii) Instrutivos Buscar o conhecimento necessário à tomada de atitudes diante de fatos concretos. iv) Confirmacionais Subsidiar a memória quanto à confirmação de acontecimentos do passado, compromissos assumidos para o futuro ou fatos e compromissos do presente. v) Sociopolíticos Dialogar com a comunidade.dialogar com o poder público constituído.

13 Depoimento 1. Alice: Mas toda vez que eu vou no centro, eu já vou pensando na volta, pra pegar o ônibus. Quando a gente tá na parada, lá se vem um bocado de ônibus, tudo do mesmo jeito e aquilo, aquele monte de gente faz é atrapalhar na hora de pegar. Por que tem as plaquinhas na frente mas é tudo com a mesma letrinha. Por que que num faz uma diferençazinha de cada lugar pra saber? Era na cor, no jeito das letra. Há de sempre perguntar pra uma pessoa, num dá trabalho pra se pegar um errado e ir bater lá noutro lugar. (Alice, 40 anos).

14 Depoimento 2. Ivone: Não, assim, esse negócio de cartão pra tirar o bolsa-escola é bom porque as fila são mais pequena e é até depressa. Mas quando se vai tirar, a gente pode até já ter aprendido e saber qual dos botão é de apertar, porque as palavras que sai num dá de saber, nunca se sabe o que quer dizer. Mas num sai aquele papelzim depois? Pois é. Mas, mesmo assim, eu nunca sei ver direito, as letras são miudinha e é difícil pra saber o que elas diz. Tem uns número, lá na frente as palavras. Não, se num é a moça que ajuda ou quando chega em casa que a gente vai ver direito com outra pessoa. Parece que nem é pra se saber mesmo, é só eles (...). (Ivone, 38 anos).

15 Depoimento 3. Luzia: Eu fui foi muito pra escola mas num deu pra mim não (...) num consegui nada (...) e hoje disso sou arrependida. Digo meu Deus se eu soubesse ler eu era outra pessoa porque é tão ruim a gente andar e num saber de nada. Anda como se fosse um cego, babatando (...). Agora elas (referindo-se as suas filhas) todas duas são inteligentes, sabem tudo, tudo. Agora o outro (referindo-se ao filho) puxou pra mim. Num quis estudar, ia demais pra escola, desde lá do interior que eu pelejava mas num ia. Ainda bem que ele ainda sabe botar o nome dele. Mas num sabe ler nada é cego, cego.(luzia, 46 anos).

16 Iveuta de Abreu Lopes (Universidade Estadual do Piauí - UESPI) (Universidade Federal do Piauí - UFPI)

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