Tema: Sinais de risco nas clínicas mãe-bebê Coordenadora: Sonia Pereira Pinto da Motta

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1 Mesa: Tema: Sinais de risco nas clínicas mãe-bebê Coordenadora: Sonia Pereira Pinto da Motta OS RISCOS NA CONSTITUIÇÃO PSÍQUICA Autora: CRISTINA HOYER Breve Nota Curricular da Autora - Cristina Hoyer Psicanalista, Especialista em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico- Institucional, Membro do Conselho Científico da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil (ABENEPI), Fundadora e Coordenadora Geral da Ong Projeto Espaço-Vivo, Membro Fundador da Comissão de Saúde Primária da ABENEPI, Professora-Supervisora do SPA (Serviço de Psicologia Aplicada) da UVA. Iniciaremos com a afirmativa de que a ética psicanalítica é a do sujeito e não a dos ideais científicos e sociais e, portanto, os sinais de risco na constituição psíquica que consideraremos aqui, dizem respeito ao lugar de verdade de cada um envolvido neste processo. Ao filhote humano cabe constituir-se, tornar-se sujeito do desejo, autor de sua história e de seus acasos futuros, a partir do ato de sua inscrição na cultura e de sua própria assunção: passagem de INFANS à condição de quem toma a palavra.

2 Entretanto, antes de ser capaz de tal ato, é necessário ser falicizado, adornado pela língua materna que lhe deixará marcas significantes. Desde antes mesmo de seu nascimento, a criança já é falada, imaginada, esperada em quaisquer circunstâncias, isto é, os fios do desejo inconsciente do Outro têm participação ativa e função imprescindível na montagem psíquica do pequenino; participação não na simples apetência das atenções, do contato, dos cuidados, mas sim na apetência de seu desejo. Este contexto traz em si amplas conseqüências, na medida em que os elementos fundamentais que estão em jogo, neste primeiro momento, dizem respeito às patologias no laço mãe-filho. É um tempo em que o INFANSnão tem a mínima idéia de sua existência: ele não sabe de que objeto necessita e nem sequer que necessita de um objeto. Faz-se urgência que um outro, provido de um aparato psíquico estruturado desejante - afetado pelo encontro entre a criança e aquilo que, a partir desta, se atualiza em seu inconsciente -, adote o pequeno ser. Este processo provocará efeitos e convocará a (re)atualização da engrenagem psíquica daquele tomado pelo encontro desejante com o sujeito-criança. Isto se dá de tal ordem que a realização de cada palavra, olhar, voz, toques e atos surge como resultado da passagem e da (re)elaboração das redes de sua constituição psíquica pelas representações inconscientes. Sendo assim, o Campo do Outro antecede e participa na constituição psíquica de um sujeito, que é, marcado por esta anterioridade. Caberá, portanto, ao Outro enquanto função constituinte fundamental, o ato de nomear, de incluir na rede de filiação simbólica o sujeito-criança, tornando-o, somente a partir daí, filho. Entretanto, o sujeito-filho deve encontrar uma maneira de realizar sua emergência, inscrever-se na cultura (simbólico): entrada que cada sujeito realiza na linguagem... (Lacan), ou seja, ser capaz de articular e combinar os significantes oriundos do campo do Outro.

3 Desta forma, nenhuma atividade pode ser pensada fora do campo do Outro. É sempre, necessariamente, uma situação de desejo e de seus extravios. O que está em jogo, em todos os acontecimentos na constituição psíquica de um sujeito, aponta para os processos Inconscientes e fantasmáticos como resultado de elaborações, representações e produções psíquicas do sujeitocriança e daquele que ocupa, para ele, o lugar de Outro Primordial. Com isto queremos dizer que o sujeito-criança não apenas sofre passivamente seu destino; ele, de algum modo, contribui para a sua aceitação e inserção no campo do Outro, através do que Lacan chamou - em suaconferência em Genebra (1985) - de seus balbucios 1. A maneira pela qual o Outro vai responder indica que ele também demanda alguma coisa. Estamos num momento crucial, na presença de dois elementos articulados: das necessidades à demanda da criança, e das demandas do Outro face a este filho. Podemos reconhecer sinal estruturante de circuito libidinal, circuito de trocas, com tudo o que isto implica em termos de satisfação e insatisfação, de prazer e desprazer, de doação e recusa, de alternância de presenças e ausências. A clínica psicanalítica nos ensina que uma das questões inconscientes que se apresenta como uma das mais importantes é: o que o outro quer de mim? O que minha mãe deseja? O que ela quer que eu seja para ela? O que é que, nela, deu origem à minha existência? Quem pode responder a esta demanda? Como situar este encontro, e o lugar onde teve origem a existência? Ainda assim, são exigidas que condições mínimas necessárias sejam dadas ao INFANS a fim de lhe favorecerem possibilidades para que venha a emergir-se como Sujeito do Desejo. Eis que, toda a criança deve ser o adotado de um desejo para que se torne filho, seja falado antes de falar, como se lá já estivesse. Tempo de alienação fundante necessária, onde, inscrito na série psíquica do outro, desta localização responderá. Neste primeiro momento de constituição psíquica do

4 sujeito-criança, o Outro promove, através da imagem, o seu lugar na estrutura, a unificação do seu corpo e o seu eu: antecipação subjetiva em breve começará a cantar (F. Garcia Lorca, Yerma). Esta posição de sujeito antecipado, alocado pelo nome próprio dado pelo Outro Primordial, fisga o INFANS à estrutura da linguagem que antecede sua existência real, e que lhe abre possibilidades de constituição subjetiva. Situa-se aí a estrita singularidade de cada pré-história e da história do sujeito. Todo este processo é único, de tal maneira que podemos afirmar que cada sujeito, e somente ele, se deparará com certos acontecimentos em seu percurso, na relação com o Outro e com sua constituição psíquica, que lhe serão exclusivos. Como ter notícias deste processo constitutivo? A clínica psicanalítica fundamentada em Freud e Lacan, especifica que, o que se constrói, se faz a partir do jogo de demandas, dos fantasmas que sempre acontecem entre a criança e os falasseres que a cercam. Quer dizer que o modo falasser é o de alguém que fala, um sujeito que tem inconsciente. Portanto, cabe ao psicanalista - através da escuta dos discursos, dos dizeres daquele que se apresenta como intérprete das manifestações (movimentos, choros, risos, sons, golfadas, mamadas ou não, etc) da criança, atribuindo-lhe demandas e intenções -, localizar algo que aponta para o lugar em que a criança é esperada e que ocupa no desejo deste. Épossível, ainda, ao analista, ter notícias a respeito do circuito pulsional entre eles. Ressaltamos duas circunstâncias. A primeira, quando um sujeito em seu percurso analítico dirige ao seu analista questões, entre uma delas, a sua relação com seu filho. A segunda, quando uma mãe procura um psicanalista, ou é indicada a um, demandando um saber do que possa estar ocorrendo com seu filho-bebê, que encontra-se ainda nos tempos de constituição mas que, no entanto, já apresenta determinados sintomas. Frente a esta última situação, o que cabe à psicanálise?

5 A partir de uma posição de escuta, de destinatário de uma demanda, cabe ao psicanalista criar condições transferenciais que favoreçam uma circulação de palavras que permitam um espaço onde se possa construir, entre o outro e a criança, novas vias de articulação entre demanda e desejo, reordenando e organizando seus elementos imaginários e simbólicos. Na fala dos outros parentais, fundamentalmente daquele que toma para si o INFANS, verificamos que a psicopatologia do bebê dá sinais através daquilo que dispõe para tal: seu corpo. Corpo este ainda em construção significante, mas que, no entanto, já apresenta expressões somáticas importantes, e que - apesar de por si só não serem preditivas, são somente indicativas-, ganham expressão clínica de acordo com outros sinais que se apresentam, tanto do lado da criança quanto no de sua mãe. Em nossa práxis, ao longo de mais de 10 anos escolhendo admitir em nosso consultório demandas de verificação do que possa estar ocorrendo com o bebê e/ou o bebê e sua mãe, constatamos que sinais, ditos como estranhamento, são trazidos nem sempre pelo outro parental, mas sim, muitas vezes, por aquele que indica (pediatra, avós, amigos, etc). Os sinais mais freqüentes trazidos, têm sido: - alterações no ganho de peso; - ausência de balbucio e vocalizações; - alterações de tônus; - evitação do olhar e da voz (principalmente da mãe); - episódios intensos recorrentes (otite, pneumonia, febre, refluxo); - choro inconsolável ou ausência de choro; - alteração do ritmo circadiano; - olhar fixo (teto, fonte luminosa, objeto; - não se acomodar ao colo; - enorme reatividade aos sons; - indiferença aos contatos sociais;

6 - não responder ao chamamento pelo nome; - reação intensa ao afastamento do outro - entre outros. Tem-nos sido possível verificar e acompanhar vários casos, ao longo desses anos, que ao ser dado lugar de fala àquele que ocupa função de suporte simbólico para o sujeito-criança, a escuta psicanalítica pôde intervir, em algum momento, naquilo que desfavorecia e, até mesmo, impedia a circulação de demanda e desejo entre eles, - circulação esta que favorece a estruturação subjetiva - Com isto, surgindo uma outra possibilidade REFERÊNCIAS BALBO. G. & BERGÉS,J. A Criança e a Psicanálise. Porto Alegre: Artes Médicas, 1977 LACAN,J. (1985). Conférence de Genève sur le Symptôme, Le Bloc- Notes de la Psychanalyse, n o. 5, (1969). Dos Notas sobre el Nino. In: Intervenciones y Textos2. Buenos Aires: Manantial, O Seminário, Livro 2: O Eu na Teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.( ). O Seminário, Livro 5: As Formações do Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999

7 .( ). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998 QUINET, A. A Descoberta do Inconsciente: do desejo ao sintoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

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