Organizações portuguesas lançam rede temática para a soberania e segurança alimentar

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1 Rede Portuguesa pela Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional Organizações portuguesas lançam rede temática para a soberania e segurança alimentar Coimbra, 16 de Abril de 2012 Preocupados com as políticas que impactam negativamente na soberania e segurança alimentar e nutricional em Portugal e no mundo, organizações da sociedade civil portuguesa apresentam amanhã, dia Internacional da Luta Camponesa, em Coimbra, a REALIMENTAR. Trata-se de uma iniciativa da ACTUAR - Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento, ACOP - Associação de Consumidores de Portugal, Associação Saúde em Português, APT - Associação dos Pastores Transmontanos, CNA - Confederação Nacional da Agricultura, Federação dos Sindicatos do Sector da Pesca, IMVF - Instituto Marquês de Valle Flor, MARP - Associação das Mulheres Agricultoras e Rurais Portuguesas e OIKOS Cooperação e Desenvolvimento, organizações que vêm trabalhando estes temas e reivindicando uma alteração de políticas que salvaguardem o direito à alimentação e promovam a segurança alimentar e nutricional, sustentadas no conceito de Soberania Alimentar. As aspirações, necessidades e modos de vida da maioria daqueles que produzem, distribuem e consomem os alimentos não têm estado no centro das políticas agrícolas, alimentares e comerciais. Estes problemas são também evidentes em Portugal, onde cada vez mais famílias se vêem em situações de pobreza e precariedade, com destaque para o meio rural. Os efeitos mais negativos do actual modelo de desenvolvimento repercutem-se de forma mais significativa nos grupos mais fragilizados, nomeadamente nas mulheres, jovens, idosos e trabalhadores emigrantes. Em face da falência deste paradigma de desenvolvimento, é necessário uma inversão de políticas 1

2 agrícolas, alimentares e comerciais em Portugal, na Europa e no Mundo que contrarie esta tendência. Face à necessidade de uma mobilização e intervenção social mais activa nestes temas, é criada a REALIMENTAR - Rede Portuguesa para a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, a qual se pretende constituir num espaço de diálogo, debate, articulação de esforços, recursos e iniciativas para a intervenção nos processos de formulação e tomada de decisão sobre políticas públicas nacionais e internacionais que digam respeito à Soberania e Segurança Alimentar. A REALIMENTAR convida todos os actores sociais que se revejam nos seus princípios a aderir a esta iniciativa. Para marcar o lançamento público desta rede será realizada uma acção de rua junto ao Mercado D. Pedro V, em Coimbra, no dia 17 de Abril, entre as 11:30H 12:30H. Notas aos Editores: [1] A alimentação é uma condição indispensável à vida e constitui um direito humano consagrado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e protegido internacionalmente pelo Pacto Internacional dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais (PIDESC). A REALIMENTAR defende por isso o princípio do direito de todos a uma alimentação saudável, acessível, de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente, com base em práticas alimentares promotoras de saúde e culturalmente aceites. [2] Os alimentos não são mercadorias e por isso os povos têm o direito a decidir e a gerir os seus próprios sistemas agrícolas e alimentares. Os países devem proteger os seus produtos e produtores e não subjugá-los à lógica dos mercados. A REALIMENTAR defende por isso o princípio da Soberania Alimentar com base numa agricultura e comércio sustentáveis que não comprometam o acesso a outras necessidades essenciais e o sistema alimentar futuro. [3] A fome e a insegurança alimentar e nutricional são tanto uma causa como uma consequência da pobreza. A luta contra a fome e a promoção da segurança alimentar e nutricional implicam uma acção coerente e coordenada de todos (governo e sociedade civil) e nos seus diferentes níveis (nacional, regional, global). A REALIMENTAR defende por isso que a Segurança Alimentar e Nutricional deve ser colocada como eixo estratégico de desenvolvimento dos países. [4] Ao longo da última década, todos os países da CPLP avançaram com a formulação de políticas nacionais de segurança alimentar e nutricional. Portugal é a única excepção. A nível regional, também a CPLP aprovou em 2011 a sua Estratégia Regional de Segurança Alimentar e Nutricional. [5] Os princípios políticos defendidos pela REALIMENTAR constam da sua Carta de Princípios (Anexo 1) [6] Comemora-se, dia 17 de Abril, o Dia Internacional da Luta Camponesa. A tomada de posição da REALIMENTAR nesta importante data consta do Anexo 2. Contactos para Entrevistas: João Pinto ACTUAR Mobile: José Miguel CNA Mobile: Pedro Krupenski OIKOS Mobile:

3 ANEXO 1 Carta de Princípios A REALIMENTAR - Rede Portuguesa pela Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional é uma iniciativa da sociedade civil e constitui um espaço de diálogo, debate, de articulação de esforços, recursos e acções para a intervenção nos processos de formulação e tomada de decisão sobre políticas públicas nacionais e internacionais relacionadas com a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e o Direito Humano à Alimentação que se sustenta nos seguintes princípios: 1. O princípio do direito de todos a uma alimentação saudável, acessível, de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente, com base em práticas alimentares promotoras de saúde e culturalmente aceites; 2. O princípio do direito dos povos a decidirem e a gerirem os seus próprios sistemas agrícolas e alimentares; 3. O princípio do direito dos países a protegerem os seus produtos e produtores e de controlar a sua produção de alimentos; 4. O princípio da necessidade de uma agricultura e comércio sustentáveis que não comprometam o acesso a outras necessidades essenciais e o sistema alimentar futuro; 5. O princípio do uso e gestão da terra, territórios, água, sementes, animais e biodiversidade nas mãos e ao serviço das comunidades locais; 6. O princípio de uma alimentação base dos povos sustentada na produção e no consumo local de alimentos; 7. O princípio da promoção e defesa da igualdade de género, centrada na valorização e reconhecimento do papel preponderante da mulher no que se refere à alimentação e seu contributo para a garantia da soberania alimentar das comunidades locais; 8. O princípio do reconhecimento da reciprocidade entre saúde e nutrição, assumindo a importância do acesso universal aos cuidados de saúde primários para a promoção da segurança alimentar e nutricional; 9. O princípio da rejeição da substituição da produção de alimentos básicos locais por produções para exportação e dos circuitos curtos e directos de comercialização por circuitos de comercialização de longa distância; 10. O princípio da eliminação de qualquer tipo de dumping seja ele financeiro, social ou ecológico; 11. O princípio da necessidade da existência de instrumentos públicos fortes de regulação do mercado e da produção; 12. O princípio da consagração de políticas que atribuam, à agricultura familiar, a importância devida do ponto de vista económico, social e ambiental e que reponham preços à produção que travem a sua destruição; 13. O princípio da consagração de políticas que garantam condições de vida dignas aos pequenos pescadores e pescadores artesanais, nomeadamente no que respeita aos direitos sociais, acesso aos recursos piscícolas e reconhecimento das suas especificidades; 14. O princípio da defesa e promoção da floresta e recursos florestais, reconhecendo a importância do uso sustentável dos seus produtos e serviços energia, alimentos, saúde, rendimento, entre outros para a segurança alimentar e nutricional de populações tradicionais extractivistas; 3

4 15. O princípio da promoção de políticas de consagração do comércio tradicional e dos mercados locais e regionais como actividades estratégicas; 16. O princípio da rejeição do patenteamento de seres vivos e da utilização de organismos geneticamente modificados; 17. O princípio da rejeição de culturas dedicadas para a produção de agro combustíveis e de outras que coloque em causa a segurança alimentar; 18. O princípio da necessidade de uma justa distribuição da riqueza produzida inerente ao valor acrescentado introduzido pelos diversos agentes da cadeia alimentar; 19. O princípio da garantia do acesso aos alimentos (em termos físicos e económicos), designadamente através de redes de segurança que promovam a inclusão social dos grupos vulneráveis; 20. O princípio da salvaguarda da segurança dos alimentos (food safety), garantindo a sua nãocontaminação (física, química, biológica, incluindo livre de transgénicos) e a sua qualidade (nutricional e sanitária) e impedindo a sua adulteração e/ou más práticas de higiene nas diferentes etapas da cadeia alimentar, assegurando ainda informação adequada ao consumidor; 21. O princípio da rejeição de todos os mecanismos que possibilitem a especulação sobre os bens alimentares de que são exemplo os mercados de futuros; 22. O princípio da necessidade de sedimentar outra governança alimentar mundial centrada no Comité Mundial de Segurança Alimentar das Nações Unidas. Com base nestes princípios convocamos os diferentes actores sociais a unir esforços em direcção à plena realização, em Portugal e no mundo, de políticas que promovam a soberania e segurança alimentar e nutricional e garantam o Direito Humano à Alimentação. 4

5 ANEXO 2 Dia Internacional da Luta Camponesa: Tomada de Posição Rede Portuguesa para a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional DIA INTERNACIONAL DA LUTA CAMPONESA - Tomada de Posição - Por altura da comemoração do Dia Internacional da Luta Camponesa a REALIMENTAR torna público que: 1) As aspirações, necessidades e formas de vida da maioria daqueles que produzem, distribuem e consomem os alimentos não têm estado no centro das políticas agrícolas, alimentares e comerciais; 2) A liberalização do comércio mundial tem promovido o dumping financeiro, principalmente da Europa e EUA para os chamados países em vias de desenvolvimento, e o dumping social e ecológico desses países para os ditos desenvolvidos; 3) A destruição dos principais instrumentos de regulação pública do comércio e da produção, juntamente com a crise financeira de 2007 e a existência de mercados de futuros, possibilitou a especulação sobre os bens alimentares e a volatilidade dos seus preços nos mercados mundiais a níveis nunca antes visto; 4) A eliminação das barreiras aduaneiras, entre outras, através dos tratados bilaterais e multilaterais de livre comércio, tem promovido as produções para exportação em detrimento da produção de alimentos básicos locais e promovido os circuitos de comercialização de longa distância em detrimento dos circuitos curtos e directos de comercialização, resultando tudo isto numa deslocalização da produção e do consumo; 5) A deslocalização da produção e do consumo tem tornado as populações mais vulneráveis à especulação, flutuações dos preços e escassez temporária de alimentos nos mercados internacionais; 6) Os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, nomeadamente o de reduzir a metade a pobreza extrema e a fome no mundo até 2015, não passa hoje de uma miragem, uma vez que o número de pessoas que sofrem de fome no mundo não tem parado de crescer chegando hoje ao valor histórico de mil milhões; 7) O dumping em todas as suas formas, a especulação e a ausência de mecanismos de protecção tem levado à degradação dos preços na produção, principalmente na pequena e média agricultura; 8) O desaparecimento de milhares de pequenas explorações familiares por todo o mundo (Só na Europa desapareceu uma exploração a cada minuto durante estes últimos 25 anos) tem levado à pobreza milhares de pessoas impossibilitadas que foram de continuar a retirar o seu rendimento da actividade agrícola; 5

6 9) Segundo a FAO, actualmente, dos cerca de mil milhões de pessoas que sofrem de fome no mundo, 50% são agricultores de pequena escala, 20% são trabalhadores agrícolas, 10% são pastores, pescadores artesanais e outros que dependem do acesso aos recursos naturais para subsistir; 10) Apesar da crise alimentar ocorrida em 2007/2008, que demonstrou a falência do actual modelo de desenvolvimento económico e social, e da volatilidade dos preços que passado quase 4 anos continua a ocorrer, não se vislumbra uma inversão nas políticas de liberalização do comércio; 11) A substituição em grande escala de culturas alimentares por culturas com outros destinos, nomeadamente para agrocombustíveis, para além de não ser ambientalmente defensável, tem causado problemas ao nível das disponibilidades alimentares; 12) São muitas as variedades, espécies e sistemas de produção tradicionais que estão a desaparecer em todo o mundo para dar origem a produções fortemente intensivas, ao que a FAO designa de perda da agrobiodiversidade; 13) À perda de agrobiodiversidade acresce ainda a perda da biodiversidade gastronómica com a massificação da alimentação mundial, não em termos do seu acesso, mas em termos da uniformização dos alimentos base que a constituem; 14) Cresce a apropriação dos recursos naturais, como seja a terra e a água, estimando a FAO que só em África, nos últimos três anos, foram adquiridos 20 milhões de hectares por investidores estrangeiros; 15) Continua a existir uma ausência grave no seio do debate em torno das alterações climáticas que está relacionada com o impacto dos acordos de livre comércio e da consequente deslocalização do consumo, nomeadamente na emissão de gases com efeito de estufa à escala global; 16) Os efeitos mais negativos do modelo actual de desenvolvimento repercutem-se de uma forma mais significativa nos grupos mais fragilizados, nomeadamente nas mulheres, jovens, idosos e trabalhadores emigrantes, entre outros. Em face deste contexto, a REALIMENTAR defende uma alteração de políticas em Portugal e no mundo baseadas na Soberania Alimentar e que salvaguardem o Direito à Alimentação. Coimbra, 17 de Abril de 2012 A Comissão de Coordenação da REALIMENTAR 6

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